Bach ou o silêncio

Hoje durante uma aula, e enquanto os alunos faziam uns exercícios, coloquei as Variações Goldberg de Bach (por Daniel Barenboim). Foi o silêncio total. Impressionante.


o amor é um cão do inferno


Lí por aí

«Pelo contrário, o meu maior desejo reside exactamente no plano inverso: ser maltratado por um espécime feminino. Misógino? Isso queria eu, e de que maneira.»

Miguel Marques, em Mal Menor


Frango à Robin dos Bosques

Ontem só comi frango ao jantar. Sem acompanhamento. Não usei nem faca nem garfo. Soube bem comer com as mãos. Quando era pequeno o meu pai dizia que era comer à Robin dos Bosques. É claro que não foi a mesma coisa. Ontem preocupei-me com a gordura nas mãos e o cheiro que, por mais que lavemos, nunca chega a sair. Ontem tive consciência que, afinal, envelheci mesmo. Por exemplo: os impostos. Antes os impostos não faziam parte da minha vida. Não sabia o que eram. Não me preocupava com eles. Hoje preocupo-me. É sinal que envelheci. O curioso é que dizem que a população portuguesa está cada vez mais envelhecida, embora não se paguem – como se deviam pagar – impostos.

Do sono

Não ando a conseguir dormir o suficiente. Acordo todos os dias com a cara um pouco inchada e com um mau humor dos demónios (como já deu para notar aqui no blog). Ainda não cheguei àquela fase de desespero, de total e completo desespero pelo facto de não dormir o tempo suficiente. Mas sinto que estou lá perto. Um dia destes volto ao tema. Mas não contem muito com isso.

Mais uma semana

Começar a semana com o sol a bater na cara. E logo de seguida um espirro e um ataque de soluços. Comer uma torrada com pouca manteiga. Beber um café (mesmo sabendo que não me está permitido). O café saber bem.

Depois digam que não avisei #10

A primeira vez que a vi foi depois do primeiro mês no novo trabalho – entretanto tinha saído donde estava. Não conseguia ouvir mais nenhuma vez se tivesse menos vinte anos.
Ela não era muito alta mas tinha umas boas pernas. O cabelo escuro dava-lhe pelos ombros. Só mais tarde é que me disse que o pintava, que a sua cor natural era o castanho claro, mas que andava farta de ouvir as pessoas dizerem que ela era loira.
Achei piada.

Lí por aí

«Deus não é o meu co-piloto, foi recusado nuns testes que eu lhe fiz há vinte anos.»


Sérgio Lavos, em Auto-retrato

Daniel Oliveira, o Regionalista

Daniel Oliveira decidiu agrupar os blogs de cariz regional numa coluna lá no seu Arrastão. O meia-noite todo o dia foi lá incluído. Desde quando é que este blog é de cariz regional? Só pelo simples facto de divulgar artistas do distrito da Guarda e algumas das actividades culturais do Teatro Municipal da Guarda? Eu nem ataco a Câmara Municipal de Manteigas como Daniel Oliveira, por vezes, ataca a Câmara Municipal de Lisboa. Será o Arrastão um blog regional quando Daniel Oliveira ataca a Câmara Municipal de Lisboa ou faz referência à programação do Teatro D. Maria II ou dos Artistas Unidos?


Sem comentários


Depois digam que não avisei #9

Tinha que arranjar uma mulher e os poemas que escrevia eram mesmo uma merda. Por isso lia os clássicos para aprender com eles. E cheguei à conclusão que tudo o que merece ser lido já foi escrito.
Tinha mesmo que arranjar uma mulher e deixar-me de filosofias baratas, apesar de algumas mulheres gostarem de filosofias baratas. Só assim se entende o facto de L. ter namorada. Se há alguém que tem filosofias baratas é ele. E vai safando-se no que diz respeito às mulheres e não só: tem um trabalho melhor que o meu, onde ganha mais que eu.
Nunca fui muito de andar por aí no engate. Isso talvez explique o facto de não me lembrar da última vez que estive com uma mulher. Não me lembrar é exagero. Só não recordo o nome. Estava demasiado bêbado na altura. Sempre tive tendência para engatar gajas quando estou com os copos. E engatar gajas que também estão com os copos. O sexo continua a ser bom. O pior são as coisas que se dizem.
Um gajo quando está com os copos diz tudo para agradar uma mulher. Elas sabem isso. Gostam de ouvir as nossas mentiras. Penso que lhes dá prazer ouvirem um gajo esforçar-se para conseguir levá-las para a cama. Isso excita-as. O pior é que algumas, às vezes, pensam que é verdade aquilo que um gajo lhes diz e depois é o cabo dos trabalhos para nos vermos livres delas. Vêm com aquela conversa tipo mas tu disseste. E por mais que um gajo diga que estávamos bêbados: elas insistem.


