Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos


1. Pelos vistos as bases disseram não a Santana Lopes. E não foi um não qualquer: foi um não que deixou Santana Lopes em 3º lugar. Santana Lopes diz que vai reflectir e continuar a lutar pelo seu projecto, que acredita ser o melhor para Portugal. Ora se as bases do seu próprio partido não acreditam nesse projecto (tendo em conta os resultados de hoje), Santana Lopes tem muito que reflectir.

2. Pescadores em Matosinhos e em Olhão impedem vendedores de comprar peixe. Em Matosinhos chegaram mesmo a vias de facto e destruíram o peixe existente na lota. A polícia foi obrigada a intervir e um pescador todo escandalizado disse que a polícia abusou da força. Vendo bem os pescadores nem estavam a destruir propriedade alheia. Em Olhão os pescadores passaram revista a todos os carros que saíram da lota, destruindo o peixe que se encontrava na posse dos seus legítimos compradores. Neste caso a polícia não apareceu. Que fique claro que já fiz greve e que continuarei a fazer caso considere necessário. No entanto, uma coisa é fazer greve e outra é impedir quem quer trabalhar de o fazer. O artigo 4º da Lei da Greve é claro: A associação sindical ou a comissão de greve podem organizar piquetes para desenvolver actividades tendentes a persuadir os trabalhadores a aderirem à greve, por meios pacíficos, sem prejuízo do reconhecimento da liberdade de trabalho dos não aderentes. Será que ninguém explicou isto aos pescadores? Ou voltamos a 75?

O Boicote

Duvido que algo vá mudar. Uma das petrolíferas, num acto ridículo, baixou ontem os preços em 1 cêntimo. Como digo: duvido que o boicote mude alguma coisa, principalmente quando alguns postos de abastecimento (como por exemplo o de uma superfície comercial na Benedita) se preparam para baixar os preços em 9 cêntimos durante o dia de domingo.

Algumas questões (2)


Chamar os outros de provincianos é uma forma de provincianismo?

A propósito de bandeiras nas janelas e boicote às gasolineiras

«A bandeira de um país é um helicóptero: é necessário gasolina para manter a bandeira no ar; a bandeira não é de pano mas de metal: abana menos ao vento, frente à natureza.»

Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump, Lisboa: Caminho, 1ª edição, 2003, p. 9.

Versões


Gostaria de descrever

Gostaria de descrever uma emoção simples
como alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
socorrendo-se de restos de chuva ou sol

Gostaria de descrever uma luz
que começa a nascer em mim
mas que sei não se assemelhar
a alguma estrela
pois não é tão brilhante
nem tão pura
e é incerta

Gostaria de descrever coragem
sem arrastar atrás de mim um velho leão
e também ansiedade
sem entornar um copo de água

para dizê-lo de outra maneira
desistiria de todas as metáforas
em troca de uma palavra
retirada do meu peito como uma costela
uma palavra
nascida dentro das fronteiras
da minha pele

mas aparentemente isso não é possível

e só para dizer – amo
eu ando às voltas como um louco
à procura de mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que apesar de tudo não é feita de água
pede água para a cara

e a raiva
diferente do fogo
pede-lhe emprestado
o tom eloquente

está tudo obscuro
está tudo obscuro
em mim
que homem de cabelo grisalho
irá separar de uma vez por todas
dizendo
isto é a essência
e isto é a matéria

adormecemos
com uma mão debaixo das nossas cabeças
e com a outra em inúmeros planetas

os nossos pés abandonam-nos
e entram na terra
com as suas pequenas raízes
que na manhã seguinte
arrancamos com dor


Zbigniew Herbert, «I would like to describe», em The Collected Poems: 1956-1998, Ecco: 2007.
versão de manuel a. domingos

Prémio Nacional Trindade Coelho




Dia 18 de Junho de 2008 na Casa da Cultura de Mogadouro, em Mogadouro (Bragança), será feita a entrega da 2.ª edição do Prémio Nacional Trindade Coelho. O primeiro lugar desta edição coube a Rute Mota com o conjunto de contos intitulado Cardiografias.


