«fiquemos calados. afinal o sol está por aí e calados, ficamos todos bem. fiquemos calados. o melhor mesmo é que ninguém se chateie. calados.»
Luís Filipe Cristóvão em o homem que queria ser luís filipe cristóvão
«fiquemos calados. afinal o sol está por aí e calados, ficamos todos bem. fiquemos calados. o melhor mesmo é que ninguém se chateie. calados.»
Luís Filipe Cristóvão em o homem que queria ser luís filipe cristóvão
Levantei-me a pensar que era gente. E ao calçar os sapatos, acordei.
Vim até Manteigas passar o fim-de-semana. Passei-o cheio de sono e com cansaço nos ossos. Quando o cansaço nos chega aos ossos, pouco ou nada podemos fazer. Nem resistir. Apenas esperar que o cansaço passe, que decida que está cansado de nos cansar. É essa a vaga esperança que alimento: que o cansaço também se canse. O pior é quando o cansaço cansado se mantém nos nossos ossos. O nosso cansaço, nesse caso, é a triplicar: é o cansaço do cansaço, mais o cansaço, mais o cansaço que o cansaço nos provoca. Sim, estou cansado.
Luz. Trevas. Impotência.
por André Moura e Cunha
Contacto
Fim dos anos 80. Vivia nas guitarras estridentes de Joey Santiago, nos gritos animalescos de Iggy, nas ondas emplumadas de Bowie, na voz cavernosa de Murphy – curioso trio este, a iguana, o camaleão e o vampiro –, e ao lado, como meio libertador da overdose sonora dos incessantemente repetidos, repousava o quarteto de Manchester, usado mas não abusado, ouvido por letargia, porém não cravado na memória de uma mente febril pré-universitária. Talvez o Substance, compilação de 1988. Foi S. que me iniciou no mundo sepulcral da voz cava de Ian, das batidas hipnóticas e continuamente repetidas numa caixa de ritmos de Morris, dos abalos sísmicos provindos do baixo de Hook, da melodia – foram sempre acordes melódicos – que se soltava da guitarra de Sumner: “Transmission”, “Passover”, “Dead Souls”, “She’s Lost Control”, “Leaders of Men”, “Shadowplay”, “Novelty” e “A Means to an End”; mesmo antes de “Komakino”, “Love Will Tear Us Apart” ou de “Atmosphere”. Mas vão sendo todas repetidamente queimadas pelo laser a pulsar entre “zeros” e “uns”. Foi S. na sua voz carente, doce e afectada, entre afagos e efervescências sensuais, que me levou a trocar o pançudo Charles Thompson por Curtis no pedestal cimeiro dos veneráveis. Descíamos as escadas daquele bar escavado no subsolo da capital transmontana, mas já antes corríamos febrilmente rumo à boca do monstro que soltava os sons de um baixo gótico cuja reverberação sentíamos cá fora sob os nossos pés, que lá dentro parecia ressumar – lágrimas espessas de suor delirantes – daquelas paredes graníticas cavernosas: BarBaros, foi esse o local da epifania. Entre vapores alcoólicos e gestos desregrados de lubricidade, fui aluno competente da história narrada em surdina sobre os factos que conduziram o quarteto para o abismo e para loucura necrófila que se lhe seguiu, deturpando comportamentos, ocultando factos, gerando patranhas pós-modernas, deificando excessos que não eram tolerados, pela sede mercantilista que se comprazia em vender os miasmas da morte em pacotes factícios.
