Pensamento do ano


The Sound - Skeletons

There's a gaping hole in the way we are
With nothing to fill it up anymore
No flesh, no blood, just broken bone
A frame to hang our lives from

We're living like skeletons
We're living like skeletons

Won't someone wake the dead in me
Won't someone shake the dust off me
Give me water give me bread
But don't give me up for dead

We're living like skeletons
We're living like skeletons

Ensino Recorrente


O café


No lugar onde estou sentado, aqui no café onde agora costumo vir diariamente, tenho uma boa visão da sala. Vejo de tudo: jovens ligados à rede (tal como eu), turistas equipados como se fossem para a neve nos Alpes, o ocasional emigrante que prefere esta altura do ano ao verão. Há olhos que se vigiam constantemente, que se insinuam. A aguardente velha escorre bem e o café quente aquece por dentro. Hoje, sabe bem estar aqui.

John Theodore Duncan (1820-1870)


John Theodore Duncan nasceu numa pequena vila escocesa do actual Condado de Dumfries and Galloway no ano de 1780, filho de um abastado agricultor que cedo incutiu no seu filho o gosto pelas letras. Desde muito cedo John Theodore Duncan ouviu o seu pai ler-lhe partes da Bíblia, o que irá influenciar fortemente a sua escrita, nomeadamente os seus últimos poemas. Com a morte do pai, em 1835, herda uma considerável fortuna. Decide matricular-se em Oxford no curso de Medicina, que não termina devido à sua veia boémia. Em 1848 encontra-se em Londres e entra em contacto com John Everett Millais, que o apresenta a Dante Gabriel Rossetti, de quem se torna grande amigo, e supõe-se que amante da irmã deste, a poetisa Christina Rosseti. É Dante Gabriel Rosseti que o ajuda a publicar os primeiros versos, compilados no livro Poems From Another Time (1849), título que remete para o imaginário pré-rafaelita. John Ruskin caracteriza a poesia de John Theodore Duncan como «bastante frágil, mas que consegue, não obstante, atingir alguns momentos de comovente simplicidade. É um dos poucos escritores dignos de nota.». O livro alcança relativo sucesso junto do público. Em 1850 parte novamente numa viagem pela Europa. Entre 1850-1852 visita Itália onde conhece Josefina Giovanni, com quem casa em 1853. Contudo, a relação não é duradoura: John Duncan leva uma vida de boémia, regada a álcool e experiências com opiáceos, ausentando-se de casa durante vários dias. Josefina Giovanni pede o divórcio – que lhe é concedido – e regressa a Itália, onde viria a morrer três anos depois, vítima de tuberculose. Entre 1852 e 1862 John Theodore Duncan publica vários livros de poesia (de onde se destaca A Forgotten Word), peças de teatro e um livro de viagens intitulado In Europe. Em 1862 John Theodore Duncan publica o seu último livro de poemas, Let It Rain, e retira-se para a sua propriedade na Escócia. Considerado por muitos estudioso como a sua melhor obra, Let It Rain revela uma poesia marcada pela infelicidade, onde o poeta exprime, com algum dramatismo, a sua fragilidade enquanto ser humano em luta consigo mesmo. Morre em 1870, depois de oito anos de reclusão voluntária na casa que o viu nascer.

Lí por aí


«Após ler Os indiferentes, de Alberto Moravia, confesso que, para 2010, quero um pouco menos de tédio, um pouco menos de alienação, um pouco menos de angústia. Porque a verdade não é apenas essa, por mais confortável que seja pensá-lo.»

