30.9.09

Novo Presente do Indicativo do verbo escutar


Eu escuto
Tu escutas
Ele/Ela escuta
Nós começamos a ficar fartos desta merda
Vós escutais
Eles/Elas escutam

29.9.09

O momento editorial do ano


Sim, sou daqueles que ainda não compraram 2666. Estive com ele na mão no outro dia e pensei: bem, acho que podes esperar. Razão: as Obras Completas de Jorge de Sena que estão quase a sair. Para começar: Sinais de Fogo. Este é, para mim e na minha humilde opinião, o momento editorial do ano. E quase ninguém fala dele. Será pela ideia vir de uma editora conotada com a direita? Porra! São as Obras Completas de um dos maiores escritores do século XX português!

25.9.09

Ponto de ordem


Quase nunca me abstenho. Só não voto.

É só uma reclamação


Isto não é outono nem é nada. Para ser verão já é tarde. Grande coisa vir agora o bom tempo! Quando estive de férias é que precisei dele, não é agora. Grande gaita!

21.9.09

Um poema de Jorge de Sena


Nocturno de Londres

Não sei, amor, se dado nos será
de envelhecer. Será que um de nós só morrerá
quando formos tão velhos que para o outro
não faz diferença nenhuma que aquele morra
(na velhice se vive de memória vaga)?
Será que tantos anos de amargura,
suspeitas, frustações, raivas e ódios,
tudo isso, tempestade, de que é feito o amor
que os burros não entendem, nos serão
acrescentados desse sonhar juntos
em silêncio, num sorriso (que se esquece
e mesmo nos lábios se ignora).
Uma velhice que foi vida e será vida
porque foi vida com que nos comemos
quotidianamente um ao outro
vorazes como peixes num aquário
de vidro inamovível, tão opaco,
translúcido às vezes, transparente sempre,
que é o amor?


em Conheço o sal... e outros poemas, Lisboa: Moraes Editores, 1974, p.18.

Coisas que não compreendo


Têm sido dias e dias de trabalho intenso. Mas ainda assim algum tempo para a leitura dos blogues de sempre. E também para uma visita a Montemor-o-Novo e à famosa livraria que por lá existe. Refiro-me, como é óbvio, à tão badalada Fonte de Letras. Sinceramente não entendo o frisson em tordo dela. Em Montemor-o-Novo até compreendo que ela seja um oásis. Mas daí a ter a projecção nacional que tem não compreendo, a sério que não compreendo. É uma livraria banal, com os mesmos livros que também posso encontrar numa Bertrand ou Fnac ou Almedina (a secção de poesia da Almedina Estádio, em Coimbra, é muito melhor). Alguns dos livros estão amontoados – e nem a lombada têm virada para o potencial leitor/comprador –, tornando muito difícil pesquisar sem ter que lhes mexer (refiro-me, por exemplo, a uma série de livros de poesia da Averno). O espaço é pequeno e muito pouco confortável. Não compreendo. A sério que não compreendo.

Aviso àqueles que, sem explicação, ainda aqui aparecem


Podem continuar a aparecer. Mas, como sempre, não esperem muita coisa.

18.9.09

Um poema de Joaquim Manuel Magalhães


Despedes-te depressa destes dias
sem o sol que pensaste e te faria
rasgar de ti o que conheces.
Precisas da ignorância e do inútil.
O que sabes soterrou as energias
ao ar do mar onde há barcos e peixes
naturalmente, como tu não és.
Dentre as mãos como pinheiros as carícias
é uma forma de corroeres a vida.
Um espírito nocturno espreita das coisas,
a transitória consciência encontra análogos
nas matérias, na falsidade.
Os vagarosos gestos ocupam os lugares,
a desolada observação dos factos e dos feitos.
O brilho visionário fez-se derrota,
a perfeição nos sonhos,
uma linguagem de sentido perdido.


em Dos Enigmas, Lisboa: Moraes Editores, 1976, p. 13.

