Charles Bukowski - The man with the beautiful eyes

Um post tardio ou o primeiro do dia


Acabei de chegar do cinema. Fui ver o último do Tom Hanks. Gostei. Uma comédia romântica à boa maneira das comédias românticas. Uma pessoa vê a Julia Roberts e pensa que os anos não passam por ela. Mas basta rever o Pretty Woman e pensamos logo de maneira diferente. Antes de ir ao cinema fui a uma livraria. Trouxe o meu primeiro D.H. Lawrence e o meu quinto Knut Hamsun. Do primeiro: Lady Chatterley's Lover. Do segundo: Growth of the Soil. Enquanto a Cavalo de Ferro não aparece com mais nenhum de Hamsun, eu lá me vou entretendo com as traduções inglesas, pois ainda não domino o norueguês. O livro de Lawrence prendeu-me pela primeira frase. É claro que já a tinha lido em português, nessa bonita edição da Relógio D'Água: «Ours is essentially a tragic age, so we refuse to take it tragically.». E por aí em diante. É, sem dúvida, uma grande primeira frase. Uma boa maneira de começar um livro. A primeira frase de Hamsun também não é má: «The long, long road over the moors and up into the forest — who trod it into being first of all?». 

Vonnegut, Mailer, Corso


Mais ou menos há um ano estava eu a meio da tradução daquela que é, para o bem ou para o mal, a primeira tradução em Portugal desse grande romance que é Ham on Rye. Charles Bukowski ainda é um autor pouco conhecido neste país. A crítica passou ao lado. Foram poucos aqueles a escrever sobre o livro. Sobre a tradução. Este texto é o único que deu ao livro a atenção que ele merece.  Bukowski tem de ser mais lido. O pior é que há mais como ele. Lembro apenas três: Kurt Vonnegut, Norman Mailer e Gregory Corso. Para mim  a poesia de Corso é a mais representativa de toda a geração beat. Eu sei que existe Ginsberg. Mas este é mais "universal", intelectual. Corso é mais beat, para o bem e para o mal. 

Diálogos (6)



LANCE: Still got your Malibu?
VINCENT: You know what some fucker did to it the other day?
LANCE: What?
VINCENT: Fuckin' keyed it.
LANCE: Oh man, that's fucked up.
VINCENT: Tell me about it.  I had the goddamn thing in storage three years. It's out five fuckin' days, and some dickless piece of shit fucks with it.
LANCE: They should be fuckin' killed. No trial, no jury, straight to execution.


em Pulp Fiction de Quentin Tarantino (1994)

Risco


Quando era mais novo lembro-me de ir roubar fruta. Sim, saíamos à noite ou em plena luz do dia e íamos roubar fruta. Morangos, cerejas, framboesas, nêsperas. Mas mais morangos e cerejas. Mas nunca estragávamos nada. Era a única coisa que fazíamos. Roubar fruta. Nunca vandalizámos nada. Nunca me lembro de destruir propriedade alheia. Nada de partir vidros. Nada de riscar carros. Hoje, de manhã, quando cheguei junto ao meu carro encontrei um grande risco nele. Olhei para o carro da Carla. Um grande risco também. O do vizinho, idem. O do outro vizinho, aspas. Todos os carros daquele lado da rua foram riscados. Senti-me revoltado. A sério que senti. Custou-me juntar dinheiro para comprar o carro que tenho hoje. Andei nove anos a economizar para o poder comprar. Custou-me ver o carro riscado. A sério que custou.