Ó da Guarda!


José Vieira: nasceu na Guarda em 1962. Vive em Coimbra. Licenciado em Pintura. É comissário do Festival On Line de Arte Digital, fundador do Museu Virtual do Artista Desconhecido. Expõe regularmente desde 1980. Pode ser encontrado aqui.


Depois digam que não avisei #8


«Começo a ficar farto dela.»
«De quem?», perguntei.
«Da minha namorada. Quem havia de ser!»
«Calma!»
«Calma! Tu pedes calma?», estava mesmo exaltado, «Vão dois meses sem nada e tu pedes calma? Não aguento mais. O pior é que fui jantar fora com ela, como tu disseste. Um restaurante à maneira. Deixei lá os olhos da cara e nada! Rico conselho o teu!»
«Agora a culpa é minha?»
«Não foste tu que disseste para levá-la a jantar fora?»
«Depois de tu teres insistido bastante para eu te ajudar. E lembro-me que na altura não consideraste a ideia viável do ponto de vista financeiro.»
«Rica ajuda!», insistiu.
«Ora bolas!», respondi-lhe, «Eu bem disse que não me queria meter. E tu próprio disseste que jantar fora era muito caro…»
«… e foi.»
«Então por que razão foste jantar fora com ela?»
«Não ouviste? Há dois meses que não há nada para ninguém.»
«Arranja outra gaja. Estás sempre a arranjar gajas novas. Faz agora o mesmo que sempre fizeste.»
«Isso é outro conselho teu?»
«Não. Estou simplesmente a constatar um facto. Algo que já aconteceu várias vezes.»
«Pois. Mas agora não estou para aí virado.»
«Entendo.»
Pedi mais duas cervejas e acendi um cigarro.
«Agora fumas?», perguntou.
«Fumo um cigarro de vez em quando.»
«Há muito tempo?»
«Algum.»
«Nunca tinha reparado.»
«É recente.»
«Ainda agora disseste que é há algum tempo.»
«É uma maneira de dizer.»
«Então há quanto tempo é?»
«Que raio!»
«Qual é o problema?»
«Para quê tanta pergunta? Tu também fumas e nunca te perguntei há quanto tempo o fazes?»
«Mas eu fumo desde os 14!»
«E?»
«Acho ridículo que comeces a fumar agora, com a idade que tens.»
«Há alguma idade para começar a fumar?»
«Não é isso que quero dizer. Mas tens que admitir que é um pouco ridículo começar a fazê-lo agora.»
E depois foi ele que mandou vir mais duas cervejas.


Ó da Guarda!



Baltazar Torres: nasceu em 1961 em Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda. Estudou na Guarda e no Porto, onde é professor na Escola Superior de Belas Artes. É um dos nomes cimeiros das artes plásticas, em Portugal. A pouco e pouco as suas obras, que combinam pintura escultura e instalação, foram-se impondo e internacionalizando, apesar de percorrer um caminho solitário e independente.


Velho do Restelo

Hoje fui comparado ao Velho do Restelo. E, pensando bem, têm razão. Sou rezingão, não sou optimista, não consigo ainda ver o lado bom da vida, sou radical nas posições que tomo, ando farto desta merda toda, acredito que o Homem é mau por natureza e penso que Portugal se afunda num abismo sem fim. É certo que talvez ande a ler os livros errados, mas isso agora não interessa

Ó da Guarda!




Albuquerque Mendes: nasceu em Trancoso, distrito da Guarda, em 1953. É um dos pintores mais conhecidos da década de 70 e inícios de 80. Funda o o Grupo Puzzle juntamente com Armando Azevedo e João Dixo. O pintor criou com Gerardo Burmester o Espaço Lusitano, no Porto, cujo objectivo era a divulgação da arte portuguesa. Decorreu em Serralves, de 15 de Novembro de 2001 a 13 de Janeiro de 2002, a primeira exposição antológica do autor, intitulada CONFESSO.


