Quase 100

Não sei o que se passa, mas este blogue hoje quase que atinge (ou será que ultrapassa?) as 100 visitas diárias.

José Martins Garcia


«É certo que, numa sociedade onde todos eram iguais perante a lei, os competentes podiam passar à classe dos reformados. Mas a percentagem de tais casos foi sempre assaz limitada. Só se atingia uma competência magna depois dos oitenta anos e tal competência tinha de ser unanimemente reconhecida pela classe dos reformados. Era preciso, além disso, que o competente, candidato a reformado, se lembrasse minuciosamente da todas as fases da sua virtude. Ora, depois dos oitenta, os competentes não possuíam, geralmente, boa memória. E, quando a possuíam, encaravam a «performance» com tal emoção que, ao serem informados da aprovação, normalmente morriam.»


José Martins Garcia, Katafaraum é uma nação, Lisboa: Assírio&Alvim, Cadernos Penínsulares (5), 1974, p. 77.

Pensamento do dia


The Maccabees - Love You Better

Macaco na prisão


Um blogue a ler.

Tio Vânia


Ainda não li Tchékhov, mas posso ler o Tio Vânia.

Um poema de Vitorino Nemésio


Bases

Não negarei poesia de antes
Com poesia de depois
Mas sim direi com moléculas:
Fosse eu o niño dos bois!
Sim, o menino da aguilhada
Do meu bisavô boeiro:
Dono de bois,
Dono de bois,
Cheirando fusco de pêlo,
Raspa de chifre, bosta de vaca,
Verde erva verde no leite branco,
Azul azul do céu rogado
Em genes meus cromossomado:
O céu do mar, amplo de lua
Como coisa que fosse tua.
Que fosse tua
Como eu já sou
Nem de ninguém nem de nada,
Apenas tinta encarnada,
Pobre guanina mutada
Na Dupla Hélice nada.

em Limite de idade, Lisboa: Editorial Estúdios Cor, Colecção Auditorium, s.d., pp. 23-24.

Fora de horas


O dia começou fora de horas.

Pergunta ao Pó


As Ahab Edições lançam no mercado Pergunta ao Pó de John Fante, com prefácio de Charles Bukowski (um dos principais responsáveis pela revitalização da obra de Fante) e tradução de Rui Pires Cabral. Cheguei a John Fante através de uma dica de leitura de João Camilo (os blogues têm destas coisas). Podem ler aqui a minha primeira impressão sobre a escrita de Fante.

Barba


Ando a deixar crescer a barba. Quero ter um ar mais respeitável. Quero que as pessoas me levem mais a sério. Só que a barba anda a dar-me uma comichão do caraças.

Ensino Recorrente


Um dia em branco


Durante todo o dia não fui assaltado por uma única dúvida. Não ter dúvidas não é nada mau, não senhor. É claro que também não fui assaltado por certezas ou pela crença imediata numa vida melhor para todos. Pode não parecer, mas eu não penso só em mim.

Do nevoeiro


Ensino Recorrente


É o optimismo a que vos habituei. Depois digam que não sou coerente


Dias há em que nem um único verso nos consegue salvar. Dias há em que a estrada parece mais longa e estreita e com traço contínuo em toda a sua extensão. Dias há em que os dias são apenas uma hora a menos no relógio. Dias há em que nem olhar para a janela do andar em frente nos dá algo de novo. Dias há em que tudo é apenas um mau livro. Dias há.

Um poema de Fernando Grade


Há livros perversos que mordem o pêlo do cão

Há livros infelizes que
foram escritos para corroer - à mosca -
a casta paciência do cão:
o bicho não pode viajar por entre laranjas
nem subir ao céu das árvores
para sonhar mais perto do caos.
o lugar das patas não pode ser denso
e muito menos aquecido por vermes.
Que focinho? Um cheiro possível de algas e
flores ratadas, um sino quebrado.

O animal (sentado) espreita côdea
que lambe o beato fogo e o bolor.
É um artista de almas em salmoira
movido a sopas de vinho
- os pêlos altos, colados às rachas sulfurosas
do muro que foi giestas.
A barba do cão faz anos
e nesses cabelos a crescer
ficamos todos mais velhos.

em O Livro do Cão, Estoril: Edições Mic, 1ª edição, 1991, p. 11.

