Versões: Elizabeth Bishop


Quatro poemas

I / Conversa

A desordem do coração
continua a fazer perguntas.
E depois pára e responde
no mesmo tom de voz.
Ninguém consegue ver a diferença.

A conversa começa, propositadamente,
e envolve os sentidos,
em meias-verdades.
E depois não há escolha possível,
e nada faz sentido;

até que um nome
e todos os seus significados são um só.

Elizabeth Bishop, «Four Poems» de A Cold Spring (1955), em Complete Poems, Londres: Chatto & Windus, 2004, p. 76.

Elizabeth Bishop



Não sabia (e quantas coisas eu não sei!) que Elizabeth Bishop era uma admiradora da língua Portuguesa, chegando mesmo a traduzir para a língua Inglesa poemas de Manuel Bandeira, Joaquim Cardozo, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes. E no seu livro Questions of Travel (1965) a epígrafe de abertura é de Camões: «Ó dar-vos quanto tenho e quanto posso, / Que quanto mais vos pago, mais vos devo.».

Ágape, Agonia - William Gaddis



William Gaddis, Ágape, Agonia, Porto: Ahab, tradução de José Miguel Silva, 2010, 112 pp.

Da hipocrisia


Não sou hipócrita.

Da música


Não gosto de música muito intelectual. Nem gosto de me armar em intelectual em relação à música.

Pensamento do dia


Death from Above 1979 - Romantic Rights

Discos pedidos (11)

Lembro-me, na televisão, de uma música à beira do abismo. Lembro-me, mais tarde, de ouvir essa música em casa de um primo que me formou musicalmente: The Jesus and Mary Chain, Love and Rockets, Bauhaus, Cocteau Twins, mais um punhado de gente da 4AD.

Mas foi Kiss me Kiss me Kiss me, álbum que os The Cure lançaram em 1987, que me prendeu para sempre a essa banda britânica. Quanto a mim é neste álbum que os The Cure atingem a sua maturidade artística, com músicas de uma simplicidade e eficácia atroz. Também não é para menos. O alinhamento da banda sofreu algumas mudanças, mas em 1987, e neste álbum, o alinhamento contava com a bateria de Boris Williams e a genial guitarra de Porl Thompson. É claro que não podemos esquecer o baixo de Simon Gallup, que em músicas com The Kiss, dá o mote para o resto dos instrumentos. Nesse aspecto não podemos descurar, talvez, algumas influências de um certo rock-progressivo e minimalista (algo que já tinha sido experimentado anteriormente no álbum Pornography, de 1982). Simon Gallup a isso fez referência, chegando mesmo a considerá-lo um disco perfeito. E não é para menos.

Apesar dos êxitos pop que lá podemos encontrar (Why Can't I Be You?, Just Like Heaven e Hot Hot Hot!!!), temos ainda tudo o resto, de destacar The Kiss, Icing Sugar e A Thousand Hours. Este é, sem dúvida alguma, o melhor álbum dos The Cure. E como todos os verdadeiros melhores álbuns, o mais esquecido (apesar de The Head On The Door – álbum que antecedeu Kiss me Kiss me Kiss me – não ser muito lembrado). Kiss me Kiss me Kiss me marca o ponto de viragem na carreira do The Cure. Depois, depois temos o abismo ali à frente.

Pensamento do dia


The Cure - Icing Sugar

O meu autor português



Não tenho problema nenhum em dizê-lo: Vergílio Ferreira é o meu autor português. Não sei se será uma afinidade serrana ou algo do género. Parece que o meu trisavô paterno também era de Melo, terra natal de Vergílio Ferreira. No entanto, o que mais admiro no autor de Cântico Final é o facto de nunca ter desistido de pensar, de questionar e questionar-se. Disso são exemplo os nove volumes de diários (Conta-Corrente), os cinco volumes de ensaio (Espaço do Invisível), e ainda: Do Mundo Original, Carta ao Futuro, Invocação ao Meu Corpo, Pensar, Escrever, só para falar em alguns onde a capacidade reflexiva de Vergílio Ferreira está mais patente. Os romances, bem, os romances são outra coisa completamente diferente, e mesmo aí Vergílio Ferreira não deixa de se questionar e de nos questionar.

