A frio


Se fizermos uma análise fria à nossa vida, chegaremos à conclusão de que não há nada de mais literário.

Em busca da Quitéria perdida


A casa que aqui habito, como é óbvio, fica junto a outras casas. As outras casas são, na sua maioria, habitadas por imigrantes búlgaros. É perfeitamente natural acordar nas manhãs de sábado e domingo ao som duma fanfarra qualquer em altos berros no auto-rádio dum automóvel. Às vezes penso num amigo meu que vive rodeado de ciganos. Eu aqui ainda não encontrei a minha Quitéria. Embora acredite que ela anda por aí. Mas com outro nome, que aqui é tudo búlgaro.

Pergunta


O calor que aqui se faz sentir é atordoante. O dia é tórrido. Às vezes uma brisa agita os ramos das árvores mas não é o suficiente para refrescar. Todas as pessoas se movem lentamente. Como num filme do Manuel de Oliveira. Há uma rola que canta lá fora. Não sei como tem forças para o fazer. E não entendo como consegue voar. Não estaria melhor à sombra, junto a um riacho na companhia da sua amada?

As Portas


Olá. Eu sou o Pedro. Tenho 25 anos, um passe social e uma namorada chamada Carla. O passe tem funcionado sempre muito bem, mas a Carla é uma grande chata, pá!

Por causa da teimosia dela, dei comigo fechado na Pousada de Juventude de Guimarães. Não vou revelar tudo já, mas a "viagem" que fiz para sair foi melhor do que qualquer outra que tivesse feito, com ou sem passe social. Tão boa que as Pousadas de Juventude a gravaram para comemorar os 50 anos e lhe deram um nome. AS PORTAS é um filme-jogo interactivo e não linear produzido pelo Bode Expiatório. Estreia a 4 de Junho em http://www.pousadasjuventude.pt/.

Até lá, podes ir lendo o meu blog e visitar as minhas páginas no Facebook e no Hi5, onde encontrarás material de making-of, fotografias, teasers e muito mais.

Achas que me consegues ajudar a encontrar a saída? Vamos ver...

Pedro

Gettysburg


A maior, mais difícil batalha, que alguém pode travar é contra si próprio. E o pior é quando se perde a batalha. Como combater alguém que nos conhece? que conhece todos os nossos recursos, mecanismos de defesa e ataque? como se esquiva um golpe que sabemos ser certeiro?

Günter Grass


«Voltado atrás ao tolo, ao impassível adolescente. Também não era assim tão tolo e impassível como isso.»


Günter Grass, Escrever depois de Auschwitz, Lisboa: Dom Quixote, 2008, p. 15

Sentido de ridículo


Sem dúvida que é necessário parar um pouco e pensar. Quando não se pensa, e se diz logo, há um grande risco de cair no ridículo. Penso que isso já aconteceu a muita boa gente: cair no ridículo. A mim acontece-me muitas vezes. É um dom que tenho.

Clamava violentenmente o meu coração contra todos estes meus fantasmas


Nestes últimos dias tive a tentação de começar a escrever os meus verdadeiros pensamentos sobre a humanidade. Desisti. Não há pensamentos suficientes que a possam salvar (a humanidade, entenda-se). E quem é que, afinal, ainda quer salvar a humanidade? Compreendê-la já seria muito bom. Ou melhor: seria o suficiente. Mas tentar compreender a humanidade será o equivalente a tentar provar a existência de Deus – ou o inverso: a sua não-existência. Como podem ver só fiz bem em não escrever nada. Afinal, para escrever apenas sete linhas (tenho como referência o Word) levei dez minutos (sete linhas até aqui). E vendo bem nada ou quase nada daquilo que escrevi faz grande sentido. Não tenho a capacidade de organizar o pensamento, como não tenho a capacidade de organizar os meus livros e a minha casa (dez linhas). Talvez me tenha feito falta a Matemática. É que nunca fui bom aluno a Matemática. Ainda hoje, às vezes, conto pelos dedos (não, não tenho vergonha), e engano-me (caso não tenham reparado esta última parte é uma hipérbole). E depois há a filosofia. Desde que me obrigaram a estudar Kant e Hegel que nunca mais fui o mesmo. E isto não quer dizer que mudei para melhor: não, isso não aconteceu. Kant e Hegel não me serviram para nada. Ainda no outro dia tentei ler Kant e fiquei na mesma. É muito difícil para mim. Não o entendo e não entendo onde ele quer realmente chegar. Talvez Kant não quisesse chegar: apenas partir.

