Um poema de Diogo Bernardes


Horas breves de meu contentamento,
Nunca me pareceo, quando vos tinha,
Que vos visse tornadas tão asinha,
Em tão compridos dias de tormento.
Aquelas torres, que fundei no vento,
O vento as levou já, que as sostinha;
Do mal, que me ficou, a culpa é minha,
Que sobre coisas vãs fiz fundamento.
Amor, com rosto ledo e vista branda,
Promete quanto dele se deseja,
Tudo possível faz, tudo segura;
Mas des que dentro n’alma reina e manda,
Como na minha fez, quer que se veja
Quão fugitivo é, quão pouco dura.

em Textos Literários - Século XVI, (org.) Beatriz Mendes Paula e M. Ema Tarracha Ferreira, selecta organizada de acordo com o programa oficial do VI ano dos Liceus, Lisboa: Editorial Aster, 3ª edição corrigida e aumentada, 1975, p. 430.

Menos de 10ºC


Tenho a certeza que hoje dei aulas numa sala em que a temperatura estava abaixo dos 10ºC. Ainda pensei utilizar o meu bafo para escrever nas janelas.

Últimas aquisições


Deixo aqui, vaidoso, as últimas aquisições para a minha biblioteca de poesia: António Lobo de Carvalho, Se a lira pulsas e o pandeiro tocas…, & etc, 1984; António Torrado, Dos Templos, & etc, 1984; Edgar Carneiro, A Faca no Pão, 1981; Ingeborg Bachmann, O Tempo Aprazado, Assírio & Alvim, 1992; Jorge Aguiar Oliveira, Os Lábios do Rio, & etc, 1987; Jorge Fallorca, Alpendre, & etc 1988; M.S. Lourenço, Nada Brahma, Assírio & Alvim, 1991; Paulo Teixeira, O Conhecimento do Apocalipse, & etc, 1988; Vasco Gato, Rusga, Trama, 2010.

Um poema de António Ferreira


Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
Rosto, qu'entre nós há; do mais divino
Lume, mais branca neve, ouro mais fino,
Mais doce fala, riso mais gracioso;
D'um angélico ar, de um amoroso
Meneo, de um espírito peregrino,
S'acendeo em mim o fogo, de qu'indino
Me sinto, e tanto mais assi ditoso.
Não cabe em mim tal bemaventurança.
É pouco ũa alma só, pouca ũa vida.
Quem tivesse que dar mais a tal fogo!
Contente, a alma dos olhos ágoa lança
Polo em si mais deter; ma é vencida
Do doce ardor, que não obdece a rogo.

em Textos Literários - Século XVI, (org.) Beatriz Mendes Paula e M. Ema Tarracha Ferreira, selecta organizada de acordo com o programa oficial do VI ano dos Liceus, Lisboa: Editorial Aster, 3ª edição corrigida e aumentada, 1975, p. 391

Uma Antologia

O Henrique também já publicou a sua lista. Aqui.

A Capital é a Capital


Antes que comecem a dizer que podia ter avisado e tal, não deu para avisar ninguém, mas no sábado fui até Lisboa. Vi a crise nas ruas cheias de gente com sacos de compras a abarrotar. Passei pela Trama para dar um beijinho à Catarina e um abraço ao Ricardo, mas ele não estava. Comprei o Rusga e a Carla ofereceu-me uma Contramargem do Jorge Aguiar Oliveira. Cruzei-me, no Rato, com o senhor que escreveu Moby Dick. Passei pela Incompleta, que para além de incompleta estava fechada (quem me manda a mim não ter lido o blogue para saber que assim seria), e fiquei de olho no Taberneiro que estava exposto na vitrina (como eu gosto deste nome!). O Changuito ainda apareceu "à janela" para dizer que sim, estamos fechados. Desta vez, com muita pena minha, não deu para passar pela Anchieta. Fica para a próxima.

Frio, neve, Manteigas


Em Manteigas parece que cai da branquinha. É claro que me estou a referir à neve. Ainda não falei hoje com os Pais. Deixei o telemóvel em casa. Por isso, se estiveres a ler isto, mãe, ficas a saber que por aqui também está muito frio. Mas ando agasalhado, não te preocupes.

