Micro #42


Nunca tinha escrito um único romance, um único livro de poesia. Uma única palavra. Um dia atribuíram-lhe um prémio literário.



Micro #41


Pensou escrever um conto. Começou pelo ponto final.



Às vezes começo a pensar


Que começa a cheirar a Revolta.


Noite bem passada

Na noite de sexta-feira passada fui até Torres Vedras. Motivo: o encontro de escritores. Ou melhor: um “sarau” de poesia com Luís Filipe Cristóvão, Rute Mota, Mário Lisboa Duarte e Ozias Filho. Foi uma noite bem passada. Fiquei a conhecer pessoalmente o Luís, a Rute e o Mário, que já conhecia dos respectivos blogs. Mas foram dos poemas lidos que mais gostei, em especial dos poema inéditos da Rute Mota, do inédito lido pelo Luís Filipe Cristóvão e outro de Manuel da Fonseca (Domingo, não inédito e lido pelo Luís), dos poemas bem dispostos do Mário, e da poesia brasileira lida por Ozias Filho, natural do Rio de Janeiro. E cheguei à seguinte conclusão: só mesmo um brasileiro para ler bem poetas brasileiros. Tudo o resto é praia.


É só pão, só pão


Uma das primeiras coisas que pergunto quando chego a uma nova localidade é o nome que dão aos vários tipos de pão. Nunca sei se devo chamar papo-seco a um papo-seco, ou carcaça a uma carcaça. Depois há as variedades. Este é pão de mistura, este não é, este é só integral, este é caseiro (mas a saber igual aos outros). Aqui na Benedita há uma padaria que vende um tipo de pão que é chamado de cortadinho (espécie de papo-seco, mas mais pequeno). Nessa mesma padaria vendem o cortadinho e um cortadinho mais pequeno a que dão o nome de bebé. Fiquei admirado, mas nada disse. Até ontem, quando dei por mim a pedir um galão e um bebé com manteiga.


É impressão minha


ou os deputados do PCP só sabem dizer «de direita» e «neo-liberais»?


Página 161, 5ª linha


O desafio exige o cumprimento dos seguintes cinco passos:
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

Respondendo ao desafio do António e do André, aqui deixo a frase da página 161, 5ª linha:

«"He has a big cock", said Fay.»

Charles Bukowski, Post Office, New York: Ecco, 2002, p. 161.

Passo agora o desafio ao Lourenço, à Rute Mota, à Ana Salomé, ao Luís e ao Rui.

Tindersticks - City Sickness


Durante muito tempo não ouvi outra coisa. O primeiro álbum foi gravado numa K7. O Miguel foi o responsável. O Miguel foi o responsável por muita da boa música que ouço. Depois, cresci sozinho. Mas o Miguel ainda me acompanha. Por vezes, chega ao pé de mim e diz-me tenho lá uma coisa que é mesmo a tua cara. Acerta sempre. Durante muito tempo não ouvi outra coisa. Esta é a minha forma de te agradecer, Miguel. Obrigado.

Três conselhos que nunca me deram


1º Nunca abandones o teu barbeiro.
2º Corta o cabelo sempre no teu barbeiro.
3º O melhor amigo do teu cabelo é o teu barbeiro.


Depois digam que não avisei #6

Um gajo está no supermercado. Secção dos enlatados.
Entretanto aparece uma gaja que te pede licença para passar, quando tem o corredor todo para ela.
Tem uma barriga lisa e umas mamas espetadas. Um piercing no umbigo e uma tatuagem no fundo das costas, qualquer coisa tribal que não consegues identificar. E usa umas cuecas fio-dental que sobem quando se baixa para apanhar alguma coisa.
Ela olha para ti e sorri.
Sorris de volta, mas só depois reparas que tens uma erecção tão grande que nem as calças conseguem esconder.


Lí por aí


«Daquilo que somos, resta apenas uma noite
a insidiosa margem do erro»


Fernando Dinis, em Fico Até Tarde Neste Mundo


A Bomba vai rebentar?




Se há um livro pelo qual espero é este. Como não tenho cartão de crédito para comprar através da net (pois ainda não sou totalmente de direita), vou ter mesmo que esperar pela tradução portuguesa (Alêtheia Editores). Já tinha ouvido falar dele, mas o Câmara Clara de domingo (um programa dedicado ao movimento punk português e internacional, o que não deixa de ser curiosa a apresentação do livro, e daí talvez não) abriu-me ainda mais o apetite. Se no tempo do PREC existissem blogs e o COPCON tivesse acesso à net, eu estava feito ao bife!

