Kostas Axelos


Enquanto poesia, a poesia já não ritma o grande e o pequeno mundo. Ainda que mantendo sempre uma relação com a sua proveniência, ela transmuta-se frequentemente em literatura. Num certo sentido, Hölderlin e Rimbaud são e permanecem os últimos grandes poetas. Pois neles se trata da tentativa suprema de abolir a barreira entre poesia e vida, tentativa que resulta poeticamente e se despedaça contra a prosa da vida. Eles atingem o extremo da poesia. Sob um céu vazio e sobre uma terra impoética, são forçados ao silêncio. Depois deles, há certamente ainda e sempre poetas: poetas do fim contínuo da poesia, nos cumes, artesãos das belas-artes, da literatura, nos vales.


em A Questão do fim da Arte e a Poeticidade do Mundo, tradução de Fernando Trindade, Colecção: Artigos LUSOSOFIA, Covilhã: Universidade da Beira Interior, 2010, p. 7.

This sky will cover you when you fall down


Numa recente visita ao Henrique, fiquei a conhecer a música dos Towering Inferno e o álbum Kaddish (1993). Feito em memória das vítmas do holocausto, composto por Richard Wolfson e Andy Saunders, Brian Eno referiu-se a ele como o álbum mais assustador que alguma vez ouviu. Um exagero, pensará o leitor. Talvez. Mas não há nada melhor do que tirar as dúvidas. Ouçam. Podem não ficar assustados. Indiferentes: duvido.

Estados Filosóficos (32)


Dizem que à entrada da meia-idade há uma crise. Parece que as pessoas costumam pensar ah! tenho 50 anos e não sei se vivo outros 50. Esse tipo de pensamento também eu posso ter aos 23 ou 33 ou 43. Chama-se a isso o absurdo da Morte. Crise de meia-idade é só um nome bonito.

Às vezes lá me interrogo


Ando sempre a falar do Mal. Que o mundo é mau. Que as pessoas são más. Que não há salvação possível. Penso: serei eu também uma pessoa má? Acredito que sim. Em primeiro lugar, não sou mais do que os outros. Em segundo lugar, só uma pessoa má consegue ver o Mal, o sabe identificar. Os puros de coração (e eu acredito que existem) não vêem o Mal. Quando o vêem: desconfiam, dão o beneficio da dúvida, dizem ninguém é mau por natureza. São optimistas.

Alessandro Boffa


      Porque uma coisa que precisamos de fazer quando estamos acordados, para além de engordar e procurar aborrecimentos, é armazenar material onírico para a próxima letargia.


em És Um Animal, Viskovitz, Torres Vedras: Livrododia, 1ª edição, 2010, p. 10.

Lí por aí

Recentemente fui membro de um "júri de selecção de pessoal". O ordenado oferecido era pouco mais do que o mínimo nacional.
E ali estavam perante mim várias candidatas para que lhes fizesse algumas perguntas. E ali estavam aquelas mulheres carregando o peso da tristeza, sem esperança nos olhos, corpo desanimado. Muitas "desempregadas da Delphi", algumas mulheres de..."desempregados da Deplhi". Outras andam há anos em acções de formação em coisas difíceis de pronunciar sem qualquer ponto de contacto com a realidade. Saltitam de curso em curso e nunca conseguem um emprego porque aquelas formações servem, apenas, para efeitos estatísticos e para alguns promotores se abotoarem com uns cobres. Que desalento! Que conformismo! Aquelas mulheres julgam que nunca terão emprego, apesar de serem vivas e disponíveis para todos os serviços. Mulheres enganadas por empresas, exploradas por gente sem escrúpulos, formadas em áreas do absurdo (uma delas pagou um curso de 4 anos, por correspondência, em ...puericultura, sem nunca ter praticado nada, pois a empresa nunca garantiu o prometido estágio). Mulheres abandonadas pelo "sistema", com filhos, perdidas (o olhar perdido), nervosas. Habituram-se a andar de concurso em concurso ("tenho esperança num para o Hospital!"), sem acreditar em nada nem em ninguém.
Merda de mundo!

