O nome das coisas


De manhã, enquanto fazia a barba, cortei-me junto à maçã de Adão. «Lâmina» é, sem dúvida, um nome feminino.

Um dia de cada vez


Chego à escola e informo do sms recebido ontem. Dizem-me para não dar grande importância e para me ir habituando. Explico: estou a substituir uma professora que está de atestado médico devido a doença prolongada. Vim para ficar um mês. Já vou em dois. Na escola não sabem se fico mais um ou dois ou três ou o ano todo. E como não podem colocar no contrato uma data definitiva, têm todos os meses que o actualizar numa página electrónica qualquer (que isto agora é só tecnologia). Por isso, ainda vou (se tudo correr bem) receber mais algumas mensagens como a de ontem. Entretanto, a vida vai continuando na incerteza de não saber se continuo ou não. É um dia de cada vez. Como sempre.

Começar o dia

Frente ao espelho.

Pensamento do dia


Nick Cave & The Bad Seeds - Loverman

Choque tecnológico? Não. Falta de consideração


«O seu contrato está a terminar: Alerte a escola para dar por finda a sua colocação.»


sms recebido da DGRHE.

Nota: nunca me senti tão desconsiderado como hoje. E eu a pensar que era a escola que me avisava. Mas, afinal, parece que é o contrário.

Do pessimismo


Há aquela frase de Beckett, muitas vezes citada, sobre falhar. Ela faz todo o sentido, mas custa a engolir, embora a cerveja ou o vinho tinto ajudem bastante. Às vezes interrogo-me: será que os outros me consideram um falhado? É que os outros têm sempre uma ideia menos “falhada” de nós, como nós temos deles. Daí até ao optimismo é um salto. Acredito que há uma predisposição genética para uma pessoa ser ou não pessimista. Só assim compreendo o facto de muita boa pessoa que eu conheço (e que passou por muito na vida) continue optimista*. É claro que podemos analisar o lado optimista de ser pessimista. Exemplo: um pessimista espera sempre o pior e, muitas vezes, chega a não esperar nada de nada. Tudo aquilo que recebe é uma vitória, por mais pequeno que seja. No entanto, isto é um falso optimismo. Porquê? Porque no fundo um pessimista sabe que falha sempre. A aparente vitória é apenas mais uma derrota, pois ele sabe que conseguiria mais se, ao menos, fosse mais optimista. Mas numa coisa o pessimista ganha: na coerência. Um pessimista é sempre coerente no seu pessimismo (pode é ser mais ou menos pessimista: mas é sempre pessimista). Já o optimista não: ora é optimista ora é pessimista – pois todo o optimista tem um momento de fraqueza – e, assim, nunca sabemos o que esperar dele.

* talvez seja Fé, mas isso é outra conversa.

Não, ainda não é esta semana


Sempre que aqui procuro um pouco de paz de espírito vou até à marginal ver o Bugio. Não dá muito resultado, mas uma pessoa vai tentando e tentando. Hoje a coisa deu-se assim: entro num café (pertencente ao INATEL). Bengalas, andarilhos, cadeiras de rodas. Paz de espírito? Parece que ainda não é esta semana.

Talvez


O pior de um simples sim ou não é um talvez.

Na mouche


«concluindo: a tua vida é um
efeito secundário.»


comentador anónimo, aqui.

