Um poema de Vítor Nogueira
Dança
A conversa é sobre quem somos
e o que queremos. Não devíamos brincar assim
com facas. De onde vêm estes homens?
Por que fazem estes gestos?
Às vezes a vida é uma dança estruturada.
Tipos que nos deixam aproximar um pouco mais
cada dia que passa. Nunca sabemos
qual deles se vai abaixo a seguir. E onde.
Enquanto a dança vai e vem, escondemos o medo
com isto: fragmentos das nossas memórias,
energia fornecida à tempestade,
o cheiro a tabaco retardado.
em Mar Largo, Lisboa: &etc, 2009, p. 18.
Micro (51)
No carro, de tão anti-tunning que era, só ouvia o Ne me quitte pas.
para o Vasco Bento, que se lembrou do trocadilho.
Estados Filosóficos (15)
Estados Filosóficos (14)
Immanuel Kant
em Religião nos limites da Simples Razão, tradução de Artur Morão, Colecção Textos Clássicos de Filosofia, Covilhã: LusoSofia Press, Universidade da Beira Interior, 2008, p.22.
Estados Filosóficos (13)
Estados Filosóficos (12)
Estados Filosóficos (11)
Escrever sobre honestidade intelectual é uma desonestidade intelectual.
7 anos
Johann Fichte
em Reivindicação da liberdade de pensamento, tradução de Artur Mourão, Colecção Textos Clássicos de Filosofia, Covilhã: LusoSofia Press, Universidade da Beira Interior, 2008, p. 6.
Estados Filosóficos (10)
Estados Filosóficos (9)
Estados Filosóficos (8)
Estados Filosóficos (7)
Estados Filosóficos (6)
Estados Filosóficos (5)
Um sótão no Verão faz ter saudades do Inverno.
Estados Filosóficos (4)
Pouca coisa me alegra. Já muita me enfurece.
Estados Filosóficos (3)
Nem todas as subidas são, obrigatoriamente, descidas.
Estados Filosóficos (2)
Passei o meu 25 de Abril a ver os outros passarem o 25 de Abril deles.
Estados Filosóficos
Ser Homem tem as suas vantagens. Uma delas é, sem dúvida, poder mijar de pé.
Manuel Laranjeira
em carta dirigida a Miguel de Unamuno (com data de 28-10-1908) inserida em Pessimismo Nacional, Lisboa: Frenesi, 2009, s/p..
A magia nunca começou
A magia acabou. Docentes de vário grau e competência acabam de descobrir, estupefactos, que a avaliação conta (e como não contaria?) para os concursos de contratação.
Não, caro Eduardo. Não devia contar. A avaliação deveria contar apenas para efeitos de progressão na carreira, aí sim, aceito. Agora para efeitos de concurso (quando não existe uma homogeneidade na aplicação da lei, pois já sabemos como funciona o entendimento da lei, não é?) para contratação, não.
Adenda (16h20m): fui precipitado. Quando digo: Agora para efeitos de concurso (quando não existe uma homogeneidade na aplicação da lei, pois já sabemos como funciona o entendimento da lei, não é?) para contratação, não; obviamente deveria dizer: Agora para efeitos de concurso para contratação, não. Escuso explicação, pois é óbvia.
Dias há assim
Um poema de António S. Ribeiro
Os dias passam assim,
como direi?
— delicados.
Não há projectos de viagens,
e tratado das grandes ideologias
abandonado a um canto;
os crimes perfeitos são outonais
e esta tarde é uma estação infinita;
a cama? «oh! a cama é larga».
lá fora a árvore é verde,
o universo expande-se;
do caderno à janela, penso neles,
nos amigos.
tarde duma única visão:
ter um terraço plantado de rosas.
Pensamento do dia
Warpaint - Elephants
O vídeo mais sexy que vi nos últimos tempos. E a música também não é má de todo. Os blogues são fantásticos devido a isto mesmo. Obrigado, Menina.
Pensamento do dia
Zeca Medeiros - Despe-te que suas
Aliviar a inquietação
Algum avanço
Um poema de Ana Curado
Em terra de minha mãe
E de meu pai também,
Num carrinho de bois
— Irmãos tive dois —
Em paisagem bucólica
— Nunca fui, portanto, alcoólica —
Aos 10 de julho, 0.30
Horas, e, que vai faltando a tinta,
Mais o que não acrescento,
O que, sincera, lamento.
Mas Ó cursei a Faculdade
Em já remota idade,
A Faculdade de Letras,
Rodeada de poetas,
O que, deveras, lamento,
E o mais não acrescento.
em Sião, organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Lisboa: Frenesi, 1985, p. 142.
Nas notícias
Descoberta
Viagem
Primeiro Manteigas, depois o Mundo
Fiquei a saber, nos últimos dias, que sou lido em Itália.
Dia
Um poema de Manuel Fernando Gonçalves
Abrigo o teu olhar na concha
das noites, na pálpebra inversa,
imensa, da prevista hesitação:
vês daqui a estrela mais secreta,
quando te descolas, contorno,
a sempre repetida oferta.
