A Sul de Nenhum Norte #2



A Sul de Nenhum Norte
#2

Eu, Narciso

Não sei bem quando e como começou a aventura da escrita. A minha mãe diz-me que foi quando eu andava na 2ª ou 3ª classe (na altura ainda era classe) e cheguei a casa com um textito que falava dos passarinhos e dos seus ninhos e da Primavera e coisa que o valha. Depois foi uma espécie de caminho pelo deserto, que, penso, ainda hoje continua. Comecei a escrever os primeiros poemas quando li, pela primeira vez, os ultra-românticos no manual de Língua Portuguesa do 11º ano. Como podem ver, foi tarde. Só muito mais tarde é que comecei a ler os franceses (quando digo franceses leia-se Verlaine e Rimbaud) e a copiá-los. Depois veio a fase de Al Berto, Eugénio e, espantem-se, Herberto (li a Poesia Toda num Verão perdido no tempo: impressionou-me mas não me entusiasmou). E, é claro, Ramos Rosa. Em 2002 fui convidado a publicar o meu primeiro livro de poemas: Entre o Silêncio e o Fogo. Foi pela mão do Américo Rodrigues, que foi o meu mecenas durante uns bons anos, sempre pronto a ler aquilo que lhe enviava, a desafiar-me para outros projectos. Depois segui o meu caminho. Tinha aprendido a andar, apesar de ter, em criança, sofrido de pé-chato, prontamente corrigido com as devidas palmilhas e botas ortopédicas (mas ainda hoje se nota que sofri desse mal). Entre 2002 e 2008 assemelhei-me a um lobo nas estepes. Andei por aí mas ninguém deu por isso. Colaborei com a revista Rodapé da Biblioteca Municipal de Beja, com a Palavra em Mutação e com a sempre presente Praça Velha. Fui escrevendo. Li muito. Sempre me disseram que a chave está no facto de se ler muito, embora pense que só traz dores de cabeça. Em 2007 ganhei coragem e enviei Mapa para a Livrododia. Ainda não conhecia o Luís Filipe Cristóvão nem ele a mim. Uma noite, num sarau organizado por ele onde o ouvi dizer o poema Domingo de Manuel da Fonseca de uma maneira fantástica, apareci em Torres Vedras. Cumprimentámo-nos. Conversámos e ele disse que estava interessado no Mapa. E ele lá saiu em 2008. O Henrique Fialho escreveu sobre ele. A Ana Salomé também. O Professor António Dias de Almeida, na revista Praça Velha, fez a sua recensão crítica. A Rute Mota gravou-se a ler um poema. O Rui Lage, na apresentação na Gato Vadio, falou sobre ele (o Mapa) de uma maneira que ainda hoje me deixa sem palavras. Leitores? Não sei quantos tive. Tenho. Devem ser alguns.

Vergílio Ferreira


Chateia-me é essa coisa de se estar agarrado ao passado e pensar no futuro como uma Caixa de Previdência. E do «parece mal» não se sabe porquê. E do «não faças isso que o papá ralha». E dos ares graves para se ser profundo. E de se não viver a vida a pensar na morte. E de governar ainda tudo da vida com o sistema do pé-de-meia, a poupar, a ser prudente, a ser mesquinho, a contar os gastos dos sentimentos, a guardar as fotografias, a ser virtuoso, a ser pelintra com os cofres cheios e a ir a enterrar sem se saber para que se viveu, e isso tudo, isso tudo, essa merda!

em Rápida, a Sombra, Venda Nova: Bertrand Editora, 3ª edição, 1993, pp. 75-76.

Qualquer coisa parecida com nada


Estive aqui parado durante algum tempo a olhar para o monitor antes de começar a escrever. Costumo escrever primeiro os textos no word (não os guardo) e depois é que os copio para aqui. Mas hoje apetece-me escrever directamente. Ainda não sei sobre o que vou escrever, mas penso que será o suficiente para um comentário qualquer. Ou não.