Lí por aí


«Bastante mais significativo que o episódio em causa é, porém, que um tal momento de televisão - no qual, aliás, escorreu esse «sangue» tão ao gosto de um jornalismo que tem vindo a fazer escola e do qual Moura Guedes é um dos rostos mais conhecidos - esteja a correr na blogosfera à velocidade da luz enquanto é completamente ignorado pelos jornais nacionais e pelas televisões. O néscio e «bigbrotheriano» corporativismo jornalístico que está por trás desta exclusão, silenciando ou minimizando os argumentos de quem ousa discutir critérios e estilos no modo de informar, é um perigo para a democracia. Deve ser uma causa nossa denunciá-lo e combatê-lo.»

Rui Bebiano, em A Terceira Noite

Pensamento do dia




Radiohead - Ceremony
(versão original da Joy Division)

Unknown Pleasures



O primeiro álbum é todo um manifesto. A capa são as ondas de uma estrela – captadas por um medidor de pulsos – na hora da morte. O próprio nome (Unknown Pleasures) abre a porta a infinitas possibilidades. E o resto é história.

The Eternal




E há ainda Tony Wilson. Sem ele o mundo nunca conheceria a Joy Division. Se Martin Hannett é o responsável pelo "som à Joy Division", Tony Wilson é o responsável pela imagem da Joy Divison: foi ele quem, pela primeira vez, levou o grupo à televisão. Tony Wilson fundou a Factory Records. Apoio e gravou grupos como A Certain Radio, Happy Mondays, James, Cabaret Voltaire, Durutti Column, Electronic, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Quando Quango, entre outros. Tony Wilson morreu em 2007 de cancro. Não tinha dinheiro para pagar os tratamentos.

Pensamento do dia



Joy Division - Twenty-four Hours

Leaders of Men


Não podemos ignorar o contexto histórico em que a Joy Division esteve inserida: o movimento punk, Margaret Thatcher, o desemprego, a revolução islâmica no Irão, os restos da Guerra do Vietname, a Guerra Fria – que chegou a inspirar alguns textos a Ian Curtis – com o seu Muro de Berlim, o falhanço do Maio de 68. Todas as promessas de um mundo melhor pouco ou nada significavam. A música da Joy Divison era apenas um reflexo de tudo isso.

The Sound of Music


É claro que o movimento punk foi a grande alavanca. O punk está para os anos 70 como o grunge está para os anos 90: qualquer um pode pegar numa guitarra e tocar, mesmo que não perceba nada de música, mesmo que as letras sejam completamente descabidas. Com os elementos da Joy Division poderá ter acontecido a mesma coisa. Só que eles tinham Ian Curtis.

Disorder


Num recente documentário sobre a Joy Division, alguém dizia que eles tocavam pelo simples facto de não terem alternativa. Ao ouvir-se a música entende-se melhor esta afirmação, que fora de um contexto poderá parecer gratuita.

Pensamento do dia



Joy Division - No Love Lost

An Ideal For Living



A aventura punk da Joy Division durou pouco tempo. É claro que a matriz punk está lá, mas Martin Hannett, genialmente, soube explorá-la de uma outra maneira, dando-lhe consistência. Warsaw foi o primeiro nome do grupo. Só mais tarde, quando decidiram avançar com a gravação do primeiro E.P. (ver imagem), o nome Joy Division foi adoptado. É claro que o nome é provocatório e a capa idem. Mas o objectivo estava conseguido: agitar consciências.

Heart and Soul


Penso que podemos falar de existencialismo nas músicas da Joy Division. Muitas das letras de Ian Curtis são interrogações: o que é o Homem? o que faço eu aqui? Morte? Vida? O absurdo do mundo, da vida, está exposto em muitas das canções. Os tempos também não eram para menos: o mundo tinha assistido ao Maio de 68 e ao nascimento do movimento punk. Muitos consideravam que tudo era possível. Mas a Joy Division interrogava, questionava, despia o Homem, expunha-o aos elementos.

Pensamento do dia



Joy Division - Wilderness

Som à Joy Division


Desassociar o nome de Martin Hannett do nome da Joy Division é algo de absolutamente impensável. Foi ele, Marin Hannett, que criou o som, aquilo que mais tarde se passou a designar como “som à Joy Division”. É claro que antes de Martin Hannett a escuridão, a claustrofobia, o desespero, estavam na música da Joy Division. No entanto, foi Martin Hannett quem deu uma maior consistência a todas elas. Génio? Talvez.

