Ao cuidado do Senhor Dr. Bernardino Soares


Esta notícia.

Ernst Jünger


«O anarca, que não reconhece nenhum governo, mas que também não se deixa levar, como o anarquista, em devaneios paradisíacos, goza por isso mesmo de perspectivas neutras de observação.»

em Eumeswil, Lisboa: Ulisseia, tradução de Sara Seruya, s/d, p. 149.

Nota: A citação foi retirada deste blogue.

Ensino Recorrente


Roteiro


Acabadinho de chegar a Coimbra. Amanhã é vez de ir até à Serra. A Manteigas. Os pais esperam. Não sei se é o regresso do filho-pródigo. Mas é o regresso do filho. Embora repare que regressar implica ter partido. E na realidade eu não parti. Não se consegue deixar aquele sítio. Ele está nos ossos. E lá se mantém.

Um poema de Santa Teresa de Ávila


Formusura que excedeis!

Formusura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas tão díspares!
não sei porquê vos soltais,
pois atado força dais
pra ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar acabais,
e sem ter que amar amais,
engrandeceis vosso nada.

em Seta de Fogo, Lisboa: Assírio & Alvim, tradução, prólogo e notas de José Bento, 1ª edição, colecção Gato Maltês-23, 1989, p. 13.

Wood vs Bloom


James Wood está para a minha geração tal como Harold Bloom está para a geração anterior. A ideia não é minha, li-a algures. Só que Wood escreve para o leitor comum e Bloom para Academia. Só li um livro de Bloom: o incontornável A Angústia da Influência. Já uma vez aqui fiz referência a isso e à experiência que foi ler esse incontornável e inenarrável livro. Agora leio Wood: A Mecânica da Ficção. A experiência está a ser completamente diferente. Wood eu consigo descodificar e entender.

A festa


Sempre que se dá o solstício de verão, lembro-me da festa que Gatsby deu nesse grande romance que é The Great Gatsby. A festa emana estilo por todos os lados. Às vezes também penso em fazer uma festa semelhante. Todos os anos me lembro disso. Todos os anos a festa fica por fazer.

Pensamento do dia


Um poema de Jorge Sousa Braga


Água-Marinha

Se a encostares ao ouvido
ouve-se o mar
O que é preciso é saber escutar


em Fogo Sobre Fogo, Lisboa: Fenda, 1ª edição, 1998, p. 45.

Vergonha


Isto que Eduardo Pitta refere é, sem dúvida alguma, uma vergonha.

Decote


Não sei se já repararam, mas só aqui venho quando as coisas não andam muito bem. No entanto, hoje, vejo aqui porque me apetece. Ando numa de apetites. E como sabemos os apetites vão e vêm. Ou vêm e vão. O ano lectivo, com alunos, terminou na última sexta-feira. Os conselhos de turma estão a decorrer com normalidade. Ao meu lado está um decote a olhar para mim. Mesmo que eu não queira não consigo que ele não olhe para mim. É terrível. Um decote tem esse dom: fixa-nos.

José Saramago


«No geral do ano há quem morra por muito ter comido durante a vida toda, razão po que se repetem os acidentes apoplécticos, primeiro, segundo, terceiro, e às vezes um basta para levar à cova, e se o acidentado provisoriamente escapou, fica leso de um lado, de boca à banda, sem voz se o lado foi esse, e também sem remédios que lhe acudam, tirando as sangrias, que se receitam às meias dúzias. Mas não falta, por isso mesmo falecendo mais facilmente, quem morra por ter comido pouco durante toda a vida, ou o que dela resistiu a um triste passadio de sardinha e arroz, mais a alface que deu a alcunha aos moradores, e a carne quando faz anos sua majestade. Quer Deus que o rio seja pródigo de peixe, louvemo-los aos três por isso. E que a alface, mais as outras hortaliças, venham nas burricadas do termo, ceirões repletos, a toque de saloios e saloias, que neste trabalho não se distinguem. E que o arroz não falte além do tolerável. Mas esta cidade, mais que todas, é uma boca que mastiga de sobejo para um lado e de escasso para o outro, não havendo portanto mediano termo entre a papada pletórica e o pescoço engelhado, entre o nariz rabicundo e o outro héctico, entre a nádega dançarina e a escorrida, entre a pança repleta e a barriga agarrada às costas. Porém, a Quaresma, como o sol, quando nasce, é para todos.»

em Memorial do Convento, Lisboa: RBA Editores, 1994, p. 23.