Thomas Bernhard


«(…) eles são, num país assim, incapazes de desenvolvimento e têm também permanentemente consciência dessa incapacidade de desenvolvimento, um país assim precisa de pessoas que não se revoltem contra a pouca-vergonha de um tal país, contra a irresponsabilidade de um tal país e de um tal Estado, de um Estado, como Roithamer repetidamente dizia, perigoso para o público, absolutamente degradado, no qual só o que prevalece é a situação caótica, se não a mais caótica possível, este Estado é responsável por um sem-número de pessoas como Roithamer, responsável por uma história vil e ignóbil, esta permanente perversidade e prostituição como Estado, como Roithamer dizia com frequência e de forma desapaixonado, com a segurança de julgamento que lhe era inata, que não se baseava senão na experiência, e Roithamer não tolerara jamais qualquer outro valor que não o da experiência, como ele dizia muitas vezes, sempre que se atingia o limite do suportável, no que referia a este país e a este Estado (…)»

Thomas Bernhard, Correcção, s.l.: Fim de Século, trad. de José A. Palma Caetano, 1ª edição, 2007, p. 34.

Isto há gajos para tudo


Isto que José Miguel Silva conta é do arco-da-velha.

Ensino Recorrente



Foi a chuva que me obrigou a escrever isto


Apeteceu-me vir aqui e esgotar a paciência de alguém. É claro que quem aqui vem tem algum poder de encaixe, caso contrário nunca punha aqui os pés. Elogio-lhes a coragem. Nada é certo, como todos sabemos, nem mesmo a chuva que agora cai e bate no vidro da janela. Gosto de chuva, mas é quando estou em casa com o aquecimento central ligado e um bom livro nas mãos. E bom livro é coisa que não falta por aí. Só temos é que os procurar com jeito e não desistir à primeira. Mas não vamos falar em desistir, pois não?

E agora para algo completamente diferente


O senhor que faz, aqui na escola, a manutenção da máquina do café/chocolate/capuchino/garoto/pingado (pois é o seu proprietário) é o Marco Chagas.

Das visitas


As visitas a este blogue aumentam à segunda-feira. Depois, vão diminuindo ao longo da semana. O que posso eu concluir? Que há quem chegue aqui esperançoso com novidades novas e verifica que é sempre a mesma vidinha entediante e absurda repetida à exaustão.

E eis que uma dúvida me assalta


Será que passo de Orwell para Bernhard ou de Orwell para Stendhal?

Ensino Recorrente



Lí por aí


«José Saramago afirmou que «a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana»», afirmação que me soa estranha vinda da boca de um homem que fez da Bíblia o maná de muitos dos seus livros. Não sei em que contexto a afirmação possa ter sido proferida, mas ela vale tanto quanto alguém dizer que o Ensaio Sobre a Cegueira é um manual de crueldades, ou que Marilyn Manson é responsável pela depravação da juventude, ou que Das Kapital foi a bíblia do comunismo psicopata, ou que Dante, Milton, entre outros, foram energúmenos descidos à Terra para corromper o coração alvo da humanidade, ou ainda que o Cântico dos Cânticos é a fonte onda toda a literatura pornográfica bebeu: «Como são agradáveis as tuas carícias, / minha amiga, minha noiva! / As tuas carícias são mais deliciosas que o vinho! / O teu perfume é mais agradável / do que todos os bálsamos aromáticos! / Dos teus lábios brota o mel, minha noiva! / Mel e leite há debaixo da tua língua!»»

Henrique Manuel Bento Fialho em Antologia do Esquecimento

«saramago é apenas uma daquelas velhas do lar de idosos que, apesar do andarilho, quer ir dançar para o baile da associação.»

Mau perder?


Até pode ser verdade, mas a frase «No cômputo geral, o Nobel não vai para grandes escritores», proferida por Philip Roth em entrevista à Actual, não deixa de soar a mau perder.

Um poema de Ana Paula Inácio


é uma tarde de outono a pique
a luz vertida do inverno
na ladeira fria
onde o gato se espraia
no despojos fúnebres
um róseo vítreo de celofane murcho
como as flores que o menino descalço pisa
os pés carregados de chagas
os pés vermelhos de lume

em As Vinhas de Meu Pai, V.N. Famalicão: Quasi Edições, 1ª edição, 2000, p. 10.

