Só para atingir as 100 postas este mês (mas a mensagem é sincera)

Que o novo ano vos seja leve.

Revisão da matéria

Diálogos (3)


BLOND MAN: Your name is Lebowski.  Your wife is Bunny
DUDE: Bunny?  Look, moron. (He holds up his hand) You see a wedding ring?  Does this place look like I'm fucking married? The toilet seat's up!
               (The blond man stoops to unzip the satchel.  He pulls out a
               bowling ball and examines it in the manner of a superstitious
               native.)
BLOND MAN: The fuck is this?
               (The Dude pats at his pockets, takes out a joint and lights
               it.)
DUDE: Obviously you're not a golfer.

em The Big Lebowski de Joel and Ethan Coen, 1998.

Lí por aí

 
Um anónimo comentador ambientalista fez o obséquio de deixar por aqui um recado caricatural, a propósito do meu mais recente e precioso gadget, na gama dos electrodomésticos. Já adivinharam do que se trata? Isso, precisamente, a maquinazinha Nespresso! Pois! What else é a hamletiana questão do Clooney e não sem alguma razão. O caso é que o texto se fez anunciar no tom admonitório, próprio, digamos, de uma bula papal. Convidando-me à expiação, por viscosa cumplicidade com os pecados monstruosos praticados pela multinacional em tropicais paragens. Apontando-me a autoria moral da "imperialista" agressão infligida aos indígenas nas colmeias industriais em terras confucianas. Associando-me à excruciante pegada ecológica e social deixada pela corporação helvética no planeta! Alertando-me, enfim, para a evidência de que, nesta matéria, não existe nem sombra de homenagem que o vício possa prestar à virtude. Ah, que fui fazer? Ah, "erros meus, má fortuna, amor ardente". Como foi possível? Para trás, "Vollutos"! Vade retro,"Arpeggios"! Em guarda, "Ristrettos"! Sumam, "Indriyas"! Vão para donde vieram, "Capriccios"! E sem olhar para trás! Vá, desapareçam, mafarricos! Eu vos esconjuro, criaturas das trevas! Em boa hora alguém zelou pelo meu bem-estar! No momento certo, voz atenta apelou à contrição e ao jejum! E se ainda não chegar, venham os cilicios e os chicotes! Para a frente com as penitências e as excomunhões!
 
António Godinho em Boca de Incêndio

Pensamento do ano


Marvin Gaye - Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)

Rockets, moon shots
Spend it on the have nots
Money, we make it
Fore we see it you take it
Oh, make you wanna holler
The way they do my life
Make me wanna holler
The way they do my life
This ain't livin', This ain't livin'
No, no baby, this ain't livin'
No, no, no
Inflation no chance
To increase finance
Bills pile up sky high
Send that boy off to die
Make me wanna holler
The way they do my life
Make me wanna holler
The way they do my life
Dah, dah, dah
Dah, dah, dah
Hang ups, let downs
Bad breaks, set backs
Natural fact is
I can't pay my taxes
Oh, make me wanna holler
And throw up both my hands
Yea, it makes me wanna holler
And throw up both my hands
Crime is increasing
Trigger happy policing
Panic is spreading
God know where we're heading
Oh, make me wanna holler
They don't understand
Dah, dah, dah
Dah, dah, dah
Dah, dah, dah
Mother, mother
Everybody thinks we're wrong
Who are they to judge us
Simply cause we wear our hair long

Essa coisa do Sul


Não sei bem o que se passa, mas todas as pessoas que conheço e que de alguma maneira não se sentem bem no sítio onde estão, desejam o Sul. O mais a Sul que estive foi em Chefchaouen. Foram quinze dias fantásticos. Deambulei pelas ruas, fotografei que me fartei (lembro-me que foram 6 rolos de 36 fotografias cada [ou 32, já não me lembro]). Foram quinze dias que gostava de ver repetidos, mas noutro lugar. A Sul, como é óbvio. E quando falamos de Sul, estamos a referir-nos a Sul de Portugal ou o Hemisfério Sul? Contudo, o que me faz pensar é por que razão o pessoal não quer ir para Norte. Pelos vistos no Norte é que está a "civilização". Parece que é lá que há justiça social, boas condições de vida, e todas essas coisas que se dizem dos países como a Noruega, a Suécia e a Finlândia. O problema, penso eu, é que também há muito frio. E temos que trabalhar a sério, para termos uma vida porreira. Penso que é na parte do trabalhar que está o busílis da questão. O pessoal, como eu (e utilizo aqui a primeira pessoal do singular para que o leitor tenha a certeza que estou a ser sincero e não irónico ou outra coisa pior), gosta do Sul. E o Sul é sol. Dizem que é liberdade. Também pobreza. Com a pobreza dos outros dou-me eu bem, desde que tenha os meus bolsos cheios. Porque o Sul é muito bonito e tal, mas é com os bolsos cheios do salário que eu usufruo aqui no Norte. Sinceramente, não me vejo a tentar sobreviver com um ou dois euros por dia. Não estou, não. O Sul, a bem da verdade, é bom para passar férias. E só isso.