José Saramago (1922-2010)


De José Saramago li poucos livros, mas li alguns para poder dizer que li José Saramago: Terra do Pecado, Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Memorial do Convento, Cadernos de Lanzarote (nos vários volumes), Os Poemas Possíveis. Destes, aqueles que menos me agradaram foram os seus diários. Aquele que mais gostei de ler foi, sem dúvida alguma, Levantado do Chão. Mas não me posso esquecer de Manual de Pintura e Caligrafia, talvez o seu romance menos conhecido, menos debatido, mas que é um bom romance. E agora um pequeno desabafo: se há coisa que me irrita é ouvir alguém dizer: não gosto de ler Saramago... ele não sabe pontuar. O que entendem estas pessoas por pontuação?

Pensamento do dia


L7 - Shitlist

When I get mad
And I get pissed
I grab my pen
And I write out a list
Of all the people
That won't be missed
You've made my shitlist

For all the ones
Who bum me out
Shitlist
For all the ones
Who fill my head with doubt
Shitlist
For all the squares who get me pissed
Shitlist
You've made my shitlist

Shitlist
Shitlist

When I get mad
And I get pissed
Shitlist
I grab my pen
And write out a list
Shitlist
Of all you assholes
Who won't be missed
Shitlist
You've made my shitlist

Shitlist
Shitlist

How I always saw
that white light around us,
around you,
when we were together,
we were the only
two people on earth,
everyone else
was just extras in our movie
(you get top billing baby)...

Pensamento do dia


Happy Mondays - Step On

Ensino Recorrente



Um poema de João Damasceno


Sentado próximo de um cadáver,
como uma perna de galinha

As carnes muito brancas,
os olhos muito abertos,
a língua dura e roxa,
o céu da boca azul:
não parece já, apetecer-lhe almoço

Passei à sobremesa,
em óptima melancia enterro o meu dente;
com a língua dou um estalo
o sabor é excelente

Daquele corpo pútrido,
o cheiro já mal aguento;
cuspo uma pevide,
acerto-lhe no ventre

Ainda estou para entender,
da morte, esta alquimia:
quando a sento à minha mesa,
a galinha sabe a faisão
e a melancia duplamente a melancia

em Sião, organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Lisboa: Frenesi, 1985, p. 2001.

Das questões


Como tenho algum tempo livre, ocupo-me com subterfúgios e outras coisas. Ao telefone alguém me diz que os primeiras questões filosóficas só surgiram quando o homem assegurou, para si e para os seus, o básico: comida e abrigo. Depois, sim, pode começar a perder tempo com Deus, a Morte, a Liberdade, o Pensamento, e essas coisas.

Lí por aí


«Cuauhtémoc Blanco está simplesmente ali, imperturbável, como um paquiderme antigo ou um cavalheiro de outros tempos. É muito reconfortante ver um homem normal, barrigudo e quase velho, a jogar um Mundial de futebol, indiferente à vaidade dos falsos semideuses. Vejo Blanco em campo ensaiando pequenas corridas lentas para se posicionar e parece que tudo é possível: se ele e o Miguel Veloso lá estão, também eu podia perfeitamente jogar numa selecção.»