Américo Rodrigues em Café Mondego

Agio


A Agio, revista de literatura com a chancela das Edições Artefacto e o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, visa essencialmente o universo da poesia (este primeiro número é quase exclusivamente a ela dedicado), pretendendo fornecer uma plataforma consistente a novos autores, ensaístas e personalidades que, de algum modo, fazem parte desse universo, não fechando a porta, porém, a quaisquer outros tipos de criação literária. Na diversidade que o seu étimo insinua (o espaço adjacente de acolhimento e do porvir, onde cada um se pode mover livremente), a Agio surge inevitavelmente como uma publicação situada nas margens, mas com propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens.

Estruturalmente, o primeiro número está dividido em três partes: Poesia – Adair Carvalhais Júnior, Daniel Francoy, Gabriel Machado, Hugo Milhanas Machado, João Silveira, Joel Henriques, Luís Felício, Luís Norte Lucas, Margarida Ferra, Miguel-Manso, Nuno Dempster, Sara M. Felício, Soledade Santos; Ensaio – António Carlos Cortez, Jorge Martins Rosa, Ricardo Marques; Entrevista: Luís Lucas, Luís Quintais.

Sylvia Plath a Ted Hughes


Dobra bem os versos por baixo do colchão,
estica a pele até ao ponto de rasgar.
Depois areja os nervos, os músculos,
tudo o que puderes fazer sair de dentro do corpo.

E com as palmas das mãos inscreve
a ansiedade que te escorre dos poros
neste espelho de cambraia quase invisível.

Tenho uma flor à tua espera, uma ferida
nos sulcos do meu ventre. Vem regá-la,
colhê-la, faz com ela o arranjo da refeição
que agora termina e de novo começa.

Henrique Manuel Bento Fialho, A Dança das Feridas, edição de autor, Colecção Insónia, 2010, p. 97.

Pensamento do dia


The Doors - Five To One

Constrangedor é uma palavra muito bonita


Ao almoço a conversa andou pelo tema das situações mal resolvidas. Não há nada pior do que uma situação que fica mal resolvida. É constrangedor.

Tipo: desejo


Gostava de ser um pouco mais descontraído. Um pouco mais livre. Um pouco mais.

Ciclo

Os dias enquanto repetição.

Arte da Fuga (4)


Regresso àquele quarto fechado no tempo. Ao ruído de fundo de K7 carregadas de assombro. E havia os discos que trazia da casa de um primo. Foram a minha iniciação na traficância dos sentidos, dos dias. Não vivia no centro da cidade. Não vivia numa cidade. Não precisava: ela vinha até mim, num jogo de sombras. Estava longe, eu sei. Em vez das suas ruas, catedrais, jardins, fábricas: a montanha. Aquela que estava sempre a dizer: sai, sai daqui antes que seja demasiado tarde.

O melhor do mundo são as crianças


Hoje, numa aula de Língua Portuguesa, um aluno observou que o professor à segunda-feira vem menos bem disposto do que à sexta-feira. Houve, de seguida, uma espécie de silêncio. Depois o aluno também concluiu pois, à segunda-feira começa a semana de trabalho, não é?

Ensino Recorrente

Lí por aí


«Quando somos jovens, temos uma especial apetência para confundir maturidade com cinismo; saudável incontinência da guelra. Na verdade, passei a falar menos e a sorrir mais, a ouvir e a ler outro tanto; de barbatana cruzada. Sabe-me bem dar uns mergulhos na torrente de escrita a que nunca teria acesso a um ínfimo salpico, sem a Net. Por outro lado, começo a desconfiar se somos um país de poetas ou de meros fingidores, entre tantos e tantas línguas; apátridas na Rede. Revejo-me nesse caudal e lembro a ansiedade da escrita; à toa, tanto melhor. Se fosse, mas felizmente não é possível nem desejável revê-los com a minha idade, gostava de ver a maturidade com que encaravam o cinismo; a opção.»

