Pensamento do dia


Wire - 12 X U

saw you in a mag
kissing a man
saw you in a mag
kissing a man
smoking a fag
kissing a man
saw you in a mag
kissing a man yeah

saw you in a mag
kissing a man
saw you in a mag
kissing a man
smoking a fag
kissing a man
saw you in a mag
kissing a man yeah

got you in a corner
got you in a corner
got you in a corner
got you in a corner
got you in a cottage
got you in a corner
got you in a corner
oh no no no

Pier Paolo Pasolini


«Amo a vida ferozmente, tão desesperadamente, que não me pode advir daí algum bem: refiro-me aos dados físicos da vida, ao sol, à erva, à juventude: é um vício mais tremendo que o da cocaína, pois não me custa nada e existe com uma abundância desmedida, sem limites: e eu devoro, devoro… Como irá acabar, não faço ideia…»

em Últimos Escritos, tradução de Manuel Braga da Cruz, Coimbra: Centelha, 1ª edição, 1977, p. 13.

Versões: Charles Simic


Pregação

Este nosso calmo mundo está pronto para o fim –
E mesmo assim o sol brilha, os pardais vêm
Todas as manhãs para as migalhas da padaria.
Na porta ao lado, dois homens entregam uma cama a um
casal [recém-casado
E param para admirar uma bicicleta presa a um parquímetro.
O dono está a fazer o almoço à avó doente.
Ele aquece a sopa e serve-a numa tigela.

As janelas estão abertas, há uma brisa quente.
Na nossa rua as jovens árvores deliram por ter folhas.
Na rádio há ópera italiana, o som está demasiado alto.
Brevi e tristi giorni visse, canta o barítono.
Todos os que passam pelo quarteirão conseguem ouvi-lo.
Algo sobre os dias que nos restam para gozar
Sendo poucos e tristes. Mas hoje não, Maestro Verdi!

No cabeleireiro uma rapariga salta duma cadeira,
O cabelo loiro a dar-lhe pelos ombros nus
Enquanto sai porta fora nos seus saltos altos.
“Tenho de ir”, diz o rapaz elegante à sua avó.
A bicicleta está onde a deixou.
Ele pedala indiferente pelo muito trânsito
A camisa branca fora das calças a flutuar
Muito depois de todos terem repentinamente parado.

Charles Simic «Preachers Warn» , em The New Yorker, 1 de Março de 2010.

Eu por eles


No outro dia tive a ideia de realizar a seguinte actividade: enquanto dava o retrato físico e psicológico, aos meus alunos, propus que fizessem o meu retrato físico e psicológico. Foi interessante: gordinho, com uma pequena barriguinha, pneuzinhos, cabelo “à Carlos Carvalhal”, simpático e mauzinho quando é preciso. Foram sinceros, os alunos.

Um poema de Jacques Prévert


Bairro Livre

Pus o boné na gaiola
saí com o pássaro na cabeça
E então
já não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
já não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bem
desculpe julguei que se fazia
disse o comandante
Não há de quê toda a gente pode enganar-se
disse o pássaro.


em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p. 324.

Sem título (6)


Sem título (6)
© 2010 manuel a. domingos
(clicar na imagem para aumentar)

Immanuel Kant


«Ser verídico (honesto) em todas as declarações é, portanto, um mandamento sagrado da razão que ordena incondicionalmente e não é limitado por quaisquer conveniências.»

em «Sobre um Suposto Direito de Mentir», tradução de Artur Morão, colecção Textos Clássicos de Filosofia, Covilhã: LusoSofia Press, Universidade da Beira Interior, 2008, p.6.

Ensino Recorrente


Cada um tem o que merece


Este ano lectivo calhou-me viver num sótão. Gosto de sótãos. Sempre fui uma espécie de romântico. Falhado. Como todos. E tudo isto para dizer que no sótão onde este ano lectivo calhou-me viver, porque sempre fui uma espécie de romântico falhado (como todos), o meu rádio não apanha a antena dois. E a frase: cada um tem o que merece: ganha verdadeiro sentido.

Lí por aí


«conversas sobre programas de televisão. vem à liça o programa da rita ferro rodrigues. eu relembro que lhe devo a menção do meu nome na sua crónica do expresso. de alguma maneira, a rita ferro rodrigues é o meu antónio guerreiro.»

em o homem que queria ser luís filipe cristóvão

Pensamento do dia


The Mission - Never Again

Se eu quisesse


Tal como Herberto: se eu quisesse enlouquecia. Bem vistas as coisas, não é tarefa difícil. Basta ligar a televisão. Ou ler o jornal. Ou abrir a janela e ver a trampa em que estamos metidos. Não é difícil, não senhor. Basta para isso andar de olhos abertos. E mesmo fechados, ainda temos o olfacto.

