Um desejo


Gostava de envelhecer bem como o David Gilmour.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (10)


1. Sempre considerei ridícula a posição da Igreja Católica em relação ao uso do preservativo. Nos dias de hoje, e sabendo o que se sabe em relação às DSTs, todas as questões levantadas pela Igreja Católica são falsas questões. O mesmo acontece com a posição em relação ao casamento entre homossexuais. Alguém que defende o casamento – tendo optado por não casar –, referindo que este é a base da família – tendo optado por nunca formar uma –, tem muita pouca legitimidade para se pronunciar sobre o tema. Reparem que não digo direito. Pouca legitimidade penso que é suficiente.

2. Alberto João Jardim voltou a abrir a boca para dizer das suas. Existem muitos que defendem Alberto João Jardim e dão como exemplo a obra feita na ilha que governa. Gostava de saber como estão as contas públicas na Madeira. Será que não há défice? Será que Alberto João Jardim gere de forma correcta o Orçamento e os dinheiros dos contribuintes do continente? Lembro, há algum tempo atrás, aqueles que defendiam a obra feita de Santana Lopes na Câmara Municipal da Figueira da Foz. Afinal, veio verificar-se que a obra feita era, essencialmente, um enorme buraco financeiro. Parece que essa também foi a obra feita na Câmara Municipal de Lisboa e no Governo.

Depois de Amanhã: Frábrica Braço de Prata - Lisboa




Dia 1 de Abril, às 23.30 horas

Fábrica Braço de Prata-Lisboa

Lançamento de "escrevo risco" de Américo Rodrigues (textos), Zigud (fotogramas) e Jorge dos Reis (design), seguido de improvisção poético-musical por Américo Rodrigues e José Neves (voz), Rogério Pires e José Tavares (guitarras), entre outros.

Adília Lopes


«Certo dia, quando trabalhava no JL, fui incumbido de entrevistar uma escritora chamada Adília Lopes. A primeira pergunta que lhe fiz foi sobre um poema seu de que eu gostava e gosto muitíssimo. Chama-se Autobiografia Sumária e só tem três versos: “Os meus gatos / gostam de brincar / com as minhas baratas.” O meu objectivo era impressionar a autora com a minha excelente interpretação do poema. Disse-lhe que aqueles versos eram também o resumo da minha vida. Os meus gatos, isto é, aquilo que em mim é felino, arguto, crítico (“Não é por acaso”, disse eu, “que Fialho de Almeida reuniu os seus textos críticos num volume chamado Os Gatos”), aquilo que em mim é perspicaz – e até cruel – gosta de brincar com as minhas baratas, ou seja, com aquilo que em mim é repugnante, negro, rasteiro, vil. E aquela operação poética – que é, igualmente, uma operação humorística – de escarnecer de si próprio era-me tão familiar que podia descrever-me de forma tão competente como à autora do poema.
Os olhos de Adília Lopes humedeceram-se. Fosse qual fosse a noite solitária em que escreveu o poema, estava longe de imaginar que, tanto tempo depois, a sua alma gémea se apresentasse à sua frente, compreendendo-a tão profundamente. Foi então que Adília Lopes falou. Disse o seguinte: “Pois. Bom, comigo, o que se passa é que eu tenho gatos. E tenho também baratas, na cozinha. E os gatos gostam de ir lá brincar com elas.” E depois exemplificou, com as mãos, o gesto que os gatos faziam com as patinhas.»


Ricardo Araújo Pereira, in Visão, 26 de Março 2009

retirado do blogue frenesi, com negrito da minha responsabilidade.

Atenção


A Terceira Noite mudou de casa. Passa a estar aqui.

Arturo Bandini


Umas das minhas alunas, do curso de Alfabetização de Adultos, todas as semanas me traz um saco com laranjas.

Ainda por aqui vou andar


No outro dia, o Lourenço disse que andava também a ficar farto disto, que andava a ler demasiados blogues e poucos livros. Começo a sentir o mesmo. Muitos livros para ler. Mas depois também uma vontade enorme de os partilhar com alguém. Aqui, encontrei esse lugar. Sempre considerei os blogues como lugares de partilha. É claro que há quem os entenda como um lugar de auto-promoção – que também são –, outros como um lugar onde descarregar o fel – principalmente anónimos cobardes (cá para mim têm a pila pequena). Eu ainda os vejo como lugares de partilha. Sim, também eu ando a ler demasiados blogues e poucos livros. Mas, a bem da verdade, já descobri muitos livros (que li) através dos blogues. Por isso, ainda vou por aqui andar, para o bem e para o mal, durante mais algum tempo.