Depois digam que não avisei #5

Depois de pedir duas cervejas começou a desbobinar.
«Vê lá tu pá! A minha namorada agora deu-lhe para me por a pão e água. Há mais de um mês que não há nada para ninguém.»
Dou um gole na minha cerveja e pergunto
«Mas descobriu alguma coisa?»
«Descobriu o quê?»
«Aquilo que te aconteceu com a outra gaja.»
«Que gaja?»
Isto era mesmo típico dele.
«Aquela gaja que te pôs a mijar fogo.»
«Eh pá, nem me lembres. Olha que andei mais de uma semana à rasca e ainda hoje quando de manhã mijei ardeu.»
«Não terás uma infecção urinária», pergunto.
«Lá vens tu com a mania das doenças.»
«Olha que os sintomas são muito parecidos.»
«Infecção urinária é coisa de gaja, pá!», deu um gole na cerveja, «O que achas que devo fazer?»
«Acho que devias ir ao médico.»
«Porra pá! Estou a falar em relação à minha namorada!»
«Eh pá…»
«Só estou a pedir a tua opinião. És meu amigo, não és?»
Nós éramos amigos há muitos anos, mas há certas coisas que não se pedem a um amigo, principalmente quando se tem uma namorada boa como o milho, que apetece levar para a cama e ensinar-lhe uma ou duas coisas. E quando essa namorada nos faz olhinhos e nos dá toques para o telemóvel às duas e três da manhã.
«Claro que sou teu amigo. Mas preferia não me meter.»
«Essa agora!»
«Tenta compreender.»
«Ajuda o amigo, pá. Não aguento nem mais um dia. Os meus tomates parecem duas melancias. E de vez em quando fico com uma tusa do caraças, pá! É muito aborrecido.»
«Alivia-te.»
«Deixei-me disso aos 18.»
Não sabia o que dizer mais para ele me deixar em paz. Até que
«Que tal levá-la a jantar fora?»
«Queres arruinar-me?»
«Pediste a minha opinião. Eu dei a minha opinião.»
«Sabes quanto custa um jantar num restaurante minimamente apresentável? Pelos vistos não! Passas o tempo a ler e a escrever poemas de merda. Quando é que arranjas uma gaja. Deixavas logo de escrever a merda de poemas que escreves e passavas era a dar umas valentes quecas…»
E continuou com a mesma ladainha de sempre.
Acabei a minha cerveja e pedi mais duas.

Choque Tecnológico


O Governo, juntamente com a TMN, promove o Plano Tecnológico, Portugal a Mudar. Durante algum tempo vimos membros do Governo a distribuírem computadores portáteis em vários pontos de Portugal. Inserido no programa e-escola, também eu tentei adquirir um computador portátil. Sou professor, estou colocado numa escola. Até aqui tudo bem. O problema veio a seguir. Afinal não sou bem professor: sou professor contratado. E a minha colocação não é bem uma colocação: é tapar um buraco. Resumo: não tenho direito a um computador portátil. Mas o pior foi quando ontem vi uma publicidade na televisão: se és aluno do 10º ano podes aderir ao programa e-escola. Eu, que sou professor (perdão, professor contratado) e necessito de um computador para trabalhar, nomeadamente na composição de testes, grelhas de avaliação e correcção, realização de relatórios, entre outras coisas, não tenho direito a um computador portátil. Mas um aluno de 10º ano tem. Não podemos esquecer que é fundamental para o aluno visualizar vídeos do youtube, descarregar músicas ilegalmente, passar horas e horas agarrado ao messenger ou a jogar. Sim, isso é importante. Porreiro, pá!


