Da aprendizagem

Uma aluna do 1º ano vira-se para mim e pergunta-me: «Senhor professor, por que é que dizem que uma palavra não existe se nós a estamos a dizer?»



Cowbuoykowsky


Quando eu penso no Charles Bukowsky, penso num cowboy.

Penso, em seguida, num sheriff a entrar, resoluto, num saloon e a exclamar em tom de tiro, como quem já não distingue a garganta do gatilho:

“Mãos ao ar!”


E o cowbuoykowsky responder, resoluto, e até reverente, à ordem do agente da autoridade.


Fixo-me nas mãos do maldito.


E vejo:


um polegar pendido para baixo, a condenar a ordem natural das coisas com inflexibilidade de César,


um indicador esticado, bem esticado, habituado ao gesto dito feio de apontar o que é feio,


um dedo do meio, erguido e erecto como se quer um manguito,


um anelar a não fazer jus ao nome de baptismo, pela recusa ao absurdo que representa a aliança com o alheio,


um mindinho com uma ponta de cera ou um macaco nasal.

Não é o futuro, meus magos de merda, que está escrito nas mãos, mas sim o passado e o presente de um homem, o seu património pessoal e inalienável.


o amor é um cão do inferno


Sem rodeios

Ontem sentei-me decidido a traduzir mais alguns poemas de Charles Bukowski. Sentia-me bastante predisposto. E para traduzir Charles Bukowski é necessário estar bastante predisposto. Não é fácil entrar no mundo bukowskiano; como depois não é fácil sair dele. Uma vez tentei fumar um maço de cigarros, beber muita cerveja, engatar uma gaja, ir para a cama com ela e depois traduzir alguns poemas. Mas nem engatei uma gaja, nem traduzi um único poema. Tal não aconteceu pelo facto de estar bêbado, mas sim pelo facto de o mundo de Charles Bukowski ser mais que cigarros, bebida e quecas. Pensar que a escrita de Bukowski é só isso, é seguir o caminho mais fácil. Se a escrita de Charles Bukowski fosse apenas bebida, cigarros e quecas, ela teria muito menos leitores. Charles Bukowski escreve a vida, com todas as suas coisas boas, menos boas, más e mesmo más. Não vou dizer que é a vida que os leitores de Charles Bukowski procuram nos seus livros. Talvez muitos procurem mesmo os cigarros, a bebida e as quecas, tentando escapar às suas vidas rotineiras, chatas e aborrecidas. Talvez Bukowski seja a válvula de escape. Mas não sei se ela existe. É que por entre os cigarros, a bebida e as quecas, encontra-se a vida pura e crua, sem paninhos quentes. Ela está lá: pronta a esbofetear-nos, a dizer que não passamos de meros homenzinhos. A vida. Sem rodeios.

O meu país é o que o mar não quer

Se Ruy Belo fosse vivo faria hoje 75 anos. E hoje, para comemorar o aniversário do poeta, Henrique Manuel Bento Fialho estará em Rio Maior para falar sobre a poesia de Ruy Belo. A sessão deverá ocorrer às 16:30, na Biblioteca Municipal, após a inauguração de uma exposição sobre o autor de Toda a Terra. Será também apresentado um prémio de poesia, atribuído pela Câmara Municipal de Rio Maior, que terá Ruy Belo como patrono.


A Casa
por Maria João L. Fernandes





Mª João L. Fernandes, a casa, técnica mista s/ papel, 30x21cm, 2008.

o amor é um cão do inferno

Avaliação

Esta semana levei o meu primeiro raspanete enquanto professor contratado e não inserido na carreira docente. Esqueci-me de cumprir uma actividade que tinha sido acordada em Departamento e que faz parte da planificação anual. Até aqui tudo bem. Mereci o raspanete. Nem procurei, sequer, justificar-me: esqueci-me, não cumpri, desleixei-me, mereço repreensão. Justo. Só não gostei da parte em que me foi dito que «devia ter mais cuidado, pois nesta altura do campeonato…». Fica subentendido que “campeonato” é a Avaliação do Desempenho. Esse Papão. Começo a sentir na Escola, depois de muita indignação inicial, uma vontade enorme de começar a avaliar. Nada é mais afrodisíaco que o Poder – nem que seja o Poder mais insignificante – e é bem verdade. Toda a gente foi contra a divisão da carreira docente em dois grupos: professores titulares e professores. Mas alguns começam a puxar dos “galões”. E eu só tenho é que dar os parabéns ao Governo. Bem vistas as coisas os professores são quase 150 mil. Se batessem o pé todos ao mesmo tempo, os sismógrafos assinalariam um pequeno terramoto. Mas, desta maneira, não há ninguém que bata o pé, a não ser, talvez, para espezinhar quem está por baixo.


Nada de novo

Procurai a minha face talvez não seja o melhor livro para começar a ler John Updike (1932). O autor dispensa apresentações, pois é um dos mais representativos autores norte-americanos do século XX, criador da famosa série “Coelho” (Rabbit, Run; Rabbit Redux; Rabbit Is Rich; Rabbit At Rest; Rabbit Remembered).