Ingestão
Num artigo publicado por Jon Savage no The Guardian em 2008 por esta ocasião de hábito rememorativo, todavia a propósito da estreia do documentário Joy Division escrito pelo próprio e realizado por Grant Gee, o escritor, jornalista e musicógrafo britânico faz uma dissecação do interior de Curtis e dos seus estados de alma, concluindo pelo seu medo primordial do isolamento, que ressalta das letras febrilmente marcadas a maiúsculas, entre a luz ofuscante e o desespero sombrio, na dialéctica luz e trevas, que se sintetiza na urgência em sentir o toque e o calor humanos. Em suma, apesar da miríade de perspectivas que cada fã tem das atribulações do sujeito idolatrado, sempre entendi que foi num violento sentimento de impotência que a vida e o tempo de Ian se fizeram curtos, que de alguma forma apura e explicita todos os medos, apreensões e enfados, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula. O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilado com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão. Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo – afinal, de onde partiu toda a engenharia do processo criativo. Dando um pequeno salto histórico. Desencadeou-se a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana e anódina com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e sobretudo de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco apocalíptico de “Atmosphere” (1988), como no biopic Control (2007) –, e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto- (juntem-se-lhes os prefixos que quiserem): pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora. Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difundiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Gozo
Entre Closer (“mais próximo”, com o frontispício tumular baseado numa fotografia de Bernard Pierre Wolff no Cemitério Monumental de Staglieno, Génova) e outros dispersos surgiu “Komakino”, levando à letra após uma simples tradução do alemão “Cinema Coma”. Foi em Junho de 1980, já Ian Kevin Curtis garroteara as suas súplicas na madrugada de 18 de Maio de 1980, que aquela voz cavernosa e implacável emergiu das trevas, gravada em milhares de círculos rotativos de plástico flexível, e cantou: «A sombra que se manteve na beira da estrada / Faz-me sempre lembrar de ti.» [versão AMC]
O anónimo é sempre grosseiro porque não consegue distinguir entre os seus sentimentos próprios e os sentimentos mentirosamente introduzidos na existência pela mesquinhez. O anónimo é sempre vulgar porque a mesquinhez dirige-o do interior, através da sua cobardia. O anónimo é sempre obsceno porque é sempre em segunda mão.
Joy Division – “Someone Take These Dreams Away”
por Victor Afonso
Lembro-me como se fosse hoje: o bloco de gelo que se abateu sobre mim com a audição de “Unknown Pleasures”. A minha formação de ouvinte tivera vários estágios, mas nada me tinha preparado para o embate que foi a audição do primeiro disco dos Joy Division. Quando somos adolescentes julgamos que temos o tempo todo do mundo para desfrutar das grandes descobertas musicais. E, na verdade, eu tinha esse tempo todo. Viver em casa dos pais, fechado num quarto hermético, com centenas de discos, cassetes, livros e posters, era mundo suficiente para mim. Claro, a vida de estudante também se fazia, suportada à custa de muita condescendência e resignação. Daí que, com 15 ou 16 anos, ouvir música significava um refúgio tão revigorante e enérgico como julgo já não existir hoje. Representava marcar um território delimitado à base da militância severa do prazer estético partilhado com um círculo restrito de amigos.
A descoberta da figura de Ian Curtis, mais do que a de Jim Morrisson, Iggy Pop, Lou Reed, David Bowie ou Peter Murphy, foi uma descoberta quase de cariz religiosa. Lia aqueles artigos incensados e devotos do Miguel Esteves Cardoso sobre a intensa e criativa movida de Manchester e fiquei, automaticamente, siderado. Ansioso por conhecer, numa era em que Internet nem figurava nos livros de ficção científica. Porém, a devoção pelo prazer da descoberta levou-me a mover mundos e fundos, até conseguir pôr os ouvidos na música de Ian Curtis. Primeiro com a banda Warsaw, ainda reminiscente da fúria punk; depois, sim, com a era estilizada, superlativamente estética, de “Unknown Pleasures” e, postumamente à morte de Curtis, com o legado “Closer”. Para um adolescente como eu, de temperamento algo sorumbático e reflexivo, a música dos Joy Division revelou-se como a suprema bênção identitária. Nenhuma outra música, nenhumas outras letras, nenhum outro disco se poderia colar melhor à minha alma do que aqueles discos.
