Um poema de Pedro Mexia

Para o meu bem
Os pais tudo fizeram
para o meu bem.
Amparando quedas
da metafórica bicicleta.
Exorcizando sustos
que eu próprio espantava.
Dizendo, sem dizer,
a razão que tinha Agostinho.
Mostrando, sem mostrar,
a ética diferença.
Os pais tudo fizeram
para o meu bem.
A quem posso eu sair?

em Vida Oculta, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 30.

Pequenos prazeres burgueses


Hoje entreguei-me aos pequenos prazeres burgueses: levantei-me a meio da manhã, tomei o pequeno-almoço sozinho, limpei o pó ao interior do carro, tomei duche, observei-me ao espelho e conclui que tenho de emagrecer mas mesmo assim sou um gajo bonito, desfiz a barba e almocei em família. Tudo isto feito ao som de boa música: não a que passa na rádio, mas aquela que o meu pequeno leitor mp3 me proporciona. Assisti com relativo desinteresse às notícias que falam dos confrontos em Teerão e ao facto do presidente venezuelano querer o petróleo a 100 dólares o barril, mas prestei atenção ao jornalista quando disse que o verão chegou hoje – e comecei logo a pensar onde é que vou passar as férias em Agosto.

Lí por aí


«Esta história do TGV, confesso, está a depauperar-me os nervos. Entontecido pela derrota eleitoral, o governo do supremo engenheiro já não tem certeza de que os portugueses entendam bem e, por isso, hesita, faz que vai e não vai, não coisa nem deixa o terreiro livre, e a dama escanzelada da política de verdade regozija e quer mais, pede explicações, esclarecimentos - goza o momento. Para falar absolutamente verdade, porém, conviria explicar que a tal escanzelada dama, ora triunfante, era ministra das Finanças de um governo que assinou com Espanha um documento prevendo cinco linhas de TGV, cinco, e o país era, parece, exactamente o mesmo, cronicamente deficitário, e eram exactamente as mesmas as gerações futuras que o projecto hipotecaria. A bem da verdade, isto é tudo um bocadinho idiota, sobretudo por ser bastante evidente que há mesmo gente capaz de ser enganada por golpezinhos baixos e falsas verdades de gente desta. Eu nem sequer gosto do TGV, mas, face à qualidade do debate político em Portugal, surpreendo-me, às vezes, a simpatizar com o bicho.»

Manuel Jorge Marmelo em Teatro Anatómico

Nota: destaque da minha responsabilidade.

Um poema de Carlos Luís Bessa


poema com domicílio

Esta apólice, o vizinho de cima
A puxar o autoclismo
A bater na mulher e nos filhos.

A água da torneira com cheiro a lexívia
Sempre a pingar
O televisor com uma avaria.

Talvez o canteiro das flores
Sujas e mal tratadas
Estas zangas por tudo e por nada.

em Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina - O Conhecimento das Coisas, Lisboa: & etc, 2000, p.27.

Da impossibilidade?


Sempre que aqui venho – a Manteigas, entenda-se (já não vinha cá há 1 mês e 5 dias) – digo sempre qualquer coisa como ela estar parada, amorfa e essas coisas do género. Hoje, no entanto, quando fui buscar o jornal ao lugar de sempre, soube-me bem passear pelas ruas desertas. Enquanto escrevo isto ouço o projecto Wordsong – um dos projectos musicais portugueses mais interessantes. Al Berto diz-me que: «o verdadeiro fugitivo não regressa/não sabe regressar» e eu pergunto-lhe se será esse o meu caso.

Um poema de Alexandre O'Neill


Em todo o acaso
Remancha, poeta,
Remancha e desmancha
O teu belo plano
De escrever p’la certa.

Não há «p’la certa», poeta!

Mas em todo o acaso acerta
Nem que seja a um verso por ano…

em No Reino da Dinamarca (1958) in Poesias Completas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 83.

Lí por aí


«Sócrates quer andar para a frente com os portugueses optimistas. Paciência. Fiquei para trás.»