Diagnóstico


Chego à sala dos professores e encontro um desdobrável da Aliança Portuguesa Contra a Depressão. É claro que a primeira coisa que faço é rir, pois não deixa de ser irónica a situação, tendo em conta o ambiente que se vive nas escolas. Depois passo os olhos pelo desdobrável: Os Sintomas da Depressão. Sempre me considerei uma pessoa deprimente, no verdadeiro sentido da palavra, e deprimida. 1) Sensação de abatimento (ando bastante cansado), tristeza (claro! lá podia escrever à merda de poesia que escrevo se não fosse uma pessoa triste), ansiedade (a merda do objectivos individuais não me deixam em paz, e o P(rojecto)C(urricular)T(urma) e mais umas merdas) e preocupações (porra! isso é coisa que não falta); 2) Perda de interesse (às vezes); 3) Sensação de perda de força e energia, especialmente de manhã com melhoria ao longo do dia (quem é que não tem isso? o pior é que eu nem ao longo do dia, por isso devo ser um caso perdido); Lentidão no pensamento e na acção, ou pelo contrário, forte agitação interior (e não podem ser as duas juntas? é que eu sou muito lento a pensar, mas ando sempre numa grande agitação interior, a matutar tudo aquilo que ainda tenho que fazer, como resolver a merda da vida que anda cada vez pior); 5) Pensamentos recorrentes acerca dos próprios erros, das suas limitações ou dificuldades, ou de sentimentos de culpa (e quem é que não tem isto? só um autómato); 6) Perda de apetite e perda de peso (isso queria eu!), ou pelo contrário, forte aumento do apetite e aumento de peso (ora porra!); 7) Alterações de sono (claro! com tanta preocupação querem o quê? milagres?); 8) Dificuldade de concentração e incapacidade em tomar decisões (é um facto consumado); 9) Sentimentos de inferioridade, de baixo valor, perda da auto-estima (mas isso desde a adolescência, quando vi gajos feios ficarem com as gajas boas, só pelo facto de serem gadelhudos e dizerem que gostavam de Metallica); 10) Pensamentos sobre a morte e sentido da vida (quem é que não tem? porra!) e tendências suicidas (contam as bebedeiras?).


Não sei, mas hoje deu-me
para a melancolia,
para ficar assombrado
com a realidade
das coisas.

Sei que na rua a chuva
cai, mas pouco caso
lhe faço. Não me interessa
saber se é oblíqua
ou chuvisco ou aguaceiro.

Prefiro antes olhar
para o televisor
(um dia disseram-me
que não fica bem
terminar um verso
em ão), adormecer
e depois acordar
com um beijo teu,

apesar de saber
que não estás em casa.

Afinal, o que é uma casa? (3)


Fiz parte do caminho a ouvir esta música. Saí do trabalho, meti-me no carro e liguei a rádio: I wanna hurry home to you / put on a slow, dumb show for you. É claro que, quando chegar a casa, tu não estás. Nada naquele lugar és tu, apenas a tua ausência*. Não há o mínimo indício de ti, só o lugar vazio no sofá, o não-aroma do teu perfume, e tudo o resto. E a música continuou.

*aqui o leitor poderá substituir a frase por outra que lhe pareça mais apropriada, isto é, menos rebuscada.

Post lamechas

Às vezes queria que pensasses em mim. Eu sei que pensas, não é isso. Mas gostava, por exemplo, que agora estivesses a pensar em mim, no preciso momento em que escrevo gostava que estivesses a pensar em mim, como eu estou a pensar em ti. É uma ideia completamente sem sentido, eu sei. É quase impossível isso acontecer, embora já tenha ouvido falar de casos em que tal aconteceu. Já está a pensar em mim?

Do optimismo


Podia dizer bom dia. Mas ainda é cedo.

Pensamento do dia

Linda Martini - Amor Combate

Este texto


Este é um texto sem qualquer utilidade. É um texto escrito com sono e cansaço. Nada acrescenta. Apenas refere que hoje o dia acabou mais cedo, que a noite chegou mais rápida, que durante a próxima semana o corpo vai ter que se habituar ao novo horário e não vai ser fácil. Mas, vendo bem, nada é fácil: viver não é fácil, amar não é fácil, morrer não é fácil. Como disse antes: este é um texto sem qualquer utilidade, escrito com sono e cansaço. É apenas mais uma tentativa para enganar o tempo, mas consciente que é impossível enganá-lo. Este é um texto que tem como único objectivo dizer que hoje escrevi alguma coisa, que hoje passei por aqui. É um texto que podia ser uma casa vazia à tua espera. Este texto é uma casa vazia à tua espera. A porta está entreaberta. Este texto espera-te. Este texto é uma espera. Este texto é apenas um texto sobre um texto que podia ser uma casa vazia à tua espera. Uma espera. Este texto é sono e cansaço.

2º Encontro de Escritores de Torres Vedras


Progama completo aqui.