720


O jantar até que nem foi mau: lentilhas com salsichas de soja, coentros e cominhos. Tipo uma coisa saudável e tal, com algum sabor. Fiquei satisfeito. E até está a dar uma futebolada na televisão e tal. Está a ser um bom fim de dia. O pior ainda é o trabalho que me espera ali em cima da mesa. E amanhã e tal. Isso é que me lixa a média. Que não sei bem qual é. Uma coisa que gosto é acabar frases com verbos. Parece que em latim é assim que se faz. As frases acabam com verbos e tal. Mas não tenho a certeza. Nunca fui bom a latim. Também tive um professor que não ajudou muito. Talvez um dia digam o mesmo de mim: eh pá! nunca fui bom a inglês, mas o professor também não ajudou muito. Ou: eh pá! nunca fui bom a português, mas o professor também não ajudou muito. Ou talvez já digam. Já são nove anos nisto. Feitas as contas: quatro turmas por ano, cada turma com vinte alunos, dá setecentos e vinte alunos. É um número jeitoso. São setecentas e vinte pessoas. Lembro-me de alguns dos nomes. De algumas das caras. E pouco mais.

Ensino Recorrente


Pensamento do dia


Them Crooked Vultures - Dead End Friends

I drive all alone, at night,
I drive all alone.
Don't know what I'm headed for.
I follow the road, blind.
Until the road is dead end.
Night's in my veins, it's calling me,
Racing along these arteries &
Law, is just a myth
To herd us over the cliff.

I follow the road at night,
Just hoping to find
Which puzzle piece fell out of me.
I know who you are,
Open the door & climb in.
Hold me real close, then do it again,
I ache for the touch of my dead end friends & oh,
I gotta know...
Is it dead
At the end of the road?
I can tell by that look in your eyes,
We're the same,
My dead end friends & I

We drive all alone at night,
A never ending begin.
Sweet as a curse just out of reach,
Which awakens the dead end part of me & oh,
No more wandering.
Just me & my dead end friends again.

Dead end friends.

Maria Zambrano


«Uma poesia que se contente com a vaguidade [sic] do sonho seria um contra-senso. Para tornar exacto o sono virginal da existência, o sono da inocência em que o espírito ainda não sabe de si, nem do seu poder, a poesia precisa de toda a lucidez de que é capaz um ser humano; necessita de toda a luz do mundo.»

em «Poesia e Metafísica», tradução de José Bento, colecção Textos Clássicos de Filosofia, Covilhã: LusoSofia Press, Universidade da Beira Interior, 2008, p.28.

Banda-sonora


Estou aqui num quarto com um janela aberta para lado nenhum. Há música. Banda-sonora prefeita para esta noite. Tenho um livro de poemas a olhar para mim. E o livro és tu.

Sem título (5)


Sem título (5)
© 2010 manuel a. domingos
(clicar na imagem para aumentar)

Lançamento



Dia 21 de Março

22 horas

Fábrica Braço de Prata

Lançamento de “cicatriz ando” de Américo Rodrigues

Com o autor, Rogério Pires e José Tavares , entre outros.


“Neste disco regista-se o som de acções poéticas levadas a cabo pelo autor a partir de elementos da tradição oral portuguesa (romances, lengalengas, orações, adivinhas, ditos, alcunhas e vocabulário de uma gíria). Todos os temas tiveram por base uma intervenção concreta em cujo processo se usaram tecnologias rudimentares (low tech) de gravação, comunicação e amplificação da fala e da voz (telefone, megafone, minigravador de cassete, megafone, walkie talkies, intercomunicadores, gps’s, transístores, etc.). O som obtido nas acções foi depois alvo de montagem.”


O disco foi editado pela “Bosq-íman:os records”. Apoio do Instituto de Literatura Tradicional Portuguesa, Universidade Nova de Lisboa.

Pensamento do dia


Fields of the Nephilim - Moonchild

Da sombra surgíamos como sombras. São noites que ficaram para sempre.

Ensino Recorrente


Um poema de Wislawa Szymborska


Invento o mundo

Invento o mundo, segunda edição,
segunda edição corrigida,
no riso, para os idiotas,
no choro, para os melancólicos,
nos pentes, para os carecas,
nos sapatos, para os cães.

Um capítulo:
Fala das Plantas e dos Bichos,
onde para cada espécie
competente dicionário.
Mesmo o mais simples bom dia
que tu trocas com um peixe,
na vida te fortalece,
a ti, ao peixe e a todos.