Paulo Rodrigues Ferreira em 00:04

O decifrar dos dias

Com o decifrar dos dias acumulam-se as dúvidas, o que não deixa de ser estranho, pois se os dias são decifrados, as dúvidas deviam desaparecer. Mas acontece o contrário. Exemplo: uma pessoa pensa que começa a entender o mundo e o seu absurdo funcionamento. Em vez de ficar, por assim dizer, descansado, as dúvidas surgem ainda com mais força. Só pode acontecer isso. Exemplo: deciframos a razão (ou razões) que levam um homem matar outro. No entanto, e apesar de decifradas as razões, interrogamo-nos sempre: porquê?

Pop


Ah! Como gostava que tudo fosse simples como uma canção pop.

E agora um pouco de narcisismo balofo


Tendo em conta o número de visitantes por dia deste blogue, posso afirmar que se trata de um blogue de culto. Mais ao menos como as Sessões Especiais na Sala 2 (se não estou enganado) do cinema do Centro Comercial Avenida, em Coimbra.

Do cheiro


O mais terrível de estar deslocado é que só começamos a sentir-nos “localizados” no final. Só no final é que começamos a interagir mais com as pessoas que nos rodeiam, pois já nos cheiramos o suficiente para sabermos se podemos ou não entrar no espaço de cada um. Isso leva ao conhecimento de outros espaços, como o restaurante onde hoje fui almoçar. Fiz uma “vaquinha” com um colega e pedimos arroz de polvo e grão com todos – parece que não combina, mas combina. Uma cerveja sem álcool para mim (podem não acreditar mas é verdade) e uma jarrinha de branco para ele. Passado mais um pouco chegaram outras pessoas, por mim desconhecidas, e foi um almoço bom acompanhado de melhor conversa. É claro que isto acontece sempre na recta final. Depois para o ano há mais. Partir para outro lugar, cheirar, e lá para o final: confiar.

Há dias assim


Por vezes regresso a um silêncio que julgava resolvido.

Pensamento do dia


Governo - Meio Bicho e Fogo

Tipo: desejo


Gostava tanto de dizer e escrever coisas inteligentes e ser citado e tal.

Um dia como o de hoje


Em dias quentes como o de hoje, as ideias surgem trôpegas. É claro que as minhas ideias surgem sempre trôpegas. Ou melhor: são trôpegas. Mas nunca paro de pensar, nem que seja na morte da bezerra. Pensar, como sabemos, distingue-nos dos outros animais, embora eu goste de pensar que os animais também pensam. A ideia de instinto para definir o “pensar” de um animal é uma ideia que nunca me foi muito querida. Gosto de pensar que um leopardo pensa, principalmente quando vejo um documentário e aparece um (leopardo) a olhar o pôr-do-sol. Gosto de pensar que ele é capaz de pensar aquele pôr-do-sol. Mas… voltando ao início. Disse que penso. E penso naquilo que me leva a pensar. Penso: ao fim do dia fará alguma diferença ter pensado? O dia é melhor devido a isso? O que terá levado o Homem a pensar pela primeira vez? Como explicou isso aos outros Homens? Terá sido a inquietação que o levou a pensar? Como sabia o Homem que estava inquieto? Terá sido a necessidade de ocupar o tempo? A necessidade de respostas? Como sabia ele quais as perguntas? Tudo isto é demasiado para um dia como o de hoje.

A Parte pelo Todo – João Luís Barreto Guimarães



A Morte sempre foi um dos temas mais recorrentes em literatura. Na poesia portuguesa mais recente ele é recorrente. João Luís Barreto Guimarães (1967) não consegui escapar-lhe. Se em Luz Última (Cotovia, 2006) o tema povoou grande parte dos poemas, em A Parte pelo Todo (Quasi, 2009) o tema encontra-se em quase todos os poemas – de uma ou outra maneira, mas sempre associado à ideia de perda. Assim, entende-se o verso de Emily Dickson que abre o livro: «First – Chill – then Stupor – then the letting go». E é este o verso que dita a divisão do livro: três partes com nove poemas cada, dando a ideia de que a Morte está sempre presente, qualquer que seja a distância a que estamos do acontecimento (neste caso a morte do Pai). Mas como escrever sobre a Morte sem cair nos costumeiros clichés, lugares-comuns? Se tivermos em conta que a Morte é, por excelência, o supremo lugar-comum, a tarefa torna-se mais fácil e genuína. Contudo, isso não significa facilidade em falar na/sobre a Morte; não significa uma poesia não-rebuscada.

