Penso, em seguida, num sheriff a entrar, resoluto, num saloon e a exclamar em tom de tiro, como quem já não distingue a garganta do gatilho:
“Mãos ao ar!”
E o cowbuoykowsky responder, resoluto, e até reverente, à ordem do agente da autoridade.
Fixo-me nas mãos do maldito.
E vejo:
um polegar pendido para baixo, a condenar a ordem natural das coisas com inflexibilidade de César,
um indicador esticado, bem esticado, habituado ao gesto dito feio de apontar o que é feio,
um dedo do meio, erguido e erecto como se quer um manguito,
um anelar a não fazer jus ao nome de baptismo, pela recusa ao absurdo que representa a aliança com o alheio,
um mindinho com uma ponta de cera ou um macaco nasal.
Não é o futuro, meus magos de merda, que está escrito nas mãos, mas sim o passado e o presente de um homem, o seu património pessoal e inalienável.
Ontem sentei-me decidido a traduzir mais alguns poemas de Charles Bukowski. Sentia-me bastante predisposto. E para traduzir Charles Bukowski é necessário estar bastante predisposto. Não é fácil entrar no mundo bukowskiano; como depois não é fácil sair dele. Uma vez tentei fumar um maço de cigarros, beber muita cerveja, engatar uma gaja, ir para a cama com ela e depois traduzir alguns poemas. Mas nem engatei uma gaja, nem traduzi um único poema. Tal não aconteceu pelo facto de estar bêbado, mas sim pelo facto de o mundo de Charles Bukowski ser mais que cigarros, bebida e quecas. Pensar que a escrita de Bukowski é só isso, é seguir o caminho mais fácil. Se a escrita de Charles Bukowski fosse apenas bebida, cigarros e quecas, ela teria muito menos leitores. Charles Bukowski escreve a vida, com todas as suas coisas boas, menos boas, más e mesmo más. Não vou dizer que é a vida que os leitores de Charles Bukowski procuram nos seus livros. Talvez muitos procurem mesmo os cigarros, a bebida e as quecas, tentando escapar às suas vidas rotineiras, chatas e aborrecidas. Talvez Bukowski seja a válvula de escape. Mas não sei se ela existe. É que por entre os cigarros, a bebida e as quecas, encontra-se a vida pura e crua, sem paninhos quentes. Ela está lá: pronta a esbofetear-nos, a dizer que não passamos de meros homenzinhos. A vida. Sem rodeios.
A Casa
por Maria João L. Fernandes

Esta semana levei o meu primeiro raspanete enquanto professor contratado e não inserido na carreira docente. Esqueci-me de cumprir uma actividade que tinha sido acordada em Departamento e que faz parte da planificação anual. Até aqui tudo bem. Mereci o raspanete. Nem procurei, sequer, justificar-me: esqueci-me, não cumpri, desleixei-me, mereço repreensão. Justo. Só não gostei da parte em que me foi dito que «devia ter mais cuidado, pois nesta altura do campeonato…». Fica subentendido que “campeonato” é a Avaliação do Desempenho. Esse Papão. Começo a sentir na Escola, depois de muita indignação inicial, uma vontade enorme de começar a avaliar. Nada é mais afrodisíaco que o Poder – nem que seja o Poder mais insignificante – e é bem verdade. Toda a gente foi contra a divisão da carreira docente em dois grupos: professores titulares e professores. Mas alguns começam a puxar dos “galões”. E eu só tenho é que dar os parabéns ao Governo. Bem vistas as coisas os professores são quase 150 mil. Se batessem o pé todos ao mesmo tempo, os sismógrafos assinalariam um pequeno terramoto. Mas, desta maneira, não há ninguém que bata o pé, a não ser, talvez, para espezinhar quem está por baixo.
Nada de novo
Procurai a minha face talvez não seja o melhor livro para começar a ler John Updike (1932). O autor dispensa apresentações, pois é um dos mais representativos autores norte-americanos do século XX, criador da famosa série “Coelho” (Rabbit, Run; Rabbit Redux; Rabbit Is Rich; Rabbit At Rest; Rabbit Remembered).John Updike, em Procurai a minha face, deambula pelos meandros da Arte (essa coisa que é para muitos ainda incompreensível, misteriosa e superior), concentrando-se num período muito específico da Arte Norte-americana: o Expressionismo Abstracto e tudo aquilo que lhe seguiu, nomeadamente a Pop Art. É claro que todos os nomes dos pintores que surgem no livro são ficcionados, no entanto, há duas personagens que são colagens completas de dois pintores daquele período: Jackson Pollock (Zack) e Andy Warhol (Guy). O próprio autor, numa nota introdutória ao romance, indica que o mesmo é uma obra de ficção, mas que tem por base dois livros: «Este livro é uma obra de ficção […] No entanto, seria impossível negar que um grande número de pormenores procedem [sic] do admirável e exaustivo Jackson Pollock: An American Saga, […] ou que algumas declarações dos meus artistas ficcionais estão estreitamente relacionadas com as recolhidas em Abstract Expressionism: Creators and Critics» (pág. 5).