Depois digam que não avisei #7


No trabalho ouço muitas vezes dizer que a coisa está má.
«Se tivesse menos vinte anos emigrava. Não pensava duas vezes. Emigrava e deixava esta merda de país.»
«E para onde é que ias?», alguém dispara, «Isto está mau por todo o lado.»
«Mas ao menos lá fora respeitam um gajo. Lá fora dão valor ao pessoal.»
«Isso é o que tu pensas.»
«É verdade!»
Depois o resto da conversa continua e todos no final concordam que o que está a dar é ser jogador de futebol.
Até que alguém diz:
«O que está a dar é ir viver para o norte de Marrocos, arranjar um pedaço de terra nas montanhas e começar a cultiva cannabis.»
Todos ficam em silêncio.
Eu continuo a beber o meu chocolate quente. Ninguém pode tirar-me isso: o prazer de beber um chocolate quente.
E a conversa lá continua.
«É o que te digo: se tivesse menos vinte anos emigrava.»
Sei que é comigo. Sou o único com menos vinte anos. Se há coisa que não suporto é alguém dizer se tivesse menos vinte anos. Só me apetece responder: se tivesses menos vinte anos eu não estaria aqui a ouvir-te e isso era fantástico!
Acabo o meu chocolate quente.
Saio.


Quanto a mim um poema do caraças


Este de Rafael Calero Palma:

Poética

Escribo
para ahuyentar
a los lobos.

Y casi nunca lo consigo


Podem ler mais dois poemas de Rafael Calero Palma aqui.

Lição

Ontem, Alberto Pimenta e Vítor Silva Tavares deram uma lição aos meninos do Câmara Clara. Afinal o que é ser marginal? Ambos recusaram a etiqueta – apesar de estarem ali supostamente para a defender. Luiz Pacheco no fundo é um clássico. João César Monteiro, afinal, não é tão parecido com Luiz Pacheco como os meninos do Câmara Clara queriam que ele fosse. E no final aquele caldo-verde, com Alberto Pimenta a tirar duas fatias de pão do bolso embrulhadas num guardanapo de papel. Foi impressão minha ou o tiro saiu pela culatra aos meninos do Câmara Clara?


No café


- Se fosses inteligente não tinhas um blog!

Colocar a frase no masculino, se faz favor

«Surpreendo-me com o tempo que posso passar sem fazer aparentemente nada, quando na realidade estou muitíssimo ocupada com esta espécie de sonhar-acordada que me mantém viva.»

May Sarton, Prepara-te para a Morte e segue-me, Lisboa: Livros Cotovia, 1997, p.23


Do Mal

Escrito em francês, publicado em Setembro de 2006, vencedor do Prémio Goucourt e do Grande Prémio do Romance da Academia Francesa, 700.000 exemplares vendidos em França, As Benevolentes é o segundo trabalho de Jonathan Littell (1967), e conta a história de Maximilien Aue (Max Aue), um ex-oficial SS que acompanha a ascensão e queda do regime nazi.

Pensar que As Benevolentes é um livro sobre os horrores da 2ª Grande Guerra Mundial (como um texto na contra-capa indica) é reduzir o livro àquilo que ele na realidade não é. As Benevolentes é, acima de tudo, um livro sobre um homem: Max Aue. Para muitos ele poderá ser a personificação do Mal, mas Max Aue é, sem dúvida, um homem dividido. O Mal existe nele – disso não restam dúvidas. Além disso, Max Aue não se arrepende de nada daquilo que fez: «Culpado, eu?» (p. 26). No entanto, é da luta entre o ser e o dever que a personagem de Max Aue cresce e se forma. Ele é alguém que aprecia literatura, filosofia, que gosta de debater ideias – nunca recusando trocar algumas palavras com os seus inimigos, e até concordar com eles, mesmo antes de os enviar para a morte com um encolher de ombros –, mas que vive preso à farda que veste: «Para dizer a verdade, eu não compreendia grande coisa do que ele ali escrevia [refere-se a Maurice Blanchot]. Mas isso despertava em mim a nostalgia de uma vida que poderia ter tido: o prazer do livre jogo do pensamento e da linguagem, em vez do rigor pesado da lei.» (p. 456). Max Aue é alguém que vive reprimido. Em primeiro lugar, num corpo que rejeita como sendo seu, preferindo antes o corpo da irmã, com quem manteve uma relação incestuosa, relação essa que o atormente, persegue, mas que ele alimenta e recria nas relações homossexuais que mantém: «Pedi-lhe que me tomasse de pé, apoiado contra a cómoda, diante do espelho estreito que dominava o quarto. Quando o prazer se apoderou de mim, mantive os olhos abertos, perscrutei o meu rosto cor de púrpura e medonhamente inchado, procurando ver nele, rosto verdadeiro que preenchia as minhas linhas para lá de mim, as linhas do rosto da minha irmã.» (p. 469). Em segundo lugar, pela figura da mãe, segundo ele a principal responsável pelo desaparecimento do pai e a quem acusa de o ter “morto”. Max Aue é um homem só, desfigurado pelo Mal, e apesar da forma calorosa com que se relaciona com aqueles que o rodeiam, mantém com estes uma relação fria e distante.

