Um poema de Pedro Mexia
Os pais tudo fizeram
para o meu bem.
Amparando quedas
da metafórica bicicleta.
Exorcizando sustos
que eu próprio espantava.
Dizendo, sem dizer,
a razão que tinha Agostinho.
Mostrando, sem mostrar,
a ética diferença.
Os pais tudo fizeram
para o meu bem.
A quem posso eu sair?
Pequenos prazeres burgueses
Lí por aí
Um poema de Carlos Luís Bessa
poema com domicílio
Esta apólice, o vizinho de cima
A puxar o autoclismo
A bater na mulher e nos filhos.
A água da torneira com cheiro a lexívia
Sempre a pingar
O televisor com uma avaria.
Talvez o canteiro das flores
Sujas e mal tratadas
Estas zangas por tudo e por nada.
Da impossibilidade?
Um poema de Alexandre O'Neill
Em todo o acaso
Remancha, poeta,
Remancha e desmancha
O teu belo plano
De escrever p’la certa.
Não há «p’la certa», poeta!
Mas em todo o acaso acerta
Nem que seja a um verso por ano…
Lí por aí
O decifrar dos dias
Pop
Ah! Como gostava que tudo fosse simples como uma canção pop.
E agora um pouco de narcisismo balofo
Do cheiro
Há dias assim
Por vezes regresso a um silêncio que julgava resolvido.
Pensamento do dia
Governo - Meio Bicho e Fogo
Tipo: desejo
Gostava tanto de dizer e escrever coisas inteligentes e ser citado e tal.
Um dia como o de hoje
A Parte pelo Todo – João Luís Barreto Guimarães
João Luís Barreto Guimarães está consciente desta questão. E tenta contorná-la. Um bom exemplo disso é o poema Introdução ao Niilismo, onde a Morte coabita com a ironia (ou será cinismo?): «A noite passada enviei um SMS ao meu Pai/mas ele não respondeu./Já kontava kom issu.» (p.19). É claro que o resultado nem sempre é o mais conseguido. No mesmo poema, uns versos mais à frente, o autor remata: «Já tenho ligado para Deus/parece dar sempre ocupado.» (p.19). Tal como de Deus, da Morte, esse segredo que se leva para a sepultura (Wislawa Szymbroska), nunca se obtém resposta, nada dela advém: «Um dia/depois de tombar plantámo-lo/num metro de terra talhado à terra dura/da terra onde nasceu./Ainda não cresceu nada.» (p.25). Novamente, é a ironia/cinismo que tenta salvar o poema.
Todavia, o tema mais presente, na poesia de João Luís Barreto Guimarães, não é a Morte: é o quotidiano: o quotidiano real e não transfigurado (é claro que este afirmação é arriscada), isto é, o dia-a-dia mais comum possível: «Quando Barbara entrou na Pequena Cirurgia/para resolver a lesão da hemiface esquerda/ninguém contava que eu lhe pedisse para dizer/Wislawa Szymborska. Era/uma mancha disforme de/tantos por tantos centímetros/cuja exérese resultou/(graças a Deus?)/completa.» (p.27). É claro que a validade poética – se é que tal coisa é ainda possível nos dias de hoje – pode ser aqui, como noutros poemas, questionada. Mas não é isso que a poesia deve fazer? Questionar? Colocar o homem frente a frente consigo mesmo? Haverá algo mais incerto e inquietante que o quotidiano? Haverá maneira mais simples ou bela de dizer, jogando com as palavras, aquilo que é evidente : «Na armadilha do tempo/ninguém tomba por engano:/não se expurga a pele por décadas quanto muito/dano a /dano.» (p.42).
Não sendo o livro mais conseguido de João Luís Barreto Guimarães, A Parte pelo Todo vale pelo confronto do Homem com o irrecuperável, pela denuncia (que nunca é suficiente) do absurdo que é a Morte, pela validade da poética do quotidiano.
Qualquer coincidência é pura semelhança
Basicamente...
sou um gajo desmotivado.
Punk: ida e volta (5)
Punk: ida e volta (4)
Punk: ida e volta (3)
Um poema de Rui Costa
Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.
Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro
e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.
Pensamento do dia
Sex Pistols - Holidays in the sun
Punk: ida e volta (2)
Punk: ida e volta (1)
Um poema de Carlos Couto Sequeira Costa
Procurei as moradas onde as
Pessoas viveram, as datas
escalpelizadas
Da deportação, os locais
Onde foram assassi
Nadas, a alma desfaz-se, é trans
Portada por uma paisagem de fora
Sem exterior nem interior
É fatal o anjo da memória
O espaço morre, agora
Saramago e a mudança de paradigma
ZÖP
Obviamente, não votei
Um poema de Rui Pires Cabral
Átrio
tínhamos conversas no átrio
sobre os colchões empilhados
eu queria saber mais, queria circunscrever
a liberdade dos teus olhos
o fim da historio era logo no fundo
das escadas
mas o tempo prestava-se ao uso
a tua t-shirt de dormir era tão velha
que o desenho já nem se percebia
Pensamento do dia
The Sound - Winning
Discos pedidos (9)
Há um grande acordo quando se diz que os The Sound são das bandas mais menosprezadas da cena musical inglesa dos inícios dos anos oitenta. Mas o facto é que também não tiveram a vida facilitada: se pensarmos um pouco, damo-nos conta que tiveram de competir com nomes como Joy Division, Echo and the Bunnymen, Magazine, e, na sua fase final, com The Smiths. Contudo, quando se ouve um álbum como From The Lions Mouth (1981), não se pode ficar indiferente à música deste grupo.From The Lions Mouth é o disco mais conseguido da banda, apesar de Jeopardy (1980) e All Fall Down (1982). A escolha de uma sonoridade soturna, quer nas letras das músicas quer nos arranjos – principalmente com o som de um órgão a conferir uma maior substância a algumas faixas – contribui bastante para que este seja um dos melhores álbuns rock dos anos 80. Todo o disco é feito de contrastes: se nas primeiras faixas podemos encontrar alguma esperança nas letras (Winning e Sense of Purpose, primeira e segunda faixa, respectivamente), logo os The Sound nos submergem num clima pesado, claustrofóbico e pessimista (Contact the Fact, Skeletons, Judgement, Fatal Flaw, Possession e Fire). Depois destas seis faixas, a banda prefere serenar o ouvinte com Silent Air, para em seguida o bombardearem com New Dark Age (música altamente politizada e reflexo do clima de instabilidade que se começava a viver) e Hothouse.