Este improviso de bosque -
há muito pressentido
e de súbito em palavras acordado!
Esta epopeia de corujas!
Estes adágios de ouriço
compostos quando estamos convencidos
de que está só a dormir!

O Tempo (capítulo II)
tem direito a intrometer-se
em tudo, seja no bom ou no mau.
E, contudo, o que corrói as montanhas
e afasta os mares e usa
estar presente no giro das estrelas,
não há-de ter o mais pequeno poder
sobre os amantes,
porque nus de mais,
porque abraçados de mais, o esp´ririto
eriçado como pássaro num ombro.

A velhice é só moral
em vida de criminoso.
Por isso todos são jovens!
Sofrer (capítulo III)
não tira o peso ao corpo
e a morte
virá enquanto dormires.

E sonhares
que afinal nem é preciso respirar,
que o silêncio sem respiração
é boa música,
és pequeno, uma faúlha,
e se te tocam apagas-te.

Morte, só uma assim. Dor maior
experimentaste ao segurares uma rosa,
e terror maior sentiste
vendo a pétala no chão.

Mundo, só um assim. Viver,
só desta maneira. E morrer, como antes visto.
Tudo o resto é como Bach
tocado em serra de circo.

em Paisagem com Grão de Areia, tradução de Júlio Sousa Gomes, Lisboa: Relógio d'Água, 1ª edição, 1998, pp. 11-12.

Substâncias Perigosas - Pedro Eiras


Pedro Eiras, Substâncias Perigosas, Torres Vedras, Livrododia, 1ª edição, 2010

Sem título (4)



Sem título (4)

© 2010 manuel a. domingos

(clicar na imagem para aumentar)

The morning is broken


Não há nada como o cheiro da escrita logo pela manhã.

Imbecil


Ninguém se livra de ser imbecil. Segundo o Blog Search ainda chamei (no mundo dos blogues) imbecil a uma pessoa: foi ao Senhor Diogo Vaz Pinto. É claro que há por aí muito imbecil. Como disse: ninguém se livra de ser imbecil. Por exemplo: o Senhor João Gomes de Almeida. Reparem que não estou a chamar o dito Senhor de imbecil. Estou apenas a incluí-lo no grupo daqueles que não se livram de o ser.

Da barriga


Tenho uma relação com o meu umbigo um pouco ambígua. Mas hoje não vos vou falar disso. Vou antes falar da minha barriga. Confesso: tenho barriga. É claro que toda a gente tem barriga, no entanto uns têm mais do que outros. A minha anda a crescer desmesuradamente. A minha vida sedentária, a leitura compulsiva e alguns abusos alimentares, são os principais responsáveis. Sempre que me olho ao espelho penso naquela frase: o que tenho não é barriga, mas sim calo sexual. É claro que nem essa parte me safa. Na minha terra, quando alguém diz a outro que anda a ficar com barriga, esse outro costuma responder que é para tu mamares à sombra. Sempre achei uma frase um tanto ou quanto brusca, rude. Contudo (desculpem lá o abuso do uso – uma rima, não sei se repararam – de conectores de discurso), é eficaz. É claro que ela pouco ou nada serve contra certas e determinadas pessoas. Por exemplo: anónimos. Os anónimos são seres que já costumam mamar à sombra. À sombra do anonimato, entenda-se. É claro (outra repetição, mas a bem da verdade tudo aqui é uma repetição, e não é a vida uma repetição? deixo-vos com este pensamento) que existe a possibilidade de eles gostarem de mamar sem ser à sombra do anonimato. Não sei se a minha barriga chegará para tanto.

Land of the free, home of the brave


Humor


Tenho pena das pessoas que não se riem. Ando rodeado de pessoas que não se riem. Cinzentas. Pardas. Não se riem. Tristes. Não se riem, não têm sentido de humor. Um mundo sem sentido de humor é um mundo sem sentido. Um local de trabalho sem sentido de humor é uma merda.

Mecanismo


Este blogue é um mecanismo. Falhado.

Um desejo


É um desejo que tenho: este poema de Jaime Gil de Biedma.

Kurt Vonnegut (2)


Quem gosta de Kurt Vonnegut pode ler os seguintes textos: A vida não é maneira de tratar um animal ; Um Homem Sem Pátria; O Pequeno Almoço de Campeões.

Kurt Vonnegut




Kurt Vonnegut (1922 - 2007) é mais um dos muitos autores que não está o suficientemente traduzido em Portugal. Se a memória não me falha, estão apenas traduzidos no nosso país três livros: Galápagos (tradução de Paula Reis, Editorial Caminho - Colecção Caminho Ficção Científica - nº 91, 1989), Matadouro Cinco ou A Cruzada das Crianças (tradução de Paula Reis, Editorial Caminho - Colecção Caminho Ficção Científica - nº 119, 1990) e Um Homem sem Pátria (tradução de Susana Serras Pereira, Tinta-da-China, 2006). Ora Kurt Vonnegut é um dos grandes autores norte-americanos do século XX. Mas isso parece que não é o suficiente para as editoras portuguesas repararem nele. Será pelo facto de escrever muito bem?

