Trovoada (2)

A trovoada ainda não chegou.

Trovoada


Para estes lados está tudo a ficar cheio de nuvens. Ontem trovejou durante a noite. Gosto de trovoada.

Top Jackpot


Em casa dos meus pais, durante a minha infância, não havia gira-discos. K7 compradas no mercado, sim. Havia, também, um pequeno rádio Sanyo. A maior parte das K7 eram da chamada "música ligeira portuguesa". Mas lembro-me que um dia a minha mãe comprou uma K7: "Top Jackpot". Não lembro o ano. Sei que tinha Duran Duran, David Bowie, Queen, entre outros. Foi a primeira vez que ouvi alguém a cantar em estrangeiro. Nunca ouvi, em casa dos meus pais, música francesa ou brasileira, embora nomes como Adamo, Dassin, Brel, Buarque e Regina fossem familiares. Mas não havia nada deles lá em casa. A K7 "Top Jackpot" ainda lá está, numa gaveta que no outro dia abri.

Vergílio Ferreira


Procurei regressar com alguns livros na mala. Trouxe alguma poesia. Um romance: Rápida, a Sombra. Vergílio Ferreira talvez seja o autor português que, até agora, mais li: alguns romances, ensaios, diários. Trabalhei dois anos em torno de Conta-Corrente, procurando encontrar uma perspectiva vergiliana do 25 de Abril e da pós-revolução. Nome pomposo para um trabalho perdido no tempo. Escrevi (a quatro mãos) uma peça de teatro baseada no universo imaginário de Vergílio Ferreira (e Eduardo Lourenço). É um autor que me acompanha. Que ajuda à ocupação do espaço. Da inquietação.

Na estrada


Dois dias no Alto Alentejo. Alter do Chão, Crato, Marvão, Castelo de Vide, foram alguns dos locais visitados. Marvão foi um desejo cumprido. Sempre quis visitar essa terra plantada nas rochas.

Passeio


Numa visita ao centro histórico de Coimbra, e na Rua do Quebra Costas, descobri a Quebra Orelha, uma discoteca com uma muito boa selecção musical e com alguém que sabe o que está a fazer. Comprei lá dois álbuns. High Violet (The National) e Afterdark (Make Up). Destes últimos tinha lido algumas linhas não sei onde. Comprei-o "às escuras". Fiz muito bem.

Teoria do Fantasma - Fernando Guerreiro


Fernando Guerreiro
Teoria do Fantasma
Mariposa Azual
2011

Pensamento do dia


Metronomy
The Look
The English Riviera
2011

Em repeat


Metronomy
The English Riviera
2011

Uma bela surpresa.

Um poema de Carlos Drummond de Andrade


Inventário

Que fiz de meu dia?
Tanta correria.

E que fiz da noite?
O lanho do açoite.

Da manhã, que fiz?
Uma cicatriz.

Bolas, desta vida
que lembrança lida,

cantada, sonhada,
ficará do nada

que fui eu, cordato?
Mancha no retrato.

de Viola de Bolso (1952) em Obra Poética, 8º Volume, Lisboa: Publicações Europa-América, 1989, p. 39.

Sono


Parece que o tempo está a mudar. Previsão de chuva para todo o país. Por aqui há falta de imaginação. Os dias decorrem lentos e cheios de sono. É terrível, o sono.

Café Desconcerto - Pedro Mexia


Pedro Mexia
Café-Concerto do TMG
20 de Abril
21h30

Em bom estado


O livro até pode estar em bom estado. Já o seu conteúdo, deixa algumas reservas. Pode ser que esteja valorizado com dedicatória do autor.

Pensamento do dia


Billie Holiday
Lover Man
1945

Na minha cabeça ressoava Lover Man, essa canção fabulosa, tal como Billie Holiday a canta; tive o meu concerto privativo no meio do mato: Someday we'll meet, and you'll dry all my tears, and whisper sweet, little things in my ear, hugging and a-kissing, oh what we've been missing, Lover Man, oh where can you be... Não é tanto pela letra, mas mais pela maniera como Billie a canta, dando a impressão de uma mulher que acaricia o cabelo do seu homem à luz suave de um candeeiro.

Jack Kerouac, Pela Estrada Fora, tradução de Armanda Rodrigues e Margarida Vale de Gato, Lisboa: Relógio D'Água, 1998, p. 132.

