Entretanto


Entretanto algumas coisas mudaram. O Senhor Palomar, por exemplo, passa a estar aqui. Há quem se refira a ele como alguém que está a agitar o mundo editorial português (acho que foi a Isabel Coutinho, mas não tenho a certeza). Eu até entendo a razão: o mundo editorial português é tão pequeno que qualquer coisa o agita. Contudo, admito que o blogue do Senhor Palomar dá jeito: estão concentrados num só blogue os links (quase todos) para assuntos de interesse relacionados com o mundo dos livros, pois na realidade é isso que o Senhor faz: links e mais links. E, claro, um ou outro apontamento irónico.

Um poema de José Miguel Silva


Dizias que gostavas

Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.

em Vista para um pátio seguido de Desordem, Lisboa: Relógio D'Água, 2003, p. 54.

A sério que tento ser sério


Ando a tentar fazer deste blogue um blogue sério. Mas não consigo. Não gosto de coisas sérias nem de ser levado a sério. Para pessoas sérias bastam os nossos políticos. Esses sim pessoas sérias e a sério. Eles e os seus meninos. Tudo gente séria. Querem um exemplo. Está um aqui bastante ilustrativo. A sério que me deu vontade de rir. Mas fiquei sério como um político a sério.

Acto Seguinte - Festival de Teatro da Guarda


Mais informações aqui

Um poema de Luís Filipe Cristóvão


Telegrama

Nesta fotografia sou eu
com cara de assustado
a olhar para uma parede em ruína

quando o comboio parou numa estação
qualquer que eu já me esqueci.

Sim, eu, a mão que segura o queixo,
e a cabeça a ter-se sempre na posição
de quem começa um novo começo.

Podes colocá-la numa moldura azul,
junto à comida dos passarinhos.

em E como ficou chato ser moderno, Torres Vedras: Livrododia Editores, 2007, p. 33.

Todos os dias são viagem (2)


A partida aconteceu por volta das oito e meia da manhã. Estava um dia claro e anunciava-se quente. O plano (há sempre um plano numa viagem) era chegar a Bilbao às quatro da tarde. Não havia pressa. Houve as paragens necessárias para esticar as pernas. Até que a catedral de Burgos se anunciou desde a “autovia”. Paragem para comer alguma coisa e passear à beira rio. Tempo quente. Passadas duas horas a viagem prosseguiu. De Bilbao levava a ideia preconcebida de que só o Guggenhein interessava e de que não havia mais nada de interessante para ver. É o que dá conversar com alguém antes de uma partida e anunciar-lhe o destino da viagem. O viajante deve manter para si o(s) destino(s) das suas deambulações. Só assim pode fruir livremente a sua viagem, pois a viagem tem de ser realmente sua e não a viagem dos outros.

Todos os dias são viagem

Para aqueles que se deixam flutuar a bordo dos barcos ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e a sua casa é o espaço sem fim.

Matsuo Bashô

No relato de uma viagem fica sempre muito por dizer. No recontar, aquele que viaja procura que o leitor viaje com ele, mas esquece que os lugares que visitou não são já os mesmo que o leitor visitará, mesmo que o seu relato seja objectivo e claro. Na verdade, não há razão (ou razões) para que o relato seja objectivo e claro. Viajar nunca pode ser algo objectivo e claro. Antes de partir não li Teoria da Viagem de Michel Onfray. Não quis condicionantes no meu deambular, interferências, questões: «Em que momento começa realmente a viagem?». Euskadi era o objectivo: Bilbao, Donostia, Gasteiz – do lado de cá dos Pirinéus; Baiona, Biarritz e Pau – do lado de lá. No total 2188 km (ida e volta). Sete dias e seis noites.

Versões


Insone

Caímos do sono
como dum cavalo que em fuga
nos abandona na negra
planície da noite.
E vagueamos sem rumo.
E pedimos ajuda aos livros,
que nos acompanham em silêncio
até aos arredores
da próxima cidade…
E no final a luz espalha-se
pelos mesmos aborrecidos caminhos
de onde ontem tentávamos
também inutilmente fugir,
em vão abandonar
para sempre.

Luigi Anselmi em Siete poetas vascos, Pamplona-Iruña: Pamiela, 2009, p.25.

versão de manuel a. domingos a partir da versão castelhana de Joxemiel Bidador.

Lí por aí


«O gabinete de crise pandémica da minha entidade patronal requereu que toda e qualquer viagem para países com mais de 500 casos de gripe A fosse comunicada superiormente, a fim de que o referido gabinete fornecesse aos trabalhadores um kit incluindo máscaras de protecção contra perdigotos e outros miasmas e um medicamento cujo produtor há-de estar a ganhar rios de pasta. Obediente e aterrorizado pela simples menção da sigla H1N1, deixei-me ficar em casa, escondido, encolhido entre os lençóis, mal me atrevendo, sequer, a bisbilhotar a vida dos vizinhos por entre as cortinas. Levanto-me só para ver nos noticiários da televisão as novidades sobre a gripe e, mesmo assim, vi as férias arruinadas pelo anúncio segundo o qual a pátria sã já conta mais de seiscentas vítimas da pestilenta gripe - e eu não sei o que faça agora, se me deixe estar quietinho, se me apresente no local de trabalho comunicando ter estado num país de alto risco, reclamando a correspondente atribuição do higiénico kit e a concessão de alguns dias de quarentena lá mais para Setembro.»

