30.10.09

Quase 100

Não sei o que se passa, mas este blogue hoje quase que atinge (ou será que ultrapassa?) as 100 visitas diárias.

José Martins Garcia


«É certo que, numa sociedade onde todos eram iguais perante a lei, os competentes podiam passar à classe dos reformados. Mas a percentagem de tais casos foi sempre assaz limitada. Só se atingia uma competência magna depois dos oitenta anos e tal competência tinha de ser unanimemente reconhecida pela classe dos reformados. Era preciso, além disso, que o competente, candidato a reformado, se lembrasse minuciosamente da todas as fases da sua virtude. Ora, depois dos oitenta, os competentes não possuíam, geralmente, boa memória. E, quando a possuíam, encaravam a «performance» com tal emoção que, ao serem informados da aprovação, normalmente morriam.»


José Martins Garcia, Katafaraum é uma nação, Lisboa: Assírio&Alvim, Cadernos Penínsulares (5), 1974, p. 77.

Pensamento do dia


The Maccabees - Love You Better

Macaco na prisão


Um blogue a ler.

Tio Vânia


Ainda não li Tchékhov, mas posso ler o Tio Vânia.

Um poema de Vitorino Nemésio


Bases

Não negarei poesia de antes
Com poesia de depois
Mas sim direi com moléculas:
Fosse eu o niño dos bois!
Sim, o menino da aguilhada
Do meu bisavô boeiro:
Dono de bois,
Dono de bois,
Cheirando fusco de pêlo,
Raspa de chifre, bosta de vaca,
Verde erva verde no leite branco,
Azul azul do céu rogado
Em genes meus cromossomado:
O céu do mar, amplo de lua
Como coisa que fosse tua.
Que fosse tua
Como eu já sou
Nem de ninguém nem de nada,
Apenas tinta encarnada,
Pobre guanina mutada
Na Dupla Hélice nada.


em Limite de idade, Lisboa: Editorial Estúdios Cor, Colecção Auditorium, s.d., pp. 23-24.

Fora de horas


O dia começou fora de horas.

29.10.09

Pergunta ao Pó


As Ahab Edições lançam no mercado Pergunta ao Pó de John Fante, com prefácio de Charles Bukowski (um dos principais responsáveis pela revitalização da obra de Fante) e tradução de Rui Pires Cabral. Cheguei a John Fante através de uma dica de leitura de João Camilo (os blogues têm destas coisas). Podem ler aqui a minha primeira impressão sobre a escrita de Fante.

27.10.09

Barba


Ando a deixar crescer a barba. Quero ter um ar mais respeitável. Quero que as pessoas me levem mais a sério. Só que a barba anda a dar-me uma comichão do caraças.

26.10.09

Ensino Recorrente


Um dia em branco


Durante todo o dia não fui assaltado por uma única dúvida. Não ter dúvidas não é nada mau, não senhor. É claro que também não fui assaltado por certezas ou pela crença imediata numa vida melhor para todos. Pode não parecer, mas eu não penso só em mim.

Do nevoeiro


25.10.09

Ensino Recorrente


É o optimismo a que vos habituei. Depois digam que não sou coerente


Dias há em que nem um único verso nos consegue salvar. Dias há em que a estrada parece mais longa e estreita e com traço contínuo em toda a sua extensão. Dias há em que os dias são apenas uma hora a menos no relógio. Dias há em que nem olhar para a janela do andar em frente nos dá algo de novo. Dias há em que tudo é apenas um mau livro. Dias há.

Um poema de Fernando Grade


Há livros perversos que mordem o pêlo do cão


Há livros infelizes que
foram escritos para corroer - à mosca -
a casta paciência do cão:
o bicho não pode viajar por entre laranjas
nem subir ao céu das árvores
para sonhar mais perto do caos.
o lugar das patas não pode ser denso
e muito menos aquecido por vermes.
Que focinho? Um cheiro possível de algas e
flores ratadas, um sino quebrado.

O animal (sentado) espreita côdea
que lambe o beato fogo e o bolor.
É um artista de almas em salmoira
movido a sopas de vinho
- os pêlos altos, colados às rachas sulfurosas
do muro que foi giestas.
A barba do cão faz anos
e nesses cabelos a crescer
ficamos todos mais velhos.


em O Livro do Cão, Estoril: Edições Mic, 1ª edição, 1991, p. 11.