Pensamento do dia


Swans - Time Is Money (Bastard)

Um poema de M.S. Lourenço


Um Outono de Chuva

III

Foi a tua vontade. Mas agora sorri,
Mesmo que os montes & a serra te apertem.
Não pares. O rio salpica as margens,
Hoje de cobre & até ao fundo,
Onde a própria Terra jaz morta.
Mas agora toca-me na cara
Mesmo no teu voo da noite,
Poupando-me ao Inverno.
Para ti abro agora um espaço novo,
Num silêncio crepuscular: os pássaros calaram-se,
Para te restituir a música da chuva.

em Nada Brahma, Lisboa: Assírio & Alvim, colecção Cadernos Peninsulares/Literatura, 1991, p. 47.

Estados Filosóficos (19)


Uma antologia de poesia nunca prima pela excelência dos poetas nela presentes. Antes pela excelência dos ausentes.

Estados Filosóficos (18)


Desde de muito cedo ensinam-nos que a única coisa garantida na nossa vida é a Morte. E com isto esperam que ela deixe de ser uma questão.

Estados Filosóficos (17)

O niilismo é a evidência do desespero.

Estados Filosóficos (16)


Um homem só tem verdadeira noção da sua finitude a partir do momento em que começa a lavar as suas próprias cuecas.

Vasco Gato

«A nossa situação é, no meio das avalanches, tentarmos um paisagismo»

em Rusga, Lisboa: Trama, 1ª edição, 2010, p. 13.

Lá fora: o frio


São quase oito horas. Há uma noite de domingo que se adivinha fria. Eu por aqui tenho o conforto do termo-ventilador (eu sei que não é lá muito bom para a saúde, mas é quentinho, apesar do ruído que é um pouco enervante), enquanto revisito, mais uma duas três ou quatro vezes não sei,  Hail To The Thief. É o melhor que os Radiohead fizeram. Não sei se é a verdade. Mas para mim é.

Um poema de António Lobo de Carvalho (o Lobo da Madragoa)


Frutos do desengano, colhidos na convivência das putas, e patenteados ao mundo no seguinte

Putedo de Lisboa, ó gente fraca,
Convosco falo, cagaçais malditos,
Convosco, a quem caralhos infinitos
Têm batido no cu, sem ser matraca:

Vós, que fazeis meiguices qual macaca,
Que suspira uma vez, outra dá gritos;
Vós que fazeis morrer bolsas, e espíritos,
Sem que para isso useis punhal, ou faca:

A todas sem excepção conjuro, atesto,
O ter-lhes hoje avante ódio fatal,
Pois carícias fingidas já detesto:

Acreditem os homens em geral,
Que à risca seguirei quando protesto,
Pois com putas não gasto já real.

em Se a lira pulsas e o pandeiro tocas..., nota introdutória de Aníbal Fernandes, Lisboa: & etc, colecção Contramagem, nº. 20, 1984, p. 18. 

O século de Pessoa


Domingo


É domingo de manhã. As manhãs dos meus domingos começam a ser diferentes. Já não consigo ficar na cama até ao meio-dia, embora ocasionalmente isso ainda aconteça, principalmente se ficar acordado até muito tarde a ver um filme muito manhoso no canal Hollywood.

Versões: Stephen Crane

 LIX


Ao caminhar pelo céu,
Um homem vestido de negro
Encontrou um ser luminoso.
Ansioso, acelerou o passo;
Ajoelhou-se em devoção.
“Meu Deus,” disse ele.
Mas o ser não o reconheceu.


Stephen Crane, «LIX», em The Black Riders & Other Lines (1895), retirado da Electronic Text Center, University of Virginia Library.

