FÉRIAS



Este blogue – em costumeira tradição burguesa – vai de férias por tempo indeterminado. Os leitores que têm o privilégio de me ler – e aqueles que não têm – podem ficar descansados, pois regressarei em todo o meu esplendor, wit e, provavelmente, um tanto ou quanto mais bronzeado. Até ao meu regresso, fiquem bem.

Lábio Cortado - Rui Almeida



Lábio Cortado, de Rui Almeida, é uma edição Livrododia.

Indignar-me é o meu signo diário (8)



ASSUNTO: Convite - Posse do Novo Pró-Reitor da U.C.


O Reitor da Universidade de Coimbra tem a honra de convidar V. Exª para assistir à cerimónia de Posse do Senhor Professor Doutor José Gabriel Saraiva da Cunha como Pró-Reitor da Universidade de Coimbra para o Plano de Contingência da Gripe A.

A cerimónia terá lugar no próximo dia 24 de Julho, pelas 12 horas, na Sala do Senado da Reitoria.

Paço das Escolas, 22 de Julho de 2009

Gabinete do Reitor Universidade de Coimbra.

Malcolm Lowry nasceu há 100 anos




«The Consul sat helplessly in the bathroom, watching the insects which lay at different angles from one another on the wall, like ships out in the roadstead. A caterpillar started to wriggle toward him, peering this way and that, with interrogatory antennae. A large cricket, with polish fuselage, clung to the curtain, swaying it slightly and cleaning its face like a cat, its eyes on stalks appearing to revolve its head. He turned, expecting the caterpillar to be much nearer, but it too had turned, just slightly shifting its moorings. Now a scorpion was moving slowly across towards him. Suddenly the Consul rose, trembling in every limb. But it wasn’t the scorpion he cared about. It was that, all at once, the thin shadows of isolated nails, the stains of murdered mosquitoes, the very scars and cracks of the wall, had begun to swarm, so that, wherever he looked, another insect was born, wriggling instantly toward his heart.»

Malcolm Lowry, Under the Volcano, New York: Perennial Classics, 2000, p.155.

Nota: sobre o livro As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar (Assírio & Alvim, 2008) podem ler este texto.

Não, isto não é elitismo ou pedantismo: é a realidade


As 1189 páginas que compõem The Complete Novels of George Orwell não são em papel-bíblia, os caracteres têm um tamanho razoável e o espaço entre linhas é suficiente para ler sem cansar os olhos. Preço: 27.50 euros. Em Portugal é raro ver uma edição completa da obra de um autor num só volume. Excepção (aquela que me lembro) é a obra completa de Nuno Bragança, editada pela Dom Quixote, e que em muito se assemelha com a de George Orwell, mas o tamanho dos caracteres e o espaço entre linhas deixa muito a desejar.

Verão Orwelliano


The Complete Novels of George Orwell, London: Penguin Classics, 2009, 1186 pp.
Animal Farm
Burmese Days
A Clergyman's Daughter
Coming Up for Air
Keep the Aspidistra Flying
Nineteen Eighty-Four

De volta


Lí por aí


«Os recém criados blogues das tribos eleitorais PS e PSD estão para o debate político como os matraquilhos para um jogo de futebol. Fazem muito barulho, estão agarrados a varões que os mantêm nos eixos, não usam a cabeça, chutam com os pés juntos, usam sempre o mesmo posicionamento táctico e só se movimentam para os lados.»

João Tunes em Água Lisa

Nota: só hoje encontrei este texto, através da Terceira Noite. Ele foi escrito muito antes do post que podem ler em baixo. No entanto, a ideia é a mesma.

