Quase 100
José Martins Garcia
Pensamento do dia
The Maccabees - Love You Better
Tio Vânia
Ainda não li Tchékhov, mas posso ler o Tio Vânia.
Um poema de Vitorino Nemésio
Bases
Não negarei poesia de antes
Com poesia de depois
Mas sim direi com moléculas:
Fosse eu o niño dos bois!
Sim, o menino da aguilhada
Do meu bisavô boeiro:
Dono de bois,
Dono de bois,
Cheirando fusco de pêlo,
Raspa de chifre, bosta de vaca,
Verde erva verde no leite branco,
Azul azul do céu rogado
Em genes meus cromossomado:
O céu do mar, amplo de lua
Como coisa que fosse tua.
Que fosse tua
Como eu já sou
Nem de ninguém nem de nada,
Apenas tinta encarnada,
Pobre guanina mutada
Na Dupla Hélice nada.
Fora de horas
O dia começou fora de horas.
Pergunta ao Pó
As Ahab Edições lançam no mercado Pergunta ao Pó de John Fante, com prefácio de Charles Bukowski (um dos principais responsáveis pela revitalização da obra de Fante) e tradução de Rui Pires Cabral. Cheguei a John Fante através de uma dica de leitura de João Camilo (os blogues têm destas coisas). Podem ler aqui a minha primeira impressão sobre a escrita de Fante.
Barba
Ando a deixar crescer a barba. Quero ter um ar mais respeitável. Quero que as pessoas me levem mais a sério. Só que a barba anda a dar-me uma comichão do caraças.
Um dia em branco
É o optimismo a que vos habituei. Depois digam que não sou coerente
Um poema de Fernando Grade
Há livros perversos que mordem o pêlo do cão
Há livros infelizes que
foram escritos para corroer - à mosca -
a casta paciência do cão:
o bicho não pode viajar por entre laranjas
nem subir ao céu das árvores
para sonhar mais perto do caos.
o lugar das patas não pode ser denso
e muito menos aquecido por vermes.
Que focinho? Um cheiro possível de algas e
flores ratadas, um sino quebrado.
O animal (sentado) espreita côdea
que lambe o beato fogo e o bolor.
É um artista de almas em salmoira
movido a sopas de vinho
- os pêlos altos, colados às rachas sulfurosas
do muro que foi giestas.
A barba do cão faz anos
e nesses cabelos a crescer
ficamos todos mais velhos.
Pensamento do dia
Bon Iver - Flume
Máscara&Chicote
Agora que me lembro
Acho que só me falta a minha falar sobre as declarações de José Saramago.
Thomas Bernhard
«(…) eles são, num país assim, incapazes de desenvolvimento e têm também permanentemente consciência dessa incapacidade de desenvolvimento, um país assim precisa de pessoas que não se revoltem contra a pouca-vergonha de um tal país, contra a irresponsabilidade de um tal país e de um tal Estado, de um Estado, como Roithamer repetidamente dizia, perigoso para o público, absolutamente degradado, no qual só o que prevalece é a situação caótica, se não a mais caótica possível, este Estado é responsável por um sem-número de pessoas como Roithamer, responsável por uma história vil e ignóbil, esta permanente perversidade e prostituição como Estado, como Roithamer dizia com frequência e de forma desapaixonado, com a segurança de julgamento que lhe era inata, que não se baseava senão na experiência, e Roithamer não tolerara jamais qualquer outro valor que não o da experiência, como ele dizia muitas vezes, sempre que se atingia o limite do suportável, no que referia a este país e a este Estado (…)»
Thomas Bernhard, Correcção, s.l.: Fim de Século, trad. de José A. Palma Caetano, 1ª edição, 2007, p. 34.
Isto há gajos para tudo
Isto que José Miguel Silva conta é do arco-da-velha.
Foi a chuva que me obrigou a escrever isto
E agora para algo completamente diferente
Das visitas
E eis que uma dúvida me assalta
Será que passo de Orwell para Bernhard ou de Orwell para Stendhal?
Lí por aí
Mau perder?
Um poema de Ana Paula Inácio
é uma tarde de outono a pique
a luz vertida do inverno
na ladeira fria
onde o gato se espraia
no despojos fúnebres
um róseo vítreo de celofane murcho
como as flores que o menino descalço pisa
os pés carregados de chagas
os pés vermelhos de lume
George Orwell
Homenagem à Catalunha
Tenho sempre gosto em ler Orwell. É dos poucos autores que me cativam realmente. Ainda não li um único livro dele que tenha desgostado. Desta vez – e depois de no verão ter atacado três dos romances deste autor, num verão que foi, sem dúvida orwelliano (o romance Burmese Days foi uma bela surpresa, e apesar de não ter o fôlego de Animal Farm ou 1984) –, eis que leio Homenagem à Catalunha (Antígona, 2007). Para muitos este é um dos melhores relatos da Guerra Civil Espanhola. Não posso confirmar se tal facto é verdadeiro, mas posso dizer que dá gosto lê-lo.
Guy Debord
Guy Debord, Panegírico, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 1995, p. 37.
Lí por aí
Ida e volta
Algo que me intriga
Adenda (21h48m): já existem comentários que podem explicar o sucedido. Afinal, sempre há gato.
Lí por aí
«Há vários prémios literários que são fracos, porque os membros dos júris são maus escritores ou maus leitores. Nestes casos costumam escolher livros sem nenhum tipo de rasgo, que eles chamam de “coerentes”, e de que louvam “a afinação da voz poética”.»
Rui Costa em entrevista ao suplemento S do Jornal Postal do Algarve. Resto da entrevista aqui.
Punk is Dead...
se não está morto, não é punk.
Nobel
John Reed
Dica da semana
Este blogue.
Economia de mercado
Um poema de José Efe
À janela do eléctrico
acompanho o voo inacessível
das aves
diz-me
há lugar para a revolta
na melancolia das putas?
No outro dia
Ambrose Bierce
Para uma espécie de memória futura sobre António Lobo Antunes
Este texto de Pedro Mexia.
Um poema de Rui Coias
11.
Não é difícil um homem apaixonar-se.
Ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga "estremeci
durante anos sem te abraçar". Agora é tarde.
Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
"Passei a vida a fugir para a tua boca", e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.