Do Japão com amor


Este não vou ter medo de comprar. É uma óptima notícia a reedição da Assírio&Alvim de mais um livro de Mishima. Espero que continuem e que a próxima reedição seja Confissões de uma Máscara. E sei que é pedir muito, mas a Presença podia reeditar a tetralogia Mar da Fertilidade. Não era má ideia, não senhor.

(...)


Não penses tanto nisso, leitor. Deixa lá. Melhores dias virão. Bah! Até parece que eu e tu acreditamos nisso. Se acreditasses não vinhas aqui ler aquilo que eu escrevo. No fundo és pior do que eu. És, não és? Pois, eu sei que sim. Só dessa maneira se entendem as tuas visitas, os teus comentários, a tua vida tão parecida com a minha e essas tretas. Parece que é moda as pessoas terem vidas parecidas e querem compartilhar essas mesmas vidas. É blogues, é tuiteres, é aifaives e feicebucs. É tudo e mais alguma coisa só para parecer que não estamos sozinhos, quando na realidade. Pois. Já sabes o que ia dizer. Não é, leitor?

Essa vontade de ir e não voltar




Ora aí está um livro que tenho medo de comprar. Porquê? Porque ainda faço as malas e parto de vez. Quando li o Canto Nómada fiquei viciado em Bruce Chatwin. Depois veio Na Patagónia e nem vos digo nada. Agora passo pelo corredor e está um aluno com uma t-shirt que diz "Patagónia". Comecei a fazer caminhadas aos fins-de-semana. Tenho botas xpto e mochila e todas as coisas que são precisas. Até tenho moleskines. Falta-me o principal: a coragem.

Indignar-me é o meu signo diário (3)


(clicar para aumentar)

E agora para algo completamente desnecessário


As mulheres que não me conhecem, querem conhecer. As que conheceram, preferem me esquecer.

Da poesia (17)


Deixemos de lado as estéticas e os manifestos. Falemos antes das possíveis consequências das várias poéticas. Digo possíveis pelo simples facto de acreditar que as actuais poéticas são inconsequentes. Reparem que não digo que a poesia é inconsequente. Digo que são as poéticas. Não? Então quais são as consequências? Tirando uma ou outra escaramuça "literária", as actuais poéticas não produziram verdadeiras consequências. Muito pelo contrário. As escaramuças apenas foram tentativas de legitimar cada uma das partes, isto é, torná-las consequentes. Contudo, não foi esse o resultado, pois as próprias escaramuças foram inconsequentes. Não levaram a lado nenhum.

Amanhã: FNAC de Coimbra às 21h30m



Dia 26 de Março

FNAC de Coimbra
21h30m

Norman Mailer


«De resto, quem pode determinar as razões de uma amizade? As explicações justificam tudo menos a necessidade. Não obstante, tinha a ideia de que havia muito poucos homens amáveis e honrados e o mundo encarregava-se sempre de os afundar,(...)»

Norman Mailer, O Parque do Veados, Lisboa: Livros do Brasil, 1986, p. 33

M o l e z a

Deu - me pa ra a mo le za. Não sei o que te nho. Is to es tá te rrí vel. A cho que vou pa ra ca sa ver um pou co de te le vi são e ver se a dor me ço.

Lí por aí


«Leio, com algum atraso (é de quarta-feira passada), o divertido e acutilante artigo de Baptista-Bastos, Os Infiltrados do PS, em que noticia a inquietação do deputado socialista Strecht Monteiro por causa de indeterminados infiltrados da direita no seu partido. E eu que julgava que os "infiltrados" - a havê-los...- seriam de esquerda!»

Manuel Poppe, em Sobre o Risco

Coisas que acontecem de manhã


Acordei, como todos os dias *. Tomei um duche, o pequeno-almoço. Bebi uma bica no café em frente. Sempre que vou lá está um homem com cara de bagaço. A cara de bagaço é uma cara muito particular: estão sempre com ar triste, olhos cabisbaixos, olheiras, pele a precisar de um creme hidratante. É claro que posso estar enganado. Talvez não seja cara de bagaço. Talvez o facto de ele ter sempre um cálice de medronho à frente esteja a apressar o meu juízo de valor. Gosto de fazer juízos de valor. Principalmente quando não conheço as pessoas. Mas, voltemos ao senhor. Talvez a cara dele seja uma cara de angústias, de preocupações existenciais. Talvez tenha lido O Homem Revoltado de Camus e esteja a pensar no assunto. Talvez esteja desempregado ou a mulher o tenha deixado. Não sei. Pouco importa. O que realmente interessa é que o café estava demasiado quente e queimou-me o céu da boca.

