Assumidamente


Este blogue passa a ser, a partir de hoje, assumidamente pedante.

Um poema de Ruy Belo


Enterro sob o sol

Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho pela areia dêem-me um
enterro sob o sol enterro de água

em «Transporte no Tempo» (1973), in Todos os Poemas, Lisboa: Círculo de Leitores, 2000, p. 275.

Fiat Lux


Durante a tarde deixou de haver luz. Soube agora que um milhão de clientes da EDP ficaram nas mesmas condições que eu. Mas voltando à tarde e à falta de luz. Aproveitei a última claridade que entrava pela janela da sala para ler alguns poemas de Zbigniew Herbert. Comecei pelo livro Chord of Light (1956)*. No poema que abre o livro (Two Drops), o autor pega num verso de Juliusz Slowacki: No time to grieve for roses, when the forests are burning. E eu fico incrédulo a olhar para a força daquele verso. Para a sua intensa luminosidade.

*Zbigniew Herbert, The Collected Poems: 1956-1998, translated and edited by Alissa Valles, New York: Ecco, 2007, 600 pp.

Versões: Bojan Radašinović

Naquele tempo (9)

és tão frágil
os teus braços esticados
devido aos sacos de plástico
cheios de compras do Migros
certas coisas são sempre
iguais em todo o lado
nós não fugíamos disso
eu levo os sacos
disse-lhe
a caminho da nossa casa
temos conversas sérias
conseguimos detectar estranhos facilmente
crianças alegres passam por nós
em trotinetas de metal
nestes apartamentos as rendas eram baixas
e não havia ninguém do nosso país
o telefone raramente toca
tu atendes
usando o teu nome de família Eslavo
com todos esses č e ć



Bojan Radašinović, «To su bili dani (9)», em Ovdje ćemo uvijek biti stranci, Zagreb: AGM, 2003. (versão minha a partir da versão inglesa de Miloš Ðurdevic)

Da música


A minha ideia era acordar e ouvir música alegre. Fui até à fonoteca cá de casa: Joy Division, Bauhaus, Cocteau Twins, Jesus and Mary Chain, The Mission, Fields of the Nephilim, Echo and the Bunnymen, Mogwai, Tindersticks, Jeff Buckley, The Cure, The The, Porthishead, Massive Attack, The XX, The National, Crime and the City Solution, Nick Cave, Diamanda Galás, The Sound, Suicide, entre outros tantos. E surgiu em mim uma questão: porra pá! será que não tens por aí música que te alegre o dia? Pelos vistos não. E lá coloquei os At the Drive-In a bombar. Ao menos alegro o dia aos vizinhos.

O dia de hoje...


está bom para depressões e outras questões.

Um post inútil


Este é um post inútil, pois quase ninguém o lerá. Não me posso esquecer que quase todas as pessoas que me lêem estão no Correntes d'Escritas (incluindo Tiago Nené, o que não me deixa de surpreender, não pelo facto dele me ler, mas sim pelo facto de estar no Correntes e com direito a mesa redonda e tudo). Pelo número de visitas diárias, que este blogue tem, cada vez mais me assumo como blogger para bloggers, tal como dizem que Cormac McCarthy é um escritor para escritores. Nunca li Cormac McCarthy. Prefiro ver os filmes.

Pensamento do dia


The Stone Roses - Waterfall

Ensino Recorrente



Versões: Jaime Gil de Biedma


Contra Jaime Gil de Biedma

De que serve, queria eu saber, mudar de casa,
deixar para trás um sótão mais negro
do que a minha reputação – e isso é pouco –,
colocar cortinados brancos
arranjar uma criada,
renunciar à vida de boémio,
se vens logo tu, inoportuno,
incómodo hóspede, mesmo que vestido com a minha roupa,
zangão de colmeia, inútil, néscio,
com as tuas mãos lavadas,
a comer no meu prato e a sujar a casa?

Acompanham-te os balcões dos últimos
bares da noite, os chulos, as floristas,
as ruas mortas da madrugada
e os elevadores de luz amarela
quando chegas, bêbado,
e paras para ver ao espelho
a cara destruída,
com olhos violentos
que não queres fechar. E se te repreendo,
tu ris, lembras-me o passado
e dizes que envelheço.