24.10.09

Pensamento do dia



Bon Iver - Flume

23.10.09

Ensino Recorrente


Máscara&Chicote


Foi a descoberta mais recente. Gosto da prosa. Da arrogância. E olhem que eu não digo isto de todos.

Agora que me lembro


Acho que só me falta a minha falar sobre as declarações de José Saramago.

21.10.09

Thomas Bernhard


«(…) eles são, num país assim, incapazes de desenvolvimento e têm também permanentemente consciência dessa incapacidade de desenvolvimento, um país assim precisa de pessoas que não se revoltem contra a pouca-vergonha de um tal país, contra a irresponsabilidade de um tal país e de um tal Estado, de um Estado, como Roithamer repetidamente dizia, perigoso para o público, absolutamente degradado, no qual só o que prevalece é a situação caótica, se não a mais caótica possível, este Estado é responsável por um sem-número de pessoas como Roithamer, responsável por uma história vil e ignóbil, esta permanente perversidade e prostituição como Estado, como Roithamer dizia com frequência e de forma desapaixonado, com a segurança de julgamento que lhe era inata, que não se baseava senão na experiência, e Roithamer não tolerara jamais qualquer outro valor que não o da experiência, como ele dizia muitas vezes, sempre que se atingia o limite do suportável, no que referia a este país e a este Estado (…)»

Thomas Bernhard, Correcção, s.l.: Fim de Século, trad. de José A. Palma Caetano, 1ª edição, 2007, p. 34.

Isto há gajos para tudo


Isto que José Miguel Silva conta é do arco-da-velha.

Ensino Recorrente



Foi a chuva que me obrigou a escrever isto


Apeteceu-me vir aqui e esgotar a paciência de alguém. É claro que quem aqui vem tem algum poder de encaixe, caso contrário nunca punha aqui os pés. Elogio-lhes a coragem. Nada é certo, como todos sabemos, nem mesmo a chuva que agora cai e bate no vidro da janela. Gosto de chuva, mas é quando estou em casa com o aquecimento central ligado e um bom livro nas mãos. E bom livro é coisa que não falta por aí. Só temos é que os procurar com jeito e não desistir à primeira. Mas não vamos falar em desistir, pois não?

E agora para algo completamente diferente


O senhor que faz, aqui na escola, a manutenção da máquina do café/chocolate/capuchino/garoto/pingado (pois é o seu proprietário) é o Marco Chagas.

Das visitas


As visitas a este blogue aumentam à segunda-feira. Depois, vão diminuindo ao longo da semana. O que posso eu concluir? Que há quem chegue aqui esperançoso com novidades novas e verifica que é sempre a mesma vidinha entediante e absurda repetida à exaustão.

19.10.09

E eis que uma dúvida me assalta


Será que passo de Orwell para Bernhard ou de Orwell para Stendhal?

Ensino Recorrente



Lí por aí


«José Saramago afirmou que «a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana»», afirmação que me soa estranha vinda da boca de um homem que fez da Bíblia o maná de muitos dos seus livros. Não sei em que contexto a afirmação possa ter sido proferida, mas ela vale tanto quanto alguém dizer que o Ensaio Sobre a Cegueira é um manual de crueldades, ou que Marilyn Manson é responsável pela depravação da juventude, ou que Das Kapital foi a bíblia do comunismo psicopata, ou que Dante, Milton, entre outros, foram energúmenos descidos à Terra para corromper o coração alvo da humanidade, ou ainda que o Cântico dos Cânticos é a fonte onda toda a literatura pornográfica bebeu: «Como são agradáveis as tuas carícias, / minha amiga, minha noiva! / As tuas carícias são mais deliciosas que o vinho! / O teu perfume é mais agradável / do que todos os bálsamos aromáticos! / Dos teus lábios brota o mel, minha noiva! / Mel e leite há debaixo da tua língua!»»

Henrique Manuel Bento Fialho em Antologia do Esquecimento

«saramago é apenas uma daquelas velhas do lar de idosos que, apesar do andarilho, quer ir dançar para o baile da associação.»

18.10.09

Mau perder?


