Ontem só comi frango ao jantar. Sem acompanhamento. Não usei nem faca nem garfo. Soube bem comer com as mãos. Quando era pequeno o meu pai dizia que era comer à Robin dos Bosques. É claro que não foi a mesma coisa. Ontem preocupei-me com a gordura nas mãos e o cheiro que, por mais que lavemos, nunca chega a sair. Ontem tive consciência que, afinal, envelheci mesmo. Por exemplo: os impostos. Antes os impostos não faziam parte da minha vida. Não sabia o que eram. Não me preocupava com eles. Hoje preocupo-me. É sinal que envelheci. O curioso é que dizem que a população portuguesa está cada vez mais envelhecida, embora não se paguem – como se deviam pagar – impostos.
Ela não era muito alta mas tinha umas boas pernas. O cabelo escuro dava-lhe pelos ombros. Só mais tarde é que me disse que o pintava, que a sua cor natural era o castanho claro, mas que andava farta de ouvir as pessoas dizerem que ela era loira.
Achei piada.
Tinha mesmo que arranjar uma mulher e deixar-me de filosofias baratas, apesar de algumas mulheres gostarem de filosofias baratas. Só assim se entende o facto de L. ter namorada. Se há alguém que tem filosofias baratas é ele. E vai safando-se no que diz respeito às mulheres e não só: tem um trabalho melhor que o meu, onde ganha mais que eu.
Nunca fui muito de andar por aí no engate. Isso talvez explique o facto de não me lembrar da última vez que estive com uma mulher. Não me lembrar é exagero. Só não recordo o nome. Estava demasiado bêbado na altura. Sempre tive tendência para engatar gajas quando estou com os copos. E engatar gajas que também estão com os copos. O sexo continua a ser bom. O pior são as coisas que se dizem.
Um gajo quando está com os copos diz tudo para agradar uma mulher. Elas sabem isso. Gostam de ouvir as nossas mentiras. Penso que lhes dá prazer ouvirem um gajo esforçar-se para conseguir levá-las para a cama. Isso excita-as. O pior é que algumas, às vezes, pensam que é verdade aquilo que um gajo lhes diz e depois é o cabo dos trabalhos para nos vermos livres delas. Vêm com aquela conversa tipo mas tu disseste. E por mais que um gajo diga que estávamos bêbados: elas insistem.
Ó da Guarda!

Depois digam que não avisei #8
«De quem?», perguntei.
«Da minha namorada. Quem havia de ser!»
«Calma!»
«Calma! Tu pedes calma?», estava mesmo exaltado, «Vão dois meses sem nada e tu pedes calma? Não aguento mais. O pior é que fui jantar fora com ela, como tu disseste. Um restaurante à maneira. Deixei lá os olhos da cara e nada! Rico conselho o teu!»
«Agora a culpa é minha?»
«Não foste tu que disseste para levá-la a jantar fora?»
«Depois de tu teres insistido bastante para eu te ajudar. E lembro-me que na altura não consideraste a ideia viável do ponto de vista financeiro.»
«Rica ajuda!», insistiu.
«Ora bolas!», respondi-lhe, «Eu bem disse que não me queria meter. E tu próprio disseste que jantar fora era muito caro…»
«… e foi.»
«Então por que razão foste jantar fora com ela?»
«Não ouviste? Há dois meses que não há nada para ninguém.»
«Arranja outra gaja. Estás sempre a arranjar gajas novas. Faz agora o mesmo que sempre fizeste.»
«Isso é outro conselho teu?»
«Não. Estou simplesmente a constatar um facto. Algo que já aconteceu várias vezes.»
«Pois. Mas agora não estou para aí virado.»
«Entendo.»
Pedi mais duas cervejas e acendi um cigarro.
«Agora fumas?», perguntou.
«Fumo um cigarro de vez em quando.»
«Há muito tempo?»
«Algum.»
«Nunca tinha reparado.»
«É recente.»
«Ainda agora disseste que é há algum tempo.»
«É uma maneira de dizer.»
«Então há quanto tempo é?»
«Que raio!»
«Qual é o problema?»
«Para quê tanta pergunta? Tu também fumas e nunca te perguntei há quanto tempo o fazes?»
«Mas eu fumo desde os 14!»
«E?»
«Acho ridículo que comeces a fumar agora, com a idade que tens.»
«Há alguma idade para começar a fumar?»
«Não é isso que quero dizer. Mas tens que admitir que é um pouco ridículo começar a fazê-lo agora.»
E depois foi ele que mandou vir mais duas cervejas.
Ó da Guarda!


Depois digam que não avisei #7
No trabalho ouço muitas vezes dizer que a coisa está má.
