31.8.09

Entretanto


Entretanto algumas coisas mudaram. O Senhor Palomar, por exemplo, passa a estar aqui. Há quem se refira a ele como alguém que está a agitar o mundo editorial português (acho que foi a Isabel Coutinho, mas não tenho a certeza). Eu até entendo a razão: o mundo editorial português é tão pequeno que qualquer coisa o agita. Contudo, admito que o blogue do Senhor Palomar dá jeito: estão concentrados num só blogue os links (quase todos) para assuntos de interesse relacionados com o mundo dos livros, pois na realidade é isso que o Senhor faz: links e mais links. E, claro, um ou outro apontamento irónico.

Um poema de José Miguel Silva


Dizias que gostavas

Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.


em Vista para um pátio seguido de Desordem, Lisboa: Relógio D'Água, 2003, p. 54.

29.8.09

É só um dia como os outros (revisto e aumentado outra vez)


Penso muitas vezes em verões passados à beira do rio. Ainda hoje, sempre que posso e quando o tempo ajuda, vou até ao rio. A água parece-me hoje mais fria e o rio menos profundo. Éramos muitos nesses verões, fartos que andávamos do cloro da piscina municipal. Apesar de ter aprendido a nadar nela, e não nele (no rio) como aconteceu com a geração do meu pai, tinha de pagar bilhete a partir dos catorze anos, o que eu sempre achei uma injustiça, pois sempre defendi que a piscina, sendo municipal, deveria ser gratuita. É claro que vinham logo aqueles que defendiam que não devia ser assim, pois manter uma piscina, principalmente limpá-la das mijadelas que lá dávamos, era dispendioso e alguém tinha de pagar isso, principalmente os utentes. Lembro-me que havia colegas que fugiam, às vezes, para a casa de banho das raparigas e demoravam-se lá muito tempo. Eu sabia bem o que lá faziam, mas nunca me interessei muito com isso. Fui durante algum tempo um tanto ou quanto misógino, palavra que na altura não fazia qualquer sentido para mim: em primeiro lugar, não sabia o seu significado; em segundo, achava que as raparigas eram, no fundo, umas chatas convencidas. Sempre preferi, durante essa fase da minha vida, mergulhar de cabeça. Para mergulhar, no rio, era necessário fazer fila e esperar, pacientemente, que aquele que tinha saltado primeiro saísse da água – não fosse algum de nós cair-lhe em cima. E depois começo a ter aqueles pensamentos que as pessoas mais velhas costumam ter e digo frases como o verão agora já não é como era. A sabedoria popular sempre foi prodigiosa em criar esta espécie de aforismos (podem ser chamados de aforismos, não podem?). A sabedoria popular é das coisas com as quais eu mais embirro. Não gosto. Não acho piada. É, para mim, uma sabedoria que de sábia tem pouco. Mas as pessoas mais velhas têm sempre uma frase de sabedoria popular na ponta da língua. Como também têm sempre à mão um rebuçado de mentol para aclarar a garganta ou a receita de uma mezinha qualquer contra a sarna. É claro que eu não tenho nada contra as pessoas mais velhas. Embora me perturbe um pouco aquela fase em que, invariavelmente, elas começam a repetir uma, duas e três vezes a mesma coisa, como se fosse uma conversa de bêbado. Vergílio Ferreira é que caracterizava assim a escrita de Hemingway. É claro que eu não concordo nada com isso. Às vezes até penso que Vergílio Ferreira tinha um pouco de mania a mais: só ele e os franceses que adorava sabiam escrever romances. Mas tomara ele ter escrito uma coisa como Por Quem os Sinos Dobram – que na realidade foi o único romance do velho norte-americano que alguma vez li na minha vida. Também li O Velho e o Mar, mas não apreciei muito. Não achei muita piada – que isto em literatura tem que se achar piada às coisas – àquela luta entre homem e peixe. Eu sei que aquilo, supostamente, deve ser uma metáfora ou coisa do género, mas não gostei. Há outros livros que nunca li. Livros que são considerados indispensáveis. Nunca li A Montanha Mágica, Moby Dick, O Homem Sem Qualidades, Os Maias, Rumo ao Farol, Sinais de Fogo, aquele que vai agora ser publicado pela Quetzal e que dizem ser um livro do caraças, que foi escrito por um chileno de nome Roberto Bolaño (parece que tem mais de mil e tal páginas e ouvi dizer que a editora se vai enterrar até ao pescoço com a edição do livro e de outros do mesmo autor), Ulisses – embora já o tenha começado a ler, mas na página duzentos e oitenta e oito desisto sempre. James Joyce é um chato, na minha opinião. Pode ter revolucionado a literatura e tal, mas é um chato. Aposto que não tinha vida social. Imagino-o a falar e a falar sem uma única pausa e todos à sua volta a abrir a boca de tédio. Só assim se entende