Micro #42
Nunca tinha escrito um único romance, um único livro de poesia. Uma única palavra. Um dia atribuíram-lhe um prémio literário.
Tindersticks - City Sickness
Durante muito tempo não ouvi outra coisa. O primeiro álbum foi gravado numa K7. O Miguel foi o responsável. O Miguel foi o responsável por muita da boa música que ouço. Depois, cresci sozinho. Mas o Miguel ainda me acompanha. Por vezes, chega ao pé de mim e diz-me tenho lá uma coisa que é mesmo a tua cara. Acerta sempre. Durante muito tempo não ouvi outra coisa. Esta é a minha forma de te agradecer, Miguel. Obrigado.
1º Nunca abandones o teu barbeiro.
2º Corta o cabelo sempre no teu barbeiro.
3º O melhor amigo do teu cabelo é o teu barbeiro.
A Bomba vai rebentar?
O Governo, juntamente com a TMN, promove o Plano Tecnológico, Portugal a Mudar. Durante algum tempo vimos membros do Governo a distribuírem computadores portáteis em vários pontos de Portugal. Inserido no programa e-escola, também eu tentei adquirir um computador portátil. Sou professor, estou colocado numa escola. Até aqui tudo bem. O problema veio a seguir. Afinal não sou bem professor: sou professor contratado. E a minha colocação não é bem uma colocação: é tapar um buraco. Resumo: não tenho direito a um computador portátil. Mas o pior foi quando ontem vi uma publicidade na televisão: se és aluno do 10º ano podes aderir ao programa e-escola. Eu, que sou professor (perdão, professor contratado) e necessito de um computador para trabalhar, nomeadamente na composição de testes, grelhas de avaliação e correcção, realização de relatórios, entre outras coisas, não tenho direito a um computador portátil. Mas um aluno de 10º ano tem. Não podemos esquecer que é fundamental para o aluno visualizar vídeos do youtube, descarregar músicas ilegalmente, passar horas e horas agarrado ao messenger ou a jogar. Sim, isso é importante. Porreiro, pá!

KLF - Last Train To Trancentral
Depois deles, nada foi o mesmo lá em casa.
The Naked and the Dead foi considerado uma dos 100 mais importantes romance do século XX. Escrito entre 1946-7, publicado em Maio de 1948, foi um dos primeiros romances sobre a 2ª Guerra Mundial. Três anos depois do final da Guerra os Estados Unidos, e de um modo geral o “mundo aliado”, viviam num estado de euforia devido a estarem do lado dos vencedores (o baby-boom da altura pode servir de exemplo). The Naked and the Dead foi para esse estado de euforia uma espécie de balde de água fria: afinal a vitória tinha um sabor amargo.
Norman Mailer (1923-2007) iniciava a sua carreira literária com um livro polémico, como quase todos os outros que se seguiram. Segundo o próprio autor, o romance não se trata de um documento realista, antes simbólico, onde o conflito entre o bem e o mal está sempre presente. No entanto, o autor não quer passar a ideia de que nós (América) somos o bem e eles (Japão) o mal.
O conflito ocorre dentro das várias personagens, de onde se destacam duas: o General Cummings e o Tenente Hearn. É do choque entre eles que vamos encontrar a mais valia deste romance: a compaixão não consegue sobreviver sem a autoridade, pois, dessa maneira, não se consegue defender do sentimentalismo. Contudo, há também a exploração da relação entre desejo e poder, não esquecendo as motivações sexuais que muitas vezes estão por trás dessa relação. Tal exploração não é inocente por parte do autor (como quase nada é inocente em Norman Mailer): ela segue uma linha de interesse crescente pela psicologia no período pós-guerra. Para além de tudo isto, há que salientar o uso de uma linguagem próxima da oralidade, que confere ao romance um tom mais realista, sentindo-se o leitor no meio de um pelotão de soldados.
