Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (7)


1. Não sei se o leitor já reparou, mas quando me deixam tento ser professor. Evitei, até hoje, falar aqui da questão da avaliação, em parte devido às opiniões extremadas que se tomam e das quais ninguém está livre. Até agora muita gente tem a ideia que os professores nunca foram avaliados, o que está errado: o decreto-lei 139/A de 28 de Abril de 1990 e o decreto regulamentar número 11/98 de 15 de Maio são prova disso, mas alguém decidiu obliterar essa informação. Era uma avaliação equitativa? Não sei dizer. Explico: como professor contratado que sou nunca fui avaliado com nota superior ao Suficiente, independentemente da qualidade do trabalho feito. Agora alguns dirão: então esta nova avaliação vai modificar tudo isso e os professores serão avaliados de forma mais equitativa. Respondo: não. Explico: como professor contratado que sou (desculpem a repetição, mas quero que fique bem claro que sou professor contratado desde o ano lectivo 2001/2002, isto é, vou no meu oitavo contrato) e tendo em conta as percentagens que estão estabelecidas para o Bom, Muito Bom e Excelente para cada Agrupamento, dificilmente irei ter nota superior a Bom – independentemente da qualidade do meu trabalho – pois como não progrido na carreira – devido ao facto de ser professor contratado – não vão “gastar” um Muito Bom comigo, quando ele vai ser necessário para a progressão de alguém que integra os quadros. No entanto, o que mais me irrita no meio disto tudo (e irrita mesmo), são aqueles professores que estão no topo da carreira, que chegaram lá através da anterior avaliação e que agora vêm para a praça pública dizer que esta nova avaliação é mais justa que a anterior, quando, na realidade, ela não interfere com a vida deles, pois o topo foi garantido com uma avaliação, segundo eles, injusta. Para esses senhores e senhoras (não quero discriminar ninguém) é que não há paciência.

2. O caso BPN e o caso BPP são um exemplo do marasmo a que este país chegou. O primeiro, pelo facto de toda a gente saber a marosca que foi feita e ninguém fazer nada em relação a isso, pois pouco me importa que o outro senhor tenha sido preso preventivamente (o mais certo é ser considerado inocente – oxalá me engane –, ser posto em liberdade e ainda pedir uma indemnização ao Estado). O segundo, pelo facto de ser tratar de um banco privado cuja única função é gerir fortunas. Se não soube gerir convenientemente as fortunas o problema é deles. E depois ainda têm a lata de vir pedir a ajuda do Estado (dinheiro de todos nós) na quantia exorbitante que pediu. Não há (também) paciência para estes senhores!

Texto sem revisão posterior ao momento em que foi escrito


1. Decidi beber um licor caseiro de noz. O raio do licor é forte como o raio e, não me embebedando, deixou-me naquilo que nós aqui em Manteigas designamos como meio-vinho, isto é, nem bêbado nem sóbrio mas com um mau feitio do caraças. E como estou com um mau feitio do caraças decidi vir para aqui descarregar a bílis, que é basicamente aquilo que eu faço aqui quase todos os dias. E, dito isto, aqui vai.

2. Não preciso de ler Cioran ou todos os outros pessimistas de merda – que na realidade nunca souberam fazer mais nada na puta da sua vida senão “filosofar” – para perceber/saber que o mundo é uma merda, um lugar péssimo para viver e um aglomerado enorme de bestas (e nesse aglomerado enorme de bestas eu também estou incluído, pois é muito bonito vir para aqui arrotar postas de pescada e depois sacudir a água do capote tipo: eu sou um santinho). Basta abrir a janela do meu quarto e inspirar bem fundo para saber que o mundo é uma merda e não é pequena. E não pense o leitor que andam a espalhar por aqui estrume nos quintais. O mundo cheira mesmo mal devido à podridão dos homens e só um imbecil é que não consegue senti-lo. Só um imbecil ou alguém que não vê um palmo à frente do nariz e anda muito preocupado com o seu umbigo, que no fundo no fundo está cheio de cotão malcheiroso. Mas fique a saber o leitor que o meu umbigo não tem cotão, pois tomei banho antes do jantar e verifiquei tudo muito bem verificadinho.