A distribuição dos prémios ocorrerá no âmbito da comemoração do centenário da morte de Trindade Coelho que tem no dia 18 a seguinte agenda: 15h - Conferência sobre Trindade Coelho (Prof.ª Dr.ª Maria da Assunção Fernandes Morais Monteiro); 16h30 - Prémio Nacional Trindade Coelho / Distribuição de Prémios; 17h - Abertura da Exposição "Trindade Coelho".


Rute Mota (1980): publicou prosa e poesia no DN Jovem, e contos nas revistas Periférica e Pessoal. Colaborou na antologia poética Poesia no Porto Santo (P.E.N. Clube Português, 2006), com a tradução, a partir do francês, de alguns poemas de Maram al-Masri. É licenciada em Sociologia. Publicou Nenhuma Palavra nos Salva (Livrododia, 2007).

É domingo no mundo


Em dia de chuva acordar tarde
é uma opção entre
outras.

Como por exemplo ficar
abraçado a ti,
ouvir o filho dos vizinhos
gritar pela mãe
vezes sem conta

e decidir que, afinal,
não está um dia tão mau
para sair.

Eu queria encontrar aqui ainda a terra












Fotos de ensaio: Armando Neves


Hoje no Teatro Municipal da Guarda





Estreia a nova peça do Projéc~, desta vez numa produção do TMG para a Câmara Municipal da Guarda e o Centro de Estudos Ibéricos. O quinto trabalho da estrutura de produção teatral do TMG intitula-se Eu queria encontrar aqui ainda a terra, e tem por base os textos de manuel a. domingos e António Godinho sobre os universos de Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço. A peça, para maiores de 12 anos e com encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos de Luciano Amarelo, estreia a 28 de Maio no TMG, ficando em cena no Pequeno Auditório até dia 30 deste mês, com sessões às 21.30 horas.

Da obrigação


Há autores que nos obrigam a ler todos os seus livros. Um desses autores é, para mim, João Miguel Fernandes Jorge. Até agora já li: À beira do mar de Junho (1982), O regresso dos remadores (1982), Tronos e dominações (1985), Terra nostra (1992), O barco vazio (1994). E agora estou a ler Termo de Óbidos (2007). Falta-me ler o resto, que não é pouco.

Profissão? Contribuinte.


Será essa a resposta da próxima vez.

Eu queria encontrar aqui ainda a terra






Eu queria encontrar aqui ainda a terra tem a interpretação de Paulo Calatré e Pedro Frias; encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos de Luciano Amarelo; música original da autoria de César Prata; desenho de luz de Davide da Costa; e tem por base os textos de manuel a. domingos e António Godinho sobre os universos de Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço.

Algumas questões


Ser machista é mau, mas ser feminista é visto como emancipação?

Daniel Cohn-Bendit afinal o que é? “Fez” o Maio de 68 para quê? Para estar onde está hoje?

É impressão minha ou os revoltosos só querem estar no lugar daqueles contra quem se revoltam?

Teaser


Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

Carlos de Oliveira


Fala como se falar fosse andar

Alexandre O’Neill

Bukowski de autocarro


Pois é! Aqui.

Eu queria encontrar aqui ainda a terra



Esta peça não é sobre a Guarda, mas paira sobre ela, sobre a sua memória recente, os seus fantasmas, as suas inquietações e os seus momentos felizes. O olhar é conduzido pelas narrativas cruzadas de duas figuras: Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço. Do encontro entre ambas emergem as reminiscências, os silêncios, as perplexidades, o sentir de uma mesma cidade, enquanto espaço iniciático e onírico. Às referências mencionadas segue-se a sua transgressão, por força do universo pessoal e necessariamente aleatório de cada personagem. Segue-se um segundo momento, mais próximo de um bestiário, onde são convocadas duas gárgulas, que assumem posições antagónicas, reflectindo de forma assertiva um confronto interior que antecede a criação artística. A peça desenvolve-se, numa terceira e última sequência, num cenário de ruptura em relação aos anteriores. A acção decorre no convés de um barco que cruza o oceano. Estão envolvidas duas personagens, que se encontram por acaso (ou talvez não). Ao longo da viagem, percebe-se que representam universos distintos, que precisamente naquele momento se tocam.

