Mas isso de uma pessoa se fazer entender é muito relativo, principalmente com os novos filósofos que por aí andam. Agora tudo é filósofo. Toda a gente escreve ensaios sobre tudo e mais alguma coisa. Fazer-se entender é que não! Só os da Academia é que entendem. Sempre achei piada às Academias. Têm todos a puta da mania, como é costume dizer. Os seus membros, envoltos numa importância que não têm, debitam o seu saber para meia dúzias de folhas a que dão nome de artigos e que só meia dúzia de pessoas vai ler e entender. As Academias são o último reduto de um primitivismo cheio de regras completamente estapafúrdias que não interessam a ninguém e que nada acrescentam. E além do mais a maior parte dos académicos são uns chupistas de primeira e uns lambe-botas de segunda ou terceira categoria. Quando me lembro de academistas lembro-me de Marineti. Todo ele era contra a Academia e acabou por se transformar num académico. Faz-me lembrar os meninos bonitos do Maio de 68, que ergueram barricadas contra a burguesia – quando eles próprios eram provenientes da burguesia: só uma burguês é que perde tempo com barricadas e coisas desse género, pois não podemos esquecer que a classe operária, essa, estava a trabalhar – e depois, passados uns bons anos, se converteram em eurodeputados e consideram-se eurocépticos. Chiça! Eurocépticos e são eurodeputados? Sempre foi uma coisa que nunca entendi. Ou melhor: entender até entendo, mas não me entra na cabeça. É como os membros do POUS que só querem ir para o parlamento europeu para destruir a União Europeia ou os do PCTP-MRPP que querem o fim do grande capital opressor mas que se não fosse o grande capital opressor não tinham razões para prosseguir a luta e eram uns pobres desgraçados. Para a merda com todos eles! Só querem é poleiro. Querem o bom salário ao fim do mês e as ajudas de custo. Aí, de certeza absoluta, já não se importam com o grande capital. Um bom salário é o que eles querem! É claro que eu também quero um bom salário ao fim do mês e se tivesse ajudas de custo ainda melhor. Não sou o suficientemente hipócrita para negar isso. Cínico sou, tenho de admitir. Mas quem é que não é cínico nos dias de hoje? Só os hipócritas. O cinismo é a única coisa que ainda nos vai salvando. Não é o hedonismo ou a solidariedade ou o optimismo ou o Benfica ou tudo o resto. É o cinismo. É claro que não tenho maneira de provar isto filosoficamente, pois nunca fui muito dado a filosofias. Tentei estudar alguns filósofos, ler o que eles tinham para dizer, tentei – e a sério que tentei – entendê-los. Mas não consegui. E não voltei a tentar. Para quê perder tempo com alguém que nada nos tem para dizer, dar? Perder tempo com filósofos e filosofias é, para mim, uma espécie de frete. Para fretes temos os taxistas. Esses ao menos recebem algum para os fazer. É claro que agora podia começar a falar sobre os taxistas e sobre a aptidão que estes têm para falar de tudo e mais alguma coisa sem se engasgarem e, alguns, com um discurso coerente. Mas seria demasiado óbvio. E eu não gosto nada daquilo que é óbvio: é óbvio que o Estado rouba o contribuinte; é óbvio que os políticos são uns imbecis de primeira ou, caso contrário, tentariam ganhar a vida de outra maneira (nomeadamente de uma maneira honesta); é obvio que o idealismo – seja lá o que isso for – é uma palermice; é óbvio que os idealistas são palermas, mas isso não quer dizer que os palermas são todos idealistas (muito pelo contrário); é óbvio que todos os dias somos enganados por alguém; é óbvio que o ponto e vírgula é uma sinal de pontuação inútil e que só demonstra que andamos na Universidade (Kurt Vonnegut, outra vez). Existem outras coisas das quais eu não gosto. Por exemplo: não gosto de música rock convertida em bossa-nova ou jazz. Ainda no outro dia ouvi esse hino que é o Smells Like Teen Spirit – que para quem não