Nem Sempre a Lápis - Jorge Fallorca

Jorge Fallorca
Nem Sempre a Lápis
Tea For One
2011

Lançamento do livro "Nem Sempre a Lápis", de Jorge Fallorca: Bar Bartleby (R. Imprensa Nacional, 116b, cave do restaurante BS, Lisboa), sábado, dia 2 de Julho, pelas 22h. Ilustrações de Luis Manuel Gaspar. Apresentação por Golgona Anghel.


Estados Filosóficos (36)


Às vezes penso nas coisas como elas são. E os dias tornam-se pesados.

Pensamento do dia


dEUS
Suds & Soda
Worst Case Scenario
1994

Ensino Recorrente

Mitigar


Poderia começar por dizer que toda a minha vida, aquela que vivi nestes trinta e três anos, me passou ao lado. Não estaria a ser honesto e tenho que pensar que Fernando Pessoa já o vez uma vez, muito melhor do que qualquer um de nós alguma vez o fará. Podemos dizer que os dias estão demasiado quentes para pensar, que a vida não presta, que o banquete prometido nunca será devidamente apreciado, consumado. Na realidade, quem é que nos prometeu esse banquete? Os deuses? Sabemos já que estão mortos e enterrados, que nada deles sobrou. Por isso: qual a razão do nosso queixume? E nem vou aqui cair no cinismo ou hipocrisia de dizer que todos aqueles que estão no Darfur estão pior do que nós. Isso, às vezes, não é consolo. Ou será? Será por saber que a esta hora há milhares a morrer em todo o mundo, e que eu estou aqui a escrever isto, que a minha “angústia” é mitigada? Como pode a morte de seres humanos, seres iguais a mim, mitigar o que quer que seja? Como pode o sofrimento de outro mitigar o meu?

Das fotos (12)


Sem título (12)
© manuel a. domingos, 2009
(clicar na imagem para aumentar)

Horror ou breve estudo sobre a paralisia


Até que podia falar de uma peça de teatro que fui ver mas que não vi até ao fim, saí passados 40 minutos. A peça tinha 1h e qualquer coisa. Tem por título Horror ou breve estudo sobre a paralisia, e é "um dos projectos seleccionados da 3.ª edição do Ciclo Emergentes, uma iniciativa que pretende valorizar uma nova geração no teatro, numa lógica experimental e de vanguarda." Se a vanguarda é criar frases como, por exemplo (e cito de memória), "não quero ter uma família numerosa para ter uma equipa de futebol mas para combater a estupidez", ou outra como "somos merda" (em letras gigantes), ou para dizer "fodas" a torto e a direito (não tenho qualquer problema com palavrões, mas inseridos daquela maneira é como uma nota de música que está a mais), então não me interessa a vanguarda, muito menos a "nova geração no teatro". E olhem que eu até sou um gajo com um grande poder de encaixe e disponível para novas experiências. Mas há um limite.

Homero


A verdade é que não tenho nada de novo para dizer. Mas quem tem? As novidades são sempre sobrevalorizadas, disso não tenho a menor dúvida. E não nos podemos esquecer daquela frase feita mas que é bem verdadeira: depois de Homero já nada é novo.

Litro e meio


São onze e meia da manhã e bebi até agora um litro e meio de água de uma marca que me faz ir à casa-de-banho várias vezes pois não quero ter novamente pedra nos rins chegou uma vez e para quem não sabe são umas dores do caraças.

Gatsby


Desde o dia em que li pela primeira vez The Great Gatsby, fiquei com vontade de celebrar o solstício de Verão com uma festa semelhante àquela que vem no livro. Só que nunca tive ninguém que fosse muito na minha cantiga. Não que ela fosse ou seja do bandido. Mas uma festa para celebrar o dia mais longo do ano, a vida, penso que mete medo às pessoas. Explico: as pessoas têm por hábito (tal como eu) queixarem-se da vida e dos dias longos. Ora celebrar a vida e um dia longo é coisa que não cabe na cabeça de muito boa gente. Gostava, no entanto, que durante um fim de tarde e uma noite as pessoas se esquecessem, por momentos, da vida sem sentido que levam, dos dias longos que se arrastam como lembranças daquilo que nunca fizemos, do arrependimento. Gostava que isso fosse possível. Gostava de fazer uma festa assim.