Encontro de Escritores de Torres Vedras




26 de Outubro

a partir das 10 horas

Leituras para Crianças nas Escolas
pelo Grupo de Teatro do ATV
EB1 Maxial * EB1 Freiria * Biblioteca da EB 2, 3 dos Campelos * EB1 Torres Vedras (Agrupamento de São Gonçalo)

15h30

Sessão de Abertura

Salão Nobre dos Paços do Concelho

16h

Mesa: Literatura para Crianças
com Mafalda Milhões, Dora Batalim, Isabel Martins, Ana Meireles e José António Gomes (moderador)

Salão Nobre dos Paços do Concelho

21h

Noite de Poesia
com Luís Filipe Cristóvão, Ozias Filho, Mário Lisboa Duarte e Rute Mota.
Livrododia – Centro Histórico

27 de Outubro
a partir das 10 horas

Leituras para Crianças
pelo Grupo de Teatro do ATV
Livrododia – Centro Histórico

15h30

Mesa: Novos Autores
com Cláudia Clemente, Golgona Anghel, Inês Leitão, Paulo Bandeira Faria e Luís Filipe Cristóvão(moderador)

Salão Nobre dos Paços do Concelho

16h40

Apresentação da Colecção Palavra Ibérica
com Luís Filipe Cristóvão, Fernando Esteves Pinto e José Carlos Barros.
Salão Nobre dos Paços do Concelho

17h30

Mesa: O Mercado dos Livros
com Miguel Real, Pedro Mexia, José Prata e Nuno Seabra Lopes (moderador)
Salão Nobre dos Paços do Concelho

20h30

Jantar de Encerramento
Hotel Império

Eu, Narciso

Quando comecei a escrever poesia e a publicá-la no jornal lá da terra, houve alguém que me disse que ainda tinha que ler muito e aconselhou-me três autores: Eugénio, Herberto e Al Berto. E disse-me que deveria lê-los, copiá-los e depois esquecê-los, fazer o meu caminho. No primeiro livro que publiquei os três estão lá: Eugénio nos temas, Herberto numa ou outra imagem indecifrável e Al Berto na nota de abertura, juntamente com um texto do livro do Apocalipse (penso que ele ia gostar da companhia). Passados estes anos todos a minha poesia seguiu um caminho muito diferente. Não sei se será melhor ou pior do que o caminho que iniciei. Uma coisa posso dizer: continuo a sentir que ainda não é a minha poesia. Não sei se algum dia escreverei um poema que seja realmente meu. Penso que isso é completamente impossível. As influências literárias são umas putas. Mas são umas putas sem as quais não conseguimos viver. Sem influências literárias o que seria de nós?

KLF - Last Train To Trancentral

Depois deles, nada foi o mesmo lá em casa.

Mais um para a estante

É sensação minha ou os prémios literários andam sempre a ser distribuídos aos mesmos?

Post com uma referência a Charles Bukowski

De manhã partiu-se um dos atacadores das minhas botas. Mas ainda não foi desta que enlouqueci.

Lí por aí

«Estou a reler o meu primeiro romance (já foi revisto) e é demasiado evidente a influência de Black Sabath.»

Lourenço Bray, em o nascer do sol

Polémica

Alguém? Alguém quer entrar em polémica comigo? Por favor! Alguém? Preciso de ginástica. Escolham o tema. Um qualquer. Menos política e futebol. O resto pode ser. Mulheres, machismo, feminismo (este um dos meus favoritos pelo manancial de lixo que consigo dizer e escrever). Vá lá! Alguém?

Depois digam que não avisei #4

É isso e chegar alguém ao pé de ti e disparar:
«Então pá! Que tal te corre a vida?»
«Mais ao menos.»
«Sempre foste um gajo cheio de sorte. A minha vida está uma merda, pá. Na semana passada fui para a cama com uma gaja e agora quando mijo arde! Porra, pá! Lá ia adivinhar que o raio da gaja não se lavava por baixo! Agora o pior é que a minha namorada anda há uma semana a pedir uma queca. Não é que ela se vira para mim e diz-me: há mais de uma semana que não fazes amor comigo, o que se passa? já não te agrado? já não gostas de espetar-me com ele? É claro que ela não utilizou estas palavras, tu conheces o tipo de mulher que ela é: uma mulher às direitas, com classe. Mas anda com uma vontade que nem te conto. E depois ainda há a merda do trabalho. O meu patrão passa o dia a moer-me o juízo. O cabrão está todo o dia com o cu sentado a polir a merda da cadeira e um gajo sempre a trabalhar de um lado para o outro e depois ainda tem a lata de dizer que não estamos a render o suficiente e que um dia destes vai ter que dispensar alguns de nós e mais uma merda para ele.»
Depois ele pede duas cervejas e eu começo a pensar se lhe perguntei alguma coisa.