Migalhas


Surgiram em pouco tempo dois blogues que defendem as cores dos partidos que têm pretensões governativas. Digo pretensões pelo simples facto de os sucessivos governos, ora PS ora PSD, não terem feito mais nada do que desgovernar o país. Apesar de poderem ser blogues de ruptura, são antes blogues que apostam na continuidade: o SIMplex pelas razões óbvias; o Jamais pelas razões, também elas, mais que óbvias. Não vou aqui discutir a questão de alguns dos elementos dos respectivos blogues estarem a ver as tampas dos tachos a voar pela janela fora, pois quero acreditar que ainda há pessoas que acreditam em causas e que não têm medo de dar a cara por elas. Tal facto é louvável, aprecio-o e anoto-o aqui. Contudo, pela leitura que fiz (um tanto ou quanto na diagonal, devo confessar) parece-me que o principal mote dos textos, até agora publicados, é o mesmo: atirar as culpas do estado a que isto chegou para o campo adversário, enumerando as sucessivas trapalhadas – passadas e presentes – de cada um dos lados. Até agora ainda não foram apresentadas propostas concretas de mudança. Nada. No fundo a mudança não interessa. Está tudo bem como está. Desde que as migalhas cheguem para todos.

Teoria da Conspiração


Não sei se já repararam: sou um adepto das chamadas teorias da conspiração. Algumas delas são completamente absurdas e inacreditáveis. Contudo, todas elas têm algo em comum: questionam, não aceitam aquilo que nos dão. Quem não se lembra de ver aquele documentário conspirativo sobre o 11 de Setembro e ficar a pensar nele durante alguns dias. Ele questionava certos aspectos. Questionar é a chave de todas as teorias da conspiração. Aquelas que afirmam não me interessam, apesar de eu depois poder questionar. Questionar é fundamental. Comer e calar pode ser mais fácil. Mas questionar o que se come não tem mal nenhum.

Pensamento do dia



LF Bray - Let it die Charles Bukowski

Paulo da Costa Domingos


«Não esqueço.
Aqueles a quem roubaram o sorriso. Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses; também ramela. Queixumes e câmbios de mazelas e, no fundo, ninguém quer que lhe tirem as doenças. Nada mais possuem. Depois como era!!?... E há os intelectuais: os intelectuais têm muita graça.»

Paulo da Costa Domingos, Narrativa, Lisboa: frenesi, 2009, p. 12.

Gavetas


Os dias têm sido de leituras: Narrativa, de Paulo da Costa Domingos, e A Moral Anarquista, de Kropotkine. Mas também de nada fazer, apreciando os pequenos momentos. Já tirei parte da tralha dos caixotes e das malas. Tive ajuda para arrumar nas gavetas. Cheguei à conclusão (não sei se é mesmo uma conclusão) de que toda uma vida vivida pode ser resumida a três ou quatro gavetas e prateleiras cheias de coisas. É claro que existem os amigos. Esses não cabem nem em gavetas nem em lado nenhum. Posso dizer que tenho alguns amigos. Alguns até se lembraram de me enviar um SMS no dia dos meus anos. Sou daqueles gajos que não liga muito a isso, mas o facto é que gostei de receber todas as mensagens e senti a falta das mensagens daqueles que se esqueceram. O facto é que me quero armar em forte e tal, mas senti falta de algumas mensagens que não recebi. E essa é que é a verdade.

Ofertas


Afinal, isto de fazer anos nem é mau de todo e tem as suas vantagens. Narrativa (Paulo da Costa Domingos), Correcção (Thomas Bernhard) e Jesusalém (Mia Couto) passam a fazer parte da biblioteca cá de casa.