João Luís Barreto Guimarães está consciente desta questão. E tenta contorná-la. Um bom exemplo disso é o poema Introdução ao Niilismo, onde a Morte coabita com a ironia (ou será cinismo?): «A noite passada enviei um SMS ao meu Pai/mas ele não respondeu./Já kontava kom issu.» (p.19). É claro que o resultado nem sempre é o mais conseguido. No mesmo poema, uns versos mais à frente, o autor remata: «Já tenho ligado para Deus/parece dar sempre ocupado.» (p.19). Tal como de Deus, da Morte, esse segredo que se leva para a sepultura (Wislawa Szymbroska), nunca se obtém resposta, nada dela advém: «Um dia/depois de tombar plantámo-lo/num metro de terra talhado à terra dura/da terra onde nasceu./Ainda não cresceu nada.» (p.25). Novamente, é a ironia/cinismo que tenta salvar o poema.

Todavia, o tema mais presente, na poesia de João Luís Barreto Guimarães, não é a Morte: é o quotidiano: o quotidiano real e não transfigurado (é claro que este afirmação é arriscada), isto é, o dia-a-dia mais comum possível: «Quando Barbara entrou na Pequena Cirurgia/para resolver a lesão da hemiface esquerda/ninguém contava que eu lhe pedisse para dizer/Wislawa Szymborska. Era/uma mancha disforme de/tantos por tantos centímetros/cuja exérese resultou/(graças a Deus?)/completa.» (p.27). É claro que a validade poética – se é que tal coisa é ainda possível nos dias de hoje – pode ser aqui, como noutros poemas, questionada. Mas não é isso que a poesia deve fazer? Questionar? Colocar o homem frente a frente consigo mesmo? Haverá algo mais incerto e inquietante que o quotidiano? Haverá maneira mais simples ou bela de dizer, jogando com as palavras, aquilo que é evidente : «Na armadilha do tempo/ninguém tomba por engano:/não se expurga a pele por décadas quanto muito/dano a /dano.» (p.42).

Não sendo o livro mais conseguido de João Luís Barreto Guimarães, A Parte pelo Todo vale pelo confronto do Homem com o irrecuperável, pela denuncia (que nunca é suficiente) do absurdo que é a Morte, pela validade da poética do quotidiano.


João Luís Barreto Guimarães, A Parte pelo Todo, V.N. Famalicão: Quasi, 2009, pp. 43.

Leituras



Qualquer coincidência é pura semelhança


Quando Ernesto Sampaio publicou no Diário de Lisboa, em 19 de Junho de 1987, o texto O Cidadão Liru (posteriormente coligido em Ideias Lebres, Fenda, 1999), talvez não imaginasse a actualidade que o mesmo iria ter passados 22 anos. Ernesto Sampaio considerava, em 1987, que vivíamos num «triste tempo, regido pelo vazio, sem qualquer projecto histórico mobilizador», onde o mundo se encontrava domesticado pela angústia, cepticismo e «narcotizado pela apatia». Estas reflexões demonstram, talvez, que Ernesto Sampaio não ficou indiferente à leitura de Gilles Lipovetsky, nomeadamente do livro A Era do Vazio, publicado em França em 1983. Contudo, o texto de Ernesto Sampaio concentra-se no exemplo português. Em 1987 estávamos longe de saber o que o futuro nos reservava, nomeadamente ao nível da rede, do fenómeno dos blogues e das redes sociais. Em 1987 os blogues e as redes sociais eram outros, mas a obsessão «pela «informação», pela histeria de «comunicar», de se exibir gratuitamente perante um público fantasmagórico, insubstancial, que contempla indiferente a gesticulação autista dos novos narcisos pouco sofisticados», era a mesma. Mas que retrato faz Ernesto Sampaio de Portugal em 1987? Nada abonatório: «o ensino é medíocre e não tem qualquer finalidade humanista, a cretinice é a norma dos programas de rádio e televisão, a imprensa pratica sistematicamente o electrochoque afectivo (…), o obscurantismo, sob todas as suas formas, está na ordem do dia, os conceitos mais vis e reaccionários beneficiam de uma publicidade espaventosa, os poderes montam os dispositivos sofisticados para privar os cidadãos de qualquer hipótese de reflexão e acção.» (o texto é de 1987, lembram-se?). É claro que, neste cenário, a apatia impera. Por que razão os cidadãos não reagem? Porque devido a todos estes mecanismos opressores o cidadão «nunca se interroga sobre o que deve fazer (tem, aliás, a sensação de que não pode fazer nada), limitando-se a pensar com inquietação no que lhe virá a acontecer.». E Ernesto Sampaio continua: «É uma cultura maluca: prega a iniciativa privada aos desempregados e promete torná-los a todos empresários.» Mas, onde é que eu já vi isto?

