A Fábrica da Noite - Cláudia Clemente


Claúdia Clemente, A Fábrica da Noite, Lisboa: Ulisseia, 2010.

Humor

Tento, sempre que posso (e muitas vezes quando não posso), ter sentido de humor. É claro que, às vezes, não é fácil. Mas sem sentido de humor tudo é mais difícil, intolerável. Vergílio Ferreira dizia que o português quando era atingido pela desgraça ou rezava ou descomprimia através da anedota. Não sei se isso é ter sentido de humor. Eu cá tento ter o meu sempre em dia.

Tombstone (7/10)

Anónimos

Um vez disse aqui que gosto de anónimos. São necessários, fundamentais. Sem eles o debate de ideias não existiria. Sem eles os blogues eram um deserto. Gosto, particularmente, dos anónimos que chegam do Sul (Faro), através de blogues com “sede” no Sul.

Pensamento do dia


Garotos Podres - Oi! Tudo bem?

- OI tudo bem ?

...Fora o tédio que me consome 24 horas por dia
fora decepção de ontem a decepção de hoje
e a desesperança crônica no amanhã,
tenho vontade de chorar,
raiva de não poder,
quero gritar até ficar rouco,
quero gritar até ficar louco,
isso sem contar com a ânsia de vômito,
reação a tal pergunta idiota
...Fora tudo isso...
...tudo bem.

Lí por aí

«Trabalhar aos domingos é muito bom, sobretudo para quem não trabalha aos domingos.»

Henrique Manuel Bento Fialho em Antologia do Esquecimento

Um poema de Iwan Goll

Recitativo do Requiem para os caídos da Europa (1917)

Quero queixar-me dos homens no exílio do seu tempo;
Queixar-me das mulheres de coração jubilante, agora a gritar
---num lamento;
Quero acumular e repetir todos os queixumes
De viúvas apertando-se em corpetes impacientes, no crepitar
---de lumes;
Ouço crianças de loira voz que antes de irem para a cama
---perguntam por Deus-Pai;
Em todos os lintéis vejo retratos com hera, sorrindo fiéis ao
---tempo que já lá vai;
De todas as janelas ardem para pétreos longes olhares de
---raparigas abandonadas;
Em todos os jardins se cultivam sécias, como se já as campas
---tivessem de ser preparadas;
Em todas as ruas os carros se movem mais lentos, como num
---enterro;
Em todas as cidades tocam mais forte os sinos, porque há
---sempre mais um que às balas tombou em qualquer cerro;
Em todos os corações há um lamento
E em cada dia o ouço mais violento.

em A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas, selecção, tradução, introdução e notas de João Barrento, Lisboa: Relógio D' Água, 2001, p. 123.

Santa Teresa de Jesus

---«Quero-me explicar melhor, pois creio que me meto em muitas coisas. Sempre tive esta falta de não me saber dar a entender – como já tenho dito – senão à custa de muitas palavras.»


em Livro da Vida (1565), inserido nas Obras Completas, tradução de Vasco Dias Ribeiro, introdução e notas de Tomás Álvarez, Paço de Arcos: Edições Carmelo, 2000, p. 109.

Galos

Perto da casa onde vivo existem umas capoeiras algures atrás de um muro. Nelas os galos gostam de mostrar os seus dotes vocais. Quando um começa logo outro lhe responde. Parece que estão numa desgarrada. Chega ao ponto em que os galos começam a ficar roucos de tanto "cantar". Fazem-me lembrar os Excelentíssimos Senhores Deputados na Assembleia da República.

ARtv

Vejo, na SIC Notícias, a ARtv. Está uma Senhora do PP a falar. Mas quando olhei pensei que fosse do PCP.

Anarco-comodismo

Fiz greve. Fui almoçar fora.