A poesia (porque de poesia se trata) de Ian Curtis resultava numa espécie de elegia sobre a presença terrena desta vida. E tocava-me nas mais profundas das vísceras (porque a poesia não toca apenas na alma). Via Curtis como um criador ambicioso mas permanentemente insatisfeito, com preocupações existenciais devedoras das suas leituras de Kerouac, Burroughs, Ballard ou Camus. Cantava o sonho e o pesadelo, o desejo de existir e o medo de existir. Comprei um livro com as letras das canções, e li-as uma e outra vez, até sugar toda a essência daquelas palavras (decorava, na íntegra, algumas letras). E ouvia repetidamente, obsessivamente, algumas das canções. A agulha do gira-discos pousava, uma e outra vez, nas mesmas faixas dos vinis: “Isolation”, “Passover”, “Heart and Soul”, “A Means to na End”, “Disorder”, “Shadowplay”, etc.
E foi “Closer”, mais do que “Unknown Pleasures”, a deixar-me incondicionalmente devoto dos Joy Division. Tamanha devoção deveu-se, igualmente, à icónica arte gráfica de Peter Saville expressa na capa e no design, na produção inovadora de Martin Hannett, que concebeu aquela sonoridade única do disco, com a voz intensa e enxuta de Curtis, a bateria marcial de Stephen Morris, o baixo-tocado-como-uma-guitarra de Peter Hook, e a guitarra assanhada de Bernard Summer. Só mais tarde conheceria os tema-hinos, “Atmosphere” e “Love Will Tear us Apart”.
Ian Curtis só podia ter-se transformado em mártir do rock. Não havia outra solução. Como dizia Albert Camus, o suicídio é o único problema filosófico importante – saber se a vida merece ou não ser vivida. Curtis viveu intensamente e sempre no fio da navalha das emoções. O seu derradeiro acto foi o consumar de um fogo que tinha dentro de si. Lembro-me de que, no dia 18 de Maio de cada ano, sentia uma espécie de respeito e reverência espiritual para com a alma dos Joy Division. Era um dia especial. E lembro-me de comemorar, com um amigo, os dez anos desse dia fatídico (Maio de 1990). Agora assinalam-se já 30 anos, e a intensidade passional continua viva, ainda que algo indolente pela natural passagem do tempo. E os sonhos continuam vívidos, imersos numa realidade ainda por revelar, como se expressa na canção “Dead Souls”: “Someone Take These Dreams Away / That Point me To Another Day / A Duel of Personalities / That Strech all True Realities”.
Na quinta-feira passada lá fui até à Feira do Livro. Foi a minha segunda Feira do Livro de Lisboa. A primeira foi em 2006. Passagem obrigatória pela Frenesi. Como sempre: bons livros à espera. Trouxe uns poucos. Depois passagem obrigatória pela Antígona. Comprei os Cossery que me faltavam e ainda trouxe um Sade. De seguida Assírio & Alvim: poemas Celtas de Amor, do Sagrado e da Natureza, bem como Coração Independente, de Manuel Fernando Gonçalves (descoberta recente mas avassaladora: Frenesi comprei mais dois livros dele, ambos publicados na &etc): «Há quem escreva pelo que experimenta/da vida e, dessa maneira, seja torpe ou ténue,/nunca diga, do registo do corpo, o que falta/de novas feridas, de alegres sobressaltos./Há quem viva pelo que leu, escritos,/colados aos poemas, os dias da dor e da ira/e não saiba que são cortesias/de quem tudo sabe sobre as palavras» (p.62). E depois Relógio D’Água, de onde trouxe um Mishima. Ainda passei pela Cotovia, para ver se encontrava a tal rapariga que o senhor Fortinbras muito aprecia. Vi duas que me ficaram no olho.
