Um poema de Vítor Nogueira


Dança

A conversa é sobre quem somos
e o que queremos. Não devíamos brincar assim
com facas. De onde vêm estes homens?
Por que fazem estes gestos?

Às vezes a vida é uma dança estruturada.
Tipos que nos deixam aproximar um pouco mais
cada dia que passa. Nunca sabemos
qual deles se vai abaixo a seguir. E onde.

Enquanto a dança vai e vem, escondemos o medo
com isto: fragmentos das nossas memórias,
energia fornecida à tempestade,
o cheiro a tabaco retardado.

em Mar Largo, Lisboa: &etc, 2009, p. 18.

D42



Micro (51)


No carro, de tão anti-tunning que era, só ouvia o Ne me quitte pas.

para o Vasco Bento, que se lembrou do trocadilho.

Estados Filosóficos (15)


Um homem pragmático caminha pela rua. Pisa um monte de merda de cão com o pé esquerdo. Para muitos é sinal de sorte, mas o homem pragmático apenas sabe que o seu sapato ficará sujo e que arrastará consigo o cheiro, durante parte do dia. Essa é a verdade. De seguida joga na lotaria. Passado uma semana sabe que ganhou um dos prémios. Que pensamento formulará nessa altura?

Estados Filosóficos (14)


Tendo em conta que, hoje, tudo é praticamente possível em Arte, poderá a falta de originalidade ser considerada original?

Immanuel Kant


«Que o mundo está no mal é uma queixa tão antiga como a história, e até como a arte poética, ainda mais antiga, sim, igualmente vetusta como a mais antiga de todas as poesias, a religião sacerdotal. No entanto, todos fazem começar o mundo pelo bem: pela Idade de Ouro, pela vida no paraíso, ou por uma vida ainda mais afortunada, em comunidade com seres celestes.»

em Religião nos limites da Simples Razão, tradução de Artur Morão, Colecção Textos Clássicos de Filosofia, Covilhã: LusoSofia Press, Universidade da Beira Interior, 2008, p.22.

Estados Filosóficos (13)


A maioria de nós, num momento da nossa vida, terá dito a alguém: tens de ser pragmático. E quantos de nós aplica essa mesma frase frente ao espelho?

Estados Filosóficos (12)


A ideia de Deus sempre foi para mim absurda. E como todas as coisas absurdas, atrai-me.

Estados Filosóficos (11)


Escrever sobre honestidade intelectual é uma desonestidade intelectual.

7 anos


Talvez sejam poucos aqueles que podem dizer que mantêm o mesmo blogue há 7 anos. O Rui Almeida é um dos poucos. Há 7 anos criou o Poesia Distribuída na Rua. Antes o nome era apenas Rui Alme. Eu ainda sou desse tempo. 7 anos a dar poesia a quem por lá passa. Tenho a felicidade de conhecer pessoalmente o Rui. Mas este texto seria escrito. Caso não o conhecesse.

Johann Fichte


«Proclamai-o, proclamai-o em todos os tons aos ouvidos dos vossos príncipes, até que oiçam que não permitireis que vos arrebatem a liberdade de pensamento, mostrai-lhes a autenticidade desta afirmação por meio da vossa conduta. Não vos deixeis amedrontar pelo temor de que vos censurem a insolência. Contra que poderíeis ser insolentes? Contra o ouro e os diamantes da coroa, contra a púrpura da roupagem do vosso príncipe; não – contra ele. Não é presunçoso crer que se podem dizer aos príncipes coisas que eles não sabem.»

em Reivindicação da liberdade de pensamento, tradução de Artur Mourão, Colecção Textos Clássicos de Filosofia, Covilhã: LusoSofia Press, Universidade da Beira Interior, 2008, p. 6.

Estados Filosóficos (10)


Aceitamos os críticos. Desde que os críticos não se lembrem de nós.

Estados Filosóficos (9)


Um homem só confia verdadeiramente na sua mulher quando esta lhe faz a barba.

Estados Filosóficos (8)


De navalha na mão o barbeiro merece toda a nossa confiança.

Ensino Recorrente



Estados Filosóficos (7)


É notório o atraso da ética em relação ao desenvolvimento científico. O mesmo não se aplica na relação entre a sociedade e a pornografia.

Estados Filosóficos (6)

O pior filme que vi de série B foi uma transmissão em directo da ARTv.

Estados Filosóficos (5)


Um sótão no Verão faz ter saudades do Inverno.

