Divani & Divani


Comentar a questão israelo-palestiniana sentado no meu sofá, enquanto vejo pela televisão as bombas caírem à distância de um clic, é muito fácil. Amanhã não tenho que apanhar um autocarro preocupado se nele vai um bombista suicida. Amanhã não tenho que fazer compras preocupado com um míssil israelita.

Falso alarme


Acordar de manhã com a sensação que se vai escrever o primeiro romance e, afinal, sai um gás.

Versões

Fotografia a três

Às vezes somos só
nós os
três

Tu
Eu
e a tua bicicleta

Às vezes tenho ciúmes
da maneira como as rodas
viram e rodam

da maneira como seguras
o guiador
quando partes


E. Ethelbert Miller, «Portrait of Three», inédito (retirado do site oficial do autor).
versão de manuel a. domingos

Inútil


Não há nada mais inútil do que passar parte da noite à espera que os blogues que mais lemos sejam actualizados.

O meu top 2008

Albertt Cossery: 1913-2008
Luiz Pacheco: 1925-2008
Harold Pinter: 1930-2008
Dinis Machado: 1930-2008
Arthur C. Clarke: 1917-2008
George Carlin: 1937-2008
Bernie Mac: 1957-2008
Paul Newman: 1925-2008
Sydney Pollack: 1934-2008
Anthony Minghella: 1957-2008

Harold Pinter


É impressão minha ou pouca gente reparou que Harold Pinter morreu?

Neve (2)


Parou de nevar às 17h e começou logo a chover (nevava desde as 10h). Amanhã, provavelmente, já não haverá neve nos telhados, quintais, árvores, automóveis e por aí fora. Agora nas ruas há um lamaçal enorme. Os turistas andam contentes.

Neve


É a terceira vez que a neve cai este ano. Hoje está a nevar mesmo muito.

Onde o autor deste blogue plagia, descaradamente, uma frase de Camus


Deve o leitor considerar como uma perpétua referência neste blogue a distância constante entre aquilo que o autor imagina saber e aquilo que realmente sabe.

Lí por aí


«Uma das outras conclusões a que cheguei durante a época natalícia é que o Sequim d'Ouro é dos mais tenebrosos espectáculos de sempre, superando em muito o horror da Semente do Diabo, por exemplo.Ao ver criancinhas a esganiçar a pobre garganta em meneios de macaquinho amestrado, sabemos que vivemos no pior dos mundos possíveis.»

Rita F., em Rua da Abadia

David Foster Wallace



De todos os que em 2008 deixaram de andar neste mundo, David Foster Wallace foi aquele que mais curiosidade me despertou. Desde o dia da sua morte que quis ler alguma coisa dele, em especial os ensaios inseridos no livro Consider the Lobster (foi o título que me despertou a curiosidade). Assim sendo, consegui hoje encontrar na net alguns dos ensaios inseridos no referido livro. A saber: Consider the Lobster, Tense Present: Democracy, English and the Wars over Usage (que parece ser uma "colagem" ao famoso ensaio, de George Orwell, Politics and the English Language, que está entre nós traduzido e pode ser encontrado nesse livro fantástico Por que escrevo e outros ensaios [Antígona, 2008]), The View from Mrs. Thompson's e Host. Irei lê-los nos próximos dias, se para eles encontrar tempo.

O problema é não haver pudim para todos


Como homem que sou gostava de ter mais certezas que incertezas. Isto de uma pessoa viver cheio de incertezas é lixado. É claro que há aqueles que passam pela vida cheios de certezas, raramente se enganam e nunca têm dúvidas. Não vou dizer que gostava de ser assim, pois uma dúvida, de vez em quando, apimenta a coisa. Estar constantemente cheio de dúvidas e rodeado de incertezas é que não dá com nada. Depois um gajo procura respostas. Lê livros. Vê filmes. E fica na mesma ou ainda com mais dúvidas e incertezas. Chega a pensar se não anda a ler os livros errados e a ver os filmes errados. Talvez ande a perder tempo à procura das respostas, pois, como disse o outro cujo nome agora não recordo, quando o homem encontra as respostas Deus muda as perguntas. Mas isso só acontece se acreditarmos em Deus. Para aqueles que acreditam na não-existência de Deus o problema está resolvido? Não. Arranjam outra coisa, nem que seja justificar a não-existência ou dizer que a existência é absurda e coisas desse género. Resolvem pensar no sentido da vida e acabam num beco sem saída. É claro que eu não acredito que a vida seja um beco sem saída. Antes um labirinto onde a saída é difícil de encontrar, mas está lá.

