Novo Presente do Indicativo do verbo escutar


Eu escuto
Tu escutas
Ele/Ela escuta
Nós começamos a ficar fartos desta merda
Vós escutais
Eles/Elas escutam

O momento editorial do ano


Sim, sou daqueles que ainda não compraram 2666. Estive com ele na mão no outro dia e pensei: bem, acho que podes esperar. Razão: as Obras Completas de Jorge de Sena que estão quase a sair. Para começar: Sinais de Fogo. Este é, para mim e na minha humilde opinião, o momento editorial do ano. E quase ninguém fala dele. Será pela ideia vir de uma editora conotada com a direita? Porra! São as Obras Completas de um dos maiores escritores do século XX português!

Ponto de ordem


Quase nunca me abstenho. Só não voto.

É só uma reclamação


Isto não é outono nem é nada. Para ser verão já é tarde. Grande coisa vir agora o bom tempo! Quando estive de férias é que precisei dele, não é agora. Grande gaita!

Um poema de Jorge de Sena


Nocturno de Londres

Não sei, amor, se dado nos será
de envelhecer. Será que um de nós só morrerá
quando formos tão velhos que para o outro
não faz diferença nenhuma que aquele morra
(na velhice se vive de memória vaga)?
Será que tantos anos de amargura,
suspeitas, frustações, raivas e ódios,
tudo isso, tempestade, de que é feito o amor
que os burros não entendem, nos serão
acrescentados desse sonhar juntos
em silêncio, num sorriso (que se esquece
e mesmo nos lábios se ignora).
Uma velhice que foi vida e será vida
porque foi vida com que nos comemos
quotidianamente um ao outro
vorazes como peixes num aquário
de vidro inamovível, tão opaco,
translúcido às vezes, transparente sempre,
que é o amor?

em Conheço o sal... e outros poemas, Lisboa: Moraes Editores, 1974, p.18.

Coisas que não compreendo


Têm sido dias e dias de trabalho intenso. Mas ainda assim algum tempo para a leitura dos blogues de sempre. E também para uma visita a Montemor-o-Novo e à famosa livraria que por lá existe. Refiro-me, como é óbvio, à tão badalada Fonte de Letras. Sinceramente não entendo o frisson em tordo dela. Em Montemor-o-Novo até compreendo que ela seja um oásis. Mas daí a ter a projecção nacional que tem não compreendo, a sério que não compreendo. É uma livraria banal, com os mesmos livros que também posso encontrar numa Bertrand ou Fnac ou Almedina (a secção de poesia da Almedina Estádio, em Coimbra, é muito melhor). Alguns dos livros estão amontoados – e nem a lombada têm virada para o potencial leitor/comprador –, tornando muito difícil pesquisar sem ter que lhes mexer (refiro-me, por exemplo, a uma série de livros de poesia da Averno). O espaço é pequeno e muito pouco confortável. Não compreendo. A sério que não compreendo.

Aviso àqueles que, sem explicação, ainda aqui aparecem


Podem continuar a aparecer. Mas, como sempre, não esperem muita coisa.

Um poema de Joaquim Manuel Magalhães


Despedes-te depressa destes dias
sem o sol que pensaste e te faria
rasgar de ti o que conheces.
Precisas da ignorância e do inútil.
O que sabes soterrou as energias
ao ar do mar onde há barcos e peixes
naturalmente, como tu não és.
Dentre as mãos como pinheiros as carícias
é uma forma de corroeres a vida.
Um espírito nocturno espreita das coisas,
a transitória consciência encontra análogos
nas matérias, na falsidade.
Os vagarosos gestos ocupam os lugares,
a desolada observação dos factos e dos feitos.
O brilho visionário fez-se derrota,
a perfeição nos sonhos,
uma linguagem de sentido perdido.

em Dos Enigmas, Lisboa: Moraes Editores, 1976, p. 13.

Um poema de Rui Almeida

para a Paula Machado

Avança vinte anos e tenta
Recordar a grandeza do dia de hoje.

Responde por palavras breves ao tempo
Que há de passar, à vida que fica,
E recupera a memória do que vêsm
O desejo incerto de futuro.

Que cansaço nos pede que sejamos
Mais do que o corpo nos obriga a ser?

Quando os limites se impõem, nada
Nos impede de ir tactear as noites
E recolher das sombras todos os gestos
Indiferentes que ousámos fazer.

Então te direi as razões, nomes
A dar aos segredos partilhados.

em Lábio Cortado, Torres Vedras: Livrododia Editores, 2009, p.13.

Mais uma vez: Céline



Não é novidade nenhuma. Tenho uma visceral admiração por Céline. Pouco me importam as suas simpatias políticas. O que será mais terrível: o declarado anti-semitismo e a declarada simpatia nazi de Céline ou o arrivismo camuflado e hipócrita de Aragon? Como escreveu Geoges Darien: «Ah! Sim, pancada por pancada prefiro as chicotadas impiedosas de um carrasco iracundo, que fere sem contemplações, à flagelação hipócrita do homem que apanha o vigilante de costas para perguntar: «Magoei-te»?».