Quarto Escuro #21 (último)

O sol entra pela janela acompanhado do riso das crianças. Não é fácil resolver o poema, quando o riso das crianças se junta ao extinguir dos nomes, das palavras que usas. Levantas-te e tentas fechar a janela, mas o sol bate na cara. Talvez ainda exista esperança. Com o tempo começas a esquecer aquilo que aprendeste. Há demasiados livros pelo meio, demasiados filósofos a quem a esperança pouco ou nada diz. O sol a bater na cara. O riso das crianças. Tudo parece impossível. Fechas a janela, corres o cortinado. Esperas que a noite chegue, que a febre se instale. A esperança. Dizem que é fácil ter esperança. Acreditar. Em quê? Para quê? Um dia alguém te disse que acreditar era para aqueles que nunca querem ir mais além, ver para lá do ver. Só a dúvida te pode salvar, rapaz, não a crença!

Fraco

Ontem o documentário passado na RTP2 Tomai Lá do O’Neill (DocLisboa 2007) realizado por Fernando Lopes, deixou-me bastante desiludido. Achei-o mesmo fraco. O’Neill merecia mais, muito mais.

Vieram enganados!

Domingo passado os convidados do Câmara Clara foram Augusto Cid e André Carrilho. A certa altura Augusto Cid conta uma história da sua experiência na Guerra do Ultramar. Está o seu pelotão cercado por forças do MPLA. O ataque começara às onze da noite, com consecutivos bombardeamentos de morteiro e palavras de ordem gritadas. Uma dessas palavras de ordem foi: Morte ao Salazar! E um soldado português respondeu: Salazar não está aqui, vieram enganados! Foi a gargalhada geral do pelotão português. E o ataque terminou.


Um estalo, por favor.


Só este fim-de-semana descobri a poesia de Rui Knopfli.



Depois digam que não avisei #3

«Eh pá, então não é que ontem fui para a cama com uma gaja…»
«Como é que conseguiste?»
«Deixa-te de merdas, pá!»
«A sério! Como é que conseguiste?»
«Porra, pá! Quer um gajo ter uma conversa séria contigo e não consegue. És sempre a mesma coisa, pá!»
«Pronto, pá. Conta lá então.»
«Não é que ontem fui para a cama com uma gaja… Porra, pá! Pára lá de rir!»
«Eh pá! Desculpa. Continua lá com a história.»
«Ontem fui para a cama com uma gaja…»
«Essa parte já contaste.»
«Chiça! Vais estar sempre a interromper? Porra, pá!»
«ok, ok.»
«Deixa-me só contar a merda da história!»
«Conta, conta.»
«Fui para a cama com uma gaja…»
«Tipo aquela ali?»
«Porra pá!»
«O que foi agora? Só perguntei se era tipo aquela ali. Olha que és um gajo com sorte se for.»
«O que queres dizer com isso?»
«Nada pá. Conta lá a tua história.»
«Se conseguir!»
«Vá, vá. Conta lá.»
«Fui para a cama com uma gaja mais ou menos parecida com aquela ali.»
«Com aquela?»
«Sim, qual é o problema?»
«Nenhum, nenhum.»
«Posso continuar?»
«Sim, sim.»
«Levei-a até minha casa…»
«O quê? Levaste a gaja àquela espelunca a que chamas casa!?»
«Espelunca? Porra! Ao menos eu tenho uma casa…»
«Se chamas àquilo casa»
«… não vivo ainda com os meus pais.»
«Que queres dizer com isso?»
«Nada, nada.»
«Continua mas é com a tua história.»
«Olha pá, esquece.»


Depois digam que não avisei #2

Há aquelas pessoas que dizem: é pá, identifiquei-me mesmo com aquilo que tu escreveste. E tu ficas a olhar para elas com um olhar tipo: e agora? queres algum prémio? Ou então dizem: gostei muito do teu último poema, estava muito giro. Giro? Se estava giro não deve ser grande poema. É quando pessoas dessas me dizem coisas assim que eu sei que definitivamente não sou poeta. Ou então quando alguém me diz tu é que és aquele gajo que tem a mania que é poeta mas que escreve poemas que não rimam, não és? Devo admitir que já tive intenções de ser poeta. De ser um poeta a sério, daqueles que vão à televisão e tudo. Sonhei com conferências e coisas do género e sessões de autógrafos e mulheres a vir ter comigo e tens aqui o meu número de telefone, liga-me mais tarde. Agora não. Agora só penso chegar a casa, calçar os chinelos e ver um pouco de televisão.

