Discos pedidos (8)



Falar dos A Certain Ratio é ter consciência que eles foram uma espécie de parente pobre de todo um movimento criado por Tony Wilson em torno da sua editora: a Factory. Não podemos esquecer que na Factory existiam nomes como Joy Division e Durutti Column. Os A Certain Ratio sempre estiveram à sombra dos primeiros. Existem semelhanças que são evidentes: o nome do grupo fora retirado da letra de uma canção de Brian Eno, que por sua vez fazia referência a um discurso de Adolf Hitler e a voz do vocalista é bastante semelhante à de Ian Curtis. Por outras palavras: os Joy Division eram algo de genuíno – um grupo de jovens que tinha afinidades entre eles e precisavam de tocar pela simples razão de não terem outra alternativa; os A Certain Ratio eram algo criado e pensado por uma pessoa – Tony Wilson – para, supostamente, contrabalançarem com os Joy Division: apresentavam-se em palco todos vestidos de igual, uma espécie de uniforme que fazia lembrar a Juventude Hitleriana e até os cortes de cabelo foram pensados para passar uma mensagem de uniformidade. Concluindo: os A Certain Ratio eram o elemento mais artie da Factory. E depois há a sonoridade. A sonoridade dos A Certain Ratio nunca foi a sonoridade da Factory dos inícios dos anos oitenta, embora tivessem lançado a semente para, por exemplo, uns New Order ou Happy Mondays. Enquanto os Joy Divison faziam música para se ouvir e ser pensada, os A Certain Ratio faziam música para ser dançada: veja-se a título de exemplo temas como “Do the Du”, “Blown Away” ou “The Fox”, para não falar em “Si Fermir o Grido”, que revela de uma forma bastante clara a influência que o latin jazz teve no grupo, ou “Skipscada”. De outra maneira não podia ser. Os elementos dos A Certain Ratio vinham de todos os quadrantes da música, desde o jazz ao funk, passando pelo rock progressivo, a música electrónica e experimental. Os A Certain Ratio combinavam todas estas influências de um modo perfeito: o termo fusão assenta-lhes que nem uma luva. Contudo, os A Certain Ratio não fizeram músicas só para ser dançadas. Também havia Manchester presente nas suas músicas. Temas como “Faceless”, “Flight”, “Choir” e “All night party”, entre outras, revelam o lado mais factoriano do grupo: «I drink all night/my life is only a hungry word».

Coisas que se lêem e dizem tanto


Poeta no Supermercado

1.

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
ergeur-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.


2.

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.


Fernando Assis Pacheco, Cuidar dos Vivos (1968), em A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 25-26

ainda aqui este lugar - Pedro Afonso

A primeira obra de um autor é quase sempre olhada com a desconfiança própria de uma primeira obra, principalmente se ela é publicada numa pequena editora e está dependente da carolice de amigos e conhecidos para ser divulgada. O mesmo já não acontece quando ela é publicada numa editora de renome (como se costuma dizer), apesar de depender, à mesma, da carolice de amigos e conhecidos para ser divulgada. Mas ela também é olhada com desconfiança pelo autor que, mais tarde, depois de fama e proveitos alcançados, renunciará esses versos da juventude, esses versos iniciáticos, que em nada envergonham o autor, mas que fica sempre bem recusar. Na primeira obra de um autor está sempre presente a vontade de encontrar uma voz e de afirmar essa mesma voz. A voz do autor chega a ser a pior inimiga do autor. Explico: numa primeira obra é impossível encontrar a voz do autor. O que encontramos são vozes que o autor adoptou como sua própria voz. Duvido até que seja possível um autor encontrar a sua própria voz. Assim, dizer que neste livro de estreia de Pedro Afonso existe uma voz única seria ir contra aquilo que disse anteriormente. Contudo, dizer que ela não existe, também. Em vez de voz falemos de indícios, de pistas, que nos ajudarão a melhor entender o percurso poético que Pedro Afonso decidiu trilhar neste seu primeiro trabalho.