Manuel Jorge Marmelo em Teatro Anatómico

Da leitura


Albert Cossery é um dos poucos autores que me consegue prender da primeira à última página. Não tenho dificuldade nenhuma em lê-lo. São livros que me dão prazer. Tal só me acontece com meia dúzia de autores, entre eles os inevitáveis: Bukowski, Céline, Mishima e Bernhard. Pouco mais. É claro que leio outros. Mas poucos me dão tanto prazer como os citados. Por exemplo: comecei há dois dias a ler A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, e ando a arrastar-me pelas páginas. É terrível. Mas a autora lá me vai aguentando: existem partes muito bem escritas, onde a autora me consegue prender. Talvez a escrita de Lídia Jorge não seja fácil. São poucos os autores portugueses que têm uma escrita fácil e que conseguem ser apreciados. E quando digo fácil não me refiro a uma escrita sem profundidade, refiro-me, antes, a uma escrita que não se perde em jogos de estilo, que, na maior parte das vezes, são vazios de conteúdo. Vergílio Ferreira – que apadrinhou o primeiro livro de Lídia Jorge (na altura era assim: os mais novos pediam “ajuda” aos mais velhos) – dizia que eram livros que não deixavam nada no estômago. Até agora, A Costa dos Murmúrios é um desses livros.

Um poema de António Cabrita


Proximidade Aristotélica

Não depende de haver o corpo.
Vive-se perfeitamente sem dois
ou três dedos: segurar um cigarro,
um selo, a perna da galinha,
exige um mínimo de dons.
E, contudo, sem o balancear
dos teus pulsos que desempenam
a janela de guilhotina ou sopesam
na faca a beringela
podiam os anos saldar-se
que enferrujavam no arame.

Vejo a força da estação abater-se
sobre as escadas em caracol
das traseiras da embaixada, onde
há uma semana se disponibiliza
um catálogo de rios. Medito
toda a manhã nesse transbordo triste
e embora o vento que deposita
um mapa na mão direita arroste
um profundo debilitamento
ao coração recomeço a confiar –

estas coisas não devem assustar:
a luz, sabe-se, morde como um rato,
mas quando a pedra despeja as fontes
e o sangue faz subir o preço
da rapina está o coração
de há muito enxertado de partidas.

em «Em Quanto Tempo Arde o Eucalipto» inserido em Arte Negra, Lisboa: Fenda, 1ª edição, 2000, pp. 62-63.

Não me posso queixar


Sabem que passo a vida a queixar-me. Hoje não o vou fazer. Vendo bem as coisas, nem tudo corre mal. Tenho livros e cds nas estantes. Carro à porta. Dinheiro para pagar a renda de casa. Namorada. E, se me apetecer levantar do sofá relativamente confortável, tenho o frigorifico recheado das coisas que mais gosto. Quantos poderão dizer o mesmo? Tenho pão. Só me faltava o circo. Mas começou hoje o Mundial.

Ensino Recorrente


Um poema de Fernando Gandra


Só hoje te escrevo este vestido
de palavras. Desculpa.
Oxalá que ao recebê-lo os pés
inchados das tuas ilusões inamovíveis
sosseguem junto à fonte.
A mãe, aqui ao lado, é uma sombra
do que pensas: repousa entre o frio
dos joelhos. A tua boina em ponto cruz
está pronta. O forno é bom e sem
enredo: sempre o mesmo.
A taça muito magra do silêncio
entra (ainda) pela janela.
Na varanda as zinias continuam razoáveis.

Pelo corrimão do tempo desce o gelo.
A tua ausência é uma casa muito espaçosa.
Responde-me na volta do sangue.

Beijos.

em Sião, organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Lisboa: Frenesi, 1985, p. 147.

Pensamento do dia


Drop Nineteens - Kick the Tragedy

Stig Dagerman


«Quando, por fim, me apercebo que esta terra é uma vala comum, onde Salomão, Ofélia e Himmler repousam lado a lado, concluo que tanto o crápula como a infeliz têm o mesmo fim que o sábio. Por isso, para uma vida falhada, a morte pode tornar-se numa forma de consolo – e bem atroz, sobretudo para quem na vida queria encontrar forma de vencer a morte.»

em A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Lisboa: Fenda, versão de Paula Castro e José Daniel Ribeiro, 4ª edição, 2004, pp. 23-24.