Uma mui pessoal proposta para uma mui pessoal Antologia de Poesia Portuguesa


A.M. Pires Cabral/Adília Lopes/Al Berto/Alexandre O’Neill/Almada Negreiros/Amadeu Baptista/Ana Paula Inácio/António Cabrita/António Ramos Rosa/António Salvado/Carlos de Oliveira/Carlos Luís Bessa/Carlos Mota de Oliveira/Catarina Nunes de Almeida/David Mourão-Ferreira/Eduardo Guerra Carneiro/Eduardo Pitta/Eugénio de Andrade/Fátima Maldonado/Fernando Assis Pacheco/Fernando Gandra/Fernando Guerreiro/Fernando Pessoa/Filipa Leal/Helder Moura Pereira/Helga Moreira/Henrique Manuel Bento Fialho/Isabel de Sá/João Camilo/João Habitualmente/João Luís Barreto Guimarães/João Miguel Fernandes Jorge/Joaquim Castro Caldas/Joaquim Manuel Magalhães/Jorge Aguiar Oliveira/Jorge de Sena/Jorge Fallorca/Jorge Sousa Braga/José Alberto Oliveira/José Miguel Silva/José Régio/José Ricardo Nunes/Luís Filipe Cristóvão/Luís Miguel Nava/Luíza Neto Jorge/Manuel António Pina/Manuel de Freitas/Manuel Fernando Gonçalves/Maria Teresa Horta/Mário Cesariny/Paulo da Costa Domingos/Pedro Mexia/Rui Almeida/Rui Baião/Rui Caeiro/Rui Cóias/Rui Lage/Rui Pires Cabral/Ruy Belo/Sophia de Mello Breyner Andersen/Vitorino Nemésio

Gostaria de ver as listas das seguintes pessoas: Henrique Manuel Bento Fialho, Eduardo Pitta, Rui Almeida, José Mário Silva, Catarina (da Trama). As regras: não pensar muito; século XX e primeira década do século XXI português; nunca menos de trinta nomes; nunca mais de setenta.

Erros Individuais - José Miguel Silva


José Miguel Silva, Erros Individuais, Lisboa: Relógio D'Água, 2010.

Um poema de Edgar Carneiro


Flores para mortos

Não se comem lírios,
Nem cravos e rosas.
De contrário, os poetas
Não as escolhiam
Para as suas glosas.
Nem as flores seriam,
Agora mais raras,
Cobertura fácil
Para as campas rasas.

em A Faca No Pão, Lisboa, 1981, p. 18.

Sobe os Teus Pés a Terra - Soledade Santos

Regresso - Victor Oliveira Mateus



(clique na imagem para aumentar)

Versões: Stephen Crane


LVI

Um homem temia encontrar um assassino;
Outro encontrar uma vítima.
Um era mais sábio do que o outro.


Stephen Crane, «LVI», em The Black Riders & Other Lines (1895), retirado da Electronic Text Center, University of Virginia Library.

Revista Cultural Praça Velha nº. 28


No próximo dia 30 de Novembro, pelas 18h00, decorrerá na Sala Tempo e Poesia da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (Guarda), o lançamento de mais um número da Revista Cultural Praça Velha.

O 28º número inclui um núcleo temático principal dedicado às Comemorações do Centenário da República, que conta com colaborações de Adriano Vasco Rodrigues, Aires Diniz, Antonieta Garcia, António Rafael Amaro, Augusto Moutinho Borges, Carlos d´Abreu, Emilio Rivas Calvo, Dulce Helena Borges, Ernesto Rodrigues, Helder Sequeira e José Manuel Trigo Mota da Romana. A Grande Entrevista ao Professor Gomes Canotilho é conduzida por Fernando Paulouro Neves. Património e História integra artigos de Alexandre Costa Luís, Carla Sofia Luís António Salvado Morgado e José António Rebocho Esperança Pina. Poesia, Contos e Meditações conta com a participação de manuel a. domingos, Portfolio é da responsabilidade de Luís Rebello, Recensões críticas de livros, discos, filmes e objectos inclui colaborações de Aires Almeida, António Godinho, António José Gouveia Dias de Almeida, António José Ramos de Oliveira, Carlos d´Abreu, Emilio Rivas Calvo, Filomena Velho, Francisca Oliveira, Francisco Sousa Lobo, José António Afonso Rodrigues, José Luís Lima Garcia, Levi Manuel Coelho e Maria José Azevedo Santos. Este número termina com a já habitual Súmula de Actividades Culturais.

Poeta (2)



excerto de Donnie Darko, de Richard Kelly, 2001.

