Havia os que vinham de longe,
trazendo nas mãos e nos olhos o mar exilado.
À porta descalçavam as sandálias
gastas de inventariar o pó,
e antes que entrassem na casa do poema
coroavam-se de silêncio e silvas.
Percorriam então longamente as paredes
fechando janelas onde não existiam,
e rente à cegueira iam recolhendo as aves
que tropeçavam na luz dos dedos.
Grandes rios negros atravessavam a noite e os gestos,
e as palavras doíam na boca como feridas acesas.
E havia outros, os que rondaram toda a vida
a casa do poema sem nunca se atreverem a entrar.
Únicos eram os passos que os viajavam,
e generosos os lábios que nos seus lábios
mediam os dias pelo açúcar dos frutos.
em Revista A Mar Arte, Coimbra: A Mar Arte, nº 5, Outono de 1996, p. 30.
1 comentário(s):
Não pude deixar de reparar nos vários erros: inventariár, avaes, açucar.
De qualquer forma,gostei do poema e mais deste Melícias, menos pastiche do Herberto.
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