Um post cobarde


Tenho por todos os escritores que até hoje li o maior respeito. Tenha ou não gostado daquilo que li. Até os posso considerar uns imbecis que escrevem muito bem ou uns imbecis que escrevem muito mal. Encontrar um que é imbecil, escreve mal, tem a mania que é muito bom, vangloria-se da merda que escreve, quer a todo o custo chegar ao topo (seja lá onde isso for) e consegue convencer alguns quantos “iluminados”, graças à bajulação em que é perito, estou perante um verdadeiro achado. E, em alguns anos disto, ainda só conheci um (graças aos deuses!). Só não revelo o seu nome pelo facto de eu ser um cobardolas. Mas que ele anda aí anda.

Barriga


Dizem que depois dos trinta anos é muito difícil recuperar a forma física perdida. Parece que o corpo, apesar de precisar de exercício físico, já não liga muito ao exercício que se faz, não aceita, como se nos dissesse: caro amigo, podes fazer os abdominais que quiseres mas nunca, jamais, terás uma barriga lisa. É claro que eu não estou a dizer isto pelo facto de ter começado a fazer abdominais. Pois não comecei. Mas estou a pensar começar. É que a barriga anda a aumentar um pouco abusivamente.

Vasco Pulido Valente


Podem dizer tudo o que quiserem de Vasco Pulido Valente. Que é pessimista e tal, que fala da fome dos outros com a barriga cheia. Mas, quanto a mim, é a pessoa que, neste país, melhor “leu” Cavaco Silva e o que ficou designado por cavaquismo. Basta para isso ler a sua crónica de hoje no Público. E, já agora, Esta Ditosa Pátria.

Jorge Aguiar Oliveira - Insónia em Segunda Mão



Jorge Aguiar Oliveira, Insónia em Segunda Mão, Edição do Autor, 2010.

Da arte de escrever à mão


Isto de tentar escrever poemas é uma coisa muito bonita e quase já toda a gente escreveu uns versitos para depois guardar na gaveta e mostrar aos amigos num dia mais propício a lamechices e coisas desse género. Há já algum tempo que não escrevo uns versitos decentes e não sei se voltarei a fazê-lo. No entanto optei por comprar uns moleskines – que isto tem de ser à verdadeiro artistas – e tentar começar outra vez a escrever à mão. É que andei durante muito tempo a escrever directamente no word – o que também é escrever à mão só que não é a mesma coisa – e parece que desaprendi aquele acto de pegar a caneta e sentir que ela é uma espécie de extensão do nosso braço e do nosso cérebro ou do sítio de onde surgem os poemas, os versitos (que linda imagem acabei de criar! vou anotá-la e aproveitá-la para um próximo poema! talvez resulte...). Já tenho os moleskines. Só me falta agora encontrar a caneta certa.

Exile


Quando no ano passado dava aulas em São Teotónio, muitas vezes passei por Sines a caminho de mais um fim-de-semana ou de mais uma semana de trabalho. Nunca gostei muito de Sines, nem mesmo sabendo que lá viveu Al Berto, pois parece que era lá que por vezes escolhia exilar-se. Eu interrogava-me: como pode alguém exilar-se numa terra tão sem sabor, feia – digo eu? O exílio não deve ser pêra-doce, quanto mais numa terra como Sines. Ao menos que o exílio seja num lugar belo. Ao menos que o exílio seja bom. Mas isso é o meu comodismo a falar.

Em mudanças


Para quem, como eu, nos últimos nove anos viveu em dez terras diferentes por um período nunca inferior a oito meses e nunca superior a doze, fazer mudanças é cagativo. Temos uma espécie de rotina que é só nossa. Temos caixotes e caixotinhos. Sacos e saquinhos. Etc e tal. No entanto, uma coisa é mudar ao fim do ano. Outra é mudar ao meio, depois de cinco meses na mesma casa, com as coisas todas arrumadinhas. Nunca tal me tinha acontecido. Como é costume dizer: há uma primeira vez para tudo. Fazer mudanças é cagativo. Mas não deixa de ser uma boa merda.