Daqui a uma semana já cá não estou. Se a nuvem de cinzas islandesas o permitir – “kiss my ash”, ria-me com um amigo meu em Abril, quando o cabrão do Eyjafjallajökull ainda só incomodava os outros -, hei-de estar no Brasil, essa terra de calor, etanol de cana e cus que abanam. Quando era novo, não gostava do Brasil e não conseguia perceber a atracção por aquela terra por muita telenovela que visse, mesmo que por lá andasse a cara de bolacha da Adriana Esteves. Também me recordo muito distintamente de não gostar de bifes, que eram duros; de queijo, que era azedo; e de mel, que era viscoso. Com o tempo isso veio a mudar e hoje estou muito longe de torcer o nariz a um naco da vazia, precedido por um queijo de cabra e seguido por um fio de mel escuro do cortiço do meu tio a regar um requeijão. Se a isso se somar a Adriana Lima a servir-me caipirinhas, tanto melhor. O mesmo se pode dizer quando, na adolescência, ouvia os Nirvana e o Hendrix e blues e Primus e execrava tudo o que me pudesse soar a mais de três acordes e a sintetizador, tirando o Zappa e Beck. Jeff Buckley? The Smiths? Joy Division? Para dor, já bastava espremer borbulhas. Tinha tanta paciência para eles como falta de vontade de fazer mosh em Vilar de Mouros em 1996. Eu e, queria acreditar, toda a minha geração tínhamos sido criados para partir uma guitarra em palco. A nossa missão era destruir o mundo por nos apetecer e os outros que aí viessem que o voltassem a pôr igual, se quisessem. O feedback gritava a dor e fazia-a explodir em violência. Mas as pessoas vão crescendo e chega-se àquela altura em que se corta o cabelo porque se percebe que ele anda a cair por todo o lado e precisa de muita atenção para não atormentar ainda mais as orelhas. Nesse momento, a atitude de “isto sou eu a afirmar que não me importo com o meu aspecto porque não é isso que conta” é uma mentira tão grande que até Sócrates a diria no Parlamento. Por essa mesma altura, começa-se a sacar mp3 presentes e passados e a perceber melhor o que aconteceu, a apreciar coisas impensáveis como o Homem na Cidade do Carlos do Carmo, José Mário Branco, Chico Buarque. E, claro, Jeff Buckley e Joy Division. A viragem começa a ser preparada aos 16 anos com os Radiohead, mas o imprescindível é criar a disponibilidade emocional para aceitar o “douleur de vivre” que já se ia intuindo nos anos 80, quando se apanhava relances da Inglaterra escura da senhora Thatcher. Começa aí o final da fase heróica do indivíduo, com o medrar da semente da dúvida e o cavar interno de um poço escuro cheio de fantasmas, dúvidas e frustrações. Começar a ouvir os Joy Division nesse momento faz todo o sentido. Ian Curtis não dançava por estar contente, mas por ser doente. Não dançava para ser sensual ou para puxar ao divertimento, mas porque assim exigia o desespero a um corpo apanhado numa vida sem saída. Esse corpo era o seu espectáculo. É por isso que no meu poema “A Mentira”, que costumo dizer em slams, digo que mataríamos o Ian Curtis outra vez se isso significasse o fim, o silêncio, que parava. Depois de terem feito a música da dor de um homem adulto, os Joy Division fizeram-se New Order e viraram-se para as pistas de dança, porque o tempo dessa música acabou com a morte do vocalista. Mas, sempre que alguém corta o cabelo porque ele lhe incomoda as orelhas, continua o tempo dessa dor. E, como não podemos matar Curtis outra vez para o interromper, continuamos a ouvi-los. Que mais podemos fazer?