O livro, em certos momentos, revela ser mais uma obra de investigação do que de ficção. O único momento em que John Updike consegue alguma tensão é no discurso entre as duas personagens: Hope e Kathryne (entrevistada e entrevistadora). Existe um conflito lactente entre as duas, que se vai suavizando à medida que a acção decorre, onde Hope, cansada de estar sempre a dizer a mesma coisa aos jornalistas, procura o lado mais íntimo de Kathryne, tentando (talvez) encontrar nela a juventude que há muito perdeu. Tudo o resto é um mero recontar de um período histórico, que não deixa, contudo, de ser interessante. Mas John Updike não traz uma única ideia nova sobre Arte, uma única ideia sobre os artistas em questão.
É um livro a ler, não por aquilo que traz de novo (não traz), mas sim pelo prazer de ler. A maneira como John Updike escreve também ajuda bastante: uma escrita leve, fluente.
Charles Bukowski
SHAKESPEARE NUNCA FEZ ISTO
[A 22 de Setembro de 1978, Bukowski apareceu no então conhecidíssimo programa televisivo francês Apostrophes, da responsabilidade de Bernard Pivot, que junta aí uma mostra daquilo que ele entendeu ser naquela altura os En Marge de la Société. Conceito já de si basto duvidoso – a “margem”, os “marginais” –, para classificar uns intelectuais menos notórios numa sociedade de mercado, digamos, pelo que nos foi dado ver, que Pivot se serviu descaradamente do escritor americano em visita pela Europa como chamariz para promover certa franja da cultura francesa. Adiante, traduzindo o testemunho escrito por Bukowski, que temos do sucedido, irei intercalando dentro de parêntesis rectos comentários ao texto advindos do visionamento desse programa, hoje em dia disponível em suporte digital.][…] Sábado à noite eu deveria aparecer num programa de televisão muito conhecido, de difusão à escala nacional. Tratava-se de um talk show literário que durava 90 minutos. [Foram apenas 75 minutos, como se pode comprovar pela edição em DVD: John Dullaghan, Bukowski (extras), Wild Side Video, 2004.] Pedi que me fornecessem 2 garrafas de um bom vinho branco para ir bebendo enquanto estivesse no ar. Entre 50 a 60 milhões de franceses viram o programa.
Comecei a beber ao fim da tarde. A seguir, do que me lembro, lembro-me de eu, Rodin [o editor francês que pagou a vinda de Bukowski à Europa] e Linda Lee [então companheira do escritor] caminharmos pelo meio de seguranças. Depois, sentaram-me à frente do maquilhador, que me encheu de pós, logo derrotados pela gordura da minha cara e pelos buracos na pele. Uma olhadela rápida, e viu-se livre de mim. E ali estávamos nós em grupo à espera que se desse início à transmissão. Desrolhei uma garrafa e dei um trago. Nada mau. Havia 3 ou 4 escritores e o moderador. E ainda o psiquiatra que submeteu Artaud aos electrochoques [Gaston Ferdière]. O moderador, ao que se diz, era um tipo famoso em toda a França [Bernard Pivot], a mim não me pareceu grande coisa. Ali sentado ao meu lado não parava de tremer o pé. “Que é que se passa?”, perguntei-lhe. “Está nervoso?” Nem me respondeu. Enchi-lhe um copo de vinho e pus-lho diante do nariz. “Tome, beba um pouco… vai assentar-lhe no bucho…” Acenou-me que não, com desdém.
E estávamos pois no ar. Na minha orelha haviam posto uma ligação através da qual ouvia o francês traduzido para inglês. Também eu ia sendo traduzido para francês. Como convidado de honra, o moderador começou por mim. Foi esta a minha primeira intervenção: “Conheço inúmeros grandes escritores americanos que gostariam de estar agora aqui neste programa. Pelo que me diz respeito, não lhe dou assim tanta importância…” Nisto, o moderador rapidamente passou a palavra a outro escritor, um velho liberal [Marcel Mermoz, na verdade anarquista autogestionário] que fora traído vezes sem conta, mas que nunca perdera a fé. Não professando eu qualquer política, disse ao velhadas que o achava com boa cara. Falou, falou, falou… o costume.