Depois digam que não avisei

Dizem que toda a forma de arte é biográfica. Que em toda a forma de arte o artista expõe o seu íntimo. Por exemplo: a escrita. Dizem que tudo aquilo que uma pessoa escreve tem parte dela, da sua biografia, vida. Nunca fui muito dessa opinião. Os textos que mais gosto de escrever são aqueles que nada têm a ver comigo. Por exemplo: este. Não tenho que me expor em todos os textos que escrevo. Evito. Os textos que são demasiado nossos perdem valor, caso algum dia tenha sido escrito um texto com valor. Se eu escrever: «Ontem fui à praça e vi uma mulher linda de morrer!», isso não significa que fui eu a ir à praça e encontrar uma mulher bonita. Tal nunca aconteceu. Raramente vou a uma praça e quando vou encontro de tudo, menos mulheres bonitas. Agora dirão: isso que estás a dizer é uma grande treta. OK. E o que é que isso interessa?


Lí por aí


«Uma vez comunista, nem no opus dei te salvas.»


Nota: a leitura total do post é obrigatória.


Ainda há esperança no lodaçal


The Naked and the Dead foi considerado uma dos 100 mais importantes romance do século XX. Escrito entre 1946-7, publicado em Maio de 1948, foi um dos primeiros romances sobre a 2ª Guerra Mundial. Três anos depois do final da Guerra os Estados Unidos, e de um modo geral o “mundo aliado”, viviam num estado de euforia devido a estarem do lado dos vencedores (o baby-boom da altura pode servir de exemplo). The Naked and the Dead foi para esse estado de euforia uma espécie de balde de água fria: afinal a vitória tinha um sabor amargo.

Norman Mailer (1923-2007) iniciava a sua carreira literária com um livro polémico, como quase todos os outros que se seguiram. Segundo o próprio autor, o romance não se trata de um documento realista, antes simbólico, onde o conflito entre o bem e o mal está sempre presente. No entanto, o autor não quer passar a ideia de que nós (América) somos o bem e eles (Japão) o mal.

O conflito ocorre dentro das várias personagens, de onde se destacam duas: o General Cummings e o Tenente Hearn. É do choque entre eles que vamos encontrar a mais valia deste romance: a compaixão não consegue sobreviver sem a autoridade, pois, dessa maneira, não se consegue defender do sentimentalismo. Contudo, há também a exploração da relação entre desejo e poder, não esquecendo as motivações sexuais que muitas vezes estão por trás dessa relação. Tal exploração não é inocente por parte do autor (como quase nada é inocente em Norman Mailer): ela segue uma linha de interesse crescente pela psicologia no período pós-guerra. Para além de tudo isto, há que salientar o uso de uma linguagem próxima da oralidade, que confere ao romance um tom mais realista, sentindo-se o leitor no meio de um pelotão de soldados.

Tais características levaram a que o romance fosse considerado obsceno em alguns países, muito devido ao uso, também, de uma linguagem muito explicita. Nos próprios Estados Unidos, Norman Mailer teve que ceder à pressão exercida pelos seus editores, substituído as palavras “fuck” por “fug” e “fucking” por “fugging”, o que mais tarde lhe causou alguns dissabores: foi acusado, por alguns críticos menos sensíveis à sua escrita e tom, de dar erros ortográficos. Para além de ser um romance que descreve o campo de batalha e ser uma crítica às proposições causa/efeito e esforço/recompensa, The Naked and the Dead é um livro que procura transmitir e oferecer alguma esperança: nele encontramos um Homem corrompido e confuso, vítima do lodaçal de valores impostos por uma sociedade doente, mas que no fundo procura construir um mundo melhor.


Norman Mailer, The Naked and the Dead, London: Harper Perennial, 2nd edition, 2006, 717 páginas.

É por estas e por outras que o Nobel devia ir para ele

«"Man's deepest urge is omnipotence?"
"Yes. It's not religion, that's obvious, it's not love, it's not spirituality, those are all sops along the way, benefits we devise for ourselves when the limitations of our existence turn us away from the other dream. To achive God. When we come kicking into the world, we are god, the universe is the limit of our senses. And when we got older, when we discover that the universe is not us, it's the deepest trauma of our existnce."»

Norman Mailer, The Naked and the Dead, London: Harper Perennial, 2006, p. 329.

