Depois de ler a imortal literatura do mundo (1)




O mal de grande parte da literatura é tentar ser complexa. Quando tenta não ser, falha. É pouca a literatura que consegue ser descomplexada e ser, ao mesmo tempo, literatura. É claro que uma leitura na diagonal – sendo aquilo que mais vezes acontece com a maior parte dos escritores que lemos – poderá induzir o leitor em erro, fazendo crer que a literatura descomplexada, que tem o privilégio de estar a ler, é ridícula e não é boa literatura. Um exemplo: Charles Bukowski. O autor norte-americano é associado à condição de marginal, de proscrito. É também associado a um estilo de vida que muitos consideram pouco aconselhável para a saúde. Esse é o primeiro erro do leitor menos atento: acreditar que Bukowski é só álcool, mulheres e fornicação. Não vou dizer que o não seja. Grande parte da sua obra gira em torno destes três temas. Contudo, eles são apenas o ponto de partida para muito mais. Charles Bukowski é, sem dúvida alguma, alguém que conhece profundamente o ser humano. O ser humano é o principal personagem da obra bukowskiana. O ser humano e a sua relação com o mundo. Disso não devemos ter a menor dúvida. O seu alter-ego, Henry Chinaski, é a prova: «Bukowski created a literary persona named Henry Chinaski as a vessel for expressing his alternative view of the world, (…) Trough Henry Chinaski, Bukowski is able to attempt to reveal the absurdity of the world with an element of distance and without succumbing to despair.» (Daniel Bigna, 2005). É claro que, para muitos, Chinaski não preenche os requisitos necessários para ser um verdadeiro personagem, isto é, segundo o cânone, Chinaski não possui a complexidade nem a profundidade, por exemplo, de Ahab, Meursault ou Raskolnikov.

Foto: retirada de Bukowski.net.

Pensamento do dia


Fiona Apple - Sleep to Dream

Ensino Recorrente


Do esoterismo


Há a luz. Antes dela há a fonte da luz. Que também é luz.

Da ignorância


Abençoados sejam os ignorantes, pois será deles a felicidade suprema.

Do aforismo

O aforismo é apenas uma maneira pomposa de escrever frases sem grande sentido.

Do pensamento


Terrível é o homem que pensa que, na realidade, pensa.

Sábado


Até que nem passei mal a noite, acordei muito cedo. Demasiado cedo. Mas permaneci na cama. Erro. Quando me levantei parecia que a minha cabeça ia rebentar e mal consegui abrir os olhos. Fico sempre assim quando permaneço na cama, naquilo que vulgarmente se designa por sorna ou ronha. Quando acordo tenho logo que me levantar. Ou fico maldisposto e isso não é nada bom. E logo hoje que é sábado. De momento estou a preparar-me para ir fazer o almoço. Umas batatas assadas no forno com umas febras de porco de coentrada. Para entrada irão ser servidas rodelas de tomate com queijo mozarela fresco e oregãos. Sobremesa: gelado. E agora algo completamente diferente: a musica Street Spirit dos Radiohead se não é umas das melhores músicas que alguma vez ouvi, anda lá muito perto.

Pensamento do dia


Bob Dylan - Like a Rolling Stone

Silly Season


Sei que estamos na Silly Season quando começo a ler sobre a Silly Season e quando começo a ouvir falar sobre a Silly Season. E eu a pensar que a Silly Season, em Portugal, não tinha season, que era todo o ano.

Passei o dia


Passei o dia
com o meu amor,
fomos ver montras
e passear os corpos
ao calor de julho.

De mão dada pela rua,
a humanidade é boa,
o Céline que se lixe!

Ensino Recorrente



Zapping


As noites quentes têm destas coisas. Estamos para aqui cansados, a vegetar num sofá daqueles todos ergonómicos e que custam os olhos da cara. Pensamos nas criancinhas que podiam ser alimentadas com o dinheiro que se gastou nos sofás, nos livros, nos CD's, no carro, no LCD, na aparelhagem, na máquina de lavar roupa, loiça, em todas essas coisas que nos dão um certo conforto, um certo bem estar. Penso nisso tudo. E depois mudo de canal.

Lí por aí


«Se te disserem, leitor, é um poeta que merece ser seguido com a máxima atenção, não ligues. Atenta-te antes aos teus filhos, se os tiveres; segue com atenção o mundo, tudo aquilo que está nas tuas mãos melhorar para que ele não seja tão irrespirável. Não sigas o poeta nem com máxima nem com mínima atenção. Lê-lhe os livros, isso basta. Depois, deixa-o em paz.»

