Marvin Gaye - Inner City Blues
Pensamento do dia
Discos pedidos (8)
Coisas que se lêem e dizem tanto
Poeta no Supermercado
1.
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
ergeur-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.
Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.
2.
Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz - como um sol.
beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.
Fernando Assis Pacheco, Cuidar dos Vivos (1968), em A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 25-26
A rir a rir...
Fogo Posto - SOS Professores Colocados
ainda aqui este lugar - Pedro Afonso
A primeira obra de um autor é quase sempre olhada com a desconfiança própria de uma primeira obra, principalmente se ela é publicada numa pequena editora e está dependente da carolice de amigos e conhecidos para ser divulgada. O mesmo já não acontece quando ela é publicada numa editora de renome (como se costuma dizer), apesar de depender, à mesma, da carolice de amigos e conhecidos para ser divulgada. Mas ela também é olhada com desconfiança pelo autor que, mais tarde, depois de fama e proveitos alcançados, renunciará esses versos da juventude, esses versos iniciáticos, que em nada envergonham o autor, mas que fica sempre bem recusar. Na primeira obra de um autor está sempre presente a vontade de encontrar uma voz e de afirmar essa mesma voz. A voz do autor chega a ser a pior inimiga do autor. Explico: numa primeira obra é impossível encontrar a voz do autor. O que encontramos são vozes que o autor adoptou como sua própria voz. Duvido até que seja possível um autor encontrar a sua própria voz. Assim, dizer que neste livro de estreia de Pedro Afonso existe uma voz única seria ir contra aquilo que disse anteriormente. Contudo, dizer que ela não existe, também. Em vez de voz falemos de indícios, de pistas, que nos ajudarão a melhor entender o percurso poético que Pedro Afonso decidiu trilhar neste seu primeiro trabalho.Podemos dizer que estamos na presença de uma poesia que não nega a realidade, mas que também não se submete a ela, pois, afinal, o que é a realidade? Uma poesia que parte de dentro para fora e não o contrário: «a espera é uma esquina/aflita sempre em fuga/e o homem/um gesto incapaz/sem sombra/que procura um chão» (p. 17). Mas podemos falar de expressionismo?
Se considerarmos que o expressionismo se caracteriza pela subjectividade do autor, pelo uso de metáforas e imagens desconcertantes, onde o estilo é simbólico, abstracto, sem dúvida estamos na presença de uma poesia de carácter expressionista, pois é nítida a manifestação externa de uma necessidade interna: «só acredito nestes amanheceres/prateados em que me diluis/com a tua boca/e uma voz escorre morna ao acordar/são ficções de pólen/que se soltam/por entre as pedras frias/dos chãos dos dias» (p. 23) Contudo, até que ponto essa necessidade interna não foi fruto do exterior, de tudo aquilo que rodeia o autor. O autor (e agora refiro-me ao autor no sentido lato), e ao contrário daquilo que muitos pensam, está sujeito aos elementos. E Pedro Afonso está sujeito aos elementos. Água, terra, fogo e água estão bem presentes na sua poesia: «já só a sombra daquele fogo/na distância que se adensa» (p.9), «ela nunca mostra a carne/cobre-se de uma agilidade de vento» (p.11), «um pão que arde na noite» (p. 24), «o ritual principia/os gestos surgem nas paredes/o fogo é um pulmão/crescente que nos viaja» (p. 26), para não referir outros tantos exemplos.
No entanto, há na poesia de Pedro Afonso uma linguagem, por vezes, abusivamente metafórica e adjectivada, que pode cansar alguns leitores, como também a opção de não deixar respirar alguns versos, o que, muitas vezes, dificulta a leitura: «boca ardente à terra seca/os lanhos grossos da árvore mãe/boca rasgada de gritar espesso/aos joelhos gastos de magros festins e rijos ossos/os bichos as águas podres e alimentícias/os sons surdos que vibras no estômago ácido que nos guia/sempre as paredes aconchegando-nos ao desespero/raspar raspar as costas onde as raízes/o brilho mineral que nem chorar/cristaliza lamina os olhos ao desespero» (p.63).
Pedro Afonso
, ainda aqui este lugar, Tavira: 4Águas, 1ª edição, 2008, 74 pp.Paul Newman: 1925-2008
Pensamento do dia
White Lies - Unfinished Business
Vernáculo
Afinal, o que é uma casa? (2)
Sim, é lixado estar longe de casa.
