No estágio não me prepararam para isto


Entro na sala e diz-me: tenho aqui a fita de finalista do meu neto, gostava que escrevesse qualquer coisa pois eu tenho medo de me enganar. Sorrio e digo-lhe que sim.

Ficar sem palavras


As laranjas continuam a chegar. Bem como limões, ervilhas, favas, ovos, coentros, salsa. Ainda há quem, do pouco, tenha sempre algo para dar.

Que fique claro


Todos merecem o meu respeito, mas uns mais do que outros.

Fel, mas não o de José Duro


Quando me sinto bastante amargo evito aqui vir. No entanto, e como o fel se acumula, é melhor escrever alguma coisa. Escrever por escrever é a coisa que eu mais faço. É raro ter uma intenção quando escrevo. Mas hoje abro uma excepção: a minha intenção é despejar o fel. Por isso, caro leitor, antes de ler este post até ao fim, é melhor prevenir-se com um anti-ácido.

Big man, pig man, ha ha charade you are


O post Revolução indignou algumas pessoas. Mas vamos tentar ser honestos. Em primeiro lugar: não se deve levar tanto a peito o uso do verbo na primeira pessoa do plural. Em segundo lugar: na realidade o que é que nós fazemos, realmente, para mudar a situação? Escrevemos uns poemas muito irados que os nossos amigos muito elogiam e todos aplaudem. Escrevemos uns posts muito indignados, criticando o estado do Estado e o estado a que isto chegou. Fazemos séries de posts onde mostramos a nossa indignação (e aqui estou a incluir-me a mim, caso ainda não tenham reaparado). Mas quando chega a hora o que é que fazemos? O que é que fazemos de verdade? Prefirimos comentar os poemas e os posts a levantar o cu e ir para a rua gritar. Pois tudo se resume a isso: levantar o cu e ir para a rua gritar. Será assim tão difícil? Será assim tão complicado? Levantar o cu e ir para a rua gritar. Só precisamos de fazer isso. Mas, fazemos isso? Na realidade fazemos isso? 'Tá quieto, ó meu! Já participei em algumas manifestações e, para ser honesto (pois é disso que se trata), foram sempre manisfestações movidas por interesses corporativos. Talvez tenha estado nas manifestações erradas. Não digo que não. O que disse no post em questão continuo a dizê-lo hoje. Podem chamar-me de cretido, palerma, cabeça dura. Mas antes de o fazer no conforto do sofá de casa, pensem que podiam estar a fazê-lo lá fora, na rua.

Revolução


Não. Não vou falar da revolução. Não vivo de utopias. Nem para utopias. Não me venham com aquela treta de que pelo sonho é que o homem avança. Ou uma gaivota voava, voava. A única coisa que sobrou da gaivota foi a merda que foi deixando pelo caminho. E o homem sonhou tanto que não viu que a gaivota lhe cagava em cima. No fundo estamos todos cobertos de merda. E sabem o que é pior? É que, por muito que o pessoal diga que não, já todos se habituaram ao cheiro da merda e a viver no meio dela. Mais ao menos como os porcos.

Daí a ausência


Os melhores amigos destes dias têm sido os analgésicos, os relaxantes musculares e os Magazine.

Um poema de Jorge Fallorca


Aprendo devagar os lugares que o sono afunda. O turbilhão verde da minha louca infância, como um lugar alto que as estrelas consomem nas constelações da água. Escrevo com os olhos fechados. A escrita é redonda no texto circular. Atenta, a população debruça-se sobre as refeições, como um alquimista bêbado.
Ah, deixem-me passar.
Os textos respiram sobre a mesa. Uma casa explode algures, na
beira alta, como uma morte inteligente dentro da infância.

em Fruta da Época, Lisboa: frenesi, 2001.