Quarto Escuro #20

Às vezes há coisas que te passam pela cabeça, como feridas que insistem permanecer abertas. A casa torna-se demasiado pequena e abrir as janelas de nada serve. É então que olhas para a folha de papel. Repousa. Espera. Ao seu lado a caneta: bisturi pronto a usar. Hoje vais resistir. Não te vai deixar levar. Permaneces frente à secretária sem nunca te sentares. Hoje não. Hoje a vitória será tua. Não irás ceder à febre. Hoje és senhor de ti. Ou pelo menos é isso que queres pensar. Acreditar.


Campeão Olímpico



O Vitor Carvalho (Vitinho) está em Xangai a disputar os Special Olympic 2007. Até ao momento já arrecadou 2 medalhas de ouro (100 metros livres e 200 metros costas) e uma medalha de bronze (100 metros costas). O Vitinho é de Manteigas. É nosso amigo. É meu amigo. O Vitinho é Campeão Olímpico!


De que tipo sou? #2


Há algum tempo que só leio a sério meia dúzia de blogs. Duvido que meia dúzia de bloggers me leia a sério a mim. Em que categoria de bloguista me enquadro?

De que tipo sou?

GAF teve a ideia de fazer esta lista. Só não sei de que tipo sou ao estar a escrever este blog e a citá-lo a ele: serei O escritor ou As confrarias do elogio mútuo ou O génio ou O contador de visitas?

Quarto Escuro #19

Falaste muitas vezes da noite, como ela avança todos os dias, nuca adiando a sua chegada. De todas as vezes, foi a noite que escreveu tudo aquilo que escreveste. Só hoje pensaste nisso, durante esta noite que agora começa. Reparaste que nunca foste tu a escrever, mas sim ela. A noite. Foi ela quem te ditou as palavras. Muitas vezes pegou na caneta. Escreveste a noite enquanto ela te escrevia a ti. Sim, a noite escreveu-te, escreve-te. Pertences-lhe. Ela podia ser a tua amante, mas é a tua senhora. É ela quem comanda cada linha que escreves, cada frase que riscas e voltas a escrever para voltares a riscar. Sem ela todos os teus textos seriam uma enorme quantidade de nada. Um completo e fundo vazio. É ela que lhes dá consistência, consciência. É ela que os destrói. Deve-lhes tudo. E tudo é devido a ela.

Quarto Escuro #18

Talvez penses um dia mudar de vida. Dizem que nunca é tarde para mudar. Nunca é tarde para desfazer os laços que nos prendem, que te prendem. O que te prende afinal? Não encontras nada. Mas sabes que existe, que há algo em ti que te impede muitas vezes de prosseguir. Há quem lhes dê o nome de “demónios interiores”. Tu preferes não lhe dar um nome. Sem nome é como se não existisse. É como se não estivessem lá. Apesar de saberes que sim. Que estão.

Ridendo Castigat Mores

Na nota introdutória JP Simões (1970) diz-nos que «Todos estes contos foram escritos durante o ano de 1996». Estávamos no iniciar da febre tecnológica (muito longe do choque) que rapidamente tomou conta de Portugal. Uma série de democratizações (internet, telemóveis, computadores portáteis, PDA’s) invadiram o país, passando a nossa vida a depender de pequenos objectos onde passámos a depositar as nossas vidas, confiantes na sua infalibilidade, seguros da sua importância, verdade: onde aprendeste isso? na internet! A wikipédia ainda estava longe de ser criada, mas o homem começava já a citá-la. Os dez contos que compõem O Vírus da Vida, são uma viagem a um Portugal algures entre Blade Runner e 2001 – Odisseia no Espaço. Ficção Científica? Não, longe disso. A ficção cientifica, se é que se pode aplicar o termo a estes contos, é apenas o mecanismo que o autor encontra para fazer a crítica social que tanto caracteriza outros textos seus, para parodiar com o advento da tecnologia que todos vai salvar. Pelo meio disto existem as ilustrações de André Carrilho (1974): belas, simples, complementares. Mas voltemos às palavras. JP Simões demonstra, mais uma vez, que conhece muito bem a Língua Portuguesa e todas as suas potencialidades. A crítica, a ironia, a sátira, são os seus territórios por excelência. No conto I.S.S.O. (Indutores de Sentimentos e Sensações Oníricas), os habitantes de Lisboa compram mais de 100 mil aparelhos, só na época do Natal, devido à incapacidade de produzir ou demonstrar qualquer tipo de afecto, estima ou amor. É, sem dúvida, o conto que mais nos faz pensar no estilo de vida que tomou conta das grandes cidades (não só portuguesas, como é óbvio), onde a apatia, a desconfiança e a violência, dominam os sentimentos dos seus habitantes. A filosofia de JP Simões é a mesma que movia Gil Vicente: ridendo castigat mores. Trovadores, escritores, poetas, cronistas do quotidiano como JP Simões fazem falta em Portugal, para que não nos aconteça o mesmo que aconteceu a Luís: «e desapareceu numa lâmina de luz: digitalizou-se à minha frente.» (p.59).