Vens, respiras, iluminas-te
na única escuridão que permites.
Julgava adivinhar-te, num ângulo
preciso da noite, convidas
sempre, em outro lugar, apenas
ofegante.
em Caos, Lisboa: Frenesi, 1ª edição, 1987, s/pág.
Pensamento do dia
Diamanda Galas - Double Barrel Prayer
Resumo
Santo Agostinho
em Confissões (Livros VII, X e XI), tradução de Arnaldo do Espírito Santo / João Beato / Maria Cristina Castro-Maia de Sousa Pimentel, Colecção Textos Clássicos de Filosofia, Covilhã: LusoSofia Press, Universidade da Beira Interior, 2008, p. 23.
Me and my friends
O Cheiro dos Livros
Pensamento do dia
Type O Negative - My Girlfriend's Girlfriend
Peter Steele (1962 - 2010)
Houve um verão em que eu julguei que estava tudo perdido. Há verões assim. Só que existiam os Type O Negative e o álbum October Rust. Deve ter sido o álbum que mais ouvi nesse verão, quando julguei estar tudo perdido. Por mais estranho que pareça, os Type O Negative salvaram-no.
Pensamento do dia
Tuxedomoon - Jinx
Why the murders the rage
Where the retainers of passion
Left from a sensible age
To wipe the wretched history
From this page
Why the people so bloated
What making cancerous sin
Where the godmerging shamans
To make new sense out of this din
To make beast calming music
Out oif this din
Don't disrespect your parents
Rather calm their panic
Curb their distemper
Don't tamper with their rot
No diaper no rash
Put out the trash
It's a jinx it's a jinx
Lí por aí
«Corajoso, Marquinhos disse (a voz tremeliquenta): «Pai, tenho algo a dizer-te... Eu sei que não vais gostar, e eu juro que tentei lutar contra isto, eu juro, mas pai... pai, eu... eu não consegui! Pai, eu sou pedófilo!». O pai respondeu, exasperado, em súbita e inesperada agressividade: «O quê? O meu próprio filho? Pedófilo? Por Deus, não!» Marquinhos acobardou-se, mas não cedeu à vontade de tentar reparar o feito: «Sim, pai, eu sinto-me sexualmente atraído por indivíduos do mesmo sexo!» O pai chorava lágrimas de dor. Tinham-se passado poucos segundos, quando uma lâmpada amarela surgiu sobre a cabeça do pai. Disse: «Mas espera lá, tu não podes ser pedófilo. Tu tens 14 anos!» Confundiu-se o pobre Marquinhos, e prostrado ficou, sem reacção, mas por fim compreendeu tudo: o pai estava em negação. Mas nada o faria parar, Marquinhos assumira, perante si e perante o mundo, quem era. A perspectiva de uma nova vida, livre e da cor do arco-íris, edificava-se então à sua frente.»
José Bértolo em Tio Vânia
George Orwell
«Saints should always be judged guilty until they are proved innocent, but the tests that have to be applied to them are not, of course, the same in all cases. In Gandhi’s case the questions one feels inclined to ask are: to what extend was Gandhi moved by vanity – by the consciouness of himself as a humble, naked old man, sitting on a praying-mat and shaking empires by sheer spirutual power – and to what extend did he compromise his own principles by entering into politics, which of their nature are inseparable from coercion and fraud?»
em «Reflections on Gandhi», inserido em Shooting an Elephant and Other Essays, London: Penguin Classics, 2009, p. 347.
Falar de coisas sérias
Mas não me apetece.
Um poema de Mário Cesariny
elogio do príncipe da dinamarca
coitado do hamlet
assassinado
empurrado
para o sepulcro que é
oculto entre reposteiros
sem paixões
como os ladrões
que lucram trinta dinheiros
coitado do que ele vê
crimes
espectros
correctos
coitado do hamlet
em Manual de Prestidigitação, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição (revista), 2005, p. 61.
Pensamento do dia
Recoil - Breath Control
(voz: Nicole Blackman)
Correios - Charles Bukowski
Charles Bukowski
Tradução
Rui Lopes
Correios, o primeiro romance de Bukowski, é baseado na sua experiência como empregado dos Serviços Postais dos Estados Unidos ao longo de uma década, e foi publicado num momento em que o seu nome ascendia ao plano do reconhecimento literário universal.
Ponto de partida ideal para qualquer leitor que se queira iniciar na prolífica obra de Bukowski, encontramos em Correios as qualidades dos seus restantes trabalhos. Repleto de cenas hilariantes, este romance é também um retrato fiel das frustrações de um funcionário público sofredor.
As suas personagens, entre a ficção e a realidade, captam a essência e a universalidade do ser humano e nós, leitores, continuaremos a topar, em Bukowski, com bebedeiras, mulheres, zaragatas, eventuais rebates de consciência, enfim, com os trambolhões da vida.
Nota: informação recebida por e-mail.