Manuel Jorge Marmelo em Teatro Anatómico

Rogério Casanova é destronado pelo Senhor Palomar, mas eu ainda prefiro ler O Leitor Sem Qualidades


Para além de ter encontrado a nova coqueluche dos blogues portugueses (não sei por que razão o Senhor Palomar não fez um link para este blogue pois faz links para tudo e mais alguma coisa), encontrei, também, este outro blogue. Bem escrito e interessante. A seguir e ler com muita atenção.

Da cor


Como o tempo não ajudou para ir até ao rio, parte da tarde na esplanada. Conversa: eleições autárquicas locais (isto é: Manteigas). Conclusão: apesar de alguns concordarem que a situação local está má, que é necessária a mudança, inverter a situação, a cor partidária fala mais alto.

Rio (2)


Não ajudou.

Rio


Ontem ida ao rio na companhia de amigo e amiga (sim, aprecio a companhia feminina). Tudo estava bem até que amigo diz: vai chover, sinto que vai chover. E choveu. Uma trovoada jeitosa com incêndio à mistura. Tarde estragada. Hoje iremos tentar novamente. Oxalá o tempo ajude.

Um poema de Rute Mota


Crescemos
à beira do caminho:

sementes
ervas breves
caindo.


em Nenhuma palavra nos salva, Torres Vedras: Livrododia Editores, 2007, p. 75.

Hora de café


Este post está a ser escrito no momento exacto em que tomo a bica no café do costume. Há algum movimento na rua, mais do que nos outros dias. Os emigrantes que regressam ajudam um pouco na revitalização do centro da vila. Eles e mais alguns que estão em trânsito, de passagem para outros lugares. Está um calor intolerável. Um amigo diz que hoje no pomar dele apanha 45 graus enquanto apanhava a fruta. Não imagino 45 graus. Ou melhor: imagino. Uma vez em Sevilha foram abertas as portas do inferno (uma frase feita, eu sei). Era um muito calor. Lembro-me que dormi muito mal. Melhor. Não dormi. Chegou agora um amigo e também trouxe o seu portátil. Gosto do nome portátil. O meu portátil. Fica sempre bem dizer que se tem um portátil e que o portátil é meu. O meu portátil. Gosto dele. Não estou apaixonado por ele. Mas gosto muito dele. Como podem ver o meu cérebro começa a ficar afectado com tanto calor. É claro que não é só o calor que o afecta. Ou melhor: ele já é afectado por natureza. O meu amigo está a tentar aceder à rede. Acho que já conseguiu. Bem. Vou pedir mais um café com gelo. Sabe sempre bem um café com gelo em dias de calor.

Fiódor Dostoiévski


«O final dos finais, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é uma inércia consciente! Por isso, viva o subterrâneo! Embora eu tenha dito que sofro de uma inveja biliosa pelo homem normal, não gostaria de ser ele nas condições em que o vejo (embora não deixe de o invejar. Não e não, aconteça o que acontecer, o subterrâneo é mais vantajoso!). Lá, pelo menos, pode-se… Eh, lá estou outra vez a mentir! Minto porque sei, como dois mais dois são quatro, que não é o subterrâneo que é melhor, mas qualquer outra coisa, completamente outra, a que eu aspiro mas nunca mais encontro! O subterrâneo para o raio que o parta!»

Fiódor Dostoiévski, Cadernos do Subterrâneo, Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2007, p. 61.

Lí por aí


«Conheci Jorge de Sena, em Itália, no ano de 1976. Convivemos quinze dias, divididos, salomonicamente, entre Taormina e Roma. Tinham-me dito que Sena não era pessoa fácil, vaidoso e agressivo, umbiguista, só curando dele própria e da própria obra. Encontrei, porém, um homem atento, aberto aos outros, sujeito de candura, de uma boa ingenuidade adolescente, que os anos nunca apagariam.»

Manuel Poppe em Sobre o risco

Dos dias


Se tivesse de escrever todos os dias alguma coisa acabaria por escrever muita pouca coisa ou mesmo nada.

Um poema de Henrique Manuel Bento Fialho

Os Bichos

Parece o movimento
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.

em Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe, Rio Maior: Edição de Autor, 2000, p. 29.

Sinopse


«Um poeta do umbigo quotidiano»

Depois de uma longa pausa...


o amor é um cão do inferno está de volta com mais versões de poemas de Charles Bukowski.

Há dias assim. O que se pode fazer?


Os filhos do vizinho em frente tomam banho numa daquelas piscinas que se colocam nos terraços e jardins e se enchem com água da rede pública. Estão felizes. O pai observa-os deitado na sua espreguiçadeira. Tenta bronzear-se num terraço como se o fizesse na praia. Os colegas dele em França vão pensar que ele passou quinze dias no Algarve. Ele não irá desmentir tal pensamento. O meu dia começou assim: crianças a rirem e a gritarem de felicidade. E eu sem achar piada nenhuma nisso.

