Aviso à navegação

O meia-noite todo o dia vai fazer um pausa por tempo indeterminado. A todos os que me lêem: obrigado. Os blogs fenda no casco e o amor é um cão do inferno continuarão activos, dentro do possível. O blog versões: há muito que morreu, mas continuará por aí.





Do grito


Fala-me com doçura da morte do filho. Faz três anos sexta-feira. Leucemia. Fala-me da morte com o à vontade de quem a viu de perto, a caminhar pela casa, a chamar por ela.

Quarto Escuro #16

É a velha questão que se repete uma e outra vez. Tentas sempre encontrar uma resposta. E continuas sempre sem ela. Talvez não exista. Talvez seja um mito, uma partida que alguém decidiu pregar só para se divertir. Mas não. Ela existe. É real. Não és o primeiro que a tenta obter e não serás o último. Tudo o que tu pensas já outros antes de ti o pensaram e a nenhuma resposta chegaram. Insistir? Perder tempo? Deixa-te de filosofias. Aprende antes a viver.

Quarto Escuro #15

Por vezes chegar a casa não é fácil. Principalmente quando sabemos o que nos espera: o vazio, o frio das divisões que nunca chegas a utilizar. E depois há a caneta, a folha de papel. Esperam-te. A caneta espera que nela pegues e corrompas a folha em branco. Sim, escrever não é mais do que corromper uma folha de papel. A leitura, isso, é outra história. Há quem se deixe corromper por aquilo que lê. São esses os textos que melhor cumprem a sua função. Outros deixam apenas leves marcas, que, por vezes, evoluem e começam a corromper. Sentas-te. A caneta aguarda o teu toque. A folha também. Gosta de sentir a caneta a percorrê-la com suavidade. Outras vezes com força contra o tampo da secretária. Às vezes parece pedir que sejas rápido, que forces um pouco mais as palavras que nela escreves. Outras: que demores, que não sejas apressado, tens tempo. Olhas pela janela. Ninguém na rua. É tarde. Faz frio.

' Tá tudo dito!

Quando se chega ao ponto de se postar sobre o almoço que se comeu ou escrever um post sobre o facto de se ter postado um post sobre o almoço, está tudo dito sobre o blog em questão.

E hoje o almoço foi

Uma sandes de ovo e uma bebida cheia de corantes e conservantes gaseificada ali na tasca perto de casa.

Quarto Escuro #14

Mais uma vez sentas-te à secretária. Tentas escrever, libertar-te do medo, do inevitável. Não consegues encontrar as palavras exactas, aquelas que dizem realmente aquilo que queres dizer. Talvez um cigarro ajudasse, mas tiveste que deixar o único vício que não te consumia, ao contrário da opinião do médico. Nessa altura o coração não estava para brincadeiras, e tu, cobarde, decidiste dar-lhe mais uma hipótese. Antes escrevias durante toda a noite, sem parar. Só ela tinha a capacidade de tudo transfigurar, transfigurar-te. Agora não. Apenas revela as coisas como elas realmente são. E isso assusta-te.


Para começar bem a semana


por favor ler este texto.


o amor é um cão do inferno


Conversa fiada

Nunca fui muito naquela conversa que nos impingem nas aulas de Educação Física quando temos 11-12 anos e andamos no 5º ou 6º ano: perder ou ganhar é tudo desporto. É claro que tudo depende do lado em que se está: se for do lado vencedor é mais que desporto, é uma alegria! Se for do lado dos derrotados: metam mas é o desporto no olho do cú!

Quarto Escuro #13

Lês um poema, um texto, um pensamento. E nada daquilo que lês faz sentido, apesar de teres sido tu a escrevê-lo. É como se tivesses perdido a capacidade para te auto-avaliar. Dizem que isso pode um dia acontecer. Tu próprio leste em algum lado, num livro que só te aumentou as angústias. É devido a isso que pensas que a culpa é dos livros que lês. Que outros livros ler? Tu, que sempre preferiste angústias a flores coloridas, de estufa.