Foto: Tiago Rodrigues

Alguém consegue responder?


O Mundo teve o Maio de 68. Portugal o 25 de Abril. E agora? O que temos?

Lí por aí


«E Sr. Presidente Lula: da próxima vez, esqueça o Tó-Jaquim e mande mas é a Gisele Bündchen. Isso sim animaria a malta…»


Sérgio Currais, em Filosofia de Curral

Se hoje estivesse na Guarda não perdia!



Com “No Waves”, o segundo álbum, lançado em 2004, os Micro Audio Waves chegaram ao Festival Sónar e a John Peel, que os colocou na sua lista de melhores do ano na BBC Radio One. Os Quartz Awards (patrocinados pelo jornal Le Monde) elegeram-nos em Paris como melhor álbum e melhor vídeo clip, contra candidatos como Vitalic, Murcof ou The Books. Em 2007 surge o terceiro álbum “Odd Size Baggage” que cruza a electrónica de “laboratório” com canções pop, dub, ritmos dançáveis, drama cibernético e muita música sem nome mas com emoção. Recorde-se que os Micro Audio Waves venceram já este ano o mais cobiçado galardão dos prestigiados Qwartz Electronic Music Awards. O tema "Long Tongue", do seu último disco "Odd Size Baggage", o mesmo trabalho que vão apresentar no TMG a 23 de Maio (Sexta-feira, às 21.30 horas , no Pequeno Auditório), conquistou o primeiro lugar na categoria "Melhor Música".

3 anos de Insónia


O Insónia faz três anos. Quem passa por lá sabe que o Henrique escreve bem, com elegância (desculpa Henrique o adjectivo) e sempre muito bem documentado. Conheço o Henrique pessoalmente. Este post poderia ser um elogio, mas não: é uma evidência. Só quem não lê o Henrique é que pode ficar indiferente àquilo que ele escreve, diz e pensa.

Cristiano Ronaldo é o n.º 7 da Selecção


Entre preparar aulas, dar aulas, corrigir testes, reuniões e mais reuniões, pensar na minha auto-avaliação, para não falar no lidar com alunos cada vez mais insolentes e colegas cada vez mais pessimistas, pouco tempo tenho para mim, para as coisas que me dão realmente prazer. Pensei várias vezes em mudar de vida. Mas no momento da verdade surge a cobardia, o comodismo, o velho ditado «melhores dias virão», e o pensamento recorrente: há alguém numa situação pior que a tua. É verdade: por agora ainda tenho um emprego, um trabalho. Soube ontem que sou o número 416 nas Listas Provisórias do Pessoal Docente Contratado. No ano passado era o 400. Desci 16 lugares. Razão? Bastou no ano lectivo passado não ter horário completo e zás! vim por aí abaixo. Alguns dirão: são só 16 lugares! que mal poderá vir daí? Amigos: 16 lugares pode ser a diferença entre colocado e não-colocado. Entre um horário minimamente decente (isto é: um horário completo ou um horário quase completo) e um mau horário (isto é: um horário que obriga uma pessoa a pagar para trabalhar). Eu sei: há alguém numa situação pior que a minha. Mas, bem vistas as coisas, isso é suposto servir de consolo a alguém?

Cocktail Molotov


Um dia destes, ao preço que está a gasolina, nem cocktails molotov vamos conseguir fazer.

Kim Basinger


Política é coisa que pouco ou nada me interessa. Evito falar de política. E não falo por dois motivos: em primeiro lugar não sou coerente, ora digo uma coisa como logo a seguir digo outra completamente diferente. É como acordar de manhã e ser do PNR, ao almoço ser do PP, ao lanche do PS, ao jantar do BE e ao deitar do PC ou do PCTP/MRPP. Mas nunca sou do PPD/PSD. Não consigo. Quando penso no PPD/PSD lembro-me do Governo de Pedro Santana Lopes e fico todo arrepiado. E depois ainda há a figura sinistra de Aníbal Cavaco Silva. Em segundo lugar, falar de política não me dá prazer. Há pessoal que tem orgasmos múltiplos a falar/discutir política. Ficam todos transpirados, ofegantes. Comigo é o contrário. Se tenho o azar de ouvir alguém discutir política, tenho que ver o Nove Semanas e Meia (pelo menos duas vezes seguidas) para repor os níveis de testosterona.