José em Tio Vânia

Jacques Philippe de Saint-Antoine (1436-1456)


Nascido em 1436 no seio de uma família da nobreza francesa, Jacques Philippe de Saint-Antoine é o primeiro de nove filhos que o casal Saint-Antoine, Pierre e Julia, teve. Pouco se sabe da sua infância, apenas que foi educado à maneira italiana, isto é, dentro dos ideais do Humanismo, que estudou na Universidade de Paris – onde se formou em Teologia – e frequentou a corte de Charles d’Orlléans, onde, por intermédio deste, conheceu François Villon, de quem se tornou grande amigo. Influenciado por Villon, dedicou-se à poesia, compondo uma série de poemas a que deu o título genérico de Ballades, e que foram publicadas em Paris no ano de 1456, tinha Jacques Philippe de Saint-Antoine vinte anos. Desse livro destaca-se o poema longo Ballade pour une dame, que gerou alguma polémica e que forçou o escritor a abandonar Paris, procurando refúgio na cidade de Angers, onde reencontrou François Villon, depois deste também ter fugido de Paris, acusado de roubo. É na cidade de Angers que Jacques Philippe escreve o livro Le testament, que mais tarde François Villon apresentou como sendo seu. Diz a lenda que Jacques Philippe de Saint-Antoine o escreveu em dois dias e duas noites, num estado febril, que muitos consideram de êxtase. Morreu, de forma misteriosa, dois dias depois da conclusão daquela que muitos consideram a sua obra-prima.

Ensino Recorrente



Um poema de Manuel de Freitas


III (Grande Hotel de Paris)

para a Inês Dias

A morte, claro. Existem porém
dias grandes, irredutíveis a versos,
em que a indecisão da luz
nos açoita de felicidade.

São dias raros, futuras
imagens do nada, o suficiente
para que a palavra amor substitua
o primeiro cigarro da manhã.

Chegámos tarde. O quarto 203
trazia-me de novo o teu corpo.
E até a música dos sinos
vinha deitar-se connosco.

em A Flor dos Terramotos, Lisboa: Averno, 1ª edição, 2005, p. 27

A decisão


Decidi ficar em casa. Considero que não há nada mais deprimente do que ficar em casa num sábado à noite e às dez horas ter já o pijama vestido. Surpresa? Nunca consegui dormir sem pijama. Tenho até pijamas para o verão. Fui até à sala com as Entrevistas da Paris Review. Sentei-me e liguei a televisão. E por ali fiquei a fazer zapping, que, a bem da verdade, foi um programa de televisão bastante interessante. Uma reposição não fazia mal a ninguém. É claro que as Entrevistas ficaram a olhar para mim. Até agora a mais interessante que eu li foi, sem dúvida, aquela que foi feita a E.M. Forster. Forster, comparado com os restantes que estão incluídos no volume, é um escritor de um outro tempo. Fiquei com vontade de finalmente ler Um Quarto com Vista, que está para ali arrumado desde o dia que o comprei. Tenho muitos livros que comprei e ainda não li. Mas não faz mal. Quando um dia os quiser ler eles estão ali. À minha espera.

O conforto


A neve durou pouco. O frio é que se mantém. Aqui em casa o aquecimento central dá-me um certo conforto, mas lembra-me versos de José Miguel Silva:
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível…
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana ao Alto Douro.*
Às vezes a poesia tem destas coisas.

*em Movimentos no Escuro, Lisboa: Relógio D'Água, 1ª edição, 2005, p. 54.

Lawrence Durrell


«A poesia acabou por se revelar uma amante extraordinária. Porque a poesia é forma, e o namoro e a sedução da forma é a regra do jogo. Pode-se ter todo o aparato do mundo mas aquilo que é necessário, no fim de contas, é algo assim como que um - não sei - um laço... algo extremamente delicado, para caçar veados selvagens. Oh, não, eu vou arranjar uma analogia para isto. Escrever um poema é como tentar apanhar um lagarto sem que lhe caia a cauda. Só havia um miúdo, na minha escola, capaz de apanhar um lagarto intacto. Ninguém sabia bem como ele conseguia fazer aquilo. Tinha um modo especialmente delicado de chegar até eles e trazi-os com a cauda. Esta parece-me ser a melhor analogia que lhe posso dar. Tentar e conseguir agarrar o poema sem que a cauda lhe caia.»

em Entrevistas da Paris Review, selecção e tradução de Carlos Vaz Marques, Lisboa: Tinta da China, 1ª edição, 2009, p.156.