Podemos dizer que estamos na presença de uma poesia que não nega a realidade, mas que também não se submete a ela, pois, afinal, o que é a realidade? Uma poesia que parte de dentro para fora e não o contrário: «a espera é uma esquina/aflita sempre em fuga/e o homem/um gesto incapaz/sem sombra/que procura um chão» (p. 17). Mas podemos falar de expressionismo?

Se considerarmos que o expressionismo se caracteriza pela subjectividade do autor, pelo uso de metáforas e imagens desconcertantes, onde o estilo é simbólico, abstracto, sem dúvida estamos na presença de uma poesia de carácter expressionista, pois é nítida a manifestação externa de uma necessidade interna: «só acredito nestes amanheceres/prateados em que me diluis/com a tua boca/e uma voz escorre morna ao acordar/são ficções de pólen/que se soltam/por entre as pedras frias/dos chãos dos dias» (p. 23) Contudo, até que ponto essa necessidade interna não foi fruto do exterior, de tudo aquilo que rodeia o autor. O autor (e agora refiro-me ao autor no sentido lato), e ao contrário daquilo que muitos pensam, está sujeito aos elementos. E Pedro Afonso está sujeito aos elementos. Água, terra, fogo e água estão bem presentes na sua poesia: «já só a sombra daquele fogo/na distância que se adensa» (p.9), «ela nunca mostra a carne/cobre-se de uma agilidade de vento» (p.11), «um pão que arde na noite» (p. 24), «o ritual principia/os gestos surgem nas paredes/o fogo é um pulmão/crescente que nos viaja» (p. 26), para não referir outros tantos exemplos.

No entanto, há na poesia de Pedro Afonso uma linguagem, por vezes, abusivamente metafórica e adjectivada, que pode cansar alguns leitores, como também a opção de não deixar respirar alguns versos, o que, muitas vezes, dificulta a leitura: «boca ardente à terra seca/os lanhos grossos da árvore mãe/boca rasgada de gritar espesso/aos joelhos gastos de magros festins e rijos ossos/os bichos as águas podres e alimentícias/os sons surdos que vibras no estômago ácido que nos guia/sempre as paredes aconchegando-nos ao desespero/raspar raspar as costas onde as raízes/o brilho mineral que nem chorar/cristaliza lamina os olhos ao desespero» (p.63).

Pedro Afonso, ainda aqui este lugar, Tavira: 4Águas, 1ª edição, 2008, 74 pp.

Paul Newman: 1925-2008



A Carla considera-o o mais bonito dos homens. Às vezes tenho ciúmes da maneira como ela fala dele. Lembro-me dele em alguns dos filmes que mais marcaram a minha infância. Sempre ouvi dizer que era um homem bom. Fica em paz, Paul.

Pensamento do dia



White Lies - Unfinished Business

Vernáculo


Hoje de manhã o trânsito estava fodido. Foi o dia mais fodido que apanhei até agora e depois ainda houve um cabrão de um gajo atrás de mim que me buzinou e mandou avançar sem eu ter para onde avançar. A primeira coisa que aprendi, quando vim pela segunda vez cá abaixo pois na primeira só tinha seis anos e foi mais Jardim Zoológico e Aquário Vasco da Gama e andar de eléctrico e metro e andar naqueles autocarro com dois andares e andar nas escada rolantes da estação do Rossio, foi que a primeira coisa que vem depois de um semáforo passar a verde é a buzina do gajo que está atrás de nós. Mas nesta situação nem semáforo havia. O que me apeteceu mesmo foi sair do carro e perguntar ao gajo se queria alguma coisa, tipo Michael Douglas no filme “Um dia de fúria”, que foi o melhor filme que vim em que o Michael Douglas entra, e partir o carro ao gajo. Mas depois lembrei-me que ainda atrasava mais o trânsito e segui em frente. Nem um pirete lhe fiz. Segui apenas em frente.

Afinal, o que é uma casa? (2)


Sim, é lixado estar longe de casa.