Quarto Escuro #12

Um dia pensaste deixar de escrever poesia. Não fazia sentido continuar. Todo o acto era para ti doloroso e não te levava a nenhum lugar. Os primeiros poemas que escreveste eram sonetos semi-plagiados de um livro de sonetos que rapidamente esqueceste. Chegaste a oferecê-los a algumas mulheres que, entretanto, se cruzaram contigo em algum café ruidoso e cheio de fumo. De algumas conseguiste mais que um simples obrigado. Nunca desconfiaram. Houve até uma que te introduziu a um estranho ritual que desconhecias. Depois abandonaste a poesia. Nem a dos outros toleravas. Foi por pouco tempo. O chamamento do indizível era maior. Pouca resistência lhe podias oferecer.


Seismic activity on the Bukowski fault

«If Bukowski was part of any cultural rumble it was one of his own making. He wrote for no one but Charles, endured rejection after rejection, educated himself along the way and rebuilt himself into a bullheaded bastard who knew his work was better than much of the trash chosen for publication instead of his. He was tenacious, like a stewbum with a bottle of wine and no corkscrew. He knew what many young writers seem to have trouble learning in this Internet age when anyone can stick a poem in a Web site and call it publication. Bukowski knew that a writer writes and writes and writes and damns the rejections all to hell. Bukowski wrote because writing was a form of pleasure.»


Nota: o respectivo artigo chegou às minha mãos devido à gentileza do Rui Manuel Amaral.


Quarto Escuro #11


A verdade é que não sabes o que fazer com as horas. Inventas desculpas para ocupá-las, mas de nada servem. Apenas tornam tudo mais pesado, inevitável. Só te resta esperar. O cansaço é a primeira coisa a instalar-se. Depois: o sono, uma enorme vontade de fechar os olhos e assim ficar. Que podes fazer contra tamanho exército de sombras? Nada. Apenas observar o seu avanço.


o amor é um cão do inferno



Quarto Escuro #10


Ouves a noite lá fora. Os sons são indefinidos, mas ela ali está: imóvel, aguardando. Pouco sabes da noite, apenas que ela traz no ventre a vertigem de um pulso rasgado pelo assombro. Combates a noite da única maneira que sabes: escreves, registando o medo, como se o pudesses aprisionar e finalmente viver livre. Já não faz tanto calor agora. Antes era pior. Com o calor a noite ganha uma outra forma, uma outra capacidade de tudo transformar. Com o calor, a noite deixa de ser noite e passa a ser outra coisa qualquer: um cão que ladra até ficar rouco. Nesses dias pouco ou nada consegues fazer para a combater. Escrever de nada serve, pois as palavras só amplificam o calor. A única solução é acender um archote e apontá-lo à noite, dar-lhe um pouco de luz. De archote aceso esperas a manhã. De nada serve. Hoje a noite decidiu apanhar-te.

Quarto Escuro #9

Decidiste sair. Caçar. É importante ter a sensação que ainda se está vivo, que ainda somos úteis, leais cumpridores. Não adianta resistir. Quem o faz rapidamente é substituído, obliterado. Por isso continuas sempre. Sem olhares a meios para alcançar os teus objectivos. E no final não se passa nada. É só mais uma noite calma na frente ocidental.


Albert Cossery


Nunca tenho preguiça para o ler.


James Joyce


Quatro anos a tentar ler Ulisses. Quatro anos a ler livros mais importantes.



Raymond Carver


Um professor da ESE disse-me um dia: fundamental. Emprestou-me Catedral. Ainda hoje utilizo a expressão um certo conforto.


Agustina Bessa-Luís


Dela só li Vale Abraão. E a vontade de continuar ficou por aí.




Bruce Chatwin


Sempre que o releio apetece-me pegar na mochila e partir.


Miguel Torga


Recordo sempre a imagem do Abafador quando tenho uma crise de asma.

António Lobo Antunes

Às vezes penso se serei ou não imbecil por não entender a escrita de Lobo Antunes. O meu gosto por Lobo Antunes resume-se a três livros, quatro, cinco no máximo. E isso equivale a dizer que se gosta dos Pink Floyd sem se saber quem foi Syd Barret.

Raul Brandão


Descobri tarde o húmus de que todos somos feitos. Ainda fui a tempo. Do quê? Não sei. Só sei que foi a tempo. Nunca é tarde para aprender.