JP Simões e André Carrilho, O vírus da vida, Lisboa: Sextante Editora, 1ª edição, 2007, pp.59.

Este já está na lista de compras deste mês. A tradução é de Nina Guerra e de Filipe Guerra.




Esta é para mim a última grande música que os The Cure escreveram. Tive oportunidade de ouvi-la ao vivo uma vez. No próximo dia 8 de Março (?) eles vão estar cá em Portugal. São a minha banda. Não os pretendo ir ver. Os The Cure terminaram para mim com Wish. O resto, daquilo que ouvi, não gostei. Esta é para mim a última grande música que eles fizeram. Esta. Para ouvir até ao fim, por favor.

SMS

Sócrates queixa-se que o PC o anda a seguir por todo o lado. Que as manifestações onde o chamam fascista (penso que é de mais) são organizadas pelo PC. Sou sindicalizado. Já recebi 3 SMS a pedir que também vá berrar contra Sócrates. Hoje era para estar presente na Covilhã. Quem me enviou a SMS foi o meu sindicato, afecto à FENPROF, afecta à CGTP, afecta ao PC. Mas o PC diz que não e não.

Quarto Escuro #17

O pior dia para habitar a casa vazia é o domingo. O silêncio deixa de ser silêncio. Passa a ser uma outra coisa maior, impenetrável. Todos os ruídos são como pedras a cair num telhado de zinco: multiplicam-se. Tentas ler um livro, mas nem isso ajuda a passar o tempo. E começas a pensar. Pensas em tudo, em nada. Pensas no resto do dia que ainda falta passar. Em todos os ruídos que ainda vais ouvir. No silêncio impenetrável. O silêncio. O silêncio. Ligas a televisão. Som no máximo. O silêncio. O silêncio permanece. Não há maneira de o combater. É domingo. A casa está vazia.

António Ramos Rosa

Depois de um dia ler um poema seu, passei sempre a ter restos de qualquer coisa nos bolsos para os meus amigos.


Gonçalo M. Tavares


K. tinha uma mulher que gostava de máquinas. Havia algo nelas que a excitava.


Hanif Kureishi

As suas personagens são demasiado reais para serem verdadeiras. Demasiado nossas.

Hoje é domingo

Um dia disse que não gosto do domingo. Continuo a não gostar. Mas hoje é diferente. Hoje o domingo é em família. Almoço com os meus pais. Há três semanas que não o fazia. O frango de campo assado no forno já cheira pela casa toda. Eu ainda estou de pijama e roupão. Sim, uso roupão. Gosto de me sentir confortável enquanto escrevo. Isto não quer dizer que escrevo sempre de roupão, só quando está frio. Hoje é o caso. Bem. Vou-me vestir, o almoço está quase pronto e eu ainda nem lavei a cara. Depois do almoço espera-me a viagem de regresso a Benedita, terra onde este ano fiquei colocado. O próximo post será escrito lá. Tenham um bom domingo.


A Casa #15 (último)


Há que desfazer
os laços,
abrir a casa.

Murmúrios como ecos

O Cicio de Salomé é um lugar escuro, mas onde se podem ler textos muito bons, como por exemplo este e este e este.


Terror


«Gostamos de pensar tão bem dos outros que temos medo de nós mesmos. A base do optimismo é simplesmente o terror.»


Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, Lisboa: Biblioteca Visão, 2000, p.88.


Três poemas em prosa há muito esquecidos


*
o teu corpo invade-me com palavras que desconheço. lá fora chove. aqui permanece apenas a sombra.

*
existe uma cumplicidade por explicar. por definir. a mesma que existe entre os anjos.

*
como sonâmbulo percorri teu corpo em silêncios azul cobalto.

2001



A Casa #14


O fumo
envolve em sépia
a madrugada.

As cabeças brilham
sob a cerimónia
de fogo.


Much Ado About Nothing


Sim, eu sei.