Versões: Joan Jobe Smith


Com Calor e Fome

Durante toda a sua vida a minha mãe teve
calor e fome devido aos anos
de menina e moça que passou a apanhar
algodão no quente e poeirento Texas, a apanhar
e à espera da chamada para o jantar, a apanhar
e à espera que a rapariga de cor
com o balde da água chegasse à sua fila,
o balde cheio de insectos que a minha mãe
odiava e que mais tarde enquanto dona de casa
perseguia e assassinava na sua casa sempre limpa
e ela tornou-se empregada de mesa para estar
perto da comida, da espuma da cerveja,
das coca-colas geladas, dos suculentos hambúrgueres e entrecostos.

Eu tinha pensado sempre que ela era uma sortuda
pois pensava que apanhar algodão e andar
todo o dia ao sol era uma brincadeira até
que fomos à quinta do Tio Euen em Denton, Texas
e o meu primo Jake mostrou-me o campo de algodão deles,
os novelos brancos na ponta de um espeto,
e mostrou-me como apanhar só o novelo o que
fazia os meus dedos sangrar e arder
ao fim de só ter apanhado dez, o Jake a rir-se da
minha citadina falta de jeito enquanto eu ficava com calor e
fome e desejava que a minha mãe tivesse sido
como eu, a fazer bolos de lama debaixo da frescura das árvores,
com o homem dos gelados a meio caminho da rua.


Joan Jobe Smith, «Hot and Hungry» em The Pow Wow Café, Manchester: Smith/Doorstop Books, 1998, p. 10.

Em repeat


Dirty Beaches
Badlands
2011

Muito bom. Na minha muito humilde opinião: muito bom. 

Ponto da situação (2)


Estratégias de Remediação, Planos de Recuperação, Planos de Acompanhamento, Plano Individual de Trabalho, Matriz de Controlo, Grelha de Observações, Aulas Previstas e Aulas Dadas.

Ponto da situação

Reuniões de avaliação. Sweeeeeeeeet!

Pensamento do dia


Dirty Beaches
Sweet 17
Badlands
2011

Revisão da matéria

Mais uma das razões para não votar



Fazendo uma análise pouco cuidada da situação: a única coisa que consigo imaginar é que o Senhor Dr. Fernando Nobre foi candidato à Presidência da República como uma estratégia concertada para dividir os votos à Esquerda, fazendo, assim, um grande favor ao Senhor Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva. Agora, o favor está a ser pago.

Górecki


Ontem, durante uma das duas viagens que fiz, ouvi na Antena 2 parte da Sinfonia nº3 de Górecki. Não conhecia. Fiquei sem palavras. Em silêncio.

Brutal - Fernando Esteves Pinto


Fernando Esteves Pinto
Brutal
Ulisseia
2011

Deuses!


O concerto de Diamanda Galás foi muito, muito bom. Deuses!

Hoje


É hoje o grande concerto de Diamanda Galás no Teatro Municipal da Guarda. Ver Diamanda Galás é uma espécie de sonho concretizado. Vê-la na Guarda é algo que me deixa muito feliz e orgulhoso. Dentro de minutos rumo até lá. Depois digo como foi.



Diamanda Galás
My World Is Empty Without You
Malediction and Prayer
1998

Beleza


Como amanhã vou à Guarda ouvir Diamanda Galás, estou a passar o fim-de-semana em Manteigas. Não vou elaborar sobre o assunto. Um fim-de-semana em Manteigas é um fim-de-semana em Manteigas. É diferente viver cá. Viver cá pode ser aborrecido. Há quem me diga ah! aquilo é tão bonito! gostei mesmo de passar lá o fim-de-semana. Pois. Passar o fim-de-semana é bom. Isto é bonito durante um ou dois fins-de-semana. Experimentem viver cá um ano inteiro. Aposto que deitam a beleza pelos olhos.

Laranjeiras


O quarto tem uma varanda que dá para um pátio interior, que tem duas enormes laranjeiras. Uma delas dá laranjas todo o ano. Há sempre um aroma a flor de laranjeira no ar. Lembra-me o ano que estive em Silves (2003/2004). A casa de Silves dava para um grande laranjal. As muralhas do castelo ao fundo. Não consigo descrever um pôr-do-sol em Silves. O aroma das laranjeiras. Nos fins de tarde quentes, da primavera e do verão, ia até ao terraço que servia de telhado à casa. Tinha, quase sempre, por companhia um livro e uma ou duas cervejas. Eram bons os dias.

