Lí por aí


«Sinto-me tentado a dizer que, tal como Álvaro de Campos, também eu “pertenço a um género de portugueses que depois de estar a Índia descoberta ficaram sem trabalho”. Mas seria mentira. Descoberta a Índia e o Brasil (e eu gostaria mais de ter descoberto o Brasil, talvez porque foi obra do acaso e sem nenhum interesse), a penincilina e a divisão dos átomos, eu continuo a ter um emprego e a ter trabalho: o trabalho que dá ser português num tempo em que ser português não tem interesse absolutamente nenhum.»

Manuel Jorge Marmelo, em Teatro Anatómico


Amadeu Baptista vence Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire 2007





O poeta Amadeu Baptista foi galardoado com o Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire 2007, promovido pela Câmara Municipal de Benavente, com a obra Poemas de Caravaggio. Foram ainda atribuídas Menções Honrosas às obras Principia Matemathica, de Carlos Rodrigo da Silva Vaz, As Limitações do Amor são Infinitas, de Rui Costa, e A Educação do Mal, de Fábio Nunes Viana Mendes Pinto. O Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, no valor de cinco mil euros, foi atribuído pelo segundo ano consecutivo, e é patrocinado pela Companhia das Lezírias.


Salada Russa ou Os Perigos de Andar no Escuro


Ontem decidi sentar-me à secretária e escrever. Melhor dizendo: decidi sentar-me à mesa da cozinha, pois nesta casa, onde agora vivo, não tenho secretária. E escrever. A vontade era pouca. Nenhuma, para ser mais correcto. Mas tens que escrever, pensei, nem que seja sobre aquilo que comeste ao almoço – que foi salada russa – ou ao jantar – que foi um bom prato de canja de galinha. Tens que te habituar a escrever um ou dois ou três textos por dia, pensei, para que a mão não se esqueça de o fazer, para que não esqueça o toque suave da caneta – que não é assim tão suave, lembrei-me, pois quando estudava e fazia os resumos da matéria fiquei com um calo no dedo médio da mão direita e nunca mais o pirete teve o mesmo sentido. Pensei escrever sobre a criação poética, mas achei melhor não o fazer. Falar sobre a criação poética é uma coisa muito séria e ainda tens a salada russa às voltas no estômago, agora acompanhada pela canja de galinha. A criação poética é uma coisa muito séria, repeti o pensamento na minha cabeça, e não deve ser abordada de ânimo leve. Escreve antes, pensei, sobre o significado da Arte, qual o seu papel na sociedade actual, qual o seu sentido oculto – se é que tem algum – qual o seu objectivo. A ideia pareceu-me uma boa ideia, no entanto careço de know how e coloquei-a de parte. Mas olha que é uma boa, pensei, e não podes desistir nem à primeira nem à segunda. Tens que insistir, pensei, e não te levantas deste lugar enquanto não escreveres alguma coisa e sobre alguma coisa. É que escrever sobre nada já deu o que tinha a dar. Qual a piada de escrever sobre o que comeste ao almoço ou jantar? Qual o interesse? Quando se escreve deve ser sempre para dizer algo de importante, que tenha valor, que interrogue, questione. Falar sobre o almoço ou jantar não interroga, não questiona. Apenas o faz se alguém perguntar: ele não gosta de salada russsa? Porquê? Comeu canja ao jantar? Porquê? Não comeu fruta hoje? Porquê? Gosta de fazer a barba depois de tomar um duche? Porquê? Nesse caso o texto cumpre a sua função. Obscura, mas cumpre. Passado algum tempo fartei-me de estar à espera que surgisse alguma ideia interessante. Levantei-me, apaguei a luz e dei uma valente cabeçada na porta da cozinha. A cabeça ficou a latejar durante alguns minutos. Depois, tive uma ideia: escreve sobre os perigos de andar no escuro, no escuro enquanto metáfora de algo maior, é claro. E foi o que fiz.


