A hora e não as horas


São 22:12. Amanhã é feriado. Tanta coisa interessante para fazer (ler?) e eu aqui em volta disto. Como dizem os estrangeiros: get a life, man!

Lí por aí


«A esquisitice de pôr as mãos em tudo o que seja papel levou-me hoje a folhear A Voz de Domingo, o «semanário diocesano» de Leiria. As páginas deste pasquim pingam beatice, mau gosto e obscurantismo em estado bruto. Nada de novo para quem conheça um pouco da imprensa católica ultramontana que teima em sobreviver. Fixei principalmente dois artigos. O primeiro foi a «Carta do Canadá» assinada por uma Dona Fernanda Leitão e que não passa de uma inflamada declaração de ódio – acompanhada de uma maldição condescendente e nada católica: «é deixá-lo andar» – dirigida a José Saramago e às suas «vociferações contra Deus». No segundo artigo reparei, pela cómica ignorância que testemunha, numa lista de «livros novos» recomendados. Aí se anexa, a títulos desanimadores como Gota d’Água, Dez Passos no Caminho dos Valores, Teatro nos Colégios dos Jesuítas e os dois volumes de Sacerdos, nada mais nada menos que Os Indiferentes, de Alberto Moravia. Editado em 1929 e considerado por vezes um romance existencialista avant la lettre que terá antecipado O Estrangeiro, de Camus, o livro de estreia de Moravia – que até chegou a ser compagnon de route dos comunistas – centra-se em alguns dos temas que cruzarão boa parte da sua obra posterior. Como o tédio da existência, a impossibilidade de uma verdadeira comunicação entre as pessoas, a alienação social ou a obsessão do sexo. Nada mau para estimular a cabecinha dos fiéis e das fiéis leirienses.»

Rui Bebiano em A Terceira Noite

A característica


Hoje estou demasiado intragável para aqui escrever alguma coisa.

O Caderno Negro - Cláudia Clemente




Cláudia Clemente, O Caderno Negro, Torres Vedras: Livrododia, 2009

A neve


Na televisão dizem que já nevou por estes lados. Eu não preciso da televisão para saber isso. Tenho essa sorte. Da janela do meu quarto vejo neve lá no cimo do vale e também no alto da Fraga da Cruz. O frio há muito que avisava: vais ter neve. Mas, por agora, é apenas lá no alto. Onde sempre gostei que ela estivesse. É que a lombalgia ainda por aqui anda. Não estou em condições de limpar um terraço.

Ensino Recorrente


A temperatura


Lá vim até Manteigas. A temperatura aqui são menos dez graus do que no sítio onde agora trabalho. A rotina: acordar, almoçar, tomar café com CR&F a acompanhar, comprar o jornal. Só bebo CR&F quando aqui venho. Penso: ajuda a aquecer e sempre são menos dez graus do que no sítio onde agora trabalho. Depois volto a casa. Vou ao barracão buscar alguma madeira para acender o aquecimento central. O quente conforto, os vidros duplos das janelas. Penso: pela primeira vez, de algum tempo para cá, não comemorei o 25 de Novembro. O trabalho é tanto que nem nisso penso. Faltei ao rasganço de um primo. O trabalho é tanto que nem disso me lembrei. Está frio. Pelo menos lá fora está. Aqui, nem por isso.