Pensamento do dia




Pink Floyd - Echoes (part I)

Orgulhosamente sós





Indignar-me é o meu signo diário (6)


Gestores públicos multados pelo Tribunal de Contas estão a utilizar dinheiros dos seus serviços para pagamento das multas quando o deveriam fazer do seu próprio bolso. A denúncia é do Tribunal de Contas e o Ministério das Finanças já veio dizer que se tal prática ilegal estiver a acontecer os gestores serão responsabilizados.

Podem ler mais aqui.

Vírgulas


Durante o fim-de-semana preparei um texto inteligente sobre nada e é claro que não perdi muito tempo com ele pois escrever sobre nada é coisa que não é muito difícil para alguém como eu. Já escrever frases longas sem utilizar vírgulas é coisa que não está ao alcance de todos e não estou a falar do famoso trecho de Ulisses de James Joyce que é sempre o exemplo mais citado. Quem ler com atenção Caranguejo de Ruben A. também pode verificar que o autor não abusa muito das vírgulas embora não exagere como fez Joyce. Poderia arriscar dizendo que Caranguejo é o livro com menos vírgulas de toda a literatura portuguesa do século XX que li o que não deixa de ser interessante pois posso afirmar que li bastantes livros de literatura portuguesa do século XX mas não os suficientes para dizer que li grande parte deles.

O que salva o dia são os Fleet Foxes



A chuva que cai propicia a reflexão. Só que reflectir não é para todos. Os filósofos, os grandes pensadores, habitualmente é gente bem colocada na vida: tem bons empregos, boas casas, criadas e criados q.b. – embora alguns deles não se considerem burgueses. Eu... eu tenho que pensar no jantar de mais logo. Reparei que digo pensar, não digo reflectir. Um jantar não é passível de reflexão. Não sei se é de pensamento. Mas eu penso no jantar que vou fazer. Penso-o. Isso rouba-me tempo para reflexões mais sérias, apesar de não saber o que são reflexões mais sérias. A vida? O seu sentido? A morte? O seu absurdo? O amor? A sua incerteza? A vida penso nela quando vejo o meu saldo bancário: o que vou fazer da minha vida? A morte só a conheço nos outros. O amor, ah! o amor… sei lá eu o que pensar dele. Só sei que a casa está vazia, não estás lá tu nem sequer o teu perfume: there’s the rub!

Caso leias isto ficas a saber que...


um fim-de-semana sem ti não é grande coisa.

Apresentação de Versos Olímpicos de José Ricardo Nunes


Hoje será apresentado o próximo livro de José Ricardo Nunes. A apresentação estará a cargo de Henrique Manuel Bento Fialho. O novo livro tem por título Versos Olímpicos e será editado pela Deriva. José Ricardo Nunes publicou Rua 31 de Janeiro (&etc., 1998), Na Linha Divisória (Grande Prémio Eugénio de Andrade, Campo das Letras, 2000), Novas Razões (Gótica, 2002) e Apócrifo (Deriva, 2007). No domínio do ensaio tem uma tese sobre Luiza Neto Jorge (Um Corpo Escrevente. A Poesia de Luiza Neto Jorge, &etc, 2000) e um volume intitulado 9 Poetas Para o Século XXI (Angelus Novus, 2003), além de vários textos críticos dispersos por publicações tais como a Colóquios/Letras, Ciberkiosk (publicação on-line), revistas Ler e Relâmpago, entre outros. A apresentação decorrerá no Chá de Limão, Caldas da Rainha, dia 17 de Abril, pelas 21:30 com apoio da Livraria Loja 107.

Pensamento do dia




José Mário Branco - Inquietação

Um poema de Glória de Sant'Anna


Egoísmo

Eu,
estudar apenas
o sentido estético da tarde.

Nem grandes sentimentos,
rolando
em alinhamentos compactos
das reminiscências
dos factos, ou não.

Nunca atitudes suspensas,
vindas de conhecimentos
vastos,
da grande multidão das coisas
com sequência.

Nada.

Apenas eu, estudando
através do gozo de estar ao sol
numa cadeira vermelha
já velha,
o sentido estético da tarde.

em Amaranto: Poesia 1951-1983, Lisboa: INCM, 1988.