Pensamento do dia


Yeah, it's overwhelming but what else can we do
Get jobs in offices and wake up for the morning commute?

José Cardoso Pires


Uma vez João Lagarto respondeu José Cardoso Pires à seguinte pergunta: José Saramago ou António Lobo Antunes? Eu ri-me. José Cardoso Pires foi o primeiro autor português que li. Razão: o meu pai tem um livro (Dinossauro Excelentíssimo) com dedicatória. Não sei como a consegui (por acaso até sei mas não vou aqui contar a estória), é uma edição de 72 – se não estou enganado –, significando isso que foi conseguida ainda no tempo da ditadura, quando o livro ainda era proibido. Mais tarde li Balada da Praia dos Cães, O Delfim e De Profundis, Valsa Lenta . Tive um colega que leu tudo dele. Era apaixonado por Alexandra Alpha. Isto tudo para dizer que hoje à noite na RTP1 passa o filme O Delfim e mais uma série de coisas dedicadas a José Cardoso Pires.

A Noite e o Riso - um estudo (3)


Casas, árvores,
gente perpassam cada lado
do meu corpo ensopado
em fúrias.

No existir humano
a fuga consiste
na recusa de algo.

Onde descansar?

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (6)


1. As questões em torno da tradução nunca foram pacíficas, nomeadamente num país como o nosso onde sempre faltaram tradutores “de raiz”. Quando me refiro a tradutores “de raiz”, refiro-me a todos aqueles que têm formação na área da tradução, que traduzem a partir da língua original e não de traduções feitas noutras línguas (um bom exemplo é aquele que diz respeito aos clássicos russos, que foram traduzidos, até há pouco tempo, de outras línguas que não a russa). E, a bem da verdade, algumas traduções nunca primaram pela qualidade, apesar de cumprir o objectivo da divulgação – vejam-se, a título de exemplo, alguns dos poemas traduzidos por Jorge de Sena (eu sei que isto custa a engolir). Isto tudo para falar da questão que André Moura e Cunha aqui levantou. De facto, não se entende a opção de certas editoras em publicar obras que já se encontram publicas noutras editoras, mesmo que isso promova o diálogo e a discussão séria em torno da questão da tradução. E não se entende tal opção quando ainda estão por traduzir muitos e bons autores – e todos nós somos capaz de enumerar alguns.

2. As gralhas são algo que atormenta qualquer autor. Todos nós sabemos que um livro sem gralhas é como um jardim sem flores. No entanto, o perfume de “flores” em exagero é prejudicial, pois incomoda e pode ser fatal para quem, como eu, sofre de alergias. O exemplo que José Mário Silva dá é, no mínimo, caricato (e lamentável). Mas não é um caso isolado. E é pena.

E se as perguntas fossem antes estas?


1) Qual é, em seu entender, o pior livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
2) Qual é, em seu entender, o pior livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?
3) Se a pergunta não fosse «qual o pior» mas sim «qual o menos importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

É que isto de responder a perguntas sobre o melhor e o mais importante é canja. Agora, responder qual o pior e o menos importante (tratando-se de literatura portuguesa, repito: literatura portuguesa), tem muito que se lhe diga.

Mapa


Mapa ciciado.


Que deve um homem fazer
quando lá fora chove
e o tempo é apenas
a lisura do tampo
da mesa onde apoia
os braços, onde a mão
procura a caneta?

Algures no caminho
ficou a noite escura,
uma veia entupida
pelo pó dos dias,
pelas noites mal dormidas,
pelo carro que decide
de manhã não arrancar
e são oito horas e
estás outra vez atrasado
para o emprego.

Mas não te preocupes:
ainda tens o teu cinismo.

Só me apetece dizer


Declaro que desisto.

Lí por aí


«Que uma pessoa esteja num processo de escrita e não tenha rascunhos à mão, impressões, nem sequer a lembrança de enviar o ficheiro de um dos seus e-mails para outro, de modo a ficar com uma cópia guardada na caixa virtual, é algo que me espanta. Que diga que o querem calar, prejudicar, censurar, é apenas um acto repetido, uma forma de promoção, de se falar dele, quando os outros concorrentes ao lugar de "besta célere em Portugal" estão, apenas, a publicar livros.»