Pandemia de Lucro


Que interesses económicos se movem por detrás da gripe porcina???
No mundo, em cada ano morrem milhões de pessoas vítimas da malária, que se podia prevenir com um simples mosquiteiro…
Os noticiários, disto nada falam!
No mundo, por ano morrem 2 milhões de crianças com diarreia, que se poderia evitar com um simples soro que custa 25 cêntimos.
Os noticiários, disto nada falam!
Sarampo, pneumonia e enfermidades curáveis com vacinas baratas provocam a morte de 10 milhões de pessoas em cada ano.
Os noticiários, disto nada falam!
Mas há cerca de 10 anos, quando apareceu a famosa gripe das aves…
… os noticiários mundiais inundaram-se de notícias…
Uma epidemia, a mais perigosa de todas…Uma pandemia! Só se falava da terrífica enfermidade das aves. Não obstante, a gripe das aves apenas causou a morte de 250 pessoas, em 10 anos… 25 mortos por ano.
A gripe comum, mata por ano meio milhão de pessoas no mundo. Meio milhão contra 25...
Um momento, um momento! Então, por que se armou tanto escândalo com a gripe das aves? Porque atrás desses frangos havia um “galo”, um galo de crista grande: a farmacêutica transnacional Roche, com o seu famoso Tamiflu, vendeu milhões de doses aos países asiáticos. Ainda que o Tamiflu seja de duvidosa eficácia, o governo britânico comprou 14 milhões de doses para prevenir a sua população. Com a gripe das aves, a Roche e a Relenza, as duas maiores empresas farmacêuticas que vendem os antivirais, obtiveram milhões de dólares de lucro.
Antes com os frangos, agora com os porcos.
Sim, agora começou a psicose da gripe porcina. E todos os noticiários do mundo só falam disso… Já não se fala da crise económica nem dos torturados em Guantánamo… Só a gripe porcina, a gripe dos porcos… E eu pergunto-me: se atrás dos frangos havia um “galo”, atrás dos porcos… não haverá um “grande porco”?
A empresa norte-americana Gilead Sciences tem a patente do Tamiflu. O principal accionista desta empresa é nada menos que um personagem sinistro: Donald Rumsfeld, secretário de Estado da Defesa no tempo de George Bush, artífice das guerras contra o Afeganistão e o Iraque… Os accionistas das farmacêuticas Roche e Relenza estão esfregando as mãos, felizes pelas suas vendas novamente milionárias com o duvidoso Tamiflu.
A verdadeira pandemia é de lucro, os enormes lucros destes mercenários da "saúde", à custa da saúde de pessoas concretas.
Não nego as necessárias medidas de precaução que têm que ser tomadas pelos países. Principalmente tratando-se de uma gripe com carácter experimental, visando a população mundial como cobaias não pagas... e assustadas e até gratas por alguém vir seu socorro terapêutico. Mas se a gripe porcina é uma pandemia tão terrível como anunciam os meios de comunicação, se a Organização Mundial de Saúde se preocupa tanto com esta enfermidade, por que não a declara como um problema de saúde pública mundial e autoriza o fabrico de medicamentos genéricos para combatê-la? Prescindir das patentes da Roche e Relenza e distribuir medicamentos genéricos gratuitos a todos os países, especialmente os pobres... essa seria a melhor solução.

Um poema de Adília Lopes


O poema
sai barato
já não se escreve
com pena de pato

Um poema
é um poema
é um poema

Uma rosa
não é uma rosa
não é uma rosa

O rabo
é abstracto?
o poema
sobre o poema
(este poema)
engonha
mas não envergonha


em Caras Baratas - Antologia, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 180.

32


Disseram-me que nasci às quatro e meia da tarde num dia de muito calor. Hoje não está assim tanto calor, mas também ainda não são quatro e meia da tarde.

Kropotkine


«Tudo aquilo que no homem havia de bom, de grandioso, de generoso, de independente, esmorece pouco a pouco, enferruja-se como uma faca nunca antes usada. A mentira transforma-se em virtude: a mediocridade num dever.»


Piotr Alexeevich Kropotkine, A Moral Anarquista, Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 35.


Ser bonzinho


Uma das tarefas que se revela difícil para mim nos dias de hoje é ser bonzinho. Ser bonzinho dá trabalho. Requer concentração – o mais difícil de tudo – pois a qualquer momento pode sair um “vai pró caralho e não me fodas mais os cornos seu imbecil de merda”, e ninguém quer que isso aconteça. Por isso temos de estar sempre concentrados. E atentos também. Principalmente a uma qualquer velhinha que deseje atravessar a rua (nota: não é necessário estar vestido de escuteiro). Ser bonzinho é um trabalho a tempo inteiro. O pior é que não há subsídio de desemprego quando deixa de haver trabalho (ou quando nos fartamos de ser bonzinhos). Há antes olhares de desdém, dedos apontados que dizem “aquele além já não é bonzinho”, café queimado quando vamos beber a bica ao sítio do costume, pastéis de nata com quinze dias, e todas as coisas más que possam imaginar. Ser bonzinho é mesmo díficil.

Resumo dos dias


Duas noites atacado por insónias terríveis, inexplicáveis. E depois há o encaixotar da tralha de alguns meses. As limpezas que têm de ser feitas.