Strange Powers: Stephin Merritt and The Magnetic Fields

Onze anos e onze contratos


Se tudo correr bem, em Setembro celebro com o Ministério da Educação o meu décimo primeiro contrato de trabalho. Significa isso que sou professor (ou, como dizia o Senhor Engenheiro José Sócrates: pessoa habilitada para exercer o cargo de professor: pois no entendimento do Senhor Engenheiro José Sócrates só é professor quem está integrado na carreira e eu ainda não estou) há onze anos. Em onze anos foram dez escolas: Pampilhosa da Serra (2001-2002), Tábua (2002-2003), Silves (2003-2004), Miranda do Corvo (2004-2005), Caxias (2005-2006), Figueira da Foz (2006-2007), Benedita (2007-2008), Alapraia (Setembro de 2008-Novembro de 2008), São Teotónio (Novembro de 2008-2009) e Coruche (2009-presente). Não me estou a queixar com o número excessivo de contratos. Sei muito bem que há quem passe onze ou mais anos a recibos verdes. Durante estes anos todos foram vários os Ministros da Educação e as políticas educativas. Disse, anteriormente, que não me estava a queixar. Mas, vou queixar-me. Mais uma vez – e sem qualquer admiração – os contratados são relegados para último lugar. Explico: mais uma vez o Ministério da Educação e a Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação (pelo Ministério tutelada), não informam os contratados quanto às datas de concurso para manifestação de preferências. É o dia 28 de Julho. Segundo informação disponível pelo Sindicato dos Professores do Norte, de 1 a 5 de Agosto será o prazo de candidatura e manifestação de preferências DACL (prazo definido a 27 de Julho).Assim, os professores contratados só terão oportunidade de manifestar as suas preferências, isto é, concorrer, depois do dia 5 de Agosto (na melhor das hipóteses). A maior parte dos professores contratados já se encontra de férias. Talvez alguns queiram ir para algum lado passar as suas férias. Só que sem datas de concursos é um pouco difícil. Não entendo a razão de tratarem as pessoas (sim, estamos a falar de pessoas) assim. E também sei que há quem esteja bem pior do que eu. Caramba! Onze anos e sempre a mesma coisa, começa a saturar! Sim, também sei que tenho bom remédio: deixar de ser professor e dar o lugar a outro.

Bukowski é que sabia



Get a poem accepted and chances are it will come out 2 to 5 years later, a 50-50 shot it will never appear, or exact lines of it will later appear, word for word, in some famous poet’s work, and then you know the world ain’t much.

em Notes of a Dirty Old Man, London: Virgin Books, 2008, p. 6 ( da introdução).

Há mais de três anos que enviei uns quantos poemas para serem publicados em algumas revistas. Até agora, nada. Não sei se os mesmos foram publicados ou não. Se é o meu nome que os assina. Nada. Há um ano fui convidado a enviar a minha colaboração para outra revista. Não houve qualquer promessa de publicação. Foram honestos, disseram que os poemas seriam lidos pelo Conselho Editorial da revista. Gosto quando assim é. Quando há um Conselho Editorial que avalia os poemas e os publica ou não. Enviei-os. Passado um ano já saíram dois números da dita revista. É claro que os meus poemas não saíram. Mas da mesma maneira que agradeceram o envio da minha colaboração, sempre pensei que me enviavam um e-mail a dizer que os poemas tinham sido recusados. Ou não. Penso que é o mínimo.

Durrell



Depois do almoço lá saí. O ar quente mal abri a porta. Rumei ao centro comercial mais perto, essa maravilha do submundo (penso que foi Pedro Mexia que assim os caracterizou num dos seus poemas, salvo-erro). Passei os olhos pelas montras. Entrei num livraria. Ia à procura de D.H. Lawrence. Tropecei em Lawrence Durrell. Ainda não terminei de ler Justine (Sade) e já iniciei Justine (Durrell). Encontrei o Quarteto a 25 euros. Não consegui resistir. Conheci o nome de Durrell através de Henry Miller. Eram amigos. Durrell mais velho do que Miller. É claro que isso não significa nada. Tenho muitos amigos mais velhos do que eu. A única coisa que li de Durrell foi uma entrevista na Paris Review. Espero ler o Quarteto durante este Verão. Entremeado com alguma poesia. Digo espero pelo simples facto de existirem sempre outros livros que se atravessam no caminho.

Um poema de Pedro de Melo Fonseca



Aquiles junto do fosso à nossa frente


3.

É preciso atiçar
os cães
contra a noite.