Um quarto que seja frio
por Miguel Marques
Comprei o meu primeiro disco dos Joy Division numa altura da minha vida em que não havia dinheiro para comprar discos. Aliás, comprei esse disco numa altura da minha vida em que não havia dinheiro para comprar quase nada para além das senhas do almoço na cantina e um ou outro saco de gomas aviados num quiosque a caminho da escola. Se a memória não me falha, tratava-se de uma colectânea da qual retinha apenas uma música de ouvido. Uma música que falava de quartos frios e da impossibilidade do amor entre dois comuns mortais. Por essa idade passava metade do meu tempo sozinho (a outra despendia-a a dormir, igualmente sozinho) a rabiscar poemas num caderno ou a arranhar acordes à guitarra, e tinha começado a tentar fumar sem me pôr a bolçar aos arrancos, julgando que, desse modo, conseguiria adquirir a pose exigida a quem aspira à genialidade suburbana. Comprei a bolacha do CD (à época estávamos longe de ouvir falar em MP3 ou de aspiradores com filtro de água) numa loja na Amadora ao preço de vinte empadões na cantina, para o oferecer a uma amiga pela qual me havia perdido de amores. A criatura (nada perdida pelos meus acordes ou pelos meus poemas) convencera-me, do cimo dos seus canudos louros, de que o vocalista esgalhava uns versos quiçá melhores que os meus, além de se ter suicidado muito novo com a corda do estendal da roupa, o que para mim equivalia, sem grandes cedências, a selo de qualidade garantida. A par disto, a benesse do dito rapazinho se referir a assuntos que me eram mui caros, tais como os quartos frios, as frequências de rádio, o temor da loucura, a incompreensão por parte do mundo, o fracasso da existência, a inutilidade do ser, entre outros quejandos. Havia uma fotografia com que ela forrava os manuais de Português A em que ele aparecia a fumar um cigarro sem se pôr bolçar aos arrancos, e uma outra onde figurava cabisbaixo, abancado na esquina de uma mala, e recordo-me de ela dizer que aquele era o tipo de homem que mais apreciava: um homem com ar triste. Eu sabia que também era um triste, mas também sabia que a minha tristeza era ligeiramente diferente daquela que se descortinava no rosto do vocalista da tal banda. Depois ela veio com a adenda de que o género que a banda praticava era aquilo que designava por “música inteligente”. Eu também desconfiava que pertencia ao género “inteligente”, no sentido em que seria possível ingressar na faculdade com uma média redonda, não tanto no de alcançar sucesso ao formar uma banda que atraísse as atenções da fauna circundante. Antes de a presentear com a recolha de êxitos “inteligentes” da tal banda que, para mim, consistia em pouco mais que um refrão trauteável debaixo do chuveiro, gravei o conteúdo do CD para uma cassete TDK, de modo a inteirar-me do quociente de inteligência dos cérebros que lhe decoravam os manuais de Português. Recordo-me de certa tarde lhe ter tocado à campainha e de ela não responder pelos buraquinhos do intercomunicador. Recordo-me também de escutar a música sobre quartos frios a bradar em altos decibéis, provindos da janela de sua casa. Recordo-me de ela acudir à janela e cochichar-me que talvez não fosse o melhor momento para subir e meter a conversa em dia. Recordo-me ainda de umas mãos surgirem por detrás dela e lhe enlaçarem a barriga, e de divisar o meu melhor amigo com um sorriso “inteligente” estampado na cara, a assobiar para dentro o verso da tal canção. Recordo-me de ter ficado sem palavras. Ainda hoje associo esse estado de ficar sem palavras a uma baixa de temperatura. Recordo-me de ter ido para casa a passo lento e me ter cagado bem para o quiosque das gomas. Depois, de pôr a cassete a rodar nos caroços da aparelhagem e de ouvir a música até à exaustão, puxando a fita para trás de cada vez que terminava, como se pretendesse recuar no tempo. Recordo-me de estar no meu quarto, sozinho e sem dormir. Recordo-me de olhar lá para fora, para a varanda, e de distinguir a corda de estender a roupa com umas cuecas do meu padrasto penduradas, a ondularem ao sabor do vento. Recordo-me de ter pensado que aquela era bem capaz de se tornar na minha banda preferida. E tornou. Mas só muitas canções depois me apercebi do quão quente, afinal, era o interior do meu quarto.