Seguiu-se então uma escritora. O vinho encantava-me, por isso não tenho bem a certeza acerca do que escrevia ela, mas julgo ser animais, a senhora escrevia histórias com animais. [A Bukowski, no meio dos eflúvios do álcool, não lhe terá passado despercebida a mediocridade de doméstica convencida patenteada pela escritora Catherine Paysan…] Disse-lhe que se me mostrasse um pouco mais as pernas talvez eu conseguisse dizer se ela era boa escritora ou não. [Efectivamente, a meio do programa é-nos dado ver o nosso estimado escritor meter as mãos pelas saias da escritora acima. É
um momento artístico histórico, só comparável, uns anos mais tarde, à viva proposta de querer fodê-la, que Serge Gainsbourg faz em directo na televisão, também francesa, a Whitney Houston.] Ela não quis. O psiquiatra que sujeitara Artaud aos electrochoques não tirava os olhos de mim. Outro começou a falar, um escritor francês com uma bigodaça enorme. [Cavanna, que, sendo o responsável pelo atrevido jornal humorístico Charlie Hebdo, e muito libertário e muito libertino – de pacotilha, claro! –, foi cúmplice de Pivot em fazer Bukowski estar quedo e mudo.] Não disse nada, mas nunca mais se calava. As luzes tornavam-se intensas, de um amarelo viscoso. Eu morria de calor sob os projectores. Só me lembro, a seguir, de me encontrar em plena rua de Paris sob um estrídulo e contínuo rugir alucinado à minha volta por todo o lado. Devia haver nas ruas uns dez mil motociclistas. Pedi que me levassem a ver as miúdas do cancã, mas arrastaram-me para o hotel com a promessa de mais vinho.Na manhã seguinte fui acordado pela campainha do telefone. Era um crítico do Le Monde: “Formidável, seu malandro”, disse ele, “os outros que lá estavam nem sequer se masturbam…” “Que é que eu fiz?”, inquiri. “Não se recorda?” “Não.” “Pois só lhe digo que não há jornal que tenha escrito o que quer que seja contra si. Já é altura da televisão francesa mostrar algo de honesto.”
Após o crítico ter desligado virei-me para Linda Lee: “Que é que aconteceu, amor? Que fiz eu?”
“Bom, apalpaste as pernas à senhora. E depois desataste a beber pelo gargalo da garrafa. Disseste umas coisas. Interessantes, pelo menos no início. Depois o tipo responsável pelo programa não te deixava falar. Pôs-te a mão na boca e dizia Chiu! Cale-se!”
“Ele fez isso?”
“Rodin estava sentado ao meu lado e não parava de dizer-me: Mande-o calar! Mande-o calar!… Vê-se que não sabe como tu és. Por fim, tiraste o auscultador da tradução, deste um último golo de vinho e foste-te embora do programa.”
“Coisas de bêbado.”
“Depois, quando chegaste perto dos seguranças, agarraste um deles pelos colarinhos. E puxaste da tua navalha, ameaçando tudo e todos. Ficaram na dúvida se não estarias a sério. Mas acabaram por se aproximar de ti e puseram-te na rua.” […]
[O mais extraordinário, neste sucesso de acontecimentos, foi Bernard Pivot, um pivot com fuças de Mister Bean, logo à partida haver caracterizado Charles Bukowski, para uma audiência certamente de cagões franceses, como “obcecado sexual e alcoólico”. O mote, portanto, estava dado. Daí para a frente… só se perderam as que caíram no chão.]
[Charles Bukowski, Shakespeare Never Did This: São Francisco, City Lights Books, 1979;
tradução e comentários de Paulo da Costa Domingos]
As Palavras
Parece que são as palavras que José Socrates mais utiliza no seu discurso. No entanto, Rui Bebiano refere que o mais importante não são as palavras mais utilizadas, mas sim aquelas que estão ausentes: «cultura», «ensino», «educação», «desemprego», «mulheres», «lusofonia, «democracia», «solidariedade», «igualdade» e «socialismo».
Este não é um blogue de referência.