* reparem nesta frase filosófica.

Deste lado da amizade



Em dois mil e quatro conheci pessoalmente o Henrique no lançamento do livro Gastar Palavras de Paulo Kellerman. Na altura já tinha o Insónia, mas eu já o lia desde o tempo dos Universos Desfeitos. Nessa altura eu tinha um blogue chamado Limites de Luz que depois se extinguiu e deu origem ao meia-noite todo o dia. Trocámos algumas palavras e aperto de mão afectuoso. Depois cada um seguiu o seu caminho, até que nos cruzamos outra vez no lançamento das suas Estórias Domésticas em Leiria. Nova troca de palavras. E no ano passado sou colocado na Benedita, que fica perto das Caldas da Rainha. Estive várias vezes com ele. Conheci a Ana, a Matilde e a Beatriz. O sótão onde o Henrique lê, pensa, escreve, pensa, lê, ouve música, pensa, pensa, pensa. E este é talvez o seu maior crime: pensa. E como ser que pensa causa desconforto a alguns burgessos que ainda se sentem ameaçados por seres pensantes, por seres que tentam com todas as suas forças recusar a canga que nos põe todos os dias ao pescoço. O Henrique é uma dessas pessoas. Deste lado da amizade eu só posso respeitar a decisão do Henrique em terminar com o Insónia. Respeitar e compreender. Que outra coisa posso fazer? Deste lado da amizade um forte abraço, amigo.

Eco


A minha amiga Maria João tem casa nova.

Bern Porter - The Last Acts of Saint Fuck You


Bern Porter - The Last Acts of Saint Fuck You, dito por Kenneth Goldsmith
enviado por João Camilo

A Cabeça de Fernando Pessoa - Luís Filipe Cristóvão


Quando se discutia a nova poesia portuguesa nas páginas de um jornal diário, ficamos a saber o que todos nós já sabíamos: a nova poesia portuguesa, pelos vistos, é feita, de alguns anos para cá, dos mesmos nomes. Luís Filipe Cristóvão (1979) foi um dos nomes que ficou de fora, apesar ter escritos quatro livros, todos eles de poesia, até à data da saída do referido artigo: Registo de Nascimento (2005), Pequena antologia para o corpo (2007), E como ficou chato ser moderno (2007) e Santa Cruz (2008, com fotografias de Ozías Filho).

A Cabeça de Fernando Pessoa (2009) é o seu último livro e revela um poeta comprometido com a poesia, com a literatura, com Portugal e a ideia de Portugal. Dividido em sete partes (Proposição, A Cabeça de Fernando Pessoa, Travessa de André Valente, Rua Kazuo Dan, Oh as meninas, Geração Traída e Diz que a poesia anda na rua), todo o livro é uma provocação. A própria Proposição dá disso indícios, apesar de, supostamente, não ser esse o objectivo: « Nem rimanço / nem mercado / cantiga de amigo explorado / nem vilancete / nem promoção / novas tendências em expansão / uma simples releitura / da nossa história da literatura / vale apenas como proposta / não foi feito para ganhar a aposta.» (p.11).

Seguem-se os poemas que dão nome ao livro, onde o autor entra em diálogo consigo mesmo enquanto entra em diálogo com Portugal, socorrendo-se da ajuda de Alexandre O’Neill: « Portugal, questão que trago comigo mesmo. / Leio o poeta e aceno com a cabeça. / Mas devagar, para não bater nas paredes.» (p.12). É claro que o diálogo com o país que viu Luís Filipe Cristóvão nascer não é fácil. O país parece que não quer nada com o poeta, apesar da insistência deste e da ajuda das novas tecnologias: « Podíamos combinar um encontro / por telemóvel, / eu e o meu país refeito dos sustos / de tantos séculos. // Mas ele não atende.» (p.15). O facto de o país não atender à chamada do autor leva este a sentir-se desiludido e cansado com o seu país: « Cansado de todo este amor mal correspondido»(p.18). E Portugal volta a ser questão que o poeta traz consigo. Depois das caravelas, do ouro, da pimenta, do fado, o que resta? Luís Filipe Cristóvão deixa o leitor escolher entre: «Sardinhas, bacalhau e bitoque. / Iscas, cozido e douradas. / Futebol o ano inteiro. / Mar com Berlengas ao fundo. / Esta sensação católica de ser.»(p.22).