Belém com a ponte ao longe
Cascais
Carta aberta à Senhora Ministra da Educação
A senhora não me conhece, mas sou um dos muitos professores deste país, com a particularidade de ser professor contratado, o que faz de mim – perdoe-me o português – pau para toda a obra.
Em oito anos de serviço (este ano lectivo é o meu oitavo) foram oito as escolas que conheci, oito as vilas ou cidades por onde passei. Ministros da Educação foram vários: Júlio Domingos Pedrosa da Luz de Jesus (3 de Julho de 2001 a 6 de Abril de 2002), José David Gomes Justino (6 de Abril de 2002 a 17 de Julho de 2004), Maria do Carmo Félix da Costa Seabra (17 de Julho de 2004 a 12 de Março de 2005) – penso que esta senhora é aquela que ficou entre os 100 portugueses mais importantes de todos os tempos, não sei bem como – e agora Vossa Excelência.
Escrevo-lhe esta carta por uma única, egoísta e simples razão.
Ontem, enquanto carregava a mala do carro com tudo aquilo que me é essencial, pensei: o que pensaria a Senhora Ministra se, de um dia para o outro, lhe dissessem que o seu Ministério passava a ter sede em Moura, por exemplo, e que tinha que se apresentar no dia seguinte ao serviço? o que pensaria a Senhora Ministra se lhe dissessem que deixaria de ser Ministra da Educação e perderia qualquer hipótese de algum dia voltar a ser, se recusasse ir? o que pensaria se deixasse a sua casa, a sua família, os seus amigos? o que pensaria se lhe dissessem que não ia usufruir de qualquer tipo de ajudas de custo para as viagens e que a renda da casa era paga do seu próprio bolso? o que pensaria se lhe dissessem que para ser Ministra da Educação tinha que se submeter a três exames (cada um deles de carácter eliminatório)? o que pensaria se fosse avaliada de um modo injusto, com numerus clausus que lhe impedissem a progressão na carreira? (eu sei que esta última pergunta não faz grande sentido no seu caso, pois: o que há para lá de Ministra da Educação? Ministra da Presidência? da Administração Interna? ou apenas o regresso ao ISCTE?)
Não quero com isto dizer que a Senhora Ministra me pague as viagens ou a renda de casa ou que elimine todas as injustiças que ainda existem nesta profissão. Eu sei que o país está à rasca (mas, sinceramente, mais à rasca estou eu), que o défice é terrível e que os Senhores do Governo estão a fazer tudo e mais alguma coisa para inverterem a situação. Eu agradeço a preocupação e espero que tudo corra pelo melhor. Eu sei que a Senhora Ministra tem que pensar nos números que vai apresentar à OCDE. Eu sei que o Senhor Primeiro-Ministro depende muito de si para mostrar que o país é um país evoluído.
Por isso, Senhora Ministra, desejo-lhe a si o dobro daquilo que a Senhora Ministra deseja para mim e para todos os meus colegas.
Com os melhores cumprimentos,
Pensamento do dia
Tool - Parabola
Só me apetece dizer um palavrão!
- O quê? Mas eu não activei nada!
- Mas está activado.
- Estou-lhe a dizer que não activei. Quanto é que me descontam por cada mensagem recebida?
- 2 euros.
- O quê? 2 euros!
depois deram um número para o qual devia ligar para cancelar, pois a TMN não protege os seus clientes de situações destas, tendo em conta que qualquer pessoa pode activar o serviço em nome de outra. Lá liguei e cancelei. No entanto, o cancelamento só é efectivo ao fim de 24h, o que pode significar que nas próximas 24h posso receber mais publicidade. Um conselho: fiquem atentos.
Bah!
1º Grandioso Encontro De Pastelaria Marginal Portuguesa
Miséria
Duas tentativas de poesia. Dois poemas postados e apagados. A miséria total.
Pensamento do dia
Gary Newman - Cars
Lí por aí
«reatar namoro com ex-namorada é como querer recuperar o gás da coca-cola.»
João Gaspar, em Last Breath
Bugio
1 ano
O fenda no caso fez, no passado dia 11 de Setemobro, 1 ano.
Da poesia (10)
Afinal, o que é uma casa?
Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?
Obrigado a todos...
Estoril (2)
Estoril
A Questão dos Livros Escolares
O produto que faltava!

Assim, atento ao mercado, Américo Rodrigues decidiu criar o produto farmacêutico “auto-estima-te!”. Trata-se de um composto que inclui ar da Guarda e se administra através de um conta gotas. Portanto, gotas pela auto-estima. Será a nossa salvação enquanto terra e gente.