Lí por aí


«ou teoria da falsa amnésia estrutural, ou a razão preconceituosa por que os novos narradores e poetas portugueses (alguns com mais de 60 e 80 anos) falham redondamente e, por isso, ninguém os lê. Primeira resposta, errada: ninguém nos lê porque ninguém sabe ler-nos como nós pensamos que somos. Falares de ti com os outros não é contigo. Não inventes os outros para falares só de ti, e não te inventes um eu virgem como se fosses um amnésico em demanda de uma identidade – é a sugestão do dia. Vês a coisa como a procura de uma linguagem nova, de uma voz, oh quão dolorosa tantas vezes, valorizas demasiado o silêncio e falas, falas para o explicar. Calavas-te, ó montador de andaimes verbais, é isso o silêncio; e assim como já tens a identidade, e até o respectivo bilhete, também já tens a linguagem, deu-ta a mamã natal, só tens de saber contar com ela uma história ou a impossibilidade de uma história. Mas, assim como o silêncio deixa de o ser quando o embrulhas em sonoras palavras, também a amnésia deixa de o ser quando uma das partes do texto literário – a tua – parece recordar sempre alguma coisa, ou então o texto deixaria de ser possível. Literatura é memória, gravação de memórias do corpo e da alma. Falsa amnésia é a gente lembrar-se do perfeitamente invisível e esquecer-se do inesquecível. Esta frase parece a de um introvertido blogue literato, e no entanto é legítima. Sim, montador de andaimes verbais, em que lugar da tua memória esqueceste os inesquecíveis amigos de infância, a tua primeira desilusão, o teu primeiro trabalho, as tuas primeiras humilhações, os teus primeiros pontapés, o medo e a interrogação? Se esqueceste a tua vida e continuas a fechar-lhe os olhos, para escreveres vês-te obrigado a inventá-la e, como diz o ditado, o inventado sai borrado. – Bolas, mas já não se usam os neo-realistas – dirás cheio de razão. Um dia, quando a vida da tua obra parecer que te largou da mão, onde nunca esteve, e ficares mesmo sozinho – e a tua obra são também os outros – verás: tens o andaime mas não tens a casa. Ah, e também nunca descrevas cenas de sexo se nunca fizeste aquele sexo que vem no teu livro.»

GAF em O Vermelho e o Negro

Um poema de José Régio


Epitáfio para um Poeta

As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com o seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Não vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!

em Não Vou Por Aí! - Antologia Poetéca (sel. e org. de Isabel Cadete Novais), V.N.Famalicão: Quasi, 1ª edição, 2000, p. 110.

Pensamento do dia


Tori Amos - Silent All These Years

Ensino Recorrente



Um poema de Guillaume Apollinaire


Tive a coragem de olhar
Tive a coragem de olhar para trás
Os cadáveres dos meus dias
Assinalam o meu caminho e eu choro-os
Uns apodrecendo nas igrejas italianas
Ou entre os limoeiros
Que dão ao mesmo tempo e em qualquer estação
A flor e o fruto
Outros dias choraram antes de morrerem nas tabernas
Fustigados por ardentes ramos
Sob o olhar duma mulata que inventava poesia
E as rosas da electricidade abrem-se ainda
Nos jardins da minha memória

em O Século das Nuvens, Lisboa: Assíri&Alvim, 1ª edição, versões de Jorge Sousa Braga, p.55.

Pensamento do dia


Crime & The City Solution - The Shadow of No Man

Indignar-me é o meu signo diário (12)


SILVA LOPES, com 77 (setenta e sete) anos de idade, acaba de ser nomeado administrador da "EDP Renováveis". Ex-Administrador do Montepio Geral, de onde saiu há pouco tempo com uma indemnização de mais de 400.000 euros, acrescidos de varias reformas que tem, uma das quais do Banco de Portugal como ex-governador, logo que saiu do Montepio foi nomeado Administrador da EDP RENOVÁVEIS, empresa do Grupo EDP. Com mais este tacho dourado, lá vai sacar mais umas centenas de milhar de euros num emprego dado pela escumalha politica do governo, que continua a distribuir milhões pela cambada afecta aos partidos do centrão. Entretanto o Zé vai empobrecendo cada vez mais, num pais com 20% de pobres, onde o desemprego caminha para níveis assustadores, onde os salários da maioria dos portugueses estão cada vez mais ao nível da subsistência.

Silva Lopes foi o tal que afirmou ser necessário o congelamento de salários e o não aumento do salário mínimo nacional, por causa da competitividade da economia portuguesa. Claro que para este senhor, o congelamento dos salários deve ser uma atitude a tomar, (desde que não congelem o dele, claro)!!!

Quanto a FERNANDO GOMES, mais um comissário político do PS, recebeu em 2008, como administrador da GALP, mais de 4 milhões de euros de remunerações. Acresce a isto um PPR de 90.000 euros anuais, para quando o " comissário PS " for para a reforma. Claro que isto não vai acontecer pois, tal como Silva Lopes, este senhor vai andar de tacho em tacho, tal como esta cambada de ex-politicos que perante a crise "assobia para o ar ", sempre com os bolsos cheios com os milhões de euros que vão recebendo anualmente.