John Updike, em Procurai a minha face, deambula pelos meandros da Arte (essa coisa que é para muitos ainda incompreensível, misteriosa e superior), concentrando-se num período muito específico da Arte Norte-americana: o Expressionismo Abstracto e tudo aquilo que lhe seguiu, nomeadamente a Pop Art. É claro que todos os nomes dos pintores que surgem no livro são ficcionados, no entanto, há duas personagens que são colagens completas de dois pintores daquele período: Jackson Pollock (Zack) e Andy Warhol (Guy). O próprio autor, numa nota introdutória ao romance, indica que o mesmo é uma obra de ficção, mas que tem por base dois livros: «Este livro é uma obra de ficção […] No entanto, seria impossível negar que um grande número de pormenores procedem [sic] do admirável e exaustivo Jackson Pollock: An American Saga, […] ou que algumas declarações dos meus artistas ficcionais estão estreitamente relacionadas com as recolhidas em Abstract Expressionism: Creators and Critics» (pág. 5).

O livro, em certos momentos, revela ser mais uma obra de investigação do que de ficção. O único momento em que John Updike consegue alguma tensão é no discurso entre as duas personagens: Hope e Kathryne (entrevistada e entrevistadora). Existe um conflito lactente entre as duas, que se vai suavizando à medida que a acção decorre, onde Hope, cansada de estar sempre a dizer a mesma coisa aos jornalistas, procura o lado mais íntimo de Kathryne, tentando (talvez) encontrar nela a juventude que há muito perdeu. Tudo o resto é um mero recontar de um período histórico, que não deixa, contudo, de ser interessante. Mas John Updike não traz uma única ideia nova sobre Arte, uma única ideia sobre os artistas em questão.

É um livro a ler, não por aquilo que traz de novo (não traz), mas sim pelo prazer de ler. A maneira como John Updike escreve também ajuda bastante: uma escrita leve, fluente.

John Updike, Procurai a Minha Face, Porto: Civilização, 1.ª edição, 266 pp.

Charles Bukowski
SHAKESPEARE NUNCA FEZ ISTO



[A 22 de Setembro de 1978, Bukowski apareceu no então conhecidíssimo programa televisivo francês Apostrophes, da responsabilidade de Bernard Pivot, que junta aí uma mostra daquilo que ele entendeu ser naquela altura os En Marge de la Société. Conceito já de si basto duvidoso – a “margem”, os “marginais” –, para classificar uns intelectuais menos notórios numa sociedade de mercado, digamos, pelo que nos foi dado ver, que Pivot se serviu descaradamente do escritor americano em visita pela Europa como chamariz para promover certa franja da cultura francesa. Adiante, traduzindo o testemunho escrito por Bukowski, que temos do sucedido, irei intercalando dentro de parêntesis rectos comentários ao texto advindos do visionamento desse programa, hoje em dia disponível em suporte digital.]

[…] Sábado à noite eu deveria aparecer num programa de televisão muito conhecido, de difusão à escala nacional. Tratava-se de um talk show literário que durava 90 minutos. [Foram apenas 75 minutos, como se pode comprovar pela edição em DVD: John Dullaghan, Bukowski (extras), Wild Side Video, 2004.] Pedi que me fornecessem 2 garrafas de um bom vinho branco para ir bebendo enquanto estivesse no ar. Entre 50 a 60 milhões de franceses viram o programa.
Comecei a beber ao fim da tarde. A seguir, do que me lembro, lembro-me de eu, Rodin [o editor francês que pagou a vinda de Bukowski à Europa] e Linda Lee [então companheira do escritor] caminharmos pelo meio de seguranças. Depois, sentaram-me à frente do maquilhador, que me encheu de pós, logo derrotados pela gordura da minha cara e pelos buracos na pele. Uma olhadela rápida, e viu-se livre de mim. E ali estávamos nós em grupo à espera que se desse início à transmissão. Desrolhei uma garrafa e dei um trago. Nada mau. Havia 3 ou 4 escritores e o moderador. E ainda o psiquiatra que submeteu Artaud aos electrochoques [Gaston Ferdière]. O moderador, ao que se diz, era um tipo famoso em toda a França [Bernard Pivot], a mim não me pareceu grande coisa. Ali sentado ao meu lado não parava de tremer o pé. “Que é que se passa?”, perguntei-lhe. “Está nervoso?” Nem me respondeu. Enchi-lhe um copo de vinho e pus-lho diante do nariz. “Tome, beba um pouco… vai assentar-lhe no bucho…” Acenou-me que não, com desdém.
E estávamos pois no ar. Na minha orelha haviam posto uma ligação através da qual ouvia o francês traduzido para inglês. Também eu ia sendo traduzido para francês. Como convidado de honra, o moderador começou por mim. Foi esta a minha primeira intervenção: “Conheço inúmeros grandes escritores americanos que gostariam de estar agora aqui neste programa. Pelo que me diz respeito, não lhe dou assim tanta importância…” Nisto, o moderador rapidamente passou a palavra a outro escritor, um velho liberal [Marcel Mermoz, na verdade anarquista autogestionário] que fora traído vezes sem conta, mas que nunca perdera a fé. Não professando eu qualquer política, disse ao velhadas que o achava com boa cara. Falou, falou, falou… o costume.
Seguiu-se então uma escritora. O vinho encantava-me, por isso não tenho bem a certeza acerca do que escrevia ela, mas julgo ser animais, a senhora escrevia histórias com animais. [A Bukowski, no meio dos eflúvios do álcool, não lhe terá passado despercebida a mediocridade de doméstica convencida patenteada pela escritora Catherine Paysan…] Disse-lhe que se me mostrasse um pouco mais as pernas talvez eu conseguisse dizer se ela era boa escritora ou não. [Efectivamente, a meio do programa é-nos dado ver o nosso estimado escritor meter as mãos pelas saias da escritora acima. É um momento artístico histórico, só comparável, uns anos mais tarde, à viva proposta de querer fodê-la, que Serge Gainsbourg faz em directo na televisão, também francesa, a Whitney Houston.] Ela não quis. O psiquiatra que sujeitara Artaud aos electrochoques não tirava os olhos de mim. Outro começou a falar, um escritor francês com uma bigodaça enorme. [Cavanna, que, sendo o responsável pelo atrevido jornal humorístico Charlie Hebdo, e muito libertário e muito libertino – de pacotilha, claro! –, foi cúmplice de Pivot em fazer Bukowski estar quedo e mudo.] Não disse nada, mas nunca mais se calava. As luzes tornavam-se intensas, de um amarelo viscoso. Eu morria de calor sob os projectores. Só me lembro, a seguir, de me encontrar em plena rua de Paris sob um estrídulo e contínuo rugir alucinado à minha volta por todo o lado. Devia haver nas ruas uns dez mil motociclistas. Pedi que me levassem a ver as miúdas do cancã, mas arrastaram-me para o hotel com a promessa de mais vinho.