Vergílio Ferreira


«— Toda a nossa actividade literária é de uma mesquinhez atroz. Nós não temos o direito de escrever. Falo de todos nós. Postos de parte os Tóinos e as Marias dos imbecis, que nos fica? O romance de gabinete, essa porcariazinha «inteligente», essa masturbaçãozinha de impotentes. Ou então, o romancezinho «psicológico», em que se trata o homem com desprezo, se vem contar, com petulância, como é feito por dentro e dá entre nós um génio em cada cinco anos, esse romancezinho feminino que Proust, como «mulher» que era, pôs em moda. Sim, que s´o mesmo uma mulher podia inventar essa coscuvilhice íntima, essas histórias e historiazinhas cheias de pequeninas observações, esses períodos longos e complicados como folhos de rendas de uma boneca. Contra mim falo, meu amigo, ah, contra mim falo. Mas não há outra saída. E todavia a hora é da ardência, do sangue!»

em Cântico Final, Venda Nova: Bertrand Editora, 7ª edição, 1983, p. 23.

A Lã e a Neve



Como manteiguense, que sou, tenho por dever (sei que é um exagero, mas apeteceu-me) ler A Lã e a Neve de Ferreira de Castro. A nova capa da reedição da Guimarães é, quanto a mim, muito bem conseguida. Mais uma razão para comprar e ler

Ensino Recorrente


Um poema de Carlos Mota de Oliveira


Meio Milhão De Desempregados

Mexendo
a
maxila

da gruta
do
Escoural

O
porcalho

O
pequenote

O
rançoso

deputado
da
maioria

avisa
que
se Deus

não acudir
com
um milagre

qualquer
dia

a
unha

a
pata

mais
ou menos
suína

que permite
a
um deputado

arrastar-se
pelos
corredores

da
Assembleia

pode
medir

apenas
seis

centímetros
de
comprimento.

Anda mas
é
direito

sem ser
de
gatinhas,

gritam
uns!

E
outros:

Põe
mas é

o teu pé
chato
nalguma parte!

Por cima
do


está
o
manto,

explica-se
o capão

o
merdeiro

o viril
Telmo

do partido
do
tarimbeiro Portas.

Tens mas
é
a mandíbula

e as orelhas
de
um berbere

Um sexo
devoto

e
outros

dons
gratuitos:

Piolhos
na
cabeça

Piolhos
no
fato

Piolhos
na
barriga

no
púbis

por
cima

do
recto

por detrás
da
bexiga!

De modo
beato
e florido

Casto
e
opusdeitado

Sem
sujidade

na
língua

Qual
membro

genital
ou
da Igreja

Não contagiado
de
gálico

Como uma vaca
dos
arredores de Lisboa

Virado
para baixo

Coberto
de pêlos

O alindado
Presidente

tenta
serenar
o Consistório:

“A excitação,
senhores
deputados,

determina
o
aumento

da
massa

do tecido
excitado.

Desta
sorte,

as queixadas
de
um deputado

tendem
a
tomar

uma forma
imunda
e ruminante.

Um
deputado

não é
um animal

de
lavoura

ou um caldo
de
castanhas piladas!

Um deputado
não é
uma ninharia

Um deputado
não é
a unha

de um
solípede

um chifre
nojento

um
fumeiro

ou uma loção
para
a sarna!

Um deputado
não é
o pecado original

Um deputado
faz
o ninho

nas
cadeiras

do
hemiciclo

e os
seus ovos

são recolhidos
e
consumidos!”

Ó Amaral
montas
é muito mal!

Enche-te
mas é
de genebra

um
pouco

de noz
moscada

uma casca
de laranja

e toca-nos
ao
bicho!

E exultam
e
regozijam-se

os ministros
da
Nação:

Ó
Amaral

o
estômago

de um
deputado

nunca pode
estar
desocupado!

Ó Amaral
montas
é muito mal!

Ó Amaral
enche-te
mas é de genebra

Ó
Amaral

que
diabo

com
franqueza

toca-nos
mas é
ao bicho!

em Este Outono Sobre os Móveis Dourados, s.l.: Edição de Autor, prefácio de Miguel Serras Pereira, 2005, pp. 97-112.