Poeta


Numa aula de Língua Portuguesa, após a leitura de um texto sobre o Outono, houve uma pergunta de intrepertação que dizia mais ou menos o seguinte: o Outono é a estação mais poética do ano. Concordas com esta afirmação? Ouvi as respostas mais variadas. De seguida, perguntei eu: como caracterizariam física e psicologicamente "o poeta". Os alunos pensaram um pouco. Resposta: velho, de barba, de certeza que usa óculos, barrigudo, sem músculos, com muita imaginação, culto, baixo, corcunda, sem sentido de humor.

Pan - Knut Hamsun



Knut Hamsun, Pan,
tradução de João Cruz e Mário Cruz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2010.

Versões: Stephen Crane

XIII

Se há uma testemunha para a minha vidinha,
Para as minhas pequenas angústias e lutas,
Ele vê um tolo;
E não é prudente aos deuses ameaçar os tolos.

 
Stephen Crane, «XIII», em The Black Riders & Other Lines (1895), retirado da Electronic Text Center, University of Virginia Library.

Solidariedade


Acabado de chegar à terra onde trabalho. Pelo caminho as luzes dos carros que seguem outros destinos. A música na rádio: entre Coiote e Argonauta. Uma passagem pelas notícias e parece que o FMI vai até à Irlanda. O nosso Ministro de Estado e das Finanças diz que Portugal está solidário com a Irlanda e com os Irlandeses. Um especialista em economia diz que Portugal, provavelmente, terá que pedir dinheiro emprestado a um juro alto para depois o emprestar à Irlanda a um juro mais baixo. É a solidariedade.

Versões: Stephen Crane


XXIV

Vi um homem que perseguia o horizonte;
Às voltas e às voltas apressado.
Tudo aquilo me desesperou;
Fui ter com ele.
“É inútil,” disse-lhe,
“Nunca será possível –“

“Mentiroso,” gritou,
E fugiu.

Stephen Crane, «XXIV», em The Black Riders & Other Lines (1895), retirado da Electronic Text Center, University of Virginia Library.

Uma dica de leitura


Kjell Askildsen, Um Repentino Pensamento Libertador,
tradução de Mário Semião, Porto: Ahab, 2010, 223 pp.

Versões: Stephen Crane


XXXI

Muitos trabalhadores
Construíram uma grande bola de pedra
No topo de uma montanha.
Depois foram para o vale mais abaixo,
E contemplaram a sua obra.
“É magnífica,” disseram;
Adoravam a coisa.

De repente, ela mexeu-se:
Caindo sobre eles;
Esmagando-os por completo.
Mas alguns ainda conseguiram gritar.

Stephen Crane, «XXXI», em The Black Riders & Other Lines (1895), retirado da Electronic Text Center, University of Virginia Library.

Às vezes sou um gajo consciente das suas limitações


Eh porra! Estar para aqui a olhar para um ecrã enquanto ouço Lonesome Town, não é lá muito inteligente da minha parte.

Um poema de Amor do Antigo Egipto

Hora de refeição: tempo de tu partires?
Temo que o estômago seja a tua única amante!

Para quê a pressa? Porquê ir comprar roupa
a uma hora destas? Porquê inquietares-te, meu amor,
São finas as cobertas da minha cama.

Tens sede?
Toma o meu seio,
Exuberante.

em Poemas de Amor do Antigo Egipto, tradução de Hélder Moura Pereira, introdução de Paulo da Costa Domingos, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, p.31.

Ponto da situação


Reduzir a escrita de Charles Bukowski às mulheres, à bebida e ao sexo é o mesmo que dizer que José Saramago não sabia pontuar, que Thomas Bernhard não sabe fazer parágrafos, que Céline não é um grande escritor pelo simples facto de ter sido colaboracionista,  que Vergílio Ferrerira "escrevia em francês com sotaque da Beira" (dito por António Lobo Antunes).

Lindo!!


