Não é uma queixa
Brinquem lá com a Vossa pilinha e deixem a minha em paz
Teaser
Enfrentar um poema é como visitar um país estrangeiro...
Peço desculpa por tudo aquilo que vou dizer, por tudo aquilo que vão ouvir. Encarem as minhas palavras como reflexo da juventude, da falta de experiência, da falta de amadurecimento. Tudo aquilo que vou dizer são clichés, frases feitas, ideias que não são minhas compostas por palavras que são de outros. Peço desculpa se não tratar a poesia e a palavra poética com delicadeza, mas como Homem que sou fui talhado à pedoa. Peço desculpa se não ouvirem aquilo que querem ouvir, mas com o tempo uma pessoa habitua-se.
Não acredito que exista uma democratização da poesia, nem tão pouco o desrespeito pela palavra poética. E não acredito por dois motivos.
Primeiro: a poesia sempre foi democrática. Foram os poetas que impuseram à poesia regras, como se tal fosse possível. Depois, vieram outros poetas e disseram que aquelas regras não serviam os propósitos da poesia. Desta maneira, nasceram as escolas, as tendências e tudo o resto que chegou até nós. A poesia viu-se enjaulada, reduzida a compêndios, a manuais, a regras de métrica e de rima, a versos soltos ou brancos, a sonetos, tercetos, oitavas, decassílabos. Digo que é democrática pela simples razão de estar ao alcance de todos. Há até quem diga que está em todo o lado menos nos livros de poesia. Eu concordo, embora não vá agora dar exemplos. A poesia não se encontra confinada a nada. A poesia é. Tudo é poesia. Haverá algo mais democrático que isto?
Segundo: não há desrespeito pela palavra poética pelo simples facto de não haver nem boa nem má poesia. Há apenas, e somente, poesia. Repito: a poesia é. O deve ser foi inventado pelos mesmos homens que referi anteriormente. Tudo aquilo que é existe por si só, não precisa de nada nem de ninguém para ser. Não concordo que à palavra poética seja necessário algo mais que a simples representação da realidade. A necessidade de um halo metafísico na palavra poética não é, quanto a mim, assim tão necessário. Às vezes é impedimento para o fruir da poesia. Charles Bukowski escreveu: «a mais velha ideia ainda em voga é/que se não consegues entender um poema é/quase certo que é/um bom poema.». Socorri-me destes versos do poeta norte-americano para exemplificar uma ideia que ainda hoje perdura entre nós. Tal ideia, muitas vezes, degenera em preconceito – algo que é muito feio em poesia, pois a poesia é tudo menos preconceituosa. Não me revejo na ideia de que a palavra poética deva cortar com a representação da realidade, procurando, dessa maneira, transgredir; como não me revejo na ideia de que só a realidade pode ser transgressão. E não me revejo na ideia de que a representação da realidade é sinónimo de segurança, tranquilidade, certeza. Haverá algo mais inseguro, intranquilo e incerto que a realidade?
Neste momento (e assim espero) alguns dos presentes estão a questionar-se: afinal todos podem ser poetas? Eu respondo: sim. E pergunto: há alguma entidade reguladora que nos diga quem é ou quem não é poeta? Não nos podemos esquecer que seja qual for o resultado poético, ele será sempre a soma das várias diferenças. Será sempre um espaço aberto de possibilidades.
Creio na poesia, seja ela trágica, contemplativa ou metafísica. Seja ela subversiva, transgressora, contestatária ou ameaçadora da ordem estabelecida. O importante é a poesia. Pois só a poesia tem a capacidade de realmente ser. Pois só a poesia é.
Aviso
Não confundir a vida com o blogue.
III Bienal de Poesia de Silves
(clicar aqui para aumentar)
A Câmara Municipal de Silves levará a efeito, nos dias 25, 26 e 27 de Abril de 2008, a III Bienal de Poesia – “Poem’Arte // Nas Margens da Poesia” – a fim de comemorar o 25 de Abril, homenagear Urbano Tavares Rodrigues e inaugurar a Biblioteca Municipal.
