Vamos ao que interessa. Nasci em 1977, numa casa de saúde na Covilhã, apesar de o meu pai, aquando do registo, dizer que tinha nascido em Manteigas, em casa, pois parece que naquele tempo era obrigatório o registo na cidade ou vila em que se tinha nascido e o meu pai não me quis natural da Covilhã, fez ele muito bem. A fortuna na minha família não existia, por isso não posso dizer que estava minada pela crise petrolífera que afectou o mundo, assim essa não-fortuna prolongou-se para além da minha maioridade, mas devo dizer que nunca nada me faltou, apesar de muitas vezes vestir a roupa de um ou outro primo, o que na realidade nunca me aborreceu e, às vezes, ainda me lembro de uma camisola de gola alta da qual gostava muito, a única prova de que ela existiu está numa fotografia tirada no dia 25 de dezembro de um natal qualquer e digo qualquer pelo facto de não saber o ano, na altura ainda não havia a possibilidade de tirar fotografias com máquinas digitais (embora existissem as polaróides) que colocam a data na fotografia, o que é algo que não me agrada, pois tira todo o interesse à fotografia – impede a discussão sobre quando é que ela foi tirada. É claro que as máquinas digitais vieram democratizar a fotografia, como é óbvio a democratização de algo nem sempre é uma boa coisa e isso aconteceu com a fotografia: qualquer pode ter acesso a uma máquina fotográfica digital e armar-se em Robert Capa, eu que o diga, pois quando saio com a minha transfiguro-me numa espécie de repórter de guerra à antiga e disparo na direcção de tudo aquilo que mexe. Mas nem tudo é mau: antes gastava uma pipa de massa na revelação de rolos que não traziam uma única fotografia decente. Agora, com o digital, sou eu que escolho aquelas que quero ou não ver no papel e raramente quero ver alguma no papel, embora considere que tenho uma ou outra fotografia conseguida e que não me deixam nada envergonhado, como não me deixa envergonhado certas coisas que fiz durante estes anos, principalmente na adolescência, quando não atribuía importância nenhuma a questões relacionadas com o futuro, aliás bastante longínquo nessa idade. Foi uma adolescência dolente e sem qualquer rasgo de originalidade – em todos os sentidos. Pensar em estudar era coisa que não fazia, apesar de, a partir de certa altura, começar a gostar de andar na escola, principalmente quando fui estudar para a Escola Secundária Afonso de Albuquerque, na Guarda, e aí encontrei um estranho e maravilhoso mundo novo (e não tinha lido Huxley, como ainda não fiz). As pessoas que mais estimava eram, sem dúvida nenhuma e alguma, os meus pais. Foram eles que, apesar de haver o curso de Humanidades em Manteigas, me deram a oportunidade de ir para o curso de Humanidades na Guarda. É claro que fui com algumas limitações. A que mais me marcou – e não exagero neste sentido –, foi o ficar numa antiga residência de estudantes da Gulbenkian, que na altura já pertencia aos Serviços Sociais da Direcção Regional de Educação do Centro. Nós não lhe chamávamos “residência de estudantes”, dávamos-lhe o nome de Texas: onde é que vives? no Texas! onde almoças? no Texas! E a residência feminina tinha o nome de Califórnia. Ora o Texas era uma residência que, na altura que entrei para lá, albergava perto de cem almas com idades entre os 10 e os 20 anos; tinha dois duches que funcionavam muito mal e que a partir das oito da manhã deixavam de ter água quente, pois ninguém se lembrou que a capacidade da merda do cilindro era demasiado pequena para dar água quente para tanta malta; duas casas-de-banho a funcionar durante o dia, pois os pisos onde nós dormíamos tinham de ser fechados para evitar os assaltos; andávamos todos ao toque de campainha, parecíamos cães de Pavlov: 7h30 triiiiiiiim para acordar, 8h00 triiiiiiiim para o pequeno-almoço – quem chegasse depois das 8h15 não tomava pequeno-almoço –, depois íamos para as aulas que, louvados sejam os deuses, eram nas duas escolas secundárias da cidade, 12h45 triiiiiiiim para o almoço que se entendia até às 13h15, 17h triiiiiiiim para o lanche, 17h30 triiiiiiiim para a sala de estudo que se prolongava até às 19h triiiiiiiim para o jantar e hora livre até às 20h30 triiiiiiiim para a sala de estudo – sim, outra vez! – até às 22h triiiiiiiim para ir para os quartos e às 22h30 tinham de estar as casas-de-banho desocupadas e as luzes dos quartos apagadas e o silêncio devia ser absoluto. É claro que a parte do silêncio absoluto era quase impossível cumprir, como podem muito bem compreender. Quando lá cheguei, pela primeira vez, deram-me uma toalha para o rosto e uma para os pés, que deviam ser lavados religiosamente todos os dias à noite antes do pessoal se deitar, mas poucos faziam isso. A toalha dos pés servia antes para outra coisa, principalmente quando alguém batia uma durante a noite e não queria ficar sujo, aí, limpava-se à toalha destinada ao pés. E era um fartote de rir quando, à sexta-feira, tínhamos de ir entregar a roupa da cama – juntamente com as toalhas – à lavandaria. A roupa tinha de ser desdobrada e colocada num monte: lençóis desdobrados e num monte, toalhas de rosto desdobradas e num monte, toalhas dos pés desdobradas e num monte. Quando a senhora da lavandaria mandava desdobrar a toalha dos pés alguns resistiam, ela insistia, eles resistiam, ela insistia