Nuno Dempster - Londres



HATE


Alinhar ao centro

É claro que não tenho tanto estilo. Mas todos os dias de manhã, quando vou para o trabalho, é esta a música que soa na minha cabeça. E é esta a imagem. Principalmente a parte do “HATE”.

J.D. Salinger



(Nova Iorque, 1 de Janeiro de 1919 – Cornish, NH, 27 de Janeiro de 2010)

Citar


Tinha ali umas citações anotadas. Mas hoje não vou citar ninguém.

Ensino Recorrente



Franz Frederick Horst (1900-1940)


Filho de uma família abastada da Baviera, Franz Frederick Horst teve, desde muito cedo, uma educação esmerada. Aos dezasseis entra para a Universidade de Heidelberg, onde cursa Filosofia, vindo-se a formar com nota máxima. São deste filósofo alemão algumas das mais arrojadas teorias sobre a Liberdade, nomeadamente sobre a liberdade de pensamento. Muitas vezes criticado pelos seus pares, Franz Frederick Horst manteve-se sempre firme nas suas convicções, o que deu origem a várias polémicas no meio académico. Mas o filósofo não era só criticado pelas suas teorias. Homossexual assumido, Franz Frederick Horst nunca escondeu esse facto de ninguém, o que lhe trouxe alguns dissabores, pois, embora nunca tenha tido problemas em arranjar trabalho, a realidade é que o filósofo leccionou em mais de dez universidades, tendo sempre abandonado o cargo por motivos de “ordem moral”. Com o advento do nazismo, as suas teorias começam a ser questionadas e Franz Frederick Horst é impedido de leccionar. No entanto, o filósofo continua a dar conferências por toda a Alemanha, onde defende (seguindo os ensinamentos de Feuerbach) que qualquer indivíduo deve, acima de tudo, ser apenas «um homem que pensa como ser vivo real que é e que pensa a sua existência e o mundo como membro desse mundo». Em Setembro de 1939 Franz Frederick Horst assiste à invasão da Polónia por parte da Alemanha Nazi, acto que condena de forma veemente nas páginas de um importante jornal de Berlim. É preso e interrogado pela Gestapo. Morre em cativeiro, durante mais uma sessão de interrogatório, a 22 de Outubro desse mesmo ano.

Ao leitor


Caso tenha escapado ao leitor que agora, e pela primeira vez, aqui chega: amanhã é segunda-feira.

Lí por aí


«O cão do vizinho ladra-me, quando chego a casa. Tive em tempos um cão, da raça husky, que fugiu. Lembro-me de ler uma tabela sobre as raças de cães mais inteligentes do mundo, e os husky eram considerados dos menos inteligentes. O critério era a capacidade de domesticação: quanto mais fácil de domesticar, mais inteligente era o cão. Como quem diz: quanto menos personalidade, mais inteligência. É por isso que a espécie humana é considerada a mais inteligente: como nenhum outro animal, aprendemos a dominar o instinto. Domesticámo-nos com distinção. Quão inteligente de nós.»

José Bértolo em Tio Vânia

O nome é o nome é o nome


É só para dizer, a quem chega aqui através do Google, que o meu nome não é "manuela domingues" ou "manuel domingues", mas sim "manuel a. domingos". Agradecido.

Cara inchada


Acordo quase todos os dias com a cara inchada. Só que hoje acordei com ela mais inchada do que o normal. É o que dá um gajo não ouvir o despertador e ficar mais tempo na cama. Faltei aos primeiros dois tempos da manhã. Eu sei. Noutra profissão estava lixado, mas na minha tenho a possibilidade de justificar a falta com desconto no tempo de férias. São só regalias.

Reencontrar amigos


Era bom, não era?