Paranóias, obsessões


Tenho paranóias, obsessões. Tenho amigos que têm paranóias, obsessões. Temos paranóias, obsessões. Todos nós, sem excepção.

A culpa é sempre da última cerveja e não das quinze anteriores


Ainda é cedo para falar das consequências nefastas que este Natal teve para a minha vesícula. Digo apenas que irei sofrer um pouco nos próximos dias, tendo em conta, principalmente, a noite excessiva que foi a noite de ontem. Quanto ao resto: houve prendinhas, surpresas, discussão política, filosófica, literária, vinho, wiskey e, para acabar a noite em beleza, cerveja até às 5 da manhã com os amigos de sempre no café de sempre.

Tiro no pé


Os sindicatos dos professores deviam saber mais. Como é possível apostar numa petição on-line, quando não há maneira de controlar a veracidade das “assinaturas”? Mais: como é possível recorrem a tal método quando em cada escola há, pelo menos, um ou dois representantes sindicais? Não seriam estes capazes de recolher as 70 mil assinaturas? Os sindicatos dos professores deram a faca, o pão e o queijo ao Secretário de Estado. Os números já ajudaram, por duas vezes, a legitimar a luta dos professores. Mas desta vez os números foram um tiro no pé. E penso que mais se avizinham.

Lí por aí


«Alguns órgãos de comunicação social têm dedicado amplo espaço de cobertura aos deserdados do Banco Privado Português, que, afinal, não são milionários (o advogado que representa "quase" cem clientes recorda que tenta reaver apenas cerca de 45 milhões de euros; é só fazer as contas para perceber que cada um tinha depositados, em média, 450 mil euros; trocos!). Há pouco emocionei-me mesmo com uma senhora que vivia dos juros do dinheiro que tinha depositado naquela instituição bancária e que agora, pobrezinha, passa dificuldades. Palavra de honra: emocionei-me tanto que tive vontade de convidá-la para vir cear connosco lá a casa.»

Manuel Jorge Marmelo, em Teatro Anatómico

Filhós


Tenho as mãos a cheirar a aguardente. Estive a amassar a massa para as filhós. É a primeira vez que o faço. Nos outros anos vinha a massa da padaria, logo de manhã no dia 24. A minha mãe passava parte da manhã a fritar as filhós. O cheiro percorria a casa toda. Este ano experimenta-se uma receita nova. A ver vamos.

Pensamento do dia


The Presets - Down Down Down

Olha o gajo armado em carapau-de-corrida!


A minha “filosofia de vida” podia ser resumida numa só frase: cada dia que passa é só, e apenas, mais um dia.

Não estava assim tanto frio


Quando venho a Manteigas sinto que não sou, cada vez mais, deste lugar. Acontece sempre quando começo a subir a Serra vindo de Seia e atravesso parte do maciço central e depois desço para esta vila entalada (entalada não é um eufemismo nem uma metáfora para embelezar o texto) em pleno Vale Glaciar do Zêzere. Mas há o reencontro com alguns amigos e a vontade de ver outros que ainda não chegaram. E depois existem situações que só aqui podiam ocorrer. Chego ao café do costume e a máquina do café está avariada. Entretanto, vão chegando mais amigos e todos com vontade de beber café. Visto que ninguém vem arranjar a máquina a tempo, começamos todos a beber minis.

Ó da Guarda!


Uma parte da nossa geração não se viveu enquanto se ia vivendo. Sobreviveu-se à espera da «verdadeira vida». Para uns, a famosa tarde em que o mundo antigo morreria como por encanto às mãos do novo, para outros, na simples espera de uma manhã naturalmente respirável. Assim, perdemos a única vida que nos era dada, assim ganhámos - ou imaginámos ganhar - o direito a não ter absolutamente perdido o tempo vivido na esperança de mais livre e aberta vida.