Belém com a ponte ao longe


Ontem, no final do lançamento do livro Santa Cruz, fomos até um bar muito simpático lá para os lados de Belém. O bar (que o Luís Filipe Cristóvão caracterizou, e bem, como um tipo de construção à Costa da Caparica mas com um toque a Belém) tem uma pequena esplanada sobre o rio, e como a noite estava muito agradável ainda nos aguentámos lá durante uma hora. A conversa estava boa: um pouco de literatura – aquele artigo do Y foi tema de conversa –, projectos futuros, entre outras coisas. Se o Luís não tivesse o compromisso de estar hoje em Beja (boa viagem, rapaz!) ou eu trabalhar e a Golgona (sim, era a terceira pessoa que estava connosco) idem, a conversa teria sido mais longa. Mas soube bem na mesma.

Hoje





Lançamento do livro SANTA CRUZ

Ed. Livrododia

Fotografias de Ozias Filho

Poesia de Luís Filipe Cristóvão

Dia 24 de Setembro de 2008,

Quarta, às 21h

Casa da América Latina

Av. 24 de Julho, 118 B - Lisboa

Cascais



Todos os anos, por esta altura, tenho que apresentar na escola onde fico colocado uma série de documentos obrigatórios: certificado de habilitações (não se entende tal coisa, pois se estou colocado numa escola é pelo simples facto de todos os dados por mim fornecidos terem já sido validados por uma escola, e isto inclui o certificado de habilitações), atestado médico comprovando a minha robustez física e psíquica (este ano foi mais difícil convencer o médico em relação a esta última, e a minha sorte é que ele não lê aqui o pasquim) e um Certificado de Registo Criminal (algo que deixo de apresentar assim que entre para o quadro). Assim sendo, e a pretexto de ir levantar um Certificado de Registo Criminal, dirigi-me ao Posto de Atendimento ao Cidadão, instalado na Câmara Municipal de Cascais. Cascais é uma terra bonita, que já conhecia do tempo em que estive colocado em Caxias. É claro que nunca frequentei o Albatroz e ainda não fui comer um gelado ao Santini. Mas hoje entrei na Galileu. Primeira impressão: desilusão. Sinceramente estava à espera de mais (e não me refiro a encontrar Herberto Helder ou António Lobo Antunes). O atendimento foi igual àquele que encontro numa Bertrand ou Fnac. E embora procurasse um livro específico (A Noite e o Riso, de Nuno Bragança), pouco ou nada foi feito para ajudar-me a encontrá-lo (uma senhora ainda desceu à cave, mas foi tão rápida que duvido que tenha procurado alguma coisa). É claro que estava um dia lindo, com um sol fantástico. Por isso decidi ir até à praia ver os corpos que por lá douravam ao sol. Ao menos essa, a praia, não me desiludiu.

Carta aberta à Senhora Ministra da Educação


Excelentíssima Senhora Ministra da Educação:

A senhora não me conhece, mas sou um dos muitos professores deste país, com a particularidade de ser professor contratado, o que faz de mim – perdoe-me o português – pau para toda a obra.

Em oito anos de serviço (este ano lectivo é o meu oitavo) foram oito as escolas que conheci, oito as vilas ou cidades por onde passei. Ministros da Educação foram vários: Júlio Domingos Pedrosa da Luz de Jesus (3 de Julho de 2001 a 6 de Abril de 2002), José David Gomes Justino (6 de Abril de 2002 a 17 de Julho de 2004), Maria do Carmo Félix da Costa Seabra (17 de Julho de 2004 a 12 de Março de 2005) – penso que esta senhora é aquela que ficou entre os 100 portugueses mais importantes de todos os tempos, não sei bem como – e agora Vossa Excelência.

Escrevo-lhe esta carta por uma única, egoísta e simples razão.

