Versões: Elizabeth Bishop
Quatro poemas
I / Conversa
A desordem do coração
continua a fazer perguntas.
E depois pára e responde
no mesmo tom de voz.
Ninguém consegue ver a diferença.
A conversa começa, propositadamente,
e envolve os sentidos,
em meias-verdades.
E depois não há escolha possível,
e nada faz sentido;
até que um nome
e todos os seus significados são um só.
Elizabeth Bishop, «Four Poems» de A Cold Spring (1955), em Complete Poems, Londres: Chatto & Windus, 2004, p. 76.
Elizabeth Bishop
Não sabia (e quantas coisas eu não sei!) que Elizabeth Bishop era uma admiradora da língua Portuguesa, chegando mesmo a traduzir para a língua Inglesa poemas de Manuel Bandeira, Joaquim Cardozo, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes. E no seu livro Questions of Travel (1965) a epígrafe de abertura é de Camões: «Ó dar-vos quanto tenho e quanto posso, / Que quanto mais vos pago, mais vos devo.».
Ágape, Agonia - William Gaddis
Da hipocrisia
Não sou hipócrita.
Da música
Pensamento do dia
Death from Above 1979 - Romantic Rights
Discos pedidos (11)
Lembro-me, na televisão, de uma música à beira do abismo. Lembro-me, mais tarde, de ouvir essa música em casa de um primo que me formou musicalmente: The Jesus and Mary Chain, Love and Rockets, Bauhaus, Cocteau Twins, mais um punhado de gente da 4AD.Mas foi Kiss me Kiss me Kiss me, álbum que os The Cure lançaram em 1987, que me prendeu para sempre a essa banda britânica. Quanto a mim é neste álbum que os The Cure atingem a sua maturidade artística, com músicas de uma simplicidade e eficácia atroz. Também não é para menos. O alinhamento da banda sofreu algumas mudanças, mas em 1987, e neste álbum, o alinhamento contava com a bateria de Boris Williams e a genial guitarra de Porl Thompson. É claro que não podemos esquecer o baixo de Simon Gallup, que em músicas com The Kiss, dá o mote para o resto dos instrumentos. Nesse aspecto não podemos descurar, talvez, algumas influências de um certo rock-progressivo e minimalista (algo que já tinha sido experimentado anteriormente no álbum Pornography, de 1982). Simon Gallup a isso fez referência, chegando mesmo a considerá-lo um disco perfeito. E não é para menos.
Apesar dos êxitos pop que lá podemos encontrar (Why Can't I Be You?, Just Like Heaven e Hot Hot Hot!!!), temos ainda tudo o resto, de destacar The Kiss, Icing Sugar e A Thousand Hours. Este é, sem dúvida alguma, o melhor álbum dos The Cure. E como todos os verdadeiros melhores álbuns, o mais esquecido (apesar de The Head On The Door – álbum que antecedeu Kiss me Kiss me Kiss me – não ser muito lembrado). Kiss me Kiss me Kiss me marca o ponto de viragem na carreira do The Cure. Depois, depois temos o abismo ali à frente.
Pensamento do dia
The Cure - Icing Sugar
O meu autor português
Vergílio Ferreira
em Cântico Final, Venda Nova: Bertrand Editora, 7ª edição, 1983, p. 23.
A Lã e a Neve
Um poema de Carlos Mota de Oliveira
Mexendo
a
maxila
da gruta
do
Escoural
O
porcalho
O
pequenote
O
rançoso
deputado
da
maioria
avisa
que
se Deus
não acudir
com
um milagre
qualquer
dia
a
unha
a
pata
mais
ou menos
suína
que permite
a
um deputado
arrastar-se
pelos
corredores
da
Assembleia
pode
medir
apenas
seis
centímetros
de
comprimento.
Anda mas
é
direito
sem ser
de
gatinhas,
gritam
uns!
E
outros:
Põe
mas é
o teu pé
chato
nalguma parte!
Por cima
do
pé
está
o
manto,
explica-se
o capão
o
merdeiro
o viril
Telmo
do partido
do
tarimbeiro Portas.
Tens mas
é
a mandíbula
e as orelhas
de
um berbere
Um sexo
devoto
e
outros
dons
gratuitos:
Piolhos
na
cabeça
Piolhos
no
fato
Piolhos
na
barriga
no
púbis
por
cima
do
recto
por detrás
da
bexiga!
De modo
beato
e florido
Casto
e
opusdeitado
Sem
sujidade
na
língua
Qual
membro
genital
ou
da Igreja
Não contagiado
de
gálico
Como uma vaca
dos
arredores de Lisboa
Virado
para baixo
Coberto
de pêlos
O alindado
Presidente
tenta
serenar
o Consistório:
“A excitação,
senhores
deputados,
determina
o
aumento
da
massa
do tecido
excitado.
Desta
sorte,
as queixadas
de
um deputado
tendem
a
tomar
uma forma
imunda
e ruminante.