Henrique Manuel Bento Fialho, em Antologia do Esquecimento

Calor (5)


As cadelas olham para mim como olha quem pede ajuda. Penso em as refrescar um pouco, mas elas fogem da mangueira como o Diabo da cruz.

Passeio


No passado fim-de-semana andei por Braga, a Idolátrica. Não passeei o meu esplendor. Longe disso. Nem tão pouco vi a Braga de Pacheco. Apenas andei por lá. E gostei.

Calor (4)


Dizem que hoje vai estar muito calor. Há quem diga que já está. A mim pouco me importa. Só sei que acordei e tu já não estavas em casa. Isso é, para mim, mais terrível do que todo o calor do mundo.

Pensamento do dia


Mão Morta - Anarquista Duval

Ensino Recorrente


Mau jeito


Dei um mau jeito nas costas que me impede estar de bom-humor. Não estou bem sentado, nem deitado, nem de pé, nem levitando, nem de cócoras, nem nada. Basicamente: não estou bem de maneira nenhuma. Isso também não é novidade. Pode não parecer mas cada vez mais tolero menos tudo o resto. E talvez tudo isto seja apenas o mau jeito nas costas a falar.

Filosofia


Diz Céline: «Filosofar só é outro modo de ter medo, e não leva a muito mais do que aos cobardes simulacros.». Nunca fui muito de filosofar nem de filosofias. Chegou-me a experiência de 3 anos de Humanísticas no Secundário. Mas quando chega a altura de deixar uma casa (aquela que me acolheu durante mais um ano lectivo), não posso deixar de olhar para os caixotes à minha volta e pensar que a minha vida, bem vistas as coisas, se pode resumir a um conjunto de caixotes: os livros, a roupa, os utensílios de cozinha. O suficiente para começar outra vida num outro lugar. Parece-me a mim que é o suficiente. Mas, no fundo, sei que não é verdade. E é aí que entra a filosofia: por mais que pensemos, que nos iludamos com filosofias, sabemos que, na realidade, não passam de mentiras.

Da Noruega


João Luís Barreto Guimarães há muito que nos habituou a poesia de boa qualidade no seu blogue. Desta feita é a vez da poesia norueguesa a merecer destaque.

33 foi a conta que Deus também fez


Pode não parecer mas fiz 33 anos no passado domingo (18 de Julho). Digo isto tendo em conta os textos que escrevo. Passei o dia na Serra com aqueles que me são mais queridos. Trinta e três anos valem apenas e tão-só: trinta e três anos. Mas neste último ano aprendi bastante. Aprendi, principalmente, que o Estado nos lixa a vida quando quer e lhe apetece. Para exemplificar: o ano lectivo 2009-2010. No dia 1 de Setembro fui colocado, a título de professor contratado. No entanto, existia a hipótese de renovar contrato durante 4 anos seguidos. Mas os 4 anos rapidamente passaram para 2 anos (no final do 1º período). Nada mau, pensei. Mas como sabemos o mundo mudou em 15 dias. E alguém lembrou-se dos mega-agrupamentos. Assim, acabo o ano lectivo numa indefinição: não sei se me renovam o contrato. No dia 1 de Setembro de 2009 fui colocado através de um concurso que me dava a hipótese de renovar por 4 anos, no final do 1º período esses 4 anos passam para 2 anos, e como o mundo mudou em 15 dias, acabo o final do ano lectivo sem saber se me renovam o contrato. São 33 anos. Sim, eu sei que é pouco.

Louis-Ferndinand Céline


«Talvez seja a idade que surge, traidora, e nos ameaça com o pior. Em nós já não temos música suficiente para fazer dançar a vida, ora aí está. Toda a juventude foi morrer no fim do mundo, num silêncio de verdade. Para onde havemos de sair, pergunto eu, se em nós já não há uma suficiente soma de delírio? A verdade é agonia sem fim. A verdade deste mundo é a morte. Temos de escolher: mentir ou morrer. Eu cá nunca pude matar-me.»

em Viagem ao Fim da Noite, tradução de Aníbal Fernandes, Lisboa: Ulisseia, 2010, pp. 194-195.

Pensamento do dia


Tédio Boys - NhaNhaNha

Ensino Recorrente



Foi porreira a festa, pá!


Às voltas. Tanta coisa para fazer. A apresentação da revista Sítio n.º 6 correu bem. O aniversário da minha segunda casa, também. A conversa ao jantar correu melhor ainda. Deu para rir. Precisava de rir. Nem sabem o bem que me fez rir.