Eduardo Lourenço (1923): nasceu em São Pedro do Rio Seco, concelho de Almeida, distrito da Guarda. Fez estudos secundários na Guarda e em Lisboa e licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra. Actualmente reside em Vence (Alpes Marítimos). O excerto que aqui se reproduz foi retirado do livro Heterodoxia II (Gradiva: 1ª edição, 2006)

Algumas razões


Sempre que alguém, na casa dos trinta, diz que a vida está difícil, vem sempre outro alguém dizer que antes era pior. Entende-se por antes o período histórico do Estado Novo. Não nego tal facto: houve a guerra colonial – que arrastou para a lama e o capim a juventude deste país –, um senhor que fez aquilo que quis e o que não quis e, é claro, a polícia política. No entanto, nós, aqueles que estão na casa dos trinta, não precisamos de uma guerra para sermos atirados para a lama e o capim – na verdade nunca chegamos a sair de lá, reféns que estamos da lama e do capim dos nossos pais –, não precisamos de um ditador – pois desde o 25 de Abril que o destino de Portugal é orientado pelos mesmos, apesar da rotatividade democrática –, e não precisamos de polícia política – pois há muito que não se faz verdadeira política em Portugal, isto é, uma política que beneficie todos e não alguns, uma política que seja uma verdadeira ameaça para o poder estabelecido. O que temos, desde o 25 de Abril, são simulacros e compadrios, batalhas previamente acordadas.

Assim, falar deste país, aqui e agora – sem repetir o que outros já repetiram –, é uma tarefa que, à primeira vista, parece difícil, impossível e ingrata. Contudo, temos a vantagem de viver neste país, aqui e agora, enquanto outros parece que ainda vivem no país acolá e de ontem. Evitar ser pessimista é tarefa inglória em Portugal. Tentar não falar mal de tudo e de todos, também. Procurar pensar o meu país, aqui e agora, será considerado por muitos como um mero exercício de retórica ou, na pior das hipóteses, um capricho da juventude. E é aqui que reside, no meu ponto de vista, o primeiro problema ou questão (se preferirem): em Portugal é necessário ter mais de quarenta anos para ser levado a sério ou para poder dizer que viveu.

Ora, todos aqueles que nasceram na década de 70, do século passado, ainda não têm quarenta anos. Nasceram ou antes ou depois do 25 de Abril, mas ninguém sabe o que é viver, realmente, em ditadura. Aquilo que sabe da ditadura é a visão que outros deram dela. O mesmo se pode aplicar ao 25 de Abril e aos chamados anos do PREC: o que sabemos desses anos são estórias contadas, quer sejam utopias ou desenganos. Pergunto: o 25 de Abril cumpriu-se? Muitos dirão que não, pois o PREC (consequência directa do 25 de Abril) nunca foi concluído, devido a essa coisa que tem o nome de 25 de Novembro. Outros dirão que sim, devido, também, a essa coisa que tem o nome de 25 de Novembro. Estas duas datas, e todo o tempo que decorreu entre elas, são fundamentais para melhor se entender o Portugal aqui e agora. Bem vistas as coisas, somos seus reféns (mais da segunda do que da primeira data), sendo elas as principais responsáveis pelo actual estado do país, segundo uns e outros. São delas que nos temos de libertar. De outra forma continuaremos presos a esse passado ainda tão vivo na memória de muitos. Não digo com isto que devemos apagar a memória, digo apenas que não devemos viver refém dela.
texto originalmente publicado aqui.

Começar o dia


Um gajo acorda. Sai de casa e há um nevoeiro que se estende pela planície alentejana. Não há ninguém na rua. Entro no café para a bica do costume e está um homem com cara de quem já vai no segundo bagaço a olhar para mim. Peço o meu café, agarro-o com as duas mãos e o homem diz se não bebo logo de manhã morro de frio. Eu arrepio-me, pois se enfiasse pela goela abaixo um bagaço dava-me uma coisa má. Olho para o homem e ele ri. Reparo que lhe faltam alguns dentes da frente, pois nestas situações há sempre alguém que não tem alguns dentes da frente. Acabo o café, pago e saio. Mas ainda dá para ouvir o homem pedir outro bagaço.