Charles Baudelaire


Mentiria se dissesse que nunca me entreguei aos seus paraísos. Nunca gostei muito de ter os pés na terra. Por vezes é demasiado real. Mas o inverso também o consegue ser.

Charles Bukowski


Quando me pedem para descrever a escrita de Bukowski, eu digo: ternura. No fundo o que encontramos é um homem só, que tenta combater a solidão, falhando sempre. A sua alma não deixa de ser a de um palhaço: tenta fazer tudo bem, mas no último momento tudo se perde. No entanto, não encontramos em Bukowski uma ternura fácil, à la carte. Antes uma ternura que se esconde entre as linhas, sem se revelar totalmente. Verdadeira.

Erich Maria Remarque


Li A Oeste Nada de Novo quando tinha 15 anos. É o livro da vida do meu pai. Um dia fui à prateleira que servia de biblioteca lá em casa e li-o. Passou a ser, também, o livro da minha vida. É demasiado belo para aqui falar dele. Demasiado humano.

Henry Miller


Um dos meus autores é Henry Miller. Li a trilogia Sexus, Plexus e Nexus quando tinha 17 anos, durante umas férias de verão na Figueira da Foz. E ainda tive tempo para ler Trópico de Capricórnio. É claro que com 17 anos achei a escrita de Miller fascinante, não tanto pelas cenas de sexo explícito, antes pela vagabundagem que as páginas transpiravam. Também a mim me apetecia partir, vaguear por aí. A vontade de partir, de ser livre, herdei-a de Henry Miller. Só me falta a coragem, o don’t give a shit.

Marcel Proust

Pensar que Proust passou a maior parte do tempo na cama é algo que me faz confusão. Mas, dessa maneira, também entendo o título "Em Busca do Tempo Perdido".

Quarto Escuro #8

Podias escolher outras palavras. De nada serviria. Tudo o que tens a dizer tem que ser dito com as palavras que agora usas. Só elas têm a capacidade de dizer o que queres. O alcance. Todas as outras iriam demonstrar-se inúteis, incapazes. Pequenas para tudo aquilo que queres dizer. E, no entanto, nada é dito. Nada daquilo que queres dizer ganha forma, som. Tudo permanece um emaranhado de silêncios. Mas continuas a tentar. É fundamental. É-te fundamental. E lá fora a noite adivinha-se longa, escura.


A vida puta


O que mais admiro em Charles Bukowski não é a crueza da sua escrita, ou a figura embriagada a ler os seus poemas em voz alta. O que mais admiro em Charles Bukowski é a sua capacidade de escrita. Charles Bukowski escreveu todos os dias, a todas as horas. Escrevia como se não soubesse fazer outra coisa. E escreveu sobre aquilo que tinha mais à mão: a Vida. A Vida, a vidinha, a de todos os dias, da unha encravada no dedo grande do pé, da dor de costas, do catarro, do mijar, cagar, foder, dormir, ressacar. Aquela que interessa. A vida puta. Como só ela sabe ser.

Sobre a arte de comentar em blogs

Um dia li num blog (desses que leio todos os dias) o autor queixar-se pelo facto de o pessoal comentar textos sem qualquer qualidade e não comentar textos que tinham requerido alguma reflexão e muito suor. Na altura entendi muito bem o desabafo. Hoje, ainda mais.


Outro grande começo


O meu, hoje, na nova escola.



Grande começo


«It began as a mistake.»


Charles Bukowski, Post Office, New York: HarperCollins, 2002, p. 13.


Lembrete


É para lembrar que o fenda no casco é para visitar e comentar.


A Casa #13


A luz desintegra-se
em silêncio.

A transparência
evoca o perigo:
a arquitectura do tempo
a indiferenciar-se.