Abstenção (2)


Este texto de Henrique Manuel Bento Fialho é para ler do príncipio ao fim. Eu concordo com cada uma das palavras.

Pensamento do dia


Fields of the Nephilim - Wail of Sumer

Fields of the Nephilim - And there will your heart be also

Um poema de Al Berto


1

pernoitas em mim
e se acaso te toco a memória… amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

… é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes…


em «Rumor dos Fogos» (1983), in O Medo, Lisboa: Contexto, 1987, p. 371.

Abstenção


Ontem, no café do costume (Casa da Árvore – quando estou em Manteigas), confessei aos meus amigos que tinha deixado de votar. Ficaram todos muito admirados com a situação e alguns deles mostraram a sua indignação. Alegaram que a partir daquele momento eu não me poderia queixar mais sobre a situação do país, pois ao não votar perdia a moral toda para dizer o que quer que seja. Para eles o descontentamento é demonstrado nas urnas, com o voto em branco. Não me é fácil defender a abstenção como forma de descontentamento. Não voto por uma simples razão: deixei de acreditar no nosso sistema democrático e “representativo” que só perpetua o poder centralizado nas mesmas pessoas. Deixei de acreditar num sistema que promove a corrupção, o laxismo, a injustiça social, que nivela por baixo na educação, no saber. Por isso deixei de votar.

Do espírito


Uma coisa que me complica com o sistema nervoso central é o “espírito”. Não o “espírito” na sua vertente esotérica ou filosófica. Antes o “espírito” na sua vertente festival de verão ou outra festividade qualquer. Quando ouço alguém dizer vim cá por causa do espírito, fico pior que estragado.

Santa Teresa de Ávila


«Embora isto do conhecimento próprio jamais se deva deixar, não há alma tão gigante que não tenha muitas vezes de tornar a ser menino e de mamar (e isto jamais se olvide e quiçá o direi mais vezes, porque importa muito)»


Santa Teresa de Ávila, «Livro da Vida», em Obras Completas, Paço de Arcos: Edições Carmelo, 2000, p. 108.

Do compreender



Não fui muitas vezes ao Santuário de Fátima. Das vezes que fui até lá fiquei impressionado com as pessoas que andam de joelhos pelo chão cumprindo promessas antigas ou não. Ontem vi um pai que transportava um filho de meses ao colo, enquanto de joelhos dava voltas à Capelinha das Aparições. Nunca estive numa situação de desespero para recorrer a tal atitude. Acredito que só uma situação de total desespero pode levar alguém a fazer aquilo que fazem no Santuário de Fátima. Com questões de Fé (e há que respeitá-las, apesar de às vezes nos parecerem absurdas) não se brinca. Uma pessoa minha conhecida, muito minha amiga e que eu considero inteligente, passou, há algum tempo atrás, por uma situação muito difícil. Questões de saúde com um familiar. Disse-me um dia que chegou a estar tão desesperada que se lhe dissessem que bebendo fogo o seu familiar se curava ela o faria sem hesitar. Desde esse dia que, sempre que vou ao Santuário de Fátima, olho com outros olhos para as pessoas que por lá cumprem promessas arrastando-se pelo chão.

Lí por aí



«Há por aí um grupo de pessoas dedicadas a tecer loas a uns aparelhos muito modernaços que, segundo consta, servem para ler e são capazes de armazenar quatrocentos livros lá dentro. Não sei como é que estes indivíduos fazem para arranjar vagar para ler quatrocentos livros ou a que habilidades circenses se dedicam para conseguirem lê-los todos ao mesmo tempo. Eu só consigo ler um livro de cada vez e, se tivesse tempo para ler quatrocentos livros, preferia ir morar numa biblioteca.»



Manuel Jorge Marmelo em Teatro Anatómico

A meio


Cheguei à fantástica conclusão de que nunca chego a lugar nenhum. De que fico sempre a meio.

Do exílio



O que leva o escritor a exilar-se? Existem as questões políticas, é certo. Mas o que leva um escritor a auto-exilar-se? Paul Bowles passou a viver e a escrever em Marrocos, longe dos grandes centros (Paris e Nova Iorque). George Orwell, quando Animal Farm vendeu tanto nos Estados Unidos da América que nunca mais teve problemas com dinheiro, refugiou-se na ilha de Jura na Costa Ocidental Escocesa. Sobre Laurence Durrel há rumores de que nunca teve nacionalidade britânica, ou outra qualquer, e foi definido como sem pátria em 1968. Teixeira de Pascoaes refugiou-se em São João do Gatão. Fernando Pessoa foi um exilado de si mesmo. A ideia romântica do escritor exilado e auto-exilado – digo romântica pelo facto de me lembrar sempre de Shelley e Byron (e até Keats) como percursores – atravessou grande parte da grande literatura do século XX. É claro que as grandes perturbações sociais, aliadas a uma maior capacidade de mobilidade, muito contribuíram para isso. Mas o que leva mesmo um escritor a auto-exilar-se?