Os Portugueses


«(...) a mentalidade de uma classe ociosa e sem finalidade transcendente, desce e se infiltra nos interstícios da sociedade portuguesa no seu conjunto como sociedade em perpétua desfasagem entre o que é o que quer parecer (...)»


Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Lisboa: Gradiva, 5ª edição, 2007, p. 131.

Pensamento do dia



This Mortal Coil - Another Day

Sono


O meu dia, hoje, teve um nome: sono.

Lí por aí


«Agora que o PCP alugou o carro daquele maluco d' O Regresso ao Futuro e viajou para a Checoslováquia de 1970 e o Bloco de Esquerda se ocupa em ser a ala esquerda do Partido Socialista, a reboque de Manuel Alegre e Helena Roseta, permitam-me dizer que a boçalidade e o isolamento dos nossos políticos não foi nunca tão acentuado como hoje. Sinal óbvio é ainda a re-eleição-com-posterior-desfiliação-de-vários-quadros-do-partido no CDS/PP. Vivemos, certamente, num mundo que aqueles que nos querem representar não compreendem. Tal como não compreenderam os Sindicatos de Professores quando assinaram o memorando de entendimento com o Ministério ou quando, passado quase um ano, não conseguiram passar para o papel uma alternativa credível ao sistema de avaliação de professores. É este o mundo (o país?) que nos resta: soundbyte atrás de soundbyte até criar ruído suficiente que se pareça com qualquer acção real, seguido de posterior descredibilização da ideia inicial não cumprida. Não deixa de ser curioso como dois militantes de partidos do centro que se encontram, de momento, de fora do grande prato ou tacho ou malga grande, acabem a liderar o bando dos ex-revolucionários com tendências moralistas que querem chegar ao poder. Não deixa de ser fastidioso que certa esquerda, tão segura da razão dos seus princípios, tente depois encontrar um ícone intelecto-popular para ir a eleições. Não há, mesmo, paciência para este circo...»

Luís Filipe Cristóvão, em 1979

Injustiça


Não me venham cá com os salários milionários de alguns gestores ou com as reformas milionárias de outros. Injustiça é eu não conseguir sintonizar a RTP2 na minha televisão e a TVi dar clarinha como a água.

Da poesia (14)


Pensemos, um pouco, sobre a chamada poesia hermética. Afinal, o que é isso de poesia hermética? Peirce, quando se refere à clareza ou não das ideias, dá um exemplo de terminologia filosófica: «uma ideia clara é definida como uma que é apreendida de tal forma que será reconhecida onde quer que se encontre, de modo que nunca será confundida com outra. Se esta clareza faltar, dir-se-á então que é obscura». Apesar de Peirce dar este exemplo para criticar uma certa falta de clareza de alguns lógicos, o mesmo não será feito para criticar uma certa falta de clareza de alguns poetas. Contudo, é nesta questão da clareza que surge toda a polémica em torno das actuais formas da poesia: se um poema não é suficientemente claro ele é obscuro, logo hermético; quando um poema é demasiado claro acontece o oposto, com a desvantagem de poder ser considerado como um não-poema (o que não deixa de ser poético) ou poesia de urinol (o que também tem a sua piada).

Chuva e mais chuva



Vim até Odemira. A estrada de S. Teotónio até aqui é, no mínimo, muito perigosa com tanta curva e contracurva. Habituado que estou às estradas da Serra – também elas muito perigosas –, vim sempre a uma média de 50km/h. Mas falemos de Odemira. Pouco há para falar. Se Manteigas é uma pasmaceira em dias de Inverno (e não só), Odemira não é muito diferente. Chove torrencialmente e as ruas são estreitas sem um único passeio onde os peões possam andar em segurança, os cafés estão às moscas. O melhor de tudo ainda é a Biblioteca Municipal (de nome José Saramago, como a de Beja, o que é no mínimo muito estranho). É aqui que tenho acesso à World Wide Web. Vejo o correio electrónico, percorro os blogues do costume e deparo-me com as fotografias da inauguração do espaço-que-era-suposto-ser-uma-livraria-mas-que-ainda-não-é-mas-vai-ser-mais-dia-menos-dia. E para inaugurar o dito espaço foram necessários dois ministros.