Homens


Posso dizer que estou a ter um fim de tarde calmo. Hesito entre pensar ou limitar-me a estar. Mas penso. E continuo a tentar pensar, isto é: convencer-me, que o Homem é um ser bom. Só que ligo a televisão e sintonizo o Canal História. Há um documentário sobre o Darfur e todas as minhas tentativas para readquirir fé nos Homens desaparecem. O Darfur passou-nos ao lado. Como nos passou ao lado o Ruanda: em três meses foram mortas 800.000 pessoas. Tive um aluno no Estabelecimento Prisional de Caxias que era do Ruanda. Pertencia à etnia dos tutsis. Fez os 24 anos na prisão. Antes tinha estatuto de refugiado da ONU e vivia na Holanda. Mas parece que o dinheiro ao fim do mês não era suficiente. Decidiu ser “correio”. Foi detido no aeroporto da Portela, quando regressava do Brasil com alguns quilos de cocaína. Um dia perguntei-lhe sobre o seu país e sobre o que se tinha passado. Ele falou-me da barbárie. Disse-me que eram todos vizinhos, todos amigos. Um dia de manhã acordou e estavam todos a matar-se uns aos outros. Ele só teve tempo de se esconder, fugir. Perdeu a família toda.

Um poema de José Carlos Soares


lâmpada nenhuma
revela a face
do pequeno príncipe
enforcado. nem o cavalo

interior estima
aquele que da alma
apenas aproveita
escuridão. parte-se do fim

para uma breve
prece. guarda-se
o dardo. escolha deus
o resto.

em Sião, organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Lisboa: Frenesi, 1985, p. 171.

Ensino Recorrente



Dez anos e demasiados nomes


Recebi ontem mensagem de um amigo: na próxima quarta-feira faz dez anos que acabámos o curso. Dez anos. Há dez anos acabei o curso. Há nove que dou aulas (não me atrevo a dizer que sou professor, pois ainda não entrei na carreira). Depois de terminar o curso estive um ano desempregado, sem colocação. Na altura ainda eram os mini-concursos: podíamos concorrer a todos os distritos do país, mas nos final só podíamos optar por um. Optei pelo distrito da Guarda. A namorada na altura era finalista. Quis ficar perto dela. Terminámos três meses depois. Uma ex-professora do Liceu deu-me a mão. Comecei a dar explicações numa instituição em Manteigas. Ganhava 1.000 escudos à hora, sete horas por semana. Tive um projecto de contar histórias aos meninos de primeiro ciclo. Alguns deles ainda hoje me falam. Fui recenseador do Censos 2001. Ganhei mais algum dinheiro. Fiz mais alguns biscates. Mais algum dinheiro. No ano lectivo 2001/2002 consegui, finalmente, colocação. Livre de namorada concorri para o distrito de Coimbra. Fiquei colocado na Pampilhosa da Serra. Tive bons colegas: a Marta, o Luís, o António, o Filipe, o João Paulo e um outro colega porreiro, mas que agora não me lembra o nome. Ano 2002/2003 fiquei colocado em Tábua. Novos colegas: o Armindo, o Francisco, a Carla (que ainda hoje me acompanha). Ano 2003/2004 é o famoso ano das colocações à David Justino. Fui parar a Silves com um horário de 11 horas em Novembro. Ensino recorrente nocturno. Conheci dois bons amigos: António Baeta e Manuel Ramos. Ano 2004/2005 é Miranda do Corvo. Ano 2005/2006 é o ano do Estabelecimento Prisional de Caxias. Lembro-me de alguns reclusos, em particular de um russo, de vários sul-americanos e de um bom colega: Abel Arez. Ano 2006/2007 fiquei na Figueira da Foz. Ano 2007/2008 foi o ano da Benedita, onde conheci o Paulo Costa e a Soledade Santos e o Melo. Ano 2008/2009 é o ano das duas escolas: Alapraia e S. Teotónio. O Eurico é um bom companheiro de S. Teotónio. E, finalmente, o ano de 2009/2010. É o ano de Coruche. Um dia ainda vos falo dele.

Domingo (3)


Uma autêntica fada do lar. Fiz as limpezas, passei a ferro, uma máquina lavou e a roupa está a secar. Uma autêntica fada do lar. Fiz o jantar: uma massada de vegetais. Uma autêntica fada do lar. E agora repouso como um guerreiro.