Jorge Fallorca em O Cheiro dos Livros

Saudosismo


Tenho saudades de um tempo em que se falava de música e ninguém dizia o quê? ainda não os viste ao vivo?

Revisão da matéria

Arte da Fuga (2)


A janela dá para a montanha. A música fala de outras paredes e um livro diz-me que tudo é absurdo, que estamos atolados até ao pescoço. A montanha. Alguém passa na rua, acena com a mão. Retribuo. Leva uma enxada ao ombro. Cavar terra nunca foi o meu forte. Experimentei uma vez. Um mês inteiro. À jorna. Optei por seguir estudos. O livro bem que me avisou.

Um poema de Pierre Reverdy


Coração a Coração

Enfim aqui estou de pé
Passei por ali
Alguém passa por lá agora
Como eu
Sem saber onde vai

Eu tremia
Ao fundo do quarto a parede era negra
Ele tremia também
Como pude eu transpor o limiar dessa porta

Poder-se-ia gritar
            Ninguém ouve
Poder-se-ia chorar
            Ninguém entende

Encontrei a tua sombra na obscuridade
Era mais doce do que tu

Antigamente
Estava triste a um canto
A morte trouxe-te essa tranquilidade
Mas tu falas ainda
Queria abandonar-te

Se entrasse ao menos um pouco de ar
Se o exterior nos deixasse ainda ver claro
Sufoca-se
O tecto pesa-me na cabeça e empurra-me
Onde vou eu meter-me para onde partir
Não tenho espaço que chegue para morrer
Onde vão os passo que se afastam e que escuto
Longe muito longe
Estamos sós a minha sombra e eu
A noite cai


em Trocar de Rosa, tradução de Eugénio de Andrade, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 5ª edição, 1995, pp. 41-42.

K3 - Nuno Dempster


Nuno Dempster
K3
Lisboa: &etc, 2011

Lí por aí

Por que me ensombrei com "a reacção vibrante do público", aquele entusiasmo, a ovação em pé, as palmas, os assobios?
É que os que de verdade sentem na pele: "que mundo tão parvo, onde para ser escravo é preciso estudar" , a esses não sobra dinheiro para o bilhete, não estavam na sala. E que é isso de "falta-nos mais combate"? Onde estão as barricadas?
Palavras e cantorias são entretém, não são revolta. O folclore das "Grândola, vila morena" sai caro a quem canta e não trabalha.


