Bauhaus
Double Dare
In the Flat Field
1980

Arte da Fuga (14)


I dare you/to be real. Ouvi vezes sem conta estes versos. Tentei vivê-los à letra. Falhei quase sempre.

Arte da Fuga (13)


Cedo aprendi que não se olha directamente para o Sol. Não se deseja aquilo que não se pode ter. Só mais tarde é que ouvi falar de Ícaro e do seu sonho (de morte?). Cedo aprendi que devia ser educado para os mais velhos, mesmo quando nos davam beijos cheios de baba, que eu limpava e eles diziam estás a limpara o beijo que te dei? Não gostas de mim?

Arte da Fuga (12)


Bebíamos vinho traçado com sumo de maçã. Bebíamos muito. Alguns de nós acabavam a tarde a chorar. Diziam que ninguém gostava deles, que queriam morrer como o Cobain.

Arte da Fuga (11)


Volto ao Liceu. Esse lugar de iniciação a algo. À vida? Ao seu absurdo? Naquela altura a Morte não era um confronto. Como podia? As mãos estavam cheias de vida. E depois estavas tu. Os Psicose a tocar no palco daquilo a que chamávamos anfiteatro. Tu sentada a olhar para mim. Eu com vontade de ir ter contigo, perguntar o teu nome. Só mais tarde percebi que há perguntas que nunca devem ficar por fazer.

Arte da Fuga (10)


Com o verão, as tardes passadas no rio. Os corpos em sobressalto. Cigarros fumados com tiques de gente crescida. Fazer o que apetecia, sem medo. Rir. Ríamos muito, naquelas tardes.

Arte da Fuga (9)


A cama por fazer. Deixo sempre a cama por fazer. Fica aberta todo o dia. Quero que respire, para que mais tarde não me acuse de a sufocar com os meus sonhos, maldições, pesares.

Café Desconcerto - João Tordo


Café-Concerto do TMG
31 de Março
21h30
Moderador: Fernando Carmino Marques

Pensamento do dia


Campanula Herminii
Ladeira Acima
Cumeada, 2010

Dia 9 de Abril no Teatro Municipal da Guarda



Diamanda Galás
TMG
9 de Abril


Raul Brandão

 
«Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificância desaparecessem da vida, só ficava de pé o espanto.»

em Húmus, Meães: Edições Húmus, 1ª edição, 2004, pág. 23.

Revisão da matéria

Estados Filosóficos (35)


Saber que a vida é absurda. Saber que a vida é um milagre. Viver nesse limbo.

Hoje


Dia 25 de Março
Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço
18h
Guarda

Diálogos (5)



Donnie Darko: Ling Ling finds a wallet on the ground filled with money. She takes the wallet to the address on the driver’s license but keeps the money inside the wallet. I-I’m sorry Mrs. Farmer. I don’t get this.

Kitty Farmer: Just place an X on the Life Line in the appropriate place.

Donnie Darko: No, I mean I know what to do, I just don’t get this. You can’t just lump things into two categories. Things aren’t that simple.

Kitty Farmer: The Life Line is divided that way.

Donnie Darko: Life isn’t that simple. I mean who cares if Ling Ling returns the wallet and keeps the money? It has nothing to do with either fear or love.

Kitty Farmer: Fear and love are the deepest of human emotions.

Donnie Darko: Okay. But you’re not listening to me. There are other things that need to be taken into account. Like the whole spectrum of human emotion. You can’t just lump everything into these two categories and then just deny everything else.

Kitty Farmer: If you don’t complete the assignment you’ll get a zero for the day.

Donnie Darko:


em Donnie Darko de Richard Kelly (2001)

Lí por aí


Agora, se visitas às escolas não vos levarem a Manteigas, há uma coisa que deverá colocar esta vila no vosso mapa. Procurem a Albergaria Berne e provem o prato de Entrecosto e Enchidos com Migas de Feijoca. Acho que o nome diz tudo. Vá lá, todos a Manteigas.

Luís Filipe Cristóvão em Todos os livros serão um só

A Sul de Nenhum Norte


A Sul de Nenhum Norte

Ana C., Ângela M., Beatriz Hierro Lopes, bruno béu, Cecilia Eraso, Celeste Wladyka, G. K. Chesterton, Gonçalo Martins, Henrique Manuel Bento Fialho, Idra Novey, Joana Serrado, João Rios, João Villalobos, Jorge Fallorca, Kenneth Traynor, Marco Moura, Maria Sousa, Michel Laub, Nuno Abrantes, Pedro Jordão, Pedro Outono, Pedro Santo Tirso, Renato Carreira, Rui Almeida, Sofia Ferreira, Sonata Paliulyté, Tatiana Pequeno, Tiago Gomes.