Qualquer dia o meia-noite todo o dia é o blogue mais lido (2)


Agora foi a vez deste.

Ruben A.


«É impossível pôr um diálogo humano onde as respostas e as perguntas incidem na nossa vida diária em crueldade e monotonia.»
Ruben A., Caranguejo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1988.

Indignar-me é o meu signo diário (5)



Ouço a notícia e não quero acreditar (o que começa a ser habitual com as notícias neste país, mas depois de ler que a palavra de deputado faz fé, já acredito em tudo): as famílias das vítimas da queda da ponte de Entre-os-Rios vão ter que pagar as custas judiciais do processo que absolveu os seis técnicos, que, supostamente, eram responsáveis por verificar o estado da ponte Hintze Ribeiro, que acabou por cair a 4 de Março de 2001. Parece que vão ter que pagar entre 350 a 400 mil euros.

Mas que raio de país é este? Desculpem lá cair na mesma ladainha de sempre. Mas que raio de país é este? Existem técnicos responsáveis pela verificação do estado estrutural de uma ponte. A ponte cai, o que, pela lógica, indica que a sua estrutura não estaria nas melhores condições (e não é preciso ser técnico ou engenheiro para chegar a essa conclusão). Os técnicos são absolvidos, apesar da ponte ter caído. Afinal, de quem é a culpa? Morre novamente solteira? A culpa será de todos aqueles que iam no autocarro? Tivessem escolhido outro dia, não é? Ora quem os mandou passear num dia assim? Chovia tanto e o rio estava tão bravo! Olha o descaramento!

Um poema de Luís Miguel Nava


Sem outro intuito
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

em Poesia Completa: 1979-1994, Lisboa: Publicações D. Quixote, 2002.

Separadas à nascença ou upgrade da Conceição Lino?



Conceição Lino e Lauren Stamile

Qualquer dia o meia-noite todo o dia é o blogue mais lido


O nascer do sol é mais um que fecha as portas

Lí por aí




«A bacoquice à volta do cão de água português oferecido a Obama está a atingir o paroxismo. Do modo como as notícias são dadas (omitindo a oferta do senador Ted Kennedy), parece que o cão foi daqui. Ora, como se sabe, Bo, que vemos na imagem a correr com o dono, é um filho da Nova Inglaterra, conforme atesta o respectivo pedigree. Se Bo é português... a minha gata é celta! Isto não tem importância nenhuma, excepto na parte em que não conseguimos livrar-nos do provincianismo bacoco, ou, o que é pior, da convicção de que os media nacionais são para o povão (a forma como muitas notícias são apresentadas dá a entender isso), porque as elites lêem estrangeiro



Eduardo Pitta, em Da Literatura

Imparcialidade


Este blogue tenta ser o mais imparcial possível. Numa coisa ele não é imparcial: em relação aos amigos. Isto é: gosto dos meus amigos e, sempre que possível, falarei deles, divulgarei as suas actividades. Quem não gostar: come menos.

Um poema de José Ricardo Nunes


Nós, as crianças

Trocamos as cores,
desconhecemos onde acaba a mão direita
e recomeça a esquerda.
Inventamos novas palavras sem saber
que desde sempre havia mundo para elas.
Ou roubamos as sílabas.
Mas somos ainda menos do que crianças,
muito menos do que aquelas crianças
que levam tudo à boca.

em Novas Razões, Lisboa: Gótica, 2002.

SW


Cheguei cansado. Cinco horas de viagem (pois eu sou um condutor dentro dos limites) deram cabo de mim. Um duche rápido, desfazer a barba e almoçar uma bifana no prato. E depois é chegar aqui e ter que enfrentar uma casa vazia, sem nada de meu que me prenda a ela. O tempo também não ajuda. Se ao menos o sol brilhasse um pouco.