Devolver a mão
ao verso

que a escreve.


em Piolho – Revista de Poesia, Porto: Edições Mortas/Black Son Editores, número 004, Março de 2011, p.20.

Lí por aí


«Amy Winehouse morreu sem surpresa mas não sem choque, e muitos dos que a tinham como um boneco de bêbeda drogadita agora vêem ali uma mártir. Quero acreditar que se ela visse o que se vai passar nos próximos tempos em redor do "mito" talvez tivesse tido um pouco mais de cuidado. Muitos dos que vão ganhar dinheiro com a sua morte são os mesmos que a obrigavam a dar concertos a agarrar-se às paredes. Andam por aí desde os tempos do Jimi Hendrix.»


Pedro Góis Nogueira em Desertações

Café


Consegui estar dez dias sem beber café. Uma vez consegui estar três meses. Não quis repetir a dose. Dez dias sem café devido a uma gastrite. Um colega diz bebes muito café, pá. Eu digo-lhe que já bebi mais do que agora. E é verdade. Depois acalmei. Como é costume dizer. Gostava de estar mais tempo sem beber café. Mas não consigo. Durante os primeiros dias tive dores de cabeça. Depois veio a moleza. E quando estava a ficar melhor: bebi café. 

Casa


Uma casa não é só uma casa. É um lugar onde o corpo se ajeita. Onde a luz entra pelas janelas e alonga as sombras.

Um poema de Salvatore Quasimodo



E de repente anoitece


Todos estamos sós no coração da terra
trespassado por um raio de sol;
e de repente anoitece.




em Mesa de Amigos, versões de poesia por Pedro da Silveira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, pp. 221.

Ulisses vs Ciclope


O dia começou com uma ida às Finanças. Preparei-me como Ulisses para enfrentar o Ciclope. Cheguei. Tirei a respectiva senha. Disseram-me que tinha de ir para a tesouraria e tirar a senha do IRS ou IRC. Chegado à Tesouraria disseram-me que a senha não era aquela, mas sim outra. No entanto, fizeram a alteração no sistema e não foi necessário tirar outra senha. Até que correu tudo bem. E regressei a Ítaca.

Bicho-do-mato

Cada vez me sinto mais um ser muito pouco social. Cada vez mais gosto de estar em casa.

Um conselho

Nunca tentem lavar um terraço com catorze metros quadrados, sem a ajuda de uma mangueira.

Um poema de Reinaldo Ferreira


Receita para fazer um herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intesa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

em Um Voo Cego a Nada (1960), retirado de  Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Réis-Sá e Rui Lage, Porto: Porto Editora, 1ª edição, 2009, p.1415.

Soma e segue

Ultrapassada ontem a idade de Cristo. A partir de hoje é só somar.

Trilhos


O sol toldou-se e não deu para ir ao rio. Não sei de onde vieram as nuvens. E nem falo do vento. Saí de calções e sweat-shirt. As pernas arrepiaram-se. Nem pareço um homem-das-montanhas. Mas, mesmo assim, consegui ler uns versos de Kavafis. Na esplanada de sempre. A vila com pouca gente. Franceses de França (não franceses de Portugal), vi alguns. Mochila às costas e mapa nas mãos. Percorrem os trilhos que por aí há.

Kavafis

Dentro de momentos vou até Manteigas. Penso que é a primeira vez que vou para Manteigas num Domingo. Costuma ser o contrário: parto de lá ao Domingo. Regressar num dia que é suposto partir é um pouco estranho. Dou-me bem com coisas estranhas. Desde que não sejam muito. Como também me dou bem com a poesia de Kavafis. Levo-a. Pode ser que amanhã dê para ler alguns dos seus versos junto ao rio. Se estiver bom tempo ainda arrisco outro mergulho:


Não me manietei. Dei-me totalmente e fui.
Ao deleites, que metade reais,
metade volantes dentro da minha cabeça estavam,
fui para dentro da noite iluminada.
E bebi dos vinhos fortes, tal
como bebem os denodados do prazer.*


* Konstandinos Kavafis, «Fui», em Poemas e Prosas, tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio D'Água, 1994, p.51.