Piolho

Entre a pedra suja e o diamante de sangue


Melusine de Matos, Renato Filipe Cardoso, manuel a. domingos, Fernando Esteves Pinto, BiXinho, Ricardo Álvaro, Zaralleci, Rui Costa, Ivar Corceiro, Raul Simões Pinto, Gilberto de Lascariz, Sílvia C. Silva, Luís Serra, Miguel Sá Marques, Sérgio Almeida, Humberto Rocha,Théodore Fraenkel,... fazem, mais ou menos por esta desordem, este segundo número

em adiantado estado de composição

Leituras de Verão


Tinha um dia dito ao Henrique que prefiro um bom calhamaço a uma série de livros. Tinha pervisto ler Look Homeward, Angel de Thomas Wolfe. Mas os senhores da Amazon decidiram atrasar a encomenda, antes da partida. Posso afirmar que nunca li tanto em 12 dias de praia: Baía dos Tigres (Pedro Rosa Mendes), Breviário das Más Inclinações (José Riço Direitinho), Cântico Final (Vergílio Ferreira), Aparição (Vergílio Ferreira), Al-Khaïma (Jorge Fallorca) e Bartleby & Companhia (Enrique Vila-Matas). Sinceramente não sei como é que o consegui fazer. Mas consegui. Sinto-me realizado. No ano passado o melhor que consegui fazer foi ler três romances de George Orwell em 7 dias: Burmese Days, Animal Farm e A Clergyman's Daughter . A propósito de Vila-Matas: o primeiro romance que li foi Filhos Sem Filhos (Assírio & Alvim). Depois disse a mim mesmo que só o voltaria a ler na língua original, e foi o que fiz: Una casa para siempre (Compactos Anagrama, 2002), Suicidios Ejemplares (Compactos Anagrama, 2000) e Recuerdos Inventados - Primera Antologia Personal (Compactos Anagrama, 1994). Mas encontrar livros de Vila-Matas a 3.50 euros e não os comprar, penso que é pecado.

Regresso


Regresso a Manteigas. Mais uma vez. Vindo de Coimbra, subo pelo lado de Seia. O nevoeiro mistura-se com o cheiro a terra queimada. Quando parti tudo era verde. No more.

Vergílio Ferreira


«— Vem. Vem comigo. Porque não vens? Ah, tu és professor… Nunca te assaltou o vexame dessa mesquinhez? Nunca te assaltou o génio da destruição, da conquista?
---Baixava-se, falava-lhe ao ouvido:
---— Tenho comigo o crime, o sangue, tudo o que é belo e solitário. Poderás comparticipar, tocar com as mãos o secreto lume da vida. Talvez tenhas até a sorte fantástica de me matares…»

em Cântico Final, Venda Nova: Bertrand Editora, 7ª edição, 1983, p.155.

Férias



Quem me conhece melhor do que tu, leitor, sabe que sou um pouco hipocondríaco. E que tenho uma certa tendência natural para um pessimismo exagerado. Mas repara, leitor, que não é fácil ser hipocondríaco e optimista. É impossível. Como é impossível não gostar de ostras. Considero mesmo que quem não gosta de ostras não é deste mundo. Ou tem a mania que é gente. A mania, como sabes leitor, nasce com a pessoa e vai sendo aperfeiçoada ao longo da vida. Pessoas há que levam uma vida inteira a aperfeiçoar um tipo específico de mania. Sim, leitor, a mania começa a ser especializada. Já lá vai o tempo em que a mania era mania e mais nada. Mas agora não. É como aquela coisa da engenharia financeira. Acho que é uma especialidade de algo. Nunca entendi bem o conceito. Apenas sei que quando vêm falar de engenharia financeira para a televisão, estamos lixados. Claro que nós estamos habituados a ser lixados todos os dias. É algo de muito nosso. Os portugueses são por natureza pessoas lixadas. Lixadas pelos outros, entenda-se. Que na realidade também são portugueses. Os portugueses são um povo estranho. Se têm um Agosto cheio de sol e calor, queixam-se. Se têm um Agosto com pouco sol e pouco calor, queixam-se. Eu também estou cheio de calor. Não me importo. Apenas tem um problema: pode camuflar a febre.