Um pequena nota
Parque do Urso
Parte da manhã foi passada naquele que eu designo por Parque do Urso. Talvez para a maioria seja assim: Parque do Urso. Mas, na realidade, é o Parque da Cidade. No Parque do Urso não há tantas moças jeitosas a correr e a saltar trá-lá-lá. É mais papás e mamãs (algumas delas bem jeitosas, que ficam muito bem no Choupal a correr e a saltar trá-lá-lá). O Parque do Urso é um local aprazível, onde nos podemos sentar à sombra dum chorão à beira-rio enquanto lemos um livro e tal. Gosto cada vez mais de Coimbra, apesar de a “minha” cidade ser a Guarda – relação mais afectiva, foi lá que, aparentemente, cresci.
Choupal
Como estou a passar o fim-de-semana em Coimbra, ontem fui passear até ao Choupal. O Choupal é um daqueles sítios porreiros para passear, principalmente se estiver um dia de sol, pois há por lá umas moças todas jeitosas a correr e a saltar trá-lá-lá. Isto tudo para dizer que comprei o livro de John Newsinger, George Orwell – Uma Biografia Política, e fico a saber que o Senhor Eric Blair foi delator. É claro que todos nós já fomos delatores num determinado período da nossa vida: quem é que nunca denunciou um amigo?
Pensamento do dia
The XX - Fantasy
Um poema de Nicolau Tolentino
A dois velhos jogando gamão
Em escura botica encantoados,
Ao som da grossa chuva que caía,
Passavam de Janeiro um triste dia
Dois ginjas no gamão encarniçados.
Corra, vizinho, corra-me esses dados,
Gritava um deles que nem bóia via;
De sangue frio o outro lhe dizia
Mil anexins naquele jogo usados.
Dez vezes falha o mísero antiquário,
E ardendo em fúria o trémulo velhinho
Atira c'uma tábula ao contrário;
O mal seguro golpe erra o caminho,
Quebra a melhor garrafa ao boticário,
Que foi só quem perdeu tal joguinho.
Pensamento do dia
Magnetic Fields - The Book of Love
Anarco-comodismo (2)
*s. f
1. Qualidade ou caráter de iníquo.
2. Grande injustiça; pecado; crime; perversidade.
Um poema de Manuel Moya
Os Moedeiros Falsos
Conheço quem viva sem a vida,
aceitando o cânone amputado das sombras;
os que tratam de invocar o que já foi
e a isso entregam o melhor do seu artifício.
Conheço quem, quebrado, viva vidas
que são outras e espreita em suas rédeas
as fronteiras da noite, o desamparo.
Porém todos, como eu, procuram um sul
onde atracar suas causas e peles,
a voz com que se nomeia o inominável,
o rio que se encrespa em nossos olhos.
em Quarto com Ilhas, tradução de Rui Costa, Torres Vedras: Livrododia, 1ª edição, 2008, p. 29
P
Ler até ao fim
Para quem a poesia ainda excita, ler este texto do Senhor Fortinbras até ao fim. E este de Luís Filipe Cristóvão.
Questiono, interrogando? Ou interrogo, questionando?
Pensamento do dia
The Dead Weather - Will There Be Enough Water
Um poema de João Miguel Fernandes Jorge
E só de pão vive o crítico
Outro dia um crítico dizia
que poemas meus só eram bons
quando compridos e de grande
enredo.
De quatro ou cinco versos,
não. Que não passavam de
literatura. Mal
saberá, esse rapaz, quanto o
poema de reduzido verso tem
de persecução do inalterável
e quanto ouro no seu corpo
de luz faz dos versos, quatro
ou cinco, veios da terra;
dilatada memória nossa
visão, mistério secreto e
oculto que quieta o coração,
como quem
ante o altar queima incenso
o verso de oiro
relâmpago no horizonte do nosso
destino.
em O Barco Vazio, Lisboa: Presença, colecção Forma, 1ª edição, 1994, p. 31.
Franz Kafka
em Diários, Lisboa: Difel, 3ª edição, 2002, p.125.
Anarco-comodismo
Quase que prometi a mim próprio: nunca mais aqui volto. O que fazer quando há uma vontade enorme de silêncio, de afastamento? Eu sei que nenhum homem é uma ilha. Mas pode tentar, não? Tarefa ingrata e difícil. É claro que, na realidade, ninguém deseja ser uma ilha. E quem quer ser uma ilha aposto que pensa numa ilha tropical, com gajas por todo o lado, e não um penedo, um ermo. É muito bonito uma pessoa isolar-se e tal. Mas poucos são aqueles que o fazem. E o conforto? Como é? Os livros? A música? A internet? Os amigos? Tudo muito bonito, sim senhor. Nunca fui muito com aquela filosofia do bom-selvagem (se repararem bem, a palavra selvagem continua lá, apesar do bom) e tal. Por exemplo: Thoreau tinha umas ideias porreiras e tal. Mas quem é que se arrisca, nos dias de hoje, a fazer o que ele fez? Podem vir dizer que existem hoje mecanismos opressivos que não existiam no passado, nomeadamente aqueles exercidos por uma sociedade consumista que anula o indivíduo. Que se lixem os mecanismos de opressão! Só são de opressão pelo simples facto de nós lhe darmos uma importância que, no fundo, não têm.