Até pode ser verdade, mas a frase «No cômputo geral, o Nobel não vai para grandes escritores», proferida por Philip Roth em entrevista à Actual, não deixa de soar a mau perder.

Um poema de Ana Paula Inácio


é uma tarde de outono a pique
a luz vertida do inverno
na ladeira fria
onde o gato se espraia
no despojos fúnebres
um róseo vítreo de celofane murcho
como as flores que o menino descalço pisa
os pés carregados de chagas
os pés vermelhos de lume


em As Vinhas de Meu Pai, V.N. Famalicão: Quasi Edições, 1ª edição, 2000, p. 10.

17.10.09

Ensino Recorrente


15.10.09

George Orwell


«Respiráramos o ar da igualdade. Tenho perfeita consciência de que é moda, agora, negar que o socialismo tenha alguma coisa a ver com a igualdade. Em todos os países do mundo, uma tribo colossal de escrivinhadores partidários e teoricozinhos untuosos anda toda atarefada a «provas» que o socialismo mais não é do que um capitalismo de Estado planeado, com a motivação do lucro intacta. Mas felizmente também existe a visão do socialismo absolutamente diferente. O que atrai os homens comuns para o socialismo e os leva a arriscara pele por ele, a «mística» do socialismo, é a ideia de igualdade; para a imensa maioria das pessoas o socialismo significa uma sociedade sem classes, ou então não significa nada.»

George Orwell, Homenagem à Catalunha, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 2007, p. 99

Homenagem à Catalunha


Tenho sempre gosto em ler Orwell. É dos poucos autores que me cativam realmente. Ainda não li um único livro dele que tenha desgostado. Desta vez – e depois de no verão ter atacado três dos romances deste autor, num verão que foi, sem dúvida orwelliano (o romance Burmese Days foi uma bela surpresa, e apesar de não ter o fôlego de Animal Farm ou 1984) –, eis que leio Homenagem à Catalunha (Antígona, 2007). Para muitos este é um dos melhores relatos da Guerra Civil Espanhola. Não posso confirmar se tal facto é verdadeiro, mas posso dizer que dá gosto lê-lo.

13.10.09

Guy Debord


«Após as circunstâncias que acabo de lembrar, aquilo que sem dúvida me marcou a vida inteira foi o hábito de beber, cedo contraído. Os vinhos, os álcoois e as cervejas; os momentos em que certas dessas bebidas se impunham e os momentos em que simplesmente surgiam, foram-me delineando o fluxo principal e os meandros dos dias, das semanas e dos anos.»


Guy Debord, Panegírico, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 1995, p. 37.

11.10.09

Lí por aí


«Nunca tive um background que me permitisse ser aventureiro. Não tive pais ricos, por isso tive de me fazer à vida. Eu e mais uns milhões de portugueses.»


Carlos Tê em entrevista à Notícias Magazine, nº. 907, 11 de Outubro de 2009.

10.10.09

Ida e volta


Lá fui dar uma volta pela capital. O muito sol e a temperatura demasiado quente para um dia 10 de outubro proporcionaram um dia bem passado. É claro que a companhia do Rui Almeida – que foi quem me aturou durante o dia – também ajudou muito. Isso e uma troca de palavras com Paulo da Costa Domingos na Rua Anchieta (um lugar de resistência), um encontro inesperado com o Luís Filipe Cristóvão – num momento único, em que esteve reunida toda a estrangeirada –, uma visita à Poesia Incompleta e à Trama, com passagem durante o caminho por alguns alfarrabistas. A mochila, essa, veio cheia de livros. Consegui encontrar o romance Directa, de Nuno de Bragança, por 3 euros, numa segunda edição (1979) da Moraes Editores. E no meio do livro a fotografia de uma criança com uma data: Madrid, 1973.

9.10.09

Algo que me intriga


Como é que a 1ª edição (de 7500 exemplares) do último livro de Francisco José Viegas, colocado ontem à venda, já está esgotada?

Adenda (18h33m): como diz fep (em comentário a este post): é caso de polícia. Eu digo mais: é caso para o Inspector Jaime Ramos investigar.
Adenda (21h48m): já existem comentários que podem explicar o sucedido. Afinal, sempre há gato.