Foto: cena do filme The Great Gatsby (1974) de Jack Clayton.

Sem vergonha



O Senhor Dr. Fernando Nobre foi rejeitado para o cargo da Presidente da Assembleia da República. Por momentos, breves momentos, gostei dos nossos deputados. Só faltou a renuncia imediata do Senhor Dr. Fernando Nobre. Mas parece que quer ser útil ao país. Por isso mesmo, para ser útil, devia renunciar ao cargo de deputado.

Eu, leitor


O dia começou com uma leve brisa fresca. Agora está quente. Almocei, tomei o café e fui até ao sítio do costume quando estou em Coimbra: Almedina Estádio. Levei um livro de entrevistas a Cossery (tenho de reler este senhor), mas não lhe toquei. Ainda pensei ir para algum lugar ler à sombra de uma árvore ou algo parecido. Mas há sempre qualquer coisa que se intromete entre mim e a leitura, nem que seja uma mosca ou uma palha a voar. Sou, cada vez mais, leitor de casa. Em casa é que consigo ler com a devida concentração e solidão que o acto de ler exige.

Roger Scruton


A falácia da melhor das hipóteses aparece quando a esperança pervalece sobre a razão, na presença de uma escolha importante. Não é utópica em si mesma. As utopias são visões de um estado futuro em que os conflitos e problemas da vida humana se resolvem completamente, em que as pessoas vivem juntas em unidade e harmonia e em que tudo é ordenado de acordo com uma vontade única que é a vontade da sociedade como um todo a «vontade geral» de Rousseau, que também podia ser descrita seguindo a linguagem do capítulo um, como um «"eu" colectivo». As utopias contam a história da queda do Homem, mas ao contrário: a inocência e a unidade anteriores à queda do Homem residem no fim das coisas e não necessariamente no princípio embora também haja uma tendência para descrever o fim como uma recuperação da harmonia original.

em As Vantagens do Pessimismo, tradução de José António Freitas e Silva do original The Uses of Pessimism and the Danger of False Hope, Lisboa: Quetzal, 1ª edição, 2011, pp.67-68.

Um poema de José Tolentino Mendonça

Os incêndios

Não devias empurrar fogo tão solitário
sob os umbrais de uma morada
nos carreiros que vão dar aos montes
sairás ainda em súplica
quando os incêndios ignorarem a ameaça
da tua vassoura de giestas

a sombra uma vez avulsa
não retorna a mesma

não despertes o que não podes calar

em A Noite Abre os Meus Olhos (poesia reunida), Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição, 2010, p. 41.

Indignar-me é o meu signo diário (17)

PAULO PORTAS MINISTRO?

Ana Gomes provocou uma tempestade mediática com as suas declarações sobre Paulo Portas. Considero muito Ana Gomes, uma mulher de causas, frontal, corajosa, diplomata com muito relevantes serviços prestados a Portugal e à Humanidade. Confesso que me escapa alguma da sua argumentação contra Paulo Portas e não alcanço a invocação do exemplo de Strauss-Kahn. Mas estou com ela na sua conclusão: Paulo Portas não deve ser ministro na República Portuguesa. Partilho inteiramente a conclusão ainda que através de diferentes premissas.