Algumas notas sobre O Meu Cinzeiro Azul



(1)

Vamos por partes. A poesia não deve ser: a poesia é. Não há má nem boa poesia: só poesia. A poesia é respiração. Depois de ler O Meu Cinzeiro Azul, o último livro de Henrique Manuel Bento Fialho, foram estas as três ideias que retive. É muito pouco, dirão alguns. Mas muitas vezes o pouco é suficiente. O Meu Cinzeiro Azul é, principalmente, um livro bem escrito, um livro que não cansa. Nos dias de hoje, poucos são aqueles que escrevem sobre poesia como Henrique Manuel Bento Fialho escreve. São poucos aqueles que pensam ou que escrevem sem pretensiosismo, sem tentar doutrinar. Henrique Manuel Bento Fialho escreve pelo simples facto de escrever lhe ser essencial. Não me refiro a essencial do ponto de vista económico ou de reconhecimento. Refiro-me a essencial do ponto de vista fisiológico. Escrever é respirar, logo é respiração. E aqui respiração não é metáfora, é realidade. Sem escrever, sem poesia, Henrique Manuel Bento Fialho não é.


(2)

Outra ideia interessante, e que mereceria uma abordagem mais longa, é aquela que se refere à escrita enquanto suicídio. É certo que não deixa de ser uma ideia romântica, no entanto, tem um grande fundo de verdade. O escritor quando escreve suicida-se sempre. Contudo, este suicídio não é uma maneira de deixar de ser, antes o oposto: o suicídio é a única maneira que o escritor encontra para conseguir ser. Dirão alguns: isso é ridículo, impensável. A esses digo: vocês afinal não escrevem.

(3)

Não se pense que O Meu Cinzeiro Azul é um conjunto de textos dispersos e que um livro, e antes um blog, lhes deu alguma unidade. O Meu Cinzeiro Azul é composto por textos pensados, fundamentados (cf. com as várias referências bibliográficas), com uma linha condutora, onde o leitor é confrontado com várias questões (que muitos recusam a fazer). O Meu Cinzeiro Azul é um livro que é.

(4)

A poesia não deve ser: a poesia é. Não há má nem boa poesia: só poesia. A poesia é respiração.

Henrique Manuel Bento Fialho, O Meu Cinzeiro Azul, Canto Escuro: s.l., 1ª edição, 2007, 136 pp.

Estamos lixados

se é esta a Direita que se diz responsável e alternativa ao Governo socialista de José Sócrates.


Adiado





Clicar aqui para aumentar

Devido a um lamentável acidente ocorrido em ensaio, no qual um dos actores fracturou um pé, a estreia do espectáculo "Eu queria encontrar aqui ainda a terra" foi adiada para 16 de Janeiro de 2008, ficando em cena até 18 de Janeiro.


o amor é um cão do inferno


Preocupante

Quem escreve, ou pensa que o faz, tem uma tendência que exerce por defeito: quando lê aquilo que os outros escreveram, questiona sempre a sua própria escrita. O que não deixa de ser bom. No entanto, quando a escrita dos outros começa a limitar a nossa escrita… isso começa a ser preocupante.

Também eu!

«- Nós imaginamos sempre a eternidade como uma ideia que não pode compreender-se, uma coisa imensa, imensa! Mas, porque há-de ser sempre assim? E se em vez disso supusermos que é um quarto pequeno, uma espécie de quarto de banho, enegrecido pelo fumo, com aranhas em todos os cantos? Assim a imagino eu muitas vezes.»


Fiodor Dostoievski, Crime e Castigo, Porto: Livraria Civilização Editora, 1984, p.330.


Nem mais!


«Bukowski’s strength is in the sheer bulk of his contents, the virulent anecdotal sprawl, the melodic spleen without the fetor of the parlor or the classroom, as if he were writing while straddling a cement wall or sitting on a bar stool, the seat of which is made of thorns. He never made that disastrous poet’s act of asking permission for his irascible voice.»


Jim Harrison, em «King of Pain», Sunday Book Review

Sentimento de derrota

Estar uma semana a tentar combater uma gripe. Ter que recorrer a antibióticos.



Conselho de amigo

Nunca ler Crime e Castigo com febre. Raskalnikov pode entrar pela porta dentro do quarto com um machado.