Ao acordar hoje


Ou esqueci-me ou viagem no tempo.

Pensamento do dia


John Mayer - Who says

Who says I can't get stoned
Turn off the lights and the telephone
Me in my house alone
Who says I can't get stoned

Who says I can't be free
From all of the things that I used to be
Rewrite my history
Who says I can't be free

It's been a long night in New York City
It's been a long night in Baton Rouge
I don't remember you looking any better
But then again I don't remember you

Who says I can't get stoned
Call up a girl that I used to know
Fake love for an hour or so
Who says I can't get stoned

Who says I can't take time
Meet all the girls in the county line
Wait on fate to send a sign
Who says I can't take time

It's been a long night in New York City
It's been a long night in Austin too
I don't remember you looking any better
But then again I don't remember you

Who says I can't get stoned
Plan a trip to Japan alone
Doesn't matter if I even go
Who says I can't get stoned

It's been a long night in New York City
It's been a long time since 22
I don't remember you looking any better
But then again I don't remember you

Lí por aí


«Também tenho sentimentos, também tenho pena, também tenho medo que o terramoto de Port-au-Prince se replique em Lisboa, também já dei para a AMI - 30 euros, fora o que o Estado português há-de ir colher aos meus impostos para ajudar as vítimas. Entretanto, o papa de Roma manda uma "mensagem de esperança", mas sabemos como o Vaticano é um pobre tugúrio de franciscanos que não pode ir mais além. E os oligarcas russos, a quem o bêbado Ieltsin entregou toda a Rússia de mão-beijada, o que deram eles para o Haiti? E quanto deu Para o Haiti o sr. Belmiro de Azevedo? Terá pelo menos aumentado alguma coisinha ao pessoal do Continente para que este pudesse dar alguma coisinha às vítimas do Haiti a acrescentar àquilo que o Estado português colhe nos seus impostos para ajudar o Haiti? E os banqueiros?»

Sul


O Sul continua a ser uma transgressão
Jorge Fallorca


Também eu tenho esse fascínio pelo Sul. Tenho lá dois bons amigos no nosso Sul. Gostava de os ver mais vezes. Mas o que leva alguém a querer partir, por lá ficar, não voltar? Eu nem me posso queixar muito. A profissão que tenho já me levou a 10 localidades diferentes durante estes últimos 9 anos. Sou, por assim dizer, um nómada. Regresso a Manteigas quando quero ver os Pais, rever amigos, descansar. O resto do ano é passado entre Manteigas-Coimbra-e o lugar onde estiver a trabalhar. Faço por ano uma média de 30000km – em 9 anos dá um total de 270000km. Nada mau. Conheço auto-estradas, estradas nacionais, estradas municipais e outras que tais. Conheço restaurantes de beira de estrada onde se come um manjar dos deuses por tuta-e-meia. Conheço o rosto das putas à chuva. É claro que já visitei outros países, mas sempre no conforto e segurança da agência de viagens. E o Sul continua sempre presente. Esse Sul que me traz o cheiro do couro de Fez, o Sul da mesquita de Timbuktu, o Sul das planícies e montanhas da Patagónia (quem me mandou a mim ler Bruce Chatwin!), o Sul. Ponto final.

Um poema de Catarina Nunes de Almeida


Abriu no colchão as valas possíveis
e enterrou por ordem alfabética
cada parte do corpo: os pêlos
os pântanos as unhas encravadas
e as unhas que outros cravaram pelas coxas.
Estudou cuidadosamente as ondas as horas
para que não restassem dúvidas
sobre os caminhos marítimos
para a noite. Por fim
podou as janelas do quarto,
bebeu o vinho;
roeu a carne do quarto
até não sobrar nenhum coração.

em Sulscrito, Faro: ARCA - Associação Recreativa e Cultural do Algarve, número 1, Verão de 2007, p. 13.