Pensamento do dia


Suede
Animal Nitrate
Suede
1993

O meu Top 10 de músicas da Joy Division

No Love Lost
Disorder
Shadowplay
Twenty-Four Hours
Dead Souls
Colony
Exercise One
Heart and Soul
Wilderness
Insight

Big Ode #8

Immanuel Kant


A política diz: «Sede prudentes como a serpente»; a moral acrescenta (como condição limitativa): «e sem falsidade como as pombas». Se as duas coisas não podem coexistir num preceito, então há realmente um conflito entre a política e a moral; mas se ambas devem unir-se, então é absurdo o conceito do contrário e nem sequer se pode pôr como tarefa a questão de como eliminar semelhante conflito. Embora a proposição – a honradez é a melhor política – contenha uma teoria que, infelizmente muitas vezes, a prática contradiz, a proposição, igualmente teórica – a honradez é melhor que toda a política - infinitamente acima de toda a objecção, é a condição ineludível da última.

em A Paz Perpétua - Um Projecto Filosófico, tradução de Artur Mourão, Covilhã: LusoSofia, Universidade da Beira Interior, 2008, p.34

Uma imagem para o dia

Ensino Recorrente

Diamanda Galás - 9 de Abril no TMG



Diamanda Galás vem ao TMG no sábado dia 9 de Abril para apresentar o seu mais recente espectáculo: “The Refugee”. No Grande Auditório e ao piano, a artista norte-americana apresenta um conjunto de temas inspirados na canção “O Prosfigas” que versa sobre os exilados de Smyrna (na antiga Grécia) e o genocídio turco do povo grego em 1922; uma canção popularizada pelo grego Manolis Anngelopoulos.

O egípcio Mohamed Abdel Wahab, os gregos Dionysis Savvapoulos e Lefteris Papadopoulos, a arménia Mara Yekmalian, os espanhóis Camarón de la Isla e Pastora Pavón, ou o belga Jacques Brel, serão outros dos autores reinterpretados por Galás neste concerto.

Foto: nada zgank / memento
Retirado: blogue do Teatro Municipal da Guarda

Arte da Fuga (18)


A crueldade, aprendi, tem muitas formas. Um dia disseste que esperavas que eu tivesse aparecido a cavalo e que te levasse para longe do lugar onde estavas. Nunca soube que lugar era esse. Sempre pensei que o lugar fosse a cidade que te sufocava, o nevoeiro que a envolvia. Soube mais tarde que não era assim. Demasiado tarde.

Arte da Fuga (17)


Uma arte que possa chamar minha, que permita a fuga. Uma arte que me devolva ao coração dos dias, deixe a noite para trás. Uma arte onde não estejas tu a olhar para mim, sem nada dizeres. Uma arte sem razão ou motivo que a explique.

Arte da Fuga (16)


Desfaço-me de ti em cadernos de capa negra. Escrevo-te. Risco-te. Voltas sempre.

Arte da Fuga (15)


Havia uma rua onde tropeçava nos meus próprios passos. Essa rua ia dar à tua casa. Tocava a campainha e não era preciso mais nada: sabias quem era. A porta abria. Eu subia as escadas, entrava, sentava-me à beira da cama. Tu tiravas-me o sobretudo – o melhor amigo dessas noites –, afagavas-me os cabelos e dizias para me deitar. Não perguntavas nada. Deitavas-te ao meu lado, abraçavas-me. E eu adormecia.

Pensamento do dia


Miles Davis
'Round Midnight
'Round About Midnight
1957

Revisão da matéria

A capital é a capital é a capital


Ontem fui até à capital. Sempre que vou a Lisboa a sua luz surpreende-me. E sempre que vou a Lisboa há um ritual que tem de ser cumprido: Anchieta, Poesia Incompleta, Trama. Só houve as duas primeiras, pois a Trama estava fechada. Na Poesia Incompleta demorei-me algum tempo. O Changuito admirou-se, pois diz que sou sempre muito rápido nas visitas. Confessei-lhe que não sou fã da MPB, mas dei pelo meu pé a bater ao ritmo de Caetano. Gostei da conversa. Todavia, apreciei mais os momentos de silêncio. Não consigo explicar a razão, mas soube mesmo bem estar ali a ouvir Caetano. Só a ouvi-lo. Antes da visita à Incompleta já tinha almoçado. Sempre quis experimentar o famoso Bife à Trindade. Foi o que ontem fiz. Devo dizer que já comi melhor bife vindo do Talho do Manel, em Manteigas. E o molho: nada de especial. À tarde fui conhecer o Botequim e o Miradouro da Graça.