Love Will Tear Us Apart


Quem nunca dançou esta música, quem nunca bateu o pé ao som dela, que atire a primeira pedra.

Shadowplay


O primeiro contacto que tive com a música da Joy Division foi através dum colega do secundário. Passou-me para a mão uma cassete com o nome Shadowplay – Joy Division. Era um concerto pirata, com péssima qualidade, mas quando ouvi os primeiro acordes de Shadowplay fiquei em estado de choque: como era possível música daquela ter-me passado ao lado durante aqueles anos. Dos discos que trouxe muitas vezes da casa dum dos meus muitos primos havia The Cure, Clan of Xymox, The Jesus and Mary Chain, Love and Rockets, Cocteau Twins, entre outros. Nunca Joy Division. Depois daquela cassete posso afirmar, com toda a certeza, que nunca mais fui o mesmo. Posso não me ter tornado numa pessoa melhor. Mas nunca mais fui o mesmo.

Yukio Mishima


«Se o leitor se mantiver na dúvida, então o acto de escrever terá sido desde o princípio inútil: porque pensará que afirmo as coisas apenas porque me apetece, sem nenhum respeito pela verdade, e que me permito contar o que me passa pela cabeça, desde que isso contribua para tornar a minha história plausível.»

Yukio Mishima, Confissões de uma Máscara, Lisboa: Assírio & Alvim, 1995, p. 148.

Tell me why, I don't like Thursdays


A quinta-feira sempre foi o meu dia não. Nunca gostei deste dia, como também não gosto do domingo. Este ano não gosto particularmente da quinta-feira por um motivo: entro às 08.10h da manhã, saio às 09.40h da manhã, e só volto a entrar ao serviço às 17h da tarde (para sair às 21.30h da noite) Muitos dirão: não te queixes! ó cagarolas! há gente que nem emprego tem! Pois. A mesma conversa de sempre. E isso era suposto deixar-me feliz?

Lí por aí


«Assim sendo, a existência de livros que devem ser lidos antes da morte do leitor tem obrigatoriamente de nos sugerir (até por um certo sentido de equilíbrio) a existência de livros que devem ser lidos depois ou mesmo durante a morte do leitor.»

João Paulo Sousa, em Da Literatura.

Há dias assim


Hoje o dia está fácil para a reflexão inútil.

Marcos 14, 34-36


Os últimos dias tenho passado parte do tempo a (re)ouvir a música de Tori Amos. Ontem o pensamento do dia foi ela e a música Crucify. Quem prestou atenção ao refrão reparou nos versos: Why do we / Crucify ourselves. Que tendência é essa do Homem? Por que razão cada um de nós tem tendência para a crucificação, para a auto-crucificação? Nós próprios muitas vezes dizemos que todos temos uma cruz que carregamos. Esquecemo-nos é da parte em que só a carregamos pelo simples facto de querermos. Ninguém nos obriga a carregar uma cruz. Jesus não foi obrigado a carregar a sua. Foi Sua a opção de a carregar. Ele podia ter rejeitado. Na noite antes, no Monte da Oliveiras, ainda pediu ao Pai para afastar dele “o cálice”*. Foi a sua última tentação – segundo Scorsese.

34 E disse-lhes: A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui, e vigiai. 35 E, tendo ido um pouco mais adiante, prostrou-se em terra; e orou para que, se fosse possível, passasse dele aquela hora. 36 E disse: Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres.» Marcos 14, 34-36.

Em jeito de justificação


No outro dia perguntaram-me por que razão eu era pessimista. Essa é uma pergunta que me custa muito responder. Mas penso que não é difícil imaginar algumas das razões. O colapso do Homem é evidente. Todos os dias temos provas de que o ser humano é um animal feroz e atroz. Considero, até, que o uso do termo humano é um eufemismo. O século XX foi um século repleto de guerra e atrocidades: I Grande Guerra Mundial, II Grande Guerra Mundial, Holocausto, Hiroxima, Dresden, Vietname, Guerra Iraque/Irão, I Guerra do Golfo, Guerra dos Balcãs, valas e valas comuns. O século XXI, que se queria um século de mudança e esperança – algo que ainda poderá vir a acontecer (o que duvido)–, foi iniciado com a II Guerra do Golfo. Que mais esperar do ser humano?

Pensamento do dia



Tori Amos - Crucify

Letras


Escrevo qualquer coisa para matar a fome, mas continuo com fome. As letras só enchem o estômago na sopa. O espírito, caso exista, passa bem sem as palavras. Tanto dos outros como minhas.