que alguém tenha escrito aquele monólogo sem um único sinal de pontuação. Depois veio uma carrada de escritores a fazer o mesmo e foram logo catalogados de génios e coisa e tal. Na verdade nunca souberam escrever. Esqueceram que para não pontuar é necessário saber pontuar. Esqueceram isso e começaram a aparecer coisas completamente estranhas e sem qualquer nexo. Esqueceram-se de ler Georges Darien, que é um escritor que sabe pontuar – embora abuse do ponto e vírgula. Escreveu esse grande livro que é Biribi. Ao utilizar a instituição militar para dizer o que lhe vai na alma, Darien denuncia tudo o que é canalhice, hipocrisia, impostura, estupidez. A instituição militar é apenas a “desculpa”. O que Darien quer atacar mesmo é a sociedade burguesa: «o que ela quer a todo o custo é uma obdiência passiva e cega, um embrutecimento completo, um aviltamento sem limites, a obediência da máquina à mão do mecânico, a submissão do cão amestrado à vara do saltimbanco.». Lobo Antunes é que devia ler Darien para ver se aprendia alguma coisa com ele. Os seus últimos romances são uma cacofonia completa. É claro que eu não digo que sei escrever melhor que Lobo Antunes, nem que sei pontuar muito bem um texto. Mas caramba! Aquilo que Lobo Antunes escreve não lembra ao demónio e não é devido a isso que é grande literatura. Os últimos romances de Lobo Antunes são apenas uma espécie de cópia mal amanhada (e com um certo exagero estilístico) do Som e a Fúria de William Faulkner! Caramba! Acho que não é assim tão difícil de ver isso, ou é? Às vezes questiono-me se sou eu que vejo coisas onde elas não existem. Só os críticos literários – algo que considero inexistente neste país – é que não vêem isso. Ou se vêem fazem de conta que não. É terrível abrir um jornal ou revista literária (há mesmo disso cá?) e só ler recensões laudatórias a todos os livros. Nos últimos tempos é que consegui ler uma ou outra que desancavam no autor. Parece que com razão, pois pessoas amigas leram os livros e disseram-me que, de facto, eles eram maus. Este é outro hábito muito nosso: referirmo-nos aos outros como pessoas amigas sem nomeá-las directamente. Parece que existe algum receio naquilo que possa acontecer, em parte devido ao medo que ainda anda por aí. O vinte cinco de Abril abriu muitas portas mas não fechou a porta do medo. Perpetuou, isso sim, algumas vacas sagradas. E criou outras. Mas neste país não é costume questionar vacas sagradas e quando isso acontece é com paninhos quentes, não vá a vaca dar um coice e entornar o leite. O que o pessoal esquece é que o coice da vaca sagrada é um coice como outro qualquer e nunca é mortífero. O pessoal leva o coice, cai, levanta-se, limpa o cu às calças e segue estrada. James Joyce é que a sabia toda! Ele e o Kafka. Embora Kafka seja muito melhor, quanto a mim. Melhor não! Superior! É só ler O Processo. É um livro do caraças. Lembro-me que o li num inverno. Edição livros de bolso que na altura não tinha dinheiro para comprar livros todos chiques. Agora também não. Procuro sempre fazer boas compras, mas já não compro livros de bolso. Só se forem de editoras inglesas ou norte-americanas. As editoras portuguesas não sabem editar livros de bolso. Neste país ainda existe a ideia de que os livros são feitos para enfeitar as prateleiras lá de casa para dar um ar de culto às visitas. Ainda me lembro daqueles livros das Selecções do Reader Digest que tinham uma lombada toda bonita e ficavam mesmo bem na sala de estar. Conheço gente que quando lê um livro dá-o a outra pessoa, para este também ter a possibilidade de o ler. Gente que lê um livro por dia. É claro que eu não faço isso. Leio, ou tento ler, dois livros por mês. Mais do que isso é um abuso. Para ler As Benevolentes estive quase os meses de inverno. É um livro difícil de digerir. Um gajo pensa naquilo tudo e não pode deixar de ficar estupefacto: os gajos (da SS) davam cabo de meia dúzia de judeus por hora – quando não era mais – e depois iam até ao café beber uma cervejola e ler Homero. Porra! Que raio de gente faz isso. E o pior é que era gente como eu e tu, leitor. Antes da guerra eram pessoas banais. Tinham um emprego, rotinas e alguns até deveriam ser bons amantes. Deviam ter uma casa nos subúrbios, com uma sala de jantar e alguns livros nas estantes. Eu guardo os meus livros no meu quarto e não é qualquer pessoa que entra no meu quarto. Não estão em exposição para todos verem. Os nossos livros são a coisa mais íntima que possuímos. Logo a seguir à nossa roupa interior. A nossa roupa interior é muito importante. Tão importante que muita dela ainda são as nossas mães que a