Livrododia


A Livrododia tem novo site. Podem encontrar lá o Mapa e um vídeo onde eu tento ler um poema meu.

Rimbaud, Sade, Dagerman


Passei toda a tarde em casa. Aproveitei para ler. Depois estive a olhar para o tecto. Pensei: vou escrever um texto sobre Rimbaud, Sade e Dagerman, uma espécie de ensaio em que cruzo a vida destes três autores e tal e será muito académico e tal. É claro que não demorei muito tempo a desistir da ideia. Como é possível perder tempo a pensar nestas coisas? Mas a tarde lá foi passando. E até que não se esteve mal.

Jorge Fallorca

A questão não consiste em estarmos bem com o mundo, mas em o mundo permitir que nos possamos sentir aceitavelmente bem connosco.


em Nem Sempre a Lápis, Lisboa: Tea For One, Colecção Matéria Mínima, nº7, 2011, p. 20.

Uma imagem para o dia

Justine


Hoje não faço a mala. Fico por casa. Só vou amanhã embora. Ao fim do dia. Hoje, fico por cá. Passearei os olhos pela televisão ou por um livro qualquer. Aposto que será pela televisão. Paciência para os livros é pouca. Embora ande a ler Justine. Fico com a sensação que é um livro para se ler de uma só vez. Mas há sempre qualquer coisa que se intromete. Lá vou lendo. Disse a mim próprio que teria de ler cinquenta páginas de cada vez. E assim tenho feito. Leio cinquenta páginas sem interrupções. Consigo fazê-lo sem que nada se intrometa. Mas hoje: televisão.

Pesquisas

Alguém chegou aqui à procura de fotos das menina da inferno coral nua.

Uma imagem para o dia

Um poema de Arthur Rimbaud


A Minha Boémia

(devaneio)

Ia por aí fora com os punhos nos meus bolsos rotos:
O meu casaco havia-se tornado igualmente virtual:
Ia ao deus-dará, Musa!, e seria teu fiel leal;
Oh! lá lá!, com que amores esplêndidos terei sonhado!

Nas minhas calças, era visível um enorme buraco.
— Polegarzinho sonhador, no meu périplo recitava
Rimas. Sito o meu poiso, na Ursa Maior. — No céu,
As minhas estrelas tinham um doce sussurrar de seda.

E ficava-me a ouvi-las, à beira da estrada,
Nas belas noites de Setembro em que eu sentia
Gotas de orvalho sobre a testa, como um elixir de vida;

Onde, rimando no meio das sombras fantásticas,
Eu, dos méis sapatos feridos esticava os elásticos
Como liras —, com um pé perto do meu coração.

em O Rapaz Raro – iluminações e poemas, tradução de Maria Gabriela Llansol, Lisboa: Relógio D’Água, 1998, p.181.

Rimbaud


Às vezes regresso a Rimbaud. Comprei o primeiro livro em 1999. Dia 11 de Janeiro. Nessa altura ainda assinava os livros e datava-os. Agora não. Uma outra vez comprei uma biografia sua. Em Londres (2004). Fica sempre bem dizer que se comprou algo em Londres. Era Fevereiro. Comecei a lê-la no metro. Mind the gap. Estive para comprar as cartas trocadas entre ele e Verlaine. Este último li-o mais cedo. Em 1994 já tinha lido os Poemas Saturnianos e Sageza. Foi através de Verlaine é que cheguei a Rimbaud. Tinha lido, algures, que foram amantes. É quase sempre assim. Comigo. Um autor leva-me a outro. Às vezes regresso a Rimbaud. Leio um ou outro verso. Raramente um poema completo. Uma frase das suas Iluminações. Não gosto, por exemplo, de algumas das traduções de Llansol para O Rapaz Raro (Relógio D´Água, 1998). Eu não faria melhor. Eu sei. Mas o meu francês ainda dá para tentar uma ou outra versão minha. Deixo-as na gaveta.

Temos pena


A partir de hoje os comentários, aos poemas de outros autores (aqui divulgados), passarão a ser moderados.