O prisma das muitas cores (org. Victor Oliveira Mateus)

ADALBERTO ALVES, AGRIPINA COSTA MARQUES, ALBANO MARTINS, ALBERTO DA COSTA E SILVA, ALBERTO SOARES, ALEXANDRE BONAFIM, ALEXEI BUENO, ALICE FERGO, ALICE VIEIRA, ÁLVARO CARDOSO GOMES, AMÉLIA VIEIRA, ANA HATHERLY, ANA LUÍSA AMARAL, ANA MIRANDA, ANTÓNIO DE ALMEIDA MATOS, ANTONIO BRASILEIRO, ANTÓNIO CARDOSO PINTO, ANTÓNIO CARLOS CORTEZ, ANTONIO CARLOS SECCHIN, ANTONIO CÍCERO, ANTÓNIO JOSÉ QUEIROZ, ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA, ANTONIO MIRANDA, ANTÓNIO RAMOS ROSA, ANTÓNIO SALVADO, ARTUR F. COIMBRA, CARLOS FERREIRA AFONSO, CARLOS NEJAR, CARLOS VAZ, CASIMIRO DE BRITO, CLÁUDIO LIMA, CLÁUDIO NEVES, CLERI APARECIDA BIOTTO BUCCIOLLI, daniel gonçalves, DIRCEU VILLA, DONIZETE GALVÃO. E. M. DE MELO E CASTRO, ERNESTO RODRIGUES, EUNICE ARRUDA, FERNANDO ESTEVES PINTO, FLÁVIO MOREIRA DA COSTA, FLORIANO MARTINS, FLORISVALDO MATTOS, GILBERTO MENDONÇA TELES, GISELA RAMOS ROSA, GLÓRIA DE SANT'ANNA, GONÇALO SALVADO, GRAÇA PIRES, HÉLIA CORREIA, HENRIQUE LEVY, HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO, HUGO MILHANAS MACHADO, IACYR ANDERSON DE FREITAS, ILDÁSIO TAVARES, INÊS LOURENÇO, ISABEL WOLMAR, IVAN JUNQUEIRA, JAIME ROCHA, JOÃO DE MANCELOS, JOÃO NEGREIROS, JOÃO RICARDO LOPES, JOÃO RUI DE SOUSA, JOAQUIM CARDOSO DIAS, JOEL HENRIQUES, JORGE REIS-SÁ, JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA, JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, JOSÉ EMÍLIO-NELSON, JOSÉ FÉLIX DUQUE, JOSÉ JORGE LETRIA, JOSÉ MANUEL CAPÊLO, JOSÉ MANUEL MENDES, JULIANA MIRANDA, LARA DE LEMOS, LÊDO IVO, LUÍS ADRIANO CARLOS, LUÍS FILIPE CRISTÓVÃO, MAIARA GOUVEIA, manuel a. domingos, MANUEL MADEIRA, MANUEL NETO DOS SANTOS, MARCO LUCCHESI, MARGARIDA VALE DE GATO, MARIA ALBERTA MENÉRES, MARIA ANDRESEN, MARIA AUGUSTA SILVA, MARIA AZENHA, MARIA DO CARMO CAMPOS, MARIA CARPI, MARIA ESTELA GUEDES, MARIA JOÃO FERNANDES, MARIA LUCÍLIA MELEIRO, MARIA QUINTANS, MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, MARIA DO SAMEIRO BARROSO, MARIA TERESA DIAS FURTADO, MARIA TERESA HORTA, MARIA TOSCANO, MARIANA IANELLI, MÁRIO CLÁUDIO, MATILDE ROSA ARAÚJO, MIGUEL-MANSO, MILTON TORRES, MYRIAM FRAGA, NEIDE ARCHANJO, NUNO DEMPSTER, NUNO JÚDICE, OLGA SAVARY, PAULO FRANCHETTI, PAULO MOREIRAS, PAULO TAVARES, PEDRO LYRA, PEDRO SENA-LINO, POMPEU MIGUEL MARTINS, RENATA PALLOTTINI, RICARDO DOMENECK, RODRIGO PETRONIO, ROSA ALICE BRANCO, RUI ALMEIDA, RUI COIAS, RUI COSTA, RUI LAGE, RUY ESPINHEIRA FILHO, RUY VENTURA, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA, SÉRGIO NAZAR, TERESA RITA LOPES, TERESA VIEIRA, TIAGO NENÉ, URBANO TAVARES RODRIGUES, valter hugo mãe, VERA LÚCIA DE OLIVEIRA, VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA, VICTOR OLIVEIRA MATEUS e VÍTOR OLIVEIRA JORGE.

Óbvio

A verdade é que poucos são os romancistas vivos que me interessam. Mas penso que isso é mais ou menos óbvio.

Um poema de Alfred Wolfenstein

Citadinos


Como os buracos de um crivo, apertadas,
As filas de janelas; empurrando-se,
As casas tocam-se de perto, erguendo-se
Pardas e inchadas como estrangulados.