Lí por aí


«À escala nacional, com mais de 25.000 exemplares vendidos em poucos meses, o “2666” de Bolaño foi um êxito.
Incensou-se, falou-se dele no tom que em geral se usa para as aparições, os milagres e outros fenómenos que espantam. Mas agora aparecem aqui e ali uns rapazes a queixar-se de que o não conseguem ler, que aquilo é um enfado, com muitos sonhos, repetições, fastios, e inúmeras pontas, mas nenhuma por onde se lhe pegue.
Tempos atrás, numa livraria, corri os olhos por umas quantas páginas, parei aqui e acolá, mas como não fui adiante com a leitura não tenho base para opinião. Facto é que o que respiguei não me entusiasmou, mas como há muito quem caia de joelhos ao ler Murakamis, Szymborskas, Achebes e mais Prousts, tiro respeitosamente o chapéu e vou adiante, recordando a antiga certeza da diversidade dos gostos.
O que me surpreende, porém, é que gente com tarimba nas coisas de leitura e Literatura se queixe e sinta enganada ao dar-se conta de que a fama do chileno e doutros não corresponde ao proveito. Mas que esperavam? Serão inocentes a ponto de se julgarem imunes às consequências do marketing? Acreditarão que um louvor no New York Times, no El País, no TLS, ou na NYRB é garantia de génio e qualidade?
Um livro, meus queridos, é bom e vale quando nos fala ao coração. Se vem com charanga, tambores e foguetório, deixá-lo passar.»

J. Rentes de Carvalho em Tempo Contado

O futuro são as crianças, mas não nos podemos esquecer dos pais


Ouço uma criança gritar em francês uma série de impropérios contra um gato. Que mata o estupor do gato, o filho-da-puta do gato. A criança deve rondar os quatro anos de idade.

Louis-Ferdinand Céline


«Em todo o nosso passado ridículo descobrimos tanto ridículo, tanta aldrabice, tanta credulidade, que talvez desejássemos acabar de vez com isso de sermos jovens, esperar que a juventude se desprenda, esperar que nos ultrapasse, vê-la ir-se, afastar-se, olhar para toda a sua vaidade, chegar com a mão ao seu vazio, vê-la passar de novo à nossa frente e depois partirmos nós, ficarmos certos de que realmente a juventude se foi e tranquilamente, pelo caminho que é muito nosso, passarmos vagarosamente para o lado de lá do Tempo, e então observarmos como as pessoas e as coisas realmente são.»


em Viagem ao Fim da Noite, tradução de Aníbal Fernandes, Lisboa: Ulisseia, 2010, p. 270.

Por minha conta


Há muito tempo que ando por minha conta. Mas em Manteigas é raro andar e estar por minha conta. Os Pais foram a um convívio da malta de 45. Tenho a casa só para mim. Por agora vou tratar de fazer o almoço. Sairá uma espécie de strogonoff de peru à minha maneira. Por minha conta.

Regresso


O Vermelho e o Negro está de volta.

Um poema de Almeida Garrett


Gozo e Dor

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
− Não, Ai! não; falta-me a vida,
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso do gozo é dor.

Dói-me a alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida – ou a razão.

em Folhas Caídas, Lisboa: Ulisseia, col. Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, introdução de Maria Ema Tarracha Ferreira, 1991, p.120.

Universidade Pirata




Portugal já tem uma. Pode ser encontrada aqui.

Da amargura


Há quem diga que sou um gajo amargurado com a vida. Poderia argumentar que não, que a vida é que tem sido amarga comigo. Mas nem isso posso dizer. Entendem agora a minha amargura?

Salvo


O que ainda salvou o dia foi um iced-coffee (vulgo refresco de café, mas parece mais chique assim, visto andar a treinar para burguês) que a minha mãe fez.

Pensamento do dia


Calexico - Ballad of Cable Hogue

Ensino Recorrente


Um poema de Rui Baião



Ligado às máquinas a morte
vive vegetal aos quadradinhos.
Coisas leves dada à boca dos velhotes.
Soro & sonda. Vota em hóstia a irmãzinha
dos cerelaques. Ris-te ao portal
que dá para a bênção da gadeza.
É como nos filmes, limpa-se
a trampa aos gansos, tosse-se
o que haja ainda de pleura para tossir.
Em telha vã, quem lhes dera
fazer tropelia e prognósticos. Rumores,
a quem à sede queria ser
o próprio outro.

em Nuez (com fotografias de Paulo Nozolino), Lisboa: Frenesi, 2003, p. 7.