Na sessão de lançamento, para além do autor, usarão da palavra um médico de família (Vasco Queirós) e um psiquiatra (Pissarra da Costa).
Tiragem muito limitada, pois isto da auto-estima também não convém que se banalize (ora essa!).
Lí por aí
Rui Bebiano, em A Terceira Noite
Haverá uma explicação freudiana para isto?
Se agora alguém me oferecesse pipocas, eu ia com ela até ao fim do mundo.
Esperemos que sim
Mister Mouse ou A Metafísca do Terreiro - Philippe Delerm
Como o título indica Mister Mouse é um rato. Mas não é um rato como outro rato qualquer. Mister Mouse aprecia as pequenas e insignificantes coisas da vida: o sabor da cerveja, o conforto de um velho cadeirão, a sesta (apesar da sua natureza perversa), a preguiça, o fumar cachimbo, o doce prazer de nada fazer. Mister Mouse sou eu, como também és tu, como pode, sem qualquer problema, ser ele.
O livro está dividido em pequenos capítulos, com títulos tão fantásticos como: «Onde se vê que o nosso herói se espalha por vezes numa demagogia um pouco vã» ou «Onde a temperança e a volúpia mostram que sabem multiplicar-se para abolir o tempo». Muitos dos capítulos assemelham-se a pequenos contos independentes uns dos outros, mas com um fio condutor sempre presente e que conferem unidade ao conjunto.
A escrita de Philippe Delerm é leve, simples. No entanto, não se deve confundir essa leveza e essa simplicidade com uma escrita fácil e pouco interessante, onde poderão ser recorrentes banalidades tão em moda nos tempos que correm. Ao contrário de outros, Philippe Delerm não perde tempo com coisas que não merecem o tempo que se perde com elas. Aquilo que o autor nos oferece neste livro é uma pequena reflexão sobre a vida: nos tempos que correm ela é vivida rapidamente, sem prestarmos atenção às pequenas coisas, aquelas que realmente fazem a diferença. O autor explora esse outro lado: a beleza e o prazer das coisas simples.
Este livro poderá ser uma fábula dos tempos modernos, uma espécie de aviso em relação à vida que, muitas vezes, não temos tempo para viver.
Philippe Delerm, Mister Mouse ou A Metafísica do Terreiro, Torres Vedras: Livrododia, 2007, 153 pp. (tradução de Clotilde Simões do original: Mister Mouse ou La Méthaphysique du Terrier, Éditions du Rocher, 1994).
Da poesia (9)
Domingo
«Aos domingos acrescentamos a semana, ao contrário dos outros dias.»
Jorge Fallorca, Fruta da Época, Lisboa: Frenesi, 2001, p. 20.
Do desejo

Gosto de pensar que sou um gajo porreiro. Há, de certeza, quem discorde. Terão, sem dúvida, as suas razões, pois quando quero consigo ser um bom filho-da-mãe. Paciência: um gajo não é perfeito. Gosto da minha família, da minha namorada. Gosto de conviver com os meus amigos, ir beber um copo ou meia dúzia deles. No entanto, tenho uma vontade enorme de ir viver para um local remoto, de preferência na Noruega, e deixar tudo: família, namorada, amigos, toda a gente que conheço. Só não o faço pela simples razão de ser um cobarde. Sim, sou um cobarde. Ou melhor: um cobardola. Sim, cobardola define-me melhor. E pergunto: quem nunca foi um cobardola que levante o braço. Eu admito que sou. Às vezes ajuda-me a lidar com a situação. Outras vezes só piora as coisas. E é nessas alturas que mais vontade tenho de partir. Conseguem imaginar?
Pensamento do dia
David Sylvian - Darkest Dreaming
Da necessidade
Da poesia (8)
Uma boa notícia
A Cavalo de Ferro vai editar Fome, de Knut Hamsun.
Da poesia (7)
Revista Malagueta
Para quem estiver interessado há um texto meu na Revista Malagueta. Pode ser lido aqui.
Pensando melhor...
talvez não seja boa altura para ouvir Nina Simone.
Cuidados a ter com as mãos
Novas oportunidades
"It´s too bad dogs can´t go to heaven," said Frank.
"Why can´t they?"
"You gotta be baptize to go to heaven."
"We ought to baptize him."
"Think we should?"
"He deserves a chance to go to heaven."
I picked him up and we walked into the church. We took him to the bowl of holy water and I held him there as Frank sprinkled the water on his forehead.
"I hereby baptize you," said Frank.
We took him outside and put him back on the sidewalk again.
"He even looks different," I said.