Estados Filosóficos (4)


Pouca coisa me alegra. Já muita me enfurece.

Estados Filosóficos (3)


Nem todas as subidas são, obrigatoriamente, descidas.

Estados Filosóficos (2)


Passei o meu 25 de Abril a ver os outros passarem o 25 de Abril deles.

Estados Filosóficos


Ser Homem tem as suas vantagens. Uma delas é, sem dúvida, poder mijar de pé.

Manuel Laranjeira


«Eu, por mim, não sei, não sei: em boa verdade, amigo, não sei para onde vamos. Sei que vamos mal. Para onde? Para onde nos levam os maus ventos do destino. Para onde? Vamos…»

em carta dirigida a Miguel de Unamuno (com data de 28-10-1908) inserida em Pessimismo Nacional, Lisboa: Frenesi, 2009, s/p..

A magia nunca começou


A magia acabou. Docentes de vário grau e competência acabam de descobrir, estupefactos, que a avaliação conta (e como não contaria?) para os concursos de contratação.



Não, caro Eduardo. Não devia contar. A avaliação deveria contar apenas para efeitos de progressão na carreira, aí sim, aceito. Agora para efeitos de concurso (quando não existe uma homogeneidade na aplicação da lei, pois já sabemos como funciona o entendimento da lei, não é?) para contratação, não.

Adenda (16h20m): fui precipitado. Quando digo: Agora para efeitos de concurso (quando não existe uma homogeneidade na aplicação da lei, pois já sabemos como funciona o entendimento da lei, não é?) para contratação, não; obviamente deveria dizer: Agora para efeitos de concurso para contratação, não. Escuso explicação, pois é óbvia.

Dias há assim


Foi um daqueles dias que não ficam na história. Um daqueles dias que ou se esquece rapidamente ou permanece na memória de tão banal e entediante que foi.

Um poema de António S. Ribeiro


Os dias passam assim,
como direi?
— delicados.

Não há projectos de viagens,
e tratado das grandes ideologias
abandonado a um canto;
os crimes perfeitos são outonais
e esta tarde é uma estação infinita;
a cama? «oh! a cama é larga».
lá fora a árvore é verde,
o universo expande-se;
do caderno à janela, penso neles,
nos amigos.
tarde duma única visão:
ter um terraço plantado de rosas.

em Sião, organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Lisboa: Frenesi, 1985, p. 204-205.

Pensamento do dia


Warpaint - Elephants

O vídeo mais sexy que vi nos últimos tempos. E a música também não é má de todo. Os blogues são fantásticos devido a isto mesmo. Obrigado, Menina.

Pensamento do dia


Zeca Medeiros - Despe-te que suas

Aliviar a inquietação


Agora é o silêncio que toma conta de tudo. A janela está já fechada. Aqui, neste lugar, a partir das dez da noite poucos são aqueles que se aventuram pelas ruas do centro. Preferem o passeio à beira-rio. Na verdade, isto que acabei de dizer é apenas uma suposição. Não sei se preferem o passeio à beira-rio. Eu prefiro, quando, raramente, saio à noite para desentorpecer as pernas, para tentar aliviar a inquietação: «Não posso deixar-me coagir por nenhuma lei, sem renunciar assim à humanidade, à personalidade e à liberdade.» (Fichte).

Algum avanço


O dia lá vai terminando. Abri a janela da sala para dar algum arejamento à divisão. A janela dá para as traseiras de uma outra casa, para uma espécie de pátio maltratado, onde gatos com cio vêm acasalar* como se amanhã fosse o fim do mundo. O certo é que, na realidade, amanhã pode ser fim do mundo. Nesse aspecto os gatos já me levam algum avanço. Não quero com isto dizer que os gatos pensam no fim do mundo e por isso acasalam como se amanhã fosse o fim do mundo. E também não quero com isto dizer que eu penso no fim do mundo e por isso acasalo como se amanhã fosse o fim do mundo.




*verbo transitivo, intransitivo e pronominal – mas não é copulativo, o que não se entende, pois se um verbo copulativo estabelece uma ligação e copular é ter relações sexuais, acasalar.

Um poema de Ana Curado


Nasci há, anos, 42,
Em terra de minha mãe
E de meu pai também,
Num carrinho de bois
— Irmãos tive dois —
Em paisagem bucólica
— Nunca fui, portanto, alcoólica —
Aos 10 de julho, 0.30
Horas, e, que vai faltando a tinta,
Mais o que não acrescento,
O que, sincera, lamento.