Recessão


Alguns dos blogues que mais leio parece que estão em recessão. Este blogue está em recessão: as visitas, os comentários, os posts têm diminuido. Um dos blogues que mais leio suprimiu os comentários nos posts do seu fundador. Não censuro a decisão: a proliferação de anónimos a destilar fel aumentou consideravelmente, quando descobriram o filão existente nos blogues para a má-língua e a filha-da-putice. Como é óbvio: quem não se sente não é filho de boa gente. E um homem não é de ferro.

Da poesia (13)


Quando menos espera qualquer homem «realiza um dia o encontro decisivo com os seus limites.» (Eduardo Lourenço). Um desses limites é a poesia. Não quero com isto dizer que a poesia é limitadora ou limitada, muito pelo contrário. Mas é ao confrontar-se com a poesia – com as suas infinitas possibilidades e formas –, que o homem é confrontado com um dos seus limites. Simplificando: o homem, na verdade, nunca aprendeu a nadar, e quando chega à poesia deixa de ter pé.

Da poesia (12)


O poeta. Esse ser grande que é capaz de ver para lá do ver, pois do alto da sua torre de marfim, longe da turba embrutecida, inculta, barulhenta, incapaz de vislumbrar a beleza de um verso, constrói um mundo melhor. O poeta sabe que a poesia pode salvar o mundo. Não lhe basta que só salve o dia. É claro que esta ideia de poeta me dá arrepios na espinha, caro leitor. Ser poeta não é ser mais alto nem maior nem toda essa bazófia que nos impingiram na escola. Ser poeta é ser um homem, ou mulher, como os outros. E por falar em escola: ela é, talvez, uma das maiores inimigas do poeta e da poesia. Contudo, o seu papel pode passar pela desmistificação do poeta e da poesia. Só através de uma desmistificação é que se pode fruir livremente a poesia, compreender (se possível) livremente o poeta.

Horário


Calhou-me um horário nocturno, ou melhor: pós-laboral. Terminei agora. Tive Alfabetização de Adultos (17h às 19h), Jantar (19h às 20h) e Português para Estrangeiros (20h às 21h30m). Ainda não vieram todos os alunos, e aqueles que vieram já me avisaram que não será possível vir todos os dias, pois, às vezes, «é preciso trabalhar mais umas horas »(no caso do Português para Estrangeiros), ou «anda por aí muita cara estranha e temos medo de ir para casa a estas horas »(no caso de Alfabetização de Adultos). Amanhã é outro dia.

Da poesia (11)


Pensemos em Dilthey quando defende que a poesia tem uma relação especial com a concepção do mundo, relação essa que deriva do facto da poesia usar a linguagem como meio, o que possibilita a sua expressão lírica. Para este autor a poesia tem um único objectivo: compreender a vida a partir de si mesma, «deixando que as suas grandes impressões nela actuem em plena liberdade.». Chamo a atenção para a última parte da frase: plena liberdade. A liberdade é, sem dúvida, um elemento fundamental em toda a expressão poética. Acreditando que não existe uma única forma para a poesia (pois isso seria contrário à poesia), mas sim formas, a poesia tem em si a possibilidade de ver, valorizar e configurar a vida de modo ilimitado. Deste modo, a forma que a poesia pode adquirir parte, sem dúvida, da experiência vital, única e livre do poeta.

Mp3


No escritório
um copo espera
alguém que o resgate
da sua solidão.

Há livros nas estantes,
alguns filmes,
uma fotografia
de nós os dois
em Viena
(enquanto refrescávamos
os pés num lago
em Karl Platz)
uma outra
em que estás só
tu.

Imagino-te presa
no trânsito,
a ouvir as suites para violoncelo
de Bach ou o teu amado
Piazzolla.

Depois, vou até
à cozinha, resgato o copo
da sua solidão
e penso no próximo
verso,

enquanto ouço
os prelúdios de Scriabin
no novo mp3
que ainda ontem
comprei.

Dos amigos


Numa tentativa de não enlouquecer, passando em S. Teotónio o meu primeiro fim-de-semana (e logo prolongado), telefonei ao um amigo de Silves e perguntei-lhe se me dava guarida. Assim, rumei a Silves e aproveitei para rever outro amigo, conhecer um poeta persa que não conhecia e deliciar-me com os seus poemas ao vinho. Foi um bom fim-de-semana. E ainda não é desta que enlouqueço.