Na manhã seguinte fui acordado pela campainha do telefone. Era um crítico do Le Monde: “Formidável, seu malandro”, disse ele, “os outros que lá estavam nem sequer se masturbam…” “Que é que eu fiz?”, inquiri. “Não se recorda?” “Não.” “Pois só lhe digo que não há jornal que tenha escrito o que quer que seja contra si. Já é altura da televisão francesa mostrar algo de honesto.”
Após o crítico ter desligado virei-me para Linda Lee: “Que é que aconteceu, amor? Que fiz eu?”
“Bom, apalpaste as pernas à senhora. E depois desataste a beber pelo gargalo da garrafa. Disseste umas coisas. Interessantes, pelo menos no início. Depois o tipo responsável pelo programa não te deixava falar. Pôs-te a mão na boca e dizia Chiu! Cale-se!”
“Ele fez isso?”
“Rodin estava sentado ao meu lado e não parava de dizer-me: Mande-o calar! Mande-o calar!… Vê-se que não sabe como tu és. Por fim, tiraste o auscultador da tradução, deste um último golo de vinho e foste-te embora do programa.”
“Coisas de bêbado.”
“Depois, quando chegaste perto dos seguranças, agarraste um deles pelos colarinhos. E puxaste da tua navalha, ameaçando tudo e todos. Ficaram na dúvida se não estarias a sério. Mas acabaram por se aproximar de ti e puseram-te na rua.” […]
[O mais extraordinário, neste sucesso de acontecimentos, foi Bernard Pivot, um pivot com fuças de Mister Bean, logo à partida haver caracterizado Charles Bukowski, para uma audiência certamente de cagões franceses, como “obcecado sexual e alcoólico”. O mote, portanto, estava dado. Daí para a frente… só se perderam as que caíram no chão.]

[Charles Bukowski, Shakespeare Never Did This: São Francisco, City Lights Books, 1979;
tradução e comentários de Paulo da Costa Domingos]




As Palavras

Parece que são as palavras que José Socrates mais utiliza no seu discurso. No entanto, Rui Bebiano refere que o mais importante não são as palavras mais utilizadas, mas sim aquelas que estão ausentes: «cultura», «ensino», «educação», «desemprego», «mulheres», «lusofonia, «democracia», «solidariedade», «igualdade» e «socialismo».

Doze palavras e algumas explicações

Aceitando o desafio do Eduardo Graça e do GAF, aqui ficam as minhas doze palavras e algumas explicações.

Antanho (não conheço palavra mais rídicula para definir algo que é velho ou antigo ou fora de moda); Burgesso (penso que há sempre alguém a pensar isso de nós); Derrancada (gosto da palavra e gosto que uma gaja seja, principalmente para a brincadeira); Escatológico (uma palavra que me soa bem ao ouvido); Esperma (no fundo, é a base de tudo, não é?); Exíguo (não consigo justificar a escolha); Externocleidomastoideu (digam lá que não é linda!); Pachorra (porque falta muitas vezes); Prevaricar (pois penso que é a função de todo o poeta e homem de letras); Proxeneta (já pensei em ser isso); Tagarela (palavra muito usada na minha infância para me caracterizar); Tretas (eu preferia tetas, mas foi o que se conseguiu arranjar).

Aos leitores

Se te apanhasse a jeito enfiava-te um balázio. Eu sei que não te conheço. É melhor assim. Adorava ver os teus miolos espalhados pelo chão ou pelo tecto ou pela minha camisa. O sangue é coisa que não me assusta, desde que não seja meu. Pena que não tenho uma arma à mão de semear.

Aviso à navegação


Este não é um blogue de referência.