Um poema de Hugo Milhanas Machado


O leitor diria a última ceia
Desacredito das grandes coisas da vida
o amor deus a mesa posta algum
grito se a mesa vazia dia sobre dia
e até a morte a morte
coisa nobre com que o corpo não perde aposta
se a mesa vazia dia sobre dia
e a noite cada noite a mesa vazia
a morte coisa nobre não é mais morte
andam a fazer da morte amparo da vida
e eu poeta que desacredito ora das grandes coisas da vida
e o amor onde o deixei?
se a mesa vazia e ninguém vem.

em Clave do Mundo, s.l.: Sombra do Amor, 1ª edição (nº. 74 de 125 exemplares numerados e assinados pelo autor), 2007, p. 91.

Yukio Mishima


«Apanhou a concha e examinou-a. Era perfeita a forma e não se via uma única beliscadura nas suas bordas de uma finura delicada. Pensou que daria uma bela prenda e meteu-a no bolso.»

em O Tumulto das Ondas, tradução de Manuel Resende (a partir a versão francesa), Lisboa: Relógio D'Água Editores, colecção Universos Mágicos, 1ª edição, 1987, p. 68.

Sítio #6



Na próxima segunda-feira, dia 12 de Julho, a Livraria Livrododia celebra o quinto aniversário da sua abertura. Voltamos, como há cinco anos atrás, a ter um lançamento da revista Sítio, desta vez o #6, de forma a celebrarmos este dia especial entre amigos. Neste número da revista, com direcção de Luís Filipe Cristóvão, a escolha dos textos esteve a cargo de manuel a. domingos. A lista dos colaboradores inclui os seguintes autores: E. Ethelbert Miller, bruno béu, Rui Almeida, Rute Mota, Susana Miguel, Jorge Vaz Nande, Rui Manuel Amaral, Sandra g.d., Paulo Rodrigues Ferreira, Paulo Kellerman, Henrique Manuel Bento Fialho e João Camilo. Dia 12 de Julho, a partir das 18horas, contamos com a vossa presença.

Henrique


O Henrique publicou um novo livro. Desta vez pela Deriva. O Henrique é dos poucos bloggers que me apeteceu conhecer. Os outros foram o Rui, o Luís, o Paulo e o Jorge. Todos os outros que conheci foi por acaso. Apesar de não acreditar no acaso. Mas, voltando ao Henrique. Há quem não goste do Henrique, não goste daquilo que ele diz, escreve. Eu gosto. É claro que não concordo sempre com ele, mas admiro a sua frontalidade, o seu desassombro. Isso, como é óbvio, incomoda muita gente. Aquilo que eu estou aqui a dizer incomoda muita gente. Eu não me sinto incomodado por essa gente. São gente. Nada mais do que isso. Já tive a oportunidade de ler Estranhas Criaturas. Li-o e gostei. É claro que sou suspeito. Assim, aqui vai um conselho: para não existirem suspeitas, comprem o livro, leiam o livro.

Tarde


Está uma boa tarde aqui no sótão de Coimbra. Sim, em Coimbra também tenho um sótão. A temperatura aqui é inferior ao outro sótão. Em Coruche. Aqui estou melhor. Está Bon Iver a tocar do outro lado da porta. É uma boa tarde para ouvir Bon Iver. Melhor: todas as tardes são boas para ouvir Bon Iver. Sejam tardes de verão ou de inverno. Está uma boa tarde.

Estranhas Criaturas - Henrique Manuel Bento Fialho


Henrique Manuel Bento Fialho, Estranhas Criaturas, Porto: Deriva, 1ª edição, 2010

I don't give a blue fuck


Um dia alguém me disse que os poucos que me liam, liam-me. Houve um tempo em que isso me preocupou. Ansiava por um comentário. Algumas vezes dei aqui conta disso. No entanto, nos últimos tempos, passo mais preocupado em ler os outros. Já não me preocupa tanto que me leiam. Ou que não me leiam. Mas não vou dizer que fico indiferente a comentários a textos meus. Sejam eles comentários anónimos ou identificados. Gosto de ver um texto meu comentado por alguém. E quando digo texto digo, também, vídeos ou fotografias. Por exemplo: as fotos "postadas" sob o pomposo título de Ensino Recorrente. Talvez esse Ensino Recorrente diga mais sobre mim, ou sobre aquilo que eu penso (do Mundo, da Morte, do Amor, do Homem), do que qualquer texto que alguma vez venha a escrever. Ou que tenha escrito. Mas isso também não interessa. É bom poder vir aqui quando me apetece. Quanto ao resto: o título deste texto diz tudo.

