«ou teoria da falsa amnésia estrutural, ou a razão preconceituosa por que os novos narradores e poetas portugueses (alguns com mais de 60 e 80 anos) falham redondamente e, por isso, ninguém os lê. Primeira resposta, errada: ninguém nos lê porque ninguém sabe ler-nos como nós pensamos que somos. Falares de ti com os outros não é contigo. Não inventes os outros para falares só de ti, e não te inventes um eu virgem como se fosses um amnésico em demanda de uma identidade – é a sugestão do dia. Vês a coisa como a procura de uma linguagem nova, de uma voz, oh quão dolorosa tantas vezes, valorizas demasiado o silêncio e falas, falas para o explicar. Calavas-te, ó montador de andaimes verbais, é isso o silêncio; e assim como já tens a identidade, e até o respectivo bilhete, também já tens a linguagem, deu-ta a mamã natal, só tens de saber contar com ela uma história ou a impossibilidade de uma história. Mas, assim como o silêncio deixa de o ser quando o embrulhas em sonoras palavras, também a amnésia deixa de o ser quando uma das partes do texto literário – a tua – parece recordar sempre alguma coisa, ou então o texto deixaria de ser possível. Literatura é memória, gravação de memórias do corpo e da alma. Falsa amnésia é a gente lembrar-se do perfeitamente invisível e esquecer-se do inesquecível. Esta frase parece a de um introvertido blogue literato, e no entanto é legítima. Sim, montador de andaimes verbais, em que lugar da tua memória esqueceste os inesquecíveis amigos de infância, a tua primeira desilusão, o teu primeiro trabalho, as tuas primeiras humilhações, os teus primeiros pontapés, o medo e a interrogação? Se esqueceste a tua vida e continuas a fechar-lhe os olhos, para escreveres vês-te obrigado a inventá-la e, como diz o ditado, o inventado sai borrado. – Bolas, mas já não se usam os neo-realistas – dirás cheio de razão. Um dia, quando a vida da tua obra parecer que te largou da mão, onde nunca esteve, e ficares mesmo sozinho – e a tua obra são também os outros – verás: tens o andaime mas não tens a casa. Ah, e também nunca descrevas cenas de sexo se nunca fizeste aquele sexo que vem no teu livro.»
GAF em O Vermelho e o Negro
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