Mas Ó cursei a Faculdade
Em já remota idade,
A Faculdade de Letras,
Rodeada de poetas,
O que, deveras, lamento,
E o mais não acrescento.

em Sião, organização e notas de Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, Lisboa: Frenesi, 1985, p. 142.

Nas notícias


Ontem, no noticiário da RTP2, o título da notícia da chegada de Cavaco Silva, a Portugal, era o seguinte: "Já cá está": como se o Presidente da República fosse mercadoria ou outra coisa semelhante.

Descoberta


Descobrir um novo poeta é sempre fantástico. Aconteceu comigo em relação a Manuel Fernando Gonçalves e com o seu livro Caos (Frenesi, 1987).

Ensino Recorrente


Viagem


O final da tarde de domingo é sempre pouco apreciado por mim. Não pelo facto de estar próxima mais uma semana de trabalho, mas pelo facto de, muitas das vezes, ter que me fazer à estrada. Começo a perder o sentido estético da viagem. A viagem começa a ser para mim uma rotina, quando devia ser, e desculpem-me o pleonasmo, uma viagem. Há o fazer das malas, o atestar o depósito ao carro, o percurso, o chegar a uma casa vazia (que não é nossa), o desfazer da mala. E isso, a bem da verdade, não é viajar.

Primeiro Manteigas, depois o Mundo


Fiquei a saber, nos últimos dias, que sou lido em Itália.

Dia


A ida à capital até que nem foi má. Saí em S. Sebastião, atravessei o Parque e desci a Avenida. Sempre gostei de descer a Avenida a pé, principalmente da parte da manhã. Sabe-me bem. Não vou estar para aqui a justificar-me com razões. Apenas sei que me sabe bem. Depois da Avenida foi a vez do Chiado, ou melhor, Rua Anchieta. Mais um livro para a mochila: «vestimos à moderna, pretendemos viver à moderna, e pensamos e sentimos à antiga. Somos um povo pertencendo pelo aspecto aos tempos dos Direitos do Homem e pertencendo, na verdade, pelo espírito aos tempos da pedra lascada.» (Manuel Laranjeira, Pessimismo Nacional, Frenesi, 2009).De seguida: Letra Livre. Mais uma série de livros: Sião (antologia de poesia organizada por Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião), A Escrita (Paulo da Costa Domingos), Blues para uma Puta Velha (Jorge Fallorca) e Caos (Manuel Fernando Gonçalves). O almoço foi num restaurante simpático na Rua das Flores. Polvo à Lagareiro, um bom copo de vinho tinto alentejano, café. Rumo à Trama fui surpreendido por uma exposição: Portugal na I Grande Guerra. Bilheteira: “Boa tarde.”, “Boa tarde.”, “Quanto é o bilhete?”, “Dois euros”, “Quero um, por favor.” (pausa em que observo atrás da rapariga, em letras gigantes: Bilhete – €2), “Peço desculpa, só agora vi que ali indica o preço…”, “Não faz mal, já estamos habituados”. Chegada à Trama e um silêncio acolhedor. Tomo um café. Aparece Jorge Fallorca. Depois Luís Filipe Cristóvão. E mais tarde Fernando Dinis. Fernando Dinis tem a ideia de beber um chá. Eu e o Luís seguimo-lo. Bom chá. Melhor conversa.

Um poema de Manuel Fernando Gonçalves


Abrigo o teu olhar na concha
das noites, na pálpebra inversa,
imensa, da prevista hesitação:
vês daqui a estrela mais secreta,
quando te descolas, contorno,
a sempre repetida oferta.
Vens, respiras, iluminas-te
na única escuridão que permites.
Julgava adivinhar-te, num ângulo
preciso da noite, convidas
sempre, em outro lugar, apenas
ofegante.

em Caos, Lisboa: Frenesi, 1ª edição, 1987, s/pág.

Pensamento do dia


Diamanda Galas - Double Barrel Prayer

Resumo


É sexta-feira à noite. As ruas da vila estão desertas. A televisão está ligada. Ouço as notícias ao de leve. Não me interessam as notícias. Não me interessa a poeira que cerca a Europa. Para poeira basta-me aquela que me corre nas veias e eu não lido muito bem com a poeira dos outros. Foi uma semana boa. Não me posso queixar.