Pensamento do dia


Recoil - Want

Victoria - Knut Hamsun


Knut Hamsun
Victoria
Lisboa: Cavalo de Ferro, 2011

Um poema de Manuel Altolaguirre


Não há morte

Não há morte nem princípios.
Só há um mar onde estivemos e estaremos,
um mar de peixes que são como nós,
que voam quando nascem,
que se afundam quando morrem;
peixes voadores
que saltam à luz
sem chegar a ser anjos.
Só há um mar
e os alegres saltos da vida.
Esta curva no ar,
tão lenta às vezes,
sobre o mar tão cobiçoso,
não é um arco-íris
depois da tormenta,
não é um poente
por onde possa passar ninguém.
A nossa vida desenha
sua ascensão e descida
sobre esse mar humano,
onde a humanidade
realmente vive.
Não há morte nem princípios.
Só há uma árvore grande
que sacode as suas folhas
para nutrir-se delas
quando caiam no chão.


em Mesa de Amigos, versões de poesia por Pedro da Silveira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, pp. 236-237.

Poesia


Amanhã regresso à Guarda. Foi lá que passei oito anos da minha vida. De 1992 a 2000. Fiz lá o Secundário e a ESE. O regresso tem um pretexto (como se fossem precisos pretextos para regressar): um encontro na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço. Um encontro para falar de poesia, para ler poesia. Vou rever o Américo Rodrigues, António Godinho, José Manuel Monteiro e o professor António José Dias de Almeida (uma das três pessoas que leu o Mapa e se deu ao trabalho de escrever sobre ele. As outras duas foram o Henrique e a Ana Salomé). Vou conhecer Daniel Rocha e Susana Celina e tentar ler alguns poemas.

Um Animal de Pele Branca, Imaculada


É o título daquele que será o mais recente livro de João Camilo. Será publicado na OVNI. Uma pequena amostra pode ser encontrada aqui.

Um texto a ler

Este. Do Henrique.

Óculos de sol


Voltei a vestir a gabardina. Dá-me um certo estilo. Isso e os óculos de sol. Há pessoas que dizem eh pá! está cá um sol! E eu digo-lhe que se não estivesse sol era noite. Duas ou três pessoas encaixaram e deixaram de fazer tal comentário. Outras insistem. Devem achar que têm muita piada. Explico: uso, quase sempre (de verão ou inverno), óculos de sol. Sei que não sou o único. Sartre disse que o inferno são os outros. Vergílio Ferreira acrescentou: E é sobretudo por isso que se usam óculos escuros. Ou seja: de sol.

Revisão da matéria

Arte da Fuga (8)


Não sei se era a maneira como olhavas para mim. Se era a maneira como olhavas para tudo. Lembro-me esperar por ti à chuva. Cheguei a escrever sobre isso. Às vezes procuro-te naqueles anos do Liceu. E lá estás tu com o teu cabelo comprido, casaco de cabedal preto, uma espécie de encharpe bem apertada à volta do pescoço, como se escondesse algo. Lá estás tu, a olhar para mim como nunca mais ninguém um dia olhou.

Arte da Fuga (7)


Devia ter 3 ou 4 anos. Não sei precisar. Lembro-me, apenas, que estava a passar férias numa casa na Serra, com toda a família. Lembro-me que subia umas escadas pelo lado de fora do corrimão. Escadas em pedra. Lembro-me de cair de costas, contra o chão. Lembro-me, depois, de acordar com algo frio na testa. A minha mãe e o meu pai sobre mim, à espera que abrisse os olhos. Agora sei que esta é a primeira recordação que tenho de mim. A primeira recordação que tenho de mim é uma queda.

Estados Filosóficos (34)


Neste país a falta de vontade política serve de desculpa para muita coisa. A mim falta-me vontade para quase tudo. E nunca serve de desculpa para nada.

Revisão da matéria

Piolho nº 4




Erberto H. Elder, Vasco Desgraça, António Lobo de Carvalho, Joël Basso, Pedro de Melo Fonseca, Miguel Oliveira, Joaquim Barlavento, Charles B. Trak, Atília Oops, Mário de Sá Cordeiro, Doutor Três Pescoços, Jonh Resistence, Phil Lupi , Joe Texas, Jorge Barros, Oliveira Martins Roxo, ARL, Emanuel Frieiras, Animal Licorne, Lurdes Terracota, (ilustrações), Grupo Porteño, Pedro Calcoen, Jack B. Daniels, fazem mais ou menos por esta desordem este heterónimo número.

Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),
Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.



Lançamento
27 de Março
 17h
Livraria Gato Vadio
Porto

Japão

Parece que Basho era de lá.

Darfur

Andam poetas aos gritos pelas ruas.

Líbia

Dizem que é o dia mundial da poesia.

Domingo

Não vou falar sobre o dia de domingo. Eu sei que é tema recorrente aqui no tasco. Jaime Gil de Biedma tem um poema muito bom que sintetiza o dia de domingo. Chama-se «Domingo»:

No más que este pequeño esfuerzo por vivir,
por respirar igual como respiran
esas otras parejas más allá, dejadas
bajo los suaves pinos en pendiente,

y que parecen empañar el aire
tan quietas como el humo de la ciudad, al fondo,
entre tanto que pasan exhalándose
carretera hacia abajo los raudos autobuses.
Retirei o poema de um CD que comprei na Incompleta. Biedma diz os seus próprios poemas. Tem uma voz suave.

Das fotos (10)

 
Sem título (10)
© manuel a. domingos, 2011
(clicar na imagem para aumentar)

Denis Diderot


Vivemos uma pobre existência, contenciosa, inquieta. Temos paixões e necessidades. Queremos ser felizes; mas o homem injusto e cheio de paixões sente-se continuamente levado a fazer aos outros o que não quereria que lhe fizessem a si. É um juízo que ele profere no fundo da alma, e a que não se pode furtar. Vê a sua maldade, e é necessário que reconheça diante de si ou que conceda a todos a mesma autoridade que a si se arroga.


em DIREITO NATURAL - Artigo da Enciclopédia (1751-1765), tradução de João da Silva Gama, LusoSofia Press, Colecção Artigos LusoSofia, Covilhã: Universidade da Beira Interior, 2008, p.4.

Luso-contemporâneos: José Riço Direitinho


Ao contrário do que sucede noutros países, o designado realismo mágico (como o conhecemos em Jorge Luís Borges, Juan Rulfo, Adolfo Bioy Casares, Gabriel Garcia Marquez, entre outros) nunca teve muitos seguidores na literatura portuguesa, à excepção, talvez, de José Saramago. Considerar a escrita de José Riço Direitinho (1965) de realismo mágico poderá ser arriscado. No entanto, acreditamos que não erramos muito o “alvo”, se tivermos em conta que o realismo mágico procura, em certa medida, violar os padrões realistas de representação literária, ao tornar naturais os elementos sobrenaturais, procurando colocar de lado a incerteza, a ambiguidade e a hesitação, para que dessa maneira os eventos, considerados irreais, fluam sem tropeçar na “realidade” convencionada. Assim, não sabemos se será por isso que José Riço Direitinho é ainda um nome pouco conhecido da nova-literatura portuguesa, apesar da sua obra se encontrar traduzida na Alemanha, Holanda, Itália, Espanha, França, Inglaterra e Israel. Entre 1992 e 2005 (ano da última publicação conhecida do autor) publicou dois romances e três livros de contos. São eles: A Casa do Fim (contos, 1992), Breviário das Más Inclinações (romance, 1994) – com o qual o autor ganhou o Prémio Ramón Gomez de la Serna, foi finalista do Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e mereceu uma Menção Especial no Prémio Eça de Queiroz do Município de Lisboa –, O Relógio do Cárcere (romance, 1997) – tendo arrecadado com este livro o Prémio Villa de Madrid 1998 –, Histórias com Cidades (contos, 2001) e Um Sorriso Inesperado (contos, 2005).

Uma outra razão que pode explicar o desconhecimento deste autor, por parte de um público mais vasto, poderá ser, talvez, o facto de o escritor escrever – na maior parte dos seus livros – sobre um mundo que já poucos conhecem ou desejam conhecer: o mundo rural. No seu livro de estreia, A Casa do Fim, podemos encontrar dez pequenos contos que falam disso mesmo: de um mundo rural, onde as personagens têm nomes bíblicos (Eva, Tomé, Moisés, Abel, Caim, Tiago, João, Zebedeu, Ester, Marta), e onde a vida é comandada por mezinhas, maus-olhados, má-sina, amores infelizes. Outra característica é a presença constante da morte (o suicídio é recorrente), uma morte a que os personagens se entregam sem agravo, sabendo que faz parte do seu destino, destino esse que não pode ser alterado, pois só a elas pertence e nada há a fazer.