«[...] A utilização da expressão não é ofensiva, mas sim um modo de verbalizar estados de alma [...] pois tal resulta da experiência comum, que caralho é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo. Por exemplo pró caralho é usado para representar algo excessivo. Seja grande ou pequeno de mais. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas: chove pra caralho..., o Cristiano Ronaldo joga pra caralho... [...] não há nada a que não se possa juntar um caralho, funcionando este como verdadeira muleta oratória.»

Pensamento do dia


Nick Cave and The Bad Seeds - Good Good Day

Hernán Rivera Letelier


««Não é somente nas mãos ou nas cartas que se pode ler o destino, Lorencito, mas também no voo das aves, no ar, no fígado dos galos, nos espelhos, no fumo, no nome de cada um. Até mesmo no uivo dos cães. Essa ciência chama-se ologimancia».
«Eu, madame, pratico a copromancia», diz o acordeonista num tom irónico, já quase a dormir.
A quiromante fica em silêncio.
«Caso a bruxinha não saiba, a copromancia é a ciência de ver a sorte através do desenho que se forma nos papéis com que uma pessoa limpa o traseiro. Para além de prever o que nos depara o destino, pode averiguar-se de passagem, pela cor e consistência da cagada, o estado de saúde, o humor e até os bons ou maus costumes sexuais do cristão que consulta».»

em Os Comboios Vão Para o Purgatório, tradução de Luís Filipe Sarmento, Lisboa: Ulisseia, 2010, p. 111

Diálogos

Há diálogos que ficam para uma vida inteira. De Trainspotting ficaram alguns. De Pulp Fiction outros quantos. De Platoon, também. E agora fica este da série Sobrenatural (de que sou um fiel seguidor). Para quem não sabe: Castiel é um anjo; Dean é um gajo que mata demónios. Estão a falar do fim do mundo.

Castiel: It's starting.
Dean: Yeah, you think, genius?
Castiel: You don't have to be mean.
Dean: So, what do we do now?
Castiel: I suggest we imbibe copious quantities of alcohol... just wait for the inevitable blast wave.
Dean: Yes, well, thank you, Bukowski.

Um poema Mexicano do Ciclo Nauatle


Nascemos para o sono

Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.


em O Bebedor Nocturno, poemas mudados para portugês por Herberto Helder, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p. 65.

Mudança de paradigma


Que o país bateu no fundo, já nós sabemos há muito tempo. A que profundidade estamos, é coisa que ainda está por apurar. No entanto, há um indicador que poderá ajudar: enquanto que há algum tempo atrás a publicidade, em horário nobre, era preenchida com apelos ao crédito bancário rápido e eficaz, agora o horário nobre é preenchido com publicidade a empresas que convertem o seu ouro velho, o ouro que já não usa, em dinheiro novo e pronto a usar.

Hunter S. Thompson


«Vivo num lugar calmo, onde qualquer som durante a noite significa que algo está para acontecer: Acordas sobressaltado – pensas, que barulho é este?
Normalmente não é nada. Mas às vezes… é difícil habituar-nos a uma cidade onde a noite está cheia de sons, todos eles rotineiros. Carros, buzinas, passos… não se consegue descansar; por isso o melhor é mergulhar na estática da televisão até ficar vesgo. Mete a sacana entre canais e relaxa na boa…»

em Fear and Loathing in Las Vegas, versão de manuel a. domingos, Londres: Harper Perennial, 2005, p.63.

Pensamento do dia


Radiohead - Where I End and You Begin

Numa livraria perto de si



Aqui     Aqui    Aqui

Luso-contemporâneos: Pedro Rosa Mendes


Nos últimos dez anos a literatura portuguesa sofreu uma renovação considerável. Falar de uma nova-literatura portuguesa talvez seja exagerado. No entanto, a maior parte dos novos escritores nasceram nas décadas de sessenta e setenta, assim, quer do ponto de vista geracional, quer do ponto de vista do “tom” encontrado para se expressarem, a renovação é evidente. A mudança de paradigma literário também sofreu alteração. Se antes “reinava” a influência francófona, hoje a maior parte da nova geração de escritores portugueses é, de uma maneira mais directa ou indirecta, influenciada pela literatura norte-americana ou hispano-americana. Pedro Rosa Mendes (1968) é um desses escritores. Jornalista de profissão, Pedro Rosa Mendes foi firmando o seu nome no panorama literário português, sendo a publicação de cada um dos seus livros um acontecimento editorial. Em onze anos o autor publicou quatro livros de ficção. São eles Baía dos Tigres (1999) – Prémio de Ficção do Pen Clube Português e Prémio Fernão Mendes Pinto da Câmara Municipal de Cascais –, Atlântico (com o fotógrafo João Francisco Vilhena, 2003), Lenin Oil (com Alain Corbel, 2006) e Peregrinação de Enmanuel Jhesus (2010). Publicou ainda livros de reportagem, de onde se destacam Ilhas de Fogo (2001) e Madre Cacau – Timor (2004).