Treino


Foi o dia que me levantei mais cedo. Às nove horas estava em pé (ou de pé?). A gramática nunca foi o meu forte e como ando a treinar para burguês fui levar o carro à oficina para lavagem completa. É a segunda vez que isso acontece em ano e meio de carro. As outras são lavagens incompletas, como quase tudo aquilo que faço. Quando quero algo completo, e como ando a treinar para burguês, peço aos outros que façam. Só assim consigo ter as coisas em condições. O meu quarto, por exemplo, é um caos de livros amontoados. Tentei um dia arrumá-los, ordená-los, como se fossem livros numa biblioteca. Mas acabei sempre por deixar a meio, desistir. Em relação aos livros não treino para ser burguês, isto é, não deixo que mais ninguém lhes mexa. Tenho a mania, é o que é.

Depois do jantar


Depois do jantar saio até ao terraço. Sacudo as migalhas da toalha que serviu na mesa. Há uma leve brisa. A montanha imponente à minha frente. Um lusco-fusco avermelhado. Cheira a fumo. Deve haver incêndio por perto, diz o vizinho.

Ensino Recorrente



65 anos


O meu pai nasceu dois dias antes do lançamento da bomba atómica em Hiroshima e cinco dias antes do lançamento da bomba atómica em Nagasaki. Um ano antes o exército aliado libertava Florença . Shelley também nasceu no dia 4 de Agosto (1792) e Barack Obama também (1961). Hoje há festa na Casa Branca e no 2º andar do nº. 229 da Rua do Outeiro, em Manteigas.

O calor, o preço do café e o Público


Por aqui continua o calor. Hoje levei os 55 cêntimos para a bica. Comprei o Público (ainda havia). Como não costumo comprar jornais diários, fiquei surpreendido com o preço do Público: 1 euro! Fica caro comprar o jornal em Portugal. Não sei qual será a média de preços de um jornal diário no resto da Europa. Mas 1 euro! é um abuso. E depois há a crónica (crónica?) de hoje de Rui Tavares. Parece copy-paste de um artigo da wikipédia.

Noite


Está calor. E há uma mosca que não me deixa em paz.

Versões: Charles Simic


À porta de uma caravana

Ó exegetas, sombrios hermenêuticos,
Extraordinários criadores de ambiguidades,
Um pequeno homem careca lavava
Os delicados pés de uma gorda senhora.

Numa cadeira debaixo da fresca sombra da árvore,
Ela só ria e abanava os seus enormes seios.
Também havia um rapaz de óculos
Mergulhado num livro de séria aparência.

Uma meia preta a secar na corda,
Um carro funerário com caixotes de lixo na parte de trás,
E uma grande bandeira trôpega presa a um poste
Num dia que ainda não é feriado.

Charles Simic, «Outside a Dirtroad Trailer» de Unending Blues (1986), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.67.

O calor, o preço do café e o JN


Em Manteigas o sol bate forte. De manhã fui até ao café de sempre. Nunca sei o preço da bica. O café deve ser o produto com o preço que mais varia por este país fora. Pode variar entre os 50 cêntimos e 1 euro (intervalo estebelecido por experiência própria). Quando aqui venho nunca sei quanto pagar. Foram 55 cêntimos. Depois dei um salto à papelaria de sempre (aqui é sempre tudo de sempre). O único diário disponível era O Jornal de Notícias (o que na realidade é bom sinal, pois significa que há gente por Manteigas, que as ruas não estão desertas). Tinha uma primeira página que nem ao Diabo (e não me estou a referir ao jornal) lembraria. Nem com a possibilidade de ler uma crónica do Manuel António Pina o comprei.