Lí por aí


«Há vários prémios literários que são fracos, porque os membros dos júris são maus escritores ou maus leitores. Nestes casos costumam escolher livros sem nenhum tipo de rasgo, que eles chamam de “coerentes”, e de que louvam “a afinação da voz poética”.»

Rui Costa em entrevista ao suplemento S do Jornal Postal do Algarve. Resto da entrevista aqui.

Para uma espécie de memória futura sobre António Lobo Antunes (2)


Aqui.

Punk is Dead...


se não está morto, não é punk.

8.10.09

Nobel


E eis que todos os especialistas não acertam. É para isso que servem as expectativas: para serem goradas.

7.10.09

John Reed


«Nas relações entre um Governo fraco e um povo em revolta chega o momento em que qualquer acto das autoridades exaspera as massas, e qualquer recusa de acção provoca o desprezo...»

John Reed, Dez Dias Que Abalaram o Mundo, Lisboa: Edições Avante, 1997, p.77.

6.10.09

Ensino Recorrente



Dica da semana


Este blogue.

Economia de mercado


Há coisa de 2 anos comprei um computador portátil. Por mais um euro (sim… é verdade… foi só mais um euro) ofereceram-me uma impressora multifunções. Nunca me decidi experimentá-la. Mas hoje lá a tirei da caixa. Imprimir, imprime. Fotocopiar, fotocopia. Escanar – como “fala” no manual de instruções – é que não escaneia. Está tudo instalado e tal. E nada. Nicles.

4.10.09

Um poema de José Efe


À janela do eléctrico
acompanho o voo inacessível
das aves

diz-me
há lugar para a revolta
na melancolia das putas?


em Fenda Acesa, V.N. Famalicão: Quasi Edições, 1ª edição, 2001, p. 15

No outro dia


No outro dia, em conversa com um amigo recente, confessei-lhe: sabes, não sei por que razão dou comigo a ouvir cada vez mais música punk, mas nada de Green Day e essas merdas, mais coisas como Sex Pistols e Dead Kennedys. Mas o mais curioso é que o faço agora mais do que antes, quando era mais novo! Ele olha para mim e responde-me muito sério: e de certeza que não sabes a razão? pois olha que eu não me admiro nada que tu o faças, a mim acontece-me o mesmo. Já reparaste que todos os dias somos fornicados pela máquina do Estado! A tua consciência da Situação é mais clara, daí ouvires mais punk, nem que seja para descarregares um pouco da tua raiva. É claro que nem eu nem ele utilizamos estas palavras, mas a ideia principal mantém-se.

3.10.09

Ambrose Bierce


«Era uma vez um Mágico que possuía um Porco Sábio, muito limpo e delicado de maneiras, animal esse que tinha obtido grande fama e conquistado todos quantos haviam assistido às suas proezas. Tendo observado, porém, que o seu discípulo se sentia infeliz, o Mágico transformou-o em Homem. Este abandonou, logo, cartas, pêndulos, instrumentos musicais, e todos os apetrechos do ofício, para correr a um charco lamacento, onde se enterrou até ao nariz, grunhindo de satisfação.»


Ambrose Bierce, Fábulas Fantásticas, Lisboa: Editorial Estampa, 1977, p. 77.

Para uma espécie de memória futura sobre António Lobo Antunes


Este texto de Pedro Mexia.

2.10.09

Um poema de Rui Coias


11.

Não é difícil um homem apaixonar-se.
Ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga "estremeci
durante anos sem te abraçar". Agora é tarde.
Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
"Passei a vida a fugir para a tua boca", e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.


em A Função do Geógrafo, V.N. Famalicão: Quasi Edições, 1ª edição, 2000, p. 18.

Hanif Kureishi



O Senhor manuel a. domingos gosta muito de Hanif Kureishi. O leitor atento já deve ter reparado nisso, devido ao nome associado a este blogue. O Senhor manuel a. domingos agradece à Teorema mais esta oportunidade de poder ler em português um autor que é muito cá da casa.

1.10.09

Da imensa pequenez


Não é por nada, mas quando hoje voltei a pegar no 2666 (e ainda não foi desta que o comprei) verifiquei na contra-capa uma frase do Senhor Palomar. No meio de frases retiradas do Washington Post, New York Times, El Mundo, The Observer, Independent, The Sunday Times, entre outros, está uma frase do Senhor Palomar. O mundo editorial português ainda é mais pequeno do que aquilo que eu pensava.