(o texto a negrito é da responsabilidade do administrador deste blogue)

Nota: o seguinte texto foi retirado do blogue Boca de Incêndio. Ele peca na actualidade, pois Silva Lopes é administrador da EDP Renováveis desde o dia 4 de Junho de 2008. No entanto, fica o apontamento. Fica a Indignação.

Ensino Recorrente



O ponto da situação


Estive três horas e meia numa reunião com dois pontos na Ordem de Trabalhos*.

* e agora alguns dirão: bem-vindo ao meu mundo.

A lombalgia


Uma lombalgia anda a dar cabo de mim desde sábado. A noção de ser mortal que sou acentua-se nestas alturas. Eu sei que agora alguns de vós dirão: lá está este gajo a exagerar. E, de facto, exagero, pois todas as questões relacionadas com a nossa mortalidade não podem ser tratadas de outra forma, ou melhor, só podem ser tratadas dessa forma: com um terrível e inequívoco exagero. Tal como a questão de Deus, que, sem sombra de qualquer dúvida, existe em cada um de nós, nem que seja sobre a forma de uma não-questão. É claro que o que a mim me preocupa não é o facto de um dia, inevitavelmente, o mundo acabar para mim, mas sim o facto de eu acabar para o mundo (se não me engano isto vem em Vergílio Ferreira – fica sempre bem uma pessoa citar as suas fontes). As lombalgias têm destas coisas.

O fim-de-semana


Um homem não é de ferro. Isso já todos nós sabemos. Há dias que doem fundo, como na canção. Quando esses dias se transformam em fim-de-semana não há nada que nos salve. Não sei se o facto de nunca ter lido Paulo Coelho contribui para esta situação. E, crime dos crimes, abomino Fernão Capelo Gaivota. É claro que uma pequena tendência para o pessimismo – leitura na altura certa dos livros errados – contribui para o meu actual estado de espírito. Isso e passar o fim-de-semana a ouvir a música que para aqui tenho no computador: Nick Cave, Diamanda Galás, Crime & The City Solution, The Sound, e nem Bon Iver consegue amenizar a coisa. Mas o bom disto tudo é que o fim-de-semana está a terminar. Amanhã são outros dias.

Em repeat


Um poema de Eduardo Guerra Carneiro


Jazes, poeta
Jazes, poeta, em teu discurso
pífio quando tentas poéticas
alheias. A meias vou tentar,
e a ti tentar dar melhor ar,
outra tristeza alegre. Jazes poeta,
mas vá lá!, vá lá!, ainda resolves
as palavras cruzadas desta vida.
Vidinha airada, como assim convém
a quem no campo tem um batatal.
Mas, olha lá bem!, bens ao luar
não tens, pois na voragem foram
eirôs, pinhais e bacelinhos. O canastro
vigilante – andor! – também se foi.
Trovas de uma história – tanto lastro!


em A Noiva das Astúrias, Lisboa: &etc, 2001, p. 45.

O leitor


Divido as pessoas em dois grupos: aquelas por quem tenho alguma estima e aquelas por quem não tenho estima nenhuma. Tu, leitor, não te enquadras em nenhum dos anteriores.

A seriedade e a referência


Nunca consegui tornar este blogue num blogue sério, de referência. De facto, a seriedade foi algo que nunca me interessou. Muito menos ser uma referência. Tenho uma média de 75/80 visitas diárias. E ninguém perde mais de dois minutos a ler-me, o que eu acho que nem é mau de todo, tendo em conta o que por aqui se pode ler.

Wilt


Wilt, essa fantástica personagem de Tom Sharpe, é professor. Ou melhor: tenta ser professor. Eu também tento ser professor. Umas vezes lá consigo. Outras: sou um Wilt autêntico.

Thomas Bernhard


«(…) eu sabia que Roithamer sempre levava a sério tudo o que pensava, o que, porém, as pessoas que o rodeavam nunca verdadeiramente tinham querido acreditar, os seus pensamentos, como os seus sentimentos, tinham sido sempre extremamente sérios, o que de mais sério poderia haver, e os seus pensamentos e os seus sentimentos tinham sempre de coincidir com a sua existência, pois de outro modo ter-lhe-ia sido impossível avançar, progredir (…)»

Thomas Bernhard, Correcção, s.l.: Fim de Século, tradução de José A. Palma Caetano, 2007, pp. 78-79.