A Montanha



Sempre que olho pela janela do meu quarto/escritório/biblioteca é esta a paisagem que tenho. Às vezes, no inverno, tenho a felicidade ter a Montanha com um pouco de neve. Hoje é o caso. A neve que caiu ontem enganou um pouco. Todos pensámos que hoje estaria um dia branco. É que esteve a nevar desde as cinco da tarde até às dez da noite. Mas logo começou a chover. Mas regressemos à janela. Durante muito tempo ela foi a minha janela para o mundo. E não estou a exagerar nem a ser melancólico ou, simplesmente, mau escritor, pois escritor é coisa que não sou, embora tenha acalentado esse sonho durante muito tempo. Os fios de alta-tensão fazem parte da paisagem. Sempre fizeram. Para muitos esta janela pode ser fonte de inspiração. Só que a Montanha é demasiado montanha para as palavras. As palavras nada querem com a Montanha.

Um poema de Joan Soares Coelho


Cantiga de Mal-Dizer
Luzia Sánchez, jazedes en gran falha
comigo, que non fodo mais nemigalha
d'ua vez; e, pois fodo, se Deus mi valha,
fiqu' end' afrontado ben por tercer dia.

    Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
    se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
Vejo-vos jazer migo muit' agravada
Luzia Sánchez, por que non fodo nada;
mais, se eu vos per ouvesse pagada,
pois eu foder non posso, peer-vos-ia.

    Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
    se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,
que já non pode sol cospir a saíva
e, de pran, semelha mais morta que viva,
e, se lh' ardess' a casa, non s'ergeria.

    Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
    se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
Deitaron-vos comigo os meus pecados;
cuidades de mi preitos tan desguisados,
cuidades dos colhões, que tragu' inchados,
ca o son con foder e con maloutia.

    Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
    se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

em Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Réis-Sá e Rui Lage, Porto: Porto Editora, 1ª edição, 2009, p.41.

A neve (2)


( Fotografia tirada às 18h30m de hoje)

A neve


A neve lá decidiu começar a cair. Desde as cinco da tarde que neva aqui em Manteigas.

Feliz Natal


Rage Against the Machine - Killing in the name

A década


Já não basta os melhores do ano que passou. Agora são os melhores da década. Somos um povo mesmo exagerado e sem nada com que se preocupar. Eu já nem sei o que comi ontem (por acaso até sei, é apenas uma força de expressão) quanto mais saber o que li e o que ouvi em 2000 ou 2001 ou 2002 ou 2003 ou 2004 ou 2005 ou 2006 ou 2007 ou 2008 ou 2009.

Um poema de Robert Creeley


A Proposta Imoral

Se nunca fazes nada por outrém
poupas-te à tragédia das relações hu-

manas. Se tranquilamente e como outras vezes
há a passagem de uma coisa inesperada:

olhar para ela é mais
do que era. Deus sabe que

nada é competente nada é
tudo o que há. O inseguro

egoísta não é
bom para si.

em Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana, selecção, tradução, prefácio e notas de Manuel Seabra, Lisboa: Editorial Futura, 1973, p.49.

A neve?


Para aqueles que pessam que estou atolado em neve até ao pescoço, numa espécie de Noruega à portuguesa: neve? nem vê-la. Atravessei a Serra sem qualquer problema (excepção feita ao cerrado nevoeiro). Neve? Lá no alto, na Torre, mas tão pouca que nem dá para contar uma história. Chuva? A potes. E vento também.

O regresso (2)


O André Moura e Cunha tinha regressado e eu não tinha dado conta. Leitura diária.

O regresso


Paragem em Coimbra. Almoçar. Depois, viagem até Manteigas. Parece que há por lá frio. Ontem, parei nas Caldas da Rainha. Almocei com o Henrique. Almoço agradável. Conversa à altura. E uma prenda no bolso, que nos sapatinhos estavam os pés cansados.