Santo Agostinho


«E, uma vez que Deus, sendo bom, fez todas estas coisas boas, donde vem então o mal? Na verdade, o maior e supremo bem fez boas as coisas mais pequenas, mas, no entanto, tanto o Criador é bom como são boas todas as coisas criadas. Donde vem então o mal? Será que, naquilo donde as fez, havia alguma matéria má, e formou-a, e ordenou-a, mas deixou nela qualquer coisa que não teria transformado em bem? E porquê isto? Será que, embora sendo omnipotente, tinha poder para transformá-la e mudá-la na totalidade, de modo a que nada de mal restasse? Finalmente, porque é que quis fazer dela alguma coisa e não preferiu fazer, com a mesma omnipotência, com que ela não existisse em absoluto? Ou, na verdade, será que ela podia existir contra a vontade dele? Ou, se era eterna, porque a deixou ser assim durante tanto tempo, durante os infinitos espaços anteriores do tempo, e tanto tempo depois lhe pareceu bem fazer alguma coisa a partir dela? Ou então, se de repente quis fazer alguma coisa, sendo omnipotente, podia preferir fazer com que ela não existisse, e que só ele próprio fosse o inteiramente verdadeiro, e supremo, e infinito bem? Ou, se não era bem que não fosse fabricada alguma coisa boa e a criasse ele, que era bom, suprimindo e reduzindo a nada a matéria que era má, podia ele próprio criar uma matéria boa donde criasse todas as coisas? Pois não seria omnipotente, se não pudesse criar alguma coisa de bom, a não ser sendo ajudado por aquela matéria que ele próprio não tinha criado’.»

em Confissões (Livros VII, X e XI), tradução de Arnaldo do Espírito Santo / João Beato / Maria Cristina Castro-Maia de Sousa Pimentel, Colecção Textos Clássicos de Filosofia, Covilhã: LusoSofia Press, Universidade da Beira Interior, 2008, p. 23.

Me and my friends


Quero ver se amanhã consigo ir até à capital. Lisboa é um cidade que visito sempre com prazer, apesar de ir sempre (praticamente) aos mesmos lugares: Rua da Anchieta, Trama, às vezes a Poesia Incompleta. Para mim chega. É suficiente. Mas nunca pernoito pela capital. É raro. Houve tempo em que ficava em casa de um amigo em Odivelas. Nessa altura tínhamos interesses comuns. Hoje nem tanto. Amanhã apetecia-me ficar por lá. Pernoitar. Só que os hotéis estão caros e as pensões mais acessíveis ao meu bolso têm putas ao fundo das janelas a discutir preços e clientes. E não me atrevo a pedir a algum amigo albergue pela noite. Explico: tenho amigos, só que tenho um problema: telefono-lhes somente quando preciso de ficar na capital de um dia para o outro: e eles nunca me dizem que não e eu depois tenho de fazer sala e essas coisas: jantar com eles, ir para os copos com eles: e eu gosto de estar à-vontade, ir para onde me apetece, fazer o que me apetece e tal. Penso que eles, às vezes, não entendem isso. Mas continuam meus amigos e eu agradeço-lhes a amizade. Afinal, talvez entendam.

O Cheiro dos Livros


O Cheiro dos Livros é o novo blogue de Jorge Fallorca. Tem epígrafe de Sam Savage: «De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café». Mais um que passa para a leitura diária.

Pensamento do dia


Type O Negative - My Girlfriend's Girlfriend

Peter Steele (1962 - 2010)


Houve um verão em que eu julguei que estava tudo perdido. Há verões assim. Só que existiam os Type O Negative e o álbum October Rust. Deve ter sido o álbum que mais ouvi nesse verão, quando julguei estar tudo perdido. Por mais estranho que pareça, os Type O Negative salvaram-no.