Até que acordei bem-disposto, mas o raio da trovoada deu cabo do dia (e eu que até gosto de trovoada) e é só devido a isso que escrevo o que agora vou escrever


Ora a poesia é uma coisa muito bonita e tal, sim senhor!, pena é que tenha poucos leitores, pois é sim senhor! Se a lêem e não gostam é porque a lêem de maneira enviesada e não conseguem discernir a voz do poeta e tal, apoiado!, é inveja do prémio que a poesia ganhou, pois, inveja! e se a não lêem é porque são uns incultos e só olham para o umbigo deles, é isso mesmo, incultos!

Gil Scott-Heron (1949-2011)

Gil Scott-Heron
1949-2011

Um poema de manuel a. domingos

A poesia quer-se a horas decentes

para o Luís Filipe Cristóvão


Éramos os últimos
no café quando decidimos
regressar.


Os nossos passos — trocados
pela hora a mais que a lei do tempo
impõe — percorreram as ruas
desertas, onde a qualquer momento
esperei ver um coiote
atravessar-se no caminho,
não perguntes porquê.

No hotel entrámos a rir,
a falar alto.

Evocávamos sem saber
as ninfas desse rio Tago
cujo nome soa melhor
em português.

Até que alguém apareceu
e pediu silêncio.

Por qualquer motivo tínhamos esquecido
que a poesia quer-se
a horas decentes.


em Sulscrito, Revista de Literatura, nº 2, Faro: ARCA – Associação Recreativa e Cultural do Algarve, 2008, p. 12.

Um conselho


Não leiam Rápida, a Sombra. Não leiam que não é preciso.

7

Já fui picado 7 vezes num quarto às escuras.

Calor


Ontem estavam, a esta hora, 25ºc no meu quarto. Hoje estão 26ºc. Dormir assim é difícil. O corpo, como sabem, começa a agarrar-se aos lençóis, a colar. Está muito calor. E os The National tocam hoje.

Uma imagem para o dia

Pausa


Pausa entre uma aula de Língua Portuguesa e uma aula de Apoio Pedagógico Acrescido de Língua Inglesa. As salas estão quentes. A brisa que corre é quente. Bebi litro e meio de água durante uma aula de 90 minutos. Transpiro.

Pesquisas

Alguém chegou aqui com a seguinte pesquisa: ingenuasdosexo.

Livros



Li este livro no ano de 2004. Foi o primeiro livro que li de João Miguel Fernandes Jorge. Nele está incluído um poema onde há uma pequena referência a Silves: O temor é o mês diurno, o/meio-dia num pátio de Silves. Era lá, em Silves, que eu estava a dar aulas. Li o livro no terraço que dava para um grande laranjal que dava para o Castelo. Início do Verão. Estava quente.




Nota: a capa do livro foi retirada da Poesia Incompleta.

Pesquisas


Alguém chegou aqui, via Google, à procura de poemas recentes de Sá de Miranda.

Para quem estiver interessado


Não censurei qualquer comentário. Todos os comentários feitos entre o final do dia de terça-feira passada e quinta-feira (penso eu) desapareceram. Culpem o blogger, que andou com problemas e em manutenção. Culpem a troika. Mas não me culpem a mim.

Em repeat


Wild Beasts
Smother
2011


Sem palavras. Simplesmente belo.

O copo está meio cheio ou meio vazio? (5)


Por que razão o pessimismo? Porque o optimismo assim nos obriga. O optimismo (que eu atrevo-me a designar de hipócrita) mais não é do que um mecanismo coercivo. O optimismo, nomeadamente aquele patente no discurso político, só serve um propósito: acalmar a massa, submete-la a uma vontade que é, muitas vezes, pouco clara. Todo o discurso optimista é, quase sempre (ou sempre), falacioso. Ao contrário do optimista, o pessimista não recusa a realidade tal como ela é. Assim, ser pessimista, escolher o pessimismo, é um acto de resistência.