Lí por aí

«Nas unidades de medida, não valer um chavo é muito mau. Não valer um peido, é péssimo. Mas não valer um caralho, pode ser fatal.»

Mário Calado Pedro, em O Paralógico de Picoas

Imposto

Se o sono pagasse imposto hoje andava todo carimbado. Eu sei que é um cliché. Mas o sono que sinto não.

Bukowski
por André Moura e Cunha

Henry Charles Bukowski (1920-1994), ou Henry Chinaski? Confundo-os e não foram feitos para confundir. São uma só entidade. Hank é o assombroso produto de criação de um poeta indigente e o ideador do seu eu, que sem rodeios e adornos literários denuncia a indigência intelectual da sociedade americana que lhe foi contemporânea. Henry Chinaski não é um pseudónimo de Charles Bukowski, é o seu alter-ego, é, em suma, o receptor no papel das suas atribulações autobiográficas: vagabundo, alcoólico, boémio, profundamente misantropo e fodilhão inveterado. Conheci-o em A Sul de Nenhum Norte (ed. Relógio D’Água, 1997; South of no North, 1973), continuei com Mulheres (ed. Dom Quixote, 2001; Women, 1978), e vou prosseguindo com a poesia, especialmente as versões de manuel a. domingos. Bukowski é um homem em fuga ao arquetípico, um selvagem que não renega a sua natureza, ao invés ajavarda-a sem mágoa, e sem ponta de orgulho. É um refractário na sua acepção mais pura e sublime, que o diga Sartre, o sobranceiro existencialista. Em 1964, Sartre recusou o Nobel da Literatura alegando a institucionalização dos seus escritos como principal motivo e que as grilhetas intelectuais jamais o deixariam produzir em liberdade. Todavia, há quem tenha interpretado este acto de recusa como uma eminente exacerbação da sua vaidade pseudoproletária, corolário do seu ego inflado. Sartre era um revolucionário pelas palavras e actos, um agitador social com estranhas amizades. Um dia afirmou que Bukowski era o maior poeta americano vivo. Este, no entanto, recusou-se a participar num proposto rendez-vous com o inefável pensador francês, mandando dizer que tinha de cuidar de uma garrafa. Este é o lado encantador de Bukowski, o eterno irreverente e destruidor de convenções e de ufanos intelectualismos. Acima de tudo, por mais paradoxal que possa parecer, era um purista, um autor que se movia apenas pela criação artística. É classe. Um fabuloso exemplo: Em A sul de nenhum norte, Chinaski desafia Hemingway para um combate:
«Levantei-me e subi lentamente a coxia. Ergui o braço e toquei ao de leve no flanco de Hemingway.
– Sr. Hemingway…?
– Sou, o que é?
– Gostava de trocar uns socos consigo.
– Tens alguma experiência de boxe?
– Não.
– Vai ver se aprendes alguma coisa primeiro.
– Eu estou aqui para o correr aos pontapés.
[…]» (pp. 107-108)
Chinaski acaba por derrotar o velho Ernie – carinhoso petit nom usado por Chinaski quando se dirige a Ernest Hemingway – por KO e enquanto este último se mantém inconsciente é convidado por um crítico do The New York Times para publicar os seus contos. Ernie parece querer despertar do doloroso entorpecimento induzido:
«Vesti-me e, nessa altura, Ernie recuperou os sentidos.
– Que raio se passou? – perguntou ele.
– Sr. Hemingway, encontrou um homem bastante bom pela frente – disse um tipo.
Acabei de vestir-me [Chinaski] e dirigi-me à mesa onde ele [Ernie] estava deitado.
– Você é bom, Pai Hemingway. Não se pode vencer sempre – disse eu, apertando-lhe a
mão. Não estoure com os miolos.» (pág. 111)
O conto chama-se “Classe”...

Roleta Russa

Santana Lopes tenta explicar-se na televisão. A jornalista não lhe dá tréguas. O homem é sabido e começa a disparar para todo o lado, tentando desesperadamente evitar as questões certeiras da jornalista. A polémica só ainda vai no adro e já todos nós sabemos naquilo que vai dar: em nada. E Santana Lopes lá vai conseguindo manter-se à superfície. Ele e os outros.


