A hora e não as horas
Lí por aí
A característica
Hoje estou demasiado intragável para aqui escrever alguma coisa.
O Caderno Negro - Cláudia Clemente
A neve
Na televisão dizem que já nevou por estes lados. Eu não preciso da televisão para saber isso. Tenho essa sorte. Da janela do meu quarto vejo neve lá no cimo do vale e também no alto da Fraga da Cruz. O frio há muito que avisava: vais ter neve. Mas, por agora, é apenas lá no alto. Onde sempre gostei que ela estivesse. É que a lombalgia ainda por aqui anda. Não estou em condições de limpar um terraço.
A temperatura
Lá vim até Manteigas. A temperatura aqui são menos dez graus do que no sítio onde agora trabalho. A rotina: acordar, almoçar, tomar café com CR&F a acompanhar, comprar o jornal. Só bebo CR&F quando aqui venho. Penso: ajuda a aquecer e sempre são menos dez graus do que no sítio onde agora trabalho. Depois volto a casa. Vou ao barracão buscar alguma madeira para acender o aquecimento central. O quente conforto, os vidros duplos das janelas. Penso: pela primeira vez, de algum tempo para cá, não comemorei o 25 de Novembro. O trabalho é tanto que nem nisso penso. Faltei ao rasganço de um primo. O trabalho é tanto que nem disso me lembrei. Está frio. Pelo menos lá fora está. Aqui, nem por isso.
Lí por aí
«ou teoria da falsa amnésia estrutural, ou a razão preconceituosa por que os novos narradores e poetas portugueses (alguns com mais de 60 e 80 anos) falham redondamente e, por isso, ninguém os lê. Primeira resposta, errada: ninguém nos lê porque ninguém sabe ler-nos como nós pensamos que somos. Falares de ti com os outros não é contigo. Não inventes os outros para falares só de ti, e não te inventes um eu virgem como se fosses um amnésico em demanda de uma identidade – é a sugestão do dia. Vês a coisa como a procura de uma linguagem nova, de uma voz, oh quão dolorosa tantas vezes, valorizas demasiado o silêncio e falas, falas para o explicar. Calavas-te, ó montador de andaimes verbais, é isso o silêncio; e assim como já tens a identidade, e até o respectivo bilhete, também já tens a linguagem, deu-ta a mamã natal, só tens de saber contar com ela uma história ou a impossibilidade de uma história. Mas, assim como o silêncio deixa de o ser quando o embrulhas em sonoras palavras, também a amnésia deixa de o ser quando uma das partes do texto literário – a tua – parece recordar sempre alguma coisa, ou então o texto deixaria de ser possível. Literatura é memória, gravação de memórias do corpo e da alma. Falsa amnésia é a gente lembrar-se do perfeitamente invisível e esquecer-se do inesquecível. Esta frase parece a de um introvertido blogue literato, e no entanto é legítima. Sim, montador de andaimes verbais, em que lugar da tua memória esqueceste os inesquecíveis amigos de infância, a tua primeira desilusão, o teu primeiro trabalho, as tuas primeiras humilhações, os teus primeiros pontapés, o medo e a interrogação? Se esqueceste a tua vida e continuas a fechar-lhe os olhos, para escreveres vês-te obrigado a inventá-la e, como diz o ditado, o inventado sai borrado. – Bolas, mas já não se usam os neo-realistas – dirás cheio de razão. Um dia, quando a vida da tua obra parecer que te largou da mão, onde nunca esteve, e ficares mesmo sozinho – e a tua obra são também os outros – verás: tens o andaime mas não tens a casa. Ah, e também nunca descrevas cenas de sexo se nunca fizeste aquele sexo que vem no teu livro.»
GAF em O Vermelho e o Negro
Um poema de José Régio
Epitáfio para um Poeta
As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com o seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Não vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!
Pensamento do dia
Tori Amos - Silent All These Years
Um poema de Guillaume Apollinaire
Tive a coragem de olhar para trás
Os cadáveres dos meus dias
Assinalam o meu caminho e eu choro-os
Uns apodrecendo nas igrejas italianas
Ou entre os limoeiros
Que dão ao mesmo tempo e em qualquer estação
A flor e o fruto
Outros dias choraram antes de morrerem nas tabernas
Fustigados por ardentes ramos
Sob o olhar duma mulata que inventava poesia
E as rosas da electricidade abrem-se ainda
Nos jardins da minha memória
em O Século das Nuvens, Lisboa: Assíri&Alvim, 1ª edição, versões de Jorge Sousa Braga, p.55.