Ó da Guarda!





Helena Liz: nasceu no Sabugal e reside, desde 1970, em Madrid. Na capital espanhola estudou pintura no IADE, sob a orientação do pintor Salvador Vitória, o que lhe facilitou o contacto com Amália Avia e Lúcio Muñoz e outros grandes nomes da Pintura Espanhola, que lhe proporcionaram um acesso rápido ao mundo artístico madrileno. Do seu currículo consta a participação em 37 exposições colectivas e a realização de 28 individuais em importantes galerias espanholas e portuguesas, a primeira das quais, em Portugal, teve lugar, em Outubro de 1980, na Galeria de Arte do Casino do Estoril. Foi com uma exposição individual de Helena Liz que se inaugurou, em Sintra, o Centro Cultural Olga Cadaval e, em Salamanca, o Museu do Molino Casino de Tormes.


Eu queria encontrar aqui ainda a terra




Em Novembro estreia a nova peça do Projéc~, desta vez numa produção do TMG para a Câmara Municipal da Guarda e o Centro de Estudos Ibéricos. O quinto trabalho da estrutura de produção teatral do TMG intitula-se Eu queria encontrar aqui ainda a terra, e tem por base o texto de António Godinho e manuel a. domingos sobre os universos de Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço. A peça, para maiores de 12 anos e com encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos de Luciano Amarelo, estreia a 28 de Novembro no TMG, ficando em cena no Pequeno Auditório até dia 30 de Novembro.

Foto: Tiago Rodrigues


Micro #45

Suspeitou que a mulher o traía. Decidiu comprar uma arma para salvar a honra. «Antes condenado que corno!», pensava. Carregou a arma e, num momento de descuido, deu um tiro numa perna. «Antes corno que perneta!», gritou.

Micro #44

Tinha dores de cabeça inexplicáveis. Disseram-lhe que era de levar a vida demasiado a sério. Farto de tal tormento, cortou a cabeça.


o amor é um cão do inferno


My Bloody Valentine - Only Shalow


Uma K7 passada no café como segredo bem guardado. Para ouvires alto, disseste. Corri para casa. Falta-me o fôlego e o som das colunas tira-me o resto que ainda tenho. Nunca tinha pensado em ouvir algo assim. Não depois dos Jesus and Mary Chain. Com esses eu tinha declarado o fim do rock tal e qual como o conhecia. E agora estava ali aquele som, aquelas guitarras, aquela voz. Sei que ouvi toda a K7 sem respirar. Penso até que foi essa a razão da minha crise d'asma nessa mesma noite.


Bartleby #3





(10)


Assim sendo, podemos dizer que existem dois tipos de escritores bartlebianos: aqueles que são por convicção e aqueles que são por imposição. Os primeiros são todos aqueles que preferem desistir de ser eles próprios para o mundo: ou deixam de publicar ou, publicando, deixam de aparecer em público. Os segundos são aqueles que, por razões estritamente comerciais e de procura, passam a ser bartlebianos, pelo simples facto de ninguém os ler: são desconhecidos, não vão a feiras do livro nem distribuem autógrafos, não vendem (ou vendem pouco).


(11)


Contudo, no segundo grupo de bartlebianos (os que são por imposição), há aqueles que conseguem deixar de o ser. Passam a ser autores conhecidos ou quase conhecidos. Um bom exemplo é Manuel da Silva Ramos. Bartlebiano por imposição durante muito tempo, quase ninguém conhecia os seus livros. Agora, que publica numa grande editora, os seus livros (publicados por essa grande editora) podem ser vistos numa qualquer livraria de um qualquer hipermercado.


(12)

«Bartleby é, sem dúvida, um dos mais excêntricos espécimens da raça humana, o mais próximo possível - tanto quanto as leis biológicas o permitam - de um espectro.» António Bento, em “I would prefer not to” – Bartleby, a fórmula e a palavra de ordem.