Assim não há quem resista


Há algum tempo atrás cheguei à conclusão que era altura de consultar um psiquiatra ou psicanalista ou analista ou psicoterapeuta ou algo que me valesse. Cheguei a pedir o contacto de alguns psiquiatras ou psicanalistas ou analistas ou psicoterapeutas. Os números de telefone e as moradas andaram durante algum tempo na minha agenda. Não entrei em contacto com nenhum, principalmente quando soube os preços que praticam. É claro que tenho vindo a enlouquecer.

Escrevo neste tempo que guardei só para mim (2)


Leio cada vez mais e cada vez mais tenho a certeza que não sei escrever. Este é um dos problemas de ler os outros: entramos em contacto directo com a nossa mediocridade. Sim, pensava, até relativamente pouco tempo, que sabia escrever, como pensava que sabia nadar, até ao dia em que um professor de natação me disse que eu sabia era boiar. E tinha toda a razão. Na escrita é a mesma coisa: há os que sabem escrever e aqueles que andam a boiar na escrita, que passam por ela ao de leve sem deixar marca. Sim, todos nós, consciente ou inconscientemente, queremos deixar uma marca, nem que seja muito pequena, mas deixá-la. Todos queremos entrar para a História da Literatura. Isso de escrever para a gaveta é uma grande falácia. Ninguém escreve com a intenção de não mostrar aquilo que escreve. Embora seja, muitas vezes, um exercício onanista, esperamos sempre que alguém nos leia, que alguém diga: isto está fantástico! devias publicar! Mas como isso muitas vezes não acontece, alguém teve a brilhante ideia de inventar os blogs. Enquanto uns publicam aquilo que escrevem em grandes editoras, cujo critério de escolha muitas vezes se resume à cara bonita que vai ficar na contracapa, outros publicam em blogs e esperam que alguém comente, que alguém lhes dê atenção, que alguém lhes diga: isto está fantástico! devias publicar! Ou então: o que escreves é uma merda! quem te disse que sabias escrever? ainda tens que comer muita papa Milupa para escreveres como deve ser! Ignorando que essa pessoa possa preferir Nestum. E tudo isto para dizer o quê? Talvez que preferia nunca ter entrado neste mundo que dizem das letras, onde a maioria dos analfabetos são precisamente aqueles que sabem ler (eu incluído). Mas não há nada a fazer, pois uma vez que se experimenta é como a Coca-Cola de Fernando Pessoa: estranha-se, mas depois entranha-se.

Nota: texto recuperado daqui.

Elo, Entrelinhas & Alucinações




Lançamento do livro "Elo, Entrelinhas & Alucinações", do autor mineiro Daniel Ricardo Barbosa, no próximo dia 21 deMaio, quarta-feira, às 19h, na Casa do Brasil de Lisboa. A apresentação estará a cargo dos responsáveis pela edição transatlântica, VitorVicente e Cristiane Pasquini.

Versões


Lugar

voltei anos depois
talvez mais bem alimentado

queria ver o lugar

os montes eram mais pequenos
e água castanha corria
pelas trincheiras-abrigo

a erva estava na mesma
lembrou a angélica

a falta de memória
era apenas normal
devido a tanto medo
devido a tanta esperança

pássaros voavam
dos ramos mais baixos
para os mais altos

e também eles não podiam
dar-me qualquer confirmação


Zbigniew Herbert, «Place», em The Collected Poems: 1956-1998, New York: Ecco, 2007.

versão de manuel a. domingos

Revista Malagueta n.º 9


Chegar a casa


Naufrágio

Passava horas a fio a navegar na net. Um dia apanhou uma tempestade das sérias e salvou-se por um triz, agarrado ao teclado. Mas o rato foi o primeiro a abandonar o computador.
Augusto Mota, Sujeito Inderterminado, Leiria: Edição de Autor, 2005.

