Entretanto
Um poema de José Miguel Silva
Dizias que gostavas
Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.
A sério que tento ser sério
Acto Seguinte - Festival de Teatro da Guarda
Um poema de Luís Filipe Cristóvão
Telegrama
Nesta fotografia sou eu
com cara de assustado
a olhar para uma parede em ruína
quando o comboio parou numa estação
qualquer que eu já me esqueci.
Sim, eu, a mão que segura o queixo,
e a cabeça a ter-se sempre na posição
de quem começa um novo começo.
Podes colocá-la numa moldura azul,
junto à comida dos passarinhos.
Todos os dias são viagem (2)
Todos os dias são viagem
Para aqueles que se deixam flutuar a bordo dos barcos ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e a sua casa é o espaço sem fim.
Matsuo Bashô
No relato de uma viagem fica sempre muito por dizer. No recontar, aquele que viaja procura que o leitor viaje com ele, mas esquece que os lugares que visitou não são já os mesmo que o leitor visitará, mesmo que o seu relato seja objectivo e claro. Na verdade, não há razão (ou razões) para que o relato seja objectivo e claro. Viajar nunca pode ser algo objectivo e claro. Antes de partir não li Teoria da Viagem de Michel Onfray. Não quis condicionantes no meu deambular, interferências, questões: «Em que momento começa realmente a viagem?». Euskadi era o objectivo: Bilbao, Donostia, Gasteiz – do lado de cá dos Pirinéus; Baiona, Biarritz e Pau – do lado de lá. No total 2188 km (ida e volta). Sete dias e seis noites.
Versões
Insone
Caímos do sono
como dum cavalo que em fuga
nos abandona na negra
planície da noite.
E vagueamos sem rumo.
E pedimos ajuda aos livros,
que nos acompanham em silêncio
até aos arredores
da próxima cidade…
E no final a luz espalha-se
pelos mesmos aborrecidos caminhos
de onde ontem tentávamos
também inutilmente fugir,
em vão abandonar
para sempre.
Luigi Anselmi em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, p.25.
versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador.
Lí por aí
Rogério Casanova é destronado pelo Senhor Palomar, mas eu ainda prefiro ler O Leitor Sem Qualidades
Para além de ter encontrado a nova coqueluche dos blogues portugueses (não sei por que razão o Senhor Palomar não fez um link para este blogue pois faz links para tudo e mais alguma coisa), encontrei, também, este outro blogue. Bem escrito e interessante. A seguir e ler com muita atenção.
Da cor
Como o tempo não ajudou para ir até ao rio, parte da tarde na esplanada. Conversa: eleições autárquicas locais (isto é: Manteigas). Conclusão: apesar de alguns concordarem que a situação local está má, que é necessária a mudança, inverter a situação, a cor partidária fala mais alto.
Rio
Um poema de Rute Mota
Crescemos
à beira do caminho:
sementes
ervas breves
caindo.
Hora de café
Este post está a ser escrito no momento exacto em que tomo a bica no café do costume. Há algum movimento na rua, mais do que nos outros dias. Os emigrantes que regressam ajudam um pouco na revitalização do centro da vila. Eles e mais alguns que estão em trânsito, de passagem para outros lugares. Está um calor intolerável. Um amigo diz que hoje no pomar dele apanha 45 graus enquanto apanhava a fruta. Não imagino 45 graus. Ou melhor: imagino. Uma vez em Sevilha foram abertas as portas do inferno (uma frase feita, eu sei). Era um muito calor. Lembro-me que dormi muito mal. Melhor. Não dormi. Chegou agora um amigo e também trouxe o seu portátil. Gosto do nome portátil. O meu portátil. Fica sempre bem dizer que se tem um portátil e que o portátil é meu. O meu portátil. Gosto dele. Não estou apaixonado por ele. Mas gosto muito dele. Como podem ver o meu cérebro começa a ficar afectado com tanto calor. É claro que não é só o calor que o afecta. Ou melhor: ele já é afectado por natureza. O meu amigo está a tentar aceder à rede. Acho que já conseguiu. Bem. Vou pedir mais um café com gelo. Sabe sempre bem um café com gelo em dias de calor.
Fiódor Dostoiévski
Lí por aí
«Conheci Jorge de Sena, em Itália, no ano de 1976. Convivemos quinze dias, divididos, salomonicamente, entre Taormina e Roma. Tinham-me dito que Sena não era pessoa fácil, vaidoso e agressivo, umbiguista, só curando dele própria e da própria obra. Encontrei, porém, um homem atento, aberto aos outros, sujeito de candura, de uma boa ingenuidade adolescente, que os anos nunca apagariam.»
Manuel Poppe em Sobre o risco
Dos dias
Um poema de Henrique Manuel Bento Fialho
Parece o movimento
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.
Depois de uma longa pausa...
Há dias assim. O que se pode fazer?
Abstenção (2)
Pensamento do dia
Fields of the Nephilim - Wail of Sumer
Fields of the Nephilim - And there will your heart be also
Um poema de Al Berto
1
pernoitas em mim
e se acaso te toco a memória… amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
… é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes…
Abstenção
Do espírito
Santa Teresa de Ávila
«Embora isto do conhecimento próprio jamais se deva deixar, não há alma tão gigante que não tenha muitas vezes de tornar a ser menino e de mamar (e isto jamais se olvide e quiçá o direi mais vezes, porque importa muito)»
Santa Teresa de Ávila, «Livro da Vida», em Obras Completas, Paço de Arcos: Edições Carmelo, 2000, p. 108.
Do compreender
Lí por aí
A meio
Cheguei à fantástica conclusão de que nunca chego a lugar nenhum. De que fico sempre a meio.