Punk: ida e volta (5)


O lema era No Future. O niilismo dos Sex Pistols era evidente. Era punk. Eram apolíticos (se tal é possível), apesar das letras das suas músicas. Não apelavam à revolução, à revolta, ao contrário de outros grupos como The Clash, estes sim bastante politizados e com um forte cariz social. O punk é caos, desordem. Não é social, revolução.

Punk: ida e volta (4)


O conceito punk era muito simples: faz o que te apetecer e como te apetecer. No entanto, havia algo mais. Sid Vicious, por exemplo. Dizem que não sabia tocar baixo, que foi contratado pelo facto de fazer o que lhe apetecia e como apetecia. Tornou-se a figura mais conhecida dos Sex Pistols (o outro é Johnny Rotten). Mas será que a escolha de Sid Vicious é ingénua? Malcom McLaren não fazia nada ingenuamente. Os Sex Pistols eram constituídos por dois pilares: Sid Vicious (o rebelde sem causa) e Johnny Rotten (o intelectual do grupo – basta ouvir com atenção as entrevistas da altura para verificar isso). Os outros dois membros eram, por assim dizer, os músicos. A partir do momento em que Sid Vicious começa a sua espiral em direcção ao abismo, o grupo começa a desmoronar-se. Rotten segue-lhe os passos. Se manter uma casa só com dois pilares era difícil, sem nenhum era impossível.

Punk: ida e volta (3)


Não podemos esquecer que o punk foi conceptualizado por Malcolm McLaren (juntamente com a sua companheira da altura, Vivienne Westwood). O resto veio por arrastamento. Tal como aconteceu com o glam rock. Nos anos 70, os dois principais “movimentos” musicais – glam rock e punk – não o foram. Foram conceitos que degeneraram em “movimentos”. Mas, nenhum deles, tinha um cariz social. Antes estético.

Um poema de Rui Costa


Bar do Acaso

Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.

Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro
e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.
em, O pequeno-almoço de Carla Bruni (edição bilingue), Punta Umbría: Ayuntamiento de Punta Umbría, 2009, p. 10.

Pensamento do dia


Sex Pistols - Holidays in the sun

Punk: ida e volta (2)


Na realidade, o punk durou o tempo exacto de gravação de Nerver Mind the Bollocks. Tudo o resto é pós-punk, incluindo os próprios Sex Pistols, depois de gravarem o seu único álbum em estúdio. Poderíamos falar dos Buzzcocks. Mas esses, na realidade, nunca foram punk: apenas tocaram no mesmo concerto que os Sex Pistols (no Lesser Free Trade Hall - Manchester - em Julho de 1976). Tudo o resto que veio a seguir, e se auto-intitulou de punk (lembro, por exemplo, Exploited), é apenas uma tentativa de capitalizar algo que teve apenas alguns minutos de vida.

Punk: ida e volta (1)


Toda a filosofia punk (caso possa ter esse nome) resume-se ao título do álbum dos Sex Pistols: Never Mind the Bollocks. O resto não interessa. E não podemos esquecer que o punk não é, na verdade, um movimento: é um conceito. Foi isso que muita gente não entendeu. E continua a não entender.