Domingo (3)


Passei parte da manhã a cotar "fichas de verificação de conhecimentos" de Língua Portuguesa e de Língua Inglesa. E o tempo lá foi passando. Enquanto cotava, fui ouvindo alguma da música que tenho por aqui. Tentei escolher música que eu considero neutra, isto é, que não me provoca mudanças no meu humor. Lá ouvi Micro Audio Waves (Micro Audio Waves), Maximilian Hecker (Rose) e The Magnetic Fields (69 Love Songs). Depois, lá fui almoçar. A lasanha ultra-congelada do LIDL revelou-se uma boa surpresa.

Um poema de António Quadros Ferro

Sobre a mesa

Não sei se era eu ou eras tu.
Uma mesa redonda
numa recordação próxima entre nós.

E no entanto, coravas, porque não
podias não corar. Natural,
como tu no gesto frágil da tua certeza.
A fragilidade tua de seres mulher
 - para mim - no que deixas ver.

Envelheço uma década no entanto.
Não te perco de vista porém.
Sigo pela minha própria preguiça de
te acompanhar, resvalo noutras cores.

Vivo na medida da verdade
e envelheço mais um pouco.
Peço mais uma cerveja e apercebo-me
do tempo - Que o tempo vem.
Na medida do possível.

Coravas na tua forma de existir.
Sentada sem nunca perderes de vista
os gestos que te acompanham.
Mulher eterna, digo para mim.

E ficamos até tarde.
Reconheço que era tua afinal a presença
e que me resta pagar as despedidas.
Pedir mais um pouco de mim.
E envelhecer mais uma década.

Ficar sozinho.
Arrepender-me, enfim, de tudo.
Uma mesa redonda, numa recordação
próxima entre nós.

Qualquer coisa inacabada,
uma linguagem liquida
colorida durante a noite.


em Um Pouco de Morte, Lisboa: Edição do Autor, 2009, pp. 22-23.

Domingo (2)


Estou com a sensação que vai ser um dia longo.

Domingo


Acordei cedo. Não gosto de acordar cedo. Especialmente ao domingo. Mais uma razão para não gostar do dia de domingo. Já tomei o pequeno-almoço. A cama continua por fazer. A porta da varanda está aberta. Consigo ouvir as andorinhas a reclamar. E não admira: é domingo. Agora vou vestir-me. Sair. Arejar. Tomar o primeiro café do dia. De domingo. Depois pensar o que será o almoço. De domingo.

Revisão da matéria

Versões: Joan Jobe Smith

Nepenthe

O meu pai disse sempre que a minha
mãe era tão bonita porque ela
era uma moça do Texas e o Texas tinha as
mulheres mais bonitas de todo o mundo
e isto deixava a minha mãe muito feliz
e como a fazia sorrir tanto ela deixava que ele
a abraçasse à minha frente, ela sentava-se
ao colo dele, ninguém mencionava
que como boa moça do Texas tinha
apanhado algodão, usado vestidos de serapilheira
e não podia ir à escola no inverno
porque não tinha sapatos, as coisas más
e tristes não interessavam para nada.
os tempos difíceis são o Paraíso
quando cresceste e és bonita
e estás sentada ao colo de um homem feliz.

Joan Jobe Smith, «Nepenthe» em The Pow Wow Café, Manchester: Smith/Doorstop Books, 1998, p. 9.

Das fotos (11)

 
 
Sem título (11)
© manuel a. domingos, 2011
(clicar na imagem para aumentar)

Versões: Charles Simic


Nota

Um rato apareceu no palco
Durante a apresentação
Da peça de teatro de Natal na escola.
Maria largou um grito
E deixou cair o menino
Nos pés de José.
Os três Reis Magos permaneceram
Impávidos
Nas suas vestes coloridas.
Conseguia-se ouvir uma mosca voar
Enquanto o rato inspeccionava a manjedoura
Por momentos
Antes de ir para as asas
Onde alguém lhe bateu,
Com veemência,
Uma, e depois duas vezes,
Com um objecto pesado.


Charles Simic, «Note», de Austerities (1982), em Selected Poems 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 2004, p. 44.