Pensamento do dia


Melissa Auf Der Maur - Followed The Waves

Revisão da matéria

Restrepo (2)


Se ainda não viram o documentário Restrepo, deviam ver. Eu aproveitei a oportunidade que a National Geographic me deu. Nele ficamos a saber que uma guerra como aquela que está a ser travada no Afeganistão nunca pode ser ganha. Por nenhuma das partes. Vejam, vejam e depois digam alguma coisa.

Uma coisa do outro mundo

Às dez da manhã 17 pessoas já terem visitado o tasco.

Melhor do que antibióticos


Soube através do fiel Bibliotecário que a Cavalo de Ferro vai publicar, em 2011, mais um romance de Knut Hamsun: Victoria.

Derrotado

Completamente derrotado. É assim que me sinto. Acordei com dores por todo o corpo. Já ontem ameaças. Fui ao médico. Antibióticos, anti-inflamatórios e expectorante. Mas hoje é que isto bateu a sério. Tarde na cama. Acordei. A Carla ofereceu-me chá e laranjas. Parecia a música do Cohen. Fiquei mais um pouco na cama. Um ben-u-ron. Transpirei tudo o que tinha a transpirar. Fiquei a sentir-me melhor. E aqui estou. Apesar de derrotado. Aqui estou.

Lidos

De todos os livros publicados e lidos em 2010, retenho estes quatro:

Ágape, agonia – William Gaddis (Ahab)
Um Repentino Pensamento Libertador - Kjell Askildsen (Ahab)
George Orwell. Uma biografia política – John Newsinger (Antígona)
Os Comboios Vão Para o Purgatório - Hernan Rivera Letelier (Ulisseia)


É Natal, meus senhores!


Alguém veio aqui ter ao tasco com a seguinte pesquisa: «videos de vicosa fazendo ponto e um homem comendo ela todia»

Vergílio Ferreira


Natal (quarta). Para aqui ensopado numa gripe ou outra coisa também imprópria para a minha idade, ontem nem fui – pela primeira vez, que me lembre – à consoada em casa do Gilo. Domingo fui à casa do Lúcio, mas já febril. Tinha 38º para começar. A febre veio sendo amável e ontem disse adeus. Mas esqueceu-se de alguma coisa e voltou atrás. E agora não sabe se é de ir ou ficar.

em Conta-Corrente: nova série III, Venda Nova: Bertrand Editora, 1ª edição, 1994, p. 261. 

Um poema de Joan Salvat-Papasseit


Natal

Sinto o frio da noite
                                      e o som escuro da ronca.
Também o rancho de homens novos que agora passa cantando.
Sinto o carro da hortaliça
                                          que vai batendo o empedrado
e os outros que também vão, todos direitos ao mercado.
Os de casa             na cozinha
                                                  junto do braseiro que arde,
com o gás bem esperto já preparam o galo.
Agora olho para a lua, que me parece lua-cheia;
e eles recolhem as penas,
                                                e já suspiram por amanhã.

Amanhã sentados à mesa esqueceremos os pobres
— e tão pobres que somos —.
                                                      Jesus já será nascido.
Olhará um momento para nós à hora das sobremesas
e depois de olhar-nos          romperá a chorar.


em Mesa de Amigos, versões de poesia por Pedro da Silveira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002. P. 197.

