Ao cuidado do Senhor Dr. Bernardino Soares
Ernst Jünger
«O anarca, que não reconhece nenhum governo, mas que também não se deixa levar, como o anarquista, em devaneios paradisíacos, goza por isso mesmo de perspectivas neutras de observação.»
em Eumeswil, Lisboa: Ulisseia, tradução de Sara Seruya, s/d, p. 149.
Nota: A citação foi retirada deste blogue.
Pensamento do dia
Anouar Brahem - Astracan Café
Roteiro
Um poema de Santa Teresa de Ávila
Formusura que excedeis!
Formusura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas tão díspares!
não sei porquê vos soltais,
pois atado força dais
pra ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar acabais,
e sem ter que amar amais,
engrandeceis vosso nada.
Wood vs Bloom
A festa
Sempre que se dá o solstício de verão, lembro-me da festa que Gatsby deu nesse grande romance que é The Great Gatsby. A festa emana estilo por todos os lados. Às vezes também penso em fazer uma festa semelhante. Todos os anos me lembro disso. Todos os anos a festa fica por fazer.
Um poema de Jorge Sousa Braga
Água-Marinha
Se a encostares ao ouvido
ouve-se o mar
O que é preciso é saber escutar
em Fogo Sobre Fogo, Lisboa: Fenda, 1ª edição, 1998, p. 45.
Vergonha
Decote
José Saramago
José Saramago (1922-2010)
De José Saramago li poucos livros, mas li alguns para poder dizer que li José Saramago: Terra do Pecado, Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Memorial do Convento, Cadernos de Lanzarote (nos vários volumes), Os Poemas Possíveis. Destes, aqueles que menos me agradaram foram os seus diários. Aquele que mais gostei de ler foi, sem dúvida alguma, Levantado do Chão. Mas não me posso esquecer de Manual de Pintura e Caligrafia, talvez o seu romance menos conhecido, menos debatido, mas que é um bom romance. E agora um pequeno desabafo: se há coisa que me irrita é ouvir alguém dizer: não gosto de ler Saramago... ele não sabe pontuar. O que entendem estas pessoas por pontuação?
Pensamento do dia
L7 - Shitlist
When I get mad
And I get pissed
I grab my pen
And I write out a list
Of all the people
That won't be missed
You've made my shitlist
For all the ones
Who bum me out
Shitlist
For all the ones
Who fill my head with doubt
Shitlist
For all the squares who get me pissed
Shitlist
You've made my shitlist
Shitlist
Shitlist
When I get mad
And I get pissed
Shitlist
I grab my pen
And write out a list
Shitlist
Of all you assholes
Who won't be missed
Shitlist
You've made my shitlist
Shitlist
Shitlist
How I always saw
that white light around us,
around you,
when we were together,
we were the only
two people on earth,
everyone else
was just extras in our movie
(you get top billing baby)...
Pensamento do dia
Happy Mondays - Step On
Um poema de João Damasceno
Sentado próximo de um cadáver,
como uma perna de galinha
As carnes muito brancas,
os olhos muito abertos,
a língua dura e roxa,
o céu da boca azul:
não parece já, apetecer-lhe almoço
Passei à sobremesa,
em óptima melancia enterro o meu dente;
com a língua dou um estalo
o sabor é excelente
Daquele corpo pútrido,
o cheiro já mal aguento;
cuspo uma pevide,
acerto-lhe no ventre
Ainda estou para entender,
da morte, esta alquimia:
quando a sento à minha mesa,
a galinha sabe a faisão
e a melancia duplamente a melancia
em Sião, organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Lisboa: Frenesi, 1985, p. 2001.
Das questões
Como tenho algum tempo livre, ocupo-me com subterfúgios e outras coisas. Ao telefone alguém me diz que os primeiras questões filosóficas só surgiram quando o homem assegurou, para si e para os seus, o básico: comida e abrigo. Depois, sim, pode começar a perder tempo com Deus, a Morte, a Liberdade, o Pensamento, e essas coisas.
Lí por aí
Da leitura
Albert Cossery é um dos poucos autores que me consegue prender da primeira à última página. Não tenho dificuldade nenhuma em lê-lo. São livros que me dão prazer. Tal só me acontece com meia dúzia de autores, entre eles os inevitáveis: Bukowski, Céline, Mishima e Bernhard. Pouco mais. É claro que leio outros. Mas poucos me dão tanto prazer como os citados. Por exemplo: comecei há dois dias a ler A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, e ando a arrastar-me pelas páginas. É terrível. Mas a autora lá me vai aguentando: existem partes muito bem escritas, onde a autora me consegue prender. Talvez a escrita de Lídia Jorge não seja fácil. São poucos os autores portugueses que têm uma escrita fácil e que conseguem ser apreciados. E quando digo fácil não me refiro a uma escrita sem profundidade, refiro-me, antes, a uma escrita que não se perde em jogos de estilo, que, na maior parte das vezes, são vazios de conteúdo. Vergílio Ferreira – que apadrinhou o primeiro livro de Lídia Jorge (na altura era assim: os mais novos pediam “ajuda” aos mais velhos) – dizia que eram livros que não deixavam nada no estômago. Até agora, A Costa dos Murmúrios é um desses livros.