Contudo, o autor não recusa a sua portugalidade. Os poemas que compõem A Travessa de André Valente são disso prova. São nestes poemas que Luís Filipe Cristóvão tenta explicar-se, compreender-se, para melhor nos compreender a todos nós, e para isso socorre-se da figura de Bocage, que assume como uma espécie de alter-ego: « Este modo de ser / devo-o ao meu pai.» (p.26). Este conjunto de poemas são talvez os mais políticos de todo o livro, onde o autor explora muito bem a figura de Bocage para dizer “as verdades”, tal como o poeta sadino “faz” nas anedotas que dele se contam: « Hoje já não me encontram / nem pachorrento / nem cagando ao vento. // Tenho água canalizada / casa de banho / autoclismos // canetas que saíram nas rifas / papel reciclado. // Só a merda é a mesma / e escrevo-a também sentado.» (p.30).

Rua Kazuo Dan é a seguinte série de poemas. Poemas? Interroga-se o leitor. Mas estão em prosa? Onde estão os versos? Só assim temos poesia! Esta série de poemas não se entenderia se o objectivo do livro não fosse, também, provocar. Eles cortam o ritmo das séries anteriores, e talvez seja esse o seu objectivo. Uma espécie de pausa que o poeta dá ao leitor, para depois este sentir um murro no estômago quando entra na seguinte série de poemas, curiosamente intitulada Oh, as meninas.

Esta é talvez a melhor série de todo o livro, aquela em que o autor deixa as questões válidas que traz consigo próprio e observa a realidade com olhar crítico, irónico: « Oh, as meninas, / as meninas na praia, / a adormecer / sobre calhamaços / de literatura simples, / bons para almofadas» (p.36). Mais à frente o autor explica os seus primeiros versos: «Não fôssemos nós pensar / que a literatura é coisa / para homens com a barba / por fazer.» (p.36). Apesar do nome de Natália Correia ser mencionado, é a imagem de Adília Lopes que mais vezes poderá vir à memória do leitor atento. Aqui, nesta série, é a literatura que está a ser questionada, reflectida: «A literatura / ou caça baleias / ou não faz nada.»(p.37)

Chegamos, assim, à penúltima série de poemas A Geração Traída, onde o autor retoma o tom e os temas das duas primeiras séries. Luís Filipe Cristóvão concentra-se, novamente, na primeira pessoa do singular, que pode muito bem ser uma primeira pessoa do plural: «Os nossos pais eram filhos de gente pobre / que poupou no bife / para pagar a faculdade / e acabaram a levar porrada» (p.40). Novamente, existem nestes poemas uma forte conotação política, e facilmente se entende de que lado da barricada o poeta se situa, principalmente quando lemos o poema que encerra o livro: «Eu sou daqueles / a quem não agrada / o 25 de Novembro, / não gosto / de leite morno, / não me agrada / o meio-termo.»(p.47)

Para quem pensa que a nova poesia portuguesa é um marasmo de spleens e cigarros fumados até ao filtro em tascas mal frequentadas, este livro vem, exactamente, provar o contrário.

Luís Filipe Cristóvão, A Cabeça de Fernando Pessoa, Cascais: Ardósia A.C., Colecção Pasárgada, 2009.

Da poesia (16)


Será possível uma renovação das “actuais” formas da poesia? Será possível uma poesia livre, sem estar agrilhoada a estéticas, a manifestos? Tendo em conta o que se passa com as “actuais” formas da poesia portuguesa, parece que tal é impossível, pois essas “actuais” formas perduram há mais de 25 anos. Isto é: existe uma clara divisão, divisão essa fruto de estéticas e supostos manifestos. De um lado, aqueles que vêem na metáfora, nas imagens, a única possível e válida forma poética. Do outro, aqueles que recusam a metáfora e as imagens, preferindo antes a “realidade”. No entanto, a poesia é só uma. A forma de a representar é que é diferente.