compram. E ainda bem. Um homem não sabe escolher roupa interior. Enquanto frequentei ginásios deu para ver isso. Nos balneários via com cada coisa que até me assustava – e não me refiro ao tamanho das pilas daqueles que por lá também andavam. É impossível uma mulher comprar roupa interior tão má. Impossível e inimaginável. Uma mulher que compra roupa interior má devia passar os restos dos seus dias sozinha. Mas os ingleses e os norte-americanos é que sabem editar livros de bolso em condições, com letras em tamanho decente e espaço entre as linhas razoável. Há para todos os gostos. Eu comprei alguns e fiquei sempre bem servido, à excepção de um livro do Knut Hamsun. Comprei o Hunger. Era uma edição muito reles. Li-o, contudo, do princípio ao fim. O homem escrevia muito bem e parece que foi dos primeiros a explorar essa coisa terrível que é o monólogo interior. Muito antes de Joyce ou Kafka ou Proust. Proust é outro que nunca li. Mas quem é que quer ler um gajo que passou parte da sua vida na cama a escrever? Proust foi outro que usou e abusou dessa coisa terrível (volto a repetir) que é o monólogo interior. Se fizermos uma análise fria todas as grandes obras literárias são monólogos interiores. Todas, sem excepção. A Bíblia, por exemplo. Haverá maior monólogo interior do que aquele que encontramos na Bíblia? Não sei se conseguimos encontrar. E depois é repetitiva, não sei se já repararam. Sempre a mesma ladainha. O curioso é que, mesmo a repetir sempre a mesma coisa, a maior parte das pessoas não entendem nada de nada daquilo que lá está. Há tantos anos que os Santos Evangelhos foram escritos e ninguém, apesar de todos serem repetitivos e de uma ou outra maneira transmitirem sempre a mesma mensagem (apesar de existirem certos episódios da vida de Cristo que só vêm num Evangelho, mas eu agora não me lembro qual é), percebe nada daquilo que lá vem escrito. O que não deixa de ser um dado bastante curioso. No entanto, se compararmos os dois únicos livros de Hemingway que li, O Velho e o Mar é, sem dúvida o pior. E por falar em velhos: eu próprio envelheço um pouco mais todos os dias. Mas isso não é novidade nenhuma. Todos envelhecemos. É garantido. Tal como morrer. Todos morremos. É garantido. Não há segredo nenhum em relação a isso. É das coisas mais simples que pode existir, apesar de ser uma boa merda. Envelhecer não é uma coisa fácil. Assistir ao declínio do corpo e da mente deve ser terrível. E o pior é que a maior parte das pessoas nem deve reparar nisso. Apenas envelhecem e ficam rabugentos e aceitam tudo com um sorriso nos lábios (às vezes é demência, eu sei). Afinal não precisamos dos filósofos para nada. São uma boa cambada de inúteis, que só servem para nos atormentar o juízo com futilidades e coisas com nomes difíceis e expressões mirabolantes que não servem para nada, principalmente quando se anda no secundário e nos atiram com partes da Crítica da Razão Pura de Kant à cara. Talvez Wittgenstein tivesse razão quando dizia que não existem verdadeiros problemas filosóficos e que aqueles que existem se devem a um uso imperfeito da linguagem. Só pode ser mesmo isso. E depois os temas pelos quais eles se interessam não lembram a ninguém: alegria, argumentos ontológicos, autoridade, cepticismo, democracia, dever, dilemas morais, dor, educação cívica, escolha dinâmica, estatuto moral dos animais, eternidade, feminismo, globalização, identidade, memória, metafísica, noção de indivíduo, representações formais da crença, valor do conhecimento, entre muitos e muitos outros. A passagem do tempo, por exemplo, nunca deixa ninguém indiferente, a sua inevitabilidade é mesmo inevitável, ao contrário de outras coisas, cuja inevitabilidade pode ser controlada, isto é, evitada. Não sei se alguma destas coisas faz sentido. O sentido (tal como o ser levado a sério) é coisa que não me interessa, nem preocupa. Por exemplo: o sentido da vida. Devo dizer que este tema não me interessa, pois desde que vi o filme dos Monty Python que esta questão ficou resolvida. Essa e outras questões. Os Monty Python sempre foram muito bons a ajudar-me na clarificação das minhas angústias existenciais. Eles e Kurt Vonnegut: «Estamos na Terra para andarmos por aí aos peidos. Não deixem que ninguém vos diga o contrário.» Cito de memória. É claro que as minhas angústias existenciais se resumem a pequenas futilidades do dia-a-dia. Por vezes envergonho-me de lhes dar esse nome. Querem exemplos? Aqui vão alguns: calço as sapatilhas sem meias ou com meias? Não tem importância? Eu digo que sim. Uma importância vital. Imaginem à noite um engate. Chegamos a casa e começamos a