O Evadido

Já não me recordo muito bem como foi, mas deve ter sido mais ou menos assim: vi Barfly (1987), de Barbet Schroeder, com Mickey Rourke no papel de Henry Chinaski. Fui imediatamente assaltado por uma insaciável curiosidade acerca daquele escritor que passava a vida nos copos, à porrada nas traseiras de botequins decrépitos, vivendo como quem aposta todos os dias a própria vida. E, se bem me recordo, foi aquele pormenor dos poemas soltos, vagueando ao ritmo da desgraça pelas vielas das cidades, em folhas dactilografadas ou manuscritas, caídas na sorte ou no azar de quem lhes pegasse, foi esse pormenor, dizia, que me atiçou ainda mais a curiosidade: afinal, quem seria Henry Chinaski? Vim a saber, então, tratar-se do alter-ego do escritor Charles Bukowski (1920–1994), um alemão emigrado nos Estados Unidos da América (do Norte) a quem calhou, vá-se lá saber se por destino ou por opção, a missão de nos iludir com a senda dos malditos. Insere-se naquele grupo vasto de escritores que cativam pela recusa da normalidade, ou, se preferirem, pela incorporação de tudo o que possamos julgar à margem da lei e no limite da sanidade. Mas falemos de literatura. Que há nos livros de Bukowski que possa interessar tanto, pelo menos tanto, quanto interessa o folclore da sua vida? Talvez a resposta se encontre, precisamente, no primeiro livro que lhe li: «Eu escrevo ficção.» / «O que é ficção?» / «Ficção é um aperfeiçoamento da vida.» (Mulheres, Trad. Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 1992) Não estranhem se não encontrarem na crueza da escrita deste autor, uma crueza sempre tão colada ao que alguns chamarão, sem estarem cientes do que isso seja, de realidade, não estranhem se não encontrarem nessa crueza um qualquer sinal de aperfeiçoamento. Não é fácil encontrá-lo, pois ele esconde-se por detrás de uma aparente nudez. Essa nudez, que tantos sublinham, é apenas o disfarce de quem descobriu estar irremediavelmente perdido dentro de si próprio, de quem se encontra, afinal, A Sul de Nenhum Norte, pois esse é o lugar de todos os que escrevem sem outro intento que não seja o de se entregarem à sorte ou ao azar das palavras. É um autor profundamente melancólico, este Bukowski. Se quiserem uma comparação mais rasteira, a sua escrita é como um strip-tease, há sempre nela aquele engano dos artifícios, aquele disfarce de um corpo débil por dentro, rijo por fora, perdido no imo, achado nos músculos, nos nervos, nos ossos, na carne. É o corpo intoxicado de quem cambaleia, a passos inseguros, para a segurança da morte. Poderão outros falar de niilismo, abjeccionismo, neo-decadentismo, etc, etc, etc… para mim, toda aquela violência será sempre uma outra forma de evasão. Uma evasão sem rumo, certa da sua inutilidade, mas ainda assim uma evasão.

Uma noite que nunca mais acabava


O meu pai teve a sorte de cumprir o serviço militar em Alverca, numa altura em que os rapazes da idade dele iam para as ex-colónias. Em Fevereiro de 1968 o meu pai estava em Alverca. Foi mobilizado para socorrer as vítimas das cheias. Só o ouvi falar disso duas vezes. E dessas duas vezes há dois episódios que me ficaram na memória. O primeiro refere-se à incapacidade do meu pai, e dos seus companheiros, de salvar quem gritava na noite, quem pedia ajuda no meio do escuro, no meio da corrente forte que as levava. O segundo episódio contou-me o meu pai ainda há pouco tempo. Passado uma semana das cheias o meu pai andava num grupo destacado para limpar a pista aérea da base de Alverca. No meio da lama é encontrado um corpo: uma jovem rapariga abraçada a um tronco de árvore. As cheias de 1968 foram há 40 anos. O número total de mortos ainda hoje é incerto. Na televisão passou um documentário. Sei que o meu pai não o viu.

Fim-de-semana

Neste preciso momento estou a passear. Caldas da Rainha foi o local escolhido. Já gastei dinheiro em livros (como se não tivesse livros em casa para ler). Uma primeira impresão sobre a cidade: muitos jovens a percorrer as ruas como se o correio tivesse chegado. E, se calhar, chegou.

Bach ou o silêncio (6)

Não é estranho afirmar que a música de Bach tem uma forte componente teológica. Arrisco-me a chamá-la de teomúsica. Toda ela foi escrita para o Homem comunicar com o Divino, para estar mais próximo dele. Pensemos num exemplo: A Paixão Segundo São Mateus, BWV 244. Baseada nos capítulos 26 e 27 do evangelho de São Mateus, ela procura retratar os últimos dias da vida de Cristo, o seu sofrimento. Mas Bach (em todo o seu génio) vai mais além. Ele procura colocar o Homem em contacto directo com o Divino, transformando a sua música no veículo que permite esse contacto. Ela é, em certa medida, a única linguagem que Divino e Homem entendem e conseguem utilizar. Sem ela só haveria ruído.

Correntes d'Escritas

Quem estiver interessado no assunto é seguir aquilo que o Luís Filipe Cristovão vai escrevendo aqui.

Garganta é muito bonita, mas é para quem pode!

Gosto de mulheres que usam fato com corte masculino nos casamentos. Não sei a razão. Só sei que gosto. Não é por nada mas ficam muito giras. Ou melhor: boas. Muito boas mesmo. Apetece agarrá-las, encostá-las a um parede, não dizer nada ao ouvido e, simplesmente, beijá-las na boca. Sem mas nem meio mas. É claro que tudo isto só me é possível num texto. Na vida real as coisas funcionam de maneira diferente. Em primeiro lugar: não vou a muitos casamentos – e tento safar-me sempre que me convidam. Em segundo lugar: poucas são as mulheres que usam fato com corte masculino em casamentos – pelo menos àqueles que fui. Em terceiro lugar: nunca seria capaz de encostar uma mulher a uma parede sem antes levar com uma joelhada nos tomates – um dia experimentei e foi o que me aconteceu, para além dela bater com demasiada força na parede (agora que me lembro… talvez tenha sido essa a razão da joelhada).