12.9.09

É só um dia como os outros (parte 2)


Mas dizer que de pouco ou nada serve uma pessoa queixar-se, não é solução para nada, muito menos para os problemas que nos assolam todos os dias. Por exemplo: de manhã quando tento colocar as lentes de contacto demasiado cedo os meus olhos rejeitam esse objecto estranho. E todas as vezes que isso acontece eu questiono-me: a ciência humana conseguiu inventar as lentes de contacto, mas os homens ainda fazem a barba como faziam no tempo dos romanos. Eu sei que não é bem assim, mas reparem: o conceito é praticamente o mesmo: são lâminas, a tecnologia é que evolui. É certo que é muito diferente fazer a barba com uma navalha ou com a vulgar gilete. Basta, para isso, ir ao barbeiro. O barbeiro é um ser mítico e místico. Não há barbeiro que não tem opinião sobre tudo e sobre nada. São uma espécie de taxistas, só que não andam de um lugar para o outro. Não me lembro da primeira vez que fui ao barbeiro, mas lembro-me das seguintes. Como era pequeno tinha que ser sentado numa espécie de suporte que era colocado nos braços da cadeira rotativa. O barbeiro conseguia assim fazer o seu serviço e eu conseguia mirar-me ao espelho. Embora não me lembre da primeira vez que fui ao barbeiro, sei que houve uma primeira vez, pois a minha avó materna guardava um dos caracóis de cabelo que tinham sido cortados nessa primeira vez. Estava junto a uma fotografia minha dessa altura. Nunca mais tive caracóis, excepto quando uma vez fui vestido de S. João Batista numa procissão. E quando fui vestido de S. Miguel. Também fui vestido de São Francisco Xavier, São José e São Domingos. Parece que era um garoto bonito para ir vestido de santo. Ou isso ou as roupas serviam-me todas a mim e a outros nem por isso. De anjo nunca fui. Anjo era coisa de menina, embora todos nós – os meninos – invejássemos as asas de anjo que elas levavam. Só mais tarde, quando vi as Asas do Desejo, é que entendi o fascínio que os anjos causavam, pelo menos a mim. Mas nunca cheguei a ver A Cidade dos Anjos, essa “tradução” manhosa do primeiro para bruto americano ver e entender. É claro que a música da banda sonora da Cidade dos Anjos me perseguiu durante algum tempo, pois tive uma namorada que, por vezes, a cantava. Eu preferia a banda sonora do filme alemão, principalmente a música From Her to Eternity, do Nick Cave. É claro que ela não entendia como é que eu poderia gostar de música tão negra, como ela dizia. Logo ela, que gostava de baladas melosas à Whitesnake e coisas do género. Lembro-me desses grupos do chamado rock fm, com baladas lamechas e completamente despropositadas, mas que fizeram um sucesso enorme. Contudo, não nos podemos esquecer que o sucesso é algo de relativo. Muitos são aqueles que provam isso. Mas não quero aqui entrar em detalhes. É claro que a coisa não durou muito tempo. Apesar disso foi ela quem me introduziu aos autores que constituem a base do meu gosto literário: Kafka, Camus, Henry Miller. Se repararem os grandes autores são sempre mencionados só pelos últimos nomes. Esta é uma teoria que anda comigo há algum tempo. Basta pensar: Proust, Torga, Kafka, Camus, Sartre, Camões, Pessoa, Joyce, Céline, Bukowski, Gogol, Dostoiesvski, Stendhal, Mishima, Bernhard, Cossery, Orwell, Cela, Saramago e por aí em diante. Depois há os outros, que apesar de grandiosos, são chamados por dois ou mais nomes: Vergílio Ferreira, Karl Marx, Eça de Queiroz, Miguel Esteves Cardoso, António Lobo Antunes e por aí em diante. Não sei se António Lobo Antunes aqui se enquadra, pois muitas vezes só nos referimos a ele como Lobo Antunes. Mas como há três Lobo Antunes a escrever… Não pensem que eu não gosto de António Lobo Antunes. Li com prazer os primeiros livros do