despir-nos. Se usamos meias o cheiro torna-se mais suportável, mas sem meias o cheiro torna-se insuportável. Mas qual, então, a vantagem de não calçar meias? Pensando bem não encontro nenhuma, mas as angústias existenciais não precisam de justificação. Muito menos razões. Se tivessem não seriam angústias existências. Seriam pura e simplesmente mania. Querem mais uma? O café de manhã deve ser simples ou com leite? Simples não me solta os intestinos. Com leite vou passados dez minutos à casa de banho. Se estiver atrasado para o trabalho pode fazer toda a diferença. Porquê? Porque os semáforos ao pé de casa estão livre até uma certa hora e começam a ficar congestionados a partir de outra. É por essa razão que quase sempre bebo o café simples. O pior é que o meu estômago – como tenho uma esofagite do refluxo gástrico – não tolera lá muito bem o café simples. Mas eu também não tolero lá muito bem o meu estômago, ainda mais quando tem a mania – e não angústia existencial – de estragar-me o dia. O pior foi que andem quase três meses (não estou a exagerar) a tomar antibióticos para acabar com a raça de uma bactéria qualquer com um nome estranho. Três meses e sem fazer uma única biopsia para ver se a bactéria ainda andava pelo estômago. Foi isso que ainda me desgraçou mais. Já não podia ver antibióticos à minha frente. Os antibióticos podem ter sido uma grande invenção mas dão cabo de um gajo. O melhor é passarmos sem eles. Sempre que tomo antibióticos fico desarranjado dos intestinos. Não sei se vos acontece o mesmo. Às vezes chego a pensar que se não morro do mal morro da cura – outra expressão vinda da sabedoria popular. O médicos de família usam e abusam dos antibióticos. Para tudo e mais alguma coisa toma lá antibiótico. Depois admiram-se que existam doenças que estão a criar resistências a certos e determinados antibióticos. Também abusam bastante dos anti-depressivos. Uma pessoa vai ao consultório do seu médico de família e começa a dizer que ai senhor doutor, não ando a dormir lá muito bem e de manhã é um sono que me custa a levantar da cama. Pimba! Toma lá uma dose de anti-depressivos e daqui a um mês volte cá para vermos se continuamos com a medicação ou não. E passado um mês a pessoa é uma espécie de toxicodependente mas sem ter necessidade de arrumar carros (apesar de nem todos os toxicodependentes serem arrumador de carros, mas há muitos que são). Chiça! Por isso é que eu digo que os médicos de família só são bons para curar constipações. Não sei se Céline era médico de família, mas aposto que me mandaria fazer exames mais rigorosos antes de me tratar com antibióticos. Ou então dizia-me que tudo estava perdido, que tinha visto muita coisa má pelo mundo e que não havia solução para o meu caso. Nem para o dele. Pobre desgraçado. Um dos melhores escritores do século XX e deu-lhe para ser aliado dos nazis e dizer umas coisas horríveis dos judeus. Bem vistas as coisas, hoje também há quem fale mal dos judeus. Principalmente a extrema-esquerda. A extrema-esquerda é um daqueles paradigmas que me fascinam. Não ambicionam o poder mas aliam-se ao poder. Lutam por um estado democrático (é o que dizem) mas baseiam-se em estados totalitários, regendo-se por dogmas, fomentando o culto da personalidade. Um escritor de extrema-esquerda é sério. De extrema-direita é um fascista e nazi. Céline era anti-semita. Sim, é verdade. E daí? Não se pode agradar a gregos e a troianos. Isso impediu-o de ser um dos maiores escritores do século XX? E o caso de Mishima, conotado também com a extrema-direita. Toda a sua vida foi pautada por valores que transcendiam a compreensão ocidental. Regia-se pelo antigo código dos samurais. Era homossexual. Escreveu livros brilhantes. A extrema-esquerda é diferente. Ser de esquerda sempre foi uma coisa aceitável. Ser de direita é o cabo dos trabalhos. Eu nem tenho razão de queixa. Sou de esquerda. Ou pelo menos penso que sou de esquerda, considero-me de esquerda, embora haja dias em que não sei o que realmente sou. E isso acontece muitas vezes. Quase sempre, para ser preciso. Nunca li Marx nem esses teóricos da treta que combateram o estado burguês sendo eles próprios membros da burguesia. Nunca vi um comunista (que se diz comunista com todas as letras) mal na vida. Considero até que ser comunista, nos tempos que correm, é um luxo. Falam na esquerda caviar. Não vejo qual é o mal de ser de esquerda e gostar de caviar. O quê? Têm de gostar de sardinha assada. Ao preço que ela está mais vale quase comer caviar. Mas isso são contas de um outro rosário. O certo é que o verão agora já não é como era. E pouco ou nada se pode fazer.

