Este blogue passa a ser, a partir de hoje, assumidamente pedante.
Assumidamente
Um poema de Ruy Belo
Enterro sob o sol
Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho pela areia dêem-me um
enterro sob o sol enterro de água
Fiat Lux
Versões: Bojan Radašinović
és tão frágil
os teus braços esticados
devido aos sacos de plástico
cheios de compras do Migros
certas coisas são sempre
iguais em todo o lado
nós não fugíamos disso
eu levo os sacos
disse-lhe
a caminho da nossa casa
temos conversas sérias
conseguimos detectar estranhos facilmente
crianças alegres passam por nós
em trotinetas de metal
nestes apartamentos as rendas eram baixas
e não havia ninguém do nosso país
o telefone raramente toca
tu atendes
usando o teu nome de família Eslavo
com todos esses č e ć
Da música
O dia de hoje...
está bom para depressões e outras questões.
Um post inútil
Este é um post inútil, pois quase ninguém o lerá. Não me posso esquecer que quase todas as pessoas que me lêem estão no Correntes d'Escritas (incluindo Tiago Nené, o que não me deixa de surpreender, não pelo facto dele me ler, mas sim pelo facto de estar no Correntes e com direito a mesa redonda e tudo). Pelo número de visitas diárias, que este blogue tem, cada vez mais me assumo como blogger para bloggers, tal como dizem que Cormac McCarthy é um escritor para escritores. Nunca li Cormac McCarthy. Prefiro ver os filmes.
Pensamento do dia
The Stone Roses - Waterfall
Versões: Jaime Gil de Biedma
Contra Jaime Gil de Biedma
De que serve, queria eu saber, mudar de casa,
deixar para trás um sótão mais negro
do que a minha reputação – e isso é pouco –,
colocar cortinados brancos
arranjar uma criada,
renunciar à vida de boémio,
se vens logo tu, inoportuno,
incómodo hóspede, mesmo que vestido com a minha roupa,
zangão de colmeia, inútil, néscio,
com as tuas mãos lavadas,
a comer no meu prato e a sujar a casa?
Acompanham-te os balcões dos últimos
bares da noite, os chulos, as floristas,
as ruas mortas da madrugada
e os elevadores de luz amarela
quando chegas, bêbado,
e paras para ver ao espelho
a cara destruída,
com olhos violentos
que não queres fechar. E se te repreendo,
tu ris, lembras-me o passado
e dizes que envelheço.
Podia recordar-te que já não tens piada.
Que o teu estilo casual e o teu desapego
são truculentos
quando se tem mais de trinta anos,
e que o teu encantador
sorriso de rapaz sonolento
– convencido – é penoso,
uma tentativa patética.
Enquanto olhas para mim com os teus olhos
de verdadeiro órfão, e choras
e me prometes que não voltarás a fazê-lo.
Se não fosses tão puta!
E se eu não soubesse, há já muito tempo,
que tu és forte quando eu sou débil
e que és débil quando eu me enfureço…
Dos teus regressos guardo uma imprecisão confusa
de pânico, de pena e descontentamento,
e a desesperança
e a impaciência e o ressentimento
de voltar a sofrer, mais uma vez,
a humilhação imperdoável
da excessiva intimidade.
Com muito custo levar-te-ei à cama,
como quem vai ao inferno
para dormir contigo.
Morrendo de impotência a cada passo,
tropeçando nos móveis
sem tino, atravessaremos a casa
tropegamente abraçados, vacilando
com álcool e soluços reprimidos.
Oh ignóbil servidão de amar seres humanos,
e a mais ignóbil
é alguém amar-se a si próprio!
Jaime Gil de Biedma, «Contra Jaime Gil de Biedma» em Volver, Madrid: Ediciones Cátedra, 9ª edição, 2000, p. 125.
A Neve - Teatro das Beiras
Há dias de manhã, que durante a tarde, mais vale não sair à noite
Um poema de Joan Margarit
Frio de Junho em Forès
Foi a paisagem da nossa vida:
a escadaria de socalcos verdes
sob a vigilância do vento,
e no mais alto, indiferente, a aldeia.
Ferozes andorinhas envolvem
com os fios do seu voo a casa vazia.
Chilreiam sem parar. Escuras, brilhantes,
fazem fragor de navalhas. Como esta andorinha
que ainda voa ao entardecer, também nos resta
uma remota possibilidade.
É, já, a paisagem da nossa morte.
Sob a vigilância do vento.
em Casa da Misericórdia, trad. de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, Entroncamento: OVNI, 1ª edição, 2009, p. 75.
Uma dica

Vinha do Rosário -
Anagrama
Pensamento do dia
Mogwai - Ratts of the Capital
Hermann Broch
«Havia que esperar, esperar com uma grande paciência, e isso levava muito tempo, um tempo insuportável.»
Frio
Será mais um fim-de-semana. Como tantos outros. Irei ficar por casa. Talvez saia para ir comprar o jornal. Os Pais dizem que faz frio em Manteigas. Não me admiro. Aqui, onde estou, também o faz. Não é nada agradável ficar por cá. Não queria estar por lá. Não quero cair no exagero de dizer que sou um estrangeiro de mim mesmo. Mas nestes momentos é o que parece que sou: um estrangeiro de mim mesmo. E lá me tento habituar. Só que não consigo.
Versões: Jaime Gil de Biedma
Que a vida é a sério
só mais tarde o começamos a entender
— como todos os jovens, eu vim
para levar a vida em frente.