Engalfinhadas umas nas outras vejo
No carro eléctrico as duas fachadas
De gente, descarregando olhares, caladas,
E cresce o emaranhado do desejo.


As paredes são finas como a pele,
Todos me ouvem quando choro, ou então
É como um berro a conversa ciciada:

Emudecidos, em caverna fechada,
Sem ninguém que lhes toque, olhe para eles,
Todos estão longe e sentem: solidão.


em A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas, selecção, tradução, introdução e notas de João Barrento, Lisboa: Relógio D' Água, 2001, p. 53.



Lembradura

Lembro-me de ter sido criança e lembro-me, perfeitamente, de não deixar de o ser. Só assim se compreende um pouco daquilo que aqui escrevo.

Há muito que ando

Há muito que ando a pensar escrever um texto que seja considerado de um virtuosismo extraordinário e que na realidade exprima todo o descontentamento com o mundo bem como todas as questões existenciais que permitem este diálogo comigo e com os outros embora os outros pouco me importem no sentido em que muito me têm a dizer e ensinar mas pouco ou nada podem fazer para alterar seja o que for. É claro que o sentido de tudo isto não é muito.

A Alma e o Caos



Comprei A Alma e o Caos no passado sábado. Já era tempo de ler uma pouco da poesia alemã do século XX. É claro que se trata da chamada “poesia expressionista”. Mas penso que é um bom início. Poetas alemães conheço poucos: Paul Celan (poemas dispersos), Johannes Bobrowski (lia a antologia Como um Respirar), Novalis (poemas dispersos), Ulla Hanh (li A Sede Entre os Limites). Ainda não me atrevi a ler Hölderlin. Talvez seja o próximo.

Um poema de Wilhelm Klemm

Programa

Não queremos poesia de género algum,
Queremos truques mágicos de saco,
Procuramos tapar na existência um fatal buraco.
E apesar de esforço insano não tapamos nenhum.

Mas que sabeis vós outros do secreto aspirar,

Dos soluços de divina histeria que em gargantas choram,
Quando, plenamente absorvidos pelo haxixe da alma elementar,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Eoneamente os deuses moram?




em A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas, selecção, tradução, introdução e notas de João Barrento, Lisboa: Relógio D' Água, 2001, p. 37.

E por aí em diante

Tenho a sorte de, neste momento, estar empregado. Dias há em que chego ao trabalho e enervo-me só com olhar para a cara dos meus colegas, ouvir as suas vozes, ficar a par das suas vidinhas. Mas hoje não. Chego ao trabalho e sinto-me bem. Penso: nada mau, nada mau (e não me estou a referir a uma colega bem gira que por aqui anda), gente há que nem isto tem. Depois, pego no comando do carro e tranco-o. Vejos os piscas a piscar. Penso: nada mau, nada mau. Sinto a barriga cheia, pois tomei pequeno-almoço. Penso: (ok, já sabem o que penso). E por aí em diante.

Ensino Recorrente

E o vencedor é

Devem estar quase, quase a rebentar.

Quase dois anos

Há quase dois anos entreguei uns quantos poemas para serem publicados numas revistas. Quase dois anos passados, lembro-me destas sábias palavras de Charles Bukowski.

Estatísticas

O blogger disponibilizou recentemente as "Estatísticas". Eu acho piada às "Estatísticas". Por exemplo: fico a saber que o post mais lido "de sempre" é este, o que, em certa medida, me preocupa; também fico a saber que a palavra-chave mais procurada é "meia noite todo o dia", o que, em certa medida, me preocupa, pois podiam muito bem procurar "soraia chaves nua"; e fico a saber que o Café Mondego lidera os URLs de referência, o que não me preocupa nada.

Lí por aí

«Hoje entrei pela primeira vez na Boulangerie de Paris, comprei dois flans de ameixa para a sobremesa. Quando cheguei a casa tinha mais uns filmes de Rohmer na caixa do correio. Ao jantar pensei em Pascal mas, por pudor, não disse nada sobre o assunto. Ah, gosto tanto quando a vida segue a cadência doce das estações e dos provérbios.»