26.8.09

A sério que tento ser sério


Ando a tentar fazer deste blogue um blogue sério. Mas não consigo. Não gosto de coisas sérias nem de ser levado a sério. Para pessoas sérias bastam os nossos políticos. Esses sim pessoas sérias e a sério. Eles e os seus meninos. Tudo gente séria. Querem um exemplo. Está um aqui bastante ilustrativo. A sério que me deu vontade de rir. Mas fiquei sério como um político a sério.

25.8.09

Acto Seguinte - Festival de Teatro da Guarda


Mais informações aqui

Um poema de Luís Filipe Cristóvão


Telegrama


Nesta fotografia sou eu
com cara de assustado
a olhar para uma parede em ruína

quando o comboio parou numa estação
qualquer que eu já me esqueci.

Sim, eu, a mão que segura o queixo,
e a cabeça a ter-se sempre na posição
de quem começa um novo começo.

Podes colocá-la numa moldura azul,
junto à comida dos passarinhos.

em E como ficou chato ser moderno, Torres Vedras: Livrododia Editores, 2007, p. 33.

Todos os dias são viagem (2)


A partida aconteceu por volta das oito e meia da manhã. Estava um dia claro e anunciava-se quente. O plano (há sempre um plano numa viagem) era chegar a Bilbao às quatro da tarde. Não havia pressa. Houve as paragens necessárias para esticar as pernas. Até que a catedral de Burgos se anunciou desde a “autovia”. Paragem para comer alguma coisa e passear à beira rio. Tempo quente. Passadas duas horas a viagem prosseguiu. De Bilbao levava a ideia preconcebida de que só o Guggenhein interessava e de que não havia mais nada de interessante para ver. É o que dá conversar com alguém antes de uma partida e anunciar-lhe o destino da viagem. O viajante deve manter para si o(s) destino(s) das suas deambulações. Só assim pode fruir livremente a sua viagem, pois a viagem tem de ser realmente sua e não a viagem dos outros.