Ontem, enquanto carregava a mala do carro com tudo aquilo que me é essencial, pensei: o que pensaria a Senhora Ministra se, de um dia para o outro, lhe dissessem que o seu Ministério passava a ter sede em Moura, por exemplo, e que tinha que se apresentar no dia seguinte ao serviço? o que pensaria a Senhora Ministra se lhe dissessem que deixaria de ser Ministra da Educação e perderia qualquer hipótese de algum dia voltar a ser, se recusasse ir? o que pensaria se deixasse a sua casa, a sua família, os seus amigos? o que pensaria se lhe dissessem que não ia usufruir de qualquer tipo de ajudas de custo para as viagens e que a renda da casa era paga do seu próprio bolso? o que pensaria se lhe dissessem que para ser Ministra da Educação tinha que se submeter a três exames (cada um deles de carácter eliminatório)? o que pensaria se fosse avaliada de um modo injusto, com numerus clausus que lhe impedissem a progressão na carreira? (eu sei que esta última pergunta não faz grande sentido no seu caso, pois: o que há para lá de Ministra da Educação? Ministra da Presidência? da Administração Interna? ou apenas o regresso ao ISCTE?)

Não quero com isto dizer que a Senhora Ministra me pague as viagens ou a renda de casa ou que elimine todas as injustiças que ainda existem nesta profissão. Eu sei que o país está à rasca (mas, sinceramente, mais à rasca estou eu), que o défice é terrível e que os Senhores do Governo estão a fazer tudo e mais alguma coisa para inverterem a situação. Eu agradeço a preocupação e espero que tudo corra pelo melhor. Eu sei que a Senhora Ministra tem que pensar nos números que vai apresentar à OCDE. Eu sei que o Senhor Primeiro-Ministro depende muito de si para mostrar que o país é um país evoluído.

Por isso, Senhora Ministra, desejo-lhe a si o dobro daquilo que a Senhora Ministra deseja para mim e para todos os meus colegas.

Com os melhores cumprimentos,
manuel a. domingos

Pensamento do dia



Tool - Parabola

Só me apetece dizer um palavrão!


Não sei por que razão comecei a receber publicidade no telemóvel. Nunca liguei à coisa, até que comecei a ver que o saldo diminuía a olhos vistos (em 15 dias 25 euros, e eu sem fazer grandes telefonemas nem mandar SMS). Liguei para o apoio TMN e dizem-me do outro lado que tenho uma treta qualquer activada para receber a dita publicidade
- O quê? Mas eu não activei nada!
- Mas está activado.
- Estou-lhe a dizer que não activei. Quanto é que me descontam por cada mensagem recebida?
- 2 euros.
- O quê? 2 euros!
depois deram um número para o qual devia ligar para cancelar, pois a TMN não protege os seus clientes de situações destas, tendo em conta que qualquer pessoa pode activar o serviço em nome de outra. Lá liguei e cancelei. No entanto, o cancelamento só é efectivo ao fim de 24h, o que pode significar que nas próximas 24h posso receber mais publicidade. Um conselho: fiquem atentos.

Bah!


Olho pela janela e vejo um conjunto de postes de alta tensão e telhados de casas dispersos na paisagem. É a esta hora do dia que costumo pensar naquilo que é a vida. Pouco importa agora o que penso sobre o assunto e não precisam de agradecer pelo facto de não vos aborrecer com isso. Não sou pessoa habituada a agradecimentos, pois também não faço nada para os ter: não dou esmola, não ajudo velhinhas a atravessar a passadeira nem cedo a passagem a peões quando vou de carro, não dou pancadinhas nas costas, não faço nada disto. Nada. Aborrece-me ser bonzinho só pelo facto de parecer bem ser bonzinho. Tento ser honesto. E, basicamente, lixo-me.

1º Grandioso Encontro De Pastelaria Marginal Portuguesa



Miséria


Duas tentativas de poesia. Dois poemas postados e apagados. A miséria total.

Pensamento do dia

Gary Newman - Cars

Lí por aí


«reatar namoro com ex-namorada é como querer recuperar o gás da coca-cola.»


João Gaspar, em Last Breath

Bugio




Hoje à tarde, depois do fim das aulas, fui até S. Julião ver o Bugio. Quando estive em Caxias, durante o ano lectivo de 2005-2006, via o Bugio todos os dias da janela da sala da casa onde então vivia. Gostava de tomar o pequeno-almoço na sala e maravilhar-me com a paisagem que me era oferecida. Foram dias bons.