O copo está meio cheio ou meio vazio? (4)


Pessimismo pressupõe sofrimento? Há quem acredite que sim. Cioran acreditava que se podia ser pessimista sem sofrimento. Para defender a sua posição, Cioran estabeleceu algumas linhas de pensamento. Uma delas é deveras interessante: com as desilusões criar um sistema. O sistema do pessimista é baseado nisso mesmo: nas suas desilusões. É claro que poderemos contra-argumentar dizendo que para ter desilusões o pessimista teve que ter ilusões. É um argumento válido, com o qual não concordo. A desilusão é, no pessimista, sempre a priori.

O copo está meio cheio ou meio vazio? (3)


Se tentasse justificar o meu pessimismo com uma base filosófica, seria incapaz. Ainda não li o suficiente para estabelecer um “programa” – algo que parece ser muito necessário para resolver tais questões. No entanto, penso que ele, o meu pessimismo, é indissociável da minha precariedade existencial: saber que a vida é um milagre; saber que ela é um absurdo; viver nesse limbo.

O tempo que falta - Fernando Esteves Pinto


Fernando Esteves Pinto
O tempo que falta
Temas Originais
2011

O copo está meio cheio ou meio vazio? (2)


O meu pessimismo, apesar de não conseguir determinar a sua origem, explica-se sem dificuldade: a minha total descrença na bondade humana. É claro que há excepções: conheci, na minha curta vida (trinta e três anos até ao momento em que escrevo estas linhas), pessoas muito boas, altruístas até à medula (embora ainda não tenha resolvido em mim a questão entre altruísmo e egoísmo, pois considero-os indissociáveis). O oposto também é verdadeiro: pessoas más é algo que não falta, conheci umas quantas e suplantam, sem dúvida, as boas. Exemplo: éramos crianças e jogávamos à bola no parque infantil do bairro. Sempre que uma bola ia parar a um certo e determinado quintal, surgia uma faca – vinda não sei de onde – que a rasgava. Quem é que rasga, destrói, uma bola com a qual crianças brincam? E lá no bairro não havia só essa criatura. Havia uma outra, muito mais cruel, que, para além de rasgar bolas, também cortava as asas às crias dos pássaros que apanhava a fazer ninho nas “suas” árvores e no beiral da “sua” casa. Vi, tudo isso, com os meus próprios olhos.

O copo está meio cheio ou meio vazio? (1)

I don't belive illusions
'cos too much is real
The Sex Pistols

Não acredito que a leitura de Nietzsche ou Schopenhauer influenciou ou condicionou o meu pessimismo. Na altura li-os pela simples razão de estar na moda, de ser aquilo que era esperado de mim. Andar com o Anticristo no bolso, de umas calças de ganga rafadas, fez milagres junto das raparigas mais susceptíveis. Vestir o preto, também. Mas voltemos ao meu pessimismo. Não sei qual será a sua razão, origem. Sinceramente, não me interessa. Prefiro pensar que comecei a ser pessimista aos quinze anos do que descobrir que o sou desde os cinco.

Em repeat

Little Annie
Songs From The Coal Mine Canary
2006

Sei que é de 2006. Mais vale tarde do que nunca.

Eu e a Matemática


Tenho tido alguns problemas ao nível da organização do pensamento. A bem da verdade, nunca tive grande capacidade de organização do pensamento. Não sei se foi a falta da Matemática. Explico: considero que a Matemática ajuda à organização do pensamento. Eu nunca gostei de Matemática. Quando os números começaram a juntar-se às letras eu desisti de seguir e entender aquilo. Incógnitas? Para incógnitas bastam aquelas que a vida nos apresenta, e “matematizar” a vida é coisa que, penso, não se deve fazer.

Uma imagem para o dia

É só, tipo, uma fase


Às vezes perguntam-me como é que vai a escrita, se tenho escrito poemas e essas coisas. Como devem saber, e se lêem com atenção aquilo que por aqui vou debitando, não tenho uma escrita torrencial. Desde Mapa que tenho escrito pouco. Não que isso seja mau. Talvez esteja a fazer uma favor a mim mesmo e ao resto da humanidade. É claro que só estou a falar de poemas (e reparem que não corro o risco de utilizar a palavra poesia, que Tom Waits caracterizou de muito perigosa, e com toda a razão). No outro dia fui eu que perguntei a uma pessoa, a quem ofereci o Mapa, se o tinha lido e se tinha gostado. Respondeu que sim e que considerava que eu até tinha lá alguns poemas bons (omitiu a parte do muito). Perguntei-lhe se tinha ficado com algum na memória. Disse que não. E penso que isso diz muito sobre aquilo que escrevo.