Podia recordar-te que já não tens piada.
Que o teu estilo casual e o teu desapego
são truculentos
quando se tem mais de trinta anos,
e que o teu encantador
sorriso de rapaz sonolento
– convencido – é penoso,
uma tentativa patética.
Enquanto olhas para mim com os teus olhos
de verdadeiro órfão, e choras
e me prometes que não voltarás a fazê-lo.

Se não fosses tão puta!
E se eu não soubesse, há já muito tempo,
que tu és forte quando eu sou débil
e que és débil quando eu me enfureço…
Dos teus regressos guardo uma imprecisão confusa
de pânico, de pena e descontentamento,
e a desesperança
e a impaciência e o ressentimento
de voltar a sofrer, mais uma vez,
a humilhação imperdoável
da excessiva intimidade.

Com muito custo levar-te-ei à cama,
como quem vai ao inferno
para dormir contigo.
Morrendo de impotência a cada passo,
tropeçando nos móveis
sem tino, atravessaremos a casa
tropegamente abraçados, vacilando
com álcool e soluços reprimidos.
Oh ignóbil servidão de amar seres humanos,
e a mais ignóbil
é alguém amar-se a si próprio!

Jaime Gil de Biedma, «Contra Jaime Gil de Biedma» em Volver, Madrid: Ediciones Cátedra, 9ª edição, 2000, p. 125.

A Neve - Teatro das Beiras



“A Neve” é um espectáculo construído a partir de cinco contos de Vergílio Ferreira: O Encontro, A Palavra Mágica, A Fonte, A Galinha e A Estrela. São histórias que, interligadas, revelam um humor triste e alguma nostalgia em relação à condição humana. Memórias de um tempo, que não foi assim há tanto tempo, em que o coração dos homens era frio como a neve. A peça é levada à cena no Pequeno Auditório pelo Teatro das Beiras no próximo dia 26 de Fevereiro (sexta-feira) e em duas sessões. A primeira das quais às 14h30 para o público escolar (bilhete 2 euros) e às 21h30 para o público em geral (bilhete 5 euros).“A Neve” conta com a encenação de José Carretas, a cenografia é de Nuno Lucena e José Carretas, a música é de Telmo Marques, o desenho de luz é de José Carretas e Joana Oliveira. A peça é para maiores de 12 anos e conta com a interpretação de Fernando Landeira, Pedro Damião, Pedro Silva, Rui Raposo Silva, Sónia Botelho, Teresa Baguinho.

Há dias de manhã, que durante a tarde, mais vale não sair à noite


Um gajo tenta levar tudo na boa e quando digo na boa é muito peace and love I adore flowers ( e não esquecer o Harmony) mas nem sempre é possível a coisa tipo andar para a frente como nós queremos e tal e fica tudo um pouco mais complicado e tal mas depois vem um dia que até nem é mau de todo e um gajo arribita e tal mas não é o suficiente para arrebitar tipo o suficiente embora seja o suficiente se é que me estão a entender e tal e ontem foi um dia assim

Sem título (3)


Sem título (3)
© 2010 manuel a. domingos
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Um poema de Joan Margarit


Frio de Junho em Forès

Foi a paisagem da nossa vida:
a escadaria de socalcos verdes
sob a vigilância do vento,
e no mais alto, indiferente, a aldeia.
Ferozes andorinhas envolvem
com os fios do seu voo a casa vazia.
Chilreiam sem parar. Escuras, brilhantes,
fazem fragor de navalhas. Como esta andorinha
que ainda voa ao entardecer, também nos resta
uma remota possibilidade.
É, já, a paisagem da nossa morte.
Sob a vigilância do vento.

em Casa da Misericórdia, trad. de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, Entroncamento: OVNI, 1ª edição, 2009, p. 75.

Sem título (2)


Sem título (2)
© 2010 manuel a. domingos
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Uma dica



Vinha do Rosário -
composto pelas castas Castelão, Touriga Nacional e Syrah - é um vinho da prestigiada Casa Ermelinda Freitas. Está à venda no Lidl por €1,99.