Contra Mundum


Já aqui tinha falado dele. A crítica literária passa, definitivamente, por este blogue. Pena é que neste país ainda haja receio de assinar com o próprio nome uma crítica literária que não seja favorável a quem escreveu o livro. No caso do autor do referido blogue isso também se aplica às críticas literárias favoráveis. É pena. Ainda temos muito que andar.

Versões: Bernardo Atxaga


A vida segundo Adão

Adão adoeceu no primeiro inverno depois da saída do paraíso / e assustado com os sintomas, a tosse, a febre, a dor de cabeça, / começou a chorar como anos mais tarde choraria Maria Madalena, / e dirigindo-se a Eva, «não sei o que se passa comigo» gritou «tenho medo» / «meu amor, vem cá, penso que chegou a hora da minha morte».

Eva ficou surpreendida ao ouvir aquelas palavras, amor, medo, morte / e pensou que pertenciam a uma língua estranha, distante do paraísoedês, / e andou com elas na boca, a mastigá-las como milho, como raízes, / até que acreditou, amor, medo, morte, compreender completamente o seu sentido. / Mas nessa altura já Adão andava melhor, e voltava a sentir-se feliz, ou quase.

Este acontecimento extraparadisíaco, foi só o primeiro de vários, / de modo que Adão e Eva continuaram, por assim dizer, a receber aulas intensivas / da língua que dizia amor, medo, morte, aprendendo palavras como / cansaço, suor, gargalhada, cacarejar, velhice, canção, carícia, prisão; / e à medida que o vocabulário aumentava, aumentavam também as rugas na pele.

A hora da morte, a verdadeira, chegou a Adão era já ele muito velho, / e quis transmitir a Eva aquilo que tinha aprendido, a última verdade. / «Sabes, Eva», disse-lhe, «a perda do paraíso não foi na realidade uma desgraça». / «Apesar de todas as dificuldades, apesar do que aconteceu ao pobre Abel e todos os outros conflitos, / conhecemos aquilo a que, muito nobremente, podemos chamar de vida».

Sobre a sepultura de Adão foram derramadas longas lágrimas, de água e sal, / que caíram à terra e não deram origem a jacintos, nem a rosas, nem a nenhuma espécie de flores, / e de todos foi Caim aquele que, paradoxalmente, chorou com mais intensidade. / Mas logo Eva lembrou com saudade o susto que Adão apanhou com a sua primeira gripe, / e todos se acalmaram, e se foram, e beberam algo, e comeram bolo.

Bernardo Atxaga, «La vida según Adán» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 45-46. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)

Ensino Recorrente


Indignar-me é o meu signo diário (11)


Entre Dominica e o Botswana

por Manuel A. Pina

Desde 2005 (o ano pode não significar nada, mas dá que pensar) que Portugal vem descendo no "ranking" de percepção da corrupção da Transparency International, isto é, vem-se alegremente revelando um país cada vez mais corrupto, tendo este ano descido mais três lugares, da 32ª para a 35ª posição, e estando agora, em termos de corrupção, ao nível de Porto Rico, numa honrosa posição entre a Dominica (um pouco menos corrupta que nós) e o Botswana (um pouco mais corrupto).

Os índices da Transparency International resultam da avaliação anual de analistas e homens de negócios, bem como de organizações como o Banco Mundial, o Fórum Económico Mundial, os Bancos de Desenvolvimento da África e da Ásia e centros de pesquisa como o Economist Inteligence Unit e o Global Insight. Curioso foi o modo detergente como alguns jornais deram ontem a notícia. O "Jornal Digital", por exemplo, deu-a sob o animador título de "Corrupção: Portugal é o país lusófono menos corrupto". Algo assim como, numa corrida com dois corredores, noticiar: "O nosso ficou em segundo lugar, ao passo que o adversário ficou em penúltimo".


de Jornal de Notícias, 18/11/09

Lí por aí


«Só tenho uma vida, não vou desperdiçá-la com Sócrates e as suas varas (plural de vara, s. f., insígnia de juízes, vereadores e dos irmãos de certas confrarias, manada de gado suíno, o mesmo que porcada). Portanto, estou-me nas tintas para as escutas. Não invejo o enriquecimento, legítimo ou ilícito, de ninguém. Quero que se fodam, quero que não me fodam, o que até me parece ser simples: deixem-me em paz que eu hei-de desenrascar-me.»