Pensamento do dia

Foals - Olympic Airways


The hell outside's kept away
If only we could move away
From here

Hoje deu-me para isto

Espero que o novo design aqui do sítio seja do agrado dos caríssimos leitores que aqui vêm. Foi o melhor que se conseguiu arranjar. Está ao meu gosto. Mas penso que ainda vou dar uns retoques aqui e ali. A ver vamos. Por agora fica assim. Tive de retirar a frase de apresentação (da autoria de Vergílio Ferreira), pois estava demasiado grande para o meu gosto e não consegui alterar o seu tamanho. A todos os que aqui continuam a vir: o meu muito e sincero obrigado.

Um poema de Gottfried Benn

Ciclo

O molar solitário de uma prostituta
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é da terra à terra deve voltar.


em A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas, selecção, tradução, introdução e notas de João Barrento, Lisboa: Relógio D' Água, 2001 p.255

Problema resolvido

Alterei o design da coisa.

Blogger e eu


Aderi ao novo sistema de edição de texto do blogger. Não gosto. O grande é demasiado grande e o normal demasiado pequeno. E agora não sei voltar ao que tinha antes. Alguém me consegue ajudar.

Um poema de Konstandinos Kavafis

Teódoto

 
Se és dos verdadeiramente eleitos,
procura conseguir o teu predomínio.
Por muito que te glorifiquem, as tuas façanhas
na Itália e na Tessália
por muito que as apregoem as cidades,
por muitos decretos honoríficos
que arranjem em Roma os teus admiradores,
nem a tua alegria, nem o teu triunfo durará,
nem um superior – o que é superior? – humano te sentirás,
quando, em Alexandria, Teódoto te levar,
numa salva ensanguentada,
a cabeça vil de Pompeu.


E não fiques descansado por na tua vida
limitada, ordenada, e prosaica,
não haver tais coisas espectaculares e horrorosas.
Talvez nesta hora na casa composta
de algum vizinho teu entre –
invisível, imaterial – Teódoto,
levando uma cabeça assim horrenda.



em Poemas e Prosas, tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Lisboa: Relógio D’Água, 1994, p. 31.

Pensamento do dia


Rollins Band - Low Self Opinion

Unforgiven (10/10)

René Girard

---«Quando as sociedades estão em crise, isto é, quando todas as pessoas desejam a mesma coisa e procuram obtê-la pela força, estamos perante o que chamo uma crise mimética, extremamente violenta, porque cada um entra nessa violência. Sabemos que uma sociedade pode-se desorganizar ao ponto de entrar numa crise que ameace a sua sobrevivência futura.
---Se observamos os mitos, constatamos que a maior parte deles começa por uma tal crise. Por exemplo, a peste do mito edipiano é uma imagem desta violência propagada por toda a parte. Algumas vezes é uma crise social, outras, uma crise natural, ou que aparenta ser natural mas que, na realidade, dissimula o que referi: a crise do desejo mimético. Quando dois indivíduos desejam a mesma coisa, junta-se-lhes um terceiro; e quando existirem três, logo haverá um quarto, e a partir deste momento, adivinhamo-lo, as sociedades primitivas têm tendência para se mobilizar todas em lutas insensatas. São então ameaçadas pela destruição total.»



em O Bode Expiatório e Deus, tradução de Márcio Meruje, Colecção Textos Clássicos de Filosofia, Covilhã: LusoSofia, Universidade da Beira Interior, 2009, p. 6.

Polémicas


Gosto bastante de polémicas. Principalmente de polémicas à portuguesa. Mas, bem vistas as coisas, não conheço outro tipo de polémicas. Isto é: não conheço polémicas estrangeiras, só portuguesas. E, bem vistas as coisas, em Portugal não há polémicas. Antes palmadinhas nas costas.

Hunter S. Thompson


“Speeding is one thing, but Drunk Driving is quite another.”

em Fear and Loathing in Las Vegas, Londres: Harper Perennial, 2005, p. 91.

Zapata (1/10)


O que importa afinal?


O relógio da torre da igreja acabou de dar as dez horas da noite. Na televisão dá um filme com Jet Li. Eu gostei de ver um filme com o Jet Li: Danny the Dog. Fui ao cinema e tudo. Não esperei pelo DVD. Tem uma superior banda-sonora concebida pelos Massive Attack. É claro que isso pouco ou nada importa. O que importa afinal?

Quéça merda, pá!


Hoje, só 36 visitas?

Adenda (às 21h46m): parece que já vai nas 63.

Xixi, cama


E agora vou-me deitar, que já são horas.

Once Upon a Time in the West (10/10)


Hoje é só queixas


Estive a fazer contas. Num mês, com trinta dias, estou oito dias com aqueles que me são queridos.