Quem lê As Benevolentes encontra uma escrita consistente, leve, que em nada desencoraja quem a lê (apesar das quase 900 páginas). Quem procura neste livro informação sobre o nazismo também a encontra (surgem personagens reais como Hitler, Speer, Hess, Himmler) – o que muitas vezes prejudica o “andamento” da leitura e nada acrescenta ao desenvolvimento da narrativa. Todavia, dizer que este é um livro sobre o nazismo, é tentar encontrar um caminho fácil para não entender a complexidade de uma personagem como Max Aue, que não representa o Mal enquanto elemento exclusivo do regime nazi, mas sim o Mal que qualquer ser humano tem dentro de si e que, numa determinada situação, poderá ser despoletado em nome de algo ou alguém. Não nos podemos esquecer que Jonathan Littell trabalhou com ONGs na Bósnia durante a guerra naquela região nos anos 90 e diz que a ideia para o romance partiu, em certa medida, dessa experiência.

Considerar o livro «um novo Guerra e Paz» (Le Nouvel Observateur), ou dizer ser este «um livro extraordinário pelo que existe nele de certo e de verdadeiro» (Mario Vargas Llosa), é cair no exagero e na frase feita. As Benevolentes é um livro que tem a grande qualidade de estar bem escrito e de confrontar o Homem com ele próprio. Como todos os grandes livros fazem.

Jonathan Littell, As Benevolentes, Lisboa: Dom Quixote, 1ª edição, 2007, 884 pp.

Lí por aí

«Tal como, no caso, não tenho que me defender dos ciumentos da obra alheia, que não têm estatura senão para a cobiça, a preguiça e a desonestidade intelectual.»

Amadeu Baptista, em entrevista ao Bibliotecário de Babel

Vir à terra

Vim passar o fim-de-semana a Manteigas. Vim à “terra” não no sentido literário mas no sentido telúrico. Está sol. Com nevoeiro e chuva este lugar torna-se deprimente. Ainda há um resto de neve lá no alto. Há mais turistas pelas ruas do que gente de cá. Fui comprar o jornal ao mesmo lugar de sempre. Perguntam-me como vou, por onde ando, que há muito não me vêem. Quando chego a casa coloco Bach na aparelhagem – os Concertos de Brandenburgo. Definitivamente, este não é o meu lugar.



The Smiths - How soon is now?


Esta semana foi uma qualquer canção dos Smiths. Conheci os Smiths num bar na Guarda que foi fechado (ainda não sei a história toda): o Zincos. Há músicas que nos ficam na pele, como uma cicatriz. As músicas dos Smiths são para mim isso mesmo: cicatrizes.

Comfortably numb

Anda para aqui um gajo a dar o seu melhor, a tentar sobreviver. Depois vêm uns tipos armados em legisladores. Começam a pensar (pleonasmo) criar leis e mais leis estapafúrdias. E o melhor é que ficamos todos com o cu sentado confortavelmente em casa a mandar postas como esta que agora escrevi.

Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica


Amadeu Baptista é o vencedor do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica. O Prémio foi instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e pelo Ayuntamiento de Punta Umbría, contando com a colaboração de «Sulscrito – Círculo Literário do Algarve». Um júri constituído por José Mário Silva, António Carlos Cortez e Fernando Esteves Pinto, decidiu por unanimidade atribuir o prémio à obra intitulada «Sobre as Imagens», da autoria de Amadeu Baptista, de entre um conjunto de 138 originais apresentados a concurso. O vencedor da edição espanhola do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica foi Rafael Camarasa Bravo, com a obra intitulada «El sitio justo».