Xavier Queipo


«Às vezes somos os primeiros a ser surpreendidos ao constatar certas acções que realizamos ou pensamentos que, partindo de um obscuro e nunca parado sistema nervoso, atravessam o nosso pensamento. São essas acções que nos envolvem num estado de letargia, onde se misturam com pensamentos obscuros, impedindo-nos de ter uma nítida percepção da realidade.»

em Árctico, Torres Vedras: Livrododia, 1ª edição, 2009, p. 53.

Rowland S. Howard (24 Outubro 1959 – 30 Dezembro 2009)



Só ontem soube que Rowland S. Howard faleceu, no passado dia 30 de Dezembro, vítima de cancro no fígado. A primeira vez que ouvi a guitarra de Rowland S. Howard foi nesse fantástico álbum dos Birthday Party chamado Junkyard. Rowland S. Howard faz parte do meu ensino recorrente. Foi um dos membros fundadores dos The Boys Next Door, Birthday Party e These Immortal Souls. Tocou com os Bad Seeds, Crime and the City Solution, entre outros. Deixo-vos com um vídeo da música Shivers, composta e escrita por Rowland S. Howard.


Um poema de Joaquim Castro Caldas


um âmago

no vulcão dos sentidos
a vida não é bem assim
não há príncipio ou fim
só começa quando pegas
só acaba quando largas
não deixas nada ao mundo
nem coisa alguma levas
transformam-te energias
recebes e aprendes mais
do que pensas e ensinas

em Mágoa das Pedras, Porto: Deriva, 1ª edição, 2008, p. 38.

Manteigas


Lá vou eu até Manteigas. O fim-de-semana será curto para ver amigos e para a conversa ficar em dia. Mas haverá tempo para ir buscar o jornal à papelaria de sempre e para ver as ruas desertas de uma vila que vai morrendo aos poucos.

Jorge Fallorca


«O isolamento – eu prefiro chamar-lhe e assumi-lo como ausência – a que me fui dedicando, libertou-me dos riscos e confusões da arregimentação geracional movida pelos expeditos mangas-de-alpaca da literatura.»

em a cicatriz do ar, Lisboa: edição de autor, 2009, p. 54.

Lí por aí


Este texto de GAF no Vermelho e o Negro. Parece que irá continuar. E continuar a lê-lo é o que irei fazer.

Janeiro


Janeiro é sempre um mês ingrato para mim. Janeiro é o mês em que fico mais deprimido. Janeiro, como sabem, é o primeiro mês do ano. É o primeiro mês de mais um ano. E não há nada mais deprimente do que começar um novo ano com as dúvidas, as ansiedades, os problemas, as crises do ano anterior. Podemos comer passas e mais passas na esperança de que o novo ano nos traga mais sorte. Podemos usar peças de roupa azul. Até podemos dar a última queca à meia-noite (que na realidade é última queca do ano anterior e a primeira do ano que nasce). Mas, na realidade, a merda continuará a ser sempre a mesma. E o principal problema é que nem as moscas mudam.

Tereza de Jesus Alonzo (1910-1937)