Queria deixar marca
e sair entre aplausos
— envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.
Mas passou o tempo
e a desagradável verdade assoma:
envelhecer, morrer,
são o único argumento da peça.
Jaime Gil de Biedma, «No volveré a ser joven » em Volver, Madrid: Ediciones Cátedra, 9ª edição, 2000, p. 137.
À mão
Versões: Jaime Gil de Biedma
De Vita Beata
Num velho país ineficiente,
como a Espanha entre duas guerras
civis, numa povoação junto ao mar,
ter uma casa e um pequeno quintal
e nenhuma memória. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas da minha inteligência.
Jaime Gil de Biedma, «De Vita Beata» em Volver, Madrid: Ediciones Cátedra, 9ª edição, 2000, p. 137.
(versão de manuel a. domingos)
Um poema de José Alberto Oliveira
A Literatura
Cultivam-se virtudes raras: a bonomia,
o encanto, a mediocridade. Queimado
o acessório, que fica? O sal na água,
eis o espírito. E eis esse alferes que
louco enforcou os cães e o outro pequeno
oficial, que apaixonadamente conduziu
um pelotão à chacina. Ébrio, empunhando
o revólver até à morte. O cinismo
progredindo. Ao fim de tudo,
uma bala perdida levou-lhe um olho.
Escreviam-se cartas à hora do almoço
e à hora do chá: o expatriado
e a florista. Essas pequenas vilas,
de escassa ribeira, onde é aprazível
deixar correr o tempo. A literatura.
em Por Alguns Dias, Lisboa: Assírio & Alvim, 1ª edição, 1992, p. 31
Hoje na Livraria Trama
com leitura de excertos por PAULO DA COSTA DOMINGOS
música de FERNANDO DINIS
Pensamento do dia
Magazine -
I am angry I am ill and I'm as ugly as sin
my irritability keeps me alive and kicking
I know the meaning of life, it doesn't help me a bit
I know beauty and I know a good thing when I see it
This is a song from under the floorboards
this is a song from where the wall is cracked
my force of habit, I am an insect
I have to confess I'm proud as hell of that fact
I know the highest and the best
I accord them all due respect
but the brightest jewel inside of me
glows with pleasure at my own stupidity
This is a song ....
I used to make phantoms I could later chase
images of all that could be desired
then I got tired of counting all of these blessings
and then I just got tired
This is a song ...
Indignar-me é o meu signo diário (14)
A gerência agradece
Hoje
Nada de inteligente a declarar.
Um suposto manifesto analisado à lupa
Aqui. E parece que é para continuar. A não perder.
Um poema de Jorge Aguiar Oliveira
O Hemiciclo dos Roedores
Se chegares a depois de amanhã
vai até à praça maior e anula-te
numa parede qualquer suja de grafittis
ou num aroma de iogurte dum mupi.
Serve a camuflagem. Observa-os
a andarem para baixo e para cima
com os ponteiros dos relógio
no cartão de crédito - vala depositária
dos poucos nadas e vazios emprestados
em bolsos rotos de frustação
por tanto desnorte - e sonhos curtos.
Não fales, não tussas sequer
nem apontes o dedo rebelde
a nada nem ninguém. Muito menos
saques do bolso a bandeira preta
para limpares as migalhas da fome.
No momento certo, ( e o momento
certo não é quando estão distraídos
porque eles estão sempre.
o momento é quando estão
simplesmete mais e)
faz-te explodir
de poesia. Haverá feridos
pelos estilhaços dos sentidos
impressos e lembrado serás,
concerteza, num noticiário
como uma louca pulga terrorista
e nada mais. Se entretanto
os nervos e a raiva
banharem de esperança teus olhos,
e estes avistarem o eterno sonho
e te parecer vir lá do sul
D. Sebastião, podes crer:
é a mais bela e eterna
Máscara de Carnaval a andar
para baixo e para cima
para cima e para baixo.
Preocupação
Foucault
Um poema de Paul Verlaine
Éramos, no café, entre gente imbecil,
Apenas nós os dois adeptos do tal vil
Vício de ser «pró-macho»; e com simulção
Ríamo-nos do parvo, ar de bonacheirão,
De seus amores normais, com a moral à coca.
Punhetas mil fazendo, a desbastar a moca,
À bruta, à tripa-forra, e nisso apostados,
Plo fumo do cachimbo apenas meio velados
(Assim como Hera outrora a copular com Zeus),
As nossas piças, quais pencas e Karrogheus
Assoados à mão, aprazível limpeza,
Em jactos de langonha espirravam sob a mesa.
em Hombres, Lisboa: &etc, colecção Contramargem (nº17), tradução de Luíza Neto Jorge, 1983, p. 27.
Pensamento do dia
The Fall - Big New Prinz
Um poema de David Meltzer
Revelação
Resulta nisto:
a minha taça cheia de chá verde a fumegar.
Basho senta-se a meu lado com ohashi,
esperando por Reiko para trazer
o Nikku Nabe, o sake, alguma cerveja Kirin,
O haiku virá mais tarde.
Depois do jantar & de
um charuto Havatampa.
Qualidade
Enciclopédia dos Futebolistas Imaginários
É o nome da nova crónica semanal de Luís Filipe Cristóvão no portal Rascunho.
Pedro de Melo Fonseca (1977)
A Divina Música - Antologia de Poesia sobre Música
Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andersen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.