Domingo (2)


O domingo lá vai decorrendo. O sofá é confortável. Há poesia em cima da mesa para ler.

Domingo


Este ano moro mesmo ao lado da Igreja Matriz da terra onde me calhou trabalhar. Hoje, como já devem ter reparado, é domingo. Os cânticos entram pela janela. São cânticos de louvor, de alegria. Não me aborrece nada que os cânticos me entrem pela janela sem pedir autorização. Não me fazem mal nenhum. Também não me fazem bem. São-me indiferentes. Mas não deixa de ser reconfortante, a esta hora, os cânticos entrarem pela minha janela sem pedir autorização.

O dia de ontem até que nem foi mau de todo


Ontem tentei cumprir os versos certeiros: «Levei-me a passear / pela trela e ladrei / às próprias sombras / como se não soubesse / serem minhas / as extensões do corpo.» (Manuel Fernando Gonçalves). Só que encurtei bastante a trela, não fosse partir por aí e nunca mais voltar.

Um poema de Renata Correia Botelho


o gato espia do telhado
a vida a partir
em cada comboio que passa,

o tempo que se arrasta
na dor metálica dos carris.

é feriado nas mãos,
trago uma canção triste
e o teu rosto no bolso.

em Um Circo no Nevoeiro, Lisboa: Averno, 2009, p. 34.

Pensamento do dia


Ministry - N.W.O.

Lí por aí


«Vinha de Évora, a conduzir. Só nestas alturas ouço rádio. Estava a seguir a transmissão do debate no Parlamento. Sócrates não respondia a nenhuma questão, limitando-se a colocar os interlocutores em causa. É um estilo que não me agrada. Nem uma única resposta, só ataques a quem ousa questioná-lo. Jerónimo de Sousa, a certa altura, pergunta pela saída para a crise. Mas, nesse preciso momento, o carro entra no túnel da Gardunha, o rádio emudece e eu, portanto, não ouço a resposta. Haverá saída para a crise? Quando saio do túnel, Sócrates fala já do conservadorismo do PCP. E que ele - Sócrates - é que representa a esquerda moderna e responsável. Gostava de saber se Jerónimo ou Sócrates sabem como sair da crise. Se um luzinha ao fundo do túnel.»

Américo Rodrigues em Café Mondego

Ventania


Numa aula, durante uma Ficha de Verificação de Conhecimentos de Língua Portuguesa, uma aluna questiona-me, depois de ter lido o seguinte pedido: «Escreve palavras da família de vento»:
- Senhor Professor, o vento tem família?

Simplesmente Complicado


E ontem lá rumei a Évora para ver Simplesmente Complicado de Thomas Bernhard, numa encenação de Américo Rodrigues e interpretação de Rui Nuno. O texto, um monólogo, não torna a tarefa fácil ao actor, mas tal não se notou: Rui Nuno esteve à altura do desafio. Antes da peça jantei com alguns amigos na livraria Intensidez. E tive uma agradável surpresa: o Mapa nas estantes.

Outra comparação


Não tenho vontade para nada. O calor é terrível aqui neste sítio. Tenho Fichas de Verificação de Conhecimentos para corrigir. Vontade: nenhuma. Os alunos também começam a ficar sem grande vontade. Digo sem grande vontade pois este ano nem me posso queixar muito dos alunos que tenho nas minhas turmas: são interessados, alguns até têm sentido de humor. Também eles começam a sentir o calor que aperta como uma garrote (garrote, não: demasiado óbvio: escolha, o leitor, outra comparação).

Derrota


Os dias decorrem com a normalidade de sempre. Às vezes penso que é esse o problema: a normalidade. A normalidade, quando rotineira, transforma-se em tédio. É claro que o calor também ajuda: dormir num sótão onde à noite estão 27ºc não ajuda muito. Mas deve ser muito melhor do que dormir num vão de escada. Disso não tenho a menor dúvida (uma vez dormi num vão de escada e acordei todo desfeito). A palavra que melhor resume os dias é: derrota.