o amor é um cão do inferno


O meu Bukowski
por Luís

Adoptei o meu semblante pensativo e principiei a profunda reflexão que o Manuel me encomendou. Não cheguei a qualquer conclusão. Também eu sei pouco sobre o Bukowski. O único Bukowski que conheço é o meu Bukowski, aquele que inventei em cada vez que o li. O meu Bukowski levanta-se às sete da manhã, come uns bocados de pão empapados em leite com café e deixa o nascer do sol por detrás de uma janela imaculada reflectir-se-lhe nos olhos; depois senta-se numa cadeira de madeira velha e escreve, disciplinado, das oito e meia ao meio-dia e meia, aproveitando esse espaço de tempo para dar a vida ao seu alter-ego e viver o que na verdade nunca se dispôs a viver. O Bukowski que inventei é um pateta triste, cansado e com preguiça de viver, que escrevia porque escrever é o mais fácil de fazer quando a vida é uma merda; disfarça a coisa. O meu Bukowski estava tão obcecado com a insignificância da vida que só escrevia sobre ela - dizem que os escritores só falam do que conhecem. As fodas, as matronas, as cervejas e os tremoços são só a fachada; dentro da casa havia o grande vazio. Não corresponde à verdade? Pois à boa maneira Chinaskiana: que se foda.

Quando tentativas pedagógicas nos podem dar um pontapé no cu

Um colega de Matemática conta que começou a ensinar hoje a ler números elevados à potência. Começou com 2 ao quadrado, 3 ao cubo, e depois 4 à quarta. Disse: pensem agora nos dias da semana. E os alunos entenderam: cinco à quinta, seis à sexta. Até que chega 7 à sétima e alguém diz: sete ao sábado.

Bach ou o silêncio (5)

Bach está para a música como Newton e Einstein estão para a Física. Sinceramente, não sei se já vi isto escrito em algum lugar. É provável que sim. Não consigo conceber as descobertas de Newton ou Einstein sem inspiração Divina – seja lá o que isso for. Com a música de Bach é a mesma coisa. Ninguém fica indiferente, por exemplo, a qualquer uma das suas cantatas. É humanamente impossível. Nessa impossibilidade reside o Divino em Bach, na sua música. Talvez seja uma mera suposição. Mas há algo que nos ultrapassa quando ouvimos Bach, que não é explicável nem inexplicável, que simplesmente é. E tudo aquilo que é ultrapassa-nos, projecta-nos para um outro patamar, onde Homem e Divino se encontram, tocam, são. E a música de Bach tem a capacidade de ser.

Nada sei de Charles Bukowski...

Nada sei de Charles Bukowski. Impressionou-me, ao ler um romance dele, como o que me contava (infinitas combinações e variações sobre o trinómio leituras-bebedeiras-foda) era tão repetitivo e, simultaneamente, tão fascinante. Mas havia algo mais por dizer. Bukowski não se esgotava, havia uma inquietude atrás de tudo o resto. Li a dada altura, a propósito disto, que ele foi a sua personagem, uma mentira, alguém que inventou e representou o papel de si próprio com consciência no seio de uma cultura pop em que o escritor é figura de entretenimento como outra qualquer. Mas não há no que ele escreve nada de sensualista ou de prazeroso - o hedonismo de Bukowski esmaga qualquer ligeiro indício de prazer. Mesmo que fosse fachada tudo ou algo menos do que tudo, não se pode simplesmente expulsar da memória quem com tão grande desplante espremeu o desconforto, o incómodo de ser pessoa contra a cara de quem o lia. Isso é importante para mim, a noção de que a criação do texto implica uma destruição (do narrador, do autor, da personagem, do próprio texto). O corpo de Henri Chinaski, homem, dói sozinho. É uma afirmação importante, um existencialismo bastardo, sem escola e reverências. Mas Bukowski é também, acima de tudo, uma solidão (este é mesmo um exemplo mais caricato) que pensava sobre a escrita. Por isso é que não gosto de simplificar demasiado. O trinómio não o era por si, mostra que Bukowski era um pensamento obcecado com o facto de ter um corpo. E uma dor, e uma verdade. Dito isto, nada sei de Charles Bukowski.

Cada um tem o que merece

É no mínimo deprimente estar para aqui a ler blogues e a escrever isto num sábado à noite, quando podia estar a fazer tanta outra coisa mais interessante e produtiva, como por exemplo ler um livro ou fazer um filho. Mas não: optei por me "ligar" a isto.

O vate

«O prémio tem prestígio, o júri é de peso, o poeta é consagrado, e colocar objecções ao seu processo de canonização passou a ser uma heresia. (...) Esta poeta-metaforização que se quer fazer passar por poesia - mas não passa de mera imitação de poesia - é um logro tão grande como a grandiloquência «kitsch» do vate presumido (...)»

António Guerreiro, «Prémio e castigo», Actual, 09/02/2008, p. 48.


Aconselho


A leitura deste texto.