Luís Filipe Cristóvão, em 1979

Do optimismo


Falam do frio, dos dias que começam a ser mais curtos, dos treinos dos filhos, do jantar, do almoço, da crise. Começo a pensar que não tenho vida.

Foi por um triz


Andava a ficar preocupado. Houve dias em que foram ultrapassadas as 100 visitas diárias. Mas agora a coisa está a voltar à normalidade. Ufa!

Pensamento do dia

The National - Lit up

You wear skirt like a flag
And everything surrounds you, and it doesn't fade

Da inevitabilidade


Estou sentado no sofá e reparo que a barriga cresce desmesuradamente. Olho-me ao espelho e penso o que te safa é teres esses lindos olhos azuis. Mas depois lembro-me que sofro de miopia.

A Noite e o Riso - um estudo (2)


Ainda que a rua
fosse uma tira preta
colada ao tempo
e sob a ameaça
de pesadelos,
o frio que absorvi
no escuro
nunca o sonhara
ou vira.

A partir daí
o meu futuro
seria outro.

Não, obrigado


Basta passar os olhos e ler algumas das coisas que se escrevem nos blogues "dedicados" à literatura para concluir que essa mesma literatura não me interessa.

A Noite e o Riso - um estudo (1)


Criado na arte
de estender os braços
cedo perdi
as mãos de vista.

Foi nessa época
que o problema de ser
ou não –
ficou decidido.

Eu não seria:
a debilidade
era o meu forte.

A Noite e o Riso - um estudo


No dia seis de agosto de 2007 iniciei aqui a publicação de uma série de poemas a que dei o nome genérico de A Casa (ler nota explicativa aqui). A mesma nota de então serve para explicar parte daquilo que agora apresento. Inicio hoje uma nova série de poemas. A técnica utilizada é a mesma da anterior série. Mas desta vez o livro é A Noite e o Riso, de Nuno Bragança. Terá o título genérico pouco original de: A Noite e o Riso – um estudo. Deixo o primeiro poema.

Classificados


Leitor atento e cuidadoso procura livro com quem passar as noites de inverno. Deverá o dito ter entre 400 a 750 páginas. Não se aceitam Ulisses, Os Nus e os Mortos (lido) e Moby Dick (considerado leitura de verão). Oferecem-se boas condições: prateleiras em pinho e marcador de páginas por estrear.

e digo nuvens


É a nova série a ser iniciada hoje aqui.

Bandini! I'm Arturo Bandini!


Tal como Bandini, hoje o meu jantar foi laranjas.

A minha opinião


A "concentração editorial" está para os livros como a "unicidade sindical" está para os sindicatos.

Domingo


Como sabem não gosto do dia de domingo. É uma embirração, eu sei. Mas hoje o dia está bonito: o sol brilha, a temperatura é agradável e até os vizinhos decidiram não fazer muito barulho. Imagino a marginal cheia de pessoas a passear as crias e os cães, outros a correr enquanto ouvem no mp3 a música da sua preferência, outros, ainda, a ler o livro que compraram na última ida ao supermercado ou à livraria do centro comercial onde costumam ir fazer compras. Imagino tudo isto e penso que hoje está um lindo e bonito domingo. E tomo a decisão de também eu sair de casa e ir até à marginal apanhar um pouco de sol enquanto leio o último livro que comprei na livraria do centro comercial onde costumo fazer compras e ouvir no mp3 a música da minha preferência. Vai ser bom. Pode ser que faça as pazes contigo, domingo.

Obrigado, Rui


«Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços. »

Nuno Bragança, A Noite e o Riso, Lisboa: TV Guia Editora, 1996, p. 13.

Lí por aí


«Anos e anos a exigirem (como lhes compete) maiores aumentos, e agora que a proposta do governo é superior, em quatro décimas, ao valor estimado para a inflação, aqui del-rei que os trabalhadores vão ser fortemente penalizados. Porquê? Porque, segundo o Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado, um tal aumento arrastará consigo, inevitavelmente, mudança de escalão de IRS! Não é um raciocínio extraordinário?»