Crítica e críticos


Não deixa de ser curioso que de uma só vez leia dois textos que falam de crítica literária. Um sobre crítica literária feita em Portugal. Outro sobre a crítica em geral (ou talvez não). Sempre vi a crítica literária como um trabalho e o crítico literário como um trabalhador que segue, escrupulosamente, as directrizes do seu patrão. Quase todas as críticas literárias que leio baseiam-se no mercado: se o patrão diz que o livro tem que vender, para compensar uma série de coisas, o crítico literário constrói um texto todo elogioso, sem quase nenhuma ideia sua (não podia estar mais de acordo com Thomas Bernhard), onde o livro parece ser o livro do século ou de toda a existência humana. Quando o livro não tem que necessariamente vender, isto é, quando não existe uma série de factores – como por exemplo: grupos de interesses (que isso não é só quando se tem que decidir onde se deve construir um aeroporto) – ou não há recensão ou ela contém lugares comuns. Para concluir: leio críticas a livros, mas raramente as sigo. Já conselhos, para ler este ou aquele livro, é outra coisa.


Leiam que só faz bem!


Este texto, por exemplo. Este, também não é má ideia. E, já agora, este.

Santíssima trindade: Capitão Ahab, Raskalnikov, Max Aue.

Maximilien Aue é uma personagem complexa: oficial SS, homossexual, apreciador dos clássicos e da filosofia. Capaz do Mal sem arrependimento. Arrasta consigo um fardo: o conflito entre o ser e o dever. Se em certos momentos sentimos compaixão por ele, noutros sentimos repulsa. Personagem transtornada, desfigurada, atormentada. Um pouco de nós.

Da Arte

A Arte é tão necessária como um martelada no dedo grande do pé. No entanto, é necessário um pouco de dor para sentir que estamos vivos.


Farto


Pensar pensar pensar. Ficar farto farto farto. Farto.

Pedido

Queria pedir a todos os Anónimos que comentam neste blog que assinassem, se possível, com uma alcunha (essa possibilidade existe e mantém o anonimato) para assim melhor os distinguir, pois às vezes penso estar a responder ao mesmo anónimo duas vezes. Espero que entendam. Sabem que podem comentar sempre que quiserem. Obrigado.

Fim-de-semana (2)

O meu sotaque das Beiras sobressai em Lisboa. Sou logo visto/catalogado como da Província. Se há termo provinciano é Província utilizado como sinónimo de não- local: é da Província, não é? lá na Província ainda lêem à luz da vela? Cada vez que vou a Lisboa sinto isso. Cada vez mais. Ou o meu sotaque está mais vincado ou Lisboa está mais provinciana.

Fim-de-semana

Este fim-de-semana visita rápida a Lisboa. Almoço num indiano no Martim Moniz. No Bairro Alto, na Rua da Rosa, encontrei uma pequena livraria (desconhecida para mim) que vende títulos da & etc. Ofereceram-me Ulisses já não mora aqui, de José Miguel Silva. Numa das paredes havia vários livros dentro de um caixilho. Entre eles encontrei Cobra de Herberto Hélder. Perguntei se estavam à venda. Disseram-me que não, que são primeiras e únicas edições esgotadas há algum tempo. Conversa puxa conversa e fiquei a saber que o livro Cobra tinha sido leiloado por 300 euros. Parece que o facto de Herberto Hélder não permitir a reedição dos seus livros ajuda. De entre todas as coisas capitalizáveis, nunca pensei que a poesia fosse uma delas.

Da Era Pós-Moderna

Não há nada pior do que uma pessoa estar a tomar um duche e o gás terminar. Não me aconteceu a mim, mas podia ter acontecido se o gás não tivesse terminado enquanto eu lavava a loiça.

Eu, não-fumador


Não queria falar da nova lei do tabaco. Não sou fumador. Agrada-me entrar num café e os olhos não começarem logo a chorar. Mas começo a ser solidário com os fumadores. Sinceramente – e digo isto sem qualquer ironia – custa-me ver as pessoas à porta dos cafés a fumar o cigarro a que têm direito. Já ouvi alguns fumadores dizer que se sentem constrangidos pelo facto de o fazerem, principalmente quando estão sozinhos. Na escola onde dou aulas, como noutras por onde passei (são 7), existia até ao final de Dezembro uma sala para professores fumadores. Era uma sala que não incomodava ninguém. Os fumadores tinham o seu local e os não-fumadores também. É claro que com a nova lei tudo mudou: a sala dos fumadores teve que deixar de existir. A única solução encontrada foi os fumadores fumarem no exterior da escola. Colocaram até um vaso com areia para eles colocarem as beatas. Desde quando é que fica bem um vaso cheio de beatas à porta de uma escola? É melhor isso ou uma sala para fumadores que não incomodava ninguém? Não se pode passar do 8 para o 80 sem mais nem menos. Todos os meus colegas fumadores respeitam a lei. Apenas penso que a lei não os respeita a eles.