Bolonha



Indignar-me é o meu signo diário (7)


Com a ida a Manteigas deu para ver uma coisa: as tão faladas placas informativas do preço dos combustíveis nas auto-estradas. Na A1 alguns já funcionam. Na A13 também. E na A2 idem. Na A13 o preço do litro da gasolina sem chumbo 95, nas estações de serviço de Salvaterra de Magos e Montijo, é 4 cêntimos mais caro do que nas estações de serviço da A1 e da A2. Leram bem: 4 cêntimos mais caro. Não sei qual a razão que justifica o valor. Mas o que concluir de tudo isto? Só uma coisa: a concertação de preços existe! Todas as gasolineiras praticam o mesmo preço em quase todos os combustíveis.

Lí por aí


«A partir de meados do século XX tornou-se consensual entre os poetas, portugueses e não só, que um poema era tanto melhor quanto mais abstracto, e tanto mais “profundo” quanto mais enigmático. De acordo com esse consenso, um poema que remetesse para um resíduo semântico comum ou para um universo de referências passível de partilha e de compreensão pouco mais mereceria do que o apodo de exercício frouxamente discursivo. De repente, foi como se em todos os poetas se desenvolvesse o pânico de serem compreendidos por um qualquer estudante do ensino secundário e a leitura de poesia devesse tornar-se um campo de especialização tão impenetrável como a física quântica.»

José Miguel Silva em Achaques e Remoques

Apresentação da colecção Palavra Ibérica


Crematório Sentimental – Golgona Anghel
Os Animais da Cabeça – Rui Dias Simão
Uma Ânfora no Horizonte – Maria do Sameiro Barroso
O Pequeno-almoço de Carla Bruni – Rui Costa
Agência do medo – Santiago Aguaded Landero
Privado – Fernando Esteves Pinto

Lisboa: dia 15 Maio na Livraria Pó dos Livros, às 18:30.

Porto: dia 16 Maio na Fnac NorteShopping, às 18:00.

Um poema de João Luís Barreto Guimarães


Decepção à regra

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
em Luz Última, Cotovia: Lisboa, 2006.

Vila


Sempre que venho a Manteigas é a mesma rotina: o café de sempre para dois dedos de conversa, a volta à vila para ver o que mudou, ir comprar o jornal de sábado ao lugar do costume. O dia de hoje não fugiu a esta regra, só que no café não havia ninguém para dois dedos de conversa, nada de significativo mudou – excepto duas mortes, que começa a ser habitual –, e o jornal chegou a horas. Mas durante todo o dia ouviu-se música sacra pela vila. Razão? Não sei. Só sei que foi muito bom andar pelas ruas, cada vez mais desertas, ao som da música. E havia algo parecido com algodão pelo ar. Durante alguns momentos parecia que estava num filme de Terrence Mallick.

Tiago Araújo ou Tiago Araújo?


No suplemento Actual, do jornal Expresso, vem uma recensão crítica ao livro de poesia Livre Arbítrio (Averno, 2009), da autoria de Tiago Araújo. No texto, assinado por António Guerreiro, vem a informação de que é o primeiro livro do autor e que «os leitores mais atentos conhecem Tiago Araújo da sua colaboração em algumas revistas». Não me considero um leitor atento, pois não conheço todas as revistas publicadas, nem todos os livros. No entanto, conheço um Tiago Araújo. O meu Tiago Araújo – nascido em Moçambique no ano de 1973 – publicou o seu primeiro livro de poesia nas Quasi Edições no ano de 2001. O título do livro é Diaspositivos. Ora António Guerreiro lançou em mim a dúvida. Quem é Tiago Araújo que publica agora o seu primeiro livro na Averno? Como leitor não-atento que sou faço o meu mea culpa. Mas uma pequena informação biográfica (o ano de nascimento, por exemplo) por parte de António Guerreiro, em relação ao seu Tiago Araújo, não fazia mal nenhum. Ou fazia?

Nota: depois de publicar o meu post dei conta deste comentário aqui.

Um poema de Carlos de Oliveira


Descida aos Infernos

16.

Juro pelos meus olhos
que te venho pedir
o apocalipse da esperança:

a carícia da peste,
as patas dum cavalo,
o incêndio duma lança;

os dentes arrancados
à cárie da fome;

a dolorosa guerra
nos túmulos dos mortos
e dos vivos sem fome.

em A Leve Têmpera do Vento - Antologia Poética, V. N. de Famalicão: Quasi Edições, 2001.