Feliz Natal



Américo Rodrigues, Ana Salomé, André Moura e Cunha, Anónimo Bem-educado, António Baeta, António Godinho, Catarina, Changuito, Eduardo Pitta, Fernando Esteves Pinto, Filipe Guerra, Helder Moura Pereira, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, J. Rentes de Carvalho, João Camilo, João Luís Barreto Guimarães, Jorge Fallorca, José Bértolo, José Mário Silva, José Miguel Silva, Luís Filipe Cristóvão, Manuel Fernando Gonçalves, Manuel Jorge Marmelo, Manuel Poppe, Maria João Lopes Fernandes, Miguel Martins, Paulo da Costa Domingos, Paulo Rodrigues Ferreira, Rita Faria, Rui Almeida, Rui Bebiano, Rui Manuel Amaral, Sérgio Currais, Sérgio Lavos, Susana Miguel, Tolan.

O meu Natal


Não é fácil para um agnóstico, como eu, falar do Natal ou celebrar o Natal. Acredito que Jesus Cristo nasceu, cresceu e morreu. A parte de ser Filho de Deus e a parte dos milagres é que me levanta a dúvida, e como considero que a Fé não comporta a Dúvida (tal como o oposto também é verdade), prefiro ficar com a Dúvida. No entanto, não considero que seja um acto de hipocrisia desejar a todos aqueles que aqui vêm um Feliz Natal. E aos outros também. O que eu quero (e estou a ser sincero, a sério que estou) é que o pessoal seja feliz. Pelo menos durante estes dias. Sejam felizes, caramba! E não culpem o Menino Jesus pelos actos e pelas escolhas dos Homens. O livre arbítrio é que tem culpa. Não é o Menino Jesus.

Revisão da matéria

Um poema de Gerrit Komrij


Ela dança sobre pregos

Versos magoam, a folha angustia.
Dão guinadas no corpo, infernais.
É o teu mal: leste poemas a mais.

Melhor perderes-te em música obscena,
Melhor deitares-te a ouvir cantilena
Do fogo consumindo uma pirotecnia,

Melhor rebolares-te em sei lá quê
Do que a dor e o decoro de quem vê
Ir-se a vida na Paixão da Poesia.

em Contrabando - uma antologia poética, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p. 31

Pensamento do dia


Crime and The City Solution - Five Stone Walls

Chegou e veio para ficar



Um poema de Matsuo Bashô


Ervas de estio:
lugar onde os guerreiros
sonham.


em O Bebedor Nocturno, poemas mudados para português por Herberto Helder, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p. 135.

Repudiado

O meu amigo Américo Rodrigues foi repudiado pela Assembleia Municipal da Câmara Municipal da Guarda. Sou solidário com ele. Devido a isso vou adquirir a t-shirt que aqui é reproduzida.

És um animal, Viskovitz - Alessandro Boffa


Alessandro Boffa recria o universo das Metamorfoses de Ovídio através de Viskovitz, uma personagem que vive numa contínua troca de identidades na perseguição do seu verdadeiro amor.

És um animal, Viskovitz é um livro sobre uma relação amorosa entre dois animais, iniciada quando eram apenas micróbios, há milhões e milhões de anos atrás, passando por diferentes peles de animais. Não é um livro sobre animais, mas um livro sobre a vida observada a partir de vinte pontos de vista diferentes.


Vivenciando-se enquanto diversos animais, a personagem é possuída pelos seus comportamentos, pelas suas neuroses, pelas suas vaidades. Enquanto isso, a bela e inatingível Ljuba, parece sempre longe de aceitar as suas investidas.

Apesar de um amor animal que vai atravessando as diferentes histórias deste livro, é a condição humana que está sempre por detrás de cada quadro criado por Boffa.

Alessandro Boffa, És um animal, Viskovitz, Torres Vedras: Livrododia, 2010.

Revisão da matéria

Música


Dizer que a música me salvou não é um exagero. Tenho pela música uma paixão descontrolada. Semelhante a ela só a paixão que tenho pelos livros. E pela vida. Não se preocupem que isto não é optimismo. É um facto. Como sabem, gosto de cá andar. O problema são as pessoas. Bukowski é que tinha razão: quanto mais longe delas melhor. Mas, a música. Foi a música que aqui me trouxe. A descoberta da música foi, para mim, uma caixa de Pandora ao contrário.