A SÚBITA ERECÇÃO DO ENFORCADO*
por Henrique Manuel Bento Fialho
Não consigo entender as pessoas que dançam com o mal dos outros, as pessoas que se divertem sobre os estilhaços da tristeza; não consigo entender os milhões que espreitam o rosto assassino do Papa, nem as hordas que se auto-proclamam campeãs, provavelmente, de vidas miseráveis que logo acomodarão às paredes de casa. Pressinto-as adormecidas ao calor de um aquecedor ranhoso que a qualquer momento promete queimar-lhes a alcatifa onde o cão doméstico larga o pêlo como se largasse o último vestígio da sua selvática condição perdida. Quando era mais novo, deixava arrastar-me pela euforia dos momentos e exultava com bebedeiras que me arrancavam ao destino de quem «cai para dentro do seu próprio labirinto» (Al Berto). À medida que o tempo foi passando, foi tomando conta de mim esta incompreensão. E hoje só me interrogo como foi possível ter um dia dançado ao ritmo da desgraça alheia. O defeito deve ser meu, mas prefiro servir-me da desgraça alheia para tratar feridas próprias. Como se fosse possível aprendermos com a crosta dos outros, paro-me no percurso de um cigarro a arder, fecho os olhos, ajeito-me no chão e vejo percorrer no tecto as legendas de um filme interpostamente vivido.
Os segundos passam vagarosamente, cada vez mais vagarosamente, obrigando-nos a arrancar ao tempo os ponteiros que nos ameaçam como espadas sobre a cabeça, sob pena de enlouquecermos à medida que na brancura do tecto as legendas vão pronunciando um nome: «guess the dreams always end / they don’t rise up just descend / but I don’t care anymore / I’ve lost the will to want more / I’m not afraid, not at all / I watch them all as they fall…» Os segundos passam cada vez mais devagar, o coração palpita assustadoramente, o peito enche-se-nos de um ar doloroso e é como se quisesse rebentar, mas de tão cheio levanta-nos à altura de ficarmos a flutuar o suficiente para que, erguidos, os nossos braços cheguem ao tecto e afastem do nome as ervas daninhas que ameaçam ocultá-lo por baixo da desistência. Tudo nos parece querer fugir a cada segundo que passa, mas cada segundo que passa, ó, passa com as suas grades, adiando a fuga, a fuga, a fuga, para um tempo que julgamos ideal como se houvesse um tempo ideal para fugir «to the depths of the ocean, where all hope sinks».
E com o corpo ali suspenso, nenhuma corda a segurar-nos do chão, o corpo ali vivamente mortificado, olhamos no tecto um choro seco, uma certa forma de chorar que há-de ser o modo como o deserto chora a distância das chuvas, um chorar vertido em lágrimas invisíveis, um chorar pressentido na tremura dos nervos, cortante como punhais afiados que nos atravessam o corpo sem que ninguém note, ninguém mesmo, o sangue que ali coagula, um chorar barrado por crostas que o peito encerra, um chorar que não lava a tristeza do rosto nem deixa o riso vir à garganta, pois já tudo é dor sem tratamento nesse chorar, e nenhum tratamento poderá libertar, aliviar, o corpo da dor que o tomou de assalto. Não consigo entender as pessoas que dançam com o mal dos outros, as pessoas que se divertem sobre os estilhaços da tristeza. «I walked round and round, you nailed me to a tree, trying to find a clue, trying to find a way to get out». Com o corpo assim suspenso, mais a vida nos parece a dança dos espantalhos.
E com as pontas dos dedos o homem, já mais boneco que homem, o espantalho, chega ao tecto. Passa os dedos pelas curvas do nome, é como se os passasse pelas curvas de um rosto, afaga cada um dos veios do nome, estará louco, certamente, mas em cada contorno do nome o homem pressente as curvas de um rosto, e com as pontas dos dedos, muito tímida e nervosamente, ele afaga o nome, o rosto. Rosto a rosto com a frustração, o homem, já mais espantalho que homem, ainda pondera transformar-se num caçador de borboletas, raptar nomes com máscaras de clorofórmio. Enlouquecido, em fúria, ele afasta com as unhas os contornos do nome, ele escarafuncha no tecto uma luz desaparecida, ele mancha de sangue, com as pontas dos dedos estraçalhadas, desfeitas, ele mancha de sangue o texto, crava as unhas no cimento, parte as unhas e as unhas, incrustadas no cimento, gritam os gritos que o homem não logra gritar, porque o homem tem a garganta atada à dor de um chorar barrado por crostas que o peito encerra, ele bem tenta gritar, mas nenhum som, nenhum gemido, nada se lhe solta do peito, só as unhas com que escarafuncha o nome, o rosto, projectado no tecto, as legendas de um nome, as legendas de um rosto. É essa a sua voz, é esse o seu canto. Não consigo entender que alguém possa dançar ao som de um canto assim.