Se entendermos a literatura de viagens como literatura que se baseia numa viagem literal, incluindo, desta maneira, um olhar sobre a realidade, são poucas as obras portuguesas que cabem nesta definição, principalmente quando a literatura portuguesa de viagens radica na actividade dos descobrimentos marítimos e na necessidade de registar rotas. Aos 31 anos, Pedro Rosa Mendes propôs-se fazer, tal como Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens no século XIX, uma viagem de costa a contra-costa no continente africano, mais precisamente de Angola a Moçambique, num total de mais de 10000 quilómetros. Como repórter de guerra o autor viu e ouviu histórias, conviveu com homens e mulheres em lugares de acesso praticamente proibido, tudo por causa de uma guerra sem tréguas, correndo o risco – por certo bastante evidente – de poder desaparecer sem deixar rasto. Assim nasceu Baía dos Tigres, romance que revelou uma das vozes mais seguras da nova-literatura portuguesa.

Neste seu primeiro romance, Pedro Rosa Mendes empresta a sua voz a vários narradores, desenvolvendo um conceito que muitos autores da nova geração também desenvolveram: a polifonia. No entanto, não se trata de uma polifonia onde as vozes se misturam e muitas vezes se confundem, criando uma espécie de wall of sound (em alguns casos podemos falar em wall of noise). Em Pedro Rosa Mendes a polifonia é assumidamente polifónica e não “ruídofónica”, pois o autor consegue, numa simbiose cuidada, relacionar a vertente real com a ficção. Para isso o autor introduz na “ficção” entrevistas gravadas, relatos históricos (em que o autor cita as fontes), receitas para curar diversas maleitas, histórias anónimas de gente anónima, excertos de outros livros e a sua viagem (propriamente dita) – seguindo à risca a “receita” que Bruce Chatwin estabeleceu em Na Patagónia e O Canto Nómada. No entanto, Pedro Rosa Mendes nunca perde a noção de que está a escrever sobre Homens e Mulheres, pois a viagem é apenas a “desculpa” para o autor concretizar este seu objectivo. Pedro Rosa Mendes procura, em certa medida, demonstrar que o absurdo do mundo (esse que nos chega através ou dos jornais ou da televisão – e hoje cada vez mais através da internet) é apenas um motivo para quem está sentado, no conforto do seu lar, poder dizer que as coisas vão mal lá fora. Ao lermos Baía do Tigres ficamos a saber que o absurdo, como tudo na vida, é relativo. Ficamos a saber que absurdo, para alguns e em alguns lugares do mundo, é ver água a correr das torneiras.

Se alguém pensa que vai encontrar em Baía dos Tigres um certo exotismo inerente a outros relatos de viagens, desengane-se. Em Baía dos Tigres encontramos a vida, a morte, a arte de sobreviver de gente que pouco ou nada tem para viver, morrer ou sobreviver.

(texto publicado no suplemento literário Correio das Artes, Outubro 2010, Ano LXI, nº. 10, do jornal A União, João Pessoa, Brasil)

Pensamento do dia


Pink Floyd - Obscured By Clouds

Por esta é que não estavas à espera, Harold Bloom


Correcção de uma Ficha de Avaliação Sumativa de Língua Portuguesa. Primeira pergunta de interpretação: "Identifica o tipo de narrador do texto que acabaste de ler". Resposta de um dos alunos: "O narrador é do tipo apresentável.". 

Cansaço

Sabem o que é estar cansado? É uma pessoa não se aperceber que está. E depois é tarde.