Irene Lisboa


Um poema de A.M. Pires Cabral


As Prostitutas

Naquele tempo,
elas desciam à vila, as prostitutas –
a única saída,
exactíssima resposta para a nossa
angústia seminal acumulada.
Vinham de Vale da Porca, ou outra
terra assim pasmada.
Traziam na cabeça lenços garridos,
na carteira de mão a triste história:
a sedução primária, a miséria espessa,
mas jamais o vício mercenário.
Nas eiras recebiam as nossas águas,
de permeio plantados como reis.
Procuravam lisonjeiras acertar
seu êxtase fingido com o nosso.
Beijavam-nos, diziam: tão novinho!
Suportavam-nos insultos e arremessos.
Com a mão experiente (mas não habituada)
guiavam-nos na bela, impreterível,
urgente aprendizagem,
concediam-nos crédito e carinho –
as tão castas mulhers,
as prostitutas.
em Algures a Nordeste (1974), in Artes Marginais, Lisboa: Guimarães Editores, 1998.

Daqui até lá são 500km certinhos


As malas já estão prontas e à porta de casa. Resta colocá-las no carro, mas chove e está um vento desagradável. O aquecimento central está ligado e parece que há previsão de neve para esta noite. Estou como que a pesar figos (como dizemos aqui na terra para falar da cabeça a cambalear de sono). Mas ainda tenho que ir carregar o carro.

Eno, não o Brian: os sais de fruto


Aqui em Manteigas a Páscoa treminou hoje. Mas para o próximo fim-de-semana ainda há aquilo que aqui chamamos de Pascoela. O padre vais às casas mais distantes do centro da vila. Eu parto amanhã para SW. Foram dias lentos. Revi amigos. Ri-me até às lágrimas. Comi bem. Bebi melhor. Para o ano há mais.

Achaques e Remoques


Se gostavam de ler este e este, vão gostar, de certeza, de ler este.

Um poema de Helder Moura Pereira


Eu ateio fogo a estes jornais,
quase sem querer estou
dentro de alguém, discordo
em absoluto da necessidade
de termos tido de aturar

Freud. Não era decerto
isto o que queriam dizer
quando falavam da tal liberdade
dos poetas. Acontece que há poetas
e poetas, os direitos de uns

não são os direitos de outros.
O único território que, sem ser
sistema, maneja o fundamento
da justiça em a-propósito
radical. Podes atirar os pensamentos

na fácil confusão destas palavras
ou mesmo achá-las muito claras
mas servirás o mundo
como o não-servir e na atitude
humana aguardarás o impossível.
em Amor Carnalis, Lisboa: frenesi, 1998.

Influências


O jazz de Parker e de Coltrane foi substituído pela guitarra de Marr e pela voz de Morrissey. Quem me lê com atenção sabe que The Smiths são a minha principal influência no que diz respeito a escolher morangos e outros frutos vermelhos.

Janela


Da janela do meu quarto vejo uma série de árvores altas. Com o vento elas balançam como que em câmara-lenta.

Um poema de Paulo da Costa Domingos

Judas na Catedral de Platão

Pelo amor da morte dissera: eu
não quero trinta dinheiros
múltiplo do santo
indulgência não
quero vingança paga em esperma
e enforcou
- se o desfile das sombras não fosse um jogo espirita de
ninar
condenados o lintel da greta gótica de Platão,

seriam rabos de fogo? Ex
tinta luz nesta era intermédia e
ninguém nos ouvirá Bem, a corrente vibra
fios na sensualidade da forca.

em, Pó de Anjo, Lisboa: &etc, 1983.