«Se tivesse menos vinte anos emigrava. Não pensava duas vezes. Emigrava e deixava esta merda de país.»
«E para onde é que ias?», alguém dispara, «Isto está mau por todo o lado.»
«Mas ao menos lá fora respeitam um gajo. Lá fora dão valor ao pessoal.»
«Isso é o que tu pensas.»
«É verdade!»
Depois o resto da conversa continua e todos no final concordam que o que está a dar é ser jogador de futebol.
Até que alguém diz:
«O que está a dar é ir viver para o norte de Marrocos, arranjar um pedaço de terra nas montanhas e começar a cultiva cannabis.»
Todos ficam em silêncio.
Eu continuo a beber o meu chocolate quente. Ninguém pode tirar-me isso: o prazer de beber um chocolate quente.
E a conversa lá continua.
«É o que te digo: se tivesse menos vinte anos emigrava.»
Sei que é comigo. Sou o único com menos vinte anos. Se há coisa que não suporto é alguém dizer se tivesse menos vinte anos. Só me apetece responder: se tivesses menos vinte anos eu não estaria aqui a ouvir-te e isso era fantástico!
Acabo o meu chocolate quente.
Saio.
Quanto a mim um poema do caraças
Este de Rafael Calero Palma:
Poética
Escribo
para ahuyentar
a los lobos.
Y casi nunca lo consigo
Podem ler mais dois poemas de Rafael Calero Palma aqui.
No café
- Se fosses inteligente não tinhas um blog!
Escrito em francês, publicado em Setembro de 2006, vencedor do Prémio Goucourt e do Grande Prémio do Romance da Academia Francesa, 700.000 exemplares vendidos em França, As Benevolentes é o segundo trabalho de Jonathan Littell (1967), e conta a história de Maximilien Aue (Max Aue), um ex-oficial SS que acompanha a ascensão e queda do regime nazi.Pensar que As Benevolentes é um livro sobre os horrores da 2ª Grande Guerra Mundial (como um texto na contra-capa indica) é reduzir o livro àquilo que ele na realidade não é. As Benevolentes é, acima de tudo, um livro sobre um homem: Max Aue. Para muitos ele poderá ser a personificação do Mal, mas Max Aue é, sem dúvida, um homem dividido. O Mal existe nele – disso não restam dúvidas. Além disso, Max Aue não se arrepende de nada daquilo que fez: «Culpado, eu?» (p. 26). No entanto, é da luta entre o ser e o dever que a personagem de Max Aue cresce e se forma. Ele é alguém que aprecia literatura, filosofia, que gosta de debater ideias – nunca recusando trocar algumas palavras com os seus inimigos, e até concordar com eles, mesmo antes de os enviar para a morte com um encolher de ombros –, mas que vive preso à farda que veste: «Para dizer a verdade, eu não compreendia grande coisa do que ele ali escrevia [refere-se a Maurice Blanchot]. Mas isso despertava em mim a nostalgia de uma vida que poderia ter tido: o prazer do livre jogo do pensamento e da linguagem, em vez do rigor pesado da lei.» (p. 456). Max Aue é alguém que vive reprimido. Em primeiro lugar, num corpo que rejeita como sendo seu, preferindo antes o corpo da irmã, com quem manteve uma relação incestuosa, relação essa que o atormente, persegue, mas que ele alimenta e recria nas relações homossexuais que mantém: «Pedi-lhe que me tomasse de pé, apoiado contra a cómoda, diante do espelho estreito que dominava o quarto. Quando o prazer se apoderou de mim, mantive os olhos abertos, perscrutei o meu rosto cor de púrpura e medonhamente inchado, procurando ver nele, rosto verdadeiro que preenchia as minhas linhas para lá de mim, as linhas do rosto da minha irmã.» (p. 469). Em segundo lugar, pela figura da mãe, segundo ele a principal responsável pelo desaparecimento do pai e a quem acusa de o ter “morto”. Max Aue é um homem só, desfigurado pelo Mal, e apesar da forma calorosa com que se relaciona com aqueles que o rodeiam, mantém com estes uma relação fria e distante.
Quem lê As Benevolentes encontra uma escrita consistente, leve, que em nada desencoraja quem a lê (apesar das quase 900 páginas). Quem procura neste livro informação sobre o nazismo também a encontra (surgem personagens reais como Hitler, Speer, Hess, Himmler) – o que muitas vezes prejudica o “andamento” da leitura e nada acrescenta ao desenvolvimento da narrativa. Todavia, dizer que este é um livro sobre o nazismo, é tentar encontrar um caminho fácil para não entender a complexidade de uma personagem como Max Aue, que não representa o Mal enquanto elemento exclusivo do regime nazi, mas sim o Mal que qualquer ser humano tem dentro de si e que, numa determinada situação, poderá ser despoletado em nome de algo ou alguém. Não nos podemos esquecer que Jonathan Littell trabalhou com ONGs na Bósnia durante a guerra naquela região nos anos 90 e diz que a ideia para o romance partiu, em certa medida, dessa experiência.
