Antes de mais não vou justificar a presença do meu pai neste texto. O meu pai, quando eu nasci, era guarda-livros numa fábrica de lanifícios e aí continuou como guarda-livros até ao dia em que a fábrica faliu. Começara a trabalhar logo aos doze ou treze anos – agora não me recordo – para ajudar os pais mais os seus nove irmãos. Ao contrário de outros, teve a sorte de conseguir fazer o segundo ano do ciclo (actual sexto). Ao contrário de outros, não esbanjou o património que tinha, pois, na realidade, nunca teve grande património que pudesse chamar seu, quanto mais esbanjá-lo. E teve a sorte de não combater no Ultramar, apesar de ter servido na Força Aérea e de ter estado presente nessa longa noite das cheias de 1969. Delas lembra-se dos gritos na noite e que passado uma semana, enquanto fazia a limpeza da pista de aviação junto com outros camaradas, encontrar o corpo de uma jovem agarrada ao tronco de uma árvore. A primeira coisa que disse à minha mãe, quando eu nasci, foi que eu era feio, que me parecia com ele. Não sei qual é a primeira recordação que tenho do meu pai. Sei apenas que nunca me bateu, excepto uma palmada bem merecida no rabo quando, pela primeira vez, visitei Lisboa – tinha eu sete anos e os meus pais concluíram que era altura de, finalmente, conhecer a capital do país e tudo aquilo que nela havia –, na visita ao Jardim Zoológico me debrucei na grade da jaula dos macacos para tentar apanhar restos de amendoins que havia, do lado de lá, pelo chão. Ainda hoje o meu pai diz que foi palmada bem merecida: parece que um macaco se preparava para me agarrar pelos cabelos e me fazer ver que os amendoins eram só dele e de nenhum outro armado em macaco. Tenho a certeza que não é essa a primeira recordação que tenho do meu pai. Talvez seja aquela em que ele chegou a casa com a cabeça a sangrar, depois de um plenário na fábrica de lanifícios onde era guarda-livros e onde continuou como guarda-livros até ao dia em que a fábrica faliu. É que o meu pai foi dirigente sindical durante alguns anos, filiado na GGTP. Abandonou a CGTP no dia em que afastaram Kalidás Barreto, pelo facto – dizem – deste não ser muito chegado ao Partido Comunista. Explico: o meu pai sempre foi Socialista, ajudou a criar a concelhia do PS de Manteigas (o filho tentou seguir-lhe os passos e ainda esteve filiado na JS durante um ano, até que viu a porcaria em que se tinha metido). Deram-lhe, até, uma cópia da acta da reunião da fundação do PS, que parece ter sido na Suíça ou lá muito perto, onde a malta, com estatuto de “refugiado” (ou lá o que era) vivia. Ora o meu pai, na altura, entendeu que se afastavam Kalidás Barreto, por ele não ser muito chegado ao Partido Comunista, era o mesmo que dizer que só queriam comunistas. Ora o meu pai nunca foi comunista, nunca gostou do Álvaro Cunhal, apesar de admitir que foi o único político português a manter alguma coerência do princípio ao fim da sua vida. Justiça lhe seja feita, disse um dia. Quando foi o 25 de Novembro esteve do lado das forças pluralistas e parece que organizou um ou outro piquete de vigilância na Serra, pois dizia-se que o Otelo ia para lá entrincheirar-se armado em Che Guevara e tal. Pelo menos é o que reza a História. Segundo alguns, a História é feita de vencedores e de vencidos, mas apenas escrita pelos vencedores. E nós, como todos sabemos, estamos num país cheios de vencedores. Daí a nossa História ser tão complicada. Daí o meu pai ter-se deixado de política. É claro que viveu com fervor a Revolução e a Pós-Revolução. E quando se casou quis levar uma gravata vermelha. A minha mãe é que não deixou. Levou uma gravata azul e vermelha e um cravo vermelho. Estávamos em Outubro de 1974. Depois andou metido, para além do sindicato, no cooperativismo: uma cooperativa de consumo e um cooperativa jornalística. É que o sonho do meu pai era ser jornalista, só que foi antes guarda-livros numa fábrica de lanifícios e aí continuou como guarda-livros até ao dia em que a fábrica faliu. Mas ainda teve, mesmo assim, tempo para escrever um ou outro texto para o mensário lá da terra. Durante os primeiros tempos assinou com um pseudónimo, mas depois passou a assinar com o seu nome que também é Manuel. E já o meu avó paterno era Manuel. Faleceu de ataque cardíaco. E nesse dia o meu pai deu-me a notícia dizendo o meu pai morreu. Ele nunca dizia o meu pai. Sempre disse o avô. Mas naquele dia disse o meu pai. Eu estava a dar explicações numa instituição. Foi no ano lectivo logo a seguir a ter terminado o curso. Foi o ano em que estive desempregado e o meu pai olhava para mim sem saber muito bem o que dizer. O que dizer a um filho que acaba de tirar um curso e fica desempregado? Não sei. Ainda não sou pai. Acredito que não deve ser fácil. Basta, para isso, lembrar-me do meu pai a olhar para mim e sem saber o que dizer. Mas no ano seguinte lá consegui ser colocado numa escola em Pampilhosa da Serra. Lembro-me que fiquei contente, pois pensava que era Pampilhosa do Butão (confusão frequente) e que ia ficar a viver em Coimbra. Só que o meu pai sabia muito bem onde ficava a Pampilhosa da Serra e feliz, por me ver empregado, disse-me que não era essa a Pampilhosa que eu pensava que era. E lá fui eu. Um ano depois estava numa nova escola (Tábua) e o meu pai dava entrada, pela primeira vez, no IPO de Coimbra. Na altura não me assustei muito, pois sabia que a coisa era benigna. Da segunda vez foi pior. Não consigo descrever como é ouvir a palavra maligno a sair friamente da boca de um médico. Mas o meu pai lá se safou e sempre com um sorriso nos olhos. É que o meu pai raramente sorri com a boca. Mas os olhos denunciam-no sempre.
2 comentário(s):
:)
estava a precisar de ler um post como este. O meu avô tinha o mesmo dom, sorria e falava com os olhos. fez ontem 6 anos que faleceu, mas continua vivo nas recordações que fez questão de nos deixar :)*
obrigada! adoro este blog*
Abraço Amigo!É bom ler algo tão bom de ler...cai bem. O meu Avô, também, sorria assim, nem precisava falar para nos sentirmos bem á beira dele...
Faleceu este ano, e, as recordações de alguém que foi essencial á minha vida, são muitas...
Abraço!
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