Cozinhar


Gosto de cozinhar. Compro livros de culinária. Por vezes vou a este ou àquele blogue de culinária. só que há um problema. Vivo sozinho. E não gosto de cozinhar só para mim.

Ponto da situação


Há três noites que não durmo como deve ser.

Pensamento do dia


Foals - Spanish Sahara

The Man Who Shot Liberty Valence (10/10)


1.8 milhões


A pior coisa que pode acontecer a alguém é deixar de saber o que fazer ou dizer. Parece que de pouco ou nada serve uma pessoa fazer ou dizer. Por exemplo: uns Senhores receberam 1.8 milhões de euros de indemnização. Pelos vistos receberam a indemnização após abandonarem, repito: abandonarem, os cargos que ocupavam na Portugal Telecom. Não deixa de ser curioso que tal aconteça. Corrijo: já não é curioso que tal aconteça. Sinceramente não sei que raio de contratos estes Senhores arranjam. Sempre ouvi dizer que quando uma pessoa abandona o emprego/trabalho que tem, não recebe ou não tem direito a indemnização. Alguns nem direito a subsídio de desemprego têm. E outros ainda têm de pagar uma indemnização ao patrão. Mas estes Senhores não: abandonam o cargo que ocupam e recebem, em conjunto, uma indemnização de 1.8 milhões.

Odisseia


Aquilo que vou dizer não é novidade nenhuma. Outros o disseram antes de mim. Eu só há poucos dias me apercebi. Odisseia é, sem dúvida, o livro. Está lá tudo. De facto, a única hipótese é fazer o mesmo, mas melhor. Embora seja difícil. Mas tentar. Nem que seja para falhar.

The Hangman (9/10)


Não há paciência


Começo a não ter paciência para este calor. Não é natural que em setembro esteja um calor destes. E nem uma brisa corre. Chiça!

Charles Bukowski


«some men hope for revolution but when you revolt and set up your new government is still the same old Papa, he has only put on a cardboard mask.»

em Notes of a Dirty Old Man, London: Virgin Books, 2008, p. 55.

Pisístrato


E depois há os nomes: Pisístrato, Pisenor, Telémaco, Haliterses, Eurímaco, Alcandre, Megapentes...

Helena


A Odisseia repousa na mesinha-de-cabeceira. Nunca pensei ler algo como Helena a dizer: «(...) quando por causa da cadela que sou (...)» (Odisseia, BI.038, p. 70). Sempre ouvi dizer que Helena era a mulher mais bela da antiguidade. Mas a sua auto-estima não era lá grande coisa.

Homero?


Finalmente comecei a ler Odisseia. E devo dizer uma coisa: tenho pena de não saber grego.

Natália Correia




Por culpa exclusivamente minha ainda não tenho nenhum livro de Natália Correia. Dela li alguns poemas dispersos por antologias. Li excertos do seu diário Não Percas a Rosa. Diário e algo mais (25 de Abril de 1974 - 20 de Dezembro de 1975). Li o que Vergílio Ferreira escreveu sobre ela no seu Conta-Corrente. Mas o que guardo de Natália Correia, e perdoem-me, é que tinha "mais tomates" do que certos homens deste país. Guardo, também, a sua beleza. Se fosse viva faria hoje 87 anos.

Versões: Elizabeth Bishop


Quatro poemas


II / Chuva ao Encontro da Manhã

A grande e leve gaiola partiu-se em pelo ar,
libertando, penso eu, perto de um milhão de pássaros
cujas erráticas sombras nunca mais irão regressar,
e todos os arames caíram pelo chão.
Sem gaiola, sem pássaros assustados; a chuva
começa agora a brilhar. O rosto pálido
tentou o puzzle que os aprisionava
e resolveu-o com um beijo inesperado,
cujas mãos sardentas iluminou.

Elizabeth Bishop, «Four Poems» de A Cold Spring (1955), em Complete Poems, Londres: Chatto & Windus, 2004, p. 77.