Versões: Charles Simic


Ajuda precisa-se

Eles pedem uma faca
Eu venho a correr
Eles precisam dum cordeiro
Eu apresento-me como cordeiro

Mil e uma desculpas
Parece que precisam de veneno para ratos
Precisam dum pastor
Para o seu bando de viúvas-negras

Por sorte trouxe as minhas ensanguentadas
Cartas de recomendação
Trouxe a minha certidão de óbito
Assinada e reconhecida por notário

Mas mudaram de ideias outra vez
Agora querem um pássaro que cante, um pouco de primavera
Querem uma mulher
Que lhes lave e beije os tomates

É uma das minhas especialidades
(Asseguro-lhes)
A cantar e assobiar como uma ave
Pelo buraco do cu

Charles Simic, «Help Wanted» de Charon’s Cosmology (1977), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.25.

Henrique Manuel Bento Fialho

«Hircocervos
As estantes estão cheias, a cabeça cheia de pó, o chão desarrumado. Não admira que os pés tropecem, que a cinza ameace o céu limpo. Todo o azul celeste mete medo, todo o mar. Caminham por dentro dos músculos as notícias, o futuro antecipado, as previsões metrológicas.
---Ao carpir das sirenes, os homens chegam-se às varandas. Abrem os estores, dilatam as pálpebras, olham por cima dos pijamas os lençóis da cama onde pernoitam arrumados. Costas com costas, pobres cães vadios, esperam a hora de ir para os empregos. Perfumados. Trabalham o cansaço, uma dor na coluna vertebral, aquele ouvi dizer que sabia como quem traz prendas para casa. Uma consola para o menino, um adereço para a Barbie.
---Fazem flexões, alongam os músculos, esticam os ossos como quem estica os cordões À bolsa, o estendal de pendurar a alma todos os dias, à mesma hora, até que o coração diga basta. A um canto, o grito incita a fome: gostamos dos aranhiços, das pulgas, das infiltrações. ùnica distração no caminho das horas.»

em Estranhas Criaturas, Porto: Deriva, 1ª edição, 2010, p. 23.

Manteigas


Chego a Manteigas e há pouco a dizer. Também aqui está calor. Também aqui se morre. Também aqui o sol se põe. Também aqui me fazes falta.

Oração


Bendita sejas tu Amazon entre as Internetes, por trazeres até mim Larkin – Simic – Bishop – e Berryman, num prazo inferior a 7 dias.

Versões: Charles Simic


Talho

Às vezes quando passeio noite fora
Paro junto a um talho fechado.
Há apenas uma luz acesa lá dentro
Como a luz do condenado que cava o túnel.

O avental pendurado num gancho:
O sangue nele como um mapa
Dos grandes continentes de sangue,
Dos grandes rios e oceanos de sangue.

Há facas que brilham como altares
Numa igreja sombria
Onde trazem aleijados e imbecis
Para serem curados.

Há uma tábua onde ossos são quebrados,
Limpos – um rio seco no seu leito
Onde sou alimentado,
Onde ouço uma voz noite fora.

Charles Simic, «Butcher Shop» de Dismantling the Silence (1971), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.3.

Depois de ler a imortal literatura do mundo (2)




Charles Bukowski nasceu em Andernach, na Alemanha, em 1920, filho de pai norte-americano e mãe alemã (o avô materno de Bukowski era um ex-oficial do exército alemão). Os primeiros três anos de vida são passados na Alemanha, em contacto directo e diário com a língua alemã. É então que a família decide mudar-se para os Estados Unidos da América, escolhendo a cidade californiana de Los Angeles como destino final. O início de vida num novo país não foi fácil para Charles Bukowski. Foi em Los Angeles que ele teve, pela primeira vez, contacto com a língua inglesa, pois até então, em sua casa, só se falava o alemão. A relação com o pai também não foi fácil: era um homem violento, arrogante. Em contrapartida, a sua mãe era submissa à vontade do pai, nunca se opondo a nada que ele decidisse, por mais estranho e descabido que fosse. Isso criou em Bukowski um grande e poderoso sentimento de revolta, pois a única pessoa que o deveria defender contra os ataques de fúria do pai, não o fazia. Bukowski chegou mesmo a dizer que o pai foi quem o ensinou a escrever, a ser escritor. Publicou pela primeira vez em 1944, com vinte e quatro anos, mas só aos trinta e cinco é que começa a publicar poesia. É a poesia que constitui grande parte da bibliografia do autor, apesar de ter publicado seis romances e várias colectâneas de contos, perfazendo, ao todo, mais de quarenta e cinco livros publicados em vida.

Foto: retirada de Bukowski.net.