24.8.09

Todos os dias são viagem

Para aqueles que se deixam flutuar a bordo dos barcos ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e a sua casa é o espaço sem fim.

Matsuo Bashô

No relato de uma viagem fica sempre muito por dizer. No recontar, aquele que viaja procura que o leitor viaje com ele, mas esquece que os lugares que visitou não são já os mesmo que o leitor visitará, mesmo que o seu relato seja objectivo e claro. Na verdade, não há razão (ou razões) para que o relato seja objectivo e claro. Viajar nunca pode ser algo objectivo e claro. Antes de partir não li Teoria da Viagem de Michel Onfray. Não quis condicionantes no meu deambular, interferências, questões: «Em que momento começa realmente a viagem?». Euskadi era o objectivo: Bilbao, Donostia, Gasteiz – do lado de cá dos Pirinéus; Baiona, Biarritz e Pau – do lado de lá. No total 2188 km (ida e volta). Sete dias e seis noites.

23.8.09

Versões


Insone

Caímos do sono
como dum cavalo que em fuga
nos abandona na negra
planície da noite.
E vagueamos sem rumo.
E pedimos ajuda aos livros,
que nos acompanham em silêncio
até aos arredores
da próxima cidade…
E no final a luz espalha-se
pelos mesmos aborrecidos caminhos
de onde ontem tentávamos
também inutilmente fugir,
em vão abandonar
para sempre.

Luigi Anselmi em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, p.25.

versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador.

14.8.09

Lí por aí


«O gabinete de crise pandémica da minha entidade patronal requereu que toda e qualquer viagem para países com mais de 500 casos de gripe A fosse comunicada superiormente, a fim de que o referido gabinete fornecesse aos trabalhadores um kit incluindo máscaras de protecção contra perdigotos e outros miasmas e um medicamento cujo produtor há-de estar a ganhar rios de pasta. Obediente e aterrorizado pela simples menção da sigla H1N1, deixei-me ficar em casa, escondido, encolhido entre os lençóis, mal me atrevendo, sequer, a bisbilhotar a vida dos vizinhos por entre as cortinas. Levanto-me só para ver nos noticiários da televisão as novidades sobre a gripe e, mesmo assim, vi as férias arruinadas pelo anúncio segundo o qual a pátria sã já conta mais de seiscentas vítimas da pestilenta gripe - e eu não sei o que faça agora, se me deixe estar quietinho, se me apresente no local de trabalho comunicando ter estado num país de alto risco, reclamando a correspondente atribuição do higiénico kit e a concessão de alguns dias de quarentena lá mais para Setembro.»

Manuel Jorge Marmelo em Teatro Anatómico

Rogério Casanova é destronado pelo Senhor Palomar, mas eu ainda prefiro ler O Leitor Sem Qualidades


Para além de ter encontrado a nova coqueluche dos blogues portugueses (não sei por que razão o Senhor Palomar não fez um link para este blogue pois faz links para tudo e mais alguma coisa), encontrei, também, este outro blogue. Bem escrito e interessante. A seguir e ler com muita atenção.

Da cor


Como o tempo não ajudou para ir até ao rio, parte da tarde na esplanada. Conversa: eleições autárquicas locais (isto é: Manteigas). Conclusão: apesar de alguns concordarem que a situação local está má, que é necessária a mudança, inverter a situação, a cor partidária fala mais alto.

Rio (2)


Não ajudou.

Rio


Ontem ida ao rio na companhia de amigo e amiga (sim, aprecio a companhia feminina). Tudo estava bem até que amigo diz: vai chover, sinto que vai chover. E choveu. Uma trovoada jeitosa com incêndio à mistura. Tarde estragada. Hoje iremos tentar novamente. Oxalá o tempo ajude.

12.8.09

Um poema de Rute Mota


Crescemos
à beira do caminho:

sementes
ervas breves
caindo.


em Nenhuma palavra nos salva, Torres Vedras: Livrododia Editores, 2007, p. 75.