Henrique Fialho em Antologia do Esquecimento

Georg Simmel


«Mas a economia monetária e o domínio do intelecto encontram-se numa relação muito profunda. É-lhes comum a pura objectividade no lidar com os homens e as coisas, em que uma justiça formal acompanha, muitas vezes, uma dureza inexorável. O homem puramente intelectualista é indiferente frente a tudo que é especificamente individual, porque deste emanam relações e reacções que se não esgotam com o entendimento lógico, tal como no princípio monetário não ingressa a individualidade dos fenómenos. De facto, o dinheiro busca apenas aquilo que a todos é comum, o valor de troca, que nivela toda a qualidade e peculiaridade à questão do simples "quanto".»


Georg Simmel, As Grandes Cidades e a Vida do Espírito, em http://www.lusosofia.net/, p. 5.

Ensino Recorrente



Versões: Bernardo Atxaga


Una Altra Pietá

As nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
só tarde se deram conta da importância da vida,
nunca antes dos setenta ou dos sessenta,
e estupefactas ante a descoberta,
perdiam o juízo durante várias semanas:
esqueciam o encontro das quintas com os filhos
faziam compras descabidas no supermercado,
falavam ao telefone aos gritos, interminavelmente
como se tivessem visto um ovni no terraço.

Mais tarde, dispostas a recuperar o tempo,
as nossas tias, e o mesmo aconteceu às nossas mães,
inscreviam-se em aulas de ginástica
promovidas pela junta de freguesia, «sou a Maria
por favor não me pergunte a idade que tenho»;
a partir daí, bailavam ao ritmo
dos números, fazendo corridas, dando gritinhos, saltos,
Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.
O polidesportivo acolhia os seus risos com frieza.

Cumpridoras fiéis das ordens do professor
continuavam com as suas corridas, gritinhos, saltos,
e de vez em quando iam todas jantar fora
pondo de lado a bata e vestindo-se com elegância;
depois, um dia, sentiam-se mal ao pequeno-almoço
e caiam redondas sobre qualquer um dos filhos;
morriam pouco tempo depois, às primeiras horas da manhã,
enquanto as suas amigas, no polidesportivo, em coro
diziam Um Dois, Uum Dois Três e Para cima, Um Dois.

Bernardo Atxaga, «Una Altra Piéta» em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, pp. 49-50. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)

Indignar-me é o meu signo diário (10)



(clicar na imagem para aumentar)

A vida


Apesar de tudo, a piada está em alguém não ter avisado que é suposto rir.

O sotaque


Sempre que alguém me houve falar, duas perguntas se impõem: és de Viseu? estudaste num seminário? É claro que a maior parte das perguntas são feitas por pessoas que não têm qualquer noção de geografia, nunca entraram num seminário e são de Lisboa e referem-se ao resto do país como província.

A constatação


Sou o perigo de mim próprio.

Pensamento do dia


The Sound - Red Paint (live)

O colega


Tive um colega numa escola que todo ele era biológico para aqui e biológico para acolá, só comia fruta biológica, bebia sumos livres de corantes e conservantes, praticava yoga, pilates, meditação. Todas as semanas publicava um conto zen na parede da sala dos professores. E fumava um maço de ventil por dia.

O dom


Fui confrontado, este fim-de-semana, com o único dom que possuo, que me foi concedido: o dom da rabugice. No fundo sou um velho rabugento, resingão. Esse foi o único dom que os deuses me deram. Serás rabugento e a tua rabugice será conhecida por todos. E aqui estou eu.

A viagem


Lá decidi vir de comboio para ver como era. O comboio cheio de soldadinhos de chumbo e eu a ler De três em pipa. O comboio cheio de gente, urina de cavalo, humidade no ar, roupas molhadas, bosta de cavalo, o cheiro a dente podre, o desconforto. O desconforto.