Pensamento do dia


Bruce Springsteen - I'm on fire

Errata


Como não tenho nem a Arte nem o Engenho e as Musas nada querem comigo, deixo-vos com este muito bom texto de Tolan. Onde se lê Natal dos escritórios deve ser lido Natal das escolas. Onde se lê chefes deve ser lido chefes. Onde se lê Os estagiários gostam das festas de Natal porque acham que é um bom momento para se darem com os colegas mais velhos e mostrarem que são fixes e alguém falar com eles sem ser para pedir para encadernar coisas ou regular o ar condicionado, deve ser lido Os professores contratados não gostam das festas de Natal porque não acham que é um bom momento para se darem com os colegas mais velhos e mostrarem que são fixes e alguém falar com eles sem ser para pedir para encadernar coisas ou regular o ar condicionado. E penso que é tudo. Tenho de me despachar para o meu jantar de Natal da escola. Ou ainda levo Suficiente no parâmetro Relação com a Comunidade ou o camandro.

Don't touch me, please!


A verdade, seja lá o que isso for, é que gosto de cá andar. O mundo é que é uma merda. E as pessoas que nele habitam não são muito diferentes. O cheiro é que muda, principalmente no verão e se vamos num autocarro ou no metro apinhados de gente. O autocarro e o metro são um bom exemplo de como o mundo está organizado. Gente empacotada, com medo de se tocar, de olhar nos olhos da pessoa mais próxima. Um vez em Londres (isto é o meu pedantismo a vir ao de cima) ao entrar numa carruagem do metro, toquei acidentalmente na pessoa à minha frente. Ouvi um enorme e sonoro "don't touch me, please!". Fiquei sem reacção. E eu sou um gajo que reage. Educadamente, claro. Very British.

Pensamento do dia


The The - Dogs of Lust

Mau gosto

Acho que nunca aqui tinha colocado tanta imagem seguida. Não gosto. Não fica giro! Tenho que moderar este meu mau gosto.

Ensino Recorrente

Sem título (8)

Sem título (8)
© manuel a. domingos, 2010
(clicar na imagem para aumentar)

Estrela de Bizâncio - Amadeu Baptista



Amadeu Baptista, Estrela de Bizâncio, Torres Vedras: Livrododia, 2010

Um poema de Manuel António Pina

Café do molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luís de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

em Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, Lisboa: Assírio & Alvim, colecção Peninsulares/Literatura, nº 56, 1999 pp. 18-19.

Justificação

Manuel António Pina tem uns versos que muito nos podem dizer sobre essa/esta coisa da escrita:
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro
Pouca coisa fará tanto sentido quanto estes versos. Porquê? Porque são muitas as vezes que me interrogo sobre tudo aquilo que me trouxe até aqui, a este lugar onde pratico fantasmas. E porque, infelizmente, procuro sempre justificar tudo aquilo que faço, como se isso me ilibasse de todo e qualquer mal.

Vergonhoso é pouco!


Ontem, na Assembleia Municipal da Guarda, foi aprovado um voto de repúdio em relação ao cidadão Américo Rodrigues, por opiniões publicadas neste blogue pessoal. Em todo o processo não foi ouvido e foi designado como "Director do TMG", apesar de, a olhos vistos, este ser o seu blogue pessoal.
O voto é uma vergonha para a Assembleia Municipal, para a Guarda e para a democracia. Os responsáveis por tal acto, dirigido ad hominem contra um cidadão com direito a opinião, serão, um dia, responsabilizados por terem transformado um órgão respeitável numa tribuna para acertos de contas pessoais e para a perseguição de quem se lhes opõe com frontalidade.
Para mais informações ler
aqui, aqui, aqui e aqui.

PS. Espero que, pelo menos, a AM me envie uma certidão ou declaração para que eu a possa guardar ao lado do diploma relativo à medalha de mérito municipal que me foi atribuída.



retirado do blogue pessoal do cidadão Américo Rodrigues.

E agora um movimento típico da intellegentzia tuga


O nome poderá prometer: Livros, Café & Cigarros. Não me faz lembrar nenhum outro, apesar do tom, do anonimato e das pessoas visadas até agora. É assinado por alguém de "nome" Trigóri. Não vai para a lista ali do lado, pois ainda não provou o seu valor. A ver vamos. Parece que fez um link aqui para o tasco, para servir de engodo. E eu lá caí.