sabe é uma música dos Nirvana, cujo título foi inspirado num desodorizante muito popular chamado Teen Spirit – em versão jazz e nem consigo descrever o arrepio que senti na espinha ao ouvir tal coisa. Sinceramente, não sei como é que tal coisa é tolerável. Não sei como é que as editoras e os autores deixam que tal aconteça. Eu sei que é tudo uma questão de dinheiro, mas porra! Há coisas que são sagradas! O Smells Like Teen Spirit é uma dessas coisas. Quem maltrata assim uma música e quem deixa que a música seja assim tratada, devia ser empalado. Quando ouço estes género de versões entendo Vlad, o Empalador. Talvez aqueles que ele mandou empalar tivessem feito más versões de músicas das quais ele gostava. Mas que o arreliaram, lá isso arreliaram. E ele fartou-se de empalar e empalar e empalar. E talvez não se tenha fartado de o fazer. Conheço muito boa gente que merecia ser empalada. Não vou dizer quem, isto é, mencionar nomes próprios. Mas posso imitar Gil Vicente e utilizar personagens-tipo. Assim (e não necessariamente pela ordem que agora apresento): presidentes de clube de futebol – todos sem excepção –, aquele gajo que é líder do PNR e artistas de circo – principalmente o domador de leões, aquele gajo que é líder do PNR (isto não é um descuido, é mesmo uma repetição com a intenção de ser repetitiva e de chamar a atenção para o palhaço que o senhor é e para a palhaçada de partido que dirige e que só sobrevive numa Democracia frouxa como a nossa, e apesar disto parecer uma contradição é aquilo que eu penso: vivemos numa Democracia frouxa, que trata a escumalha com paninhos quentes, seja a escumalha de extrema-direita ou de extrema-esquerda) e trapezistas. Os trapezistas sempre me irritaram com os seus fatos de lycra e o rufar dos tambores e a rede de protecção e o triplo salto mortal e o flic-flac e essas mariquices todas. Podia, como é natural, dizer que empalava advogados, aprendizes de feiticeiro, astrólogos, barbeiros, caçadores, chulos, coristas, críticos literários, feirantes, fonetistas, forcados, gajos da Opus Dei, iconoclastas, ilusionistas, indigentes, maçons, onanistas, parapsicólogos, parasitas, poetas, políticos, sobredotados, solicitadores, sonhadores, toureiros, tratantes e por aí fora, mas seria demasiado óbvio – e como sabem eu não gosto de coisas óbvias – e por isso abstive-me de os mencionar mais directamente do que aquilo que acabei de fazer. É claro que me vão dizer que mencioná-los mais directamente é impossível. Querem um exemplo: Céline. Mais directo do que ele conheço poucos escritores. Talvez um outro: Bukowski. Este é mesmo muito, muito directo. Tão directo que quase ninguém o entende. Tão directo que é bastante ignorado, pois a chamada crítica só considera realmente literário aquilo que é praticamente incompreensível. Exemplos: o James Joyce de Finnegans Wake. Deuses! Não me espantava nada que o início do livro fosse utilizado em exorcismos! Porra! Aquilo afasta qualquer demónio! Melhor! Aquilo remete o próprio Satanás para os confins do Inferno e obriga-o a ler Paulo Coelho para encontrar novamente a força dentro dele! O caminho! Caramba! James Joyce é um grande escritor, disso não tenho a menor dúvida. Mas existem limites para tudo. E Finnegans Wake ultrapassa-os de uma forma descarada! A crítica considera-o um marco, uma apoteose, uma revelação, um grito de modernidade. Tudo menos uma cacofonia, o delirar de um louco cego. Mas, sabemos que a crítica, ou melhor, os críticos «se enganam sempre redondamente, de século em século… apaixonados por tudo o que é merda, quanto maior a imbecilidade mais eles se masturbam… loucos! Ejaculam, ardentes, resfolegam!» (Céline). É claro que nem tudo em Joyce é mau. Li com muito gosto Portrait of the Artist as a Young Man. Escrevo o título em inglês pelo simples facto de ter sido em inglês que o li. Foi durante umas