Hoje: Ventilan




quarta-feira, 23 de Dezembro às 22h00
Concerto de Natal
Ventilan


Os Ventilan não nasceram de uma ideia, nasceram de uma vontade. Não são, por isso, um projecto. São puro acto. Seguem à risca a máxima segundo a qual a poesia é cada vez mais claramente a antimatéria da sociedade de consumo. Cada acto é um ensaio e cada ensaio é, helás!, um acto. Raramente o acto acontece mais que uma vez por ano. Os (in)suspeitos implicados são: Nuno Moura na leitura, Pedro Serpa nos sopros, Henrique Fialho nas cordas, Luís Fonseca no teclado. Por cima do ruído é costume escutarem-se versos, mas nada impede que por cima dos versos se venha a escutar ruído. Tudo porque a poesia é, também e talvez sobretudo, para gingar, pronunciar, respirar, dançar, menear, cantarolar, representar, exorcizar, clamar, vociferar, gritar, goelar, tragar, manjar, respirar, respirar, respirar.



Nuno Moura Henrique Fialho Pedro Serpa Luís Fonseca


Mais informações: aqui.

O Top Musical 2009


A curiosidade


Considero curioso que alguém ainda faça críticas literárias a livros da Emily Brontë.

A entrevista


Comecei a ler Entrevistas da Paris Review (Tinta da China, 2009). Cheguei a Faulkner e parece que estou a ler uma entrevista a António Lobo Antunes.

Um poema de D.H. Lawrence


Democracia

Sou democrata na medida em que amo o livre sol dos homens
e aristocrata na medida em que detesto as possessivas tacanhas [criaturas.

Amo o sol em qualquer,
quando o vejo na fronte,
claro, sem temor, ainda que frágil.

Mas, quando vejo os pardos homens prósperos,
hórridos e cadavéricos, inteiramente sem sol,
como obscenos escravos prósperos saracoteando-se mecânicamente,
então sou mais que radical, desejo a guilhotina.

E quando vejo os que trabalham,
pálidos e vis como insectos, às corridas
e como piolhos vivendo, com dinheiro contado
e sem nunca erguer os olhos,
então, como Tibério, desejo que a multidão tivera uma cabeça
para decepá-la de um só golpe.
Eu penso que, quando as gentes perderam totalmente o sol,
não têm direito a existir.

em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 3ª edição, 2003, p.190.

A diferença


A pergunta é feita. A questão permanece connosco.

A pergunta


Muitas vezes perguntam-me por que razão não tenho muita tolerância ao frio sendo eu natural de uma vila fria. E a mim apetece-me responder: não é pelo facto de sabermos que todos os dias morrem pessoas, que nos habituamos à ideia de que um dia também nós vamos morrer, ou é?

O estrangeirismo


Pela parte que me toca, ainda tenho alguma consideração pela minha vida, apesar dela, às vezes, ser uma verdadeira bitch.

Revista Sítio 5



Discos pedidos (10)


Lembro-me que antes era mais fácil. Chegava à discoteca (lugar onde se vendem discos, entenda-se) e ficava a par das novidades. Elas chegavam a um ritmo que era possível acompanhar. Hoje tudo é diferente. As novidades vão e vêm, tentar acompanhar torna-se tarefa difícil. Discos como Two Dancers, dos britânicos Wild Beasts, podem-nos passar ao lado. Editado em Agosto de 2009, Two Dancers é o sucessor de Limbo, Panto (2008). O que mais se sente quando se ouve pela primeira vez a música dos Wild Beasts é a aparente fragilidade das composições, juntamente com a voz em falsete de um dos vocalistas (as vocalizações dos temas são repartidas entre Hayden Thorpe e Tom Flemming). Algumas das influências da banda tornam-se evidentes numa primeira audição: a pop dos anos oitenta está lá toda, tanto a boa como a má, só que os Wild Beasts têm a capacidade de só aproveitar o melhor de ambas. É dessa junção que nascem músicas como The Fun Power Plot, Hooting & Howling e We Still Got The Taste Dancin' On Our Tongues. Arrisco afirmar que este último tema só não se torna num clássico pelo simples facto de hoje não ser permitido que isso aconteça: há demasiada música para ser ouvida, demasiada informação chega até nós pelos mais diferentes canais, já não perdemos tempo a gravar cassetes, a passá-las de mãos em mãos, já não deixamos as músicas envelhecer como um bom vinho. Apesar de tudo isto, Two Dancers é um álbum que irá envelhecer. E sem dúvida que irá envelhecer bem.