Um poema de Carlos Couto Sequeira Costa


Procurei as moradas onde as
Pessoas viveram, as datas
escalpelizadas
Da deportação, os locais

Onde foram assassi
Nadas, a alma desfaz-se, é trans
Portada por uma paisagem de fora
Sem exterior nem interior
É fatal o anjo da memória

O espaço morre, agora

em Três Lições de Arquitectura - Ensaio de Filosofia, Lisboa: Fenda, 2002, p. 31.

Saramago e a mudança de paradigma


O voto em branco, bem vistas as coisas, foi uma invenção de Saramago. Até Saramago falar no voto em branco ninguém dava importância aos votos em branco. Mas agora já são 5% e torna-se uma coisa significativa. Antes podiam ser 5% e ninguém dizia nada.

ZÖP


Conheci o Abel Arez quando trabalhei no Estabelecimento Prisional de Caxias. O Abel também era lá professor. Fez um trabalho muito interessante junto dos reclusos, nomeadamente um teatro radiofónico e gravou uma demo com uma banda lá do sítio. Agora aparece com os ZÖP. Ouçam. Pois nem só na Flor Caveira há projectos que merecem divulgação.

Obviamente, não votei


Um dia vi um documentário sobre António Gedeão em que ele diz que nunca tinha votado na vida dele. Como sou um gajo influenciável – sempre fui (acho que dá para ver) – deixei de votar. Não me interessa votar. É só ver a televisão e os tempos de antena. Mas acham mesmo que há alguém em quem vale a pena votar? Se é para votar de cruz – isto é: votar só por votar, porque é um dever cívico ou porque o vizinho disse que temos que mostrar o nosso descontentamento ou porque todos os outros são melhores do que aqueles que lá estão (e daqui a quatro anos estamos a dizer o mesmo sobre aqueles em quem votamos) –, não obrigado. Votar em consciência? Ok. Eu prefiro usar a minha consciência. Ela diz-me para não votar. Fico tranquilo.

Um poema de Rui Pires Cabral


Átrio

tínhamos conversas no átrio
sobre os colchões empilhados

eu queria saber mais, queria circunscrever
a liberdade dos teus olhos

o fim da historio era logo no fundo
das escadas
mas o tempo prestava-se ao uso

a tua t-shirt de dormir era tão velha
que o desenho já nem se percebia


em, A Super-Realidade, Vila Real: Edição do Autor, 1995, p. 10.

Pensamento do dia



The Sound - Winning

Discos pedidos (9)


Há um grande acordo quando se diz que os The Sound são das bandas mais menosprezadas da cena musical inglesa dos inícios dos anos oitenta. Mas o facto é que também não tiveram a vida facilitada: se pensarmos um pouco, damo-nos conta que tiveram de competir com nomes como Joy Division, Echo and the Bunnymen, Magazine, e, na sua fase final, com The Smiths. Contudo, quando se ouve um álbum como From The Lions Mouth (1981), não se pode ficar indiferente à música deste grupo.

From The Lions Mouth é o disco mais conseguido da banda, apesar de Jeopardy (1980) e All Fall Down (1982). A escolha de uma sonoridade soturna, quer nas letras das músicas quer nos arranjos – principalmente com o som de um órgão a conferir uma maior substância a algumas faixas – contribui bastante para que este seja um dos melhores álbuns rock dos anos 80. Todo o disco é feito de contrastes: se nas primeiras faixas podemos encontrar alguma esperança nas letras (Winning e Sense of Purpose, primeira e segunda faixa, respectivamente), logo os The Sound nos submergem num clima pesado, claustrofóbico e pessimista (Contact the Fact, Skeletons, Judgement, Fatal Flaw, Possession e Fire). Depois destas seis faixas, a banda prefere serenar o ouvinte com Silent Air, para em seguida o bombardearem com New Dark Age (música altamente politizada e reflexo do clima de instabilidade que se começava a viver) e Hothouse.

Se os The Sound não são mais conhecidos do público, a culpa não é da sua música: é dos ouvintes. Se prestarmos atenção a alguma da música que hoje se faz, encontramos influências de algumas bandas dos anos oitenta. Se prestarmos muita atenção, encontramos os The Sound.