Eduardo Pitta, em Da Literatura

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (5)


1. Se ligasse ao passado político de alguns escritores, teria que enviar para o papelão alguns dos livros que tenho em casa: Céline, Mishima, Pound, Cela, Larkin, entre outros. Em Portugal tivemos José Saramago a sanear nos idos de 75 (se não me falha a memória). Mesmo assim ele foi eleito Prémio Nobel e Portugal inteiro (e Espanha também) se orgulha dele. Ainda no outro dia, numa entrevista à TSF, Miguel Esteves Cardoso defendeu abertamente Paulo Portas. Isto vem a propósito da mais recente polémica em torno de Milan Kundera. Parece que o autor checo denunciou alguém aos comunistas, que por sinal era “espião” dos americanos. Aqui del-rei! o melhor é queimar os livros do homem! Muitos daqueles que agora falam contra Milan Kundera provavelmente andaram pelas barricadas no Maio de 68 ou a pintar murais a favor da libertação do camarada Arnaldo Matos. Mas agora são paladinos da moral, como se os seus telhados não fossem de vidro.

2. António Lobo Antunes merece, da minha parte, todo o respeito do mundo. Aprecio bastante alguns dos seus romances, nomeadamente aqueles que correspondem à fase inicial. Refiro-me a: Memória de Elefante, Os Cu de Judas, Fado Alexandrino, As Naus. Ofereceram-me ainda O que farei quando tudo arde? e comprei Boa tarde às coisas aqui em baixo. Considerei-os intragáveis, sem ponta por onde se pegue. Já as Crónicas: isso é outra conversa (alguns até dizem que é aí que se encontra o melhor do autor). De enfant terrible da literatura portuguesa, António Lobo Antunes passou a ícone nacional. Quem não lê: é inculto. Quem lê e não gosta: é parvo. Ainda não li nenhuma vez uma recensão crítica negativa a um dos seus últimos livros. Pergunto: mas já alguém leu, ultimamente, uma crítica negativa a algum livro de algum autor português? E se alguém leu: elas suplantam as críticas positivas?

Zincos


Também me podem encontrar aqui.

Mexilhão


Há pouco saltou-me a tampa na salas dos professores. Razão? A avaliação. Toda a gente se queixa mas ninguém faz nada. Em vez disso inclinam-se sobre a mesa e esperam que o Ministério os enrabe. Que os Sindicatos façam alguma coisa, quando os Sindicatos não são diferentes do Ministério, isto é, também enrabam os professores mensalmente e depois, quando há greve, não são capaz de pagar o dia, como fazem em alguns países civilizados. E tu? O que fazes tu? Pergunta o leitor (e muito bem!). Nada. É que aos 16 anos aprendi com José Cardoso Pires o seguinte: quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão. E eu, no meio disto tudo, nem mexilhão sou: sou contratado.

Pensamento do dia


The Walkmen - In the New Year

Talvez um dia escreva sobre tudo isto. Não será um livro de memórias, pois nada há que seja memorável. Nada há que mereça ser recordado. Embora fique sempre alguma coisa: a luz num quarto mal iluminado, um corpo, uma música. Mas pouco mais para lá disso. Nem a cidade lá fora ficará para fazer parte da história.

Dos dias


Não me peçam para ser optimista com crianças a gritar lá fora, com participações sobre a mesa, com objectivos individuais na cabeça, com testes para corrigir, com falta de dinheiro nos bolsos, com saudades, com um carro de quinze anos e 265000km (que eu não recorri ao crédito para comprar um novo), com dias na cidade que começam demasiado cedo e terminam demasiado tarde, com poucas horas de sono, com cortes na cara da barba feita com a mão a tremer, com uma vontade enorme de gritar mas sem o poder fazer pois ainda chamam a polícia e vou para o Miguel Bombarda, com um dente molar sem espaço para crescer, com roupa por lavar, com o quarto por arrumar, com livros para ler, com trabalho por fazer, com lugares por visitar, com amigos por ver, com um telemóvel sem saldo e uma vontade enorme de ouvir a tua voz, com aulas para planificar, com políticos a foder-me e eu a deixar, com poemas na gaveta à espera de amadurecer.