As visitas


As visitas são, às vezes, incómodas. As visitas deste blogue não o são. Estão a cair. No entanto, ainda chega gente aqui ao tasco. Procura: "noite", "dia", "jeropiga", "fotos", "soraia chaves nua", "soraia chaves nude", "um homem tem que viver com um pé na primavera", "ventilan validade", "todo o dia sexo", "bukowski", "fuck", "grátis". Entre outras coisas. Mas nada de muito interessante. Há gente que chega aqui através da seguinte procura "manuel a. domingos". A mim já me aconteceu isso. Não me encontrei. É claro que podia fazer uma série de combinações com as procuras mais procuradas (soa bem, não é?): "fotos grátis da soraia chaves nua", "fotos nude soraia chaves", "soraia chaves fuck grátis", "um homem tem que viver com um pé na soraia chaves e outro em bukowski", "um homem não é um homem enquanto não vir fotos grátis da soraia chaves nua", "soraia chaves nua é melhor do que soraia chaves nude grátis", "soraia chaves noite e dia nua e grátis com jeropiga à mistura e ventilan dentro da validade". E por aí fora.

Um poema de Fernando Namora


Retratos de Família

3.

Às vezes, eu ia recolher com a boca
as gotas de chuva do beiral
e nelas sentia o gosto do mundo.
Nuvens, vento, céu pardo.
Eu chorava essas hoas de prisioneiro na sala da varanda
entre flores que minha mãe adorava
e a miragem de um dia de sol, lá fora,
com a bola de futebol no largo da escola.

em As Frias Madrugadas, Lisboa: Publicações Europa-América, 4ª edição, 1971, p. 114.

Pensamento do dia


The Stooges - T.V. Eye

Ensino Recorrente


Queixinhas


Estive a queimar pestanas a preencher grelhas de excel. Comecei às quatro da tarde e terminei eram oito da noite. Pelo meio lá corrigi testes. E preenchi mais grelhas. Foi a tarde nisto. Queixar-me para quê?

Versões: Xavier Montoia


Nos copos

A sua mente
como uma mosca
sobrevoa a imundice que é a sua vida
atraída, ao que parece, por um passado
mais mortífero do que qualquer peste.
Incapaz de ignorar o apelo
da merda acumulada durante anos,
como que empurrada por mãos invisíveis e enormes,
bebe desesperadamente
de uma garrafa escura e sem fim
o álcool destilado do arrependimento.

Xabier Montoia, «De copas», em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, p. 133. (versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador)

Conversa pós-jeropiga e castanhas


(alguém de cabeça baixa diz depois de um copo de jeropiga. o tom é sereno):
- Um amigo meu tinha um amigo preto, isto é, negro, que para jogar basquete tinha que prender o membro com uma mola a uma meia.
(alguém tosse engasgado com uma castanha assada)

Um poema de Isabel de Sá


Tragédia e Paraíso sempre

O poder redentor das palavras
bala no coração até ao fim
mineral escondido no poço
escuridão no olhar dos amantes.

Crianças vestidas de beleza
estrada cega de luz.

Heróis amarrados a si próprios
rio parado no lodo
tirania do desejo ou privação
a loucura brilhando no rosto.

em Brilho no Escuro - Revista de Poesia, nº. 2, 1ª edição, Porto: Outono de 2009, p. 16.

Ensino Recorrente



Para não se perderem...


por Lisboa, passem pela Poesia Incompleta e peçam um Mapa.

Versões: Xabier Montoia


Zeitung

Para a aprendizagem de qualquer idioma
recomenda-se a leitura dos jornais.
Para a saúde, o mesmo já não se aplica.
Mesmo naqueles em que nada percebes
pode aparecer alguma coisa que te arruíne o dia.
Por exemplo
Baskenland: zwölf Morde seit Beginn des Jahres.
Não percebes nada
mas um par de palavras
(Baskenland, Morde)
é o suficiente.
Jesus Cristo só precisou de duas palavras.
Duas palavras: levanta-te e anda.
As imprescindíveis para ressuscitar
nesse mesmo instante inúmeros mortos.

Xabier Montoia, «Zeitung», em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, p. 135. (versão de manuel a. domingos da versão castelhana de Joxemiel Bidador)

Antes que amanheça


Dias há em que nem a embriaguez nos salva.

Indignar-me é o meu signo diário (9)



O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.

Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.

O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.

Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.


Artigo de Mário Crespo originalmente publicado no JN, 2/11/2009. Sublinhados da minha responsabilidade.