Considerar o livro «um novo Guerra e Paz» (Le Nouvel Observateur), ou dizer ser este «um livro extraordinário pelo que existe nele de certo e de verdadeiro» (Mario Vargas Llosa), é cair no exagero e na frase feita. As Benevolentes é um livro que tem a grande qualidade de estar bem escrito e de confrontar o Homem com ele próprio. Como todos os grandes livros fazem.
Jonathan Littell, As Benevolentes, Lisboa: Dom Quixote, 1ª edição, 2007, 884 pp.
The Smiths - How soon is now?
Esta semana foi uma qualquer canção dos Smiths. Conheci os Smiths num bar na Guarda que foi fechado (ainda não sei a história toda): o Zincos. Há músicas que nos ficam na pele, como uma cicatriz. As músicas dos Smiths são para mim isso mesmo: cicatrizes.
Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica
Amadeu Baptista é o vencedor do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica. O Prémio foi instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e pelo Ayuntamiento de Punta Umbría, contando com a colaboração de «Sulscrito – Círculo Literário do Algarve». Um júri constituído por José Mário Silva, António Carlos Cortez e Fernando Esteves Pinto, decidiu por unanimidade atribuir o prémio à obra intitulada «Sobre as Imagens», da autoria de Amadeu Baptista, de entre um conjunto de 138 originais apresentados a concurso. O vencedor da edição espanhola do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica foi Rafael Camarasa Bravo, com a obra intitulada «El sitio justo».
Crítica e críticos
Farto
Pensar pensar pensar. Ficar farto farto farto. Farto.
Não queria falar da nova lei do tabaco. Não sou fumador. Agrada-me entrar num café e os olhos não começarem logo a chorar. Mas começo a ser solidário com os fumadores. Sinceramente – e digo isto sem qualquer ironia – custa-me ver as pessoas à porta dos cafés a fumar o cigarro a que têm direito. Já ouvi alguns fumadores dizer que se sentem constrangidos pelo facto de o fazerem, principalmente quando estão sozinhos. Na escola onde dou aulas, como noutras por onde passei (são 7), existia até ao final de Dezembro uma sala para professores fumadores. Era uma sala que não incomodava ninguém. Os fumadores tinham o seu local e os não-fumadores também. É claro que com a nova lei tudo mudou: a sala dos fumadores teve que deixar de existir. A única solução encontrada foi os fumadores fumarem no exterior da escola. Colocaram até um vaso com areia para eles colocarem as beatas. Desde quando é que fica bem um vaso cheio de beatas à porta de uma escola? É melhor isso ou uma sala para fumadores que não incomodava ninguém? Não se pode passar do 8 para o 80 sem mais nem menos. Todos os meus colegas fumadores respeitam a lei. Apenas penso que a lei não os respeita a eles.
Factotum é o segundo romance de Charles Bukowski (1920-1994), onde, mais uma vez, nos encontramos com essa fascinante personagem que é Henry Chinaski, alter-ego de Charles Bukowski. Ou será o contrário?Em Factotum encontramos Henry Chinaski nos anos da II Grande Guerra. Inapto para o serviço militar e sem habilitações suficientes para arranjar um emprego decente, Chinaski vaguei de cidade em cidade: Miami, New Orleans, St. Louis, New York, Los Angeles: à procura de uma oportunidade. Em cada uma das cidades tem um ou vários empregos. A sua filosofia é a seguinte: manter um emprego o tempo suficiente para ter direito ao subsídio de desemprego e depois fazer algo para ser despedido.
A escrita é crua e directa, sem artificialismos, onde os diálogos são privilegiados em detrimento das descrições, mantendo o leitor sempre atento e agarrado à leitura. Bukowski escreve sobre tudo e todos, sem paninhos quentes. Escreve sobre a Guerra, o Amor, a Morte, a Vida. O interesse pelo lado mais marginal da vida mantém-se. O interesse pelos marginais/marginalizados, também. Desde do início que Bukowski traçou a sua filosofia de escrita: escrever como se escrever fosse andar. Muitos acusaram-no de escrever sempre sobre as mesmas coisas – bebida, mulheres, sexo, corridas de cavalo, bebida, mais bebida e as inevitáveis ressacas. Factotum demonstra quanto esses críticos se enganaram. É claro que a bebida está presente e o sexo também (não tanto como em Post Office ou Women), no entanto, ele encerra em si parte do pensamento político de Charles Bukowski. O autor é alguém preocupado com o caminho que o Homem traçou, um caminho que, pouco a pouco, lhe vai retirando a sua essência, a sua liberdade. Bukowski quer um Homem absolutamente livre e rejeita um sistema que castra o Homem da sua individualidade.