Vá, leiam


Vale a pena ler este texto.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (4)


1. Quando alguém se refere a uma determinada obra (romance, novela, conto, poesia) como grande literatura, está consciente do risco que corre ao utilizar o adjectivo. Mas, não é menor o risco se alguém se referir a essa mesma obra como literatura. Afinal, o que é literatura? Esta é uma questão que está longe de obter uma resposta que a todos agrade. E ainda bem que assim acontece, pois se existisse consenso estaríamos, à partida, a delimitar algo que, quanto a mim, não deve ser delimitado. O conceito literatura deve ser um conceito aberto. Se ele for de alguma forma delimitado, ou tiver como referência o cânone, estaremos a colocar de parte uma infinidade de possibilidades.

2. Na minha opinião, o cânone é o maior inimigo da literatura. Como pode algo tão sujeito à subjectividade inerente ao Homem definir ou estabelecer limites? Como pode algo – ou alguém – dizer o que é ou o que não é literatura, o que está ou não está dentro dos limites da literatura? Como podem ser estabelecidos limites a algo que tem como característica (para ser verdadeiramente original) a transgressão? Só aceito limites se estes forem criados com um único objectivo: serem violados. Estou consciente que o cânone não é uma entidade estática e que as vanguardas muito fizeram para o destruir – apesar de estarem esgotadas. No entanto, querer estabelecer um cânone, ou a ele regressar, só poderá ter um único objectivo: restringir ao máximo o “uso” da literatura a uma série de “iluminados”. E isso eu não posso aceitar.

Já ganhei o dia


Eu queria ser poeta,
mas os poetas
pensam muito
e eu só penso em ti.

Bilhete apanhado (e devolvido) a um aluno do 5º ano.

Pensamento do dia



Tricky - Christiansands

Estava quente. Vamos pensar que era verão. Havia pouca luz no quarto e aquela que havia era do candeeiro de rua, que estava mesmo em frente à janela. Dezenas de insectos voavam à sua volta – do candeeiro, entenda-se – tentando a sorte, impelidos pelo Ícaro que há dentro deles. Que há em nós. Ali dentro o baile era outro. De sombras: como sempre tinha lido nos livros.

Nota: a música deve ser ligada depois do texto ser lido.

Mapa na Livraria Trama


Mapa já se encontra disponível na Livraria Trama. Quem quiser é só comprar um e dizer-me qualquer coisa, pois como estou pelas redondezas até se arranja uma dedicatória.

Vergílio Ferreira


Uma boa notícia, no meio de tantas menos boas, é o facto de a Quetzal apostar na publicação da Obra Completa de Vergílio Ferreira. Já vi exemplares de Manhã Submersa e Para Sempre. O grafismo é muito bom: semelhante ao grafismo da Bertrand – que aprecio bastante. Vergílio Ferreira é um autor muito esquecido, apesar de Aparição. Talvez o facto de não ter feito muitos amigos entre os neo-realistas, ter sido uma voz muito crítica em relação ao PREC (é só ler as entradas de Conta-Corrente referentes aos anos de 1974-75: numa delas Vergílio Ferreira diz que a sigla PREC se assemelha ao som de um traque), sejam a resposta. É claro que o seu radical individualismo também não ajudou muito. E estas coisas, num país como o nosso, pagam-se caro.

Liquidez bancária! A sério?


Dizem que há falta de dinheiro. Para mim isso não é novidade nenhuma: basta consultar o meu saldo bancário.

É mais ou menos assim


Não esperem nada de mim.

Lá vamos nós


Mais uma semana a fazer pela vida.