Pensamento do dia


Arcade Fire - Ready to Start



Businessmen drink my blood
Like the kids in art school said they would
And I guess I'll just begin again
You say can we still be friends

If I was scared, I would
And if I was bored, you know I would
And if I was yours, but I'm not

All the kids have always known
That the emperor wears new clothes
But to bow to down to them anyway
Is better than to be alone

If I was scared, I would
And if I was bored, you know I would
And if I was yours, but I'm not

Now you're knocking at my door
Saying please come out against the night
But I would rather be alone
Than pretend I feel alright

If the businessmen drink my blood
Like the kids in art school said they would
Then I guess I'll just begin again
You say can we still be friends

If I was scared, I would
And if I was pure, you know I would
And if I was yours, but I'm not

Now I'm Ready to Start

If I was scared, I would
And if I was pure, you know I would
And if I was yours, but I'm not

Now I'm Ready to Start

Now I'm Ready to Start
I would rather be wrong
Than live in the shadows of your song
My mind is open wide
And now I'm ready to start

Now I'm Ready to Start
My mind is open wide
Now I'm Ready to Start
Not sure you'll open the door
To step out into the dark
Now I'm ready!

Um poema de Rose Miller Stuart


I am telling you!
the American Way is

the sacrament of foul mouth
the devil of mental-dictators
the duty of a factory foreman
the replica production of helpless young doctors
the victory of being born old
the purposeful limitless of something sad
the feeding of their Young
the burden of dissatisfaction
the essential smile of the weight of the world

I am telling you!
the American Way is

a miracle
burning with purity


em Lashes, introdução e notas de Allen Cohen, Boston: Marrow Press, 1985, p. 23.

Rose Miller Stuart (1920-1941)


A verdade é que poucos são aqueles que poderão dizer que conheceram Rose Miller Stuart. Nascida no seio de uma família abastada da Nova Inglaterra, Rose Miller Stuart era a filha mais velha de John Sebastian Miller Stuart e de Martha Anglelica Stuart (que antes de casar ostentava o nome Davies). A educação de Rose Stuart não fugiu ao paradigma wasp: cedo foi inscrita num colégio interno. Aí, numa pequena vila costeira do Maine, nos arredores da cidade de Sanford, estudou que a mulher tem um papel fundamental a desempenhar no seio da família e que deve, a todo o custo, evitar o escândalo. Todos os arquivos do colégio revelam que Rose Miller Stuart foi uma aluna aplicada, com preferência pelas Letras em detrimento das Ciências, apesar de ter sido aluna do quadro de excelência durante cinco anos consecutivos. Em Março de 1939, ficou inexplicavelmente doente. Consultados os melhores médicos, cedo se concluiu que Rose sofria de uma doença até então desconhecida. Depois de dois anos de sofrimento, Rose Miller Stuart morre em casa dos seus pais. No ano de 1947, a sua irmã – Matilda Miller Stuart – descobriu no sótão de sua casa uma série de cadernos negros, que até então estavam ocultos no fundo de um baú. Neles estavam escritos centenas de poemas, que muitos consideram ser os precursores da poesia beat, devido, essencialmente, ao uso de uma linguagem muito perto da oralidade e dos ritmos do jazz (parece que Rose era grande apreciadora deste estilo musical). O crítico de poesia norte-americano Allen Cohen, no seu ensaio 1, 2, 3… the way things are, refere-se à poesia de Rose Miller da seguinte maneira: «the poetry of Rose Miller is the beggining and the end of all the beat poetry» (Cohen, 1965). Muitos consideram-na devedora da poesia de Rimbaud.


I stand
under silver wing
the dark light
in the dark thin gas clouds
and I look up at silver
eyeball.

born here
where the lights
are people.

I am a raincoat
cigarette in mouth
hat over hand.

I cross the street
full of lost watches.

dragonflames licking
green
--------metallic
----------------rubble,

dry wasteland
scratched by

beaten / jailed / coccyx
broken men.

Ensino Recorrente



Thorsten Silberschatz (1890-1920)