90 minutos


Mais 90 minutos e estou livre. Já cheira a fim-de-semana e vou até Manteigas. Quem estiver amanhã pela Guarda não hesite em passar pelo Café Concerto do TMG. Terei todo o gosto em pagar o café (até um limite de três). Para o Anónimo que continua a enviar comentários (e que eu agora não publico), um bom fim-de-semana e tudo de bom. Sem ressentimentos.

Depois logo digo como foi


Hoje comprei o meu primeiro Julian Barnes: Inglaterra, Inglaterra. Custou-me €3.50. Não sei se fiz bom negócio.

Lí por aí


«O comportamento de algumas pessoas com responsabilidades institucionais em Portugal parece indicar que se perdeu a noção do ridículo e que já vale tudo. Li num jornal que multaram um jogador do Sporting por ter festejado um golo com exuberância. Depois li que o Primeiro Ministro desrespeitou a proibição de fumar num avião. O que é a lei, exactamente, podem explicar-me?»

João Camilo, em nada.niente

Blogosfera e Comunicação



Para esta conversa informal foram convidados autores de blogues e pessoas profissionalmente ligadas às novas tecnologias: António Matias Gil, Director da empresa Dom Digital, António Quinaz, especialista em telecomunicações, manuel a. domingos, autor do blogue meia-noite todo o dia, e Victor Afonso, autor do blogue O homem que sabia demasiado. O público é também convidado a participar nesta conversa. A entrada é livre.

Escrevo neste tempo que guardei só para mim


Não sei se repararam, mas este blogue tem uma inscrição. Está fim da página: «Escrevo porque antes de mim outros também o fizeram» (é uma frase de Vila-Matas que retirei duma entrevista que o autor deu ao JL há algum tempo). Eu escrevo e ponto final. Se aquilo que escrevo tem (ou não) valor literário é outra conversa. E não quero entrar nela. Eu escrevo pois é-me necessário. A minha mãe não escreve: faz renda. Pergunto-lhe porquê e ela diz que lhe é necessário, que precisa da renda para desanuviar, para passar o tempo. Se a minha mãe fosse escritora, talvez um dia escrevesse um poema sobre alguém que faz renda para afastar os fantasmas que a atormentam, para enganar o tempo que passa sem remédio, para criar algo de belo. Não sei. Várias vezes deixei de escrever. Reduzi-me à minha insignificância, vivi uma vida banal, com uma rotina bem definida. Pouco tempo depois dei por mim a escrever sobre essa rotina e como ela me aprisionava. Sim. Escrever é para mim uma necessidade. Muitos dizem que escrever algo de novo é impossível. Atiram-nos com os clássicos à cara, dizendo que tudo aquilo que se escreve agora é apenas uma repetição daquilo que já foi escrito antes. Não vou ser eu a discordar. Em primeiro lugar: não tenho argumentos válidos. Em segundo lugar: não quero percorrer esse caminho, pois sei onde vai dar. Mas uma coisa sei: não é esse facto que me vai impedir de continuar a escrever. Bem ou mal vou continuar. Não vou desistir. Desisti de muita coisa durante estes míseros e inexperientes trinta anos, mas disto não vou desistir. Não posso desistir. Desistir de escrever seria como desistir de respirar (e desculpem-me a imagem pouco inteligente), como beber água quando tenho sede e quando não tenho sede. Escrever escrever escrever. Sem parar. É claro que gostaria de escrever mais do que aquilo que escrevo. É claro que gostaria de escrever os livros que ainda me faltam escrever. Mas isto sou só eu a pensar em voz alta. E o resto pode esperar.

Da Poesia


«Sabemos hoje que, por princípio, não se pode em são juízo decretar o que é admissível e o que é inadmissível num poema, nem estabelecer critérios a priori pelos quais todos os poemas devam ser julgados. O poeta moderno - e "moderno" aqui quer dizer: que vive depois que a experiência da vanguarda se cumpriu - é capaz de empregar as formas que bem entender para fazer os seus poemas, mas não pode ignorar que elas constituem apenas uma parcela das formas possíveis, e o crítico deve reconhecer esse fato.»