Parker


Pelos vistos tenho amigos leitores atentos deste blogue que até descobrem gralhas no meio dos textos. Fiquei a saber isso ontem, no café do costume. Hoje lá corrigi a gralha – era ali no poema do Daniel Maia-Pinto Rodrigues. A noite, como sempre, correu bem. Tal como a cerveja também correu. Mas ontem contive-me: não fiquei a dever nenhuma grade. Acontece que começo a sentir-me velho. E não pensem que isto é uma hipérbole. Mas a verdade é que já não aguento uma noite como aguentava. Bebi o suficiente para continuar sóbrio, mas hoje ao acordar (deitei-me eram 2h45m da manhã, que é quase um horário de menina) a cabeça pesava um pouco. O que me safou foi o café preto sempre pronto a ajudar. Agora estou aqui a ouvir um pouco de Charlie Parker – esta semana é só jazz aqui em casa. A qualidade da gravação é muito má. São tudo faixas gravadas ao vivo. Em algumas ouve-se melhor o público a conversar do que o saxofone de Parker. Mas tem a sua piada. Parece que estamos num daqueles clubes de jazz que ficam em caves, cheios de fumo e mulheres insinuantes.

Lí por aí


«é uma questão de centrar a atenção: vemos exactamente na direcção em que apontamos, mas perdemos noção do espaço em volta. acontece-nos vezes de mais. damos uma de duros, de capazes, de inteligentes, e tropeçamos nas coisas mais ínfimas, nas coisas que sempre soubemos que estariam lá, mas das quais acabamos por nos esquecer. é uma questão de centrar a atenção: uma questão de perceber os maus resultados que isso dá, a maior parte das vezes.»

Um poema de Helga Moreira


Estamos num quarto branco ou cinzento
assumindo a solidão e o prazer.
Apenas algumas vogais enternecendo sílabas,
sinais, ó noite de rimas!

Visito-te de púrpura, ponho um nome na rua
de qualquer dia, entre o dever
e a capacidade de sonhar.

Amo-te vestida de carne e suor.

em Aromas, Lisboa: &etc, 1985.

Hoje


(clicar na imagem para aumentar)

Da realidade


«Dêem-lhe realidade, afastem de si a filosofia sem ideias nem utilidade dos falsos poetas metafísicos que nunca entenderam a lição de Alberto Caeiro apesar de terem tentado copiá-lo.»

João Camilo, A Ambição Sublime, Lisboa: Fenda, 2001, p.57

Texto


Este texto não tem qualquer propósito. Não tem qualquer objectivo. Ele não se refere a nada em particular. Ele apenas é habitado por palavras. E as palavras, como sabemos, têm significados. Mas este texto não tem nenhum significado apesar das palavras que existem nele. Não pretende, também, chegar a lado nenhum, pois não partiu de lado nenhum. No entanto, este texto tem como banda sonora o saxofone de Coltrane. Tem como paisagem a montanha em frente à minha janela. Este texto não é dedicado a ninguém. Este texto começou a ser escrito às 19h11m do dia de hoje e, até aqui, não tem hora marcada para terminar. Este texto pode prolongar-se até ao infinito, mas isso não vai acontecer, pois este texto não tem ambições nem pretende ficar na história da literatura. Se não o lerem, este texto fica contente na mesma. Se o lerem, também. Este texto podia falar de uma mulher, dos seus olhos verdes, cabelos loiros e da filha que traz nos braços, mas não o vai fazer. Este texto é escrito devagar (são 19h15m), pois os dedos que o escrevem começam a ficar frios, pois ainda hoje não se ligou o aquecimento central da casa onde este texto está a ser escrito. Este texto repete muitas vezes as palavras “este” e “texto” e não se arrepende. São 19h19m e este texto começa a ficar cansado. Também tem esse direito. Este texto fica por aqui.

Um poema de Daniel Maia-Pinto Rodrigues


Poema Tipicamente Masculino

Até porque em geral
não estão demasiado connosco
no dia seguinte
não nos deverá desagradar a ideia
de andar com a mulher dos outros

Uma vez imiscuídos em seus lares
achemos excelentes os trens de cozinha
da Filipa Valha-nos Deus.
Adoremos ver repetidamente
a recepção no claustro
e a lua de mel
no vídeo do casamento
do D. Duarte e da Dona Isabel.
E a ideia realmente inteligentíssima
de irem às compras de produtos dois-em-um
levando nos sapatos
as palmilhas do Dr. Metz
atingindo assim um moderno três-em-um
dever-nos-á deixar profundamente apaixonados

A mim
andar com a mulher dos outros
dá-me uma certa satisfação
não digo que não

Resta-me uma dúvida
será dever-nos-á
ou será deveranos
não sei porquê mas dever-nos-á
soa melhorzinho

em A Sorte Favorece os Rapazes, Porto: Cadernos do Campo Alegre, 2001.