Nascida a 12 de Junho de 1910 na cidade de Salamanca, Tereza de Jesus Alonzo era a mais nova dos cinco filhos de Paolo Maria Alonzo, abastado comerciante. Desde muito cedo Tereza Alonzo revelou uma enorme aptidão para as artes, o que preocupou muito seu pai, preocupação essa que culminou com a entrada de Tereza Alonzo no Colégio Interno das Irmãs da Misericórdia, conhecido pelo seu rigor e pela sua ortodoxia. A verdade é que Tereza Alonzo nunca se resignou ao seu destino e, numa noite quente de Junho, fugiu do seu internato, tinha, então, dezassete anos. Dirigiu-se para casa do pai em Salamanca, esperando que ele a entendesse. Mas tal não aconteceu. O pai, num momento de raiva, expulsa-a de casa. Sem recursos, Tereza de Jesus Alonzo procura ajuda na casa de uma tia, que a recebe, mas que, para evitar o escândalo, a envia para a capital espanhola. É aí que Tereza de Jesus Alonzo entra em contacto com a vida cultural da capital, já naquela altura embebida nos ideais republicanos. Tereza Alonzo publica os seus primeiros poemas no jornal anarquista Combate. Comprometida com a causa, Tereza Alonzo escreve vários panfletos que incitam à revolta do proletariado. Com o inicio da Guerra Civil Espanhola, Tereza Alonzo parte para a Catalunha. Aí junta-se ao grupo de Durutti, tendo sido incorporada na Secção de Informação e Cultura. Com o decorrer da Guerra os textos de Tereza Alonzo são distribuídos pela frente, onde cumprem a função de elevar a moral às tropas anarquistas mal equipadas. A 12 de Dezembro de 1937, Tereza Alonzo é hospitalizada com uma grave pneumonia. Viria a falecer três dias depois.

4cm


A Mãe telefona. Em Manteigas está a nevar. No terraço da casa familiar a neve já tem 4cm and counting.

Aqui, o termoventilador é o que ainda me safa


Gostava de ter uma escrita torrencial. Mas, de facto, não tenho. Tirando aquilo que aqui escrevo – e que pouco ou nada tem de escrita –, não escrevo muito. Há dias em que a escrita surge e não posso fazer nada, mesmo nada, e lá escrevo. No entanto, a maior parte do tempo, passo a olhar para as paredes, a olhar pela janela, a olhar para o pó que se acumula nas estantes e nos livros. E o pior é que nem aproveito para pensar em temas fundamentais como a existência ou não de Deus, a imortalidade da alma, a liberdade, o absurdo do mundo. Preocupo-me mais com coisas como: que roupa irei vestir? o que irá ser o almoço? o jantar? por que razão está tanto frio? por que razão estou sozinho numa vila deserta? por que razão tem de haver uma razão para tudo? será que não é possível viver sem uma razão? será que a razão é razoável? será que a razão existe realmente?

Um poema de Luís Pedroso


LÁ EM CIMA: VIDRINHOS, O ARRUMADOR SUPERSÓNICO

Conto as moedas todas nem mais uma
Um pacote de Bolacha Maria um de leite gordo
e três ou quatro bananas

Passo metade do meu precioso tempo
a glorificar deus
e a louvá-lo

A outra metade passo-a
a arranjar dinheiro suficiente
para o cavalo
em Princesas Dianas & Anti-heróis, Lisboa: edição de autor, 2009. P. 37.

Do arrependimento


O arrependimento é um sentimento perigoso. Uma pessoa arrepende-se. Mas arrepende-se do quê? Daquilo que fez? Daquilo que não fez? Daquilo que vai fazer? Daquilo que não vai fazer?

Um domingos como outro qualquer


A vila onde habito durante este ano lectivo* é uma vila deserta a esta hora do dia. Não se vê ninguém a passear nas ruas. Dei uma volta completa e cruzei-me, apenas, com um gato pardo. O frio que está lá fora também não ajuda muito. Mas eu tive de sair. Depois do duche tomado, da barba desfeita e do pequeno-almoço tomado (não esquecer que antes tomei um pequeno comprimido, vulgo inibidor da bomba de protões), lá saí para esticar as pernas. Tinha de esticar as pernas. Ontem, durante o meu passeio pela capital, fiz Praça de Espanha-Rua Anchieta-Martinho da Arcada-Largo do Rato tudo a pé. Os gémeos estão um pouco doridos. Mas sabe bem.


*a minha vida regula-se por anos lectivos. é claro que também tenho de ter em conta os anos civis, os anos judiciais, os anos fiscais. e também ter atenção para que ninguém me vá ao ânus.