Bach ou o silêncio (4)

Ao ouvir Bach penso que todo o Homem hesita entre a crença em Deus e a não-crença em Deus. Ou nos Deuses, se preferirem. Ou no Divino. Esta é, para mim, a principal característica da música de Bach: o contacto directo com algo que transcende o Homem, que lhe é superior, que o confronta com a sua pequenez, com a sua inequívoca (i)mortalidade. Os Concertos de Brandenburgo não são o melhor exemplo para esta minha divagação. Foram, no entanto, a primeira obra de Bach que ouvi. Até aquela altura julgava que todo o Barroco era um amontoado de exageros, superficialidades, devaneios que não levavam a lugar nenhum. O que só prova a minha ignorância. Ora os Concertos de Brandenburgo foram uma revelação, uma manifestação de um Poder que, até então, acreditava não existir. Com essa primeira audição instalou-se em mim a dúvida, a hesitação.

Micro #47

Antes de se lançar daquele 12º andar pensou: valerá mesmo a pena?


Micro #46


Ainda não estava escuro, mas ele sentia já a noite.


Terá Kafka lido Tolstoi?


Será que Kafka leu A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi, quando escreveu A Metamorfose? Posso estar a ver coisas onde elas não existem. Fique claro que não se trata de plágio. No entanto, há semelhanças entre as duas personagens: Ivan Ilitch e Gregor Samsa. Ambas se debatem com o absurdo da morte, com a incapacidade de continuar a viver a vida como até aí tinham vivido; são amadas pela família até que se tornam um fardo; as mortes são relativamente calmas, apesar do sofrimento existente.

Bukovskiano, mas pouco
por António Godinho

O Manuel lançou-me o desafio: escrever umas linhas sobre Bukowski. Pois bem. Juntei a reminiscência de leituras de juventude e a leitura atenta das excelentes versões do poeta maldito que o Manuel postou no seu blogue “O amor é um cão do inferno”. É opinião comum que há muita gente a escrever poesia, mas os verdadeiros poetas contam-se pelos dedos de duas mãos. Bukowski está, com toda a justiça, entre eles. Sem espinhas. Mas essa arrumação tem a ver com o poeta. Não com a sua obra. Não misturo quase nunca a biografia com o mérito artístico, mas tão só com a identidade literária. O universo do autor é o mesmo do protagonista do filme “Contos de Loucura Normal”, de Marco Ferreri (1981): uma deriva alcoólica e sexual, com algumas referências de prestígio e pouco mais. Será essa uma condição poética tão válida como outras menos heterodoxas? Absolutamente. Encerra momentos de altíssima qualidade literária? Com certeza. O problema está na escala reduzida com que celebra a vida. O deboche e o miserabilismo exponenciados pour épater le bourgeois foram recursos largamente usados pelo modernismo, mas que deixaram de fora as verdadeiras questões da modernidade. Habituei-me a desconfiar de roteiros poéticos hedonísticos e a valorizar o trabalho que se faz com o silêncio (Vd. Emily Dickinson), ou cujo desígnio é a verdadeira exaltação da existência (Walt Whitman). Em síntese, reconheço a importância do poeta, mas não faz decididamente parte da minha biblioteca.


Ó da Guarda!


Satyro Envelhecido

A Eugénio de Castro

Eu, que levei a vida sem cautelas,
do lascivo loureiro entre a verdura,
as ninfas contemplando e a noite escura,
viúva de luar, noiva d’estrelas…

e que senti, ao mesmo tempo que elas,
do seu corpo os espasmos e a brandura;
que fiz das suas tranças cobertura
que pudesse envolver-me e envolve-las…

eu, que até da paisagem tinha ciúme,
e do Poente – onde morria o lume
dos seus olhos famintos de desejos –

fui desprezado, fui abandonado!
Mas porquê? Qual seria o meu pecado,
se nunca me cansei de lhes dar beijos?


Valdemar da Silva Lopes (1898-1946): nasceu em Pinhel, distrito da Guarda. Era médico de profissão.

Bach ou o silêncio (3)


Por exemplo: as Suites para Violoncelo. É nas pausas, nos silêncios, que mais vezes ouvimos o violoncelo respirar, recuperar o fôlego. Diz-nos algo que está para lá das palavras (que Bach me perdoe o cliché). Há uma Voz que nos diz que não devemos ter medo, que tudo irá correr bem. Essa Voz só pode ser concebida através da música. É aí que reside toda a grandeza de Bach: nessa Voz que só a música pode criar, pois de outra maneira ela seria ruído, estrondo.

06/02/1608

«Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor: Ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há-de parar, amando.»

Padre António Vieira, «Sermão do Mandato», Sermões Escolhidos, Lisboa: Editora Ulisseia, 2ª edição, 1984, p. 140.