Será Factotum um romance autobiográfico»? Tudo leva a crer que sim. Sabemos que Bukowski levou uma vida de saltimbanco. Chinaski é alguém que quer ser escritor. Bukowski tem problemas com a bebida e as mulheres. Chinaski também. É certo que tudo pode ser ficção. Contudo, nunca a ficção esteve tão próxima da realidade como em Charles Bukowski.
A morte de um homem livre

A evidência é uma gaja tramada
Não há nada pior do que aquilo que é evidente.
Dá-me música
(clicar para aumentar a imagem)
Procurando levar a comunidade a participar na própria programação, o TMG desenvolveu uma série de iniciativas. Entre elas encontram-se a Playlist. Todos os meses alguém é convidado a criar uma "banda sonora" que irá animar o Café-Concerto do TMG. A minha Playlist abrilhantará o primeiro mês do ano.
Fazer um balanço do ano que passa nunca é tarefa fácil. É inevitável a tendência para ser tendencioso. Nunca conseguimos ser totalmente imparciais. E tal nota-se mais numa região pequena como a nossa, em que tudo aquilo que é dito ou é visto como ataque pessoal ou bajulação. E nunca como discussão de ideias.
A nota negativa que dou à nossa região é: o seu, cada vez mais, provincianismo ao nível das ideias. Já estou a ouvir alguns: lá vêm estes elitistas dar lições de moral, ensinar o "povo" a comportar-se, a ser culto. O "povo". Nunca encontrei palavra mais ambígua para definir algo. Mas, afinal, o que é o "povo"? Alguém me consegue explicar? Eu, por exemplo, não gosto de Tony Carreira (nem do egitaniense Luís Filipe Reis). Faço ou não parte do "povo"? Sou do "povo" ou não sou do "povo"? Gosto da música dos Chuchurumel (parabéns!). Sou do "povo" ou não sou do "povo"? Gosto de ir ao TMG assistir a um rapaz que toca instrumentos estranhos, que fazem sons estranhos e que alguém diz ser música (e da boa!). Gosto de ir ver Camané e o Barbeiro de Sevilha. Sou do "povo" ou não sou do "povo"?
A nota positiva que dou à nossa região é: a programação e oferta cultural do TMG (lá está este gajo a ser parcial, a bajular!). Só quem não tem olhos na cara, ou muita inveja a cegá-los, é que poderá pensar que aquilo que estou a afirmar é a mais pura e completa idiotice. O TMG, no ano de 2007, afirmou-se no panorama regional e nacional. Se não fosse o TMG a minha Mãe nunca teria assistido a uma ópera. Se não fosse o TMG a minha Mãe nunca teria assistido ao Camané. Se não fosse o TMG a minha Mãe nunca teria assistido à Colónia Penal. E se há pessoa que diz pertencer ao "povo" é a minha Mãe!
teatro de objectos, formas animadas e marionetas para todos
A partir dos textos Coração de Porco , A Gaiola, Amarela, A Velha e Coração com Ferrugem do livro E se amanhã o medo, de Ondjaki. As personagens/marionetas/objectos queixam-se da solidão, acham-se esquecidos mas foram estes que esqueceram tudo e todos, e assim os seus corações foram morrendo. São estes os meus sobreviventes de corpos enferrujados, esquecidos, porque esqueceram. O coração teima em bater, as personagens parecem nunca morrer.
7 a 13 de Janeiro de 2008 no Estúdio Zero [Rua do Heroísmo, 86 / Porto]
10 e 11 – 14h00 e 21h45
12 – 16h00 e 21h45
13 – 16h00
Direcção Artística e Encenação - Luciano Amarelo
Interpretação - Kristin Fredricksson, Luciano Amarelo e Nuno Preto
Cenografia e Marionetas - Luciano Amarelo
Apoio - Sandra Neves e Kristin Fredricksson
Construção Marionetas - Sandra Neves e Kristin Fredricksson
Desenhos - Sandra Neves
Construção Cenário - Sandra Neves
Assistência à Construção - Joana Caetano
Direcção Técnica – Sérgio Julião
Sonoplastia e operação de luz e som – Miguel Frazão
Design Gráfico – João César Nunes
Registo e edição de imagem - Paulo castelo
Fotografia - Sandra Preto
www.teatrobruto.com