Quando em 1870 Thorsten Silberchatz nasceu o seu destino já estava traçado. O pai, mestre-escola da numa pequena aldeia do actual município de Gösen, cedo lhe incutiu o gosto pela música. Silberchatz aprendeu a tocar piano com cinco anos de idade, compondo a sua primeira obra – ao gosto romântico – com apenas nove anos. Com onze anos partiu para Viena, indo para casa de um tio abastado que providenciou a sua educação. Aos dezoito anos ingressou no Conservatório de Viena. Depois de concluído o Curso Superior de Composição, Thorsten Silberchatz partiu numa viagem pelos Balcãs, onde entrou em contacto com a música popular daqueles países. Muitos afirmam, nomeadamente o musicólogo inglês Richard Lawson, que este contacto directo «with music as rich as that of the Balcans» (Lawson, 1957), influenciou Silberchatz nas suas composições futuras, onde as matizes da música popular estão presentes de uma forma reveladora e, tendo em conta o panorama musical europeu, vanguardista. Músicas como Zigeunerlager, Getötet durch eine Gypsy Waltz e Der kleine Fötist são prova evidente. De regresso à Áustria, Silberchatz concorre a um lugar de professor de Composição no Conservatório de Viena, lugar que ocupa até ao dia da sua morte. No verão de 1920 conhece Arnold Schoenberg, com quem estabelece amizade. Silberchatz há muito que considerava falido o sistema tonal. Desde 1916 que procurava estabelecer um novo sistema de organização de alturas musicais, em que as doze notas da escala cromática seriam tratadas como equivalentes. No dia 10 de Outubro de 1920 Thorsten Silberschatz não comparece às aulas no Conservatório de Viena. Nunca mais foi visto.

A propósito de Cartesius, que, segundo a nota de rodapé, é Descartes




Sinceramente não sei se faço aquilo que digo e se digo aquilo que faço. É difícil. Tento ser honesto, lá isso tento. Humilde, não sei. É um discurso que me irrita: o da humildade. É como os jogadores de futebol: temos de ser humildes. É recorrente. Irrita-me. A humildade, e todo o seu discurso, é mais um mecanismo de opressão. Explico: ninguém pode dizer que é bom quando é realmente bom. Não. Tem de ser humilde. A humildade sempre foi vista como característica de quem é sábio. Os verdadeiros sábios, aprendemos logo de pequeninos, são humildes. Quanto a mim o verdadeiro sábio é aquele que se cala quando sabe que nada há mais a dizer, para não cair no ridículo. Qual é, afinal, a humildade em se declarar humilde?


Nota: a foto que ilustra este post foi encontrada no Google depois de pesquisar a palavra “humildade”. Alguém, na internet, lembrou-se de dizer que estas são as “verdadeiras sandálias da humildade”. Arre! Como é que alguém pode dizer isso? Caramba! Gostava de ver essa pessoa usar humildemente estas "sandálias".

Kierkegaard


«Cartesius, um pensador venerável, humilde e honesto, cujos escritos ninguém é seguramente capaz de ler sem a mais profunda comoção, fez o que disse e disse o que fez. Ai! Ai! Ai! Que grande raridade é esta, a do nosso tempo.»


em Temor e Tremor, tradução, introdução e notas de Elisabete M. de Sousa, Lisboa: Relógio D'Água, 2009. p.50.

Coisas que faço para parecer inteligente


No sábado quis armar-me em intelectual e peguei no livro Os Pés do Cordeiro, de Leonel Brim. Andei com ele pela livraria. A escritora Mafalda Ivo Cruz diz que ele (Leonel Brim) «ultrapassou a questão do ego dos escritores, que é muito complicada.». E também diz que Leonel Brim na escrita «tem uma fluência, uma agilidade, uma perfeição». Devo acrescentar que li um livro de Mafalda Ivo Cruz. Foi suficiente. Não gostei.

William Gaddis


«Sabia para que servia o seu corpo, tal como o sabem os animais seim ela sabia que tu te julgavas proprietário do seu corpo, mas aterroriza-te qua uma mulher em vestido de noite caia sobre ti porque conheces aqueles braços nus naqueles ombros, sabes que aqueles seios não são apenas objectos da diversão que ela te oferece que ela te apresenta como instrumentos de prazer mas quanto maiores melhor pois encerram litros, a promessa de litros de sobrevivência da espécie como uma sim, como uma enorme égua prenha.»

em Ágape, Agonia, tradução de José Miguel Silva, Porto: Ahab, 2010, p.80.

Sociedade Anónima Desportiva


onde se chuta sempre com o pé que está mais à mão

A Nova Poesia Portuguesa - Manuel de Freitas



A Nova Poesia Portuguesa, Manuel de Freitas, Lisboa: Poesia Incompleta

Lí por aí


«De facto, o quotidiano algodoado faz muito mal às cabecinhas. Num país que nunca sofreu devastação (como aconteceu em Espanha, na Polónia, na Rússia, na Alemanha, no Japão, na Bósnia, etc.), o valor da liberdade é coisa nenhuma. Nas últimas 48 horas, a leviandade dos media tem sido eloquente a tal respeito.»