É só um dia como os outros (parte 3)


Mas isso de uma pessoa se fazer entender é muito relativo, principalmente com os novos filósofos que por aí andam. Agora tudo é filósofo. Toda a gente escreve ensaios sobre tudo e mais alguma coisa. Fazer-se entender é que não! Só os da Academia é que entendem. Sempre achei piada às Academias. Têm todos a puta da mania, como é costume dizer. Os seus membros, envoltos numa importância que não têm, debitam o seu saber para meia dúzias de folhas a que dão nome de artigos e que só meia dúzia de pessoas vai ler e entender. As Academias são o último reduto de um primitivismo cheio de regras completamente estapafúrdias que não interessam a ninguém e que nada acrescentam. E além do mais a maior parte dos académicos são uns chupistas de primeira e uns lambe-botas de segunda ou terceira categoria. Quando me lembro de academistas lembro-me de Marineti. Todo ele era contra a Academia e acabou por se transformar num académico. Faz-me lembrar os meninos bonitos do Maio de 68, que ergueram barricadas contra a burguesia – quando eles próprios eram provenientes da burguesia: só uma burguês é que perde tempo com barricadas e coisas desse género, pois não podemos esquecer que a classe operária, essa, estava a trabalhar – e depois, passados uns bons anos, se converteram em eurodeputados e consideram-se eurocépticos. Chiça! Eurocépticos e são eurodeputados? Sempre foi uma coisa que nunca entendi. Ou melhor: entender até entendo, mas não me entra na cabeça. É como os membros do POUS que só querem ir para o parlamento europeu para destruir a União Europeia ou os do PCTP-MRPP que querem o fim do grande capital opressor mas que se não fosse o grande capital opressor não tinham razões para prosseguir a luta e eram uns pobres desgraçados. Para a merda com todos eles! Só querem é poleiro. Querem o bom salário ao fim do mês e as ajudas de custo. Aí, de certeza absoluta, já não se importam com o grande capital. Um bom salário é o que eles querem! É claro que eu também quero um bom salário ao fim do mês e se tivesse ajudas de custo ainda melhor. Não sou o suficientemente hipócrita para negar isso. Cínico sou, tenho de admitir. Mas quem é que não é cínico nos dias de hoje? Só os hipócritas. O cinismo é a única coisa que ainda nos vai salvando. Não é o hedonismo ou a solidariedade ou o optimismo ou o Benfica ou tudo o resto. É o cinismo. É claro que não tenho maneira de provar isto filosoficamente, pois nunca fui muito dado a filosofias. Tentei estudar alguns filósofos, ler o que eles tinham para dizer, tentei – e a sério que tentei – entendê-los. Mas não consegui. E não voltei a tentar. Para quê perder tempo com alguém que nada nos tem para dizer, dar? Perder tempo com filósofos e filosofias é, para mim, uma espécie de frete. Para fretes temos os taxistas. Esses ao menos recebem algum para os fazer. É claro que agora podia começar a falar sobre os taxistas e sobre a aptidão que estes têm para falar de tudo e mais alguma coisa sem se engasgarem e, alguns, com um discurso coerente. Mas seria demasiado óbvio. E eu não gosto nada daquilo que é óbvio: é óbvio que o Estado rouba o contribuinte; é óbvio que os políticos são uns imbecis de primeira ou, caso contrário, tentariam ganhar a vida de outra maneira (nomeadamente de uma maneira honesta); é obvio que o idealismo – seja lá o que isso for – é uma palermice; é óbvio que os idealistas são palermas, mas isso não quer dizer que os palermas são todos idealistas (muito pelo contrário); é óbvio que todos os dias somos enganados por alguém; é óbvio que o ponto e vírgula é uma sinal de pontuação inútil e que só demonstra que andamos na Universidade (Kurt Vonnegut, outra vez). Existem outras coisas das quais eu não gosto. Por exemplo: não gosto de música rock convertida em bossa-nova ou jazz. Ainda no outro dia ouvi esse hino que é o Smells Like Teen Spirit – que para quem não sabe é uma música dos Nirvana, cujo título foi inspirado num desodorizante muito