Antonio Cicero, «Poesia e Paisagens Urbanas», em Finalidades sem fim, V.N. de Famalicão: Quasi Edições, 2007, pp. 19-20.

Minguante n.º 10

Muito Mau


Ontem vi pela primeira vez Os Contemporâneos.

Eureka


Sempre me considerei um gajo tímido em relação às mulheres. Mas nos últimos tempos tenho vindo a reflectir e cheguei à conclusão que não sou tímido. Sou um falhado.

Lí por aí

«Eu escrevo por vergonha e edito por vaidade.»

Vítor Vicente, aqui

Revista Sítio



Os textos são de: Luíz Ruffato, Ozias Filho, Natércia Pontes (Brasil), Eduardo Estevez e António Alías (Espanha), Luís Naves, Maria Sousa, Miguel Real, Sérgio Luís de Carvalho, Paulo Kellerman, Carla Cook, Fernando Esteves Pinto, Lourenço Bray, Rui Matoso, André Simões, Luís Ene, José Magalhães e Nuno Travasso (Portugal). As imagens de: António Bártolo, Manuel Guerra Pereira e Vanessa Fernandes (Portugal). A edição é de Luís Filipe Cristóvão e o design da Slingshot. Na sessão de apresentação que se realiza na Livraria Trama, seguir-se-á um concerto do pianista Fernando M. Dinis.

O outro lado do Outro lado da questão



Aquilo que o Henrique Fialho escreveu neste seu post faz todo o sentido. De facto a autocrítica em Portugal não está suficientemente enraizada, mas não sei se o está em algum lado. Nesse aspecto os blogues foram uma mais-valia: eles tornaram mais clara essa ideia. O que existe é a bajulação. Quanta da crítica feita em blogues é imparcial? Quantos dos elogios feitos são sinceros? Eu já aqui escrevi sobre dois livros do Henrique (aqui e aqui). Aquilo que escrevi foi, em certa medida, elogioso. Que sentimentos me moveram? A amizade? O respeito? Ou a qualidade daquilo que o Henrique escreve? É claro que essa coisa da qualidade é um tema muito discutível. O que é qualidade para uns não é qualidade para outros. O que é literatura de primeira hoje poderá ser literatura de segunda amanhã. O mundo rápido em que vivemos é propício a isso. Contudo, não concordo com a outra parte do post: «Afinal de contas, por que razão há-de alguém querer publicar um livro em Portugal?». Não vejo razão para não se fazer. Se alguém quer publicar deve fazer tudo para conseguir. Se recorrer a editoras minimamente honestas, elas lhe dirão se aquilo que escreve tem valor literário (seja lá o que isso for). É claro que há editoras que publicam tudo o que aparece – desde que o autor pague na totalidade toda a edição. Todos nós sabemos quais são, não vou estar para aqui a enumerá-las. E se os amigos são realmente amigos não nos dizem que nós somos génios literários. Tenho amigos que não gostam daquilo que eu escrevo e eu respeito bastante essa opinião. Já os familiares nunca se pronunciaram em relação a nada daquilo que faço. A questão da vaidade é outra a história. Quem é que não fica vaidoso com o trabalho feito e reconhecido por outros? A vaidade é algo de inerente ao homem. Todos nós somos vaidosos e não há nada que se possa fazer. E não acredito que «perder tempo com um livro de um jovem autor significa não ganhar tempo com um clássico da literatura universal.». Quantas vezes um jovem autor nos abre as portas à grande literatura? São poucos. Mas há.

Tomates

Durante muito tempo alimentei o sonho de ser escritor. É claro que me falta talento. Mas, principalmente, faltam-me tomates. Sim, é preciso ter tomates para ser escritor e para escrever. Bukowski, Céline, Hamsun, Fante, Dostoievski, tinham tomates. E, quanto a mim, um grande par. Só assim se entende que tenham escrito aquilo que escreveram, da maneira que escreveram, sobre os temas que escreveram. Tomates. É isso que faz um escritor. Não é o cânone, nem a crítica. São os tomates.