Budweiser

O Manuel lançou-me um repto: escrever sobre o Bukowski. Eu agradeci o repto, porquanto agradeço sempre tudo o que me lançam (calhaus incluídos) e, assim por assado, prefiro um repto a um rapto (o que também não seria despiciendo, não fora a conjuntura de jamais passar pelo cortéx a alguém das minhas relações próximas ou agregado familiar pagar o resgate ou embarcar numa missão de salvamento tipo Rambo parte final-que-afinal-ainda-não-é-bem-bem-desta-que-é-a-final – a qual, aliás, segundo avançam as más-línguas, está muito boa, refogada com muita cebola, muito alho e muita polpa de tomate a temperar toneladas de chicha centrifugadas pela bazuca). Mas ia aonde, eu? Ah sim, o Stallone. Não, não era nada disto. Ou era? Estava a brincar. Pois, o triste é eu não ter peva a dizer sobre o Bukowski, ou melhor, nada de mais relevante do que ter-me sido apresentado quando somava para aí dezassete primaveras por um mano guedelhudo que ainda bebia, fumava e fodia mais do que o próprio Bukowski, que me impingiu o “A Sul de Nenhum Norte” em troca de meio conto de chamô e um CD das Babes in Toyland, do Bukowski ter-se tornado, durante cerca de seis meses, o meu escritor favorito somente e apenas derivado ao facto de ninguém das minhas relações próximas ou pertencente ao meu agregado familiar sonhar sequer quem era o Bukowski (na melhor das hipóteses, replicavam que haviam-no praticado em Andorra nas últimas férias da Páscoa, razão que explicava a entorse no joelho) e constituir, portanto, argumento suficiente para me armar em cão com pulgas, do Bukowski possuir como referências literárias tipos que (vá lá alguém entender este mundo) culminaram no meu próprio rol de referências, e, o mais importante de tudo, me incutir aquela vaga impressão de não escrever nada de especial e, ainda assim, escrever muito melhor que eu e a maioria dos escribas que conheço. Por exemplo: de certeza que o gajo cumpria esta merda à risca sem infringir o limite das 300 palavras, algo que, temo bem, acabo de fazer, além de não dispensar - no intervalo de escrever algo sobre si próprio - a sua jola e a sua foda, enquanto a mim, a única coisa que me fode é padecer de uma hérnia discal em plena refrega dorso-lombálgica, mal poder do costado e ir agora mamar a terceira dose de anti-inflamatório.

Bukowskiano

Lembrei-me de iniciar aqui uma série dedicada a Charles Bukowski. Ela começa com um texto de Miguel Marques. Boas leituras.

Fiquem lá sossegados

Terça-feira gorda cá em casa é dia de Cozido à Portuguesa regado com um bom tinto cá da terra – que depois vem o jejum da Quaresma. Como o meu estômago e a minha vesícula não são para grandes brincadeiras, tenho que ter algum cuidado com os abusos. Mas como dias não são dias hoje o estômago e a vesícula vão ter que se arrumar a um cantinho e ficarem muito sossegados.

Lí por aí

«Porque eles não foram apenas republicanos extremistas e exaltados, ou pobres franco-atiradores de pendor anarquista, mas sim visionários maximalistas – como tantos outros na Europa do seu tempo –, que as circunstâncias da vida haviam transformado em adeptos da utopia de um mundo melhor que previa o inevitável fim dos reis e príncipes, símbolos físicos de um poder que entendiam promover a iniquidade. É fácil condená-los sem apelo ou transformá-los em mártires, como tem sido feito por estes dias, mas dará algum trabalho compreender a dimensão intensa, ainda que efémera, das suas certezas.»

Rui Bebiano, em A Terceira Noite


o amor é um cão do inferno


o amor é um cão do inferno vai crescendo. Depois das versões de poemas de Charles Bukowski espalhados por aí – não se sabendo ao certo se estão bem transcritos (e, já agora, bem traduzidos) – passaram a ser transportados para português poemas de livros editados pela Ecco, uma subsidiária da HarperCollins Publishers. A possibilidade de confrontar com o original torna-se impossível, ou melhor, dá um trabalho do caraças, para ser sincero. Foram já transportados para português poemas dos livros Love Is a Dog From Hell (1977) e Come On In! (2006). A partir de hoje começarão a ser publicados poemas dos livros The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills (1969), War All the Time: Poems 1981-1984 (1984) e The Roominghouse Madrigals: Early Selected Poems 1946-1966 (1988). Espero que continuem a merecer a Vossa leitura.


Bach ou o silêncio (2)

Deixei de acreditar na existência de Deus. Os filósofos que estudei também não ajudaram muito. No entanto, sempre que ouço Bach essa minha não-crença desvanece. Quanto a mim é impossível um homem ter escrito música tão bela sem uma ligação directa a Deus. Se Deus existe Ele está, sem dúvida, na música de Bach.


Ão Ão faz o Cão


O Cão faz hoje um ano.

Quites


Gostava de escrever textos mais sérios do que aquele que agora vão ler. Gostava de escrever textos que levantassem questões filosóficas, que reflectissem dilemas existenciais profundos e coisas desse género. Mas a vida, quanto a mim, é uma comédia pegada, embora exista a tendência para levá-la muito a sério. Eu próprio faço isso: levo a vida demasiado a sério. Gostava de ser mais relaxado, não ser tão pessimista, catastrofista, derrotista. Gostava de todos os dias acordar de manhã e dizer: ora aí está um belo dia. O problema é que acordo com um humor pouco aconselhável. Não consigo evitar. Se há coisa que me aborrece é levantar-me para ir trabalhar. Já que estou numa de confessar-me, não gosto muito de trabalhar – embora o faça com gosto. Às vezes os alunos é que sofrem um pouco com o mau humor logo às oito e meia da manhã, mas penso que no fundo entendem esse mau humor. Eles, às vezes, também vêm com mau humor e eu aturo-os. Ficamos quites.