Hora de café


Este post está a ser escrito no momento exacto em que tomo a bica no café do costume. Há algum movimento na rua, mais do que nos outros dias. Os emigrantes que regressam ajudam um pouco na revitalização do centro da vila. Eles e mais alguns que estão em trânsito, de passagem para outros lugares. Está um calor intolerável. Um amigo diz que hoje no pomar dele apanha 45 graus enquanto apanhava a fruta. Não imagino 45 graus. Ou melhor: imagino. Uma vez em Sevilha foram abertas as portas do inferno (uma frase feita, eu sei). Era um muito calor. Lembro-me que dormi muito mal. Melhor. Não dormi. Chegou agora um amigo e também trouxe o seu portátil. Gosto do nome portátil. O meu portátil. Fica sempre bem dizer que se tem um portátil e que o portátil é meu. O meu portátil. Gosto dele. Não estou apaixonado por ele. Mas gosto muito dele. Como podem ver o meu cérebro começa a ficar afectado com tanto calor. É claro que não é só o calor que o afecta. Ou melhor: ele já é afectado por natureza. O meu amigo está a tentar aceder à rede. Acho que já conseguiu. Bem. Vou pedir mais um café com gelo. Sabe sempre bem um café com gelo em dias de calor.

Fiódor Dostoiévski


«O final dos finais, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é uma inércia consciente! Por isso, viva o subterrâneo! Embora eu tenha dito que sofro de uma inveja biliosa pelo homem normal, não gostaria de ser ele nas condições em que o vejo (embora não deixe de o invejar. Não e não, aconteça o que acontecer, o subterrâneo é mais vantajoso!). Lá, pelo menos, pode-se… Eh, lá estou outra vez a mentir! Minto porque sei, como dois mais dois são quatro, que não é o subterrâneo que é melhor, mas qualquer outra coisa, completamente outra, a que eu aspiro mas nunca mais encontro! O subterrâneo para o raio que o parta!»

Fiódor Dostoiévski, Cadernos do Subterrâneo, Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2007, p. 61.

Lí por aí


«Conheci Jorge de Sena, em Itália, no ano de 1976. Convivemos quinze dias, divididos, salomonicamente, entre Taormina e Roma. Tinham-me dito que Sena não era pessoa fácil, vaidoso e agressivo, umbiguista, só curando dele própria e da própria obra. Encontrei, porém, um homem atento, aberto aos outros, sujeito de candura, de uma boa ingenuidade adolescente, que os anos nunca apagariam.»

Manuel Poppe em Sobre o risco

Dos dias


Se tivesse de escrever todos os dias alguma coisa acabaria por escrever muita pouca coisa ou mesmo nada.

11.8.09

Um poema de Henrique Manuel Bento Fialho

Os Bichos

Parece o movimento
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.

em Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe, Rio Maior: Edição de Autor, 2000, p. 29.

Sinopse


«Um poeta do umbigo quotidiano»

Depois de uma longa pausa...


o amor é um cão do inferno está de volta com mais versões de poemas de Charles Bukowski.

Há dias assim. O que se pode fazer?


Os filhos do vizinho em frente tomam banho numa daquelas piscinas que se colocam nos terraços e jardins e se enchem com água da rede pública. Estão felizes. O pai observa-os deitado na sua espreguiçadeira. Tenta bronzear-se num terraço como se o fizesse na praia. Os colegas dele em França vão pensar que ele passou quinze dias no Algarve. Ele não irá desmentir tal pensamento. O meu dia começou assim: crianças a rirem e a gritarem de felicidade. E eu sem achar piada nenhuma nisso.

Abstenção (2)


Este texto de Henrique Manuel Bento Fialho é para ler do príncipio ao fim. Eu concordo com cada uma das palavras.

10.8.09

Pensamento do dia


Fields of the Nephilim - Wail of Sumer

Fields of the Nephilim - And there will your heart be also

Um poema de Al Berto


1

pernoitas em mim
e se acaso te toco a memória… amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

… é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes…


em «Rumor dos Fogos» (1983), in O Medo, Lisboa: Contexto, 1987, p. 371.