Bartleby #2


(7)


O maior problema de todo o escritor bartlebiano é que não consegue ser bartlebiano na sua totalidade. Apesar dos esforços de J.D. Salinger para permanecer afastado do mundo das letras, os seus livros continuam a ser vendidos a um ritmo extraordinário. À Espera no Centeio é mesmo estudado nos Liceus dos Estados Unidos da América. Tratados continuam a ser escritos sobre o livro, cada um com a sua teoria para o significado da obra. O mesmo acontece com Thomas Pynchon. Sempre que um novo livro seu sai é logo vendido como pão aos famintos. A condição de escritor bartlebiano não deixa de ser uma falsa condição.


(8)


Um comentário levantou uma questão importante: aqueles que deviam ser bartlebianos. Isto é: aquele que deveria publicar uma só obra e parar por aí. No panorama nacional lembro-me de um ou dois nomes. Pronto: três. É claro que não os vou aqui mencionar, mas há. No entanto, os leitores desempenham um papel muito importante na obra de um autor. São eles que decidem, neste momento, quem é escritor e quem não é escritor. A crítica, dos chamados críticos, pouco lhes interessa. Os críticos dizem que Miguel Sousa Tavares não é escritor? Os seus leitores desmentem os críticos num abrir e fechar de olhos. Os livros de Miguel Sousa Tavares são vendidos aos milhares, não como pão a famintos, mas como presentes para o Natal, dia do Pai, da Mãe, dos Namorados, do Trabalhador. São os leitores que decidem quem é bartlebiano ou não.


(9)


«o verdadeiro bartleby nunca desiste de ser ele próprio; simplesmente desiste de ser ele próprio no mundo.» Sérgio Lavos em Auto-Retrato

Das questões

Como há questões que nunca devem ser colocadas, também há questões que nunca devem ser respondidas.

Manifesto

Os dias são de incerteza.

À Noite o Céu é Diferente

No início de Outubro o Sérgio Nogueira e a Carla Ribeiro (dois colegas da minha escola do passado ano lectivo) entraram em contacto comigo: queriam que eu escrevesse uma história para um projecto que eles estão a desenvolver no Agrupamento de Escolas da Zona Urbana da Figueira da Foz. À Noite o Céu é Diferente será uma instalação de artefactos fluorescentes com projecção de imagens num espaço escurecido para representar a magia do céu de uma noite de natal. Os trabalhos a expor serão criados por crianças e jovens das escolas do concelho da Figueira da Foz sobre o tema Natal e Constelações Mágicas. A articulação das realizações será feita através da interpretação da história escrita por mim. O projecto é uma iniciativa do Tubo d'Ensaio em colaboração com um grupo de professores da Figueira da Foz. Esta iniciativa conta ainda com o apoio institucional da Câmara Municipal da Figueira da Foz, através dos pelouros da Cultura e Educação e do Desporto e Juventude. Aqui podem ver o trabalho que já está a ser desenvolvido pelas crianças. E ler dois dos capítulos que formam a história. Força! vão até lá!

Gosto muito de Mailer mas ele não inventou nada

A formula já existia. Norman Mailer só a aplicou. Não podemos esquecer que foi Truman Capote o "pai" do non-fiction novel, em 1959, com A Sangue Frio.

Bartleby

(1)

Ontem aproveitei para rever Descobrir Forrester de Gus Van Sant. A primeira vez foi no ano da sua estreia. Não me desiludiu quando o vi na altura e não me desiludiu ontem. É claro que não é um grande filme, não fará história, e não conhecendo todo a filmografia de Gus Van Sant (embora me pareça ser um realizador que ora faz o que quer ora faz o que lhe mandam) arrisco a dizer que não será um dos seus melhores filmes (muito na linha de O Bom Rebelde). Descobrir Forrester não deixa de ser interessante para quem se interessa por literatura. A ideia do escritor afastado de tudo e todos (J.D. Salinger, Thomas Pynchon, só para citar dois) não deixa de interrogar e cativar. Muito mais se esse autor só escreveu um livro, que alcança um enorme sucesso, e fica por aí (Juan Rulfo não escreveu só um, mas a sua bibliografia resume-se a três títulos). O filme é isso mesmo: a exploração do Síndrome Bartleby (utilizando as palavras de Vila-Matas). O que leva um escritor a optar pelo não? Ou pelo nunca? O que leva alguém a escrever uma só obra e depois decidir que é suficiente?