Um poema de Jorge Gomes Miranda


Poesia

Se outras preferiam os tecidos de seda
do desejo
ela dava-se à ganga coçada
do amor
depois de noites mal dormidas.

Derivava pelas ruas perdidas
de uma cidade de luzes aquosas
opostas ao comércio
livre jogando a não ser vista
senão nos inquietantes interlúdios
das árvores.

Pautávamos os nosso sonhos
pelos seus inaudíveis passos,
toques insistentes à porta
a desoras e sem avisar.

Nunca fomos tão felizes
como quando arrancados
literalmente da cama
a seguíamos pelas alamedas
até a um mar sem dano.

Porque de praias e luz
era feito o nosso corpo,
essa espécie de fome.

em Postos de Escuta, Lisboa: Presença, Colecção Forma, 1ª edição, 2003, pp. 31-32.

Ensino Recorrente


Quotidiano


Mais um fim-de-semana em Manteigas. Desta vez não estive um mês e meio ausente. Penso que só foram três semanas, mas não tenho a certeza – como sabemos esta coisa do Tempo é bastante relativa. Chego a casa e encontro o aquecimento central ligado. Sabe bem, mas mesmo assim abro um livro e leio «Não sou daqui, pertenço a outras partes»*. Sim, é isso.

*do poema «5» de Cinco Poemas do Quotidiano, em Fátima Maldonado, Cadeias de Transmissão, Lisboa: frenesi, 1ª edição, 1999, p. 39.

Terra na Boca




A Associação Terra na Boca convida-vos a assistirem à performance/instalação You Go Where You Should Go (estreia/produção própria) de Hajime Fujita, no Contagiarte, dias 12, 13 e 14 de Novembro às 22h45.

Um poema de Fátima Maldonado


Calçada do Combro / 80

Tal o diabo ausente do inferno
me apareces à esquina desta rua
ou como o manipanso
no seio da cartolina resguardado
surges-me de improviso
e sempre me perturbas
quando passas cosido nas paredes
e aí roças as calças
sujas pelas nódoas simétricas
que se juntam por cima da bainha
e nas veias circula Predulin
e na cara um véu de escuridão
que subtrai
ao convívio dos outros
teu secumbido modo.
Contra as mulheres que se atarracam
a segurar nos filhos
destacas teu desenho,
vestes agora de cinzento escuro
e calas aquilo a que chamas amor,
a sórdida invenção ocidental
- como Graham Greene pensaria
à saída dum quarto de aluguer.

em Cadeias de Transmissão, Lisboa: frenesi, 1ª edição, 1999, pp. 85-86.

AR Tv


Penso: ainda bem que não voto, podem dizer-me que ao não votar também não contribuo para a mudança disto, mas também não contribuo para aquilo.

Três questões que se impõem


Valeu a pena?
Vale a pena?
Valerá a pena?*




* e não me venham com aquela treta que "vale sempre a pena quando a alma não é pequena".

Agradecimento


Depois do sucesso que causou o texto anterior (obrigado a todos aqueles que o comentaram e divulgaram), voltamos à mesma ladainha de sempre.

Pensamento do dia


Grinderman - Honey Bee (Let's Fly to Mars)

Ensino Recorrente


Fim do dia: domingo


Pouco há para dizer num dia de domingo. E a morte de alguém que admiramos, apesar de trágica, nada acrescenta. A máquina já lavou, a roupa repousa no estendal. A televisão está desligada. Não me interessam as notícias do mundo lá fora. Aqui, é a música que marca o passar do tempo. O relógio arrumei-o na gaveta. Que mais posso fazer? Pensar? Não gosto da interrogação que, apesar de tudo, não atrasa o óbvio, a única certeza.

Chegou a hora do Lobo


António Sérgio (1950-2009)


Lugares Comuns


Com um atraso de quase dez anos, chego finalmente a Lugares Comuns, de João Luís Barreto Guimarães. Da última vez que fui a Lisboa lá consegui encontrar um exemplar na Poesia Incompleta. Hoje decidi lê-lo numa das mesas do café onde aqui costumo ir tomar a bica. Nunca mais qualquer café será visto com os mesmos olhos.

Barba é, definitivamente, coisa de homens


Duas semanas depois tive de desfazer a barba. Uma comichão dos demónios, associada a uma alergia a qualquer coisa, obrigaram-me a tão vil atitude.