Hoje

21h30, na livraria Trama, em Lisboa
( Rua São Filipe Nery, Nº 25B 1250-225)

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (3)


1. Herberto Helder há muito tempo que deixou de ser poeta para ser instituição (e quase intocável). Apesar dos esforços para não o ser – recusar dar entrevistas, não permitir que a sua poesia seja reeditada individualmente –, Herberto Helder falhou. Talvez muita da culpa seja sua: todo o mistério que criou à sua volta só multiplicou o número de “adoradores”, levando a que alguns dos seus livros passem a valer o triplo ou o quádruplo do valor real: numa feira de antiguidades nas Caldas da Rainha pediram-me 25 euros pela primeira edição de A Última Ciência, como se o livro em questão fosse uma raridade (tal não acontece: qualquer Biblioteca Municipal deverá ter um exemplar), como acontece com Cobra, por exemplo. Não vou negar que me deixei deslumbrar pela sua poesia quando tinha 16-17 anos e li, durante esse verão, Poesia Toda. Contudo, sempre me agradou mais a sua prosa: considero Passos em Volta um livro fundamental na minha vida – e sei o risco que corro ao utilizar o adjectivo. No entanto, não posso ficar indiferente a todo o aparato criado em redor de mais um livro seu. Na verdade não se trata de um novo livro: é uma súmula com alguns inéditos. Quem tiver Poesia Toda e Ou o Poema Contínuo tem os poemas de Herberto Helder quase na sua totalidade (e repetidos!). Mas a ideia que se passa ao leitor desprevenido – caso existam leitores desprevenidos de Herberto Helder – é que está na presença de um novo livro do poeta, quando na realidade isso não acontece.

2. O problema da crítica literária é ser feita por críticos. É claro que esta frase não é minha. Li-a (ou ouvia?) uma vez. O problema em Portugal coloca-se de outra maneira: a crítica literária não existe. Existem críticos? Não. Existem amigos de escritores que também são escritores e que escrevem aquilo que pensam ser crítica literária. Embora concordando com a ideia de que a imparcialidade, algo de fundamental numa boa crítica literária, implica uma postura de “neutralidade” que induz, por sua vez, a uma tomada de posição (Zižek), estou convencido que em Portugal evita-se ser imparcial para não cair no erro da neutralidade. Sim, ser neutro em portugal é um "erro", ou pelo menos é visto como algo de "errado". Somos abertamente parciais: é impossível ler crítica literária em Portugal sem estabelecer laços de amizade entre crítico e criticado. Quem souber um pouco de História da Literatura verá que sempre assim foi. E eu sei que não é só em Portugal que isso acontece. Mas estou a referir-me a Portugal.

Le Clézio


Nunca li nada dele. Não sei se é agora que vou começar a ler. O Nobel da Literatura tira-me sempre a tusa para começar a ler um autor que desconheço. Há excepções: Knut Hamsun. Mas esse foi Bukowski que o recomendou.

Curiosa coincidência ou nem por isso?


No dia em que é revelado o Prémio Nobel da Literatura a Assírio & Alvim coloca no mercado o “novo” livro de Herberto Helder.

Lí por aí


«aparas gregas de mármore em redor da cabeça. Se este verso tivesse sido escrito por certos e determinados autores, seria arrasado por determinados e certos críticos. Quem diz aquele verso, diz todo o poema do qual aquele verso é apenas o primeiro. Mas aquele verso foi escrito por Herberto Helder. Logo, à semelhança do que sucede com algumas nódoas de Picasso esboçadas em guardanapos e folhas de mesa, aquele verso só pode ser um excelente verso.»
Henrique Fialho, em Insónia

Pensamento do dia



Almirante Pinheiro de Azevedo em entrevista à rádio e TV

Micro (50)


Condenado à pena de morte deram-lhe a escolher entre decapitação ou enforcamento.
- Decapitação - disse sem hesitar.
- Alguma razão em especial - perguntou o juíz.
- Ando farto de coçar a cabeça.

Ficam a saber que...


quase todos os textos escritos neste blogue são da exclusiva responsabilidade, e autoria, do autor. No entanto, eles poderão não expressar, verdadeiramente, a sua opinião.

Movimentos


Por tudo e por nada criam-se em Portugal movimentos. Todos sabemos que a principal função dos movimentos é: movimentar-se. Para onde? Não se sabe. Mas lá que se movimentam, lá isso movimentam.