Pensamento do dia


Tuxedomoon - Jinx

Why all the flags at half mast

Why the murders the rage

Where the retainers of passion

Left from a sensible age

To wipe the wretched history

From this page

Why the people so bloated

What making cancerous sin

Where the godmerging shamans

To make new sense out of this din

To make beast calming music

Out oif this din

Don't disrespect your parents

Rather calm their panic

Curb their distemper

Don't tamper with their rot

No diaper no rash

Put out the trash

It's a jinx it's a jinx

Lí por aí


«Corajoso, Marquinhos disse (a voz tremeliquenta): «Pai, tenho algo a dizer-te... Eu sei que não vais gostar, e eu juro que tentei lutar contra isto, eu juro, mas pai... pai, eu... eu não consegui! Pai, eu sou pedófilo!». O pai respondeu, exasperado, em súbita e inesperada agressividade: «O quê? O meu próprio filho? Pedófilo? Por Deus, não!» Marquinhos acobardou-se, mas não cedeu à vontade de tentar reparar o feito: «Sim, pai, eu sinto-me sexualmente atraído por indivíduos do mesmo sexo!» O pai chorava lágrimas de dor. Tinham-se passado poucos segundos, quando uma lâmpada amarela surgiu sobre a cabeça do pai. Disse: «Mas espera lá, tu não podes ser pedófilo. Tu tens 14 anos!» Confundiu-se o pobre Marquinhos, e prostrado ficou, sem reacção, mas por fim compreendeu tudo: o pai estava em negação. Mas nada o faria parar, Marquinhos assumira, perante si e perante o mundo, quem era. A perspectiva de uma nova vida, livre e da cor do arco-íris, edificava-se então à sua frente.»

José Bértolo em Tio Vânia

George Orwell


«Saints should always be judged guilty until they are proved innocent, but the tests that have to be applied to them are not, of course, the same in all cases. In Gandhi’s case the questions one feels inclined to ask are: to what extend was Gandhi moved by vanity – by the consciouness of himself as a humble, naked old man, sitting on a praying-mat and shaking empires by sheer spirutual power – and to what extend did he compromise his own principles by entering into politics, which of their nature are inseparable from coercion and fraud?»

em «Reflections on Gandhi», inserido em Shooting an Elephant and Other Essays, London: Penguin Classics, 2009, p. 347.

Falar de coisas sérias


Mas não me apetece.

Um poema de Mário Cesariny


elogio do príncipe da dinamarca
coitado do hamlet
assassinado
empurrado
para o sepulcro que é

oculto entre reposteiros
sem paixões
como os ladrões
que lucram trinta dinheiros

coitado do que ele vê
crimes
espectros
correctos

coitado do hamlet

em Manual de Prestidigitação, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição (revista), 2005, p. 61.

Pensamento do dia

Recoil - Breath Control

(voz: Nicole Blackman)

Ensino Recorrente



Correios - Charles Bukowski



Correios
Charles Bukowski

Tradução
Rui Lopes



Correios, o primeiro romance de Bukowski, é baseado na sua experiência como empregado dos Serviços Postais dos Estados Unidos ao longo de uma década, e foi publicado num momento em que o seu nome ascendia ao plano do reconhecimento literário universal.

Ponto de partida ideal para qualquer leitor que se queira iniciar na prolífica obra de Bukowski, encontramos em Correios as qualidades dos seus restantes trabalhos. Repleto de cenas hilariantes, este romance é também um retrato fiel das frustrações de um funcionário público sofredor.

As suas personagens, entre a ficção e a realidade, captam a essência e a universalidade do ser humano e nós, leitores, continuaremos a topar, em Bukowski, com bebedeiras, mulheres, zaragatas, eventuais rebates de consciência, enfim, com os trambolhões da vida.

Nota: informação recebida por e-mail.

Um pequena nota

A Antígona tem feito um trabalho louvável na tradução, publicação e divulgação da obra de George Orwell. Os mais recentes títulos Livros e Cigarros e George Orwell - Uma Biografia Política são disso exemplo. A propósito deste último, devo referir que fiquei particularmente admirado pelo facto de George Orwell ter sido, num período da sua vida, um colaborador do IRD (Information Reserch Department). Mas isso agora não vem ao caso. Devo dizer que também fiquei admirado com a opção do tradutor (ou terá sido o editor?) em só mencionar traduções das obras de Orwell feitas para a Antígona. Explico melhor: todas as obras de Orwell que não estão traduzidas na Antígona surgem com os seus títulos em inglês, podendo o leitor menos familiarizado com a obra de Orwell supor que não existem traduções em português dessas obras. E tal não acontece. A Editora Livros do Brasil (que apesar de agora ser menosprezada, muito fez pela divulgação da boa literatura neste país) tem alguns dos romances menos conhecidos de Orwell traduzidos. A saber: A Filha de um Reitor (A Clergyman's Daughter) e O Vil Metal (Keep de Aspidistra Flying). Bem como uma tradução de Homenagem à Catalunha. Penso que uma nota de rodapé a explicar isso não fazia mal nenhum.