Ponto da situação


Trabalho, trabalho, trabalho. Mas podem ir até aqui e ver a última da série e digo nuvens.

Aviso


Ainda não é desta que desisto. Mas que não sirva de exemplo.

Lí por aí


«A percepção geral é que o BPP foi salvo por ter os accionistas (e os clientes) que tem, entre eles o dr. Pinto Balsemão, fundador e militante n.º 1 do PSD. Se os accionistas fossem uns patos-bravos quaisquer, o Estado deixava o banco estatelar-se.»
Eduardo Pitta, em Da Literatura

Próxima paragem




Saiu hoje a 7ª colocação cíclica. Próxima paragem: EB 2, 3 Engº. Manuel R. Amaro da Costa. Fica em S. Teotónio, Odemira.

Pensamento do dia


Américo Rodrigues e Josep-Maria Balanyà - Não

Ó da Guarda!


Embalado nas brisas estivais
e nas modorras de um Julho esquisito
luto contra a sonolências de uma tarde quente
amenizada pela brisa fresca do nordeste.
O planalto estende-se assolapado
à torreira do mormaço pós meio-dia
e as árvores gritam ensimesmadas
pela gota de água perdida.
Esparramados pelas sombras das raras plantas
os gados enganam-se na miragem
de uma frescura aparente saída da terra
avidamente sequiosa do licor cristalino.
Só o bicho homem na sua racionalidade
ilude pelo sumo ou pela cerveja
o calor tórrido de um Verão obsidiante.

José Monteiro (1957): nasceu na aldeia de Quinta do Prados, Panóias de Cima. Formou-se em Línguas e Literaturas Clássicas pela Faculdade de Letras de Lisboa. Tem escrevinhado textos para a imprensa da cidade da Guarda e para a gaveta. Profissionalmente tenta ensinar a escrever e a entender o bom português numa Escola da cidade. O poema que aqui se publica foi retirado do nº 24 da Revista Praça Velha.

Texto um tanto ou quanto desnecessário mas mesmo assim escrito


Às vezes penso que com trinta e um anos sou rapaz para deixar de ter sonhos. Sonhar com um mundo melhor está fora de questão. O mundo, na realidade, nunca foi um lugar bom para viver, nem quando era supostamente o Jardim do Éden, pois, a bem da verdade, o Jardim do Éden era, digamos, um lugar aborrecido. Ora, como dizia no início, com trinta e um anos tenho idade para deixar de ter sonhos. Por exemplo: durante algum tempo acalentei o velho sonho de passar os dias a ler, pensar, traduzir, escrever, viver do ar que respirava e daquilo que a terra me pudesse dar (logo eu que não percebo nada de agricultura, nem consultando o Borda d’Água). Seria uma espécie de Tolstoi refugiado aqui nas montanhas mas sem o génio dele. Agora, que tenho todo o tempo do mundo para ler, pensar, traduzir, escrever, não me apetece fazer nada disso. Nada. Só me apetece ouvir música enquanto olho as montanhas pela janela do meu quarto ou, então, ver televisão e adormecer a fazê-lo.

Aqui é assim


Há seis minutos estavam 3.8ºC.

Começa assim...


«Para falar com franqueza, aqui entre nós, eu ainda acabo pior do que comecei...»


Louis-Ferdinand Céline, Castelos Perigosos, Lisboa: Editora Ulisseia, 2008, p. 7.

Desplante?


Fui até uma Bertrand comprar um livro. Na compra desse livro ofereceram-me outro: Alguns amores de Ronsard (é o título). A tradução é, supostamente, de Vasco Graça Moura. Digo supostamente pelo simples facto de não vir, em lugar nenhum do livro, indicação de quem traduziu. Um leitor mais desprevenido pensará que o livro é de Vasco Graça Moura, pois é esse o nome que aparece no lugar onde habitualmente aparece o nome do autor. Mas, se analisarmos todas as outras capas dos livros que Vasco Graça Moura traduziu para a Bertrand Editora, é sempre o nome do tradutor que aparece destacado e não o nome do autor. Na lombada do livro acontece o mesmo: nome do tradutor, nome do livro e, só depois, o nome do verdadeiro autor.

Já cá toca!