Paulo Portas, enquanto ministro da Defesa Nacional de anterior governo, mentiu deliberadamente aos portugueses sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, que serviram de pretexto para a guerra de agressão anglo-americana desencadeada em 2003. Sublinho o deliberadamente porque, não há muito tempo, num frente-a-frente televisivo, salvo erro na SICNotícias, a deputada do CDS Teresa Caeiro mostrou-se muito ofendida por Alfredo Barroso se ter referido a este caso exactamente nesses termos. A verdade é que Paulo Portas, regressado de uma visita de Estado aos EUA, declarou à comunicação social que “vira provas insofismáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque” (cito de cor mas as palavras foram muito aproximadamente estas). Ele não afirmou que lhe tinham dito que essas provas existiam. Não. Garantiu que vira as provas. Ora, como as armas não existiam logo as provas também não, Portas mentiu deliberadamente. E mentiu com dolo, visto que a mentira visava justificar o envolvimento de Portugal naquela guerra perversa e que se traduziu num desastre estratégico. A tese de que afinal Portas foi enganado não colhe. É a segunda mentira. Portas não foi enganado, enganou. Um político que usa assim, fraudulentamente, o seu cargo de Estado, não deve voltar a ser ministro. Mas já não é a primeira vez que esgrimo argumentos pelo seu impedimento para funções ministeriais. Em 12 de Abril de 2002 publiquei um artigo no Diário de Notícias em que denunciava o insulto de Paulo Portas à Instituição Militar, quando classificou a morte em combate de Jonas Savimbi como um “assassinato”. Note-se que a UNITA assumiu claramente – e como tal fazendo o elogio do seu líder –, a sua morte em combate. Portas viria pouco depois dessas declarações a ser nomeado ministro e, por isso, escrevi naquele texto: «O que se estranha, porque é grave, é que o autor de tal disparate tenha sido, posteriormente, nomeado ministro da Defesa Nacional, que tutela as Forças Armadas. Para o actual ministro da Defesa Nacional, baixas em combate, de elementos combatentes, particularmente de chefes destacados, fardados e militarmente enquadrados, num cenário e teatro de guerra, em confronto com militares inimigos, também fardados e enquadrados, constituem assassinatos. Os militares portugueses sabem que, hoje, se forem enviados para cenários de guerra […] onde eventualmente se empenhem em acções que provoquem baixas, podem vir a ser considerados, pelo ministro de que dependem, como tendo participado em assassinatos. Os militares portugueses sabem que hoje, o ministro da tutela, considera as Forças Armadas uma instituição de assassinos potenciais». Mantenho integralmente o que então escrevi.

Um homem que, com tanta leviandade, mente e aborda assuntos fundamentais de Estado, carece de dimensão ética para ser ministro da República. Lamentavelmente já o foi uma vez. Se voltar a sê-lo, como cidadão sentir-me-ei ofendido. Como militar participante no 25 de Abril, acto fundador do regime democrático vigente, sentir-me-ei traído.

Junho de 2011-06-13
PEDRO DE PEZARAT CORREIA

Pensamento do dia



Anouar Brahem
Halfaouine!
Astrakan Café
2000

Uma imagem para o dia

Deserto


Dizem que o deserto muda uma pessoa. Que nunca mais somos os mesmos, depois do deserto. Nunca fui ao deserto. Todos os dias o atravesso.

Dias

Os dias vão passando sem grandes novidades. Uma espécie de cd em repeat.

Manga-curta


Não contava com o vento. Saí de manga-curta. Manga-curta é uma palavra que sempre me fascinou. Outras palavras são: exíguo, esconso, filigrana, prevaricar, entre outras. E pronto. Era isto que queria dizer.

Que nome dar a isto?


O Senhor Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva demonstrou ontem, mais uma vez, que não tem estofo para o cargo que ocupa. Sinceramente, não sei qual é o prazo que o Presidente da República tem para vetar um Decreto-lei. No entanto, não deixa de ser estranho que vete agora um Decreto-lei que impõe limites e cortes ao financiamento, por parte do Estado, do Ensino Privado e Cooperativo. Agora, que uma maioria de Direita irá governar o país. Maioria de Direita que sempre se opôs ao referido Decreto-lei.

Dicionário das Distâncias - Paulo Rodrigues Ferreira


Paulo Rodrigues Ferreira
Dicionário das Distâncias
Livrododia
2011

A inocência é uma coisa muito bonita


Ouço uma aluna de 12 anos dizer para outra aluna de 12 anos: «O que interessa é o interior da pessoa.».

Pensamento do dia da reflexão


The Sex Pistols
Pretty Vacant
Never Mind The Bollocks, Here's The Sex Pistols
1977