George Orwell


«Respiráramos o ar da igualdade. Tenho perfeita consciência de que é moda, agora, negar que o socialismo tenha alguma coisa a ver com a igualdade. Em todos os países do mundo, uma tribo colossal de escrivinhadores partidários e teoricozinhos untuosos anda toda atarefada a «provas» que o socialismo mais não é do que um capitalismo de Estado planeado, com a motivação do lucro intacta. Mas felizmente também existe a visão do socialismo absolutamente diferente. O que atrai os homens comuns para o socialismo e os leva a arriscara pele por ele, a «mística» do socialismo, é a ideia de igualdade; para a imensa maioria das pessoas o socialismo significa uma sociedade sem classes, ou então não significa nada.»

George Orwell, Homenagem à Catalunha, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 2007, p. 99

Homenagem à Catalunha


Tenho sempre gosto em ler Orwell. É dos poucos autores que me cativam realmente. Ainda não li um único livro dele que tenha desgostado. Desta vez – e depois de no verão ter atacado três dos romances deste autor, num verão que foi, sem dúvida orwelliano (o romance Burmese Days foi uma bela surpresa, e apesar de não ter o fôlego de Animal Farm ou 1984) –, eis que leio Homenagem à Catalunha (Antígona, 2007). Para muitos este é um dos melhores relatos da Guerra Civil Espanhola. Não posso confirmar se tal facto é verdadeiro, mas posso dizer que dá gosto lê-lo.

Guy Debord


«Após as circunstâncias que acabo de lembrar, aquilo que sem dúvida me marcou a vida inteira foi o hábito de beber, cedo contraído. Os vinhos, os álcoois e as cervejas; os momentos em que certas dessas bebidas se impunham e os momentos em que simplesmente surgiam, foram-me delineando o fluxo principal e os meandros dos dias, das semanas e dos anos.»


Guy Debord, Panegírico, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 1995, p. 37.

Lí por aí


«Nunca tive um background que me permitisse ser aventureiro. Não tive pais ricos, por isso tive de me fazer à vida. Eu e mais uns milhões de portugueses.»


Carlos Tê em entrevista à Notícias Magazine, nº. 907, 11 de Outubro de 2009.

Ida e volta


Lá fui dar uma volta pela capital. O muito sol e a temperatura demasiado quente para um dia 10 de outubro proporcionaram um dia bem passado. É claro que a companhia do Rui Almeida – que foi quem me aturou durante o dia – também ajudou muito. Isso e uma troca de palavras com Paulo da Costa Domingos na Rua Anchieta (um lugar de resistência), um encontro inesperado com o Luís Filipe Cristóvão – num momento único, em que esteve reunida toda a estrangeirada –, uma visita à Poesia Incompleta e à Trama, com passagem durante o caminho por alguns alfarrabistas. A mochila, essa, veio cheia de livros. Consegui encontrar o romance Directa, de Nuno de Bragança, por 3 euros, numa segunda edição (1979) da Moraes Editores. E no meio do livro a fotografia de uma criança com uma data: Madrid, 1973.

Algo que me intriga


Como é que a 1ª edição (de 7500 exemplares) do último livro de Francisco José Viegas, colocado ontem à venda, já está esgotada?

Adenda (18h33m): como diz fep (em comentário a este post): é caso de polícia. Eu digo mais: é caso para o Inspector Jaime Ramos investigar.
Adenda (21h48m): já existem comentários que podem explicar o sucedido. Afinal, sempre há gato.

Lí por aí


«Há vários prémios literários que são fracos, porque os membros dos júris são maus escritores ou maus leitores. Nestes casos costumam escolher livros sem nenhum tipo de rasgo, que eles chamam de “coerentes”, e de que louvam “a afinação da voz poética”.»

Rui Costa em entrevista ao suplemento S do Jornal Postal do Algarve. Resto da entrevista aqui.

Para uma espécie de memória futura sobre António Lobo Antunes (2)


Aqui.

Punk is Dead...


se não está morto, não é punk.