Ir à terra

Uma das coisas que mais me impressionou no documentário sobre Luiz Pacheco foi um dos seus filhos dizer que a sua “terra” era Comunidade. Dizia ele que quando quer regressar à terra – como quem vai à Beira passar uma temporada e rever velhos conhecidos – lê o texto Comunidade. Quantos de nós já se identificaram com um texto literário? Talvez todos. Mas quantos de nós fizeram desse texto a sua “terra”? Não sei. Sei apenas que me emocionei quando ouvi aquelas palavras: a minha “terra” é Comunidade. É muito belo. E também é terrível.

Lí por aí

«os taxistas perguntam-me sempre se não tenho mais pequeno. as mulheres, se não tenho maior.»

azia, em azeite&azia

Ponto de situação

Continuo a ler as Benevolentes. O livro é um grande livro – e não é só devido às suas quase 900 páginas. A maneira como Jonathan Littell “conta” a história é simplesmente fenomenal. Não sei se será um livro que ficará conhecido como “um dos livros” – isso só o tempo dirá – mas o mais certo é ele ser absorvido e esquecido. Será uma pena. Aconselho-o a toda a gente. As letras pequenas, o reduzido espaço entre linhas e a grossa lombada (que atrapalha bastante a leitura), são os únicos contras que encontro no livro.


Pau para toda a obra

Factotum é o segundo romance de Charles Bukowski (1920-1994), onde, mais uma vez, nos encontramos com essa fascinante personagem que é Henry Chinaski, alter-ego de Charles Bukowski. Ou será o contrário?

Em Factotum encontramos Henry Chinaski nos anos da II Grande Guerra. Inapto para o serviço militar e sem habilitações suficientes para arranjar um emprego decente, Chinaski vaguei de cidade em cidade: Miami, New Orleans, St. Louis, New York, Los Angeles: à procura de uma oportunidade. Em cada uma das cidades tem um ou vários empregos. A sua filosofia é a seguinte: manter um emprego o tempo suficiente para ter direito ao subsídio de desemprego e depois fazer algo para ser despedido.

A escrita é crua e directa, sem artificialismos, onde os diálogos são privilegiados em detrimento das descrições, mantendo o leitor sempre atento e agarrado à leitura. Bukowski escreve sobre tudo e todos, sem paninhos quentes. Escreve sobre a Guerra, o Amor, a Morte, a Vida. O interesse pelo lado mais marginal da vida mantém-se. O interesse pelos marginais/marginalizados, também. Desde do início que Bukowski traçou a sua filosofia de escrita: escrever como se escrever fosse andar. Muitos acusaram-no de escrever sempre sobre as mesmas coisas – bebida, mulheres, sexo, corridas de cavalo, bebida, mais bebida e as inevitáveis ressacas. Factotum demonstra quanto esses críticos se enganaram. É claro que a bebida está presente e o sexo também (não tanto como em Post Office ou Women), no entanto, ele encerra em si parte do pensamento político de Charles Bukowski. O autor é alguém preocupado com o caminho que o Homem traçou, um caminho que, pouco a pouco, lhe vai retirando a sua essência, a sua liberdade. Bukowski quer um Homem absolutamente livre e rejeita um sistema que castra o Homem da sua individualidade.

Será Factotum um romance autobiográfico»? Tudo leva a crer que sim. Sabemos que Bukowski levou uma vida de saltimbanco. Chinaski é alguém que quer ser escritor. Bukowski tem problemas com a bebida e as mulheres. Chinaski também. É certo que tudo pode ser ficção. Contudo, nunca a ficção esteve tão próxima da realidade como em Charles Bukowski.

Charles Bukowski, Factotum, New York: Ecco, 1st edition, 2002.

Repare, tem um corte jovem!