Pensamento do dia
Crime & The City Solution - The Shadow of No Man
Indignar-me é o meu signo diário (12)
SILVA LOPES, com 77 (setenta e sete) anos de idade, acaba de ser nomeado administrador da "EDP Renováveis". Ex-Administrador do Montepio Geral, de onde saiu há pouco tempo com uma indemnização de mais de 400.000 euros, acrescidos de varias reformas que tem, uma das quais do Banco de Portugal como ex-governador, logo que saiu do Montepio foi nomeado Administrador da EDP RENOVÁVEIS, empresa do Grupo EDP. Com mais este tacho dourado, lá vai sacar mais umas centenas de milhar de euros num emprego dado pela escumalha politica do governo, que continua a distribuir milhões pela cambada afecta aos partidos do centrão. Entretanto o Zé vai empobrecendo cada vez mais, num pais com 20% de pobres, onde o desemprego caminha para níveis assustadores, onde os salários da maioria dos portugueses estão cada vez mais ao nível da subsistência.
Silva Lopes foi o tal que afirmou ser necessário o congelamento de salários e o não aumento do salário mínimo nacional, por causa da competitividade da economia portuguesa. Claro que para este senhor, o congelamento dos salários deve ser uma atitude a tomar, (desde que não congelem o dele, claro)!!!
Quanto a FERNANDO GOMES, mais um comissário político do PS, recebeu em 2008, como administrador da GALP, mais de 4 milhões de euros de remunerações. Acresce a isto um PPR de 90.000 euros anuais, para quando o " comissário PS " for para a reforma. Claro que isto não vai acontecer pois, tal como Silva Lopes, este senhor vai andar de tacho em tacho, tal como esta cambada de ex-politicos que perante a crise "assobia para o ar ", sempre com os bolsos cheios com os milhões de euros que vão recebendo anualmente.
(o texto a negrito é da responsabilidade do administrador deste blogue)
Nota: o seguinte texto foi retirado do blogue Boca de Incêndio. Ele peca na actualidade, pois Silva Lopes é administrador da EDP Renováveis desde o dia 4 de Junho de 2008. No entanto, fica o apontamento. Fica a Indignação.
O ponto da situação
Estive três horas e meia numa reunião com dois pontos na Ordem de Trabalhos*.
* e agora alguns dirão: bem-vindo ao meu mundo.
A lombalgia
O fim-de-semana
Um homem não é de ferro. Isso já todos nós sabemos. Há dias que doem fundo, como na canção. Quando esses dias se transformam em fim-de-semana não há nada que nos salve. Não sei se o facto de nunca ter lido Paulo Coelho contribui para esta situação. E, crime dos crimes, abomino Fernão Capelo Gaivota. É claro que uma pequena tendência para o pessimismo – leitura na altura certa dos livros errados – contribui para o meu actual estado de espírito. Isso e passar o fim-de-semana a ouvir a música que para aqui tenho no computador: Nick Cave, Diamanda Galás, Crime & The City Solution, The Sound, e nem Bon Iver consegue amenizar a coisa. Mas o bom disto tudo é que o fim-de-semana está a terminar. Amanhã são outros dias.
Um poema de Eduardo Guerra Carneiro
Jazes, poeta
Jazes, poeta, em teu discurso
pífio quando tentas poéticas
alheias. A meias vou tentar,
e a ti tentar dar melhor ar,
outra tristeza alegre. Jazes poeta,
mas vá lá!, vá lá!, ainda resolves
as palavras cruzadas desta vida.
Vidinha airada, como assim convém
a quem no campo tem um batatal.
Mas, olha lá bem!, bens ao luar
não tens, pois na voragem foram
eirôs, pinhais e bacelinhos. O canastro
vigilante – andor! – também se foi.
Trovas de uma história – tanto lastro!
O leitor
A seriedade e a referência
Wilt
Wilt, essa fantástica personagem de Tom Sharpe, é professor. Ou melhor: tenta ser professor. Eu também tento ser professor. Umas vezes lá consigo. Outras: sou um Wilt autêntico.
Thomas Bernhard
«(…) eu sabia que Roithamer sempre levava a sério tudo o que pensava, o que, porém, as pessoas que o rodeavam nunca verdadeiramente tinham querido acreditar, os seus pensamentos, como os seus sentimentos, tinham sido sempre extremamente sérios, o que de mais sério poderia haver, e os seus pensamentos e os seus sentimentos tinham sempre de coincidir com a sua existência, pois de outro modo ter-lhe-ia sido impossível avançar, progredir (…)»
Thomas Bernhard, Correcção, s.l.: Fim de Século, tradução de José A. Palma Caetano, 2007, pp. 78-79.
Contra Mundum
Versões: Bernardo Atxaga
A vida segundo Adão
Adão adoeceu no primeiro inverno depois da saída do paraíso / e assustado com os sintomas, a tosse, a febre, a dor de cabeça, / começou a chorar como anos mais tarde choraria Maria Madalena, / e dirigindo-se a Eva, «não sei o que se passa comigo» gritou «tenho medo» / «meu amor, vem cá, penso que chegou a hora da minha morte».