(2)

Rimbaud escreveu toda a sua obra entre os 15 e 19 anos. Criou o que mais tarde se designou por poesia moderna, numa altura em que os poetas ainda contavam as sílabas e discutiam regras de métrica. Os surrealistas veneraram-no. Teve uma relação tumultuosa com Verlaine, o que levou este à prisão depois de, num ataque de fúria/ciúmes, lhe ter dado um tiro. Fumou haxixe, bebeu absinto. Escreveu, escreveu, escreveu. E depois, sem explicação, parou. O homem que escreveu Iluminações decidiu antes partir para o corno de África e traficar armas e escravos. O período que aí passou é completamente vazio de qualquer certeza em relação à vida que levava. Restam apenas algumas fotografias gastas de um homem na casa dos trinta anos, envelhecido. O homem que disse que era necessário ser-se absolutamente moderno, abandonou tudo.

(3)

Isidore Ducasse talvez não se enquadre no tipo de escritor bartlebiano. Devido à sua morte prematura, nunca saberemos se estaria disposto a escrever mais do que os seus famosos Cantos de Maldoror. No entanto, pouco se sabe da sua vida. Apenas que passou pela literatura como um relâmpago. E, como um relâmpago, marcou-a.

(4)


«Ser escritor é, hoje, a coisa mais imbecil que pode passar pela cabeça de alguém que ainda não seja um velho.» Manuel Jorge Marmelo, em Teatro Anatómico.

(5)

António Lobo Antunes tentou durante algum tempo pertencer à família Bartleby. Apesar dos livros publicados serem um enorme sucesso de vendas, recusava-se a dar entrevistas e a aparecer nos lançamentos dos seus livros. E autógrafos: nem pensar. Tal também acontecia com Miguel Torga, que longe de ser um bartlebiano genuíno, nunca se deixou cair nas garras das editoras, supervisionando sempre as edições dos seus livros, que eram sempre no papel mais barato que havia no mercado. Entrevistas: poucas deu. Não gostava da comunicação social e a comunicação social não gostava dele. Apesar do enorme aparato que este ano se vereficou para comemorar o centenário do seu nascimento.

(6)

Depois há o escritor anti-bartlebiano. Charles Bukowski poderá ser um bom exemplo. Com mais de 40 livros publicados, este autor foi tudo menos bartlebiano. Nunca se recusou a aparecer em televisão. Ganhava a vida com palestras que dava em Universidades, ou recitais de poesia em bares e outros locais. Nunca se esquivou a entrevistas, documentários, cinema. No entanto, na sua campa pode ser lida a seguinte epigrafe: Don’t try. O que não deixa de ser curioso.

Nota: actualizado às 18h34m.

Este blog está de luto



Norman Mailer
(31 de Janeiro de 1923 - 10 de Novembro de 2007)

Ainda não li tudo dele, longe disso. Quero ler. Por mais estranho que pareça alimentei, até hoje, a ideia de o conhecer pessoalmente. The Naked and the Dead e Os Exércitos da Noite foram (são) livros que me disseram (dizem) muito. O prémio Nobel seria um justo prémio, mas alguém pensou que não: ainda bem! Norman Mailer é muito maior que o Nobel.



O Cinzeiro Azul dele





Depois de Estórias Domésticas, Henrique Manuel Bento Fialho publica O Meu Cinzeiro Azul, pela editora Canto Escuro. Na nota Ao Leitor pode ser lido: «Mas se, por definição, todas as emoções são sentidas; se, na base da interpretação de uma obra estão as emoções; será legítimo concluir que todas as interpretações são subjectivas? Inclino-me para uma resposta afirmativa. Por isso o meu esforço em seguir à risca as palavras do mestre: «Ciência pesa, consciência desassossega. / A arte é manca, a fé longínqua e cega. / A vida tem que ser vivida, e é inútil. / Bebe, que a caravana nunca chega». Não é que as opiniões não se discutam. Mas quando se discutem, é bom que não se esqueça que aquilo que se está a discutir são, tão-somente, meras opiniões. Vamos ao que interessa?». Dia 17 de Novembro, às 22h, no Bar Ogâmico, em Lisboa, será o lançamento de O Meu Cinzeiro Azul. Entretanto, quem quiser pode encomendar o livro através do e-mail da Canto Escuro: cantoescuro@sapo.pt.