Um poema de António Gregório


O meu amor por ela é o meu corpo deitado
nos carris. Já não avisto adiante a terna
locomotiva – o caminho de ferro curva –
nem vislumbro – pelo mesmo motivo – lá
mais atrás o fim da composição. Às vezes

suspeito que estes últimos vagões sou eu
a inventá-los que podia ir-me embora

mas amortece-me a toada vagarosa
e monótona dos rodados o acalento
do óleo morno que amiúde goteja
e acima de tudo a penumbra aqui em baixo
uterina coando a luz da manhã – essa
sim sem favores real e dilacerante.

em American Scientist, Quasi: V.N. Famalicão, 2007, p. 24.

Lí por aí


«A ministra da Educação diz que o país deve encher-se de orgulho com os resultados dos exames de Português e de Matemática do 9º ano de escolaridade. Justamente aqueles que muitíssimos alunos, numerosos professores e outros cidadãos atentos consideraram excessivamente fáceis. Convém pois moderar o enchimento, de modo a evitar que alguma coisa rebente.»

Rui Bebiano em A Terceira Noite

A angústia (às vezes) de ler


Acabei este fim-de-semana de ler A Angústia da Influência de Harold Bloom. Sinceramente: nunca li verborreia mais entediante sobre poesia.

Linguagem


No outro dia estive quase a comprar um livro de Wittgenstein. Mas quando abri o livro e li, questionei-lhe a linguagem.

L'enfant terrible


Entro numa livraria e dou com um destaque: Biblioteca António Lobo Antunes. Não me importava nada de comprar o romance de Balzac. É um bom livro para as férias do verão. Mas não compro, pois não quero ter um livro que diz Biblioteca António Lobo Antunes. O que também não pode ser esquecido é que António Lobo Antunes já tinha iniciado a sua biblioteca na colecção de livros de bolso, mas depois houve uma birrinha do senhor e a colecção foi suspendida. Surge agora uma nova, mas noutro formato, que, a bem da verdade, é cuidado no seu grafismo. O que terá levado a esta mudança de postura de Lobo Antunes? Logo ele que, quando o grupo Leya tomou conta da Dom Quixote, ameaçou sair da editora e passar a ser editado só no estrangeiro?

Michel Onfray


«Eu não considero que a anarquia seja o fim do estado, dos tribunais, da escola, da prisão, da tropa, do trabalho, do dinheiro... Isso é bom para quando se tem 12 anos. Sou um libertário que não exclui a necessidade de entrar em guerra, desde que ela aconteça para defesa da liberdade. Tenho mais de dois neurónios e sou pragmático. Não sou um anarquista religioso que pensa a anarquia como o religioso pensa o mundo paradisíaco. As pessoas confundem a liberdade com o ser-se licencioso. A liberdade é uma construção, uma finalidade, não uma origem. E ensina-se. Senão é como atirar alguém para uma piscina sem ensiná-lo a nadar.»

Michel Onfray, entrevista a Inês de Medeiros para a revista Relance, nº7, Maio de 2009.

Do exagero


Na capa do livro Os Meus Prémios podemos ler o seguinte: «Thomas Bernhard no melhor da sua arte narrativa». Quem escreveu isto já terá lido mais algum livro do autor?

Escritores polémicos


O tempo nunca é suficiente. Se há escritor que eu gostava de ter conhecido, esse escritor é Thomas Bernhard. Dizem que é um escritor polémico. A ideia do escritor polémico é uma ideia que sempre me fascinou, principalmente quando parte dos “escritores polémicos” que conheço são escritores que escreveram aquilo que lhes vai nas vísceras (não digo alma pelo simples facto de não acreditar em tal coisa) e disseram, sem reservas, aquilo que muito bem entenderam sobre tudo e todos – inclusive sobre eles. Não se preocuparam com mais nada. Isso, pelos vistos, faz deles “escritores polémicos”.

Thomas Bernhard


«O problema é sempre ser capaz de levar a cabo o trabalho, com a ideia de nunca e nada ser capaz de levar a cabo... é a questão: prosseguir, prosseguir sem contemplações, ou acabar, pôr fim... é a questão da dúvida, da desconfiança e da impaciência.»

Thomas Bernhard, Os Meus Prémios, Lisboa: Quetzal, 2009, p. 137.