Um poema de Rui Caeiro


Um corpo que se agarra a outro
e ora o acaricia ora o penetra

E nem o tecto lhes cai em cima
nem eles foram pelo chão abaixo

É a vantagem que há em
laborar no centro da terra


em O Quarto Azul e outros poemas, Lisboa: Letra Livre, Colecção Eros Ortográficos, 2011, p. 40.

O Quarto Azul e outros poemas - Rui Caeiro

Rui Caeiro
O Quarto Azul e outros poemas
Letra Livre
2011

Garrote


Voltei a esta terra onde o calor aperta como um garrote. Hoje num almoço com colegas da escola alguém disse a verdade é que já nos conhecemos há dois anos. Houve uma espécie de silêncio. Sim. Dois anos numa terra onde o calor aperta como um garrote.

Pesquisas


Chegaram aqui à procura da tradição alemã se pendurar meias nos estendais em julho. Sinceramente, não sei o que encontraram.

Rio (3)


Começo a deixar Manteigas com o sentimento de dever cumprido. O regresso é sempre um regresso e lá foi escrito algures que não se deve regressar a um lugar onde se foi feliz. Não vou dizer se concordo ou não. Mas a sensação de dever cumprido começa a invadir-me. O rio ao fundo.

Um poema de Alberto Caeiro

XIII

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.


em Poemas de Alberto Caeiro, introdução, organização e biobibliografia de António Quadros, Lisboa: Europa-América, colecção Livros de Bolso, 4ª edição, 1995, p. 109.

Hoje

 
 
Lançamento do livro "Nem Sempre a Lápis", de Jorge Fallorca: Bar Bartleby (R. Imprensa Nacional, 116b, cave do restaurante BS, Lisboa), sábado, dia 2 de Julho, pelas 22h. Ilustrações de Luis Manuel Gaspar. Apresentação por Golgona Anghel.

Rio (2)


Hesitei. Lá mergulhei. A água fria. Subir para respirar. Tentei mais umas braçadas. A água fria. «Vai outro mergulho?». Fica para a próxima. Não quero sentir, de uma só vez, que envelheci.

Rio


Vim até Manteigas. Ontem não deu para ir à Guarda ver os Nihil Aut Mors e os Pop Dell'Arte. Vim com o propósito de estar com os meus pais, de rever amigos. Agora preparo-me para ir comprar o jornal ao lugar de sempre. À tarde quero ir dar um mergulho no rio. Há muito que não dou um mergulho no rio. É claro que o rio já não é o mesmo. Nada já é o mesmo.

Um poema de José Blanc de Portugal


Uma Grega no «Bierklaus»

A moça sem par tem um nariz grego
que Praxíteles por certo invejaria ter esculpido
Dança de olhos no vago sem par
O ritmo é certo, vivo, mas tão nobre
que susta o da orquestra atroadora
não por certo as seus ouvidos embora distantes
As ondas do sem mar-corpo são as de um mar distante
oceanos estão só no seu olhar
Seu corpo apenas mar!
Alguém chega
A moça continua ímpar
Mas agora
tem par
Só o nariz grego e o distante olhar
continuam
sem par.

em Descompasso, Lisboa: Moraes Editores, Círculo de Poesia - nova série, 1ª edição, 1986,  p. 38.

Hoje

É assim

Há muito que não me calhava uma coisa destas. Desta vez, a convite do Paulo.

1.Existe um livro que relerias várias vezes?
Existe. A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque. Já vai em três.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim. Ulisses, de James Joyce.

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Moby Dick.

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, de Yukio Mishima.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Não tinha.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Nunca li um livro até ao fim que considerei chato.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Vou antes citar autores: Céline, Charles Bukowski, Franz Kafka, Yukio Mishima, Thomas Bernhard, Vergílio Ferreira, Nuno Bragança, Carlos de Oliveira, Kurt Vonnegut, George Orwell, Albert Camus, William Carlos Williams, J.D. Salinger, Norman Mailer.

9. Que livro estás a ler?
Nada. Pausa.

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Passo.