Ensino Recorrente


Toranja: não o grupo, mas a fruta


Uma vez, em Sevilha, apanhei 45ºC à sombra. Foi um dos dias mais quentes da minha vida. E nem vou comentar a noite. Hoje o dia também está quente. Não me atrevo a sair de casa enquanto o sol estiver a pique. Por agora vou cortar uma toranja e comer-lhe os gomos. Sim, é isso que vou fazer.

Um poema Chinês de 1200-700 antes da Era Actual


Ah Pequeninas Estrelas
Ah pequeninas estrelas!
Nascente – Escorpião, e a Hidra.
Furtivas na sombra passamos
Manhã e noite o Palácio
Não somos todas iguais.

Ah, bruxuleiam estrelas!
Orion e mais as Plêiades.
Modestas passamos sombra
Levamos pano e camisas
Visto a condição diferente.


em Poemas Anónimos – Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos, por Gil de Carvalho, Lisboa: Assírio & Alvim, colecção Gato Maltês - 55, 1ª edição, 2004, p. 31.

Calor (3)


Saí para ir tomar café. Voltei a entrar.

Sulscrito 3 - Antologia da Indiferença




Colaboram no n.º3 da revista Sulscrito: Adão Contreiras, Amadeu Baptista, Casimiro de Brito, Dinis H. G. Nunes, Eduardo Graça, Eduardo Montepuez, Fernando Cabrita, Gabriela Rocha Martins, Gisela Ramos Rosa, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Ramos, João Bentes, José Bivar, José Carlos Barros, José Félix, Manuel Almeida e Sousa, Manuel Madeira, Manuel Neto dos Santos, Maria do Sameiro Barroso, Maria Luísa Francisco, Miguel Godinho, Nuno Dempster, Pedro Jubilot, Rui Almeida, Rui Costa, Rui Dias Simão, Vítor Cardeira, Xavier Zarco. A edição é da 4águas e a direcção editorial coube ao Fernando Esteves Pinto.

Dia bom


Agora que o dia está quase a terminar, posso dizer que foi um dia bom. Sempre que um dia for bom, virei aqui dizê-lo. Na realidade, todos os dias são bons. Explico: começo a pensar que existem dias bons e dias menos bons. Mas sempre bons. Aplico a mesma ideia ao queijo. Como sou apreciador de queijo (como também sou de vinho, cerveja e poesia), distingo os vários queijos entre bons e menos bons. No entanto, tal "tabela" não se pode aplicar às restantes coisas. Entenda-se "restantes coisas" como vinho, cerveja e poesia. Existem vinhos que são muito maus. Bebam Pedra d' Urso ou Marofa que logo vêem. Também existe cerveja má. E poesia. Digo: formas de poesia. É uma realidade. Mas o queijo não: há queijo bom e queijo menos bom. Isto é a minha opinião. Hoje foi um dia bom.

Um poema Turcomano ou Mongol do séc. XIII


Tornei-me o vosso Rei
Peguemos em arco e escudo.
Seja virtude nossa: tamga.
Hurrah! «O lobo, gris-azulado»
As lanças darão floresta.
Onagro, de caça faz os terrenos
E mares e rios… Um estandarte
O sol. E o céu – acampamento.

em Poemas Anónimos – Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos, por Gil de Carvalho, Lisboa: Assírio & Alvim, colecção Gato Maltês - 55, 1ª edição, 2004, p. 21.

Espinha


Talvez sem o saberem os meus Pais educaram-me para ter espinha. É claro que ter espinha é, nos dias de hoje, uma tarefa difícil, no entanto, cada vez mais necessária. Conheço algumas pessoas que não tem espinha e tentam retirar a espinha aos outros. E conseguem. Conheço muitos exemplos. E este ano aprendi muito sobre isso. E ouvi que é melhor estares calado ou ainda te lixas. Que se lixe, disse-lhes. É o mundo em que vivemos, dirão alguns. Não discordo desta opinião. Lembro-me daquela frase no filme Seven, em que alguém diz que é mais fácil bater num filho do que educá-lo, do que amá-lo. Ter espinha nos dias de hoje é isso mesmo: é mais fácil não ter espinha, vergarmo-nos e deixarmo-nos estar. Que se lixe! Eu cá tentarei todos os dias manter a minha. Espinha.