Parque do Urso


Parte da manhã foi passada naquele que eu designo por Parque do Urso. Talvez para a maioria seja assim: Parque do Urso. Mas, na realidade, é o Parque da Cidade. No Parque do Urso não há tantas moças jeitosas a correr e a saltar trá-lá-lá. É mais papás e mamãs (algumas delas bem jeitosas, que ficam muito bem no Choupal a correr e a saltar trá-lá-lá). O Parque do Urso é um local aprazível, onde nos podemos sentar à sombra dum chorão à beira-rio enquanto lemos um livro e tal. Gosto cada vez mais de Coimbra, apesar de a “minha” cidade ser a Guarda – relação mais afectiva, foi lá que, aparentemente, cresci.

Choupal


Como estou a passar o fim-de-semana em Coimbra, ontem fui passear até ao Choupal. O Choupal é um daqueles sítios porreiros para passear, principalmente se estiver um dia de sol, pois há por lá umas moças todas jeitosas a correr e a saltar trá-lá-lá. Isto tudo para dizer que comprei o livro de John Newsinger, George Orwell – Uma Biografia Política, e fico a saber que o Senhor Eric Blair foi delator. É claro que todos nós já fomos delatores num determinado período da nossa vida: quem é que nunca denunciou um amigo?

Um poema de Nicolau Tolentino


A dois velhos jogando gamão

Em escura botica encantoados,
Ao som da grossa chuva que caía,
Passavam de Janeiro um triste dia
Dois ginjas no gamão encarniçados.

Corra, vizinho, corra-me esses dados,
Gritava um deles que nem bóia via;
De sangue frio o outro lhe dizia
Mil anexins naquele jogo usados.

Dez vezes falha o mísero antiquário,
E ardendo em fúria o trémulo velhinho
Atira c'uma tábula ao contrário;

O mal seguro golpe erra o caminho,
Quebra a melhor garrafa ao boticário,
Que foi só quem perdeu tal joguinho.

em Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Réis-Sá e Rui Lage, Porto: Porto Editora, 1ª edição, 2009, p.667.

Pensamento do dia


Magnetic Fields - The Book of Love

Anarco-comodismo (2)


Durante muito tempo acalentei a ideia de que o Mundo estava todo contra mim. Eram conspirações ao virar da esquina para me tramar. Passei a vestir de negro, para assim poder passar despercebido entre as sombras. Usei negro dos dezoito aos vinte e quatro anos (todos os dias, sem excepção). Depois: fartei-me: não passava despercebido entre as sombras e no verão sofria com o calor. Não valia a pena continuar. Decidi, então, dedicar-me mais a sério à poesia. Pensava que residia aí a salvação. Passei a ser um lírico tipo Manuel Alegre. E falhei. A desilusão levou-me por caminhos tortuosos, onde a iniquidade* do Mundo se tornou mais visível. Decidi, depois, dedicar-me à luta social através da palavra. Mas a luta, pelos vistos, já não quer nada com as palavras. Ou melhor: a luta não quer nada com ninguém. Na realidade: quem é que quer alguma coisa com a luta? Temos televisão, internet, jornais, livros, álcool, tabaco, tabaco-que-faz-rir, frigorífico que refresca tão bem a cervejinha, máquina de lavar roupa e loiça, carro, casa, sofá a condizer com os móveis da sala, aparelhagem, aquecimento-central. Luta? Lutar? Para quê?



*s. f
1. Qualidade ou caráter de iníquo.
2. Grande injustiça; pecado; crime; perversidade.

Um poema de Manuel Moya


Os Moedeiros Falsos

Conheço quem viva sem a vida,
aceitando o cânone amputado das sombras;
os que tratam de invocar o que já foi
e a isso entregam o melhor do seu artifício.
Conheço quem, quebrado, viva vidas
que são outras e espreita em suas rédeas
as fronteiras da noite, o desamparo.