Céline por Vonnegut


«Celine was a brave French soldier in the First World War - until his skull was cracked. After that he couldn't sleep, and there were noises in his head. He became a doctor, and he treated poor people in the daytime, and he wrote grotesque novels all night. No art is possible without a dance with death, he wrote.»

Kurt Vonnegut, Slaughterhouse-Five or The Children's Crusade, London: Vintage Books, 2000, p. 15.

Viagem ao Fim da Noite - Louis-Ferdinand Céline



Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao Fim da Noite, Lisboa: Ulisseia, 2010.

Da Liberdade


Um gajo só será verdadeirabente livre quando, alto e em bom som, se peidar numa repartição de finaças.

Basicamente...


estou-me cagando para muita coisa.

Assumidamente pedante


Ando a tentar que este blogue seja o mais pedante possível. Para tal abasteci-me este fim-de-semana de um livro de ensaios de George Orwell, um romance de Kurt Vonnegut e outro de Hunter S. Thompson. Todos, como é óbvio, em inglês. Um dia destes irão aqui ser citados, em inglês, como é óbvio. Tentei, também, comprar alguns dos clássicos gregos e latinos. Mas, como é óbvio, não consigo ler grego. Nem latim.

Para elas


Dia da mulher é sempre... que um homem deixa.

Um dia destes


Um dia destes ainda vos conto umas coisas verdadeiras.

Dia cansado


Hoje o dia nasceu cansado. E eu sinto o cansaço do dia nos meus ossos.

Uma opinião


Um dia não pode começar bem se acordamos com Amor Combate dos Linda Martini na cabeça.

Doze


Uma criança suicidou-se aos doze anos. Uma criança suicidou-se aos doze. Uma criança suicidou-se. Uma criança.

Nuno Bragança


«Tocou a campainha a pensar nas coxas que lhe iam aparecer. A porta abriu-se e ele viu a blusa amarela e uma aliança. Pregou os olhos na aliança, não contava nada com isso.»


em Directa, Lisboa: Moraes Editores, colecção Círculo de Prosa, 2ª edição, 1979, p. 102.

Somos dois


No outro dia fiquei a saber que E.M. Cioran lia Santa Teresa de Jesus (mais conhecida por Santa Teresa de Ávila) e que ficava deslumbrado com o pensamento da Santa.

Mais vale tarde do que nunca


Tal é o cansaço de tudo que nem ler me apetece. Ando já algum tempo às voltas com Directa de Nuno Bragança. Ele ali está, a olhar para mim, na mesinha-de-cabeceira. Junto a ele uma antologia de Jaime Gil de Biedma, autor que recentemente descobri num alfarrabista numa rua moderna de Santiago de Compostela por €4.50. Quando li os primeiros versos disse para mim mesmo mais vale tarde do que nunca.

Ensino Recorrente



Seja do que for


(lá vem este gajo queixar-se mais uma vez)

Desta vez não venho aqui queixar-me. Penso que já não serve de nada uma pessoa queixar-se. Uma pessoa que se queixa é um incapaz, um empecilho. Quem se queixa é um fraco. Eu cá vou deixar de me queixar. Seja do que for: tempo, finanças, mulheres, trabalho, anónimos, furúnculos, pé-de-atleta ou questões de natureza poética.

Versões: Bojan Radašinović

Naquele tempo (17)


talvez eu seja
demasiado ambiciosa para ti
talvez tudo pudesse ser diferente
se fosses uma rapariga
és preguiçoso e irresponsável
devia-te ter deixado
quando me mentiste
depois passaste no exame
não podemos viver do amor
agora não estou disponível
para começar uma nova relação
por agora não te abandono
mas daqui a um par de meses quem sabe
tu és o primeiro rapaz normal
com quem estive
tens de ser, apenas, um pouco
pior para mim
mesmo assim, és o melhor




Bojan Radašinović, «To su bili dani (17)», em Ovdje ćemo uvijek biti stranci, Zagreb: AGM, 2003. (versão minha a partir da versão inglesa de Miloš Ðurdevic)

Bico d'obra?


Não sei se temos um bico d'obra, mas temos tema de conversa, lá isso temos.

Apresentação do livro Quando junto às horas se ilumina um rio, de Alice Fergo





(clicar na imagem para aumentar)