Capitaleando


E lá fui até à capital. Como não podia deixar de ser passei pela Rua Anchieta para dar uma vista de olhos às novidades e rever Paulo da Costa Domingos, que tem sempre uma palavra amiga e um qualquer livro que me interessa: desta vez foi um livro de Cossery, outro de Pasolini e ainda o recente número da revista Brilho no Escuro. Entretanto já tinha passado pela Pó dos Livros e comprado a cicatriz do ar, de Jorge Fallorca, que mais tarde vim a encontrar (e finalmente conhecer) na Trama e que, como leitor deste blogue que é, mal me viu logo me cumprimentou. Eu cá tinha ido à Trama com o propósito de me encontrar com o Rui Almeida e adquirir Os Sonâmbulos de Hermann Broch, que tinha namorado da última vez que lá tinha estado, só que nada feito, pois os livros já tinham sido vendidos, mas logo fui confortado pela simpatia da Catarina e do Ricardo.

Nos 50 anos da morte de Albert Camus



«when Camus began giving speeches before the academies his writing died. Camus did not begin as a speechmaker, he began as a writer; it was not an automobile accident that killed him.» Charles Bukowski, Notes from a Dirty Old Man, p. 56

As novidades


Parece que é mesmo verdade. A Antígona prepara-se para editar o romance Correios de Charles Bukowski (trad. de Rui Lopes). Não nos podemos esquecer, no entanto, que este romance do escritor norte-americano foi pela primeira vez editado em Portugal pela extinta Canguru. Dos romances que Charles Bukowski escreveu, Correios é sem dúvida o mais emblemático, apesar da sua maior obra ser, sem sombra de qualquer dúvida, o romance Ham on Rye, que ainda espera uma tradução neste país. Também é de salientar a edição, por parte da Antígona, de mais livros de e sobre George Orwell. A saber: a colectânea de ensaios Livros e Cigarros (trad. de Paulo Faria) e o livro O Pensamento Político de George Orwell, de John Newsinger (trad. de Fernando Gonçalves). Penso que George Orwell não se importará de, em Portugal, partilhar a mesma editora que Charles Bukowski. Não nos podemos esquecer que o pensamento bukowskiano é bastante lúcido no que diz respeito a políticos e políticas: «some men hope for revolution but when you revolt and set up your new goverment you find your new goverment is still the same old Papa, he has only put on a cardboard mask.» (em Notes from a Dirty Old Man, p. 55.)

Charles Bukowski (2)


«first off all, read Celine, the greatest writer of 2000 years. of course, THE STRANGER by Camus must fit in. CRIME AND PUNISHEMENT. THE BROTHERS. all of Kafka. all works of the unknown writer John Fante. the short stories of Turgenev. avoid Faulkner, Shakespeare, and especially George Bernard Shaw, the most overblown fantasy of the Ages, a real true-blown shit with political and literary connections beyond belief.»

em Notes of a Dirty Old Man, London: Virgin Books, 2008, p. 63.

Ciclo Manuel António Pina


(clicar nas imagens para aumentar)

Um poema de Giuseppe Ungaretti


À memória de
Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café

E não sabia
soltar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a patroa ao hotel
onde habitávamos
em Paris
no n.º 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida

Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.

E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, pp. 232-233.

A Jeropiga


Amigo recente trouxe-me jeropiga antiga. E cá estou eu a falar dela. E a dançar com ela, também.

Poesia em Vinyl



Organizado por Raquel Marinho e Luís Filipe Cristóvão, o “Poesia em Vinyl” acolhe todos os meses um poeta e os seus textos, numa sessão que decorre no restaurante Vinyl (Travessa da Galé, 36, em Alcântara, junto da antiga FIL), a partir das 21h30. A primeira noite deste projecto está marcada para dia 14 de Janeiro, com valter hugo mãe a falar dos seus poemas – alguns dos quais serão lidos por Fernando Alves. Depois, haverá música com JP Simões. A entrada é livre.