Academia


Durante estes dias andei a ler Por Quem Os Sinos Dobram. Bukowski, no seu romance Ham on Rye, refere-se a Hemingway de uma forma bem curiosa: «that guy could really lay a sentence». E na verdade é isso que acontece. Nenhuma frase neste romance está deslocalizada. É claro que os diálogos ajudam a isso. Não são diálogos pastosos, que se arrastam. São directos, curtos. E mesmo quando o autor recorre ao monólogo interior, fá-lo com consciência da sua importância, evitando ao máximo não cansar o leitor com excessivas deambulações. Penso que Hemingway sabia bem o que era ser leitor: sabia o que “agarrava” e o que “desprendia” o leitor. E isso é muito importante em literatura – pelo menos do meu ponto de vista. Poucos são os escritores que pensam no leitor. Duvido que James Joyce tenha pensado no leitor quando escreveu Ulisses. Duvido que Lobo Antunes pense no leitor. Porquê? Porque durante algum tempo vingou a ideia de que contar uma história não interessa em literatura. E os livros eram escritos para a academia, que acenava com a cabeça em concordância ou discordância, pois é essa a sua principal função: acenar com a cabeça.

Lí por aí


«o big show sic fez a minha infância, pois a única música que se ouvia lá em casa era a que tocava no dito show. hoje sou o que sou.»

Pensamento do dia


Cold War Kids - Hang Me Up To Dry

Envelhecer, será isso?


Era capaz de escrever um tratado filosófico em torno da música Time to Pretend dos MGMT. Mas não vou fazer isso. O tempo não é muito e há coisas mais importantes do que uma música que nos diz na cara aquilo que realmente somos.

Indignar-me é o meu signo diário (2)


(clicar para ler melhor)

Outra vez na corrente


O Henrique acorrenta-me outra vez. Desta vez parece que é a poesia. A ideia é retirar “das pilhas periclitantes que se derramam atrás das portas, encostadas às paredes, aquelas pequenas gotas de alma que ficam connosco, mesmo quando nos esquecemos delas”. Este foi um dos poemas que nos últimos tempos mais me disseram. Não é difícil entender a razão, principalmente para quem é um leitor atento deste lugar. Foi através do meu pai que cheguei a Assis Pacheco jornalista. Depois veio o poeta.


Poeta no Supermercado

1.

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

2.

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

Fernando Assis Pacheco, Cuidar dos Vivos (1968), em A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 25-26.

Convoco: Américo Rodrigues, António Godinho, João Camilo, Sérgio Lavos, Rita Faria.

SobrEscritas: 3º Encontro de Escritores



Sábado, 21 de MarçoSala Polivalente da CCC
15h30: Mesa 1 – Livros e Leitores – Uma perspectiva: Cristina Pimentel (moderador), Arnaldo Espírito Santo, José Afonso Furtado.
17h30: Mesa 2 – Um dia feito de poesia, todos os dias: José Mário Silva (moderador), Miguel-Manso, Lauren Mendinueta.

Segunda, 23 de Março EB1 Freiria
9.30: Oficina de Língua: Árabe

Terça, 24 de Março EB 2,3 Padre Francisco Soares
10h: Oficina de Língua: Russo

Quarta, 25 de MarçoEB 1 Maxial
11.30: Oficina de Língua: Grego

Quinta, 26 de Março Esc. Internacional
10h, Oficina de Língua: Latim

Sexta, 27 de Março Livraria Livrododia
21h30: Mesa 3 - O humor anda muito melancólico ou a melancolia também tem a sua graça?Pedro Mexia e Telmo Mourinho Baptista

Sábado, 28 de Março Livraria Livrododia
16h: Mesa 4 – Os planos para a leitura e a promoção da literatura Sara Figueiredo Costa(moderador), Isabel Castanheira, Helena Vasconcelos.

(...)


Tinha um texto preparado para tu leres, leitor. Mas optei por não o publicar aqui. Tinha demasiadas referências filosóficas, demasiadas citações. Este que agora lês é mais fácil de ler. Não é? É mais simples. Não te sentes inculto ao lê-lo, pois não? Pois. Não quero que te sintas inculto aqui. Tu aqui sabes o mesmo que eu. Ou até mais. Não me admirava nada. O leitor sabe sempre um pouco mais. Vou-te confessar uma coisa: gostava de te poder ler, leitor.

Sobre o risco


Através do Américo Rodrigues cheguei ao blogue de Manuel Poppe. Manuel Poppe tem uma escrita desassombrada. Leiam, que não se arrependem.