The National - Mistaken for Strangers

O que posso dizer. Muito pouco ou nada. Esta música impressionou-me bastante quando a ouvi pela primeira vez. Impressionou-me tanto que costumo ouvi-la antes de ir trabalhar, sair à noite, quando me apetece. É claro que há outras músicas deles que são melhores, como por exemplo Slow Show ou Fake Empire. Esta tem a capacidade de me transportar para uma Lisboa ao fim do dia, quando caminhamos pelas ruas e as luzes começam a acender. No comboio as caras estão cansadas, somos todos estranhos. Às vezes até os nossos amigos. O sol para lá do Bugio e a Ponte sobre a noite que começa. O rio. Há uma rapariga mesmo à tua frente. Linda. Nunca viste uma rapariga tão linda na tua vida. Vai a ouvir música.

Verão de S. Martinho

O pequeno-almoço foi castanhas. Um magusto como aqueles que eu fazia na escola, com caruma e pinhas. Ainda cheiro um pouco a fumo. Só faltou a Jeropiga ou a Água-Pé. Hoje está um dia lindo. Não é tempo para perder tempo com o blog.



Só uma coisa

Se não fosse este blog e os blogs que leio, há muito que tinha rebentado, enlouquecido.


Para ler


Victims of Dance, de José Miguel Silva.

Dos perigos da Era da Informação

Ter um aluno que vai ao Google fazer uma pesquisa sobre o seu professor de Língua Inglesa e chegar até aqui. E o professor de Língua Inglesa ser eu.

Releitura

Comecei ontem a reler Crime e Castigo. A primeira vez que o li tinha 16 anos e trabalhava na Biblioteca Municipal de Manteigas. Não era bem um trabalho trabalho, era Ocupação dos Tempos Livres (patrocinado pelo IPJ). Com 16 anos conhecia muito poucos autores e só tinha lido 5 livros do princípio ao fim. Nesse “trabalho” comecei a conhecer outros autores para além dos 5 que tinha lido. Dostoievski foi um deles. Na altura, o que mais impacto me causou foram as descrições das ruas de São Petersburgo e o modo como as pessoas viviam: a sujidade, os cheiros, famílias inteiras em pequenas divisões. Pouco ficou em mim da personagem que todos citam: Raskolnikoff. Os conflitos de Raskolnikoff não me diziam nada. Tinha 16 anos! Como podiam dizer? Eu estava era mais interessado em cerveja fresca e mergulhos no rio. Com 16 anos ia muito para o rio. Eram tardes fantásticas. Raskolnikoff ficava em casa enquanto eu pegava na bicicleta e partia. Mas às vezes, para impressionar os amigos, dizia que andava a ler Dostoievski. Ficavam todos a olhar para mim com ar admirado. Não compreendiam. Na realidade, nem eu. Ainda hoje se alguém me diz que está a ler Dostoievski eu fico admirado, principalmente se diz que leu Os Irmãos Karamazov ou Os Possessos nas últimas férias de verão.

Hoje acordei assim

«Era já tarde quando se levantou, no dia seguinte, após um sono agitado que não lhe reparara as forças. Ao despertar, percebeu que estava de péssimo humor e lançou em volta de si um olhar irado.»

Fiodor Dostoievski, Crime e Castigo, Porto: Livraria Civilização Editora, 1984, p. 43.

Da vontade

Estou com tanta vontade de corrigir testes, que até pensei ir comprar um livro da Margarida Rebelo Pinto para ler.