Nobel


E eis que todos os especialistas não acertam. É para isso que servem as expectativas: para serem goradas.

John Reed


«Nas relações entre um Governo fraco e um povo em revolta chega o momento em que qualquer acto das autoridades exaspera as massas, e qualquer recusa de acção provoca o desprezo...»

John Reed, Dez Dias Que Abalaram o Mundo, Lisboa: Edições Avante, 1997, p.77.

Ensino Recorrente



Dica da semana


Este blogue.

Economia de mercado


Há coisa de 2 anos comprei um computador portátil. Por mais um euro (sim… é verdade… foi só mais um euro) ofereceram-me uma impressora multifunções. Nunca me decidi experimentá-la. Mas hoje lá a tirei da caixa. Imprimir, imprime. Fotocopiar, fotocopia. Escanar – como “fala” no manual de instruções – é que não escaneia. Está tudo instalado e tal. E nada. Nicles.

Um poema de José Efe


À janela do eléctrico
acompanho o voo inacessível
das aves

diz-me
há lugar para a revolta
na melancolia das putas?

em Fenda Acesa, V.N. Famalicão: Quasi Edições, 1ª edição, 2001, p. 15

No outro dia


No outro dia, em conversa com um amigo recente, confessei-lhe: sabes, não sei por que razão dou comigo a ouvir cada vez mais música punk, mas nada de Green Day e essas merdas, mais coisas como Sex Pistols e Dead Kennedys. Mas o mais curioso é que o faço agora mais do que antes, quando era mais novo! Ele olha para mim e responde-me muito sério: e de certeza que não sabes a razão? pois olha que eu não me admiro nada que tu o faças, a mim acontece-me o mesmo. Já reparaste que todos os dias somos fornicados pela máquina do Estado! A tua consciência da Situação é mais clara, daí ouvires mais punk, nem que seja para descarregares um pouco da tua raiva. É claro que nem eu nem ele utilizamos estas palavras, mas a ideia principal mantém-se.

Ambrose Bierce


«Era uma vez um Mágico que possuía um Porco Sábio, muito limpo e delicado de maneiras, animal esse que tinha obtido grande fama e conquistado todos quantos haviam assistido às suas proezas. Tendo observado, porém, que o seu discípulo se sentia infeliz, o Mágico transformou-o em Homem. Este abandonou, logo, cartas, pêndulos, instrumentos musicais, e todos os apetrechos do ofício, para correr a um charco lamacento, onde se enterrou até ao nariz, grunhindo de satisfação.»


Ambrose Bierce, Fábulas Fantásticas, Lisboa: Editorial Estampa, 1977, p. 77.

Para uma espécie de memória futura sobre António Lobo Antunes


Este texto de Pedro Mexia.

Um poema de Rui Coias


11.

Não é difícil um homem apaixonar-se.
Ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga "estremeci
durante anos sem te abraçar". Agora é tarde.
Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
"Passei a vida a fugir para a tua boca", e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.


em A Função do Geógrafo, V.N. Famalicão: Quasi Edições, 1ª edição, 2000, p. 18.

Hanif Kureishi



O Senhor manuel a. domingos gosta muito de Hanif Kureishi. O leitor atento já deve ter reparado nisso, devido ao nome associado a este blogue. O Senhor manuel a. domingos agradece à Teorema mais esta oportunidade de poder ler em português um autor que é muito cá da casa.

Da imensa pequenez


Não é por nada, mas quando hoje voltei a pegar no 2666 (e ainda não foi desta que o comprei) verifiquei na contra-capa uma frase do Senhor Palomar. No meio de frases retiradas do Washington Post, New York Times, El Mundo, The Observer, Independent, The Sunday Times, entre outros, está uma frase do Senhor Palomar. O mundo editorial português ainda é mais pequeno do que aquilo que eu pensava.

Lí por aí


«Os latinos não sabem discutir política. Uns porque ainda não aprenderam a arte e tendem a confundi-la com o insulto aos políticos (é o caso português), outros porque foram dela desenganados e caíram na descrença e no cinismo, como os italianos. Em relação a estes, só um povo que se está a marimbar completamente para a política é que pode achar graça à consecutiva eleição de um clown como Berlusconi.»

José Miguel Silva em Achaques e Remoques