O sol em certas manhãs - Vítor-Luís Grilo



Gaivotas


O que colhi do verão
foram estas palavras soltas:
remo, barcaça, sede.

Nunca chego a saber
de onde vêm
essas aves que se aproximam,
poisam na areia,
e instauram a desordem.



Vítor-Luís Grilo, O sol em certas manhãs, Tores Vedras: Livrododia, 2010.

Pensamento do dia



Catherine Whell - Crank

Ah! os números! os números! (2)


Desde segunda-feira que aqui o tasco ultrapassa as 100 visitas diárias. Não estou habituado. Não gosto. Eu quero que o tasco continue a ser um tasco desconhecido, de culto. Com mais de 100 visitas diárias é impossível!

Um poema de Paulo Teixeira

5. A Segunda Trombeta

De encontro aos meus olhos nem toda a luz
é pacífica. Na tarde que cai as águas
emergentes desenham a ilusão de uma costa
onde marinheiros de olhos vítreos esperam
comigo o abraço último das sereias.

Noé uma segunda vez, sei que a inutilidade
do primeiro dilúvio não impediu um deus
carecido de imaginação de enviar,
com redobrado brilho, uma segunda inundação.

Na terrível disposição do dia, de encontro
a estas baías da mais primitiva calma,
espero sentir a mão indulgente de Satanás
para levar-me à pedra e ao limbo dos oceanos,
onde meia-noite e meio-dia
se tocam sem saber com a palavra fim.

em Conhecimento do Apocalipse, Lisboa: & etc, 1988, p. 35.

Revisão da matéria


Diálogos (2)


RENTON(v.o): The down side of coming off junk was that I knew I would need to mix with my friends again in a state of full consciousness. It was awful: they reminded me so much of myself I could hardly bear to look at them. Take Sick Boy, for instance, he came off junk at the same time as me, not because he wanted too, you understand, but just to annoy me, just to show me how easily he could do it, thereby downgrading my own struggle. Sneaky fucker, don't you think? And when all I wanted to do was lie along and feel sorry for myself, he insisted on telling me once again about his unifying theory of life.

EXT. PARK. DAY
Seen through the telescopic sight of an air rifle that wanders over various potential targets (children, pensioners, couples, gardeners, etc.).

SICK BOY: It's certainly a phenomenon in all walks of life.
RENTON: What do you mean?
SICK BOY: Well, at one time, you've got it, and then you lose it, and it's gone for ever. All walks of life: George Best, for example, had it and lost it, or David Bowie, or Lou Reed -
RENTON: Some of his solo stuff's not bad.
SICK BOY: No, it's not bad, but it's not great either, is it? And in your heart you kind of know that although it sounds all right, it's actually just shite.
RENTON: So who else?
SICK BOY: Charlie Nicholas, David Niven, Malcolm McLaren, Elvis Presley. -
RENTON: OK, OK, so what's the point you're trying to make?

EXT. PARK. DAY
Sick Boy rests the gun down.

SICK BOY: All I'm trying to do is help you understand that The Name of the Rose is merely a blip on an otherwise uninterrupted downward trajectory.
RENTON: What about The Untouchables?
SICK BOY: I don't rate that at all.
RENTON: Despite the Academy award?
SICK BOY: That means fuck all. The sympathy vote.
RENTON: Right. So we all get old and then we can't hack it any more. Is that it?
SICK BOY:Yeah.
RENTON: That's your theory?
SICK BOY: Yeah, Beautifully fucking illustrated.


em Trainspotting, de Danny Boyle, 1996.

José Riço Direitinho


O meu pai, que era gordo e de fraca agilidade, demorou a subir ao telhado da igreja e voltar uma telha, para que assim também eu me voltasse dentro da barriga da minha mãe e me pusesse em posição certa de nascer. De tal maneira este atraso foi fatal para o meu destino, que eu só acabei por ver a luz do mundo ao meio-dia, que é a hora mais nefasta para o nascimento, o que me haveria de marcar para sempre, segundo a minha avó.
Como se isso não bastasse para me assombrar o futuro, saí com o cordão umbilical enrolado no pescoço, que é sinal de morte por desastre, segundo os preceitos antigos que as mulheres da casa nomeavam. Lembro-me de a minha avó falar nisto nos serões frios ao redor da lareira, no meio de algumas histórias, e de as criadas velhas, que se acocoravam a fiar ao nosso lado, lembrarem aos meus irmãos que todos eles tinham nascido num fole, envoltos nos âmnios, e que por isso haveriam de ser sempre felizes. Foi assim, enquanto rodavam a estriga e se aqueciam ao lume, por entre o estralejar das pinhas e o cheiro húmido a madeira ainda verde, que me contaram o que eu nunca haveria de esquecer e me ajudaria, algum tempo mais tarde, a entender o meu destino.

