Lí por aí
Lí por aí

O poeta Amadeu Baptista foi galardoado com o Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire 2007, promovido pela Câmara Municipal de Benavente, com a obra Poemas de Caravaggio. Foram ainda atribuídas Menções Honrosas às obras Principia Matemathica, de Carlos Rodrigo da Silva Vaz, As Limitações do Amor são Infinitas, de Rui Costa, e A Educação do Mal, de Fábio Nunes Viana Mendes Pinto. O Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, no valor de cinco mil euros, foi atribuído pelo segundo ano consecutivo, e é patrocinado pela Companhia das Lezírias.
Salada Russa ou Os Perigos de Andar no Escuro
Algumas notas sobre O Meu Cinzeiro Azul
(1)Vamos por partes. A poesia não deve ser: a poesia é. Não há má nem boa poesia: só há poesia. A poesia é respiração. Depois de ler O Meu Cinzeiro Azul, o último livro de Henrique Manuel Bento Fialho, foram estas as três ideias que retive. É muito pouco, dirão alguns. Mas muitas vezes o pouco é suficiente. O Meu Cinzeiro Azul é, principalmente, um livro bem escrito, um livro que não cansa. Nos dias de hoje, poucos são aqueles que escrevem sobre poesia como Henrique Manuel Bento Fialho escreve. São poucos aqueles que pensam ou que escrevem sem pretensiosismo, sem tentar doutrinar. Henrique Manuel Bento Fialho escreve pelo simples facto de escrever lhe ser essencial. Não me refiro a essencial do ponto de vista económico ou de reconhecimento. Refiro-me a essencial do ponto de vista fisiológico. Escrever é respirar, logo é respiração. E aqui respiração não é metáfora, é realidade. Sem escrever, sem poesia, Henrique Manuel Bento Fialho não é.
(2)
Adiado

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Devido a um lamentável acidente ocorrido em ensaio, no qual um dos actores fracturou um pé, a estreia do espectáculo "Eu queria encontrar aqui ainda a terra" foi adiada para 16 de Janeiro de 2008, ficando em cena até 18 de Janeiro.
Fiodor Dostoievski, Crime e Castigo, Porto: Livraria Civilização Editora, 1984, p.330.
Nem mais!
Jim Harrison, em «King of Pain», Sunday Book Review
Ó da Guarda!

Helena Liz: nasceu no Sabugal e reside, desde 1970, em Madrid. Na capital espanhola estudou pintura no IADE, sob a orientação do pintor Salvador Vitória, o que lhe facilitou o contacto com Amália Avia e Lúcio Muñoz e outros grandes nomes da Pintura Espanhola, que lhe proporcionaram um acesso rápido ao mundo artístico madrileno. Do seu currículo consta a participação em 37 exposições colectivas e a realização de 28 individuais em importantes galerias espanholas e portuguesas, a primeira das quais, em Portugal, teve lugar, em Outubro de 1980, na Galeria de Arte do Casino do Estoril. Foi com uma exposição individual de Helena Liz que se inaugurou, em Sintra, o Centro Cultural Olga Cadaval e, em Salamanca, o Museu do Molino Casino de Tormes.
Eu queria encontrar aqui ainda a terra

My Bloody Valentine - Only Shalow
Uma K7 passada no café como segredo bem guardado. Para ouvires alto, disseste. Corri para casa. Falta-me o fôlego e o som das colunas tira-me o resto que ainda tenho. Nunca tinha pensado em ouvir algo assim. Não depois dos Jesus and Mary Chain. Com esses eu tinha declarado o fim do rock tal e qual como o conhecia. E agora estava ali aquele som, aquelas guitarras, aquela voz. Sei que ouvi toda a K7 sem respirar. Penso até que foi essa a razão da minha crise d'asma nessa mesma noite.
Bartleby #3

Assim sendo, podemos dizer que existem dois tipos de escritores bartlebianos: aqueles que são por convicção e aqueles que são por imposição. Os primeiros são todos aqueles que preferem desistir de ser eles próprios para o mundo: ou deixam de publicar ou, publicando, deixam de aparecer em público. Os segundos são aqueles que, por razões estritamente comerciais e de procura, passam a ser bartlebianos, pelo simples facto de ninguém os ler: são desconhecidos, não vão a feiras do livro nem distribuem autógrafos, não vendem (ou vendem pouco).
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Contudo, no segundo grupo de bartlebianos (os que são por imposição), há aqueles que conseguem deixar de o ser. Passam a ser autores conhecidos ou quase conhecidos. Um bom exemplo é Manuel da Silva Ramos. Bartlebiano por imposição durante muito tempo, quase ninguém conhecia os seus livros. Agora, que publica numa grande editora, os seus livros (publicados por essa grande editora) podem ser vistos numa qualquer livraria de um qualquer hipermercado.
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«Bartleby é, sem dúvida, um dos mais excêntricos espécimens da raça humana, o mais próximo possível - tanto quanto as leis biológicas o permitam - de um espectro.» António Bento, em “I would prefer not to” – Bartleby, a fórmula e a palavra de ordem.