Nem sei que título dar a isto


Ao ler este texto de Rui Bebiano, não posso deixar de concordar, em parte, com aquilo por ele exposto. O texto de Rui Bebiano tem por base uma petição criada com o objectivo de «repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados.». Até aqui tudo bem. Pergunto: quantos dos subscritores da referida petição usam calçado que, provavelmente, foi fabricado utilizando trabalho infantil (que é o mesmo que dizer escravo)? Que têm a dizer sobre isso? Será que usam umas sapatilhas da Nike, por exemplo (e não, não recebo comissão), com um papel ao peito a dizer em que condições elas foram manufacturadas? Quantos dos subscritores frequentaram um moderno health club, que depende, muitas vezes, do trabalho de gente altamente qualificada mas a recibos verdes? Será que praticam a actividade física com um cartaz que diz “estou aqui a transpirar mas consciente das precárias condições de trabalho dos monitores que têm a minha total solidariedade”? Sei que esta minha visão é um tanto ou quanto radical, exagerada. Não concordo que se deva sanear esse período da história universal em que seres humanos eram vendidos como gado. Mas, meus amigos, não há paciência para este género de petições. Pelo menos eu não tenho.

Isto não é um post a defender o Ministro da Agricultura


Estou muito bem no meu canto, mas quando ouço alguns dos nossos políticos falar fico com os cabelos em pé. Principalmente quando ouço o Senhor Dr. Paulo Portas falar. O dito Senhor vem sempre em defesa dos agricultores (que há muito se habituaram à subsídio-dependência), dizendo que o Governo não soube aproveitar os subsídios da União Europeia. Mas esquece o facto de ter feito uma compra de 800 milhões de euros (dois submarinos). Quantos agricultores o Estado poderia ajudar com 800 milhões de euros? O Senhor Dr. Paulo Portas fala em 72 milhões de euros (se não estou enganado) perdidos pelo Governo entre 2004 e 2005. Certo. É lamentável. Mas o que dizer dos 800 milhões gastos em dois submarinos? Que dizer do facto de o negócio ainda estar a ser investigado e do Senhor Paulo Portas ser um dos implicados na investigação? Que dizer dos 260 blindados Pandur (no valor de 364 milhões de euros), negócio feito pelo Senhor Dr. Paulo Portas enquanto Ministro da Defesa no Governo PSD/CDS-PP? Que dizer do facto da empresa austríaca querer transferir o fabrico dos blindados de Portugal para a República Checa, provocando, dessa maneira, a perda de 200 postos de trabalho e 100 milhõesde euros de prejuízo para a empresa?

Wook


Também podem comprar Mapa aqui.

J.G. Ballard


«As cidades abertas pertencem ao passado... acabaram-se as ramblas, acabaram-se as áreas pedonais, acabaram-se as margens esquerdas e os bairros latinos. Estamos a entrar numa época de grelhas de segurança e espaços defensáveis. Quanto a viver, as nossas câmaras de vigilância podem fazê-lo por nós. As pessoas estão a trancar as portas e a desligar os sistemas nervosos.»

J.G. Ballard, Noites de Cocaína, Lisboa: Quetzal Editores, 2003, p.207.

A Bela e o Monstro


Joana Amaral Dias e Diogo Feio na SIC Notícias.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (12)


1. Todos aqueles que pensam um pouco sabem que este país, apesar de ser uma democracia, sofre de défice democrático. Como todos os que pensam sabem que é muito difícil lidar com as opiniões dos outros. Eu próprio, às vezes, tenho dificuldade em lidar com a opinião dos outros. No entanto, todos os dias tento contrariar esta minha atitude, que – apesar de poder ser reprovável – é o que me distingue do resto dos animais (sejam eles racionais ou irracionais). Outro problema é a posição política: esquerda ou direita. Quase ninguém é desassociado destes dois rótulos. Se criticamos a direita é porque somos de esquerda (ou não somos o suficiente de direita); se criticamos a esquerda é porque somos de direita (ou não somos o suficiente de esquerda). Resumindo: uma crítica nunca é vista como apenas uma crítica, mas – quase sempre – como um ataque pessoal. Tal como um texto de opinião nunca é visto como um texto de opinião, mas sim como uma crítica.

