19.12.09

Um poema de Jorge Melícias

Rente à Cegueira


Havia os que vinham de longe,
trazendo nas mãos e nos olhos o mar exilado.
À porta descalçavam as sandálias
gastas de inventariar o pó,
e antes que entrassem na casa do poema
coroavam-se de silêncio e silvas.
Percorriam então longamente as paredes
fechando janelas onde não existiam,
e rente à cegueira iam recolhendo as aves
que tropeçavam na luz dos dedos.
Grandes rios negros atravessavam a noite e os gestos,
e as palavras doíam na boca como feridas acesas.

E havia outros, os que rondaram toda a vida
a casa do poema sem nunca se atreverem a entrar.
Únicos eram os passos que os viajavam,
e generosos os lábios que nos seus lábios
mediam os dias pelo açúcar dos frutos.


em Revista A Mar Arte, Coimbra: A Mar Arte, nº 5, Outono de 1996, p. 30.

1 comentário(s):

Luís Filipe Nunes disse...

Não pude deixar de reparar nos vários erros: inventariár, avaes, açucar.


De qualquer forma,gostei do poema e mais deste Melícias, menos pastiche do Herberto.