Anagrama


Andei uns dias a passear pelo Norte do país e pelo lado de lá: Galiza. Passei por Vigo e por Santiago de Compostela, lugares que ainda não conhecia e onde rapei muito frio (mais em Santiago). Sempre que vou visitar Espanha aproveito para entrar nas livrarias e observar as estantes. Dá-me um prazer enorme ver livros da Anagrama por todas elas. O catálogo da Anagrama é de fazer corar de vergonha qualquer editora portuguesa. Dei com a Anagrama a primeira vez que fui a Salamanca. Comprei quatro livros de Vila-Matas (tinha lido em português Filhos sem filhos, um livro muito bom do senhor, mas muito pouco falado) e Pedro Páramo de Juan Rulfo (outro mestre). De Bukowski têm isto tudo. Nem vou comentar o panorama bukowskiano no nosso país. É claro que aproveitei para comprar o meu primeiro Bolaño: Putas asesinas. Já que o consigo ler no original, faço-o. Escuso, dessa maneira, tropeçar em traduções discutivéis e revisões muito más, apesar da dita “crítica especializada” nada dizer sobre o assunto. Mas isso é outra conversa.

Pensamento do dia


Mogwai - Ratts of the Capital

Ensino Recorrente



Hermann Broch


«Havia que esperar, esperar com uma grande paciência, e isso levava muito tempo, um tempo insuportável.»


em A Morte de Virgílio, trad. de Maria Adélia Silva Melo, Lisboa: Relógio D'Água, Primeiro Volume, 1ª edição, 1987, p.120

Frio


Será mais um fim-de-semana. Como tantos outros. Irei ficar por casa. Talvez saia para ir comprar o jornal. Os Pais dizem que faz frio em Manteigas. Não me admiro. Aqui, onde estou, também o faz. Não é nada agradável ficar por cá. Não queria estar por lá. Não quero cair no exagero de dizer que sou um estrangeiro de mim mesmo. Mas nestes momentos é o que parece que sou: um estrangeiro de mim mesmo. E lá me tento habituar. Só que não consigo.

Versões: Jaime Gil de Biedma


Não voltarei a ser jovem

Que a vida é a sério
só mais tarde o começamos a entender
— como todos os jovens, eu vim
para levar a vida em frente.

Queria deixar marca
e sair entre aplausos
— envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.

Mas passou o tempo
e a desagradável verdade assoma:
envelhecer, morrer,
são o único argumento da peça.

Jaime Gil de Biedma, «No volveré a ser joven » em Volver, Madrid: Ediciones Cátedra, 9ª edição, 2000, p. 137.

À mão


Aqueles que me lêem com atenção sabem que sou um gajo pouco exigente. Só que a vida é exigente como o raio. E exige demasiado de mim. É claro que tenho sempre à mão um verso para atirar contra a vida. O pior é quando a vida me devolve esse verso ou me atira com outro.

Versões: Jaime Gil de Biedma


De Vita Beata

Num velho país ineficiente,
como a Espanha entre duas guerras
civis, numa povoação junto ao mar,
ter uma casa e um pequeno quintal
e nenhuma memória. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas da minha inteligência.

Jaime Gil de Biedma, «De Vita Beata» em Volver, Madrid: Ediciones Cátedra, 9ª edição, 2000, p. 137.
(versão de manuel a. domingos)

Pausa


Este blogue irá fazer uma pequena pausa até à próxima quarta-feira. Mas fica prometido que regressará com novos e fantásticos conteúdos! Ou não.

Um poema de José Alberto Oliveira


A Literatura

Cultivam-se virtudes raras: a bonomia,
o encanto, a mediocridade. Queimado
o acessório, que fica? O sal na água,
eis o espírito. E eis esse alferes que
louco enforcou os cães e o outro pequeno
oficial, que apaixonadamente conduziu
um pelotão à chacina. Ébrio, empunhando
o revólver até à morte. O cinismo
progredindo. Ao fim de tudo,
uma bala perdida levou-lhe um olho.

Escreviam-se cartas à hora do almoço
e à hora do chá: o expatriado
e a florista. Essas pequenas vilas,
de escassa ribeira, onde é aprazível
deixar correr o tempo. A literatura.

em Por Alguns Dias, Lisboa: Assírio & Alvim, 1ª edição, 1992, p. 31

Hoje na Livraria Trama





21 horas

com JORGE FALLORCA

apresentação do livro A CICATRIZ DO AR (a nova edição)
com leitura de excertos por PAULO DA COSTA DOMINGOS
música de FERNANDO DINIS

Pensamento do dia


Magazine - Song From Under The Floorboards

I am angry I am ill and I'm as ugly as sin
my irritability keeps me alive and kicking
I know the meaning of life, it doesn't help me a bit
I know beauty and I know a good thing when I see it

This is a song from under the floorboards
this is a song from where the wall is cracked
my force of habit, I am an insect
I have to confess I'm proud as hell of that fact

I know the highest and the best
I accord them all due respect
but the brightest jewel inside of me
glows with pleasure at my own stupidity

This is a song ....