senhor. Mas depois perdeu-se em piruetas literárias. É a minha opinião. Também é minha opinião que Herberto Helder não é assim tão grande como o querem fazer. Os Passos em Volta é um magnífico livro, sim senhor. Mas a poesia… a poesia deixa um pouco a desejar. Se fosse um grande autor não era tratado pelos dois nomes. Bastava dizer: o Helder é um grande poeta. O Helder? Mas quem raio é o Helder. O mesmo não acontece com Ramos Rosa. Apesar de utilizarmos dois nomes, eles são os últimos dois nomes do autor. Não fazia sentido nenhum dizer só Rosa. Ramos Rosa. Esse sim é um grande poeta. E depois há aqueles que só são tratados pelo nome próprio: Sophia. Esses sim são os realmente grandes. Pelo menos no caso português. É claro que esta minha teoria dos nomes é tão válida como a teoria da evolução das espécies – apesar da última estar provada cientificamente. Isso do cientificamente foi algo que sempre me intrigou. Acho piada quando alguém vem com uma teoria e diz que ela está provada cientificamente. A teoria ganha logo um peso enorme e transforma-se quase num dogma. Como sabemos os dogmas não podem ser discutidos, apesar das várias discussões em tordo da Virgem Maria. Uma vez li qualquer coisa como esta: se Jesus é filho de Deus e foi concebido sem mácula (um termo a que achei sempre muita piada, principalmente vindo de uma Instituição que subiu na vida pelo facto de fornicar a vida às outras pessoas), por que razão é que é sempre representado com umbigo? Ora aí está uma boa questão. Se foi concebido por obra e graça do Divino Espírito Santo, por que razão precisou de ser alimentado pelo cordão umbilical. Eu nisso sou mais da opinião de Kurt Vonnegut (e cito, mais uma vez, de memória – que pode falhar, como é óbvio): «Se Jesus disse realmente aquilo que disse, não me interessa saber se ele é filho ou não de Deus.». Este é daqueles autores que gostava de ter conhecido pessoalmente. Devia ter sido muito porreiro jantar com ele. E divertido. Nem imagino como seria. Digo a razão: como é que alguém que assistiu aos bombardeamentos de Dresden, e depois esteve presente para limpar e recolher os corpos, consegue manter aquele humor e sarcasmo jovial? Talvez seja essa a única solução. Eu cá não me imagino a sobreviver psicologicamente a uma coisa daquelas. Deve ter sido das coisas mais horríveis de presenciar. Não admira que muitos dos autores que estiveram na segunda grande guerra fossem opositores da guerra da Coreia e do Vietname. Não admira mesmo nada. É por isso que gostava de ter conhecido o velho Kurt. E talvez fosse uma boa merda. É que muitas vezes os autores não são aquilo que parecem ser. Principalmente os poetas. A maioria das pessoas pensa que os poetas são pessoas com uma outra sensibilidade. Eu dou-lhes um exemplo da sensibilidade dos poetas. Uma vez, numa escola, o poeta Eugénio de Andrade ouvi um grupo de crianças dizer alguns dos seus poemas. Comentário do poeta: «Acabei de ouvir a minha poesia ser assassinada.». Eu sei que ele tinha a mania de que só ele sabia ler os seus poemas. E, a bem da verdade, ele dizia muito bem os seus poemas. Mas porra! Custava alguma coisa ter uma palavra de apreço para com as pobres das crianças. Eu sei, eu sei. Às vezes as crianças são terrivelmente chatas. Mas conheço adultos que são mil vezes piores. E sinistros. Basta lembrar-me de Cavaco Silva e fico em pele de galinha. Isto de crescer com um Primeiro-Ministro que não se ri (e já agora com um Presidente da República, pois Ramalho Eanes era a mesma coisa) pode marcar uma pessoa para toda a vida. O senhor não se ria e, das primeiras aparições na televisão, não tirava os olhos da câmara que o filmava. Nem se dignava a olhar para o jornalista que lhe fazia as perguntas. Depois