Abstenção


Ontem, no café do costume (Casa da Árvore – quando estou em Manteigas), confessei aos meus amigos que tinha deixado de votar. Ficaram todos muito admirados com a situação e alguns deles mostraram a sua indignação. Alegaram que a partir daquele momento eu não me poderia queixar mais sobre a situação do país, pois ao não votar perdia a moral toda para dizer o que quer que seja. Para eles o descontentamento é demonstrado nas urnas, com o voto em branco. Não me é fácil defender a abstenção como forma de descontentamento. Não voto por uma simples razão: deixei de acreditar no nosso sistema democrático e “representativo” que só perpetua o poder centralizado nas mesmas pessoas. Deixei de acreditar num sistema que promove a corrupção, o laxismo, a injustiça social, que nivela por baixo na educação, no saber. Por isso deixei de votar.

Do espírito


Uma coisa que me complica com o sistema nervoso central é o “espírito”. Não o “espírito” na sua vertente esotérica ou filosófica. Antes o “espírito” na sua vertente festival de verão ou outra festividade qualquer. Quando ouço alguém dizer vim cá por causa do espírito, fico pior que estragado.

9.8.09

Santa Teresa de Ávila


«Embora isto do conhecimento próprio jamais se deva deixar, não há alma tão gigante que não tenha muitas vezes de tornar a ser menino e de mamar (e isto jamais se olvide e quiçá o direi mais vezes, porque importa muito)»


Santa Teresa de Ávila, «Livro da Vida», em Obras Completas, Paço de Arcos: Edições Carmelo, 2000, p. 108.

Do compreender



Não fui muitas vezes ao Santuário de Fátima. Das vezes que fui até lá fiquei impressionado com as pessoas que andam de joelhos pelo chão cumprindo promessas antigas ou não. Ontem vi um pai que transportava um filho de meses ao colo, enquanto de joelhos dava voltas à Capelinha das Aparições. Nunca estive numa situação de desespero para recorrer a tal atitude. Acredito que só uma situação de total desespero pode levar alguém a fazer aquilo que fazem no Santuário de Fátima. Com questões de Fé (e há que respeitá-las, apesar de às vezes nos parecerem absurdas) não se brinca. Uma pessoa minha conhecida, muito minha amiga e que eu considero inteligente, passou, há algum tempo atrás, por uma situação muito difícil. Questões de saúde com um familiar. Disse-me um dia que chegou a estar tão desesperada que se lhe dissessem que bebendo fogo o seu familiar se curava ela o faria sem hesitar. Desde esse dia que, sempre que vou ao Santuário de Fátima, olho com outros olhos para as pessoas que por lá cumprem promessas arrastando-se pelo chão.

Lí por aí



«Há por aí um grupo de pessoas dedicadas a tecer loas a uns aparelhos muito modernaços que, segundo consta, servem para ler e são capazes de armazenar quatrocentos livros lá dentro. Não sei como é que estes indivíduos fazem para arranjar vagar para ler quatrocentos livros ou a que habilidades circenses se dedicam para conseguirem lê-los todos ao mesmo tempo. Eu só consigo ler um livro de cada vez e, se tivesse tempo para ler quatrocentos livros, preferia ir morar numa biblioteca.»



Manuel Jorge Marmelo em Teatro Anatómico

A meio


Cheguei à fantástica conclusão de que nunca chego a lugar nenhum. De que fico sempre a meio.

Do exílio



O que leva o escritor a exilar-se? Existem as questões políticas, é certo. Mas o que leva um escritor a auto-exilar-se? Paul Bowles passou a viver e a escrever em Marrocos, longe dos grandes centros (Paris e Nova Iorque). George Orwell, quando Animal Farm vendeu tanto nos Estados Unidos da América que nunca mais teve problemas com dinheiro, refugiou-se na ilha de Jura na Costa Ocidental Escocesa. Sobre Laurence Durrel há rumores de que nunca teve nacionalidade britânica, ou outra qualquer, e foi definido como sem pátria em 1968. Teixeira de Pascoaes refugiou-se em São João do Gatão. Fernando Pessoa foi um exilado de si mesmo. A ideia romântica do escritor exilado e auto-exilado – digo romântica pelo facto de me lembrar sempre de Shelley e Byron (e até Keats) como percursores – atravessou grande parte da grande literatura do século XX. É claro que as grandes perturbações sociais, aliadas a uma maior capacidade de mobilidade, muito contribuíram para isso. Mas o que leva mesmo um escritor a auto-exilar-se?