*Respigado no poema «Noite de Lisboa com Auto-Retrato e Sombra de Ian Curtis», por Al Berto.
A partir de hoje, e até ao final do mês, serão publicados textos em homenagem a Ian Curtis e à Joy Division.
Podem chamar-me picuinhas à vontade. Explico: recebo um convite via Facebook. É um convite da Fundação Feira do Livro para um encontro com autores locais e regionais que participam na Feira do Livro. O que define um autor local ou regional? Lobo Antunes é local por ser lido (talvez) maioritariamente em Lisboa e não na Amareleja? Vitorino Nemésio, ao ser natural da Região Autónoma dos Açores, é um autor regional? Local? Aquilino Ribeiro, devido ao uso e abuso de regionalismos: é local ou regional? E Herberto Hélder? É local? Regional?
Ter tanta preguiça que nem Cossery consigo ler.
A realidade é a coisa mais terrível que existe. Não precisa de ser transformada ou submetida à metáfora. A realidade é alucinante, imprevisível. Se assim não fosse não era realidade. Era cinema.
Continuo a achar muita piada às listas de melhores livros do ano. Principalmente quando as respectivas listas contam com livros como Plexus (Henry Miller, publicado originalmente em 1953 e publicado em Portugal no ano de 1977, pela editora Livros do Brasil ), A Montanha Mágica (Thomas Mann, publicado originalmente em 1924 e publicado em Portugal pela editora Livros do Brasil [s/data]) e Morrem Mais de Mágoa (Saul Bellow, publicado originalmente em 1987 e publicado em Portugal no ano de 1990, pela editora Livros do Brasil). Aposto que, um dia destes, assistiremos a uma nova reedição de 2666 (Roberto Bolaño) e ele será, novamente, considerado o livro sensação do ano.
Alguns poderão dizer que a dúvida é uma manifestação de Deus. Mas que razões movem Deus para precisar que dele duvidem?
É claro: há quem rapidamente argumente contra a existência de Deus. Como é possível existir Deus com tanta maldade no mundo? Dizem. Como pode Deus existir e permitir o Holocausto? Dizem. É claro que estes argumentos são válidos, apesar de frágeis. Não procuro com isto, no entanto, distanciar-me deles, para assim formular os meus próprios argumentos. Prefiro perguntar: como pode Deus existir e permitir que existam dúvidas em relação à sua existência?
Mas como justifico eu esse desaparecimento? Terei perdido a Fé? Mas, o que sei eu da Fé? E se perdi a Fé, terá sido a Fé em Deus, no Homem, ou em mim próprio? Muitas vezes procurei respostas. Ainda hoje as procuro. Porquê? Não consigo explicar. Sei, apenas, que existe em mim um impulso que me orienta nesse sentido. Será Deus? Ou será apenas a necessidade de encontrar um centro que tudo ordene? Ou será a necessidade de encontrar respostas para as minhas dúvidas, para a minha inquietação?
Essa ideia de um Deus zangado, irado, perdurou durante muito tempo. Até ao dia em que desapareceu. E, junto com ela, a própria ideia de Deus.
Haverá quem alegue que Deus já não é, nos dias de hoje, necessário. Lembro-me, nitidamente, que a primeira explicação que alguma vez ouvi para a trovoada foi: Deus está zangado. Curioso: nunca ouvi explicar um dia de sol, nunca ouvi ninguém dizer: hoje está um lindo dia de sol, porque Deus está contente. Cresci com a noção de que Deus estava sempre zangado. Ou só se manifestava quando estava zangado.