A Poesia em Vinyl é um projecto que pretende divulgar novos poetas e novos músicos, num mesmo evento, a decorrer uma vez por mês, nos primeiros seis meses de 2010. O evento realiza-se no restaurante/bar Vinyl, situado no edifício da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Os poetas convidados nasceram todos depois de 1970 e têm vários livros disponíveis no mercado. A ideia é dar-lhes um espaço onde possam falar sobre si próprios e a sua poesia, seguido de uma leitura de alguns dos seus poemas. Vai também ser convidada uma figura pública para, no final desta apresentação, e antes de dar a palavra ao público, ler um poema do poeta da noite. Uma vez que o Poesia em Vinyl vai decorrer num restaurante, os poetas são também convidados a escolher uma entrada, ou uma sobremesa, ou um petisco de que gostem. A conversa da noite começará, assim, à volta dessa escolha gastronómica do poeta, que é uma forma de começar a quebrar eventuais gelos de início de noite.

A noite não acaba aqui porque depois da poesia, vem o Vinyl, ou seja a música. A par com os poetas escolhidos, vão também ser convidados músicos/bandas do panorama musical português.

Charles Bukowski


«Get a poem accepted and chances are it will come out 2 to 5 years later, a 50-50 shot it will never appear, or exact lines of it will later appear, word for word, in some famous poet’s work, and then you know the world ain’t much.»


em Notes of a Dirty Old Man, London: Virgin Books, 2008, p. 6 ( da introdução).

Um poema de Stephen Crane


É BOA A GUERRA

Não chores, rapariga, é boa a guerra.
Lá porque o teu rapaz ergueu as mãos ao céu
E a galope o cavalo se perdeu,
Não chores, não.
É boa a guerra.

Tambores de regimento rufam roucos,
E esta gente sequiosa de lutar
Nasceu para a recruta e p’ra morrer.
A inexplicada glória os sobrevoa,
É grande o deus da guerra, e é seu reino
Um campo com milhares a apodrecer.

Não chores, criancinha, é boa a guerra.
Porque o teu pai tombou na lama da trincheira,
Esfacelado o peito e já sem vida,
Não chores, não.
É boa a guerra.

Bandeiras crepitando esvoaçantes,
Águias douradas, rubras! Esta gente
Nasceu para a recruta e p’ra morrer.
Mostrai-lhe as eficácias do massacre,
Dizei-lhe a excelência de matar,
De um campo com milhares a apodrecer.

Mãe cujo amor é qual botão mesquinho
Na esplêndida mortalha do teu filho,
Não chores, não.
É boa a guerra.
em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p. 136.

O romance inédito de Vergílio Ferreira


Leio algures que a Quetzal se prepara para editar um romance inédito de Vergílio Ferreira. Não me surpreende que tal aconteça. Resta saber se a publicação póstuma, de um romance inédito, é com ou sem autorização do autor, isto é, será que o autor deixou expressa, por escrito, a vontade de ver este seu romance publicado postumamente? Se tal não acontece, uma questão se impõe: será legítimo publicar um romance que um determinado autor preferiu não publicar? Não podemos esquecer que Vergílio Ferreira foi um autor bastante produtivo e de um rigor – para com a sua obra – bastante elevado (basta para isso ler algumas das páginas de Conta-Corrente). Não podemos esquecer, também, que foi publicado, há algum tempo, um diário inédito do autor. Verificou-se que não é um diário – na linha de Conta-Corrente – mas sim um simulacro de diário, e por alguma razão Vergílio Ferreira não o publicou em vida.