A frontalidade


Tento ser o mais honesto possível comigo e com os outros. A honestidade foi, desde muito cedo, um conceito que adquiri. É claro que, ao longo dos anos, a honestidade deu origem à frontalidade. Tento, também, ser o mais frontal possível. Ser frontal, nos dias de hoje (a par com ser honesto), deve ser do mais ingrato que pode haver. A frontalidade acaba sempre por nos dar um pontapé no cu. Ninguém está para ouvir outro alguém ser frontal. É terrível, devo admitir. Já muitos foram frontais comigo e custou a engolir.

A Cicatriz do Ar - Jorge Fallorca


Jorge Fallorca, A Cicatriz do Ar, Lisboa: edição de autor, 2009.

A manhã


Acordei tarde. Tomei o pequeno-almoço no café onde os que auferem de rendimento mínimo também vão todos os dias – também eles são filhos de Deus! (eu sei que não devo ser assim tão mau, nem parece que sou de esquerda, serei?). Saí à rua com um sol forte a dar-me cabo dos olhos e os óculos-de-sol esquecidos em Manteigas já lá vão duas semanas. Surpresa das surpresas: uma pequena banca a vender livros em segunda mão – alguns em terceira e outros a perderem a conta das mãos pelas quais passaram. Comprei alguns. Entre eles O Mundo do Silêncio, de Jacques-Yves Cousteau e Frédéric Dumas, numa edição da Portugália (sem data) e com uma inscrição no interior: Natal – 63. Foi uma manhã boa.

Pensamento do dia


Wild Beasts - Hooting & Howling

Um poema de Daniel Filipe


6.
Pelo silêncio na planície pela tranquilidade em tua voz
pelos teus olhos verdes estelares pelo teu corpo líquido de bruma
pelo direito de seguir de mão dadas na solidão nocturna
lutaremos meu Amor
Pela infância que fomos pelo jardim escondido que não teve o nosso amor
pelo pão que nos recusam pela liberdade sem fronteiras
pelas manhãs de sol sem mácula de grades
lutaremos meu Amor

Pela dádiva mútua da nossa carne mártir
pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial
pela cidade escravizada pela doçura de um beijo à despedida
lutaremos meu Amor

Pelos meninos tristes suburbanos
contra o peso da angústia contra o medo
contra a seta de fogo traiçoeira cravada
em nosso doce coração aberto
lutaremos meu Amor

Na aparência sozinhos multidão na verdade
lutaremos meu Amor

em A Invenção do Amor e Outros Poemas, Lisboa: Presença, colecção Forma, 11ª edição, 2006, pp. 48-49.

A poesia


A poesia seria ainda mais fantástica sem poetas.

Lí por aí


«e é tão simples reconhecer que de tudo aquilo que lemos, pesquisamos, aprendemos, a grande parte fica em nós como algo que não conseguimos explicar, mas que transportamos, transportamos para tudo aquilo que fazemos.»


Luís Filipe Cristóvão em o homem que queria ser luís filipe cristóvão.

O trágico, a tragédia


Todos nós temos direito a ser trágicos. Só que poucos são aqueles que compreendem a nossa tragédia. Razão? Não há razões. Daí a tragédia.

O seguidor


Perdi um dos seguidores.