Algumas das histórias, escritas por José Riço Direitinho, fazem lembrar aqueles presentes nos livros de Miguel Torga (Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha). No entanto, os contos de José Riço Direitinho estão impregnados de um halo de mistério, de misticismo, colocando de lado algum propósito moralizante que podemos encontrar nos contos de Miguel Torga. Outra característica que os distingue é o facto de os personagens de José Riço Direitinho não procurarem alterar o destino que lhes está traçado, pois sabem que nada podem fazer contra ele, ao contrário das personagens de Torga, que procuram fugir às tramas que o destino teceu, revoltando-se. Um bom exemplo dessa entrega ao destino é o conto Auto do Medo (inserido em A Casa do Fim), em que o personagem principal sabe que terá que se suicidar tal como o seu pai, pois é esse o seu destino: «Não podia fugir: o cheiro acre a azeite tulhado trazia-lhe sempre à memória o cadáver do pai coberto de escuro pelas asas dos morcegos e pelas moscas» (p. 61). O mesmo acontece no romance Breviário das Más Inclinações, onde o protagonista (José de Risso – curiosa a semelhança de nomes entre autor e personagem) aceita o seu destino sem qualquer questionamento, pois nasceu com uma marca vermelha em forma de folha de carvalho, e que, segundo a superstição, é um sinal de desgraça, sendo Risso portador de desgraças e outros males, tanto para si como para todos aqueles que o rodeassem. José de Risso vive entre o Bem e o Mal, entre a Virtude e actos a Violência. Ele é herói e anti-herói. E nunca, ao longo das páginas de Breviário das Más Inclinações, existe da parte de José de Risso uma tentativa de alterar tudo isto.

José Riço Direitinho é sem dúvida um nome a reter, não só pela qualidade da sua escrita, mas também pela verdade que esta encerra: um país que aos poucos está a desaparecer, mas também o combate interno do homem com ele mesmo.
 
(texto escrito para o suplemento literário Correio das Artes do jornal A União, João Pessoa, Brasil. O mesmo não foi publicado por motivos alheios ao autor)

Um poema de Eugénio de Andrade


Pela manhã de junho é que eu iria
pela última vez.
Iria sem saber onde a estrada leva.

E a sede.


em Matéria Solar, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, obra de Eugénio de Andrade/13, 5ª edição, 2000,  p.36.

Das fotos (9)

 
Sem título (9)
© manuel a. domingos, 2011
(clicar na imagem para aumentar)

Esta coisa chamada dia de domingo


Esta minha aversão ao dia de domingo não sei quando começou. Não sei se foi com o início da actividade laboral. É que o domingo é sempre o dia da partida. Um gajo acorda, toma o pequeno-almoço, passa os olhos pelo jornal e depois almoça. E só pensa em fazer a mala para seguir viagem. O pior são os dias de domingo como o de hoje, quando não há viagem para fazer. Explico: fiquei de fim-de-semana, não fui a casa. O preço da gasolina é um escândalo e não há orçamento que aguente. Por isso ontem fui ao LIDL e comprei o almoço. Vai ser Arroz de Pato. É só colocar no micro-ondas e já está. O que ainda safa o dia é a música que vou ouvindo e a poesia que vou lendo. No fundo, sou um lírico. 

Versões: Charles Simic


Bestiário para os Dedos da Minha Mão Direita


1.

Polegar, dente solto de cavalo.
Galo das suas galinhas.
Trompa do diabo. Verme gordo
Que coseram à minha carne
Quando nasci.
São precisos quatro para o segurar,
Dobrá-lo, até o osso
Começar a doer.

Corta-o. Ele safa-se
Sozinho. Ou ganha raízes na terra
Ou vai caçar com os lobos.


2.

O segundo indica o caminho.
O caminho. Atravessa a terra,
A lua e algumas estrelas.
Vejam, ele aponta mais além.
Aponta para si próprio.


3.

O do meio tem dor de costas.
Rígido, ainda pouco habituado a esta vida;
Homem velho logo à nascença. Parece que procura
Algo que teve e perdeu,
Depois olha para a palma da mão,
Como um cão à procura
De pulgas
Todo dentes afiados.


4.

O quarto é um mistério.
Às vezes quando a minha mão
Descansa sobre a mesa
Ele salta sozinho
Como se alguém o chamasse.