Ressaca

Através do Rui Manuel Amaral cheguei aqui. A ler com atenção.

Do café

Não bebo café há três anos. Só descafeinado. Mas esta semana apeteceu-me voltar ao velho vício. Tenho bebido todos os dias um cafezito por volta das 9 da manhã. Até aqui tudo bem. Só que hoje acordei por volta do meio-dia. E a cabeça está para aqui a latejar como se lhe faltasse alguma coisa.

Lí por aí

«O problema, caro Watson, é claramente este: isso tudo de que falam, precariedade, desemprego pós-licenciatura, novas oportunidades falhadas, desânimo, depressão e horror com pipocas à mistura é um eterno sonho de uma outra juventude: a dos nossos pais, que com todo o amor do mundo desejam que bem estar, paz, pão e liberdade sejam, não uma escolha dos seus filhos, mas o leite da teta que caridosamente oferecem.»

Sérgio Lavos, em Auto-Retrato

Versões

Breviário

Senhor,
Eu sei que os meus dias estão contados
que já não são suficientes
para eu recolher a terra
com a qual irão cobrir o meu rosto

Não irei ter tempo suficiente
para homenagear os injuriados
ou para pedir perdão a todos aqueles
que sofreram às minhas mãos
e é por isso que a minha alma está triste

a minha vida
é um cículo que se fecha
como uma sonata bem composta
mas agora vejo claramente
mesmo antes do final
os acordes quebrados
o desacerto entre as palavras e as cores
o espectro da dissonância
a voz do caos

por que razão
a minha vida
não foi como círculos na água
vindos de profundidades infinitas
como algo que nasce, cresce
e depois cai inexplicavelmente
para expirar devagar
no teu enigmático colo

Zbigniew Herbert, «Breviary», in The Collected Poems: 1956-1998, Ecco, 2007.
versão de manuel a. domingos

Um resto de nada

Sempre que venho a Manteigas penso que ela é o reflexo em ponto pequeno daquilo que o país é em ponto grande. Manteigas tem uma população cada vez mais envelhecida. As perspectivas de futuro, para quem aqui vive, são três: ou a reforma ou o desemprego ou (uma coisa que não se via/sentia há muito tempo) a emigração. A indústria têxtil, principal motor da economia local durante muito tempo, acedeu aos apelos eloquentes do poder central para se internacionalizar, e, ao fazê-lo, descurou o seu principal cliente (o mercado nacional), fechando as portas. O poder autárquico cede a interesses instalados. O marasmo é total e completo. Aquilo que resta é um resto de nada.

Teaser

Recarbon

Ao cuidado do Senhor Miguel Marques

«It was during the time I wandered about and starved in Christiania; Christiania, singular city, from which no man departs without carrying away the traces of his sojourn there.»

Knut Hamsun, Hunger, New York: Dover Publications, Inc., 2003, p. 1.

Coisas que me passam pela cabeça

Tal como outros, também gostaria de pensar o meu país. Mas pensá-lo à minha maneira, evitando a fórmula de estar sempre a dizer mal, embora concorde que essa fórmula seja necessária, pois só assim conseguiremos vislumbrar qualquer coisa de positivo no meio disto tudo. São necessários Velhos do Restelo para que a coisa ande. Se não existissem, cairíamos no marasmo. O que seria de nós sem o pessimismo crónico de Vasco Pulido Valente? Provavelmente estaríamos pior do que estamos hoje. E reparem que não estou a defendê-los (refiro-me aos Velhos do Restelo). Apenas digo que eles são necessários à dinâmica da coisa (embora não saiba lá muito bem o que isso quer dizer). Para mim, um Velho do Restelo é uma espécie de mãe que nos avisa, vezes sem conta, para nos agasalharmos melhor pois vamos, de certeza, ficar constipados. Nós discordámos e saímos à rua. É claro que, na maior parte das vezes, não nos constipamos. Mas vai haver uma vez que apanhamos uma constipação terrível. E vamos ouvir a mãe dizer eu avisei mas tu nunca dás ouvidos.