Henry Charles Bukowski (1920-1994), ou Henry Chinaski? Confundo-os e não foram feitos para confundir. São uma só entidade. Hank é o assombroso produto de criação de um poeta indigente e o ideador do seu eu, que sem rodeios e adornos literários denuncia a indigência intelectual da sociedade americana que lhe foi contemporânea. Henry Chinaski não é um pseudónimo de Charles Bukowski, é o seu alter-ego, é, em suma, o receptor no papel das suas atribulações autobiográficas: vagabundo, alcoólico, boémio, profundamente misantropo e fodilhão inveterado. Conheci-o em A Sul de Nenhum Norte (ed. Relógio D’Água, 1997; South of no North, 1973), continuei com Mulheres (ed. Dom Quixote, 2001; Women, 1978), e vou prosseguindo com a poesia, especialmente as versões de manuel a. domingos. Bukowski é um homem em fuga ao arquetípico, um selvagem que não renega a sua natureza, ao invés ajavarda-a sem mágoa, e sem ponta de orgulho. É um refractário na sua acepção mais pura e sublime, que o diga Sartre, o sobranceiro existencialista. Em 1964, Sartre recusou o Nobel da Literatura alegando a institucionalização dos seus escritos como principal motivo e que as grilhetas intelectuais jamais o deixariam produzir em liberdade. Todavia, há quem tenha interpretado este acto de recusa como uma eminente exacerbação da sua vaidade pseudoproletária, corolário do seu ego inflado. Sartre era um revolucionário pelas palavras e actos, um agitador social com estranhas amizades. Um dia afirmou que Bukowski era o maior poeta americano vivo. Este, no entanto, recusou-se a participar num proposto rendez-vous com o inefável pensador francês, mandando dizer que tinha de cuidar de uma garrafa. Este é o lado encantador de Bukowski, o eterno irreverente e destruidor de convenções e de ufanos intelectualismos. Acima de tudo, por mais paradoxal que possa parecer, era um purista, um autor que se movia apenas pela criação artística. É classe. Um fabuloso exemplo: Em A sul de nenhum norte, Chinaski desafia Hemingway para um combate:
«Levantei-me e subi lentamente a coxia. Ergui o braço e toquei ao de leve no flanco de Hemingway.
– Sr. Hemingway…?
– Sou, o que é?
– Gostava de trocar uns socos consigo.
– Tens alguma experiência de boxe?
– Não.
– Vai ver se aprendes alguma coisa primeiro.
– Eu estou aqui para o correr aos pontapés.
[…]» (pp. 107-108)
Chinaski acaba por derrotar o velho Ernie – carinhoso petit nom usado por Chinaski quando se dirige a Ernest Hemingway – por KO e enquanto este último se mantém inconsciente é convidado por um crítico do The New York Times para publicar os seus contos. Ernie parece querer despertar do doloroso entorpecimento induzido:
«Vesti-me e, nessa altura, Ernie recuperou os sentidos.
– Que raio se passou? – perguntou ele.
– Sr. Hemingway, encontrou um homem bastante bom pela frente – disse um tipo.
Acabei de vestir-me [Chinaski] e dirigi-me à mesa onde ele [Ernie] estava deitado.
– Você é bom, Pai Hemingway. Não se pode vencer sempre – disse eu, apertando-lhe a
mão. Não estoure com os miolos.» (pág. 111)
O conto chama-se “Classe”...
Santana Lopes tenta explicar-se na televisão. A jornalista não lhe dá tréguas. O homem é sabido e começa a disparar para todo o lado, tentando desesperadamente evitar as questões certeiras da jornalista. A polémica só ainda vai no adro e já todos nós sabemos naquilo que vai dar: em nada. E Santana Lopes lá vai conseguindo manter-se à superfície. Ele e os outros.
O meu pai teve a sorte de cumprir o serviço militar em Alverca, numa altura em que os rapazes da idade dele iam para as ex-colónias. Em Fevereiro de 1968 o meu pai estava em Alverca. Foi mobilizado para socorrer as vítimas das cheias. Só o ouvi falar disso duas vezes. E dessas duas vezes há dois episódios que me ficaram na memória. O primeiro refere-se à incapacidade do meu pai, e dos seus companheiros, de salvar quem gritava na noite, quem pedia ajuda no meio do escuro, no meio da corrente forte que as levava. O segundo episódio contou-me o meu pai ainda há pouco tempo. Passado uma semana das cheias o meu pai andava num grupo destacado para limpar a pista aérea da base de Alverca. No meio da lama é encontrado um corpo: uma jovem rapariga abraçada a um tronco de árvore. As cheias de 1968 foram há 40 anos. O número total de mortos ainda hoje é incerto. Na televisão passou um documentário. Sei que o meu pai não o viu.