popular chamado Teen Spirit – em versão jazz e nem consigo descrever o arrepio que senti na espinha ao ouvir tal coisa. Sinceramente, não sei como é que tal coisa é tolerável. Não sei como é que as editoras e os autores deixam que tal aconteça. Eu sei que é tudo uma questão de dinheiro, mas porra! Há coisas que são sagradas! O Smells Like Teen Spirit é uma dessas coisas. Quem maltrata assim uma música e quem deixa que a música seja assim tratada, devia ser empalado. Quando ouço estes género de versões entendo Vlad, o Empalador. Talvez aqueles que ele mandou empalar tivessem feito más versões de músicas das quais ele gostava. Mas que o arreliaram, lá isso arreliaram. E ele fartou-se de empalar e empalar e empalar. E talvez não se tenha fartado de o fazer. Conheço muito boa gente que merecia ser empalada. Não vou dizer quem, isto é, mencionar nomes próprios. Mas posso imitar Gil Vicente e utilizar personagens-tipo. Assim (e não necessariamente pela ordem que agora apresento): presidentes de clube de futebol – todos sem excepção –, aquele gajo que é líder do PNR e artistas de circo – principalmente o domador de leões, aquele gajo que é líder do PNR (isto não é um descuido, é mesmo uma repetição com a intenção de ser repetitiva e de chamar a atenção para o palhaço que o senhor é e para a palhaçada de partido que dirige e que só sobrevive numa Democracia frouxa como a nossa, e apesar disto parecer uma contradição é aquilo que eu penso: vivemos numa Democracia frouxa, que trata a escumalha com paninhos quentes, seja a escumalha de extrema-direita ou de extrema-esquerda) e trapezistas. Os trapezistas sempre me irritaram com os seus fatos de lycra e o rufar dos tambores e a rede de protecção e o triplo salto mortal e o flic-flac e essas mariquices todas. Podia, como é natural, dizer que empalava advogados, aprendizes de feiticeiro, astrólogos, barbeiros, caçadores, chulos, coristas, críticos literários, feirantes, fonetistas, forcados, gajos da Opus Dei, iconoclastas, ilusionistas, indigentes, maçons, onanistas, parapsicólogos, parasitas, poetas, políticos, sobredotados, solicitadores, sonhadores, toureiros, tratantes e por aí fora, mas seria demasiado óbvio – e como sabem eu não gosto de coisas óbvias – e por isso abstive-me de os mencionar mais directamente do que aquilo que acabei de fazer. É claro que me vão dizer que mencioná-los mais directamente é impossível. Querem um exemplo: Céline. Mais directo do que ele conheço poucos escritores. Talvez um outro: Bukowski. Este é mesmo muito, muito directo. Tão directo que quase ninguém o entende. Tão directo que é bastante ignorado, pois a chamada crítica só considera realmente literário aquilo que é praticamente incompreensível. Exemplos: o James Joyce de Finnegans Wake. Deuses! Não me espantava nada que o início do livro fosse utilizado em exorcismos! Porra! Aquilo afasta qualquer demónio! Melhor! Aquilo remete o próprio Satanás para os confins do Inferno e obriga-o a ler Paulo Coelho para encontrar novamente a força dentro dele! O caminho! Caramba! James Joyce é um grande escritor, disso não tenho a menor dúvida. Mas existem limites para tudo. E Finnegans Wake ultrapassa-os de uma forma descarada! A crítica considera-o um marco, uma apoteose, uma revelação, um grito de modernidade. Tudo menos uma cacofonia, o delirar de um louco cego. Mas, sabemos que a crítica, ou melhor, os críticos «se enganam sempre redondamente, de século em século… apaixonados por tudo o que é merda, quanto maior a imbecilidade mais eles se masturbam… loucos! Ejaculam, ardentes, resfolegam!» (Céline). É claro que nem tudo em Joyce é mau. Li com muito gosto Portrait of the Artist as a Young Man. Escrevo o título em inglês pelo simples facto de ter sido em inglês que o li. Foi durante umas férias de verão na Figueira da Foz. Antes fazia férias verão em Praia de Mira. Depois passou a ser a Figueira da Foz. Ou melhor: Buarcos. Quase toda a gente diz que passa férias na Figueira da Foz, mas