1 ano


O fenda no caso fez, no passado dia 11 de Setemobro, 1 ano.

Sim, é verdade!



Da poesia (10)


Por vezes há um cão que vem até à porta da minha casa. Habituou-se aos restos que lhe dou. Hoje apareceu como sempre faz, pontualmente. Eu estava com um livro de poesia na mão e perguntei-lhe se queria ouvir um pouco de poesia. Mas num instante me virou as costas e foi embora.

publicado aqui

Afinal, o que é uma casa?


Não. Não é fácil uma pessoa adaptar-se a uma nova casa. Eu sei que não vais estar aqui a enumerar razões e depois há sempre aquela primeira noite mal dormida, pois a cama onde estás deitado afinal não é a tua cama. O que salva a situação ainda são os lençóis que trouxeste de casa. Sempre dão um certo conforto, junto com o edredão. Mas há o avião que passa e que tu não estás habituado a ouvir. Ou a ambulância. Ou os passos pela casa que não são os teus passos pela casa. E depois o trânsito de manhã. É que uma casa não é só as quatro paredes que encerram a sala, a cozinha, o quarto, a casa de banho. Uma casa também é tudo o resto: tudo aquilo que está lá fora.

Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?


Resposta: há!
Exemplo: «O teu sorriso mata-me.» (escrito por uma aluna de 11 anos, no 5º ano, e entregue a um colega de turma).

Obrigado a todos...


Aqueles que deixaram comentários nos dois posts anteriores e também todos aqueles que me enviaram contactos de casas. Muito obrigado!

Estoril (2)



Como aquilo que aqui escrevo não interessa a ninguém pois a vida desinteressante de alguém nunca interessa aos outros, devo dizer que o carro já está quase cheio. Só falta a mala com a roupa.

Estoril



Saíram as primeiras colocações cíclicas. E este vosso escriba parte amanhã rumo ao Estoril. Se conhecerem alguém que tenha disponível um quarto com serventia de cozinha e casa-de-banho, dividindo as despesas mensais, têm ali no perfil o meu e-mail. Fica também o convite para um café um dia destes. Pago eu.

A Questão dos Livros Escolares


Depois de Rui Bebiano ter falado de imoralidade, Luís Filipe Cristóvão fala, também, sobre o assunto. A ler aqui.

O produto que faltava!


Os especialistas (não se sabe bem em quê) dizem que falta “auto-estima” aos guardenses. Que não gostamos da Guarda nem de nós próprios. O problema terá adquirido foros de patologia. Urgia (rugia) resolver a situação e elevar o moral das nossas tropas, salvo seja.

Assim, atento ao mercado, Américo Rodrigues decidiu criar o produto farmacêutico “auto-estima-te!”. Trata-se de um composto que inclui ar da Guarda e se administra através de um conta gotas. Portanto, gotas pela auto-estima. Será a nossa salvação enquanto terra e gente.

Na sessão de lançamento, para além do autor, usarão da palavra um médico de família (Vasco Queirós) e um psiquiatra (Pissarra da Costa).

Tiragem muito limitada, pois isto da auto-estima também não convém que se banalize (ora essa!).

Data -13 de Setembro
Hora - 21.30 horas
Café Concerto do TMG
Lançamento de “Auto-estima-te!”
Actividade séria. Entrada livre. 60 m, maiores de 4.

Lí por aí


«A notícia chegou e partiu como todas as outras, mas deixou um rasto de repulsa que merece ser partilhado. Saber pelos jornais que existe um número impressionante de famílias portuguesas que se estão a endividar pesadamente para comprarem aos filhos manuais escolares necessários para a sua integração - repare-se bem - no ensino escolar obrigatório, e que existem mesmo livrarias que criaram linhas de crédito para esse efeito, é algo que não pode ficar em claro e merece uma atenção muito séria das pessoas comuns. Não quero saber se existem outros «países avançados» que o fazem, ou se isto funciona como uma mola para a sacrossanta «modernização do ensino». Sei apenas que é uma situação imoral e caracterizada pela insensibilidade, a qual, num país marcado ainda por áreas de pobreza endémica e pela debilidade da classe média, deixa uma vez mais cair a responsabilidade social do Estado. E deveria envergonhar, envergonhar a sério, os responsáveis por um governo com o carimbo virtual de «socialista».»