Declaração


Eu, manuel a. domingos, declaro que em determinada altura considerei Jorge Reis-Sá um poeta interessante, estando incluído no meu Top Ten de poetas com menos de 30 anos (na altura tive a infelicidade de escrever isso em algum lado). Também declaro que enviei, ao referido autor, uma colectânea de poemas, para que ele emitisse opinião sobre os mesmos. A opinião foi dada e nem era má de todo, apesar de lacónica. Nunca foi minha intenção publicar esses poemas na editora de Jorge Reis-Sá. No entanto, declaro também que mudei de opinião: já não considero Jorge Reis-Sá um poeta interessante, nem faz parte do meu Top Ten. O referido senhor nunca me fez mal nenhum e esta declaração nada está relacionada com disputas pessoais ou algo semelhante. Esta declaração serve apenas para marcar uma posição – que ainda não sei qual é, mas existe (disso tenho eu a certeza).

Um certo conforto


Às vezes o corpo e a mente pedem-me estímulos visuais, principalmente nestes dias cinzentos. Vou até ao supermercado. Não compro nada, apenas passeio pelos corredores e descanso os olhos em coisas que não preciso. E saio mais reconfortado.

Pensamento do dia



Kate Bush - Running Up That Hill


A primeira vez que falei das luzes da cidade foi sem conhecer as luzes da cidade. Já tinha lido sobre elas, mas não é a mesma coisa. Os livros podem evocar muitas coisas e elas não passam disso mesmo: de meras evocações. Evocar é aquilo que o homem melhor sabe fazer. Por tudo e por nada evocamos ou algo ou alguém. No meu caso eram as luzes da cidade, vistas através do vidro de um carro em movimento. Tenho um amigo que dizia que a melhor banda sonora para Lisboa ao fim do dia era Dead Can Dance. Durante muito tempo concordei com ele. Até certo dia. A cabeça ia encostada ao vidro do carro depois de uma noite no Bairro Alto nos idos de 1998. Não era o fim do dia, era antes o fim da noite, mas também não era o princípio do dia – não sei se me faço entender – e a confusão que ia na minha cabeça era alguma: um namoro que tinha deixado de resultar ou de ter piada ou algo do género. O carro avançava pela cidade : «And if I only could,/I'd make a deal with God,/And I'd get him to swap our places/Be running up that road,/Be running up that hill,/With no problems...». Deus começava a ser algo que não fazia muito sentido. O carro lá seguiu o seu caminho. E penso que, até hoje, ainda não parou.

Socialismo


Quando visitei Budapeste tinha intenção de também visitar os blocos habitacionais socialistas. Não me foi possível. Mas no outro dia fui a Sacavém e penso que fiquei com uma ideia. Só que em Sacavém o socialismo ficou na gaveta.

Da condição humana


«Um homem não é bastante pequeno nem bastante grande para vencer seja o que for.»

Yukio Mishima, O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar, Lisboa: Assírio & Alvim, 3ª edição, p. 14.

Aforismo de pacotilha (2)


A Arte é tão necessária ao Homem como uma boa martelada no dedo grande do pé, tendo em conta que, às vezes, é necessário um pouco de dor para saber que estamos vivos.

Dos dias cheios de sol


Há os que gostam de mim vivo. Há aqueles que não se importavam nada de me ver morto. Como satisfazer os dois? Nem viver nem morrer: andar por aí.

Resistir


No outro dia a crise bateu-me à porta. Vou ver o saldo no multibanco e: €17.30. Depois de ver o saldo recebo uma mensagem da Carla a dizer que o Artur Pizarro estava no CCB, nesse dia, para um recital de piano. O bilhete era €8. Meti-me no carro e rumei ao CCB. Comprei bilhete (um dos últimos). O recital foi fantástico.

Eu sei: já devia ter aprendido


Alguns dos maiores erros que cometi na minha vida foram cortes de cabelo. E, como um gajo na verdade nunca aprende, hoje errei outra vez. Sentei-me, disse o que queria, ele pegou na tesoura e no pente, cortou aqui e ali. E quando é que eu soube que estava a cometer o mesmo erro de sempre? Foi quando o vi dar dois passos para trás, olhar-me de soslaio, fechar ligeiramente o olho direito e inclinar a cabeça ora para a direita ora para a esquerda. Só lhe faltou deitar a língua de fora.

Céline


Aqui