José Riço Direitinho, «Sinais» em A Casa do Fim, Lisboa: Edições Asa, 1ª edição, 1992, pp. 27-28.

Frio


Está frio. Fui estender roupa à maravilha do século XX português: a marquise. Parecia um frigorífico envidraçado. Senti-me um qualquer alimento a ser conservado.

O Homem Quase Novo - Paulo da Costa Domingos




Paulo da Costa Domingos, O Homem Quase Novo,
Lisboa: Frenesi, 2010.

Carlos Pinto Coelho



1944 - 2010

Revisão da matéria

Que conclusões, afinal, tirar?


Na minha Antologia Pessoal de Poesia Portuguesa existem 62 nomes. Na Antologia Pessoal de Poesia Portuguesa do caro Anónimo existem 50 nomes. Há uma diferença de 12 nomes entre as duas listas. Há 22 nomes que se repetem. São eles:


Al Berto / António Ramos Rosa / Carlos de Oliveira / David Mourão-Ferreira / Eugénio de Andrade / Fernando Assis Pacheco / Fernando Guerreiro / Fernando Pessoa / Joaquim Manuel Magalhães / Jorge de Sena / José Miguel Silva / José Régio / Luís Miguel Nava / Luíza Neto Jorge / Manuel António Pina / Maria Teresa Horta / Mário Cesariny / Rui Cóias / Rui Pires Cabral / Ruy Belo / Sophia de Mello Breyner Andersen / Vitorino Nemésio


O caro Anónimo diz que o meu gosto é "deplorável no que toca a autores de poesia".

Antologia Pessoal de Poesia Portuguesa séculos XX-XXI do caro Anónimo


Ficam sempre a faltar alguns nomes, mas aí vai:

Al Berto /Albano Martins / Alexandre O'Neill / António Aragão / António Botto /António Franco Alexandre / António Gancho / António José Forte / António Maria Lisboa / António Osório / António Pocinho / António Ramos Rosa / Armando Silva Carvalho / Carlos de Oliveira / Cristovam Pavia / David Mourão-Ferreira / Ernesto Sampaio / Eugénio de Andrade / Fernando Assis Pacheco / Fernando Echevarría / Fernando Guerreiro / Fernando Guimarães / Fernando Pessoa* / Herberto Helder / Joaquim Manuel Magalhães / Jorge de Sena / José Carlos Ary dos Santos / José Régio / Luís Filipe Castro Mendes / Manuel António Pina / Mário Cesariny / Mário de Sá-Carneiro* / Mário Rui de Oliveira / Nuno Júdice / Raul de Carvalho / Rui Knopfli / Ruy Belo /Vitorino Nemésio

Fiama Hasse Pais Brandão / Luiza Neto Jorge / Maria do Rosário Pedreira / Maria Teresa Horta / Natália Correia / Sophia de Mello Breyner Andresen

Daniel Faria / Luís Miguel Nava

Daniel jonas / José Miguel Silva / Rui Cóias / Rui Pires Cabral


* nascidos ainda em 800

Resumo


Até que hoje não foi um dia mau. Cumpri o horário de trabalho. Saí com o sentimento de dever cumprido. Almocei. O sol soube bem na cara. Fui até ao Fórum Montijo. Acompanhou-me um amigo recente. Deu para rir, chorar (a rir), discutir o preço dos livros, ver caras bonitas. Foi um dia porreiro.

Ah! os números! os números!


É só para dizer que aqui o tasco, durante dois dias consecutivos, ultrapassou as 100 visitas diárias (contando com as minhas, como é óbvio!).

Revisão da matéria

Chamo, apenas, atenção para o link que se segue


O Américo Rodrigues é meu amigo. E eu considero-me amigo dele. Isto que ele descreve é uma vergonha. É por estas e por outras que este país é, sem qualquer reserva, uma merda. São estas as pessoas que nos governam ou pensam governar. E não precisamos de Wikileaks para saber isso.