e eles lá cediam. Não consigo descrever, por palavras, o ruído que fazia uma toalha cheia de sémen ressequido depois de uma semana de punhetas à discrição. Acho que conseguem imaginar. Mas o mais importante eram as gargalhadas que se davam enquanto desdobrávamos as toalhas dos pés e ouvir a senhora gritar connosco porcos! porcos! porcos! É claro que nem tudo era mau por lá. Havia uma camaradagem porreira entre o pessoal. Foi lá que aprendi que ninguém se chiba, nem que a vaca tussa! Foi lá que, pela primeira vez, vi uma revista pornográfica a sério (já tinha 15 anos!), e mais tarde cheguei, com outro companheiro de quarto, a controlar o negócio de “aluguer” de revistas porno para os mais necessitados. Às vezes faziam fila à porta do meu quarto, na ânsia de alugar o último número adquirido da Gina ou da Tânia ou da Playboy ou duma revista espanhola muito marada que só conseguíamos encontrar na Guarda-Gare e que não era para toda a gente, só para alguns, para aqueles que tinham gostos, digamos, mais estranhos, e que era cobrada a peso de ouro (uma revista era quase sempre alugada por 150 escudos a noite, e caso fosse apreendida a pessoa que a alugou teria de pagar o valor que se encontrava afixado na capa da revista, mas esta revista, a revista espanhola muito marada que só conseguíamos encontrar na Guarda-Gare e que não era para toda a gente, só para alguns, para aqueles que tinham gostos, digamos, mais estranhos, e que era cobrada a peso de ouro, era cobra a 300 escudos, e havia sempre alguém que os pagava). Foi lá que, pela primeira vez, tive de encolher a vontade de cagar pelo simples facto de as casas-de-banho estarem ocupadas com alguém a bater uma. Foi lá que, pela primeira vez, senti o verdadeiro poder do desejo, da luxúria. Foi lá que, pela primeira vez, entrei em contacto com a verdadeira pobreza. Não estou com isto a dizer que em Manteigas não havia gente pobre. Lembro-me bem de colegas meus da Escola Primária que eram pobres. Lembro-me especialmente de um. Era o filho mais novo de uma família de cinco ou seis, no entanto tinha doze anos e nós andávamos na 2ª/3ª classe. Todos os dias de manhã se levantava cedo e ia colocar o gado a pastar. Depois recolhia o gado. Provavelmente recolhia o gado à hora que a minha mãe me acordava, com uma caneca quente de leite com chocolate na mão. Esse meu colega de certeza que não tinha a mesma sorte que eu. Provavelmente comia sopas-de-cavalo cansado. Não seria o único. E de certeza que me terei cruzado com alguns mendigos em Lisboa quando pela primeira vez a visitei, tinha sete anos e os meus pais concluíram que era altura de, finalmente, conhecer a capital do país e tudo aquilo que nela havia: Jardim Zoológico, Aquário Vasco da Gama – só há pouco tempo é que fiquei a saber que Algés é concelho de Oeiras –, Planetário, Museu dos Coches, Parque Mayer – onde vi a revista Lisboa, Tejo e Tudo quando o Fininho ainda era conhecido e fazia rir metade do país –, Parque Eduardo VII, Estufa Fria, João do Grão – onde almocei e jantei quase todos os dias durante a semana que por lá andámos –, Terreiro do Paço, Cristo-Rei, Feira Popular, Castelo de São Jorge, entre outras coisas. O Castelo de São Jorge foi o lugar que mais me marcou e quando estive a trabalhar no Estabelecimento Prisional de Caxias decidi lá voltar, só que dei meia volta quando lá cheguei. Explico: a indecência que é alguém que não é lisboeta ter de pagar bilhete. Senti-me português de segunda categoria – algo que sempre soube que era, só que naquele dia senti mesmo isso na pele, o que deixa um gajo um pouco revoltado. Eu sei que não é razão para tanto. Mas aquilo mexeu comigo a sério. Ao voltar para trás vinguei-me numa viagem de eléctrico – algo que também tinha feito da primeira vez que a Lisboa fui, isso e andar de metro, cacilheiro, autocarro de dois andares (na altura ainda existiam), escadas rolantes (nem relato a emoção que foi para mim a estação do Rossio), portas giratórias e pónei (na Feira Popular). Ainda me lembro que ficamos hospedados numa pequena pensão de indianos, quando as pensões de indianos ainda eram de qualidade e não aquilo que agora são, o que muito me impressionou apesar dos senhores e das senhoras serem muito simpáticos comigo.
10 comentário(s):
I kinda have a huge crush on you.
Muitíssimo bom, na minha muito humilde opinião. Bom mesmo.
voltaste em grande! Grande texto! grande post! EXCELENTE!
:)
(Só consigo sorrir)
OK Manuel
Mais um grande texto...
Dizias.me tu um dia (há muitos anos) que não escrevias grandes prosas!
Um abraço e até que um dia te encontre lá pela terra.
Luis Bruno Tavares
Com a idade a pesar, a saudade do passado começa a apertar.
Parabéns pelo excelente texto.
Eh pá!! Este é mesmo um texto do caraças. Do caraças, mesmo!
Um registo autobiográfico exemplar (desculpa a formalidade da frase...), q confronta um tipo, como eu, perto da tua idade, com uma realidade q lhe é tão estranha, mas q afinal está tão próxima.
Creio q é a isto q nós, os lisboetas da classe média, costumamos chamar (altiva e estupidamente) de "país real" ou "Portugal profundo".
gostei mesmo de ler
abraço
Maria João
Apesar de muito bom.
Continuo a achar que devias tomar a medicação como deve ser :)
Aquele Abraço
Gostei de ler, Manuel, gosto de prosa meio selvagem... :-) Abraços.
JC
Enviar um comentário