Revisão da matéria

Lí por aí


À porta de minha casa, um homem originário de uma das ex-colónias aborda-me e pergunta-me onde é o LIDL. Eu avisei-o que o LIDL estava fechado pois, apesar da nova lei, li no jornal que a empresa iria dar o feriado aos funcionários (louvável atitude também seguida por outras cadeias de distribuição). Indico-lhe onde é o Continente e aviso-o que é algo longe. Ofereço-me para lhe dar uma boleia até lá. Ele diz-me que vai comprar dois quilos de arroz. A conversa avança e apercebo-me que a razão por que só vai comprar os dois quilos de arroz é porque só tem três euros no bolso e a conta a zero: o patrão não lhe pagou a tempo, apesar de ele o ter avisado que ia ficar sem dinheiro para comer. Já não jantou ontem, Sábado. Sente-se enganado. Veio trabalhar para alguém que lhe disse que lhe pagaria cinco euros por hora, mas afinal desses cinco euros ainda tem que fazer os descontos. Disse-me que em Portugal há muita gente explorada na construção civil, muita gente enganada, e que assim que puder se vai embora de cá. Tive pena deste homem. Entrei com ele no supermercado e comprei umas quantas coisas: um frango assado, pão, vinho. Combinei com ele que esperasse, pois dar-lhe-ia boleia para onde precisasse. Quando chegámos à sua casa, dei-lhe o saco. Ele agradeceu, contente. Um trabalhador a passar fome no dia 1 de Maio? Anda lindo, este país…


Sérgio Currais em Filosofia de Curral

Dia de ontem


Tudo aquilo que vou descrever não é muito habitual acontecer. Ontem foi um dia como muitos outros. Levantei-me maldisposto, enfrentei o espelho, fiz a higiene pessoal, escolhi a roupa que ia vestir, peguei na carteira, coloquei a aliança e rumei ao trabalho. Esqueci-me, como já devem ter reparado, do telemóvel. Saí de casa às 9h e só cheguei a casa às 19h30. Estive todo o dia preocupado com o telemóvel. E se alguém me ligava? E se houvesse uma urgência? Quando cheguei a casa a primeira coisa que procurei foi o telemóvel. Nem uma única chamada, nem uma única mensagem. Tudo isto me passaria ao lado num dia normal, mas ontem, desconheço a razão, fiquei um tanto ou quanto abalado. Claro que tudo isto é irracional. As únicas pessoas que me ligam com frequência são a Carla e a minha Mãe. Já estou habituado a dias seguidos sem um único telefonema dos outros contactos. Não me importo com isso. Só que ontem, não consigo explicar. Na escola tinha comentado o assunto com um colega. Tinha dito eh pá! esqueci-me do telemóvel em casa e aposto que tenho lá uma série de chamadas e ele respondeu ou não, ao que eu disse eh pá! se isso acontecer é muito mau mas eu tenho a solução, e qual é a solução?, eh pá! ouço música, de preferência a Sorrow dos The National, respondi, e rimo-nos os dois, pois sabemos muito bem que a Sorrow dos The National não é uma música muito alegre.

Bem-haja


Só ontem à tarde comprei Victoria de Knut Hamsun. Pela segunda vez na minha vida (relembrou-me a Carla, pois eu pensava que era a primeira vez) um livreiro disse-me que tinha feito uma boa compra, que não iria arrepender-me. Agradeci-lhe as palavras. Pareceu-me ser alguém que sabe o que está a fazer (assim espero). Ah! foi na Bertrand, em Coimbra.

A1


Ontem a A1 estava praticamente deserta. À mesma hora, uma ano atrás, o movimento era outro. Não sei qual. Mas era outro.

Em repeat


TV On The Radio
Nine Types Of Light
2011


Sem espinhas. São uns Senhores.