3. Mas o que eu queria mesmo era ter os tomates para mandar foder toda esta merda e cagar em tudo e em todos e desaparecer deste país de merda. Eu sei que alguns dos leitores pensam: era um bem que nos fazias. Pois bem, caros leitores que assim pensam: vão apanhar no cu e que vos faça muito proveito. E digo-vos mais. O problema deste país de merda é ter muito sol. Se não tivesse muito sol já tinha havido mais gente na rua a pedir a cabeça de alguns senhores. Só num país com muito sol é que se coloca a questão de salvar um banco privado cuja única função é gerir fortunas. Não souberam gerir as fortunas como deve ser? Puta que os pariu! Que vão todos à merda com pauzinhos à roda! Os realíssimos e alternadíssimos camelos! Só num país com muito sol é que um ditador como Salazar – que foi em grande o que de mais medíocre tem o país – governa durante tantos e tantos anos.

4. E desengane-se o leitor se pensa que o primeiro ponto deste texto é verdade, servindo ele de justificação para alguma coisa.

Não gosto da palavra, mas aqui vai: obrigatório.


Através da Natureza do Mal cheguei a este artigo de Pedro Rosa Mendes sobre Timor-Leste. Leiam, leiam.

A Noite e o Riso - um estudo (6)


Tento deter a mão
que escreve,
para que encontre
o meu tom.

Meio termo é estoiro!

Descer sem medos
até ao fundo
e aí buscar
esse exílio temporário.

Lí por aí


«As pessoas são tão estranhas. Falam muito de amor, de emoções, de afectos, como se fossem coisas imperecíveis, que ficassem na nossa vida para sempre e, no entanto, a facilidade com que estas coisas se evaporam é uma verdade da qual ninguém nos avisa.»

Rita F., em Rua da Abadia

Autor ou obra?





Louis-Ferdinand Céline, Thomas Bernhard, Yukio Mishima, Knut Hamsun, Ezra Pound, Philip Larkin, Milan Kundera, Camilo José Cela.

Às vezes certas gavetas deviam ficar fechadas


De tarde estive para aqui a revolver nas gavetas e encontro um teste meu de Filosofia com data de 18-06-93. A classificação final foi de Suf, o que para mim não era nada mau pois nunca me dei bem com Filosofia nem com Filósofos. Não tenho o enunciado do dito teste, não me lembro quais foram as perguntas, mas a certa altura escrevo: (…) cada grupo e cada indivíduo e criatura ocupam um lugar na sociedade onde vivem. E essa sociedade impõe a esse grupo, a esse indivíduo e a essa criatura normas que eles devem obedecer. E continuo com uma conversa que não lembra ao diabo e onde as repetições de ideias são constantes.

Mishima



Uma das coisas que mais me lixou não foi o facto do contrato com a escola ter terminado (embora isso me tenha lixado o suficiente). Foi ter planeado ir ao CCB assistir a algumas coisas do ciclo sobre Mishima e não o poder fazer.

Pensamento do dia



Onde é que você estava no 25 de Novembro de 1975?

Pelos vistos nem a cinco anos de distância nem hoje


«Falar do 25 de Novembro, hoje, a cinco anos de distância, não convém à direita nem à esquerda radicalizantes. A esta porque lhe recorda incomodamente os amargos da derrota, àquela porque os nomes dos vencedores lhes são insuportáveis e os factos lhes impedem as mistificações grosseiras a que se vem revelando tão propensa. A ambas porque, por acção ou omissão, de armas aprontadas ou de rabo entre as pernas, ambas tiveram papéis tristes nesse ensejo e porque nenhuma delas está empenhada, ou sequer interessada, numa formula democrática.»

Vasco Graça Moura, «Verão quente pensado a frio», em prefácio a O Segredo do 25 de Novembro (de José Freire Antunes), Lisboa: Publicações Europa-América, 3ª edição, 1980, p. 19.

Dois 25 de que gosto muito



26 - Novembro (quarta). Na madrugada de ontem, sublevaram-se os pára-quedistas, que ocuparam várias bases. Reacção dos militares «fiéis». Declarado o estado de sítio. Confrontos. Tiros. Alguns mortos, para começar a haver revolução. Mas tudo isto é quase abstracto, porque nada vimos. Só a rádio. Não há jornais. Consta que o Otelo está preso. Presos outros, menores. Um momento de esperança de que a democracia triunfe.

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente I, Lisboa: Bertrand Editora, 3ª edição, 1982, p. 294.

Nota: o negrito é da minha responsabilidade.

First we take Manteigas, then we take New York


Nuno Lobo Antunes foi meu médico, aqui em Manteigas, enquanto andava a fazer o tirocínio da província. Parece que foi aqui que tomou a decisão de ir para Nova Iorque. Não o censuro. Principalmente tendo-me como paciente.