I used to make phantoms I could later chase
images of all that could be desired
then I got tired of counting all of these blessings
and then I just got tired

This is a song ...

Ensino Recorrente


Indignar-me é o meu signo diário (14)



(clicar para aumentar)

A gerência agradece


Foram hoje ultrapassadas, graças ao José, as 100 visitas diárias a este estabelecimento.

Hoje


Nada de inteligente a declarar.

Um poema de Jorge Aguiar Oliveira


O Hemiciclo dos Roedores

Se chegares a depois de amanhã
vai até à praça maior e anula-te
numa parede qualquer suja de
grafittis
ou num aroma de iogurte dum mupi.
Serve a camuflagem. Observa-os
a andarem para baixo e para cima
com os ponteiros dos relógio
no cartão de crédito - vala depositária
dos poucos nadas e vazios emprestados
em bolsos rotos de frustação
por tanto desnorte - e sonhos curtos.

Não fales, não tussas sequer
nem apontes o dedo rebelde
a nada nem ninguém. Muito menos
saques do bolso a bandeira preta
para limpares as migalhas da fome.
No momento certo, ( e o momento
certo não é quando estão distraídos
porque eles estão sempre.
o momento é quando estão
simplesmete mais e)

faz-te explodir

de poesia. Haverá feridos
pelos estilhaços dos sentidos
impressos e lembrado serás,
concerteza, num noticiário
como uma louca pulga terrorista
e nada mais. Se entretanto

os nervos e a raiva
banharem de esperança teus olhos,
e estes avistarem o eterno sonho
e te parecer vir lá do sul
D. Sebastião, podes crer:
é a mais bela e eterna
Máscara de Carnaval a andar
para baixo e para cima

para cima e para baixo.

em Insónia em Segunda Mão, Edição do Autor, 1ª edição, 2010, pp. 88-89.

Preocupação


Nos últimos dias tenho andado mais atento àquilo que passa na televisão. Jornais não leio, cansam-me em demasiado. Na realidade não temos jornalismo decente. Temos um jornalismo sensacionalista que não olha a meios para ter uma primeira página que venda (e estou mesmo a referir-me só à primeira página, o resto das páginas de alguns jornais é um vazio de ideias ou de qualquer coisa). Dito isto, concordo com este texto do Henrique Fialho. Sem dúvida, o que mais me assustou nos últimos dias não foi o facto das escutas ou despachos ou lá o que é terem vindo a público. O que mais me assustou foi que da esquerda (BE e PCP) à direita (CDS-PP) passando por esse falso-partido que é, de momento, o PSD, todos lamentaram as palavras do Primeiro-Ministro, a suposta conspiração, e nenhum levantou a voz contra o atentado à liberdade que existiu. E isso é que é preocupante.

Foucault


Há algum tempo que ando para escrever um textinho sobre Foucault, que isto de andar sempre a queixar-me e a contar a minha vida não dá com nada. É claro que também pretendo elevar a seriedade deste blogue. O problema é que nunca li nada de Foucault, apesar de ter um livro dele – É preciso defender a Sociedade (Livros do Brasil, 2006) –, livro que tentei ler mas sem sucesso, pois sempre que tento ler filosofia (especialmente francesa) começo a ter comichão num sítio que eu cá sei. É devido a isso que a escrita do tal texto tem sido adiada e adiada. É claro que escrever sobre um autor que nunca se leu é tarefa fácil. Na realidade nunca se lê um autor na sua totalidade. Podemos até questionar se alguma vez lemos, na realidade, um autor – mesmo que se tenha lido toda a sua bibliografia. Um caso óbvio, penso eu, é o de Jorge Luís Borges. Será que lemos mesmo Jorge Luís Borges quando lemos Jorge Luís Borges? Não será Jorge Luís Borges escritor o reflexo de Jorge Luís Borges bibliotecário que por sua vez poderá ser o reflexo de Jorge Luís Borges apenas homem sem ser escritor ou bibliotecário?

Um poema de Paul Verlaine


12.