Um poema de António Cabrita
Não depende de haver o corpo.
Vive-se perfeitamente sem dois
ou três dedos: segurar um cigarro,
um selo, a perna da galinha,
exige um mínimo de dons.
E, contudo, sem o balancear
dos teus pulsos que desempenam
a janela de guilhotina ou sopesam
na faca a beringela
podiam os anos saldar-se
que enferrujavam no arame.
Vejo a força da estação abater-se
sobre as escadas em caracol
das traseiras da embaixada, onde
há uma semana se disponibiliza
um catálogo de rios. Medito
toda a manhã nesse transbordo triste
e embora o vento que deposita
um mapa na mão direita arroste
um profundo debilitamento
ao coração recomeço a confiar –
estas coisas não devem assustar:
a luz, sabe-se, morde como um rato,
mas quando a pedra despeja as fontes
e o sangue faz subir o preço
da rapina está o coração
de há muito enxertado de partidas.
em «Em Quanto Tempo Arde o Eucalipto» inserido em Arte Negra, Lisboa: Fenda, 1ª edição, 2000, pp. 62-63.
Não me posso queixar
Sabem que passo a vida a queixar-me. Hoje não o vou fazer. Vendo bem as coisas, nem tudo corre mal. Tenho livros e cds nas estantes. Carro à porta. Dinheiro para pagar a renda de casa. Namorada. E, se me apetecer levantar do sofá relativamente confortável, tenho o frigorifico recheado das coisas que mais gosto. Quantos poderão dizer o mesmo? Tenho pão. Só me faltava o circo. Mas começou hoje o Mundial.
Um poema de Fernando Gandra
de palavras. Desculpa.
Oxalá que ao recebê-lo os pés
inchados das tuas ilusões inamovíveis
sosseguem junto à fonte.
A mãe, aqui ao lado, é uma sombra
do que pensas: repousa entre o frio
dos joelhos. A tua boina em ponto cruz
está pronta. O forno é bom e sem
enredo: sempre o mesmo.
A taça muito magra do silêncio
entra (ainda) pela janela.
Na varanda as zinias continuam razoáveis.
Pelo corrimão do tempo desce o gelo.
A tua ausência é uma casa muito espaçosa.
Responde-me na volta do sangue.
Beijos.
em Sião, organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Lisboa: Frenesi, 1985, p. 147.
Pensamento do dia
Drop Nineteens - Kick the Tragedy
Stig Dagerman
«Quando, por fim, me apercebo que esta terra é uma vala comum, onde Salomão, Ofélia e Himmler repousam lado a lado, concluo que tanto o crápula como a infeliz têm o mesmo fim que o sábio. Por isso, para uma vida falhada, a morte pode tornar-se numa forma de consolo – e bem atroz, sobretudo para quem na vida queria encontrar forma de vencer a morte.»
em A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Lisboa: Fenda, versão de Paula Castro e José Daniel Ribeiro, 4ª edição, 2004, pp. 23-24.
Homens
Um poema de José Carlos Soares
lâmpada nenhuma
revela a face
do pequeno príncipe
enforcado. nem o cavalo
interior estima
aquele que da alma
apenas aproveita
escuridão. parte-se do fim
para uma breve
prece. guarda-se
o dardo. escolha deus
o resto.
em Sião, organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Lisboa: Frenesi, 1985, p. 171.
Dez anos e demasiados nomes
Pensamento do dia
Strange Boys - Be Brave
Domingo (3)
Domingo (2)
Domingo
Este ano moro mesmo ao lado da Igreja Matriz da terra onde me calhou trabalhar. Hoje, como já devem ter reparado, é domingo. Os cânticos entram pela janela. São cânticos de louvor, de alegria. Não me aborrece nada que os cânticos me entrem pela janela sem pedir autorização. Não me fazem mal nenhum. Também não me fazem bem. São-me indiferentes. Mas não deixa de ser reconfortante, a esta hora, os cânticos entrarem pela minha janela sem pedir autorização.
O dia de ontem até que nem foi mau de todo
Um poema de Renata Correia Botelho
o gato espia do telhado
a vida a partir
em cada comboio que passa,
o tempo que se arrasta
na dor metálica dos carris.
é feriado nas mãos,
trago uma canção triste
e o teu rosto no bolso.
em Um Circo no Nevoeiro, Lisboa: Averno, 2009, p. 34.
Pensamento do dia
Ministry - N.W.O.
Lí por aí
Ventania
Numa aula, durante uma Ficha de Verificação de Conhecimentos de Língua Portuguesa, uma aluna questiona-me, depois de ter lido o seguinte pedido: «Escreve palavras da família de vento»:
- Senhor Professor, o vento tem família?