A lombalgia


Continua a moer. Ontem, depois de descarregar o carro, voltei a ser atacado por ela. Chegou de chinelos calçados para não a ouvir, mas acredito que nunca tenha partido: estava apenas adormecida e decidiu acordar. E acordou como eu acordo todos os dias: mal-disposta.

A natureza humana


As pessoas de quem mais gostamos são sempre as primeiras a levar p'ra tabaco. É quase impossível que isso não aconteça. São as primeiras a estarem lá para nos dar o apoio de que precisamos, as primeiras a estender a mão e as primeira a levar p'ra tabaco. Nestas situações somos como animais encurralados: mordemos a mão de quem aparecer, nem que tenha aparecido para ajudar.

Joan Margarit na Casa Fernando Pessoa



Joan Margarit, uma das grandes figuras da poesia catalã contemporânea, lança o seu primeiro livro em Portugal a 14 de Dezembro, pelas 18.30h, na Casa Fernando Pessoa. Na sessão participará também o escritor Fernando Pinto do Amaral. Casa da Misericórdia tem chancela da ovni e tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, e recebeu, entre outros, o Prémio Nacional de Poesia em 2008, galardão conferido anualmente pelo Ministério de Cultura de Espanha à obra de poesia que mais se destaca em qualquer uma das línguas oficiais do país. Para mais informações, por favor consulte:






A edição portuguesa de Casa da Misericórdia tem o apoio do Instituto Ramon Llull.

Um poema de José Carlos Ary dos Santos


Retrato de Rimbaud

Pois comigo na cama é que eu te queria
morder-te os sons visíveis e perversos
e enforcado nos cornos da poesia
esfregar-me nas imagens e nos versos.

Pois comigo na cama é que eu te queria
arco-íris de letras flor de gritos
dançando até ao espasmo da alegria
o apaixonado baile dos malditos.

Pois comigo na cama é que eu te queria
iluminado pelo cio aberto
da bala que se vê não se vigia
parece longe e entanto está tão perto.

em Fotos-Grafias (1970) inserido em Obra Poética, Lisboa: Edições Avante, 3ª edição, 1995, p.266.

O(s) número(s)


Parece que há 1805 entradas neste blogue e 15 pessoas a seguir o blogue.

O erro


Homem que não erra é qualquer coisa de intermédio. Errar, como sabemos, é humano. Embora o erro se pague sempre caro. E, talvez, o principal erro do Homem seja teimar em existir. “Quem nunca errou que atire a primeira pedra” – foi isso qu’Ele nos tentou ensinar. Reparem que digo: tentou. Já Kurt Vonnegut dizia: que me interessa a mim que Ele seja filho ou não de Deus, o que importa foi o que Ele disse e fez. Claro que há a questão: e se não foi ele que disse e sim outro em vez dele. E será que isso importa?

O seguidor


Tenho treze seguidores (eu incluído, pois gosto de seguir-me). Alguém mais que me siga, para fazer catorze. É que sou um pouco supresticioso.

Um poema de Cesare Pavese


Paisagem VII

Basta um pouco de dia nos olhos claros
como um fundo de água e invade-a a ira,
a aspereza do fundo riscado pelo sol.
A manhã que volta e a encontra viva
não é doce nem boa: olha-a imóvel
entre as casas de pedra que o céu fecha.

O pequeno corpo sai entre a sombra e o sol
como um animal lento, olhando à volta,
não vendo outra coisa que não sejam cores.
As vagas sombras que vestem a rua e o corpo
ensombram-lhe os olhos, apenas entreabertos
como uma água e na água transparece uma sombra.

As cores reflectem o céu calmo.
Também os passos lentos no empedrado
parecem pisar as coisas, como o sorriso
que as ignora e escorre por elas como água clara.
Na água perpassam vagas ameaças.
Todas as coisas do dia se crispam à ideia
de que a rua estaria vazia, se não fosse ela.

em Trabalhar Cansa, Lisboa: Cotovia, tradução e introdução de Carlos Leite, 1ª reimpressão, 2008, p.87.

Ensino Recorrente