Éramos, no café, entre gente imbecil,
Apenas nós os dois adeptos do tal vil
Vício de ser «pró-macho»; e com simulção
Ríamo-nos do parvo, ar de bonacheirão,
De seus amores normais, com a moral à coca.
Punhetas mil fazendo, a desbastar a moca,
À bruta, à tripa-forra, e nisso apostados,
Plo fumo do cachimbo apenas meio velados
(Assim como Hera outrora a copular com Zeus),
As nossas piças, quais pencas e Karrogheus
Assoados à mão, aprazível limpeza,
Em jactos de langonha espirravam sob a mesa.

em Hombres, Lisboa: &etc, colecção Contramargem (nº17), tradução de Luíza Neto Jorge, 1983, p. 27.

Pensamento do dia


The Fall - Big New Prinz

Ensino Recorrente



Um poema de David Meltzer


Revelação

Resulta nisto:
a minha taça cheia de chá verde a fumegar.
Basho senta-se a meu lado com ohashi,
esperando por Reiko para trazer
o Nikku Nabe, o sake, alguma cerveja Kirin,

O haiku virá mais tarde.
Depois do jantar & de
um charuto Havatampa.


em Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana, selecção, tradução prefácio e notas de Manuel de Seabra, Lisboa: Editorial Futura, 1973, 121.

Qualidade


É tema recorrente neste blogue sempre que a esta terra regresso. Estou a falar de Manteigas. Dizem que aqui há qualidade de vida. Parece que é o concelho com melhor qualidade de vida do país. Um estudo qualquer o disse, não estou a inventar. Mas aposto que quem fez o dito estudo não passou muito tempo cá. Qualidade de vida? Aqui? Sim, deve haver, se, por exemplo, queremos passar um fim-de-semana calmo, muito muito calmo, sem nada para fazer, com livros para ler. Mas viver cá...

Enciclopédia dos Futebolistas Imaginários


É o nome da nova crónica semanal de Luís Filipe Cristóvão no portal Rascunho.

Pedro de Melo Fonseca (1977)


Talvez seja o mais ignorado de todos os poetas portugueses nascidos na década de 70. O seu nome nunca surge nas listas de novíssimos nem nas novíssimas antologias dos novos. Órfão de pai e mãe mesmo antes de nascer, Pedro de Melo Fonseca nasceu de uma rocha e cedo recorreu aos livros para inventar um mundo que pudesse chamar seu. Influenciando, numa primeira fase, pelo ultra-romantismo e pela poesia decadente de um outro tempo , escrevia versos terminados em -inha, em -ão e -am, em -ito, em –mente e noutras terminações que não dessem muito trabalho. Durante essa sua fase nunca se deu ao trabalho de aprender a contar pelos dedos, pois a métrica das coisas nunca lhe interessou muito: preferia passear por caminhos de cabras e beber do silêncio das fontes. Numa segunda fase, um proto-surrealismo – do qual ele próprio foi o criador, com direito a manifesto perdido no tempo – povoou os seus textos. Foram dessa altura os trinta e dois poemas em prosa a que deu o título genérico de como sonâmbulo, publicados numa revista de tiragem regional, mas que nunca ecoou no resto do país. A maior mudança deu-se quando viu pela primeira vez a sua imagem reflectida num espelho. Desse encontro consigo próprio concluiu que era bonito de mais para perder tempo a escrever poesia. Parou aos vinte e dois anos. O seu único amigo foi designado por ele como o «fiel depositário de nada», quando lhe entregou os cadernos onde escrevia. Nunca mais se ouviu falar dele e o seu paradeiro é incerto.

A Divina Música - Antologia de Poesia sobre Música


Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música é uma edição comemorativa do 25.º Aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu. A organização coube ao poeta Amadeu Baptista. Colaboram:
Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andersen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.

Um espécie de


Sou, sem dúvida, uma espécie de Hank Moody, só que não tenho o talento literário, as gajas, o random/casual sex, o carro...

Culpa


Podia ter passado o dia de domingo a ler Directa de Nuno Bragança, livro que tem sido de cabeceira nos últimos tempos, mas, em vez disso, estive parte da tarde agarrado à televisão. Depois das mudanças efectuadas e da primeira noite dormida na nova casa (agora tenho de me habituar, novamente, aos ruídos) apeteceu-me ficar a vegetar em frente dessa caixinha mágica. Podia também experimentado escrever a lápis. Mas nada. Às vezes, apesar de me censurar depois – hábito antigo, não sei se restos da minha educação católica que, apesar de não ter sido muito rigorosa, incutiu em mim esse sentimento tão reles que é a culpa –, sabe-me bem ficar deitado no sofá, a ver o dia passar, a embrutecer frente à televisão.