De repente entro numa loja. E se há coisa que me arrepia a espinha é alguém tentar impingir-me uma peça de roupa que está, notoriamente, fora de moda. Principalmente se for seguido da frase: repare, tem um corte jovem! Um corte jovem? Mas o que é isso? Para mim é uma maneira muito pouco eficaz de dizer: já não se usam calças destas há mais de dez anos mas tu com esse sotaque (sim, tenho o sotaque cerrado da Beira) deves ter saído agora mesmo do Seminário e não percebes nada disto. É certo que não sigo as últimas tendências da moda, mas sei que não devo confiar no gosto de uma pessoa que me tenta vender umas calças dizendo: repare, tem um corte jovem!

Noite

Nunca conheci um autor consagrado. Nunca convivi com um. Não preciso. Chegam os meus fantasmas.

Tarde

Não me entendo com pessoas que vêem nos poetas seres mais altos e maiores. Tudo isso representa, para mim, subserviência a alguém que não merece. No fundo todos os poetas são uns canalhas. Sim, canalhas. Há um poema muito bom do A.M. Pires Cabral (publicado na número 1 da Sulscrito) que se não diz isso por estas palavras diz por outras. Os poetas são uns canalhas. Elevam-nos e depois – de estarmos bem lá no alto – deixam-nos cair, para ficarmos no lodo. E sair desse lodaçal não é muito fácil. Experimentem ler Charles Bukowski num dia de chuva. Para além de ficarmos atolados na nossa insignificância até ao pescoço, ficamos na merda durante vários dias. É claro que isso passa, mas só depois de se sofrer um bocado. São uns canalhas. É o que digo.

Manhã

O dia hoje começou como todos os outros: com um comprimido inibidor da bomba de protões. A escola fica a vinte metros de casa (começo a falar muito da escola aqui: não gosto). Consigo ouvir as crianças logo de manhã. É nessa altura que penso: será que levo as pastilhas para a azia? Verifico nos bolsos da mala e vejo que sim. Quando chego para tomar o pequeno-almoço surge a dúvida: leite ou chá? Leite: ataca-me a vesícula. Chá: lima-me o estômago. Opto por um sumo de frutas e um pão com pouca manteiga.

Hoje deu-me para o sexismo

A única verdeira diferença, entre homens e mulheres, é que elas lavam a loiça antes de saírem de casa.

É por estas e por outras que nunca serei crítico de arte

«Tudo que se perpetua em ARTE MODERNA significa a mais profunda criação inconsciente duma consciência formada em perpendicular compreendendo a realidade verdadeira do sonho numa transposição colorida.»

Ruben A., Páginas (I), Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, pág. 107.

Afinal as coisas não mudaram assim tanto

Na escola os garotos continuam a apalpar o cu às garotas. E elas fingem estar indignadas: correm atrás deles todas sorrisos.


A morte de um homem livre




Luiz Pacheco
(1925-2008)


Morreu um homem livre. A primeira vez que ouvi falar dele foi ao meu pai: é um gajo que escreve muito bem e que se estiver a chover não se levanta da cama. Na altura não endendi muito bem esta última expressão, mas hoje penso que significa ser realmente livre. Morreu um homem livre. Bela filha da putice.

Imagem: retirada da revista Periférica nº 8

Comprei um Bolo Rainha pois a fruta cristalizada enjoa-me

Não será comparável ao famoso bolo da capital (nem quero imaginar o preço), mas vai servir. Ainda me lembro que há uns bons anos atrás as aulas só começavam depois do dia de Reis. A tradição perdeu-se. O Bolo Rainha que comprei foi a 3.50 euros o kg. Saíram-me do bolso 8.50 euros. Vai ser um lanche porreiro!

Para começar bem o ano

O ano novo começou logo com compras. Destaco Páginas de Ruben A. (os seis volumes por apenas 35 euros). Ruben A. foi sempre um autor que despertou em mim alguma curiosidade – a começar pelo nome e pelo facto de pouco se ouvir falar dele. Talvez as Páginas não sejam a melhor maneira de iniciar a minha investida. A ver vamos. Outro livro foi o tão aclamado (e tão badalado: dois prémios literários em França) As Benevolentes de Jonathan Littell. Não costumo entrar muito na onda, mas arrisquei. Só ainda li o primeiro capítulo e devo dizer que a primeira impressão foi muito boa.