Um
deputado
não é
um animal
de
lavoura
ou um caldo
de
castanhas piladas!
Um deputado
não é
uma ninharia
Um deputado
não é
a unha
de um
solípede
um chifre
nojento
um
fumeiro
ou uma loção
para
a sarna!
Um deputado
não é
o pecado original
Um deputado
faz
o ninho
nas
cadeiras
do
hemiciclo
e os
seus ovos
são recolhidos
e
consumidos!”
Ó Amaral
montas
é muito mal!
Enche-te
mas é
de genebra
um
pouco
de noz
moscada
uma casca
de laranja
e toca-nos
ao
bicho!
E exultam
e
regozijam-se
os ministros
da
Nação:
Ó
Amaral
o
estômago
de um
deputado
nunca pode
estar
desocupado!
Ó Amaral
montas
é muito mal!
Ó Amaral
enche-te
mas é de genebra
Ó
Amaral
que
diabo
com
franqueza
toca-nos
mas é
ao bicho!
em Este Outono Sobre os Móveis Dourados, s.l.: Edição de Autor, prefácio de Miguel Serras Pereira, 2005, pp. 97-112.
Piolho
Entre a pedra suja e o diamante de sangueMelusine de Matos, Renato Filipe Cardoso, manuel a. domingos, Fernando Esteves Pinto, BiXinho, Ricardo Álvaro, Zaralleci, Rui Costa, Ivar Corceiro, Raul Simões Pinto, Gilberto de Lascariz, Sílvia C. Silva, Luís Serra, Miguel Sá Marques, Sérgio Almeida, Humberto Rocha,Théodore Fraenkel,... fazem, mais ou menos por esta desordem, este segundo número
em adiantado estado de composição
Leituras de Verão
Regresso
Vergílio Ferreira
---Baixava-se, falava-lhe ao ouvido:
---— Tenho comigo o crime, o sangue, tudo o que é belo e solitário. Poderás comparticipar, tocar com as mãos o secreto lume da vida. Talvez tenhas até a sorte fantástica de me matares…»
em Cântico Final, Venda Nova: Bertrand Editora, 7ª edição, 1983, p.155.
Férias
Lí por aí
Incensou-se, falou-se dele no tom que em geral se usa para as aparições, os milagres e outros fenómenos que espantam. Mas agora aparecem aqui e ali uns rapazes a queixar-se de que o não conseguem ler, que aquilo é um enfado, com muitos sonhos, repetições, fastios, e inúmeras pontas, mas nenhuma por onde se lhe pegue.
Tempos atrás, numa livraria, corri os olhos por umas quantas páginas, parei aqui e acolá, mas como não fui adiante com a leitura não tenho base para opinião. Facto é que o que respiguei não me entusiasmou, mas como há muito quem caia de joelhos ao ler Murakamis, Szymborskas, Achebes e mais Prousts, tiro respeitosamente o chapéu e vou adiante, recordando a antiga certeza da diversidade dos gostos.
O que me surpreende, porém, é que gente com tarimba nas coisas de leitura e Literatura se queixe e sinta enganada ao dar-se conta de que a fama do chileno e doutros não corresponde ao proveito. Mas que esperavam? Serão inocentes a ponto de se julgarem imunes às consequências do marketing? Acreditarão que um louvor no New York Times, no El País, no TLS, ou na NYRB é garantia de génio e qualidade?
Um livro, meus queridos, é bom e vale quando nos fala ao coração. Se vem com charanga, tambores e foguetório, deixá-lo passar.»
O futuro são as crianças, mas não nos podemos esquecer dos pais
Louis-Ferdinand Céline
em Viagem ao Fim da Noite, tradução de Aníbal Fernandes, Lisboa: Ulisseia, 2010, p. 270.
Por minha conta
Regresso
O Vermelho e o Negro está de volta.
Um poema de Almeida Garrett
Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
− Não, Ai! não; falta-me a vida,
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso do gozo é dor.
Dói-me a alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.
É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida – ou a razão.
em Folhas Caídas, Lisboa: Ulisseia, col. Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, introdução de Maria Ema Tarracha Ferreira, 1991, p.120.
Universidade Pirata
Portugal já tem uma. Pode ser encontrada aqui.
Da amargura
Salvo
Pensamento do dia
Calexico - Ballad of Cable Hogue
Um poema de Rui Baião
Ligado às máquinas a morte
vive vegetal aos quadradinhos.
Coisas leves dada à boca dos velhotes.
Soro & sonda. Vota em hóstia a irmãzinha
dos cerelaques. Ris-te ao portal
que dá para a bênção da gadeza.
É como nos filmes, limpa-se
a trampa aos gansos, tosse-se
o que haja ainda de pleura para tossir.
Em telha vã, quem lhes dera
fazer tropelia e prognósticos. Rumores,
a quem à sede queria ser
o próprio outro.
em Nuez (com fotografias de Paulo Nozolino), Lisboa: Frenesi, 2003, p. 7.