J. Rentes de Carvalho em Tempo Contado

100 álbuns que deram cabo da minha vida


A Love Supreme – John Coltrane
A Storm In Heaven – The Verve
Angel Dust – Faith No More
Are You Experienced – Jimi Hendrix
Arise – Sepultura
Boxer – The National
But, What Ends When the Symbols Shatter? – Death In June
California – American Music Club
Chrome – Catherine Wheel
Core – Stone Temple Pilots
Cowboys from Hell – Pantera
Crocodiles – Echo and the Bunnymen
Cuckoo – Curve
Cure for Pain – Morphine
Darklands – The Jesus and Mary Chain
Dead Inside – The Golden Palominos
Deep – Peter Murphy
Definitely Maybe – Oasis
Delware – Drop Nineteens
Desire/No Tears – Tuxedomoon
Dirty – Sonic Youth
Dummy – Portishead
Earth, Sun, Moon – Love and Rockets
Filigree & Shadow – This Mortal Coil
Five Leaves Left – Nick Drake
From Her to Eternity – Nick Cave and The Bad Seeds
From the Lions Mouth – The Sound
Funeral –Arcade Fire
Fuzzy – Grant Lee Buffalo
Grace – Jeff Buckley
Hail To The Thief – Radiohead
Heartworm – Whipping Boy
His ‘n’ Hers - Pulp
Horses – Patti Smith
Hot Rail - Calexico
I Could Live In Hope - Low
In the Flat Field - Bauhaus
Junkyard – The Birthday Party
Kind of Blue – Miles Davis
Kiss me Kiss me Kiss me – The Cure
La Sexocristo Devil Music Vol. 1 – White Zombie
Lateralus – Tool
Led Zeppelin – Led Zeppelin
Loveless – My Bloody Valentine
Low Estate – 16 Horsepower
Maelstrom - Dronning Maud Land
Malediction and Prayer – Diamanda Galás
Marquee Moon – Television
Medusa – Clan of Xymox
Mer des Noms – A Perfect Circle
Mezzanine – Massive Attack
Morrison Hotel – The Doors
Music for the Jilted Generation – Prodigy
Mutantes S.21 – Mão Morta
Never Mind the Bollocks – The Sex Pistols
Nevermind – Nirvana
Oedipus Schmoedipus – Barry Adamson
Perry Blake – Perry Blake
Pills 'n' Thrills and Bellyaches – Happy Mondays
Pink Flag – Wire
Pre-Millenium Tension – Tricky
Rattlesnakes – Lloyd Cole and The Commotions
Red House Painters (I) – Red House Painters
Return to Cookie Mountain – TV On The Radio
Room of Lights – Crime and the City Solution
Schubert Dip – E.M.F.
Second Toughest In The Infants – Underworld
Secondhand Daylight – Magazine
Secrets of the Beehive – David Sylvian
Selected Scenes from the End of the World – London After Midnight
Sex Symbol – Pop Dell’Arte
Siamese Dream – The Smashing Pumpkins
Sky Blue Sky – Wilco
Slovaki - Slowdive
Soul Mining – The The
Spooky – Lush
Suede – Suede
Sum and Substance – The Mission
Superunknown – Soundgarden
Ten – Pearl Jam
Ten Rapid – Mogwai
The Black Rider – Tom Waits
The First The Last And Always – The Sisters Of Mercy
The Mind Is a Terrible Thing To Taste – Ministry
The Nephilim – Fields Of The Nephilim
The Pink Opaque – Cocteau Twins
The Queen Is Dead – The Smiths
The Stone Roses – The Stone Roses
The Stooges – The Stooges
The Velvet Underground – The Velvet Underground
The Wonderful and Frightening World of The Fall – The Fall
Thunder Perfect Mind – Current 93
Tindersticks (I) – Tindersticks
Tostaky – Noir Desir
Transformer – Lou Reed
Trompe le Monde - Pixies
Troublegum – Therapy?
Under The Pink – Tori Amos
Unknown Pleasures – Joy Division
Violator – Depeche Mode


Nota: estão por ordem alfabética

Post it



Às vezes parece que estou sempre a escrever o mesmo post.

Um poema de José António Almeida



APOLLO

Contemplo teu rosto
como um astronauta

que pisou a lua
e por uma noite

de Agosto, sentado
no umbral da casa

(trinta anos depois
dos únicos, poucos,

verdadeiros dias
da vida que teve)

levanta a cabeça
para olhar o céu

e pensa consigo:
Oh, eu estive lá.

em A Mãe de Todas as Histórias, Lisboa: Averno, 019, 2008, p. 49

Está quase


Nos últimos dias estive a pensar nos 100 álbuns que deram cabo da minha vida. É um exercício interessante. Muito mesmo. Um dia destes aparece aqui a lista. Já vou no 79.

20 álbuns que deram cabo da minha vida

Crocodiles – Echo and the Bunnymen
Darklands – The Jesus and Mary Chain
Dirty – Sonic Youth
From Her to Eternity – Nick Cave and The Bad Seeds
From the Lions Mouth – The Sound
Horses – Patti Smith
In the Flat Field - Bauhaus
Kiss me Kiss me Kiss me – The Cure
Loveless – My Bloody Valentine
Never Mind the Bollocks – The Sex Pistols
Nevermind – Nirvana
Pink Flag – Wire
Secondhand Daylight – Magazine
Suede – Suede
The Pink Opaque – Cocteau Twins
The Queen Is Dead – The Smiths
The Stone Roses – The Stone Roses
The Stooges – The Stooges
Trompe le Monde - Pixies
Unknown Pleasures – Joy Division


Nota: estão por ordem alfabética.

Poesia, e da boa!



A música Hate It Here, dos Wilco.

Uma imagem para o dia