Frenesi Loja

Estimados Amigos, leitores e colegas de edição, o ano que agora se inicia traz, desde já, a seguinte novidade: a FRENESI LOJA, linha electrónica aberta às vossas compras de livros raros, modernos e antigos... Livros que, por não se encontrarem nas mercearias livreiras que hoje abastecem o mercado, e não sendo em nada menos merecedores de atenção cultural, nós continuamos a procurar por feiras, leilões e bibliotecas em declínio, a fim de os tornarmos disponíveis a leitores interessados. Trata-se de levar oxigénio ao bicho do papel. Os preços... Bom, os preços são o que são, determina-os o custo de cada busca e respectivo valor de aquisição... E não são, seguramente, exagerados se se tiver em conta o que se gasta em cervejas (e no resto...) numa noite de estróina!Dá para dizer: no intervalo da bebida cultivem-se!, comecem já a formar a vossa biblioteca ideal.
Para ir recebendo a nossa montra de livros actualizada envie-nos o seu e-mail para a
frenesilivros@yahoo.com

Paulo da Costa Domingos

Alex Roberts (1920-1980)


Alex Roberts foi um fotógrafo norte-americano. De seu verdadeiro nome Alexandris Yorgus Papadimos, Alex Roberts nasceu em Nova York, filho de emigrantes gregos. Após concluir os estudos liceais trabalhou como jornalista no New York Times (trabalho conseguido através de um tio sem filhos). Durante a Segunda Guerra Mundial serviu como repórter fotográfico. Foi aí que conheceu Robert Capa, de quem se tornou grande amigo. Aquando do desembarque na Normandia pelas tropas aliadas, Alex Roberts é destacado para participar na primeira vaga da invasão, sendo incumbido de fotografar as primeiras tropas na praia. Contudo, uma queda a bordo do navio impede-o de participar na primeira vaga da invasão, passando a ser essa a tarefa de Robert Capa. Após a Guerra, Alex Roberts regressa a Nova York, onde se estabeleceu como fotógrafo, tendo colaborado, entre outros, com o New York Times, mas, essencialmente, com revistas underground. Com o início da Guerra da Coreia, Alex Roberts é contratado pelo New York Times para cobrir aquele conflito. Reencontra Robert Capa, que tinha alcançado enorme sucesso com as fotografias do desembarque da Normandia, sendo já um fotógrafo de renome internacional. Com o final da Guerra regressa a Nova York, onde prossegue a sua carreira como fotógrafo, tendo alcançado alguma projecção com um conjunto de fotografias intitulado Behind America. Anos mais tarde, já na década de 70, conhece John Cassavetes, ajudando-o a criar o chamado cinema independente norte-americano, sendo um dos responsáveis pela fotografia dos primeiros filmes do realizador, embora o seu nome não surja nos créditos dos filmes. Continua a fotografar os indigentes, o submundo nova-iorquino. Faz várias exposições individuais, que têm alguma atenção da crítica especializada. Morre em 198o vítima de acidente de viação.

Pensamento do dia


Lhasa de Sela - De cara a la pared

Lhasa de Sela (1972-2010)



(27 de Setembro de 1972-1 de Janeiro de 2010)

Um poema de Fernando Assis Pacheco


BAH!

Fora os livros não vejo
muita outra coisa
a que possa chamar
minha propriedade

a gilete? o pente
imitação tartaruga? a tesoura
das unhas?

nem mesmo a roupa
enchendo todo o armário
que se queima com o suor
gasta rasga
desfia em pouco tempo
condenada
por um corpo infeliz
e quando a nova a estrear
faria talvez já
as delícias do adelo

álbuns de fotos?
estojo caneta-lapiseira?
pesa-papéis
deitando a sua neve falsa
sobre o castelo alemão?

inclusive o carro
envelhece mês a mês
sem uso: o prazer de guiar
é coisa dos anúncios
e a gasolina cara
e para quê tirá-lo da rua
para arrumá-lo aonde?
guiem agora as filhas

em Respiração Assistida, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, pp. 27-28.

O último dia do ano


No último dia do ano lá fui eu fazer as últimas compras do ano: Respiração Assistida, Odisseia e Ilíada. Penso que Fernando Assis Pacheco gostou da companhia.