Treino
Depois do jantar
65 anos
O calor, o preço do café e o Público
Noite
Está calor. E há uma mosca que não me deixa em paz.
Versões: Charles Simic
Ó exegetas, sombrios hermenêuticos,
Extraordinários criadores de ambiguidades,
Um pequeno homem careca lavava
Os delicados pés de uma gorda senhora.
Numa cadeira debaixo da fresca sombra da árvore,
Ela só ria e abanava os seus enormes seios.
Também havia um rapaz de óculos
Mergulhado num livro de séria aparência.
Uma meia preta a secar na corda,
Um carro funerário com caixotes de lixo na parte de trás,
E uma grande bandeira trôpega presa a um poste
Num dia que ainda não é feriado.
Charles Simic, «Outside a Dirtroad Trailer» de Unending Blues (1986), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.67.
O calor, o preço do café e o JN
Versões: Charles Simic
Eles pedem uma faca
Eu venho a correr
Eles precisam dum cordeiro
Eu apresento-me como cordeiro
Mil e uma desculpas
Parece que precisam de veneno para ratos
Precisam dum pastor
Para o seu bando de viúvas-negras
Por sorte trouxe as minhas ensanguentadas
Cartas de recomendação
Trouxe a minha certidão de óbito
Assinada e reconhecida por notário
Mas mudaram de ideias outra vez
Agora querem um pássaro que cante, um pouco de primavera
Querem uma mulher
Que lhes lave e beije os tomates
É uma das minhas especialidades
(Asseguro-lhes)
A cantar e assobiar como uma ave
Pelo buraco do cu
Charles Simic, «Help Wanted» de Charon’s Cosmology (1977), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.25.
Henrique Manuel Bento Fialho
---Ao carpir das sirenes, os homens chegam-se às varandas. Abrem os estores, dilatam as pálpebras, olham por cima dos pijamas os lençóis da cama onde pernoitam arrumados. Costas com costas, pobres cães vadios, esperam a hora de ir para os empregos. Perfumados. Trabalham o cansaço, uma dor na coluna vertebral, aquele ouvi dizer que sabia como quem traz prendas para casa. Uma consola para o menino, um adereço para a Barbie.
---Fazem flexões, alongam os músculos, esticam os ossos como quem estica os cordões À bolsa, o estendal de pendurar a alma todos os dias, à mesma hora, até que o coração diga basta. A um canto, o grito incita a fome: gostamos dos aranhiços, das pulgas, das infiltrações. ùnica distração no caminho das horas.»
em Estranhas Criaturas, Porto: Deriva, 1ª edição, 2010, p. 23.
Manteigas
Oração
Versões: Charles Simic
Às vezes quando passeio noite fora
Paro junto a um talho fechado.
Há apenas uma luz acesa lá dentro
Como a luz do condenado que cava o túnel.
O avental pendurado num gancho:
O sangue nele como um mapa
Dos grandes continentes de sangue,
Dos grandes rios e oceanos de sangue.
Há facas que brilham como altares
Numa igreja sombria
Onde trazem aleijados e imbecis
Para serem curados.
Há uma tábua onde ossos são quebrados,
Limpos – um rio seco no seu leito
Onde sou alimentado,
Onde ouço uma voz noite fora.
Charles Simic, «Butcher Shop» de Dismantling the Silence (1971), em Selected Poems: 1963-2003, Londres: Faber and Faber, 1ª edição, 2004, p.3.
Depois de ler a imortal literatura do mundo (2)
Charles Bukowski nasceu em Andernach, na Alemanha, em 1920, filho de pai norte-americano e mãe alemã (o avô materno de Bukowski era um ex-oficial do exército alemão). Os primeiros três anos de vida são passados na Alemanha, em contacto directo e diário com a língua alemã. É então que a família decide mudar-se para os Estados Unidos da América, escolhendo a cidade californiana de Los Angeles como destino final. O início de vida num novo país não foi fácil para Charles Bukowski. Foi em Los Angeles que ele teve, pela primeira vez, contacto com a língua inglesa, pois até então, em sua casa, só se falava o alemão. A relação com o pai também não foi fácil: era um homem violento, arrogante. Em contrapartida, a sua mãe era submissa à vontade do pai, nunca se opondo a nada que ele decidisse, por mais estranho e descabido que fosse. Isso criou em Bukowski um grande e poderoso sentimento de revolta, pois a única pessoa que o deveria defender contra os ataques de fúria do pai, não o fazia. Bukowski chegou mesmo a dizer que o pai foi quem o ensinou a escrever, a ser escritor. Publicou pela primeira vez em 1944, com vinte e quatro anos, mas só aos trinta e cinco é que começa a publicar poesia. É a poesia que constitui grande parte da bibliografia do autor, apesar de ter publicado seis romances e várias colectâneas de contos, perfazendo, ao todo, mais de quarenta e cinco livros publicados em vida.
Foto: retirada de Bukowski.net.