A noite


A janela está aberta e hoje corre um leve ar fresco. Uma voz de criança entra pela janela. Não pede autorização. Alguém a repreende. A criança cala-se. A noite, lá fora, continua.

O suficiente


Devo dizer que pouco ou nada me entusiasma. Talvez uma boa música, um bom vinho, um bom livro, uma linda mulher, um bom filme, uma boa fotografia. O essencial. É claro que o essencial não tem de ser, necessariamente, por esta ordem. Mas o essencial está ali. Penso que é o suficiente.

PAULO NOZOLINO DEVOLVE PRÉMIO AICA/MC




COMUNICADO

Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas.
A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!
Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.
Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.
Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.
Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.

Paulo Nozolino
1 de Julho de 2010


Ute Lemper e Charles Bukowski


A actriz e cantora Ute Lemper vai interpretar, num cabaré chamado Joe’s Pub, vários poemas de Charles Bukowski, retirados dos livros The Last Night of the Earth Poems, What Matters Most Is How Well You Walk through the Fire e You Get so Alone At Times That It Just Makes Sense. Com concepção e música original de Lemper, o espectáculo intitula-se The Bukowski Project.


Nota: informação recolhida no Bibliotecário de Babel

Calor (2)


Preparo-me, outra vez, para dormir na sala. É impossível dormir num lugar (sótão) onde, a estas horas e com as janelas todas abertas mas sem se sentir uma corrente de ar, estão 30ºC.

Louis-Ferdinand Céline


«Quando o ódio dos homens não comporta nenhum risco, a sua estupidez é fácil de convencer, os motivos surgem por si.»

em Viagem ao Fim da Noite, tradução de Aníbal Fernandes, Lisboa: Ulisseia, 2010, p. 120

Indignar-me é o meu signo diário (15)



A proposta de corte de 20 por cento nas verbas destinadas à Culturguarda, empresa municipal que gere o TMG, foi apresentada pelo presidente da Junta de Freguesia de Aldeia Viçosa, Baltazar Lopes, tendo o grupo do PSD acrescentado à proposta que essas verbas revertam para as juntas de freguesia do concelho. Face ao teor que a proposta assumiu a mesma foi aprovada por larga maioria, incluindo a quase totalidade dos presidentes de juntas de freguesia, que por inerência integram a assembleia.
A polémica estalou quando o director do TMG, Américo Rodrigues, revelou que a proposta do autarca de Aldeia Viçosa não passa de uma retaliação face a uma posição por si assumida no seu blogue «Café Mondego», onde denuncia uma atitude torpe e indigna do edil que impossibilitou, com roncos de vuvuzela a realização de um concerto de música erudita na sua freguesia.
Em novo post editado ontem, dia 29 de Junho, no seu blogue pessoal, Américo Rodrigues denunciou a atitude revanchista do autarca:
«No domingo publiquei uma denúncia acerca do comportamento do presidente da junta de Aldeia Viçosa que, perante várias testemunhas e uma patrulha da GNR, boicotou um concerto clássico promovido pela Fundação Trepadeira Azul, ameaçando, berrando e tocando vuvuzelas. O comportamento daquele edil foi inaceitável e indigno de um representante do poder local.(…)
Hoje, o mesmo presidente da junta propôs à Assembleia Municipal que se cortasse em 20% o apoio da Câmara ao Teatro Municipal da Guarda. O voto foi aprovado. Convém dizer que sou o director do TMG. O alvo sou eu e o que significo. Ou seja, o tipo que criticou e denunciou o inaceitável comportamento de um autarca tocador de vuvuzelas.»
A situação gerou uma avalanche de reacções de indignação face à proposta de corte orçamental na fatia destinada pela Câmara à cultura, que coloca em causa a programação do TMG, instituição da Guarda que tem merecido elogios a nível nacional e internacional pela qualidade do seu desempenho. Américo Rodrigues indica mesmo que espera por uma definição clara da situação por parte do executivo municipal para tomar decisões de fundo.
Capeia Arraiana soube que o voto da assembleia é apenas indicativo, não vinculando a acção futura da Câmara.


Retirado do blogue Capeia Arraiana.


O textos de Américo Rodrigues podem ser lidos aqui, aqui e aqui.

Ensino Recorrente



Calor


Ontem tive que dormir na sala. O calor no sótão tornou-se intolerável. A minha sorte é que existe lá por casa um colchão e lá o estendi no chão, abri a janela e consegui dormir um pouco. Não vou dizer que foi uma noite santa. Mas ajudou.