Rusga - Vasco Gato




Vasco Gato, Rusga, Lisboa: Trama, 2010.

Ensino Recorrente



No alvo


Fui atingido por dardos e parece que tenho de retribuir. Aqui vão os meus nomeados:

(do Senhor Silva que mora no nº 71 da rua e que, secretamente, escreve sobre literatura comparada);
(do Marco que namora com a Rita e que alimenta uma secreta paixão pelo André que prefere a Joana que ainda não decidiu com quem vai ficar: se com o João ou a Matilde)
Eu bebo coisas à noite (blogue dedicado, em exclusivo, aos poemas mudados para português de Herberto Helder)
A Rapariga Mais Bonita da Cidade (blogue escrito a duas mãos)

Hernán Rivera Letelier


«De repente, o comboio desacelera. Uma curva apertada aparece a menos de cem metros de distância. Entre bamboleios e chiar de rodas, o comboio começa a fazer a curva e Lorenzo Anabalón tem de se agarrar com as duas mãos para manter o equilíbrio. Agora, o Sol ficou directamente à sua esquerda. É um sol vermelho, grande, redondo. «Parece um disco de 33 rotações», diz, suspirando. E quando, pleno de felicidade, começou a assobiar uma cantiga mexicana, dessas da revolução, ouve a voz de um menino que grita fortemente:
«Está um homem a cagar no tejadilho!».
Lorenzo Anabalón volta a cabeça surpreendido: à sua direita, logo ao dobrar da curva, a sombra lenta do comboio começa a recortar-se no chão e, aí, sobre o tejadilho do vagão desenha-se perfeitamente a sua figura de cócoras na superfície da areia.»

em Os Comboios Vão Para o Purgatório, tradução de Luís Filipe Sarmento, Lisboa: Ulisseia, 2010, p. 39.

Alice #4


Pensamento do dia


Nick Cave and the Bad Seeds - Saint Huck

Charles Bukowski - Ham on Rye: Pão com fiambre


Charles Bukowski, Ham on Rye: Pão com fiambre,
tradução de manuel a. domingos, Lisboa: Ulisseia, 1ª edição, 2010.

Letelier


Não sou fã do realismo mágico sul-americano, apesar de um dos livros que mais gostei de ler, e conhecer, ser Pedro Páramo. Mas Letelier tem a capacidade de me fazer ler, de uma só vez, 50 páginas sem interromper, como se nem respirar fosse necessário (algo que não acontece muitas vezes). Está a ser uma agradável surpresa este Os Comboios Vão Para o Purgatório (Ulisseia, 2010).

Beco


Às vezes sou um gajo atrevido. Isto é: atrevo-me a percorrer caminhos que apenas me levarão a becos sem saída. E depois queixo-me. Ando, por assim dizer, farto de queixumes. Mas isso já o leitor mais atento sabe, pois já estou farto de aqui me queixar sobre isso. O pior, e isso sim irrita-me, é que gosto de becos sem saída. Na realidade, um beco sem saída é algo que pode ter as suas vantagens. Um beco sem saída obriga a recuar e tomar consciência da merda que antes fizemos.

Os Comboios Vão Para o Purgatório - Hernán Rivera Letelier



Hernán Rivera Letelier, Os Comboios Vão Para o Purgatório,
tradução de Luís Filipe Sarmento, Lisboa: Ulisseia, 2010.

Bed time


Tenho ali um Vila-Matas a olhar para mim. Mas hoje vou para a cama de comboio. Daqueles que vão para o purgatório.

Chuva, vento


A chuva regressa. Parece que o vento vem a caminho. Estão alguns distritos em alerta laranja. E eu estou a precisar de cortar o cabelo.

Finalmente!



Finalmente, Michel Houellebecq ganha o Goncourt. Para quem ainda não leu, um conselho: leiam. E sim, estou a utilizar o imperativo.