alguém lhe ensinou com se fazia. E ele lá aprendeu. Não muito bem. Mas melhorou um bocadinho. Curioso: temos sol quase todo o ano mas vivemos num país de políticos sisudos. E intelectuais também. Ninguém se ri. Parece que andam todos a encolher os peidos com medo de borrar as cuecas. E depois, bem vistas as coisas, só fazem porcaria e só dizem porcaria. E apesar de estarmos todos habituados a isso, não deixa de ser lixado. Problema é que o meio cultural português é muito pequeno (eu sei que isto é um cliché), mas quem nele flutua ainda o torna mais pequeno. Todos se conhecem uns aos outros e todos devem favores uns aos outros e isso impede que exista verdadeira discussão em Portugal. Na realidade alguém acredita que aqueles “senhores” na Assembleia da República estão lá para servir o país? Na realidade alguém acredita que ser político é uma das mais nobres funções? Mário Soares parece que ainda acredita. Ou ele não conhece os mesmos políticos que eu ou não lê os jornais e vê televisão. Merecíamos melhor. Sem dúvida que merecíamos melhor. Ou talvez não. Como é costume dizer: cada um tem aquilo que merece. O João César Monteiro é que disse num dos seus filmes (cito de memória): «não se nasce português, fica-se português». Ora eu não sei se ando a ficar português. Eu bem que tento não ficar português, mas não tenho outro remédio. Espanhol? Apesar de gostar muito da cultura espanhola devo admitir que não são lá grandes cozinheiros. Não sei. É uma das muitas coisas que me atormenta. Mas durmo bem na mesma à noite. Se o colchão for bom é claro, pois há colchões que são uma boa porcaria. E há pessoas que alugam casas com camas que têm colchões horríveis. É como aqueles anúncios de quartos com janela e vamos ver e a janela afinal é um postigo no alto de uma parede. Mas não é isso que me tira o sono. O café é que já começa a tirar-me o sono. Antes bebia cinco, seis, sete cafés por dia (e agora admiro-me que sofro do estômago) e à noite dormia descansado. Agora tomo um café ao pequeno-almoço e outro ao fim de almoço. Se me descuido e tomo um terceiro café – depois das três da tarde – já me vejo lixado para adormecer à noite. Envelhecer é lixado. Embora eu não me deva queixar muito, pois só tenho trinta e dois anos. Mas é um facto: estou a envelhecer. A ficar mais novo é que não estou! De certeza absoluta! Mas há sempre aqueles que vêm opinar sobre isso e dizem tu, envelhecer? ainda estás na flor da vida! olha um gajo com trinta e dois anos a reclamar que está a envelhecer! aquilo que chegamos! É claro que não é com este palavreado todo. Acho que me fiz entender.

11.9.09

Um poema de Rui Almeida

para a Paula Machado


Avança vinte anos e tenta
Recordar a grandeza do dia de hoje.

Responde por palavras breves ao tempo
Que há de passar, à vida que fica,
E recupera a memória do que vêsm
O desejo incerto de futuro.

Que cansaço nos pede que sejamos
Mais do que o corpo nos obriga a ser?

Quando os limites se impõem, nada
Nos impede de ir tactear as noites
E recolher das sombras todos os gestos
Indiferentes que ousámos fazer.

Então te direi as razões, nomes
A dar aos segredos partilhados.


em Lábio Cortado, Torres Vedras: Livrododia Editores, 2009, p.13.

4.9.09

Mais uma vez: Céline



Não é novidade nenhuma. Tenho uma visceral admiração por Céline. Pouco me importam as suas simpatias políticas. O que será mais terrível: o declarado anti-semitismo e a declarada simpatia nazi de Céline ou o arrivismo camuflado e hipócrita de Aragon? Como escreveu Geoges Darien: «Ah! Sim, pancada por pancada prefiro as chicotadas impiedosas de um carrasco iracundo, que fere sem contemplações, à flagelação hipócrita do homem que apanha o vigilante de costas para perguntar: «Magoei-te»?».