Ao longo de três dias, e, em mesas redondas, Aida Monteiro, António Simões, João Rasteiro, Jorge Fragoso, Marco Alexandre Rebelo, Maria Azenha, Maria Gomes, bruno béu, Eduardo Pitta, Graça Magalhães, José Ribeiro Marto, Maria Toscano, Rui Mendes, Teresa Tudela, Luís Serrano, Maria Estela Guedes, Maria do Sameiro Barroso, manuel a. domingos, Manuel Madeira, Porfírio Al Brandão e Domingos Lobo – moderados por Luís Carlos de Abreu, Paulo Penisga e Silvestre Raposo, falarão sobre Poesia, enquanto o Grupo Experiment’arte intervirá, pontualmente, com provocações poéticas, aos Convidados e ao Público.
Na noite de 26 de Abril, será apresentada a Antologia “Poem’arte // Nas Margens da Poesia”, seguida de leituras por Marta Vargas. Dia 27 de Abril, pelas 18 horas, Domingos Lobo, em lição de sapiência, homenageará Urbano Tavares Rodrigues, o Poeta da Palavra Vida, e, à noite, o recital de poesia – Palavras Interditas – pelo Experiment’arte, encerrará a Bienal.
À excepção da apresentação da Antologia que será feita no Bar Tapas, da Fábrica do Inglês, as mesas redondas decorrerão na Biblioteca Municipal. Paralelamente, e, durante os três dias, haverá uma Exposição de Pintura de Marta Jacinto.
As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar - Malcolm Lowry
Toda a grande literatura é grande pelo facto de ser indissociável da vida de quem a escreve. Kafka, Dostoievski, Tolstoi, Bukowski, Céline, escreveram grande literatura, pois, em certa medida, as suas vidas confundiram-se com aquilo que escreveram (e vice-versa). Malcolm Lowry (1909-1957) faz parte deste grupo de escritores profundamente humanos. O seu romance Debaixo do Vulcão é disso exemplo. E agora temos, graças à selecção e tradução de José Agostinho Baptista, alguns dos seus poemas: As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar.
Dizer que os poemas de Lowry constituem um itinerário de vida do autor, uma espécie de filosofia de vida e de escrita, um mapa que ajuda a compreender os seus fantasmas, talvez não seja precipitado. Lowry revela na sua poesia todo o desencanto com a vida e com o futuro. Os homens pouco podem fazer, principalmente quando «têm corações e flancos que sofrem e oxidam.» (p. 55). Tudo em Lowry é um passo dado em direcção ao abismo, onde nenhuma salvação é possível. Mesmo um farol (elemento imprescindível para quem navega e procura chegar a terra firme) é visto como um elemento perturbador, incapaz de salvar: «O farol atrai a tempestade e ilumina-a.» (p. 57). Todo este pessimismo poderá ter uma explicação. Não podemos esquecer que Lowry assistiu a duas guerras que deixaram marcas profundas – Guerra Civil de Espanha e Segunda Grande Guerra Mundial. Talvez a descrença no Homem tenha aumentado em Lowry devido a esses dois acontecimentos: «E o que devemos e o que não devemos tolerar/Ao caos de hoje, o quê? – pelo vivo albatroz e/Pela queda de Ícaro?» (p. 57). O Homem é retratado como ganancioso, sem conhecer limites. Que saída para o Homem? Existindo, ela não será a mais fácil. O Homem está cercado por todos os lados, havendo apenas um caminho a percorrer: «As escarpas estão à esquerda, enquanto à direita/O mar é como aquele mar cujo rumor percorreu/Um dia na sua infância a planície tempestuosa.» (p.75).
E que papel está reservado ao(s) poeta(s)? O poeta é alguém que está cansado e que pouco pode fazer: «O poeta, ele próprio, que luta com a forma/Do seu tortuoso trabalho, sabe, e tendo intencionalmente/Pago com a mesma moeda a fadiga do mar, convidou/Os guindastes da alma que trabalham no seu quarto. (…) Adormecido, ele luta toda a noite com uma vela!/Mas continua a sonhar com palavras para além da vida dos barcos.» (p. 67). O poeta desistiu, já não procura a salvação através das palavras, estas abandonaram-no: «Ele sorriu e disse: um dia destes/Deixarem este lugar como as palavras me deixaram a mim.» (p. 81). Que papel poderá ter a poesia no meio de todo o caos? Pouco ou nenhum. Quando o caos está instalado, a poesia pouco poderá fazer: «Não há poesia quando vives lá./Essas pedras são tuas, esses ruídos são o teu pensamento,/Os atroadores eléctricos de ferro e as ruas que te prendem/Ao bar sonhado onde o desespero se senta/São eléctricos e ruas: a poesia está noutro lugar.» (p. 65).