Entendo, compreendo e considero justificável a necessidade dum centro que tudo ordene. Em alguns casos esse centro é Deus. Noutros: a Natureza, o Homem, a História, a Ciência. Contudo é impossível viver sem um centro que tudo ordene. Pode até ser um ideal, uma vontade, um desejo ou outra coisa ainda mais primitiva. Mas ele está lá presente, centro.
Mas, voltemos ao essencial: a ideia de Deus. A ideia de Deus, para além de abstracta, não é fácil. Caso fosse fácil não existira esse conceito (ou será ideia?) que tem o nome de Fé. A Fé é a resposta a todas as questões que possam ser levantadas. Só quem tem verdadeira Fé pode apreender e compreender a ideia que é Deus. É claro que não há conceito (ou será ideia) mais complexo do que Fé. Não conheci, até hoje, ninguém que conseguisse explicar convenientemente o que é isso da Fé. É quase tão difícil explicar como é difícil traduzir a palavra “saudade”. Ou se tem ou não se tem Fé. Mas, nasce connosco ou é algo que cresce connosco? Há quem perca a Fé e há quem ganhe Fé e ainda há aqueles que sempre tiveram Fé. Em nome da Fé foram feitas coisas magníficas e, também, foram feitas coisas horríveis. Afinal, o que é a Fé?
A ideia de um Deus absurdo, vingador, vaidoso, existiu durante algum tempo em mim. Absurdo, quando pede a Abraão que sacrifique o seu único filho, como prova da sua lealdade. Vingador, quando destrói Sodoma e Gomorra, que mais não são do que lugares de pura Liberdade, onde a anulação do Eu não existe. Vaidoso, quando se “apresenta” a Moisés dizendo: “Eu Sou Aquele que É”.
Talvez tenha tido azar com as catequistas: foram à antiga, todas caldeirões de azeite a ferver e pecados em todo o lado. A ideia de pecado sempre me fez alguma confusão. Quase tudo era pecado: comer chocolate era pecado, levantar a saia às meninas era pecado, comparar o tamanho das pilas era pecado. A própria ideia de que nos apetecia pecar era pecado. Só mais tarde me apercebi que o maior pecado de todos (aquele que realmente importa) era negar a mim mesmo tudo aquilo que me dá prazer. No entanto, a ideia de pecado ainda perdura em mim. É algo que ainda me persegue e da qual tenho tido alguma dificuldade em me libertar. É claro que com a ideia de pecado surge um sentimento: a culpa. Não me posso esquecer que foram anos e anos de profunda e contínua negação de mim mesmo. É claro que não ouso afirmar que tudo isso está resolvido. Muito pelo contrário: quanto mais avanço, mais se adensa a inquietação.
Nem toda a minha vida fui um céptico em relação a Deus. Sou baptizado, recebi a primeira-comunhão e fui crismado. Os dois últimos acontecimentos foram da minha e inteira responsabilidade, isto é, fui eu que decidi receber a primeira-comunhão e fui eu que decidi ser crismado. Durante muito tempo acreditei no Deus que me ensinaram a acreditar: um Deus salva os justos e condenas os malfeitores, que está atento a todos os nossos passos, que era, pura e simplesmente, o polícia de tudo. Penso que nunca me foi dito que Deus é Amor, Bondade, Vida. Mas não quero afirmar. Já lá vão alguns anos e muito preconceito formado em relação à ideia de Deus. E quando digo ideia refiro-me a ideia abstracta, isto é, algo que pode ter várias representações.
É a principal questão que trago comigo mesmo: Deus. O mesmo Deus de Abraão, Moisés, Maomé e Jesus Cristo.
Hoje, durante uma caminhada, apeteceu-me ver se ainda sabia assobiar como antigamente. Um daqueles assobios à pastor quando chamam o rebanho para junto de si. E vai disto! Ainda não perdi o jeito. Mas o melhor de tudo foi que o meu assobiar teve resposta, do outro lado do vale.
TV On The Radio - Blues From Down Here