na realidade passava férias em Buarcos. Nunca passei férias no Algarve. Mas como estava a dizer, li o livro de Joyce numas férias de verão. Acho que tinha terminado o décimo primeiro ano. Estava naquela fase em que pensava que conseguia impressionar as raparigas com literatura estrangeira na língua original. Foi uma fase que tive. Foi um completo e trágico fiasco. É claro que não se consegue impressionar raparigas com literatura estrangeira na língua original. E aquelas que são impressionáveis com literatura estrangeira na língua original têm sempre buço e usam óculos bastante graduados e não fazem depilação e são feias. Como é natural não me foi nada fácil ler Joyce em inglês. Demorei quinze dias a ler o livro. Naquela altura ainda se faziam quinze dias de praia. Agora é o cabo dos trabalhos. Pedem balúrdios por um quarto decente (com casa de banho incluída) e uma fortuna por um apartamento. É claro que se pode alugar um apartamento entre amigos e dividir a despesa entre todos o que torna a coisa mais fácil. O problema é que temos de dividir a casa de banho e nem toda a gente é asseada. Há gajos que ainda mijam sem levantar aquela parte que apoia o nosso cu quando estamos a cagar. Há gajos que ainda mijam em pé. Eu cá, desde que sou eu a limpar a sanita onde mijo – pois quando um gajo vive sozinho tem de fazer essas coisas –, mijo sentado e não tenho vergonha de o dizer. E quando alguém me goza digo: quando fores tu a lavar a tua própria sanita e o cheiro a sarro no plástico do tampo te invadir o nariz, aposto que passas a mijar sentado como eu! Até parece que um homem deixa de ser homem pelo facto de mijar sentado. Por acaso um gajo caga em pé? Não, pois não? É sentado, como todos sabem. Então qual é o problema de um homem mijar sentado? Eu não vejo problema nenhum nisso. E depois isso de dividir apartamento nas férias ainda tem outros inconvenientes. Um, que me aborrece bastante, é o facto de todos fazerem tudo ao mesmo tempo: jantam todos ao mesmo tempo, vão para a praia todos ao mesmo tempo, embebedam-se todos ao mesmo tempo, só não fornicam todos ao mesmo tempo pelo simples facto de às vezes não haver gajas suficientes para todos ou pelos simples facto de algum dos gajos se ter embebedado de tal maneira que estraga a noite aos amigos com uma ida às urgências para uma lavagem ao estômago. E que fique claro que não estou a falar por experiência própria. Um: não divido apartamento nas férias com ninguém (prefiro não fazer férias). Dois: não sou muito dado a matilhas. Três: orgias não é o meu género preferido de divertimento, embora não diga que não a uma quando ela se proporcionar. Conheço gente que participou em orgias. Não ficaram muito gulosos de repetir. Disseram-me que não é nada como aquelas que lemos nos livros de Sade ou como vemos naquele filme de Kubrick. Isso é que é uma orgia de nível! Eu até considero a orgia do filme de Kubrick uma celebração! Porra! Aquilo é que é! Nada daquelas merdas que estamos habituados a ver nos filmes pornos, que são uma grande confusão e com muita escatologia. Já ouvi gente defender que o sexo deve ser duro e porco. Não sou desses. Sexo é sexo e ponto final. Não tem de ser duro ou porco. Tem de ser sexo. De preferência bom. E se não se conseguir do bom, paciência. Há quem diga que aquilo, no filme do Kubrick, nem é uma orgia mas sim um ritual da maçonaria. Chiça! Se aquilo é um ritual maçónico eu não me importava nada de ser maçon. Mas como os maçons estão na minha lista de gente a empalar, é melhor não.

Lí por aí


«Os latinos não sabem discutir política. Uns porque ainda não aprenderam a arte e tendem a confundi-la com o insulto aos políticos (é o caso português), outros porque foram dela desenganados e caíram na descrença e no cinismo, como os italianos. Em relação a estes, só um povo que se está a marimbar completamente para a política é que pode achar graça à consecutiva eleição de um clown como Berlusconi.»

José Miguel Silva em Achaques e Remoques