Hoje: Labirintos de Maria João Fernandes



Galeria Abraço
21h30

Prefácio por escrever


Quanto mais leio menos me atrevo a escrever. Houve um tempo em que pouco lia, mas também não escrevia. Depois veio algo que ainda hoje não sei o que é e comecei a escrever. Mas, voltando à leitura. Quanto mais leio mais consciência tenho de que não escrevo, de que apenas rabisco palavras em folhas de papel (que são quase sempre de rascunho, pois tento reaproveitar ao máximo o papel que gasto) e às vezes em ecrãs de computador (como agora). Há quem diga que se deve ler para se poder escrever. A mim acontece o contrário. É claro que não nego a influência que as várias leituras por mim feitas exerceram na minha “escrita”. Nunca haveria Entre o Silêncio e o Fogo se não fosse a leitura de António Ramos Rosa e Eugénio de Andrade. Nunca haveria Mapa se não fosse a leitura de William Carlos Williams, Charles Bukowski, Joaquim Manuel Magalhães, José Miguel Silva, entre outros. E há ainda a música: não o ritmo mas os ambientes que criam. Eu sei que isto pouco ou nada interessa. Haverá até quem pense que eu não escrevo (lembro-me de um ou dois anónimos). Estão no seu direito.

O sol de frente


Há garotos ao sol. Cada um tem o seu portátil. Falam de bytes e downloads. Ouviram na televisão que o que está na moda é a tecnologia, que as novas oportunidades começam aí. A Escola? A Escola estão a vê-la. Com o sol a bater de frente.

Tori Amos



Se há alguém por quem estive sempre apaixonado foi por Tori Amos. Desde que ouvi pela primeira vez a sua voz que fiquei siderado. Para além de bonita, tem uma voz que me deixa de rastos. E as músicas. Deuses, as músicas!

A meu favor


Cada vez mais me distancio de tudo. Não sei se é pelo facto de estar a SW de (quase) tudo. É certo que este lugar também não ajuda. Na escola onde trabalho há três tipo de pessoas: as que tiveram uma depressão, as que têm uma depressão e as que estão perto de ter uma depressão. Nunca vi tanto consumo de antidepressivos. Começo a pensar que quase todos vieram para aqui trabalhar para fugir a tudo o resto. Não sei, no entanto, o que é tudo o resto. Eu cá pretendo terminar o ano lectivo com algum juízo. A meu favor (como no poema de O’Neill) tenho a Sagres de litro a um euro no hipermercado mais próximo. É claro que vou tentar não abusar: já tenho barriga suficiente e o verão está quase a chegar.

E eis que começa o dia


O dia começa com a visão de várias garrafas de cerveja numa mesa de esplanada. São nove da manhã. À volta da mesa um grupo de homens ri e fala alto. O sol começa a apertar, eles pedem mais cerveja e para acompanhar qualquer coisa para comer. Eu sigo o meu caminho. Entro no café e peço a bica de sempre e não deixo de pensar naquilo que li antes de adormecer. Durante a noite acordei várias vezes com calor. Ou seriam preocupações? Não sei. Os homens lá fora continuam a rir e falar alto. É só mais um dia: penso.

Solar


Apesar de ter uma escrita visceral e atormentada, não consigo deixar de considerar Mishima um escritor solar. Não sei se estará relacionado com o facto de só o ler em dias de sol e à beira-mar. O único livro que dele não li à beira-mar e em dias de sol foi Depois do Banquete, livro fortíssimo e bastante diferente do Mishima a que estava habituado. Mishima é, para mim, um escritor solar. É claro que a escrita solar de Mishima é mais semelhante a um clarão, que ofusca e queima, do que à luz tépida do fim da tarde. Quando falo de Mishima também poderia falar de Ícaro. Penso que os dois são em muitos aspectos semelhantes. Poderei estar enganado. Mas continuarei a ler Mishima em dias de sol.

Dia da Asma


Parece que hoje é o Dia da Asma. Sou asmático desde os seis/sete anos. Mas às vezes não sei se respiro mal devido à asma se devido ao país onde vivo.

80's


Definitivamente sou um moço do anos 80. Ouço The Sound, Tuxedomoon, Magazine, Joy Division e penso: eu não sou daqui. Definitivamente não sou daqui.

Verdade verdadinha


Penso que é tempo de começar aqui a dizer a verdade. Mas, como todos sabemos, a verdade é coisa que não existe.