férias de verão na Figueira da Foz. Antes fazia férias verão em Praia de Mira. Depois passou a ser a Figueira da Foz. Ou melhor: Buarcos. Quase toda a gente diz que passa férias na Figueira da Foz, mas na realidade passava férias em Buarcos. Nunca passei férias no Algarve. Mas como estava a dizer, li o livro de Joyce numas férias de verão. Acho que tinha terminado o décimo primeiro ano. Estava naquela fase em que pensava que conseguia impressionar as raparigas com literatura estrangeira na língua original. Foi uma fase que tive. Foi um completo e trágico fiasco. É claro que não se consegue impressionar raparigas com literatura estrangeira na língua original. E aquelas que são impressionáveis com literatura estrangeira na língua original têm sempre buço e usam óculos bastante graduados e não fazem depilação e são feias. Como é natural não me foi nada fácil ler Joyce em inglês. Demorei quinze dias a ler o livro. Naquela altura ainda se faziam quinze dias de praia. Agora é o cabo dos trabalhos. Pedem balúrdios por um quarto decente (com casa de banho incluída) e uma fortuna por um apartamento. É claro que se pode alugar um apartamento entre amigos e dividir a despesa entre todos o que torna a coisa mais fácil. O problema é que temos de dividir a casa de banho e nem toda a gente é asseada. Há gajos que ainda mijam sem levantar aquela parte que apoia o nosso cu quando estamos a cagar. Há gajos que ainda mijam em pé. Eu cá, desde que sou eu a limpar a sanita onde mijo – pois quando um gajo vive sozinho tem de fazer essas coisas –, mijo sentado e não tenho vergonha de o dizer. E quando alguém me goza digo: quando fores tu a lavar a tua própria sanita e o cheiro a sarro no plástico do tampo te invadir o nariz, aposto que passas a mijar sentado como eu! Até parece que um homem deixa de ser homem pelo facto de mijar sentado. Por acaso um gajo caga em pé? Não, pois não? É sentado, como todos sabem. Então qual é o problema de um homem mijar sentado? Eu não vejo problema nenhum nisso. E depois isso de dividir apartamento nas férias ainda tem outros inconvenientes. Um, que me aborrece bastante, é o facto de todos fazerem tudo ao mesmo tempo: jantam todos ao mesmo tempo, vão para a praia todos ao mesmo tempo, embebedam-se todos ao mesmo tempo, só não fornicam todos ao mesmo tempo pelo simples facto de às vezes não haver gajas suficientes para todos ou pelos simples facto de algum dos gajos se ter embebedado de tal maneira que estraga a noite aos amigos com uma ida às urgências para uma lavagem ao estômago. E que fique claro que não estou a falar por experiência própria. Um: não divido apartamento nas férias com ninguém (prefiro não fazer férias). Dois: não sou muito dado a matilhas. Três: orgias não é o meu género preferido de divertimento, embora não diga que não a uma quando ela se proporcionar. Conheço gente que participou em orgias. Não ficaram muito gulosos de repetir. Disseram-me que não é nada como aquelas que lemos nos livros de Sade ou como vemos naquele filme de Kubrick. Isso é que é uma orgia de nível! Eu até considero a orgia do filme de Kubrick uma celebração! Porra! Aquilo é que é! Nada daquelas merdas que estamos habituados a ver nos filmes pornos, que são uma grande confusão e com muita escatologia. Já ouvi gente defender que o sexo deve ser duro e porco. Não sou desses. Sexo é sexo e ponto final. Não tem de ser duro ou porco. Tem de ser sexo. De preferência bom. E se não se conseguir do bom, paciência. Há quem diga que aquilo, no filme do Kubrick, nem é uma orgia mas sim um ritual da maçonaria. Chiça! Se aquilo é um ritual maçónico eu não me importava nada de ser maçon. Mas como os maçons estão na minha lista de gente a empalar, é melhor não.
1 comentário(s):
sou de extrema-esquerda e não concordo com a parte do MRPP e do Maio de 68.
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