Bat For Lashes



Parte da tarde a ouvir a voz desta senhora deixa-me assim meio coiso e mais não sei o quê. Melancolia? Não, que eu sou muito gajo!

Uma questão de civilidade


Chá, só com leite.

Fidelidade e adaptação cinematográfica




É prática corrente a reivindicação da transposição fílmíca de textos literários fazer-se a partir do critério da fidelidade, como se este fosse capaz de validar todos os fenómenos inerentes ao processo de adaptação de textos literários para o cinema. A procura de fidelidade não é factor de refutação quando assumida pela singularidade de uma adaptação, pois cada realizador pode optar por aproximar-se, ou não, das marcas semióticas do texto literário. Em caso de fidelidade, o realizador julgará ser uma transposição fiel daquilo que leu, entendido sobre o ponto de vista individual e pessoal. Por esta razão, muitos exemplos de adaptações cinematográficas ilustram concretizações diferidas de uma mesma obra literária.

Defender uma fidelidade literal ao texto literário supõe que a verdade de cada texto existisse e fosse possível através de uma leitura atemporal. Adaptar nestes termos seria um processo orientado por um conjunto de princípios objectivamente válidos, para aproximar o filme do livro, o que significaria uma actividade concebida como operação de descodificação racional e objectiva de um objecto literário, objecto esse que teria que ser entendido como uma entidade de sentido estável e verificável.

Exigir uma fidelidade literal na adaptação também consiste numa forma de fundamentalismo. Alguns escritores censuram e acusam o cinema cada vez que a adaptação não transmite o sentido literal do texto literário. Muitos chegam a negar a visão pluralista dos textos que escreveram, rejeitando a possibilidade de estes serem lidos de maneira diferente. Porém, esta pluralidade de leituras é incontornável, e o cinema pode ser usado na elaboração de leituras possíveis do texto literário. Assim, adaptar cinematograficamente um texto literário assume-se como um reescrita.

O que se coloca saber é se, em situação de adaptação cinematográfica, a literatura tem em si a legitimidade de resguardar possíveis relativismos do sentido textual do objecto literário. Uma resposta a esta pergunta obriga a uma separação entre o ler e o adaptar. Ora importa saber que o objecto literário deve ser sempre entendido como algo passível de várias leituras, daí a sua pluralidade. No que diz respeito ao conceito de adaptação, o fenómeno da adaptação está sempre ligado à relatividade e à criatividade: o realizador que adapta literatura distancia-se do leitor que a lê, pois redimensionou o livro para uma nova obra de arte. No entanto, muitas vezes a falta de fidelidade é propositada. Não esquecer a questão do mercado, pois a adaptação para cinema de textos literários dá normalmente lugar a operações de transacção comercial: a literatura negoceia a cedência ao cinema de direitos de autor. Qual seria a vantagem de uma fidelidade literal para o mercado literário? Não podemos esquecer que quando um texto literário é adaptado ao cinema a venda desse mesmo texto dispara em flecha, e tal não aconteceria se esse mesmo texto fosse literalmente adaptado ao cinema.

O caminho menos percorrido e toda essa treta


Hoje o pensamento do dia veio demasiado cedo. Há dias assim: pensamos demasiado rápido e escapam-nos pormenores. Não sei, sinceramente, onde quero chegar com esta conversa, mas nunca me preocupo muito com isso. Acreditando que o caminho se faz caminhando, que importa saber o ponto de chegada? Sinceramente não me interessa. Mas também não sou daqueles que andou pelo bosque, encontrou um caminho que se bifurcava e escolheu o caminho menos percorrido. Como li no outro dia algures: se o caminho é o menos percorrido deve ser por alguma razão. É claro que isso retira a aventura à coisa. Mas quem é que se mete em aventuras nos dias que correm? Só mesmo gestores do BPN, pois sabem que prenderam o rabo a muita gente e nem beliscados vão ser, apesar da prisão preventiva do outro senhor. É muito bonito vir para a televisão dizer que se encontrou com alguém do Banco de Portugal no dia x, do mês y, à hora k e depois não se lembrar se esse alguém era vice-presidente ou qual o cargo que desempenhava na altura. É muito bonito, sim senhor.