Contos para trazer no bolso




A Casa Verde tem como interesse divulgar a micronarrativa. Cheguei até ela através do Henrique e do Luis, que falaram de mim a Laís Chaffe, que por sua vez me convidou a publicar um pequeno conto na antologia Contos de Algibeira. Ora a antologia Contos de Algibeira vai ser lançada no próximo dia 1 Dezembro (Sábado) em Porto Alegre, Brasil, a partir das 18h30m, na ALAMEDA DOS ESCRITORES do Shopping Total (av. Cristóvão Colombo, 545 - Bairro Floresta). A antologia reúne autores do Brasil e de Portugal. Participam na antologia: Adrienne Myrtes, Álamo Oliveira, Alexandre Borges, Alexandre Guardiola, Altair Martins, Ana Baggio, Ana Mendes, Ana Ramalhete, Ana Saramago, Andréa Del Fuego, Ângela Schnoor, Aurora Silva, Berenice Sica Lamas, Caco Belmonte, Caio Riter, Carlos Gerbase, Carlos Seabra, Carlos Tomé, Celia Maria Maciel, Celso Gutfreind, Christina Dias, Cíntia Moscovich, Claudia Tajes, Claudio Parreira, Cleci Silveira, Clelia Bortolini, Daniel de Sá, Daniel Rocha, Edson Cruz, Fabrício Carpinejar, Fernando Bonassi, Fernando Gomes, Fernando Neubarth, Fernando Rozano, Filipe Bortolini, Frederico Alberti, Gonçalo M. Tavares, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Rosa, Índigo, Ivana Arruda Leite, Ivette Brandalise, Jaime Cimenti, Jaime Vaz Brasil, Jane Tutikian, Jeová Santana, João Carlos Silva, João Pedro Mésseder, João Ventura, Joel Neto, José Bandeira, José Eduardo Degrazia, Laís Chaffe, Leonardo Brasiliense, Leozito Coelho, Livia Garcia-Roza, Lourenço Cazarré, Luciana Penna, Luciana Veiga, Luís Dill, Luis Ene, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Arraes, Luiz Paulo Faccioli, manuel a. domingos, Marcelino Freire, Marcelo Spalding, Maria Helena Weber, Maria João Lopes Fernandes, Mário Calado Pedro, Mario Pirata, Marô Barbieri, Milena Fischer, Monique Revillion, Nelson de Oliveira, Nilto Maciel, Nuno Camarneiro, Nuno Costa Santos, Paulo Bentancur, Paulo Kellerman, Paulo Rodrigues Ferreira, Pedro Coelho, Pedro Maciel, Pedro Salgueiro, Rafael Mota Miranda, Raquel Grabauska, Ray Silveira, Ricardo Silvestrin, Rinaldo de Fernandes, Rita Cunha Travassos, Rubem Penz, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rui Zink, Rute Mota, Samir Mesquita, Sara Monteiro, Silvio Fiorani, Sérgio Capparelli, Sergio Napp, Tailor Diniz, Valesca de Assis, Vasco M. Barreto, Walter Galvani, Wilson Bueno, Wilson Gorj e Zezé Pina.


Gola Alta

Sou homem de gola alta. Quando chega o frio: gola alta. Disseram-me um dia que algumas mulheres não resistem a um homem de gola alta. O pior é a garganta. Desde que comecei a usar gola alta que o número de faringites e amigdalites aumentou consideravelmente. Começo a pensar que me mentiram.


Bom Dia Portugal!


Acordo de manhã com uma espécie de ressaca (quem sofre da vesícula é assim). Ligo a televisão e ouço as notícias: 30 mortos na Argentina, um GNR baleado, os abusos sexuais continuam na Casa Pia. E depois de tudo isto o apresentador a dizer: BOM DIA PORTUGAL!

Programa de Festas

Hoje, às 21h30m, O Barbeiro de Sevilha, pela Ópera Estatal de São Petersburgo Mussorsky Theatre, no TMG.