Marinheiros e bêbados povoam os poemas de Lowry. Em nenhum momento o autor consegue distanciar-se deles, pois eles são a expressão da procura contínua pela sua identidade. E de nada serve a fama alcançada pelo romance Debaixo do Vulcão. Ela só veio aumentar o fosso entre Lowry e o mundo. Ela só veio afastá-lo da sua procura: «Como um bêbado a fama consome a casa da alma/Revelando que só trabalhaste para ela –/Ah, quem me dera nunca ter conhecido o seu beijo traiçoeiro/E tivesse ficado na obscuridade para sempre, falhado e vencido.» (p. 109). A ironia do último verso é evidente. Lowry nunca se considerou um vencedor.
Neste conjunto de poemas Malcolm Lowry expressa os seus mais profundos sentimentos sobre a vida e o mundo. Negar que eles se cruzam com a sua própria vida é negar a sua essência. Os seus poemas são o resultado de experiências por si vivenciadas. São tudo menos fugas.
Malcolm Lowry, As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar (selecção e tradução de José Agostinho Baptista), Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, 127 pp.

Sem Tempo para Parar e Pensar
A única esperança é o próximo copo.
Se te apetecer, podes passear.
Sem tempo para parar e pensar,
A única esperança é o próximo copo.
É inútil hesitar no limite,
pior que inútil é toda esta conversa.
A única esperança é o próximo copo.
Se te apetecer, podes passear.

O Espelho Atormentado - Russel Edson
Russell Edson (1935) é considerado o mais importante autor americano de poesia em prosa. Para muitos o termo poesia em prosa é algo ambíguo. Há autores que o rejeitam, pois consideram que aquilo que escrevem é poesia, independentemente de ser em verso ou não. Um outro problema com o termo poesia em prosa é o facto de, algumas vezes, este poder ser confundido com micro-ficção, apesar de se partir do principio que narrar uma história não é algo exclusivo do género ficcional, principalmente com a actual questão dos géneros literários, onde a hibridismo é ponto assente e aceite.Em O Espelho Atormentado Russell Edson leva até ao limite a fronteira entre poesia em prosa e micro-ficção. Qualquer leitor desprevenido, isto é, que não conheça os meandros por onde a criação e a liberdade literária se movem, considerará, sem qualquer espécie de dúvida, que O Espelho Atormentado é um livro de pequenos contos. E todos os ingredientes estão lá: cenário, personagens, conflitos e uma conclusão. O leitor não encontrará, nestes poemas em prosa, o mesmo que encontra nos poemas em prosa de Saint-John Perse.
Russell Edson, como poucos autores, provoca no leitor a sensação de viagem numa montanha russa, pois partindo muitas vezes duma situação banal, consegue a surpresa: «Os elefantes gostam de roupa interior em serapilheira», «Uma velha deu à luz uma ninhada de ratos.», «Andavam a transformar animais em pessoas», «Havia um homem que queria comprar um velhote numa loja de antiguidades», «Um piano havia feito uma bosta monumental». Só para dar alguns exemplos. Um dos principais objectivos de Russell Edson é provocar o riso e o desconforto. Leia-se:
Segredos Genitais
Perguntaram a uma mulher se o seu bebé era menino ou
menina.
Não sei, nunca espreitei. Não me parece correcto invadir
assim a privacidade das fraldas, esse lugar de segredos
genitais.
Mas não gostava de saber se é menino ou menina?
Se lhe crescerem bigodes chamo-lhe Henry. Se não
chamo-lhe Henriquetta. Disse a mulher.
E supondo que lhe crescem penas?
Nesse caso forro-lhe a gaiola com o jornal de ontem e
dou-lhe um biscoito, disse a mulher. Mas se lhe crescerem
bigodes chamo-lhe Henry. Se não crescerem chamo-lhe
Henriquetta e dou-lhe outro biscoito…
Muitos dos textos fazem lembrar sketches dos Monthy Python. O humor desconcertante é recorrente. No entanto, não se pense que não podemos encontrar momentos de “verdadeira” poesia no livro. Leia-se Mensagem, A Noite Invadida, Método, onde, de forma clara, o autor coloca de lado o “objectivo” de contar uma história, procurando antes desconcertar o leitor com ideias em vez de imagens.
Apesar de precipitado, pois o ano editorial ainda nem a meio vai, se hoje tivesse que escolher o melhor livro de 2008 ele seria O Espelho Atormentado.