O maior problema de todo o escritor bartlebiano é que não consegue ser bartlebiano na sua totalidade. Apesar dos esforços de J.D. Salinger para permanecer afastado do mundo das letras, os seus livros continuam a ser vendidos a um ritmo extraordinário. À Espera no Centeio é mesmo estudado nos Liceus dos Estados Unidos da América. Tratados continuam a ser escritos sobre o livro, cada um com a sua teoria para o significado da obra. O mesmo acontece com Thomas Pynchon. Sempre que um novo livro seu sai é logo vendido como pão aos famintos. A condição de escritor bartlebiano não deixa de ser uma falsa condição.
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Um comentário levantou uma questão importante: aqueles que deviam ser bartlebianos. Isto é: aquele que deveria publicar uma só obra e parar por aí. No panorama nacional lembro-me de um ou dois nomes. Pronto: três. É claro que não os vou aqui mencionar, mas há. No entanto, os leitores desempenham um papel muito importante na obra de um autor. São eles que decidem, neste momento, quem é escritor e quem não é escritor. A crítica, dos chamados críticos, pouco lhes interessa. Os críticos dizem que Miguel Sousa Tavares não é escritor? Os seus leitores desmentem os críticos num abrir e fechar de olhos. Os livros de Miguel Sousa Tavares são vendidos aos milhares, não como pão a famintos, mas como presentes para o Natal, dia do Pai, da Mãe, dos Namorados, do Trabalhador. São os leitores que decidem quem é bartlebiano ou não.
(9)
«o verdadeiro bartleby nunca desiste de ser ele próprio; simplesmente desiste de ser ele próprio no mundo.» Sérgio Lavos em Auto-Retrato

(1)
Ontem aproveitei para rever Descobrir Forrester de Gus Van Sant. A primeira vez foi no ano da sua estreia. Não me desiludiu quando o vi na altura e não me desiludiu ontem. É claro que não é um grande filme, não fará história, e não conhecendo todo a filmografia de Gus Van Sant (embora me pareça ser um realizador que ora faz o que quer ora faz o que lhe mandam) arrisco a dizer que não será um dos seus melhores filmes (muito na linha de O Bom Rebelde). Descobrir Forrester não deixa de ser interessante para quem se interessa por literatura. A ideia do escritor afastado de tudo e todos (J.D. Salinger, Thomas Pynchon, só para citar dois) não deixa de interrogar e cativar. Muito mais se esse autor só escreveu um livro, que alcança um enorme sucesso, e fica por aí (Juan Rulfo não escreveu só um, mas a sua bibliografia resume-se a três títulos). O filme é isso mesmo: a exploração do Síndrome Bartleby (utilizando as palavras de Vila-Matas). O que leva um escritor a optar pelo não? Ou pelo nunca? O que leva alguém a escrever uma só obra e depois decidir que é suficiente?
(2)
Rimbaud escreveu toda a sua obra entre os 15 e 19 anos. Criou o que mais tarde se designou por poesia moderna, numa altura em que os poetas ainda contavam as sílabas e discutiam regras de métrica. Os surrealistas veneraram-no. Teve uma relação tumultuosa com Verlaine, o que levou este à prisão depois de, num ataque de fúria/ciúmes, lhe ter dado um tiro. Fumou haxixe, bebeu absinto. Escreveu, escreveu, escreveu. E depois, sem explicação, parou. O homem que escreveu Iluminações decidiu antes partir para o corno de África e traficar armas e escravos. O período que aí passou é completamente vazio de qualquer certeza em relação à vida que levava. Restam apenas algumas fotografias gastas de um homem na casa dos trinta anos, envelhecido. O homem que disse que era necessário ser-se absolutamente moderno, abandonou tudo.
(3)
Isidore Ducasse talvez não se enquadre no tipo de escritor bartlebiano. Devido à sua morte prematura, nunca saberemos se estaria disposto a escrever mais do que os seus famosos Cantos de Maldoror. No entanto, pouco se sabe da sua vida. Apenas que passou pela literatura como um relâmpago. E, como um relâmpago, marcou-a.
(4)
«Ser escritor é, hoje, a coisa mais imbecil que pode passar pela cabeça de alguém que ainda não seja um velho.» Manuel Jorge Marmelo, em Teatro Anatómico.
(5)
António Lobo Antunes tentou durante algum tempo pertencer à família Bartleby. Apesar dos livros publicados serem um enorme sucesso de vendas, recusava-se a dar entrevistas e a aparecer nos lançamentos dos seus livros. E autógrafos: nem pensar. Tal também acontecia com Miguel Torga, que longe de ser um bartlebiano genuíno, nunca se deixou cair nas garras das editoras, supervisionando sempre as edições dos seus livros, que eram sempre no papel mais barato que havia no mercado. Entrevistas: poucas deu. Não gostava da comunicação social e a comunicação social não gostava dele. Apesar do enorme aparato que este ano se vereficou para comemorar o centenário do seu nascimento.
(6)
Depois há o escritor anti-bartlebiano. Charles Bukowski poderá ser um bom exemplo. Com mais de 40 livros publicados, este autor foi tudo menos bartlebiano. Nunca se recusou a aparecer em televisão. Ganhava a vida com palestras que dava em Universidades, ou recitais de poesia em bares e outros locais. Nunca se esquivou a entrevistas, documentários, cinema. No entanto, na sua campa pode ser lida a seguinte epigrafe: Don’t try. O que não deixa de ser curioso.
Nota: actualizado às 18h34m.
Este blog está de luto
Norman Mailer
(31 de Janeiro de 1923 - 10 de Novembro de 2007)
Ainda não li tudo dele, longe disso. Quero ler. Por mais estranho que pareça alimentei, até hoje, a ideia de o conhecer pessoalmente. The Naked and the Dead e Os Exércitos da Noite foram (são) livros que me disseram (dizem) muito. O prémio Nobel seria um justo prémio, mas alguém pensou que não: ainda bem! Norman Mailer é muito maior que o Nobel.
O Cinzeiro Azul dele