Tais características levaram a que o romance fosse considerado obsceno em alguns países, muito devido ao uso, também, de uma linguagem muito explicita. Nos próprios Estados Unidos, Norman Mailer teve que ceder à pressão exercida pelos seus editores, substituído as palavras “fuck” por “fug” e “fucking” por “fugging”, o que mais tarde lhe causou alguns dissabores: foi acusado, por alguns críticos menos sensíveis à sua escrita e tom, de dar erros ortográficos. Para além de ser um romance que descreve o campo de batalha e ser uma crítica às proposições causa/efeito e esforço/recompensa, The Naked and the Dead é um livro que procura transmitir e oferecer alguma esperança: nele encontramos um Homem corrompido e confuso, vítima do lodaçal de valores impostos por uma sociedade doente, mas que no fundo procura construir um mundo melhor.
Norman Mailer, The Naked and the Dead, London: Harper Perennial, 2nd edition, 2006, 717 páginas.
Campeão Olímpico

Ridendo Castigat Mores
Na nota introdutória JP Simões (1970) diz-nos que «Todos estes contos foram escritos durante o ano de 1996». Estávamos no iniciar da febre tecnológica (muito longe do choque) que rapidamente tomou conta de Portugal. Uma série de democratizações (internet, telemóveis, computadores portáteis, PDA’s) invadiram o país, passando a nossa vida a depender de pequenos objectos onde passámos a depositar as nossas vidas, confiantes na sua infalibilidade, seguros da sua importância, verdade: onde aprendeste isso? na internet! A wikipédia ainda estava longe de ser criada, mas o homem começava já a citá-la. Os dez contos que compõem O Vírus da Vida, são uma viagem a um Portugal algures entre Blade Runner e 2001 – Odisseia no Espaço. Ficção Científica? Não, longe disso. A ficção cientifica, se é que se pode aplicar o termo a estes contos, é apenas o mecanismo que o autor encontra para fazer a crítica social que tanto caracteriza outros textos seus, para parodiar com o advento da tecnologia que todos vai salvar. Pelo meio disto existem as ilustrações de André Carrilho (1974): belas, simples, complementares. Mas voltemos às palavras. JP Simões demonstra, mais uma vez, que conhece muito bem a Língua Portuguesa e todas as suas potencialidades. A crítica, a ironia, a sátira, são os seus territórios por excelência. No conto I.S.S.O. (Indutores de Sentimentos e Sensações Oníricas), os habitantes de Lisboa compram mais de 100 mil aparelhos, só na época do Natal, devido à incapacidade de produzir ou demonstrar qualquer tipo de afecto, estima ou amor. É, sem dúvida, o conto que mais nos faz pensar no estilo de vida que tomou conta das grandes cidades (não só portuguesas, como é óbvio), onde a apatia, a desconfiança e a violência, dominam os sentimentos dos seus habitantes. A filosofia de JP Simões é a mesma que movia Gil Vicente: ridendo castigat mores. Trovadores, escritores, poetas, cronistas do quotidiano como JP Simões fazem falta em Portugal, para que não nos aconteça o mesmo que aconteceu a Luís: «e desapareceu numa lâmina de luz: digitalizou-se à minha frente.» (p.59).
JP Simões e André Carrilho, O vírus da vida, Lisboa: Sextante Editora, 1ª edição, 2007, pp.59.
Este já está na lista de compras deste mês. A tradução é de Nina Guerra e de Filipe Guerra.
Esta é para mim a última grande música que os The Cure escreveram. Tive oportunidade de ouvi-la ao vivo uma vez. No próximo dia 8 de Março (?) eles vão estar cá em Portugal. São a minha banda. Não os pretendo ir ver. Os The Cure terminaram para mim com Wish. O resto, daquilo que ouvi, não gostei. Esta é para mim a última grande música que eles fizeram. Esta. Para ouvir até ao fim, por favor.
A Casa #15 (último)
Há que desfazer
os laços,
abrir a casa.
Terror