Eva ficou surpreendida ao ouvir aquelas palavras, amor, medo, morte / e pensou que pertenciam a uma língua estranha, distante do paraísoedês, / e andou com elas na boca, a mastigá-las como milho, como raízes, / até que acreditou, amor, medo, morte, compreender completamente o seu sentido. / Mas nessa altura já Adão andava melhor, e voltava a sentir-se feliz, ou quase.
Este acontecimento extraparadisíaco, foi só o primeiro de vários, / de modo que Adão e Eva continuaram, por assim dizer, a receber aulas intensivas / da língua que dizia amor, medo, morte, aprendendo palavras como / cansaço, suor, gargalhada, cacarejar, velhice, canção, carícia, prisão; / e à medida que o vocabulário aumentava, aumentavam também as rugas na pele.
A hora da morte, a verdadeira, chegou a Adão era já ele muito velho, / e quis transmitir a Eva aquilo que tinha aprendido, a última verdade. / «Sabes, Eva», disse-lhe, «a perda do paraíso não foi na realidade uma desgraça». / «Apesar de todas as dificuldades, apesar do que aconteceu ao pobre Abel e todos os outros conflitos, / conhecemos aquilo a que, muito nobremente, podemos chamar de vida».
Sobre a sepultura de Adão foram derramadas longas lágrimas, de água e sal, / que caíram à terra e não deram origem a jacintos, nem a rosas, nem a nenhuma espécie de flores, / e de todos foi Caim aquele que, paradoxalmente, chorou com mais intensidade. / Mas logo Eva lembrou com saudade o susto que Adão apanhou com a sua primeira gripe, / e todos se acalmaram, e se foram, e beberam algo, e comeram bolo.
Bernardo Atxaga, «La vida según Adán» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 45-46. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)
Indignar-me é o meu signo diário (11)
Entre Dominica e o Botswana
por Manuel A. Pina
Desde 2005 (o ano pode não significar nada, mas dá que pensar) que Portugal vem descendo no "ranking" de percepção da corrupção da Transparency International, isto é, vem-se alegremente revelando um país cada vez mais corrupto, tendo este ano descido mais três lugares, da 32ª para a 35ª posição, e estando agora, em termos de corrupção, ao nível de Porto Rico, numa honrosa posição entre a Dominica (um pouco menos corrupta que nós) e o Botswana (um pouco mais corrupto).
Os índices da Transparency International resultam da avaliação anual de analistas e homens de negócios, bem como de organizações como o Banco Mundial, o Fórum Económico Mundial, os Bancos de Desenvolvimento da África e da Ásia e centros de pesquisa como o Economist Inteligence Unit e o Global Insight. Curioso foi o modo detergente como alguns jornais deram ontem a notícia. O "Jornal Digital", por exemplo, deu-a sob o animador título de "Corrupção: Portugal é o país lusófono menos corrupto". Algo assim como, numa corrida com dois corredores, noticiar: "O nosso ficou em segundo lugar, ao passo que o adversário ficou em penúltimo".
de Jornal de Notícias, 18/11/09
Lí por aí
Georg Simmel
Versões: Bernardo Atxaga
As nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
só tarde se deram conta da importância da vida,
nunca antes dos setenta ou dos sessenta,
e estupefactas ante a descoberta,
perdiam o juízo durante várias semanas:
esqueciam o encontro das quintas com os filhos
faziam compras descabidas no supermercado,
falavam ao telefone aos gritos, interminavelmente
como se tivessem visto um ovni no terraço.
Mais tarde, dispostas a recuperar o tempo,
as nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
inscreviam-se em aulas de ginástica
promovidas pela junta de freguesia, «sou a Maria
por favor não me pergunte a idade que tenho»;
a partir daí, bailavam ao ritmo
dos números, fazendo corridas, dando gritinhos, saltos,
Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.
O polidesportivo acolhia os seus risos com frieza.
Cumpridoras fiéis das ordens do professor
continuavam com as suas corridas, gritinhos, saltos,
e de vez em quando iam todas jantar fora
pondo de lado a bata e vestindo-se com elegância;
depois, um dia, sentiam-se mal ao pequeno-almoço
e caiam redondas sobre qualquer um dos filhos;
morriam pouco tempo depois, às primeiras horas da manhã,
enquanto as suas amigas, no polidesportivo, em coro
diziam Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.
Bernardo Atxaga, «Una Altra Piéta» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 49-50. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)
Indignar-me é o meu signo diário (10)
A vida
Apesar de tudo, a piada está em alguém não ter avisado que é suposto rir.
O sotaque
A constatação
Sou o perigo de mim próprio.
Pensamento do dia
The Sound - Red Paint (live)
O colega
O dom
A viagem
As visitas
Um poema de Fernando Namora
Retratos de Família
3.