Um colega de Matemática conta que começou a ensinar hoje a ler números elevados à potência. Começou com 2 ao quadrado, 3 ao cubo, e depois 4 à quarta. Disse: pensem agora nos dias da semana. E os alunos entenderam: cinco à quinta, seis à sexta. Até que chega 7 à sétima e alguém diz: sete ao sábado.
Micro #46
Ainda não estava escuro, mas ele sentia já a noite.
Terá Kafka lido Tolstoi?
O Manuel lançou-me o desafio: escrever umas linhas sobre Bukowski. Pois bem. Juntei a reminiscência de leituras de juventude e a leitura atenta das excelentes versões do poeta maldito que o Manuel postou no seu blogue “O amor é um cão do inferno”. É opinião comum que há muita gente a escrever poesia, mas os verdadeiros poetas contam-se pelos dedos de duas mãos. Bukowski está, com toda a justiça, entre eles. Sem espinhas. Mas essa arrumação tem a ver com o poeta. Não com a sua obra. Não misturo quase nunca a biografia com o mérito artístico, mas tão só com a identidade literária. O universo do autor é o mesmo do protagonista do filme “Contos de Loucura Normal”, de Marco Ferreri (1981): uma deriva alcoólica e sexual, com algumas referências de prestígio e pouco mais. Será essa uma condição poética tão válida como outras menos heterodoxas? Absolutamente. Encerra momentos de altíssima qualidade literária? Com certeza. O problema está na escala reduzida com que celebra a vida. O deboche e o miserabilismo exponenciados pour épater le bourgeois foram recursos largamente usados pelo modernismo, mas que deixaram de fora as verdadeiras questões da modernidade. Habituei-me a desconfiar de roteiros poéticos hedonísticos e a valorizar o trabalho que se faz com o silêncio (Vd. Emily Dickinson), ou cujo desígnio é a verdadeira exaltação da existência (Walt Whitman). Em síntese, reconheço a importância do poeta, mas não faz decididamente parte da minha biblioteca.
Ó da Guarda!
A Eugénio de Castro
Eu, que levei a vida sem cautelas,
do lascivo loureiro entre a verdura,
as ninfas contemplando e a noite escura,
viúva de luar, noiva d’estrelas…
e que senti, ao mesmo tempo que elas,
do seu corpo os espasmos e a brandura;
que fiz das suas tranças cobertura
que pudesse envolver-me e envolve-las…
eu, que até da paisagem tinha ciúme,
e do Poente – onde morria o lume
dos seus olhos famintos de desejos –
fui desprezado, fui abandonado!
Mas porquê? Qual seria o meu pecado,
se nunca me cansei de lhes dar beijos?
Valdemar da Silva Lopes (1898-1946): nasceu em Pinhel, distrito da Guarda. Era médico de profissão.
Por exemplo: as Suites para Violoncelo. É nas pausas, nos silêncios, que mais vezes ouvimos o violoncelo respirar, recuperar o fôlego. Diz-nos algo que está para lá das palavras (que Bach me perdoe o cliché). Há uma Voz que nos diz que não devemos ter medo, que tudo irá correr bem. Essa Voz só pode ser concebida através da música. É aí que reside toda a grandeza de Bach: nessa Voz que só a música pode criar, pois de outra maneira ela seria ruído, estrondo.
o amor é um cão do inferno

Gostava de escrever textos mais sérios do que aquele que agora vão ler. Gostava de escrever textos que levantassem questões filosóficas, que reflectissem dilemas existenciais profundos e coisas desse género. Mas a vida, quanto a mim, é uma comédia pegada, embora exista a tendência para levá-la muito a sério. Eu próprio faço isso: levo a vida demasiado a sério. Gostava de ser mais relaxado, não ser tão pessimista, catastrofista, derrotista. Gostava de todos os dias acordar de manhã e dizer: ora aí está um belo dia. O problema é que acordo com um humor pouco aconselhável. Não consigo evitar. Se há coisa que me aborrece é levantar-me para ir trabalhar. Já que estou numa de confessar-me, não gosto muito de trabalhar – embora o faça com gosto. Às vezes os alunos é que sofrem um pouco com o mau humor logo às oito e meia da manhã, mas penso que no fundo entendem esse mau humor. Eles, às vezes, também vêm com mau humor e eu aturo-os. Ficamos quites.