Pensamento do dia


Donnie Darko (Richard Kelly, 2001)

Revisão da matéria

Imaginem


Acabaram de jantar. Sentaram-se no sofá. A lareira acesa. A amada nos braços. E: upa! que se faz tarde! pés ao caminho que a vida não é isto! E são duzentos quilómetros de viagem. Eu sei: há pessoal que não tem nada. Eu sei: sou um sortudo. A todos digo: BAH!

Lí por aí

 
«porque é que, quando se escreve sobre poesia, tem sempre de dizer-se que esta é que é a grande cena do momento, a grande revelação, a novidade a não perder. como se um poeta fosse uma espécie de lady gaga, uma atracção, um hit, uma star, um espectáculo de variedades. porque é que o crítico de hoje afirma um valor (que pode ser perene) como uma estrela cadente?»

Catarina em Trama

Ups!

É a única coisa que me ocorre.

Um poema de Nuno Júdice

Poema de Amor para Uso Tópico

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

em Teoria Geral do Sentimento, Lisboa: Quetzal, 1999, p. 21

Pensamento do dia


Jeff Buckley - So Real

Revista Coelacanto


(clique na imagem para aumentar)

Canhoto


Temos por aí um novo blogue: Canhoto. Faz-me lembrar um outro, quer pelo tom, quer pelo anonimato, quer pelas pessoas visadas até agora. É assinado por alguém de "nome" Bardino. Não vai para a lista ali do lado, pois ainda não provou o seu valor. A ver vamos.

Pensamento do dia

O meu top ten de músicas dos The Cure


Play for Today
Dressing Up
Plainsong
From the Edge of The Deep Green Sea
A Night Like This
Just Like Heaven
Icing Sugar
A Strange Day
Boys Don’t Cry
All Cats Are Grey

Um poema de Georg Trakl


No Outono

Junto à cerca, os girassóis e o seu brilho,
Doentes sentados ao sol, sem alento.
No campo, as mulheres cantam no trabalho,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.

Os pássaros contam lendas de encantar,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Há um violino no pátio a gemer.
E já o vinho escuro vão recolhendo.

Todos parecem felizes, libertos,
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Os jazigos dos mortos estão abertos,
Pintados pelo sol que vai entrando.


em A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas, selecção, tradução, introdução e notas de João Barrento, Lisboa: Relógio D' Água, 2001, p. 223.

Dizem que são crianças


Numa Ficha de Verificação de Conhecimentos de Língua Portuguesa (6º ano), a seguinte questão:
  • Escreve frases em que utilizes as seguintes palavras homógrafas.

Entre várias palavras homógrafas, encontravam-se as palavras Governo/governo.  Quase todos os alunos escreveram as seguites frases:
  • O Governo português é uma desgraça.
  • O Governo português não presta.
  • O Governo português não percebe nada do assunto.

Ensino Recorrente

Coisas que não consigo entender (4)


1. Uma ditadura em Portugal durante grande parte do século XX e, principalmente, durante a década de 60 e parte da década de 70, quando todo o mundo gritava mudança;

2. Um povo esquecer essa mesma ditadura, apagando-a, aos poucos, da sua memória;

3. Cavaco Silva ter sido Primeiro-Ministro (10 anos), Presidente da República (5 e talvez mais cinco), quando a Democracia, em Portugal, tem apenas 36 anos.

Da chuva


Não queria escrever sobre a chuva; não tenho outro remédio. Lá fora ela vai marcando o seu território, mas ainda me permite ter a janela aberta. Saí para tomar a bica. Tudo fechado. Apenas uma pequena padaria/pastelaria/snack-bar/servem-se refeições rápidas está aberta e um daqueles sítios onde se um gajo pede uma bica ficam todos a olhar e a pensar quem é este marmanjo. Tomei o café na padaria/pastelaria/snack-bar/servem-se refeições rápidas. Rumei pela rua. A chuva começou a cair. Tudo fechado e nem um quiosque para comprar um jornal que proteja a cabeça dos pingos impiedosos ou para ler as últimas. É um daqueles dias em que um cigarro à janela ou no alpendre cai mesmo bem, tal como vemos nos filmes. Mas nem isso tenho a meu favor. Não fumo.