2. A questão da interpretação de textos – nomeadamente literários – foi algo que sempre me intrigou. Ainda hoje considero que se trata de uma ciência oculta, apenas possível a um grupo restrito de pessoas, que pertencem a uma sociedade secreta. É claro que não há nada de mais subjectivo do que a literatura. Cada um lê o que quer ler – e aqui também incluo os decretos-lei. Todo o texto literário é passível de infinitas interpretações. O consenso quase nunca é conseguido. É claro que esse é, quanto a mim, o principal valor do texto literário: o facto de não ser consensual. Um bom texto literário não deve ser consensual. Não quero com isto dizer que um texto que reúne consenso não seja literário. No entanto, desconfio dele.

Glória de Sant'Anna: 1925-2009


Conheci a poesia de Glória de Sant'Anna este ano. Conheci através de Amaranto. Poesia 1951-1983, da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Fiquei a saber através do Da Literatura que ela faleceu hoje. Deixo aqui mais um dos seus poemas:

Epitáfio

Eu um dia serei uma poalha de vento
pousando inadvertidamente em tua face

e me sacudirás

Eu um dia serei uma réstea de chuva
caída por acaso em tua fronte

e me sacudirás

E eu um dia serei a última lembrança
imponderável já na tua mente

e então me esquecerás

Um poema de Sá de Miranda


Do passado arrependido,
seguro doutro erro tal,
seja o perdido, perdido,
e do mal, o menos mal.
Faça-se o que vós mandais:
não nos ouça mais ninguém,
que do mal vosso e do bem,
não sei qual quisesse mais.

em Obras Completas - Volume I, Lisboa: Sá da Costa Editora, 1960, p. 13

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (11)


1. Ciência política não é o meu forte. Mas também não precisa de o ser para verificar que o PS deu um tiro no pé com a candidatura de Elisa Ferreira ao Parlamento Europeu e à Câmara Municipal do Porto (claro que o tiro no pé é maior no segundo caso). Rui Rio soube logo aproveitar a deixa: o seu slogan é prova disso. O caso de Elisa Ferreira é um bom exemplo do tipo de política que se faz neste país: uma política que coloca em primeiro lugar os interesses pessoais ao interesse geral. Se Elisa Ferreira estivesse sinceramente empenhada na sua candidatura à Câmara Municipal do Porto, nunca se candidataria ao Parlamento Europeu, nomeadamente numa posição que lhe garante a eleição. O mesmo acontece com Ana Gomes. Que conclusões podemos tirar disto tudo? Penso que só uma: a política em Portugal nunca foi feita a pensar no bem comum, mas sim no bem pessoal. Mais provas para quê?

2. O noticiário das 22h, na RTP2, tem dado voz aos cabeças de lista dos vários partidos que se candidatam ao Parlamento Europeu. Apreciei bastante as intervenções dos cabeças de lista do PCTP-MRPP e do POUS. O primeiro referiu-se sempre à Rússia como União Soviética e defendeu as 30 horas de trabalho semanal. O segundo (que neste caso é uma segunda) disse que o principal objectivo da sua candidatura é desmembrar a União Europeia caso seja eleita. Mas este senhor e esta senhora vivem em que século?

Prima nocte


Comprei no outro dia o primeiro volume das obras completas de Francisco de Sá de Miranda (Dr. no prefácio de Rodrigues Lapa), edições Sá da Costa. O livro vinha com as folhas coladas, demonstrando que seria eu o primeiro a ler o exemplar em questão. Então, não tendo x-acto, peguei na minha faca do Verdugal e comecei a separar uma a uma as folha. Senti-me uma espécie de senhor medieval consumando a prima nocte.


Cromos


Se há coisa que não compreendo é a necessidade que algumas pessoas têm de colocar cromos, no vidro traseiro do automóvel, onde se pode ler “Baby a Board”. Tal fenómeno é para mim um caso de estudo. Por que razão as pessoas têm necessidade de mostrar que percebem inglês?

Coisas esquisitas


As mamas da Ana Malhoa na Playboy de Junho.