Hoje: A Cabeça de Fernando Pessoa


Na Casa Fernando Pessoa, Lisboa, às 18h30m, irá decorrer a apresentação do livro A Cabeça de Fernando Pessoa de Luís Filipe Cristóvão.

Boca na Terra


Mais uma vez acorrentado


O Henrique quer saber a quinta frase da página 161 do livro que ando a ler. De momento, e contra todas as minhas regras, ando a ler dois livros: Folclore Íntimo e Por Quem os Sinos Dobram. Folclore Íntimo foi no primeiro livro que peguei. Por mais curioso que possa parecer, a página 161 do livro de valter hugo mãe está em branco. Assim, procurei a quinta frase da página 161 de Por Quem os Sinos Dobram. E ela aqui está:

«- Americano.»*

Não é meu costume continuar estas correntes, mas hoje vou abrir uma excepção. Passo a corrente ao Luís Filipe Cristóvão, ao António Godinho, ao Américo Rodrigues, ao Miguel Martins e à Rita Faria.

*Ernest Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram, Lisboa: Livros do Brasil, 2007, p. 161.

(...)


Leitor, vou-te contar um segredo. Sou um burguês. Repara bem que é diferente de aburguesado. Nunca participei numa revolução e nunca tive verdadeiros ideais. Por isso nunca me aburguesei, ao contrário de outros que pregavam a morte da classe burguesa. Nasci burguês. Sou burguês. E aposto, leitor, que tu ou és uma coisa ou outra. Repara: não dispensas a internet e quanto mais rápida melhor, certo? Provavelmente não dispensas, tal como eu, o conforto de um bom sofá. Aposto que não és capaz de tomar duche de água fria sem antes reclamar, mesmo que seja baixinho para dentro de ti. Vês? Aposto que quando vês um sem-abrigo não lhe dispensas uma moeda. Aposto que, às vezes, até mudas de passeio e baixas os olhos. Incomodam, não é? Aposto que já disseste muitas vezes que isto está difícil, que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, enquanto esvazias o prato frente à televisão. É tão fácil falar de barriga cheia, não é?

Pensamento do dia


Cake - Sheep Go to Heaven

Lí por aí


«o escritor olha o seu texto traduzido para uma língua que desconhece. ainda assim, sente-se identificado, como se olhasse um espelho feito de vido martelado.»

Da poesia (15)


A necessidade de um halo metafísico na palavra poética não é, quanto a mim, assim tão necessário. Às vezes é impedimento para o fruir da poesia: «a mais velha ideia ainda em voga é/que se não consegues entender um poema é/quase certo que é/um bom poema.» (Charles Bukowski). Socorri-me destes versos do poeta norte-americano para exemplificar uma ideia que ainda hoje perdura entre nós. Tal ideia, muitas vezes, degenera em preconceito – algo que é muito feio em poesia, pois a poesia é tudo menos preconceituosa. Não me revejo na ideia de que a palavra poética deva cortar com a representação da realidade, procurando, dessa maneira, transgredir. Mas também não me revejo na ideia de que só a realidade pode ser transgressão. E não me revejo na ideia de que a representação da realidade é sinónimo de segurança, tranquilidade, certeza. Haverá algo mais inseguro, intranquilo e incerto do que a realidade?

(...)


Às vezes os amigos são tão chatos como eu. Ou pior. São porreiros quando me pagam um copo ou emprestam dinheiro. Mas quando vêm com as suas angústias, não me apetece aturá-los. Eu lá os ouço, digo que sim com a cabeça e disfarço o abrir de boca com a mão. Sei que não merecem, leitor. São amigos, não é? E como são amigos tenho que lhes aturar tudo, como eles aturam tudo a mim, não é? Uma porra!

Uma pergunta


Desde quando é que eu é eu na literatura?

Texto que confirma o post anterior


Se Rogério Casanova é, na verdade, a pessoa da fotografia que por aí circula, só tenho um comentário a fazer: até pode escrever bem e estar a beneficiar de um hype qualquer. Mas não sabe vestir.

Evidência


Raramente penso aquilo que digo, mas digo sempre aquilo que penso.

Será uma falha grave?


Este deve ser um dos poucos blogues que ainda não publicou uma fotografia da autoria de Robert Mapplethorpe.