Pensamento do dia



Santogold - Lights out

Jeropiga


Por razões que estão relacionadas com o relevo, o pôr-do-sol em Manteigas nos dias de Outono e Inverno acontece às 15h30m. Isto não significa que anoitece logo de imediato, isso só acontece às 17h30m, isto é, passadas 2 horas. Com o sol a esconder-se tão cedo a temperatura baixa consideravelmente e tudo o que é ser vivo recolhe-se. As ruas ficam desertas e os cafés vazios. A única alternativa é ir para o quentinho do lar ler um livro ou ler um livro e ouvir música ou ler um livro e ouvir música enquanto se prova a jeropiga ou não fazer rigorosamente nada excepto vegetar frente à televisão e ver um campeonato qualquer de patinagem artística enquanto se prova a jeropiga. Pouco ou nada há a fazer. Excepto se um amigo nos telefona e diz que está a dez minutos de Manteigas e nós vamos ter com ele e bebemos uma jeropiga no café.

Poesia Incompleta




Através do Henrique chego à Poesia Incompleta, uma livraria inteiramente dedicada à poesia. E o dia de sábado ganha outra cor.

Sexta-feira à noite


Como não há muito a fazer numa noite de sexta-feira aqui em Manteigas, ponho-me a pensar em várias questões:
Aquele senhor do BPN levou com prisão preventiva, mas já se sabe que isso em Portugal para crimes de colarinho branco é o mesmo que dizer ao indivíduo: vais ali descansar um pouco, para ver se isto acalma e depois sais em liberdade;
Ando um pouco farto de ver a cara dos senhores da FlorCaveira em tudo o que é sítio. Eu até nem desgosto da música do João Coração e até acho piada à sua pose, mas fico sempre a pensar que são meia dúzia de “meninos bem” que decidiram entrar na música para haver tema de conversa nas tardes entediantes de chá em casa das tias. E depois há aquela coisa de serem Baptistas! E se fossem Testemunhas de Jeová? Também eram primeira capa?
Como me meto a pensar nestas coisas e venho para aqui dizê-las em voz alta, dá-me vontade de sair e ir apanhar com o ar frio na cara. E acho que é isso que vou fazer.

Ó da Guarda!


É porque eu sou a minha voz, é porque ela existe minha no instante em que a estou erguendo, que me escapa a sua intelecção. E todo o equívoco do problema da liberdade está aí. Porque a liberdade experimenta-se e nada a pode demonstrar. Demonstrá-la exigiria que estivéssemos fora de nós, porque na própria demonstracção estamos sendo o homem livre cuja liberdade desejamos provar. Assim, essa tentativa, como disse, é tão absurda como pretender a intelecção de uma língua fora de uma qualquer língua. Porque enquanto entendo uma língua, estou sendo aquela língua dentro da qual estou entendendo a outra. Quando estou tentando endender a minha liberdade estou sendo quem sou na intelecção disso que sou. Eis-nos pois remetidos para o limiar de nós próprios, para o absoluto da escolha antes da escolha, para a identidade incompreensível entre o ser que é nosso e a escolha desse ser.

Vergílio Ferreira (1916-1996): nasceu em Melo, concelho de Gouveia, distrito da Guarda. Embora formado como professor, foi como escritor que mais se distinguiu. O seu nome continua actualmente associado à literatura através da atribuição do Prémio Vergílio Ferreira. Em 1992, foi galardoado com o Prémio Camões. A sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romance, conto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois periodos literários: o Neo-realismo e o Existencialismo. Considera-se que Mudança é a obra que marca a transição entre os dois periodos. O texto que aqui se reproduz foi retirado do livro Invocação ao meu corpo.

Hora do duche


Por momentos nem me lembro que estou temporariamente desempregado*: o aquecimento central está ligado, os The National estão a tocar no aparelho de som, e o meu corpo está mesmo a pedir um duche, depois de ter descarregado o carro e arrumado as tralhas todas. Sei que um dia destes vou ter que desarrumar tudo outra vez e novamente encaixotar tudo e partir para uma qualquer escola deste país: e isso é bom sinal.

* menos agora, altura em que escrevo este texto e penso no país em que vivo. E vem-me à cabeça a ideia de se estar a hipotecar toda uma geração que estava bem era a procriar, para que o país não seja constituído por um grupo de velhos rabugentos a dizer que era bom interromper a democracia durante seis meses – que não acredito que a ideia seja só a Manuela Ferreira Leite a tê-la, pois deve haver por aí muito boa gente a pensar o mesmo e à espera do momento oportuno para atacar. Mas que se lixe. À merda com eles todos, bando de gansos!