Rui Bebiano, em A Terceira Noite

o amor é um cão do inferno


Um poema de amor a condição

Haverá uma explicação freudiana para isto?


Se agora alguém me oferecesse pipocas, eu ia com ela até ao fim do mundo.

Esperemos que sim


«O site PNETliteratura é um espaço vivo e plural de diálogo com a realidade literária em língua portuguesa. Há três aspectos que sobressaem na actualização diária do novo site: a dimensão crítica, a publicação de inéditos e um acompanhamento permanente da vida literária.»

Mister Mouse ou A Metafísca do Terreiro - Philippe Delerm


Philippe Delerm (1950) talvez não seja um autor muito conhecido entre nós, apesar de estar incluído no Plano Nacional de Leitura e ter alguns livros publicados em Portugal, como por exemplo este Mister Mouse ou A Metafísica do Terreiro, editado pela Livrododia em 2007. É claro que pouca gente reparou nesta pequena pérola. Sim, Mister Mouse é uma pequena pérola.

Como o título indica Mister Mouse é um rato. Mas não é um rato como outro rato qualquer. Mister Mouse aprecia as pequenas e insignificantes coisas da vida: o sabor da cerveja, o conforto de um velho cadeirão, a sesta (apesar da sua natureza perversa), a preguiça, o fumar cachimbo, o doce prazer de nada fazer. Mister Mouse sou eu, como também és tu, como pode, sem qualquer problema, ser ele.

O livro está dividido em pequenos capítulos, com títulos tão fantásticos como: «Onde se vê que o nosso herói se espalha por vezes numa demagogia um pouco vã» ou «Onde a temperança e a volúpia mostram que sabem multiplicar-se para abolir o tempo». Muitos dos capítulos assemelham-se a pequenos contos independentes uns dos outros, mas com um fio condutor sempre presente e que conferem unidade ao conjunto.

A escrita de Philippe Delerm é leve, simples. No entanto, não se deve confundir essa leveza e essa simplicidade com uma escrita fácil e pouco interessante, onde poderão ser recorrentes banalidades tão em moda nos tempos que correm. Ao contrário de outros, Philippe Delerm não perde tempo com coisas que não merecem o tempo que se perde com elas. Aquilo que o autor nos oferece neste livro é uma pequena reflexão sobre a vida: nos tempos que correm ela é vivida rapidamente, sem prestarmos atenção às pequenas coisas, aquelas que realmente fazem a diferença. O autor explora esse outro lado: a beleza e o prazer das coisas simples.

Este livro poderá ser uma fábula dos tempos modernos, uma espécie de aviso em relação à vida que, muitas vezes, não temos tempo para viver.


Philippe Delerm, Mister Mouse ou A Metafísica do Terreiro, Torres Vedras: Livrododia, 2007, 153 pp. (tradução de Clotilde Simões do original: Mister Mouse ou La Méthaphysique du Terrier, Éditions du Rocher, 1994).

Da poesia (9)


Imaginemos que o verdadeiro e único objectivo da poesia é comunicar. Ora muito ficaria por dizer, dirão alguns. Ou: tudo ficaria dito, dirão outros. Assim sendo, imaginemos antes que o verdadeiro e único objectivo da poesia é não ter qualquer verdadeiro e único objectivo. Digo isto pela simples razão de acreditar (e reitero mais uma vez) que a poesia é: «Não é útil, nem inútil. É.» (Henrique Fialho) Mas, questionemos: será possível atribuir objectivos à poesia? Terá, de facto, a poesia um objectivo? Acredito que não, pois penso que atribuir um objectivo (ou objectivos) à poesia é/será reduzi-la a algo que ela não é. Uma coisa é certa (embora nada em poesia o seja): a poesia é tudo aquilo que é, menos aquilo que querem que ela seja.

Domingo


«Aos domingos acrescentamos a semana, ao contrário dos outros dias.»