Russell Edson, O Espelho Atormentado, Entroncamento: OVNI, 1ª edição, 2008, 178 pp. (tradução de Guilherme Mendonça do original: The Tormented Mirror, University of Pittsburgh Press, 2001)
Primeira Antologia de Micro-Ficção Portugesa - Vários Autores
Não será inocente a publicação desta Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa. Nos últimos tempos assistiu-se à afirmação da chamada micronarrativa ou micro-ficção na literatura portuguesa. A criação da primeira revista portuguesa online (Minguante) dedicada a este género é um bom exemplo. No entanto, é errado afirmar que a micronarrativa só agora começa a ser novidade, como alguns querem fazer ver, nomeadamente dando como exemplo algum do trabalho de Gonçalo M. Tavares. Como refere Henrique Manual Bento Fialho (no prefácio à antologia): «Terá sido com os surrealistas (…) que o género micronarrativo adquiriu alguma substancialidade.» (p. 13).Com a selecção e organização de Rui Costa e André Sebastião, a Primeira Antologia da Micro-Ficção Portuguesa, reúne 22 autores: Alcides, Alexandre Au-Yong Oliveira, Fernando Dinis, Fernando Esteves Pinto, Fernando Gomes, Filipe Guerra, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, João Carlos Silva, Luis Ene, Maria João Lopes Fernandes, Paulo Rodrigues Ferreira, Paulo Kellerman, Pedro Afonso, Pedro Amaral, Rafael Mota Miranda, Rui Almeida, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rute Mota, Sara Monteiro e Sónia Duarte. Não deixa de ser interessante verificar que entre ilustres desconhecidos se encontram nomes com alguma visibilidade no panorama literário português, com obra reconhecida. E não deixa de ser interessante que só quatro autores (Alcides, Alexandre Au-Yong Oliveira, Fernando Gomes e Sara Monteiro) não venham do mundo dos blogues. O que também não é estranho, pois não podemos esquecer que a Internet desempenha um papel importante na divulgação da micronarrativa. Apesar desta suposta heterogeneidade, a antologia pontua-se pelo equilíbrio e pela qualidade de todos os textos, algo que muitas vezes não é conseguido em antologias.
De destacar os textos de Fernando Gomes (onde o humor é uma constante), João Carlos Silva (o absurdo kafkiano), Maria João Lopes Fernandes (textos leves, profundamente humanos) e Paulo Rodrigues Ferreira (um caso sério, humor negro q.b.). No entanto, é um texto de Henrique Manuel Bento Fialho que, devido à actualidade e pertinência do mesmo, aqui quero deixar:
Um jornalista barricou-se na primeira página do jornal onde trabalhava. Não queria nada para si, reivindicava apenas um pouco de jornalismo na capa.
Esta antologia vem repor justiça neste género literário – que tantas vezes é ignorado e desvalorizado, nomeadamente em relação à poesia e ao romance – e junto daqueles que o cultivam e que, juntamente com ele, são ignorados e desvalorizados.
Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa (selecção e organização de Rui Costa e André Sebastião), V.N. de Gaia: Exodus, 2008, 144 pp.
Uma das muitas vantagens de andar num ginásio é ver gajas aos saltos, com roupa justinha e a usarem aqueles soutiens desportivos que me dão um tesão do catano. E olhem que não é fácil fazer exercício físico com a tenda armada, principalmente se estamos a correr num tapete rolante. Não dá jeito nenhum. E há ainda os alteres. Imaginem que me falha o movimento e levo com o alter no dito cujo (que é um bom nome para dar à picha). As mulheres que agora estão a ler este texto dirão: era bem feito! Pois, mas ainda não aconteceu. Paciência. Vão ter que esperar mais algum tempo. Entretanto, eu vou ver mamas aos saltos.
Ask the Dust - John Fante

«Bandini! I'm Arturo Bandini!!» foi o grito de guerra de Charles Bukowski durante algum tempo. Não fosse Charles Bukowski e John Fante (1909-1983) teria caído no esquecimento.
Filho de emigrantes italianos, autor de uma dúzia de livros, John Fante ganhou a vida, principalmente, como argumentista em Hollywood. São dele os argumentos de filmes como Walk on the Wild Side, Full of Life e The Reluctant Saint.