Depois de cada osso, dedo,
Chego a ele, confuso.


5.

Há algo de inquietante no quinto,
Há algo perpetuado logo
À nascença. Fraco e submisso,
O seu toque é meigo.
Pesa uma lágrima.
Tira a remela do olho.


Charles Simic, «Bestiary for the Fingers of My Right Hand», de Dismantling the Silence (1971), em Selected Poems 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 2004, pp. 7-8.

Agora e sempre: Joy Division


Em conversa com um amigo, daquelas conversas que fazem uma tarde ser bem passada, disse-lhe que a música da Joy Division (desculpem o feminino, mas habituei-me) parece-me cada vez mais actual. Quando ouço músicas como Disorder, Digital, Passover, Shadowplay, Walked In Line, Exercise One, Wilderness, entre outras, não consigo deixar de pensar: porra! isto continua actual! Está lá tudo: vida, morte, desespero, absurdo, precariedade existencial.

Estados Filosóficos (33)


A minha precariedade é existencial. Contra ela não há contrato ou vínculo que me valha.

Mala feita


A mala já está feita para o regresso a Coimbra, com posterior partida para terras de além-Tejo, apesar de ainda ser Ribatejo. Desta vez levo alguns livros comigo: Simic, Larkin, Berryman. Luís Quintais (poeta que nunca li) diz que, como se sabe, a poesia é inútil. E isso agrada-lhe. Devo dizer que a mim também. Agrada-me a poesia. Não a considero inútil, principalmente nos dias como o de hoje. Não me posso esquecer que a utilidade ou inutilidade são coisas muito relativas.

Versões: Charles Simic

Melancias

Budas verdes
Na bancada da frutaria.
Comemos o sorriso
E cuspimos os dentes.



Charles Simic, «Watermelons» de Return to a Place Lit by a Glass of Milk (1974), em Selected Poems 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 2004, p. 15.

Não preciso explicar-me, mas vou fazê-lo


Como tenho andando cheio de trabalho e pouca vontade de escrever, aqui o tasco tem sofrido com isso. As actualizações são escassas e pouco dignas de um tasco de culto. No entanto, nem tudo é mau. As visitas diárias voltaram aos seus números habituais.

Sentido

Releio um poema de Ted Hughes. No final, os seguintes versos:

        Foi uma visita da deusa, a beleza
        irmã da poesia — que veio
        dizer que a poesia nos estava a estragar.
        A poesia escutou-a, talvez, mas nós nada ouvimos
        e a poesia nada nos disse. E nós
        só fizemos o que a poesia nos disse para fazer. (*)

E assim o dia ganha um outro sentido. Não vou dizer que seja um sentido melhor ou pior. Mas que ganha um outro sentido, ganha.


(*) Ted Hughes, Cartas de Aniversário, tradução de Manuel Dias, Lisboa: relógio D'Água, 2000, p. 141 e 143

2 meses


2 meses foi o tempo que estive sem vir a Manteigas. Regressei no domingo. A neve e o frio a receberem-me na Serra. Há coisas que nunca mudam. A vila também parece a mesma, embora nestes dias um pouco mais agitada devido aos turistas e ao Carnaval. Mas a certas horas as rua ficam, outra vez, desertas. Há o aquecimento central em casa, os cds, os livros e uma carrada de canais na televisão. Há o regresso a um lugar cada vez mais próximo da memória e mais distante da realidade.

Em repeat

Um poema de W. B. Yeats

Três Andamentos

Peixes shakespearianos nadavam no mar, longe da costa;
Peixes românticos nadavam nas redes que os traziam à mão;
De que espécie será todo esse pescado que agoniza na praia?


em Os Pássaros Brancos e Outros Poemas, tradução de Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira, Lisboa: Relógio D'Água, 1993, p.89.

Arte da Fuga (5)


Durante algum tempo dizíamos que aos vinte e sete é que era. Que dos vinte sete não passava. Tínhamos, na altura, vinte ou vinte e um. Aos trinta e três, ainda por aí andamos. Agora, que todas as fugas possíveis são meros simulacros de nada.

Pensamento do dia


The Sound - I Can't Escape Myself

Resignação*


Até podia fazer um comentário sobre o estado do país. Sobre o facto de ser português. E o preço dos combustíveis! Não merece um comentário? Não. Nada. Resignação total. E sabem: sinto-me bem assim.





*pelo menos hoje. Amanhã não sei. 

Apenas uma nota


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