Depois de Estórias Domésticas, Henrique Manuel Bento Fialho publica O Meu Cinzeiro Azul, pela editora Canto Escuro. Na nota Ao Leitor pode ser lido: «Mas se, por definição, todas as emoções são sentidas; se, na base da interpretação de uma obra estão as emoções; será legítimo concluir que todas as interpretações são subjectivas? Inclino-me para uma resposta afirmativa. Por isso o meu esforço em seguir à risca as palavras do mestre: «Ciência pesa, consciência desassossega. / A arte é manca, a fé longínqua e cega. / A vida tem que ser vivida, e é inútil. / Bebe, que a caravana nunca chega». Não é que as opiniões não se discutam. Mas quando se discutem, é bom que não se esqueça que aquilo que se está a discutir são, tão-somente, meras opiniões. Vamos ao que interessa?». Dia 17 de Novembro, às 22h, no Bar Ogâmico, em Lisboa, será o lançamento de O Meu Cinzeiro Azul. Entretanto, quem quiser pode encomendar o livro através do e-mail da Canto Escuro: cantoescuro@sapo.pt.
Comecei ontem a reler Crime e Castigo. A primeira vez que o li tinha 16 anos e trabalhava na Biblioteca Municipal de Manteigas. Não era bem um trabalho trabalho, era Ocupação dos Tempos Livres (patrocinado pelo IPJ). Com 16 anos conhecia muito poucos autores e só tinha lido 5 livros do princípio ao fim. Nesse “trabalho” comecei a conhecer outros autores para além dos 5 que tinha lido. Dostoievski foi um deles. Na altura, o que mais impacto me causou foram as descrições das ruas de São Petersburgo e o modo como as pessoas viviam: a sujidade, os cheiros, famílias inteiras em pequenas divisões. Pouco ficou em mim da personagem que todos citam: Raskolnikoff. Os conflitos de Raskolnikoff não me diziam nada. Tinha 16 anos! Como podiam dizer? Eu estava era mais interessado em cerveja fresca e mergulhos no rio. Com 16 anos ia muito para o rio. Eram tardes fantásticas. Raskolnikoff ficava em casa enquanto eu pegava na bicicleta e partia. Mas às vezes, para impressionar os amigos, dizia que andava a ler Dostoievski. Ficavam todos a olhar para mim com ar admirado. Não compreendiam. Na realidade, nem eu. Ainda hoje se alguém me diz que está a ler Dostoievski eu fico admirado, principalmente se diz que leu Os Irmãos Karamazov ou Os Possessos nas últimas férias de verão.
Contos para trazer no bolso

Bom Dia Portugal!
TV on the Radio - Staring at the Sun
Este é um grupo muito cá da casa. São eles que me fazem acreditar que nem tudo está perdido no mundo da música. Esta faz parte do primeiro álbum deles: Desperate Youth, Blood Thirsty Babes. Há qualquer coisa na música deles que me fascina. Ainda não sei o que é. Talvez a batida forte da bateria, as guitarras, as vozes, as letras: I am the conscience clear/in pain or ecstacy/and we all weaned my dear/upon the same fatigue; be what you will/and then throw down your life/oh it's a damned fine game/and we can play all night. Ou seja: tudo. Para ouvir até ao fim.
Coisas boas da vida
Mão Morta - 1º de Novembro