Pensamento do dia


Passion Pit - Swimming In The Flood

Michel Houellebecq


«INTERVIEWER: You have a bit of a scientific background. After high school, you studied agronomy. What is agronomy?

HOUELLEBECQ: It’s everything having to do with the production of food. The one little project I did was a vegetation map of Corsica whose purpose was to find places where you could put sheep. I had read in the school brochure that studying agronomy can lead to all sorts of careers, but it turns out that was ridiculous. Most people still end up in some form of agriculture, with a few amusing exceptions. Two of my classmates became priests, for example.»


em «Michel Houellebecq, The Art of Fiction No. 206», The Paris Review, em linha no dia 07-12-2010.

Um poema de Ingeborg Bachmann


Salmo

4.

Coloca uma palavra
no vale da minha mudez
e planta florestas de ambos os lados,
para que a minha boca
fique toda à sombra.


em O Tempo Aprazado, selecção, tradução e introdução de Judite Berkemeier e João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p. 59.

Ensino Recorrente

Coisas que não consigo entender (3)


1. Touradas;

2. Aquilo que aquele senhor das "santolas sem recheio" diz dos políticos portugueses; 

3. Economia de Mercado.

Américo Rodrigues

 

Na próxima sexta-feira, 10 de Dezembro, pelas 16h 30m, na Sala Ferreira Lima da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, terá lugar uma Aula Aberta da disciplina de Materialidades da Literatura I, sobre poesia sonora e a obra de Américo Rodrigues. A aula contará com a presença do poeta.
 
Américo Rodrigues é o maior nome da poesia sonora em Portugal, com uma obra repartida por 5 CD's e uma Obra Completa, em micro-livro.
 
As inscrições serão limitadas, podendo usar-se para esse efeito o mail do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura: materialidades.da.literatura@gmail.com
O site do curso pode ser visitado aqui: http://matlit.wordpress.com/
 
 
 
 
Nota: informação retirada daqui. Podem ler o que escrevi sobre a poesia sonora de Américo Rodrigues, aqui.

Lí por aí


«Hoje a indiferença é geral. Tudo indica que mais de metade dos portugueses não vá votar. Cavaco, muito provavelmente, será reeleito. Manuel Alegre pagará a factura do apoio do BE e, sobretudo, do que andou a fazer ao PS entre 2005 e 2009. É sintomático que ainda não tenha as assinaturas necessárias para formalizar a candidatura. À sua custa, Defensor de Moura talvez surpreenda. O Lopes comunista não assusta ninguém. Madre Teresa de Calcutá não conta. E assim chegamos ao bocejo universal. A parte engraçada é que grande parte da direita vai votar contrariada.»

Eduardo Pitta em Da Literatura



Nota: negrito da minha responsabilidade.

Coisas que não consigo entender (2)


1. Pessoas que tratam por tu autores que nunca andaram com elas na escola. Exemplo: o Camões, o Pessoa, o Herberto Helder*, a Sophia, o Ramos Rosa, etc.;

2. Os sucessivos decretos-lei que estipulam excepções a uma certa "classe" de trabalhadores;

3. Cursos de escrita criativa.




*desta vez, caro anónimo, escrevi bem.

Um poema de António Torrado

À Beira Tempo

é um templo visto em vidro
no vivo crepitante das lunetas
estufa lhe chamam, de sol
e cidra
azedo de ferrugens e promessas.

Se templo é
e fosco de desesperar
a babugem do mar já o lavou
e o que ficou, no tampo do altar,
dá pouco para rezar.
A cerveja, meus senhores, acabou.


em Dos Templos, Lisboa: & etc, colecção Subterrâneo Três, contém desenhos de Moniz Pereira expressamente feitos para a edição, 1984, p. 11.


& etc

Piolho n.º 003


Ana Almeida Santos - A. Pedro Ribeiro - Rui Caeiro - Rui Tinoco - Rui Azevedo Ribeiro - Jorge Humberto Pereira - Miguel Sá Marques - Pedro Tiago - José Carlos Soares - Rui Manuel Amaral - manuel a. domingos - Jorge Fallorca - Efe de Lagos - Raul Simões Pinto - Mário Augusto - Manuel Filipe - Hart Crane mais ou menos por esta desordem.
terceiro número dezembro 2010
Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico), Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.