Jorge Fallorca, Fruta da Época, Lisboa: Frenesi, 2001, p. 20.

Do desejo




Gosto de pensar que sou um gajo porreiro. Há, de certeza, quem discorde. Terão, sem dúvida, as suas razões, pois quando quero consigo ser um bom filho-da-mãe. Paciência: um gajo não é perfeito. Gosto da minha família, da minha namorada. Gosto de conviver com os meus amigos, ir beber um copo ou meia dúzia deles. No entanto, tenho uma vontade enorme de ir viver para um local remoto, de preferência na Noruega, e deixar tudo: família, namorada, amigos, toda a gente que conheço. Só não o faço pela simples razão de ser um cobarde. Sim, sou um cobarde. Ou melhor: um cobardola. Sim, cobardola define-me melhor. E pergunto: quem nunca foi um cobardola que levante o braço. Eu admito que sou. Às vezes ajuda-me a lidar com a situação. Outras vezes só piora as coisas. E é nessas alturas que mais vontade tenho de partir. Conseguem imaginar?




Da necessidade


Às vezes tenho necessidade de livros. De estar rodeado de livros, livros e mais livros. Nesses dias vou até uma livraria e respiro fundo. Fico melhor. Hoje vim até uma biblioteca. O cheiro das bibliotecas é diferente. Não me agrada tanto, para ser sincero. Prefiro o cheiro a livros novos, intactos. Aqui mete-se pelo meio os outros. Não me sinto confortável com isso. Mas ainda tenho mais dez minutos de net. Por isso vou ficar mais um pouco.

Da poesia (8)


A sacralização da poesia, por parte de alguns pensadores, é a principal responsável pelo afastamento dos leitores. Dessacralizar a poesia é fundamental. Dessacralizar o poeta também. O poeta não é um super-homem, nem é alguém que comunica com os deuses. Ele é apenas humano. Como ser humano que é incorre em erros. E um desses erros talvez seja dedicar-se à poesia.

Uma boa notícia


A Cavalo de Ferro vai editar Fome, de Knut Hamsun.

Da poesia (7)


É claro que ao defender isto eu poderei cair naquilo que alguns chamam de banalização da poesia. Sempre considerei este termo infeliz, pois ele deriva duma mentalidade que ainda acredita na sacralização e divinização da poesia, estando esta apenas acessível a alguns. Nada é mais errado. A poesia ao ser está acessível a todos. Não é necessário conhecer uma qualquer ciência oculta para a poder decifrar, pois todas as tentativas para decifrar a poesia são, quanto a mim, inúteis: a poesia nunca foi, nem é, indecifrável. Ela apenas é.

Revista Malagueta


Para quem estiver interessado há um texto meu na Revista Malagueta. Pode ser lido aqui.

Pensando melhor...


talvez não seja boa altura para ouvir Nina Simone.

Cuidados a ter com as mãos


As palmas das minhas mãos estão com a pele toda estalada. É costume dizer que é “figadeira”. Para mim é falta de Neutrogena. E como tal ontem o jantar foi um bife grelhado com queijo da serra, fiambre, com um ovo estrelado a cavalo (vulgo “bife à casa”), regado por alguns copos de vinho tinto (os últimos sabiam à rolha). A companhia era boa, a conversa foi boa. E ainda houve tempo para jogar umas partidas de matraquilhos.

Novas oportunidades


"It´s too bad dogs can´t go to heaven," said Frank.
"Why can´t they?"
"You gotta be baptize to go to heaven."
"We ought to baptize him."
"Think we should?"
"He deserves a chance to go to heaven."
I picked him up and we walked into the church. We took him to the bowl of holy water and I held him there as Frank sprinkled the water on his forehead.
"I hereby baptize you," said Frank.
We took him outside and put him back on the sidewalk again.
"He even looks different," I said.

Charles Bukowski, Ham on Rye, Ecco: New York, 2002, p. 72.

Inscrito


Afinal a senhora que me atende todos os anos no Centro de Emprego não me falou do filho. Se calhar as coisas também não estão boas para o lado dele.