11.3.10

Da barriga


Tenho uma relação com o meu umbigo um pouco ambígua. Mas hoje não vos vou falar disso. Vou antes falar da minha barriga. Confesso: tenho barriga. É claro que toda a gente tem barriga, no entanto uns têm mais do que outros. A minha anda a crescer desmesuradamente. A minha vida sedentária, a leitura compulsiva e alguns abusos alimentares, são os principais responsáveis. Sempre que me olho ao espelho penso naquela frase: o que tenho não é barriga, mas sim calo sexual. É claro que nem essa parte me safa. Na minha terra, quando alguém diz a outro que anda a ficar com barriga, esse outro costuma responder que é para tu mamares à sombra. Sempre achei uma frase um tanto ou quanto brusca, rude. Contudo (desculpem lá o abuso do uso – uma rima, não sei se repararam – de conectores de discurso), é eficaz. É claro que ela pouco ou nada serve contra certas e determinadas pessoas. Por exemplo: anónimos. Os anónimos são seres que já costumam mamar à sombra. À sombra do anonimato, entenda-se. É claro (outra repetição, mas a bem da verdade tudo aqui é uma repetição, e não é a vida uma repetição? deixo-vos com este pensamento) que existe a possibilidade de eles gostarem de mamar sem ser à sombra do anonimato. Não sei se a minha barriga chegará para tanto.

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