Lí por aí

«Enquanto os portugueses não perceberem que a democracia foi sequestrada por esta récua de inimigos públicos que há trinta anos nos governa, nada vai mudar. O partido único (mas dividido em duas alas, para melhor simulação) no poder desde o 25 de Abril já não sente a necessidade de fingir sermos nós, povo, o seu eleitorado, uma vez que não é o o zé-comum quem lhes financia a campanha eleitoral e respectiva eleição.»


A evidência é uma gaja tramada


Não há nada pior do que aquilo que é evidente.

Dá-me música

(clicar para aumentar a imagem)

Procurando levar a comunidade a participar na própria programação, o TMG desenvolveu uma série de iniciativas. Entre elas encontram-se a Playlist. Todos os meses alguém é convidado a criar uma "banda sonora" que irá animar o Café-Concerto do TMG. A minha Playlist abrilhantará o primeiro mês do ano.

Balanço e outras coisas balançáveis do ano 2007*


Fazer um balanço do ano que passa nunca é tarefa fácil. É inevitável a tendência para ser tendencioso. Nunca conseguimos ser totalmente imparciais. E tal nota-se mais numa região pequena como a nossa, em que tudo aquilo que é dito ou é visto como ataque pessoal ou bajulação. E nunca como discussão de ideias.

A nota negativa que dou à nossa região é: o seu, cada vez mais, provincianismo ao nível das ideias. Já estou a ouvir alguns: lá vêm estes elitistas dar lições de moral, ensinar o "povo" a comportar-se, a ser culto. O "povo". Nunca encontrei palavra mais ambígua para definir algo. Mas, afinal, o que é o "povo"? Alguém me consegue explicar? Eu, por exemplo, não gosto de Tony Carreira (nem do egitaniense Luís Filipe Reis). Faço ou não parte do "povo"? Sou do "povo" ou não sou do "povo"? Gosto da música dos Chuchurumel (parabéns!). Sou do "povo" ou não sou do "povo"? Gosto de ir ao TMG assistir a um rapaz que toca instrumentos estranhos, que fazem sons estranhos e que alguém diz ser música (e da boa!). Gosto de ir ver Camané e o Barbeiro de Sevilha. Sou do "povo" ou não sou do "povo"?

A nota positiva que dou à nossa região é: a programação e oferta cultural do TMG (lá está este gajo a ser parcial, a bajular!). Só quem não tem olhos na cara, ou muita inveja a cegá-los, é que poderá pensar que aquilo que estou a afirmar é a mais pura e completa idiotice. O TMG, no ano de 2007, afirmou-se no panorama regional e nacional. Se não fosse o TMG a minha Mãe nunca teria assistido a uma ópera. Se não fosse o TMG a minha Mãe nunca teria assistido ao Camané. Se não fosse o TMG a minha Mãe nunca teria assistido à Colónia Penal. E se há pessoa que diz pertencer ao "povo" é a minha Mãe!

*balanço sobre a região da Guarda. Texto escrito para o blog Café Mondego .

"CORAÇÕES EM FERRUGEM"
teatro de objectos, formas animadas e marionetas para todos


A partir dos textos Coração de Porco , A Gaiola, Amarela, A Velha e Coração com Ferrugem do livro E se amanhã o medo, de Ondjaki. As personagens/marionetas/objectos queixam-se da solidão, acham-se esquecidos mas foram estes que esqueceram tudo e todos, e assim os seus corações foram morrendo. São estes os meus sobreviventes de corpos enferrujados, esquecidos, porque esqueceram. O coração teima em bater, as personagens parecem nunca morrer.


7 a 13 de Janeiro de 2008 no Estúdio Zero [Rua do Heroísmo, 86 / Porto]
7, 8 e 9 – 10h30 e 14h00
10 e 11 – 14h00 e 21h45
12 – 16h00 e 21h45
13 – 16h00


Direcção Artística e Encenação - Luciano Amarelo
Interpretação - Kristin Fredricksson, Luciano Amarelo e Nuno Preto
Cenografia e Marionetas - Luciano Amarelo
Apoio - Sandra Neves e Kristin Fredricksson
Construção Marionetas - Sandra Neves e Kristin Fredricksson
Desenhos - Sandra Neves
Construção Cenário - Sandra Neves
Assistência à Construção - Joana Caetano
Direcção Técnica – Sérgio Julião
Sonoplastia e operação de luz e som – Miguel Frazão
Design Gráfico – João César Nunes
Registo e edição de imagem - Paulo castelo
Fotografia - Sandra Preto

www.teatrobruto.com


fenda no casco