Às vezes, eu ia recolher com a boca
as gotas de chuva do beiral
e nelas sentia o gosto do mundo.
Nuvens, vento, céu pardo.
Eu chorava essas hoas de prisioneiro na sala da varanda
entre flores que minha mãe adorava
e a miragem de um dia de sol, lá fora,
com a bola de futebol no largo da escola.
Pensamento do dia
The Stooges - T.V. Eye
Queixinhas
Versões: Xavier Montoia
Nos copos
A sua mente
como uma mosca
sobrevoa a imundice que é a sua vida
atraída, ao que parece, por um passado
mais mortífero do que qualquer peste.
Incapaz de ignorar o apelo
da merda acumulada durante anos,
como que empurrada por mãos invisíveis e enormes,
bebe desesperadamente
de uma garrafa escura e sem fim
o álcool destilado do arrependimento.
Xabier Montoia, «De copas», em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, p. 133. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)
Conversa pós-jeropiga e castanhas
Um poema de Isabel de Sá
Tragédia e Paraíso sempre
O poder redentor das palavras
bala no coração até ao fim
mineral escondido no poço
escuridão no olhar dos amantes.
Crianças vestidas de beleza
estrada cega de luz.
Heróis amarrados a si próprios
rio parado no lodo
tirania do desejo ou privação
a loucura brilhando no rosto.
Para não se perderem...
por Lisboa, passem pela Poesia Incompleta e peçam um Mapa.
Versões: Xabier Montoia
Para a aprendizagem de qualquer idioma
recomenda-se a leitura dos jornais.
Para a saúde, o mesmo já não se aplica.
Mesmo naqueles em que nada percebes
pode aparecer alguma coisa que te arruíne o dia.
Por exemplo
Baskenland: zwölf Morde seit Beginn des Jahres.
Não percebes nada
mas um par de palavras
(Baskenland, Morde)
é o suficiente.
Jesus Cristo só precisou de duas palavras.
Duas palavras: levanta-te e anda.
As imprescindíveis para ressuscitar
nesse mesmo instante inúmeros mortos.
Xabier Montoia, «Zeitung», em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, p. 135. (versão de manuel a. domingos da versão castelhana de Joxemiel Bidador)
Antes que amanheça
Dias há em que nem a embriaguez nos salva.
Indignar-me é o meu signo diário (9)
O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.
Artigo de Mário Crespo originalmente publicado no JN, 2/11/2009. Sublinhados da minha responsabilidade.
Um poema de Jorge Gomes Miranda
Poesia
Se outras preferiam os tecidos de seda
do desejo
ela dava-se à ganga coçada
do amor
depois de noites mal dormidas.
Derivava pelas ruas perdidas
de uma cidade de luzes aquosas
opostas ao comércio
livre jogando a não ser vista
senão nos inquietantes interlúdios
das árvores.
Pautávamos os nosso sonhos
pelos seus inaudíveis passos,
toques insistentes à porta
a desoras e sem avisar.
Nunca fomos tão felizes
como quando arrancados
literalmente da cama
a seguíamos pelas alamedas
até a um mar sem dano.
Porque de praias e luz
era feito o nosso corpo,
essa espécie de fome.
Quotidiano
Terra na Boca
A Associação Terra na Boca convida-vos a assistirem à performance/instalação You Go Where You Should Go (estreia/produção própria) de Hajime Fujita, no Contagiarte, dias 12, 13 e 14 de Novembro às 22h45.
Um poema de Fátima Maldonado
Calçada do Combro / 80
Tal o diabo ausente do inferno
me apareces à esquina desta rua
ou como o manipanso
no seio da cartolina resguardado
surges-me de improviso
e sempre me perturbas
quando passas cosido nas paredes
e aí roças as calças
sujas pelas nódoas simétricas
que se juntam por cima da bainha
e nas veias circula Predulin
e na cara um véu de escuridão
que subtrai
ao convívio dos outros
teu secumbido modo.
Contra as mulheres que se atarracam
a segurar nos filhos
destacas teu desenho,
vestes agora de cinzento escuro
e calas aquilo a que chamas amor,
a sórdida invenção ocidental
- como Graham Greene pensaria
à saída dum quarto de aluguer.
AR Tv
Três questões que se impõem
Valeu a pena?
Vale a pena?
Valerá a pena?*
* e não me venham com aquela treta que "vale sempre a pena quando a alma não é pequena".
Agradecimento
Pensamento do dia
Grinderman - Honey Bee (Let's Fly to Mars)
Fim do dia: domingo
Lugares Comuns
Barba é, definitivamente, coisa de homens
Duas semanas depois tive de desfazer a barba. Uma comichão dos demónios, associada a uma alergia a qualquer coisa, obrigaram-me a tão vil atitude.