Se os The Sound não são mais conhecidos do público, a culpa não é da sua música: é dos ouvintes. Se prestarmos atenção a alguma da música que hoje se faz, encontramos influências de algumas bandas dos anos oitenta. Se prestarmos muita atenção, encontramos os The Sound.
Nem sei que título dar a isto
Isto não é um post a defender o Ministro da Agricultura
Wook
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J.G. Ballard
A Bela e o Monstro
Joana Amaral Dias e Diogo Feio na SIC Notícias.
Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (12)
2. A questão da interpretação de textos – nomeadamente literários – foi algo que sempre me intrigou. Ainda hoje considero que se trata de uma ciência oculta, apenas possível a um grupo restrito de pessoas, que pertencem a uma sociedade secreta. É claro que não há nada de mais subjectivo do que a literatura. Cada um lê o que quer ler – e aqui também incluo os decretos-lei. Todo o texto literário é passível de infinitas interpretações. O consenso quase nunca é conseguido. É claro que esse é, quanto a mim, o principal valor do texto literário: o facto de não ser consensual. Um bom texto literário não deve ser consensual. Não quero com isto dizer que um texto que reúne consenso não seja literário. No entanto, desconfio dele.
Glória de Sant'Anna: 1925-2009
Eu um dia serei uma poalha de vento
pousando inadvertidamente em tua face
e me sacudirás
Eu um dia serei uma réstea de chuva
caída por acaso em tua fronte
e me sacudirás
E eu um dia serei a última lembrança
imponderável já na tua mente
e então me esquecerás
Um poema de Sá de Miranda
Do passado arrependido,
seguro doutro erro tal,
seja o perdido, perdido,
e do mal, o menos mal.
Faça-se o que vós mandais:
não nos ouça mais ninguém,
que do mal vosso e do bem,
não sei qual quisesse mais.
Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (11)
1. Ciência política não é o meu forte. Mas também não precisa de o ser para verificar que o PS deu um tiro no pé com a candidatura de Elisa Ferreira ao Parlamento Europeu e à Câmara Municipal do Porto (claro que o tiro no pé é maior no segundo caso). Rui Rio soube logo aproveitar a deixa: o seu slogan é prova disso. O caso de Elisa Ferreira é um bom exemplo do tipo de política que se faz neste país: uma política que coloca em primeiro lugar os interesses pessoais ao interesse geral. Se Elisa Ferreira estivesse sinceramente empenhada na sua candidatura à Câmara Municipal do Porto, nunca se candidataria ao Parlamento Europeu, nomeadamente numa posição que lhe garante a eleição. O mesmo acontece com Ana Gomes. Que conclusões podemos tirar disto tudo? Penso que só uma: a política em Portugal nunca foi feita a pensar no bem comum, mas sim no bem pessoal. Mais provas para quê?
2. O noticiário das 22h, na RTP2, tem dado voz aos cabeças de lista dos vários partidos que se candidatam ao Parlamento Europeu. Apreciei bastante as intervenções dos cabeças de lista do PCTP-MRPP e do POUS. O primeiro referiu-se sempre à Rússia como União Soviética e defendeu as 30 horas de trabalho semanal. O segundo (que neste caso é uma segunda) disse que o principal objectivo da sua candidatura é desmembrar a União Europeia caso seja eleita. Mas este senhor e esta senhora vivem em que século?
Prima nocte
Comprei no outro dia o primeiro volume das obras completas de Francisco de Sá de Miranda (Dr. no prefácio de Rodrigues Lapa), edições Sá da Costa. O livro vinha com as folhas coladas, demonstrando que seria eu o primeiro a ler o exemplar em questão. Então, não tendo x-acto, peguei na minha faca do Verdugal e comecei a separar uma a uma as folha. Senti-me uma espécie de senhor medieval consumando a prima nocte.
Cromos
Se há coisa que não compreendo é a necessidade que algumas pessoas têm de colocar cromos, no vidro traseiro do automóvel, onde se pode ler “Baby a Board”. Tal fenómeno é para mim um caso de estudo. Por que razão as pessoas têm necessidade de mostrar que percebem inglês?
Coisas esquisitas
As mamas da Ana Malhoa na Playboy de Junho.