Sol (3)


Está um bom dia para ir ler poesia para uma esplanada. Só espero encontrar uma aberta.

Sol (2)


Dou a volta diária pelos blogues do costume. Há a teoria de que as coisas arrefecem por alturas das festas (Natal e Páscoa). Noto um esmorecer na coisa. Contudo, não sei se está directamente relacionado com a teoria anterior. Hoje talvez seja o sol. Se estivesse para os lados de Lisboa, a esta hora estava a caminho da praia de Santo Amaro. Estacionaria o carro e ia andar um pouco à beira mar. Sempre gostei de fazer isso. Das duas vezes que por lá trabalhei (Caxias, durante um ano lectivo, e Alapraia, durante três meses), sempre que podia não perdia a oportunidade de passear à beira mar. Aqui, tenho a vila que me espera com as suas subidas e descidas, com as suas ruas desertas, com gente de cara cansada. O sol, esse, é o mesmo. Brilha aqui também. Mas à beira mar o “sabor” é diferente.

Sol


O sol convida mesmo a sair. Mas decidi passar por aqui primeiro para vos dizer isto. É claro que pouco importa aquilo que eu faço ou não. Pouco importa.

Um poema de João Habitualmente


Canção Alentejana

A menina estava à janela
com o seu cabelo ao vento

Pus-me nela
mas nem mesmo da vidraça
da minha própria janela
lhe podia ver a graça espelhada no relento

E nem mesmo a vi a ela

Não me vou daqui embora
(nem que chovam canivetes)
sem levar uma prenda tua
sem levar a roupa dela

Pode ser que seja bela
e enquanto estiver nua
hei-de à noite pôr-me nela
na minha pobre janela
com o meu cabelo à lua
em Os Animais Antigos, Vila do Conde: Objecto Cardíaco, 2006.

Uma questão de intimidade


Os portugueses não se dão com intimidades. Uma boa prova disso são os inúmeros romances, livros de poesia existentes e, em comparação, a falta de diários, autobiografias, memórias. Tirando um ou outro autor, poucos são aqueles que se arriscam na escrita intimista. Clara Rocha procurou desmistificar esta questão num livro chamado Máscaras de Narciso – Estudos Sobre a Literatura Autobiográfica em Portugal (Almedina, 1992). No entanto, a literatura autobiográfica portuguesa está longe dos parâmetros da literatura autobiográfica anglo-saxónica, por exemplo. É claro que a comparação é escusada, mas é reveladora. Os estudos sobre a questão também escasseiam. Não é de estranhar: a literatura autobiográfica sempre foi considerada uma literatura menor, apesar de alguns autores – Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Ruben A. – terem parte da sua obra literária dedicada à literatura autobiográfica (Ruben A. é disso exemplo). Outro exemplo, para o facto dos portugueses não se darem com intimidades, são as penosas descrições do acto sexual em alguns dos mais recentes romances portugueses. Poucos são aqueles que conseguem escrever sobre sexo em Portugal. Poucos são os que conseguem não cair no ridículo de uma descrição despropositada e desproporcionada do acto sexual. O recurso a adjectivos e verbos muito pouco ortodoxos contribuem bastante para isso. A verdade é que não existe um verdadeiro imaginário sexual em Portugal.

On the road


Está um frio terrível aqui em Manteigas. De manhã, depois de tomar o pequeno-almoço (há quanto tempo é que não bebia café preto?), decidi ir até à vila. Pouca gente nas ruas, o que não é novidade. O frio aperta mais. Penso: estou mesmo desabituado disto. Mas na realidade não sei se alguma vez me habituei. Um amigo, que não via desde o Carnaval – já lá vão 7 semanas – diz-me que devia regressar. Digo-lhe que isso é impossível, que estou desabituado. Ele ri, pois também esteve vários anos fora de Manteigas, mas decidiu regressar. Eu não. Saí daqui aos 15 anos. Fui estudar para a Guarda, onde também fiz o superior. Depois são, até agora, 8 anos on the road. Não conseguiria regressar. Não agora.