TV on the Radio - Staring at the Sun

Este é um grupo muito cá da casa. São eles que me fazem acreditar que nem tudo está perdido no mundo da música. Esta faz parte do primeiro álbum deles: Desperate Youth, Blood Thirsty Babes. Há qualquer coisa na música deles que me fascina. Ainda não sei o que é. Talvez a batida forte da bateria, as guitarras, as vozes, as letras: I am the conscience clear/in pain or ecstacy/and we all weaned my dear/upon the same fatigue; be what you will/and then throw down your life/oh it's a damned fine game/and we can play all night. Ou seja: tudo. Para ouvir até ao fim.

Quanto a mim Lobo Antunes até escrevia bons livros, mas depois deu-lhe para aquilo

«Passara por Lixboa há dezoito ou vinte anos a caminho de Angola e o que recordava melhor eram as discussões dos pais na pensão do Conde Redondo onde ficaram entre tinir de baldes e resmungos exasperados de mulher.»

António Lobo Antunes, As Naus, Lisboa: Dom Quixote, 5ª edição, 2002, p. 9.


Coisas boas da vida


Como ainda não há crianças pela casa a chamar pelo pai, o melhor que eu consigo arranjar é acordar de manhã depois de uma noite mal dormida e encontrar comentários no blog.

Micro #43

Escreveu o seu necrológio e matou-se. Andava farto de escrever biografias, disse a viúva.

o amor é um cão do inferno

Nota: poemas retirados do livro de Charles Bukowski, Come on In!, New York: Ecco, 2006.




marta cunha caldeira, Angela Schnoor, Mário Lisboa Duarte, Marco António de Araújo Bueno, Miguel Fernandes Ceia, Jorge Castro, Ana Flores, Luís Serra, Sandra Guerreiro Dias, José Eduardo Lopes, Carlos Tijolo, Enrique Bóveda, Maria Pragana, Rute Mota, Débora Regadas, Ana Mello, Diego Spagnuelo, Rui Arcadinho, Pedro Chagas Freitas, Da Noya, Henrique Manuel Bento Fialho, manuel a. domingos, Paulo Rodrigues Ferreira, Luís L., Eduardo Oliveira Freire, Alexandra Lisboa, Aurora Silva, Constança Lucas, Rui Silva Santos, João Pereira Matos, Cristina Coroa, Ana Ramalhete, Gustavo do Carmo, Ana Mendes, Rui Almeida, Miguel Alves, Wilson Gorj, Diogo Vaz Pinto, Sara Monteiro, Luís N., Francisco Pascoal Pinto, João Carlos Silva, Tiago Nené, José Alberto Mar, Edgar Borges, Mário Calado Pedro, Maria João Fernandes, Pedro Amaral, Rita Tavares Melo, Rita Cunha Travassos, APC, Diogo Cardoso, Margarida Delgado, Fernando Gomes, Graça Cristina, Casimiro de Brito, Mauro Paz, Nuno Moura, Osvaldo Ferreyra, João Ventura, Ricardo Divino, Carlos Veríssimo.

Lí por aí

«O estado mental da Nação

é de preguiça e desespero mole. A crítica sadia e fundamentada refugiou-se num buraco tão fundo do cérebro que não se encontra. A crítica só pode ser reparo educado, ou então laudatória, ou pelo menos compreensiva e, quando não o é, o crítico recebe a acusação fácil e preguiçosa de «falar por inveja», o argumento final dos imbecis. Se o povo diz «eles têm é inveja, palhaços!» (na defesa de La Féria), o intelectual diz o mesmo mas com uma linguagem vestida de roupa de marca, que aliás não vale o dinheiro que custa. Vai tudo dar ao mesmo. Não há crítica. A culpa é da televisão, e não é porque o homem português goste ou se divirta com os programas, mas porque tem de olhar para o ecrã para não ver a preguiça, o desespero e a tristeza de morte à sua volta. Já não há força para se desligar o botão da modorra que, pelos vistos, se encravou no cérebro. (Pensei isto tudo com a minha cabeça, até lhe dei uma forma pró-literária e pareço muito esperto, mas não, fico assim azedo sempre que o Benfica perde.)»


Mão Morta - 1º de Novembro