Mãe há só uma e é bem verdade


Ao chegar a casa dou com a minha mãe a ler Contos de São Petersburgo. Pergunto-lhe se está a gostar e ela diz que tem muita descrição e eu prefiro livros com mais diálogos. Mas depois diz-me: sabes, no outro dia li o Morte em Veneza e gostei muito. Vê lá tu o raio do velho apaixonar-se pelo garoto e ter uma paixão tão forte que morre!

Cheguei


Cheguei a Manteigas. Agora é descarregar o carro, esperar pelas próximas colocações cíclicas e (esperar) ser colocado. Entretanto vou aproveitar para ler, escrever, ouvir muita, muita música e terminar algumas coisas que estão pendentes.

Dos livros

Os livros foram os últimos a ser encaixotados. Só resta um, que está ali sobre a mesa para ler antes de dormir.


Tenho as caixas, os caixotes
e os sacos grandes tipo IKEA.

Tenho o papel que diz que estou
oficialmente desempregado.

Tenho o carro atestado,
para a viagem de amanhã.

Tenho a tua fotografia
a olhar para mim.

Farol


«O que é preciso é reinventar o começo, ocupar o espaço da inquietação.»

Vergílio Ferreira, Alegria Breve, Lisboa: Bretand Editora, 7ª edição, 2004, p. 124.

A Noite e o Riso - um estudo (5)


Cada palavra em mim
assopra contra
essa morte
que nos acomete,
de boca seca
e frio no estômago.

Apesar disso,
nunca soube
ganhar à vida.

Afinal, o que é uma casa? (3)


Quando chego a "casa" a primeira coisa que faço é descalçar os sapatos e enfiar nos pés os chinelos. Foi um hábito que fui adquirindo ao longo do tempo. Hábito esse que nunca foi imposto por uma mãe autoritária e com a mania das limpezas e que manda o marido e o filho descalçar os sapatos à porta de casa para não sujarem. Descalço os sapatos e calços os chinelos pelo simples facto de me saber bem. Depois ligo o pc e vou até ao mail. É claro que tenho sempre muito pouco mail e sempre muito spam. Não vou dizer que tipo de spam recebo, pois estaria a denunciar-me (ups! acho que já o fiz). E olho para o lado e vejo o que tenho para colocar novamente nas caixas e nos caixotes. Olho para a minha casa e vejo que ela cabe em três ou quatro caixotes e em dois ou três sacos grandes tipo IKEA. Não é muito, mas é mais do que algumas pessoas têm e estou grato por isso.

Chama-me pai, mas não me peças dinheiro


Pela primeira vez em oito anos de serviço docente (eu sei que não é muito) um aluno chamou-me pai. Enquanto professor já sou assistente social, psicólogo e padre. Só falta mesmo ser pai. Senhora Ministra! Está à espera do quê?

Parece que é de vez


Hoje veio apresentar-se a professora que estou a substituir. Lágrimas nos olhos pois é doente oncológica (doente oncológica uma vez, doente oncológica toda a vida – que o diga o meu pai), a pedir-me desculpas por aparecer assim de repente mas os senhores doutores médicos da Junta Médica mandaram. É claro que já estava à espera disto: mas há sempre aquela réstia de esperança. Sempre. Resumindo: tenho três dias para passar a “pasta” e bye bye Agrupamento de Escolas de Alapraia, olá colocações cíclicas. A ver vamos.

Do sentido


«Porque, na verdade, o homem tinha pressa de alijar de qualquer modo o fardo de si próprio. Sabia que às leis ele as fizera, que os deuses ele os criara e os matara. Mas assim mesmo, tinha medo de ficar a sós consigo, como diante de um muro.»

Vergílio Ferreira, Apelo da Noite, Venda Nova: Bertrand Editora, 3ª edição, 1990. p. 124.

Aqui de novo


Só mesmo um desafio do Lourenço e um post do Henrique para me trazerem de novo aqui (isso e o livro que ando a ler agora: Apelo da Noite, de Vergílio Ferreira). Esta minha ausência, este meu simulacro de ausência – pois nunca deixei de aqui vir diariamente, por mais que tente não consigo largar isto e estas duas semanas são prova disso –, só pode ser considerada pochlost. E assim respondo ao desafio do Lourenço. Quanto ao post do Henrique: concordo com ele. Às vezes precisamos assim das palavras, mesmo que elas sejam esguias, para nos despertarem. E, sem dúvida, tudo seria mais fácil se seguíssemos o ensinamento: o que tiveres a dizer diz, o que não tiveres a dizer não digas. Mas, às vezes, é (tão) difícil distinguir ambas.