Um poema de Fernando Guerreiro


Crítica do sentimento

Não há juízo poético, apenas algumas luzes perdidas
pela planície onde os corvos vêm escurecer os vícios.
Não deixarei contudo que o pensamento estrague a paisagem
ou que as palavars atapetem, de rosas, o precipício.
Em poesia, não há verdadeiramente sentimentos,
apenas combóios que passam e que com a sua lentidão
interrompem o discurso. No côncavo da vaga, ecoando
no seu centro, o oceano substitui-se à palavra
que rasura o destino. Porque não há leis
para a paixão e quem a experimenta, aprende
quão anónimo é o seu sentido. Por isso,
o sentimento, na poesia, não é um recorte
na paisagem, nem com a Natureza se confunde.
Mais interiormente, tem que ver com a forma
como as garças se perdem no horizonte,
alucinando com os seus gritos o voo do Futuro.


em Teoria da Literatura, Lisboa: Black Son Editores, 1997.

Plano Nacional de Escrita SMS


(clicar na imagem para aumentar)

Em tempos de crise tudo parece valer quando a intenção é apelar ao consumo. Como se não bastassem caixas de correio postal atoladas de publicidade, telemóveis invadidos sabe-se lá por direito de quem, eternos momentos publicitários entre programas televisivos pagos mesmo por quem não pretenda meter-lhes a vista em cima, como se não bastassem outdoors, spam, paredes cobertas de cartazes, telemarketing a toda a hora, temos agora que gramar com capas de livros manchadas pelo escarro da publicidade. Provavelmente acordado entre a Porto Editora e a TMN, eis em anexo um exemplo de um clássico vítima do “moche” publicitário. Outro exemplo é o “Falar Verdade a Mentir”, de Almeida Garrett, que se fosse hoje em viagem pela sua terra só poderia ficar estupefacto com tamanha desfaçatez: é que nem se deram ao trabalho de remeter o autocolante para a contracapa, foi logo chapado em cima do título para que não restem enganos quanto a quem manda. Estimulem-se assim as criancinhas à leitura e, já agora, à escrita de sms.

Nota:
enviado pelo Henrique Manuel Bento Fialho via e-mail.

Da poesia (18)


Mas voltemos àquilo que aqui nos trouxe: a poesia. Será assim tão necessária? Terá ainda validade? Alguma vez teve? Para que serve? O que esperar dela? Será possível encontrar uma definição de poesia? Comecemos, em primeiro lugar, pela última questão, pois será, porventura, a de mais fácil resposta. Procurar encontrar uma definição para poesia será negar a própria poesia. A poesia não é definível. Ela apenas é e limita-se a ser. Aquilo que pode ser ou não ser poesia – segundo a perspectiva de alguns teóricos – é apenas a redução da poesia aquilo que ela definitivamente não é: uma definição.

Indignar-me é o meu signo diário (4)

A Resolução da Assembleia da República n.º 21/2009 aprova o regime de presenças e faltas ao Plenário.

No ponto 7 leio e pasmo:

A palavra do Deputado faz fé, não carecendo por isso de comprovativos adicionais. Quando for invocado o motivo de doença, poderá, porém, ser exigido atestado médico caso a situação se prolongue por mais de uma semana.

E eu que tinha perdido a fé, principalmente na palavra dos Senhores Deputados. Estava enganado. Eis que o Diário da República abriu os meus olhos e agora eu vejo! Aleluia! Aleluia!