Eduardo Pitta em Da Literatura

Sentido


É noite – como poderão observar se olharem pela janela – e não sei o que faço aqui. Hoje o dia até que nem correu mal – claro que podia ter corrido pior, bastava que a camisa não ficasse bem com as calças e alguém na rua fizesse um comentário menos próprio –, apesar de estar relativamente quente para um dia de setembro. Não sei se aquilo que digo, escrevo, faz muito sentido. Às vezes é preciso não fazer sentido. Às vezes isso é mais importante do que fazer sentido. Fazer sentido é demasiado fácil. Não fazer sentido requer engenho. Daí ser tão difícil. Poucos são aqueles que conseguem não fazer realmente sentido nenhum. Eu bem que tento – será que tento? que me esforço o suficiente? – mas não sei. Não sei.

Pensamento do dia


Echo and The Bunnymen - The Puppet

Gaddis



Penso que muitos de nós chegamos a um ponto pedante da vida em que, por alguma razão que desconheço, pensamos que já nada em Literatura nos surpreende. Não sei se é o teu caso, leitor. William Gaddis foi uma surpresa para mim. Não posso deixar de ficar surpreendido ao ler um texto (porque é disso que se trata, um texto) como Ágape, Agonia. Parece que a descoberta e a leitura de Thomas Bernhard o ajudou a resolver a escrita deste seu livro. Sim, a influência está lá. Só que em Bernhard os longos períodos são mais harmoniosos, tonais, como numa partitura barroca. Em Gaddis eles aproximam-se mais da torrente que é o discurso oral (parece que era a sua especialidade), existe uma espécie de atonalidade, que aproximam Gaddis mais de Schönberg do que de Bach. E isso não é defeito nenhum, para quem, como eu, gosta da música destes dois compositores.

Lí por aí


«Esta venenosa vocação, este fascínio pelo quotidiano suspenso, pela delicada decantação da monotonia. Furto-me à convivência gratuita, à integração; deambulo pela casa, troco a perna cruzada para olhar com outra perspectiva o que me pode acontecer lá fora, interromper a ressonância do argumento que interpreto. Reflectido na luminosidade da ausência, o interior do meu cérebro assemelha-se cada vez mais com o da casa; este sítio, onde entra a noite para que eu «pendure o chapéu».»

Jorge Fallorca em O Cheiro dos Livros

William Gaddis*


«Não mas compreendam eu tenho de explicar tudo isto porque não sei, não sabemos quanto tempo me resta e preciso de trabalhar no, de terminar este trabalho enquanto, bom trouxe para aqui esta pilha de livros apontamentos papéis recortes e sabe Deus que mais, tenho de pôr ordem nisto tudo deixar as coisas organizadas para repartir os meus bens e arrumar de vez com todas as preocupações e consumições anexas enquanto aqui estou para ser aberto e raspado e cosido e aberto novamente esta maldita perna olha para isto, toda coberta de grampos parece aquela armadura japonesa antiga da sala de jantar sinto-me como se estivesse a ser desmantelado peça a peça, apartamentos, casas de campo, estábulos, pomares e tantas decisões a tomar tantas distracções raios as partam tenho aqui algures neste monte de papelada os registos de propriedade as plantas as escrituras, pôr isto em ordem antes que tudo entre em colapso e seja devorado pelos advogados e pelos impostos (…)»

Ágape, Agonia, tradução de José Miguel Silva, Porto: Ahab, 2010, p 27.

*se isto não é um grande começo, então eu não sei o que é um grande começo, porra!

. da situação ou ao estado a que isto chegou


---Eu (com Ágape, Agonia de William Gaddis numa das mãos, não me lembro se a esquerda ou a direita mas isso também não importa, não é?): Sabes, Gaddis escreveu este livro antes de morrer.
---Ela (com um leve sorriso nos lábios, mas um sorriso que não condena nem faz pouco, apenas sorri e repara que o primeiro café do dia ainda não fez efeito): Hã, hã...

Ensino Recorrente



Há sempre uma primeira vez


Pela primeira vez, em dez anos de serviço, volto à mesma escola do ano lectivo anterior. Desconhecia a sensação de chegar no dia 1 de Setembro e não ter de procurar casa, pois ficou apalavrada. Desconhecia a sensação de chegar à escola e perguntarem que tal correram as férias? em vez do costumeiro és de onde? eh pá! 'tás longe!