Schopenhauer


---«Aquilo que realmente falta às patéticas cabeças vulgares de que o mundo está cheio são duas faculdades estritamente relacionadas: a de fazer julgamentos e a de produzir ideias próprias. Mas estas faltam de uma tal forma que uma pessoa que não pertença a esse grupo dificilmente poderá conceber, pelo que não lhe é fácil conceber a tristeza da sua existência. É essa deficiência, contudo, que explica, por um lado, a pobreza da escrita que todas as nações fazem passar por literatura aos seus contemporâneos, e, por outro, o destino que atinge homens verdadeiros e genuínos que aparecem entre essa gente.»

em Aforismos, tradução de Alexandra Tavares, Lisboa: Publicações Europa-América, 1998, p. 16.

Coral


Poucas são as coisas que me fazem feliz. Mas uma delas é ver-te ler poesia, enquanto escutamos a nona, "A Coral", essa grandiosa obra de arte.

Um poema de Albano Martins

É preciso arrancar as árvores,
impedir que a noite suba,
descalça, pelos seus ramos.
É preciso, e já.
Antes que a sombra se farte
e nos vomite nos olhos.

de Coração de bússola (1967) em Assim são as algas: Poesia 1950-2000, Porto: Campo das Letras, colecção Campo da Poesia, 1ª edição, 2000, p. 51.

Pensamento do dia



Foals - Black Gold

Lí por aí


«De acordo com o director da Sala de Imprensa da Santa Sé e porta-voz do Vaticano, o teólogo, presbítero e padre jesuíta Federico Lombardi, a Igreja católica é mais vítima do que culpada da «praga dos abusos sexuais», a qual avisadamente vê como «uma das pragas do mundo actual». Os motivos do flagelo parecem-lhe óbvios: a presente «crise da família», a desordem trazida pelo turismo e o comércio sexual facilitado «pela Internet e pelas novas formas de comunicação.» Eis de novo a reacção típica da hierarquia da Igreja católica, que a propósito do tema confunde causas e instrumentos. Insiste em ignorar, em termos públicos, uma ligação mais do que óbvia entre a autoridade da função sacerdotal e da própria Igreja junto de numerosas pessoas e comunidades, a intensa repressão sexual que esta insiste em pregar e impor como norma de conduta, e os abusos recorrentes, que na esmagadora maioria dos casos permanecerão aliás no mais completo silêncio, devido ao pudor ou ao receio dos envolvidos. Na Irlanda, para não ir muito longe, conhecem-se números aterradores sobre a proliferação deste tipo de situações, ocorrida de forma transversal e vertical no conjunto da instituição e das suas ramificações, mas o volume de denúncias públicas é ainda bastante moderado. Para não falarmos daquilo que inevitavelmente aconteceu nos mais variados recantos do mapa ao longo de séculos de coacções e silêncios. Nessa longa era de paz e de sossego sem Internet ou outras formas livres de comunicação que perturbassem, com conversas bastante inoportunas e indecorosas sugestões, o casto descanso, por vezes aromatizado com suor e sémen, das celas, das camaratas e das sacristias.»

Rui Bebiano em A Terceira Noite

Manteigas e Coimbra


Desde o dia 16 de Outubro passei a residir em Coimbra. Mas continuo a ser de Manteigas. O Zêzere corre-me nas veias. O sotaque na fala. E nisso não há qualquer equívoco.

Estou Tramado


A Trama já reabriu. É verdade que não fui lá muitas vezes. É verdade que nem sempre trouxe livros (já antes tinha passado pela Rua Anchieta). É verdade que gostaria de poder ir lá mais vezes. Mas também é verdade que sempre fui muito bem recebido. E é verdade que sinto-me lá muito bem.

Toma que é para aprenderes


Há pouco, e pelo simples facto de ter falado mal do Senhor Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva (figura que nunca me foi simpática e continua a não ser), fui "catalogado" de socrático. E não me estou a referir ao filósofo.

Que se lixe o OE e o debate sobre o OE e o raio da Dívida Soberana ou Pública ou lá o que é...


...o que me lixa é que devido à cimeira da NATO não vou poder ver os Arcade Fire.

Um poema de Ben Ammar


A Leitura

Meus olhos resgatam o que está preso na página: o branco do branco e o preto do preto.

em O Bebedor Nocturno, poemas mudados para português por Herberto Helder, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p. 107.