Porém todos, como eu, procuram um sul
onde atracar suas causas e peles,
a voz com que se nomeia o inominável,
o rio que se encrespa em nossos olhos.


em Quarto com Ilhas, tradução de Rui Costa, Torres Vedras: Livrododia, 1ª edição, 2008, p. 29

Blues para uma puta velha - Jorge Fallorca

A Escrita - Paulo da Costa Domingos

P


O frio tolda-me as mãos. Não sei se é pelo facto de Sibelius estar a tocar na aparelhagem. Disseram-me que na Finlândia faz frio, embora eu nunca tenha estado na Finlândia. Dos países do norte da Europa sempre preferi a Noruega. Não sei explicar o meu fascínio pela Noruega. Como não sei explicar o meu fascínio, o fascínio de um agnóstico, por Santa Teresa de Jesus, conhecida também por Santa Teresa d’Ávila. Tenho até uma imagem dela. Foi ontem benzida pelo Senhor Padre quando veio cá a casa dos Pais celebrar a Páscoa. Ficou admirado com a imagem da Doutora da Igreja. Mais admirado fico eu pelo facto de ter uma imagem de uma Doutora da Igreja. E também tenho ali as Obras Completas dela. Mas faltam lá muitos poemas. Talvez não interesse saber que a Doutora da Igreja se dedicou a essa coisa que é a poesia. Será que a poesia interessa, realmente, a alguém? Muito se tem falado de poesia, nestes últimos dias. Mas, na realidade, tem se falado de uma certa maneira de fazer poesia. Falar de poesia com P maiúsculo é coisa que há muito tempo não se faz. Razão: haverá razões? Não sei. Parece que os gregos, os antigos, também falavam muito da poesia com P maiúsculo. E não sei se chegaram a alguma conclusão. Na realidade, a Poesia não é feita de conclusões, nem é feita de escolas ou tratados ou correntes ou tudo o resto. A Poesia é feita, por mais absurdo que possa parecer, de Poesia. De outra maneira não a consigo conceber. Mas isso sou eu, que apenas leio a poesia dos outros.

Ler até ao fim


Para quem a poesia ainda excita, ler este texto do Senhor Fortinbras até ao fim. E este de Luís Filipe Cristóvão.

Questiono, interrogando? Ou interrogo, questionando?


O que surge primeiro: a interrogação ou a questão? Eu interrogo ou questiono? Segundo a Bíblia, Abraão não questionou a vontade de Deus quando Ele lhe pediu em sacrifício o seu único filho: Isaac. Mas, será que Abraão não se interrogou quanto à vontade de Deus?

Pensamento do dia


The Dead Weather - Will There Be Enough Water

Ensino Recorrente



Um poema de João Miguel Fernandes Jorge


E só de pão vive o crítico

Outro dia um crítico dizia
que poemas meus só eram bons
quando compridos e de grande
enredo.

De quatro ou cinco versos,
não. Que não passavam de
literatura. Mal
saberá, esse rapaz, quanto o

poema de reduzido verso tem
de persecução do inalterável
e quanto ouro no seu corpo
de luz faz dos versos, quatro

ou cinco, veios da terra;
dilatada memória nossa
visão, mistério secreto e
oculto que quieta o coração,

como quem
ante o altar queima incenso
o verso de oiro
relâmpago no horizonte do nosso

destino.

em O Barco Vazio, Lisboa: Presença, colecção Forma, 1ª edição, 1994, p. 31.

Franz Kafka


«Os meus bons momentos não têm tempo nem oportunidade de se gastarem naturalmente; os maus, pelo contrário, têm mais do que precisam.»


em Diários, Lisboa: Difel, 3ª edição, 2002, p.125.

Anarco-comodismo


Quase que prometi a mim próprio: nunca mais aqui volto. O que fazer quando há uma vontade enorme de silêncio, de afastamento? Eu sei que nenhum homem é uma ilha. Mas pode tentar, não? Tarefa ingrata e difícil. É claro que, na realidade, ninguém deseja ser uma ilha. E quem quer ser uma ilha aposto que pensa numa ilha tropical, com gajas por todo o lado, e não um penedo, um ermo. É muito bonito uma pessoa isolar-se e tal. Mas poucos são aqueles que o fazem. E o conforto? Como é? Os livros? A música? A internet? Os amigos? Tudo muito bonito, sim senhor. Nunca fui muito com aquela filosofia do bom-selvagem (se repararem bem, a palavra selvagem continua lá, apesar do bom) e tal. Por exemplo: Thoreau tinha umas ideias porreiras e tal. Mas quem é que se arrisca, nos dias de hoje, a fazer o que ele fez? Podem vir dizer que existem hoje mecanismos opressivos que não existiam no passado, nomeadamente aqueles exercidos por uma sociedade consumista que anula o indivíduo. Que se lixem os mecanismos de opressão! Só são de opressão pelo simples facto de nós lhe darmos uma importância que, no fundo, não têm.