Dark Was The Night



Andrew Bird Antony + Bryce Dessner Arcade Fire Beach House Beirut Blonde Redhead + Devastations Bon Iver Bon Iver & Aaron Dessner The Books featuring Jose Gonzalez Buck 65 Remix (featuring Sufjan Stevens and Serengeti) Cat Power and Dirty Delta Blues The Decemberists Dirty Projectors + David Byrne Kevin Drew Feist + Ben Gibbard Grizzly Bear Grizzly Bear + Feist Iron & Wine Sharon Jones & The Dap-Kings Kronos Quartet Stuart Murdoch My Brightest Diamond My Morning Jacket The National The New Pornographers Conor Oberst & Gillian Welch Riceboy Sleeps Dave Sitek (TV On The Radio) Spoon Sufjan Stevens Yeasayer Yo La Tengo

Contra o optimismo marchar, marchar (4)


O discurso político português (principalmente o do Governo) foi invadido pelo optimismo. E isso deixa-me a pensar. Como considero que todo o discurso político é falacioso, considero o optimismo - inerente ao discurso - falacioso. É claro que esta ideia aplica-se, também, a qualquer tipo de optimismo. Pois o optimismo é isso mesmo: uma falácia.

Ernest Hemingway


«Corrompemo-nos facilmente. Mas será a corrupção ou apenas a perda de ingenuidade inicial? E não será assim em tudo o mais? Quem mantém até ao fim aquela castidade de espírito com que os jovens médicos, os jovens sacerdotes e os jovens soldados iniciam geralmente a carreira? Talvez só os padres, porque de contrário têm que mudar de vida.»

Ernest Hemingway, Por quem os sinos dobram, Lisboa: Livros do Brasil, 2007, p. 267.

Contra o optimismo marchar, marchar (3)


Os pessimistas são sempre mais criticados do que os optimistas. Se alguém chama a atenção para possíveis obstáculos na vida, há logo alguém que exclama: «Ai! És tão pessimista!». Mas o contrário não se verifica. Ninguém diz: «Ai! És tão optimista!». Ou: «Lá vens tu com o teu optimismo!». Os pessimistas são, muitas vezes, discriminados. São acusados de ver obstáculos em tudo, quando na realidade isso (o facto de ver obstáculos) só traz vantagens: os pessimistas são mais rápidos a desviarem-se deles. Os optimistas não. Tropeçam, caem, lamentam-se, depois vão ler Paulo Coelho e esperam, com isso, aprender a "caminhar".

Contra o optimismo marchar, marchar (2)


Não foi necessário ler Cândido de Voltaire para saber que sou pessimista. O optimismo nunca me atraiu. Sempre o considerei sem sal. E vendo bem as coisas é. Por exemplo: a chamada grande literatura é, toda ela, pessimista. Onde é que existe optimismo nos livros de Kafka, Dostoievski, Céline, Mishima, Hemingway, Faulkner, Cossery? Não me lembro. O mundo é irremediavelmente absurdo e está irremediavelmente condenado. E a esperança? A esperança é outra conversa. Talvez um dia fale aqui sobre ela. Mas não associo esperança a optimismo. Um pessimista pode ter esperança. É possível. Só que a esperança não o cega. Por outras palavras: um pessimista é alguém que tem os olhos bem abertos.

Contra o optimismo marchar, marchar


Leio numa caixa de comentários de um blogue amigo: «As pedras são degraus de outros caminhos...». Nunca fui muito com este género de filosofia. Pedras são pedras em qualquer parte. Não acredito que exista alguém que goste de caminhar por um caminho cheio de pedras. Podem ser muito optimistas e mais tarde pensar que são «degraus de outros caminhos...». Mas enquanto percorrem o caminho duvido que não pensem: «Ora aqui está uma boa merda!».

Mas é só às vezes


Às vezes fico com a sensação que os meus contactos do messenger bloqueiam-me só para não me aturarem.

Coloque aqui o post que lhe apetecer

















(...)


Quando quero, leitor, consigo ser um chato do caraças. E quem é que sofre com isso? Os meus amigos. São eles que me aguentam. É claro que alguns às vezes não estão para isso e mandam-me à merda. Admiro quando um amigo manda à merda outro. Um mandar à merda que seja sincero e não um mandar à merda tipo Adão e Eva. Acho que esses são os melhores amigos. Ouvem-nos quando é preciso e mandam-nos à merda quando também é preciso. Às vezes é preciso ouvir alguém mandar-nos à merda. Sabe bem quando é um mandar à merda certeiro, no tempo certo.