Pequeno texto sobre coisa nenhuma mas com um pequena referência ao tempo e onde se pretende alertar o leitor para o surgimento de uma nova ciência


O tempo anda como o país: uma coisa que não se entende. E será que é para entender ou simplesmente desculpa para escrever mais um textinho? Ontem o sol ainda deu um ar da sua graça (esta frase faz-me sempre lembrar aquele sol da primária a que eram acrescentados olhos, nariz e boca), mas depois soprou uma aragem que se tornou incomoda. Regressei ao carro e a casa. Estive a ler poesia de um modo intermitente: um poema de cada vez com intervalos de 10 minutos entre cada um. Parece estranho mas dá tempo para pensar naquilo que se lê. Mas será realmente necessário pensar aquilo que se lê? Conheço gente que consegue pensar aquilo que não lê. Tenho a sensação que é uma ciência oculta que começa, cada vez mais, a ter seguidores. É gente extraordinária. Admiro-os profundamente. Gostava de ter um discurso coerente sobre algo que não li (logo eu, que nem um discurso coerente consigo ter sobre algo que li). Há quem consiga. E as plateias aplaudem e vibram e dizem sim senhor, muito bem dito, extraordinário! Mas, voltemos ao tempo. Não é verdade que está estranho?

Sem título (1)


Sem título (1)
© 2009 manuel a. domingos
(clicar na imagem para aumentar)

Um poema de João Camilo


A olhar para os Alpes

Tu ias ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
eu estou aqui sentado a olhar para os Alpes.
Tu ias ao café Martinho falar de poesia,
eu estou aqui sentado a olhar para os Alpes.
Tu vias da janela o Esteves da tabacaria,
eu estou aqui sentado a olhar para os Alpes.
Como uma vaca lenta e sonolenta, eu
estou aqui sentado a olhar para os Alpes.
em Nunca Mais se Apagam as Imagens, Lisboa: Fenda, 2ª edição, 1996.

João Camilo


A Livraria Almedina Estádio deve ser a livraria onde me sinto mais à-vontade entre os livros. O espaço é agradável e funcional. Os livros estão devidamente ordenados nas prateleiras e é fácil encontrar o título desejado. Em Coimbra deve ser a livraria com a melhor secção de poesia. Foi lá que hoje encontrei dois livros de João Camilo: Nunca Mais se Apagam as Imagens (Fenda, 1996) e A Ambição Sublime (Fenda, 2001). O percurso literário de João Camilo tem sido discreto, apesar de ter mais de uma dezena de livros publicados em Portugal. É claro que discreto poderá ser substituído, sem qualquer dificuldade, por esquecido. Razões? As verdadeiras razões em Portugal têm o costume de não existir. No entanto, ao nível da poesia arriscaria uma: a poesia de João Camilo é tudo menos metafórica e imagética. Poderá ser esta uma razão? Talvez. Alguns poderão apontar o facto de João Camilo há muito estar fora deste país, o que será, do meu ponto de vista, uma falsa razão, principalmente nos dias de hoje. Mas os livros de João Camilo continuam ainda por aí: lembro O som atinge o cimo das montanhas (OVNI, 2007) e a organização de uma antologia de contos de Machado de Assis: O Alienista e Outras Raridades (OVNI, 2008).

Pensamento do dia


Morrissey - Jack the ripper

Ao cuidado do Senhor Anónimo


Gosto de anónimos imbecis, mas prefiro-os com sentido de humor. Eu sei, caro anónimo, que Você tem sentido de humor, embora às vezes me pareça imbecil. Eu sei, caro anónimo, que Você acha que eu, provavelmente, uso e abuso da palavra imbecil. Também sei que será capaz de pegar nesta questão e fazer um jocoso comentário. Vá, caro anónimo, faça-me rir.

A canga


Passei o dia a relaxantes musculares e analgésicos. A coluna deu sinal: a canga anda demasiado pesada, está na altura de te libertares dela.

A ler


Este texto .

Dia porreiro


Ontem, a caminho de Coimbra, visitei dois amigos. De ambos trouxe livros. Amigos e livros. Foi um dia porreiro.

Estou por Coimbra


Vai um café?