Ask the Dust faz parte da tetralogia dedicada a Arturo Bandini (alter ego de John Fante): Wait Until Spring, Bandini, The Road to Los Angeles, Dreams from Bunker Hill. John Fante caracterizou Ask the Dust como uma história estranha sobre uma linda rapariga mexicana «who somehow didn’t fit into modern life, took to marijuana, lost her mind, and wandered into the Mojave desert with a little Pekinese dog». Não deixam de ser curiosoas estas palavras de John Fante, pois deixam de lado a personagem principal de Ask the Dust: Arturo Bandini. Ou talvez não.
Arturo Bandini é um escritor que decide tentar a sua sorte em Los Angeles, longe da sua terra natal no Colorado. Vive em quase miséria num hotel, passando os dias a comer laranjas para matar a fome, agarrado a vários exemplares duma revista onde foi publicado um conto da sua autoria, e que distribui a todos os que encontra, autografando cada exemplar. A vida de Arturo Bandini, apesar de preenchida com o sonho do great american novel que vai escrever, é vazia. Arturo Bandini é um jovem que tenta a todo o custo crescer no meio dos conflitos e tensões de uma sociedade em permanente mutação, atormentado por um Deus que, até certo ponto, considera injusto, apesar da sua educação fortemente católica, tentando pertencer a um mundo que ainda não compreende. Até ao dia que encontra Camilla Lopez, uma jovem mexicana que trabalha num pequeno café junto ao seu hotel.
Deste encontro nasce a obsessão de Arturo Bandini por Camilla Lopez. Apesar de secretamente a amar, Arturo Bandini trata Camilla com desprezo, frieza. Mas ela é o motor de toda a sua escrita. Depois de a conhecer Arturo Bandini começa a escrever o tal romance que o irá tornar famoso e milionário. No entanto, o amor por Camilla não é correspondido e é, como já foi referido, uma obsessão. E, como todas obsessões, termina mal, pois Camilla enlouquece e Bandini desiste de ser escritor.
A escrita de John Fante é directa, minimal e não deixa ninguém indiferente. O seu mundo não é um mundo bom e justo, mas é, definitivamente, o nosso mundo. Charles Bukowski descreveu a escrita de John Fante como «written from the gut and the heart». E é isso mesmo aquilo que encontramos em Ask the Dust.
John Fante, Ask the Dust, New York: Harper Perennial, 2006, 165 pp.
Personality goes a long way
Como em outras coisas na minha vida, acordei muito tarde para a literatura. E ainda mais tarde para a chamada grande literatura. Com grande refiro-me a nomes como Tolstoi, Dostoievski, Kafka, Joyce (embora ainda não tenha conseguido ler Ulisses), Faulkner, Hemingway, Nabokov, entre outros. No entanto, com Henry Miller comecei cedo. Lembro-me que tinha 16 anos. Estava na Figueira da Foz e era verão. Entrei numa papelaria-livraria com a minha mãe. Enquanto ela olhava para as revistas, procurando aquela que mais lhe conviesse, eu olhava para os livros amontoados. Entre eles estavam Sexus, Plexus, Nexus e Trópico de Capricórnio. Eu olhava com os olhos bem abertos para as capas, onde corpos nus se abraçavam. A minha mãe olhou para mim e decidiu que era altura de eu ler Henry Miller. Nunca entendi a razão, pois ela nunca o tinha lido, apenas sabia que era um pouco pornográfico. Comprou-me Plexus, Nexus e Trópico de Capricórnio. O livro Sexus ficou de fora. Li os três livros durante os quinze dias de praia desse ano. E isto tudo para quê. Para apenas dizer que, mais uma vez, acordei tarde para a grande literatura. Comecei ontem a ler Fernanda Botelho: Xerazade e os Outros*. Só que desta vez não foi a minha mãe que o comprou. Fui eu. O que me levou a fazê-lo? A morte da autora. Não conhecia Fernanda Botelho até à notícia da sua morte. Mea Culpa. Mas posso dizer que agora conheço. E que estou a gostar.
* Fernanda Botelho, Xerazade e os Outros, Lisboa: Contexto, 3ª edição, 1989, 238 pp.
Se eu fosse um homem rico
Ontem foi um dia bom. Não pensei muitas vezes na morte, nem que tenho, cada vez mais, um medo terrível de morrer. Fui até à praia. Encontrei-me com gente amiga. Houve conversa, vinho branco e marisco (obrigado!). Foi um dia bom.
Como tudo o que é bom na vida acaba...
este blogue ainda se vai manter durante mais algum tempo.
Dexter à portuguesa