Calexico e Iron & Wine


Há alguns dias descobri dois grupos que me deixaram de rastos: Calexico e Iron & Wine. O Henrique já “falou” sobre eles aqui e aqui. A música que ontem aqui coloquei dos Calexico atingiu-me de tal maneira que nem sei explicar como. A música é simples a letra também. É o crescendo que me arrasa. No vídeo que está ali em baixo não dá para sentir isso muito bem. Mas a versão “estúdio” é simplesmente bela e aterradora. Já não sentia isto desde o dia em que descobri os Tindersticks (dos dois primeiros álbuns, entenda-se). O(s) Iron & Wine a conversa é outra. A limpidez da voz, os acordes perfeitos, as letras. Tudo me transporta para um outro lugar, para uma fronteira muito difícil de definir.

Lí por aí


«aquando do referendo sobre o aborto, chegou a insinuar-se que só as mulheres deviam votar, porque os homens não têm nada a ver com isso. sobre o casamento entre pessoas de sexo não oposto, chega a parecer que é preciso ser maricas - ou bispo - para opinar. pelo menos é recorrente o incompreensível (para mim, ok) argumento do «eu até tenho amigos gays». «até», vejam lá bem como sou tolerante. é só para avisar que, se quiserem falar comigo sobre eutanásia, é favor falecerem primeiro.»

João Gaspar, em last breath

Pensamento do dia


Calexico - All Systems Red

(...)


Vou-te contar um segredo, leitor. Ando um pouco farto disto. Agora só me resta saber o que é isto para eu andar farto disto. É um grave problema, leitor, esta indefinição. Não saber é terrível. Mas isso já tu deves saber. Também te deve acontecer a ti, não é? Pois, eu sei. É lixado. E como resolver a situação? Quanto a mim não há resolução possível. Espera aí! Quem é que respondeu? Fui eu. Eu? Quem? O teu leitor. Ou esqueceste que tu és o teu primeiro leitor. Ando um pouco farto de me tratares de uma forma tão formal, principalmente quando te diriges a ti próprio. Mas eu não me dirijo a mim próprio. Que raio de conversa é essa? Que raio de conversa é essa pergunto eu? Mas se tu és eu e eu sou tu, já deves saber as respostas. O pior é que não sei. Se soubesse não te questionava sobre elas. Isto está a ficar muito confuso. Pois. Agora imagina na vida real.

Um último post antes de ir para casa


Parece que está a chover lá fora. Estou aqui na sala dos professores. Acabei agora de dar aulas. Ouço a chuva lá fora. Na televisão está a dar uma novela da TVi onde um padre se "faz" a uma mulher. Digo: "esse padre é malandreco!". A senhora auxiliar de acção educativa manda uma sonora gargalhada. É boa pessoa, a senhora auxiliar de acção educativa. Começa a trabalhar às três da tarde e acaba agora às dez. Já tem uma certa idade. Mas ainda a suficiente para arrastar uma vassoura pelos corredores da escola e lavar o quadro que acabei de usar. Um dia disse-lhe que podia ser eu a lavar o quadro. Olhou para mim muito admirada e disse logo "nem pensar, senhor professor". Ainda não me habituei a este "senhor professor". Há oito anos que sou professor. Mas ainda não me habituei. E segundo o Senhor Primeiro-Ministro não sou. Sou apenas alguém habilitado para a docência, pois ainda não ingressei na carreira. Logo ele, que é um conhecido Engenheiro, com provas dadas na sua área de formação, principalmente ao nível do inglês técnico. Podia dizer: é o país que temos. Mas não digo. Prefiro dizer: é o país que não devíamos ter.

A Noite e o Riso - um estudo (16): último


É chegada a hora
de virar a folha
e mudar de letra.

O amor que se lixe


Ando um pouco farto de ouvir os conservadores dizerem que a base da família é o casamento. E eu a pensar que era o amor. Afinal andava enganado. O casamento é que é a base da família. O amor que se lixe.

Chaminé


Só sei que metade de uma garrafa de Chaminé Tinto (colheita de 2007) já lá vai. O jantar foi ervilhas estufadas com chouriço, coentros e ovo escalfado. Agora está a dar um programa colectivo de karaoke. A música de abertura fala da importância da música na vida de alguém. A certa altura o refrão repete “múuuuuuu”, “múuuuuuu”, durante algum tempo. É costume dizer que se assobia muito para o lado neste país. Mas acho que mugir também serve.