Quarto Escuro #7

Esperas que a noite chegue. Que doa. Falta-te um refúgio, um corpo que possas habitar, partilhar as sombras. Nunca conseguiste sozinho enfrentar a noite, os seus exércitos. Durante muito tempo só sabias deles através dos livros que lias. Até ao dia em que chegaram e passaram a dominar. Foi nessa altura que começaste a vaguear pelas ruas à procura de corpos disponíveis. Não foi difícil. Ficaste a saber que a noite não te doía só a ti. Havia corpos cujos olhos revelavam o medo. Eram esses que tu escolhias. As sombras afastavam-se, derrotadas pela união. Mas rapidamente regressavam, em maior número e força. Nada podia ser feito para detê-las. E a dor era mais forte, a batalha mais violenta, as feridas mais difíceis de sarar. Um dia escreveste que os corpos eram o segredo mais bem guardado da noite. Essa mesma noite que de novo tenta adormecer-te as mãos, impedindo o combate, a escrita dos fantasmas. Tentas resistir aos seus ataques. Tudo parece inútil. As mãos tremem, vacilam. A noite parece ganhar cada vez mais terreno. É então que gritas e o teu grito ecoa como uma oração. Mas ninguém te ouve ou vem em teu auxílio.


Quarto Escuro #6


Não é fácil habitares uma nova casa. Há sempre um silêncio que não é o teu silêncio. Os olhos têm que se habituar à nova luz, o corpo ao novo espaço, à nova cama. Não é fácil encontrar uma cama vazia que não é a tua cama vazia. Esticar o braço, esperar um toque. Esse toque não acontecer. Nada daquilo que vês é familiar. Com o passar do tempo nada muda. Cresce apenas a indiferença em relação aos objectos, à luz, ao espaço, mas nunca à cama. Ela será sempre estranha. Falta o toque, o calor de um outro corpo, o aroma dos cabelos, acordar de manhã com um braço sobre o peito: o primeiro sorriso do dia. A casa cresce com a noite. Ouves o passar do tempo num relógio antigo. A lareira na sala não consegue esconder o espanto. O corredor guarda portas fechadas. Nunca se deve abrir uma porta que não foi por nós fechada. Não se devem perturbar as conversas. Os segredos guardados. Lá fora a noite avança. Dentro da casa combate-se o vazio. Escreve-se.

Conversa de café antes do jogo Portugal-Sérvia

- Eu hoje sou sérvio!
- Então?
- Na selecção portuguesa não há nenhum jogador do Sporting. Logo, eu hoje sou sérvio!!


Nova peça do Projec~


Nos dias 19, 20, 21 e 22 de Setembro, o Projéc~ [Estrutura de Produção Teatral do TMG] estreia a peça O Barão, de Luís de Sttau Monteiro, baseada na novela homónima, de Branquinho da Fonseca. O Barão é o retrato implacável do homem arrogante e prepotente, máscara da frustração e do medo profundos. A peça é encenada por Fernando Carmino Marques. O Barão está integrado no cartaz da terceira edição do Acto Seguinte - Festival de Teatro da Guarda.

Colocado

Estou colocado temporariamente na Escola EB2 da Benedita. Para todos os leitores deste blog , dessa zona e arredores, um forte abraço e digam qualquer coisa que o café fica por minha conta.


fenda no casco

A partir de hoje há um novo blog na coluna ali do lado. Chama-se fenda no casco. O nome foi retirado dos versos de Herberto Helder. É um blog que passará a apresentar textos de Sandra Guerreiro Dias e fotografias da minha autoria. Em alguns casos os textos irão dar origem às fotos. Noutros, as fotos irão dar origem aos textos. E noutros, nem uma coisa nem outra.


No próximo dia 29 de Setembro, pelas 19.30, no Onda Jazz, em Lisboa, terá lugar o lançamento de Versos Nus, primeiro livro de Tiago Nené. Algumas respostas aqui.


A Casa #12


Há o espaço vazio
do deslumbramento.

A claridade
que recua
e toca
e queima o peito.

Micro #40

− Felizes os convidados para a ceia do Senhor.
E ao beber do vinho, engasgou-se.

Micro #39

Quando a ouviu chegar apagou as luzes e pediu silêncio. Ela, ao entrar, tropeçou na alcatifa da sala e bateu com a cabeça na mesa.
− Surpresa! – gritaram os convidados.

Micro #38

Fazia a barba e tomava banho todos os dias. Assim, quando um dia morrer, não serei apanhado desprevenido, nem darei trabalho a ninguém: dizia.


Cinema e Literatura


Não é de hoje que o cinema recorre ao romance e ao teatro para deles retirar ideias. A indústria cinematográfica continua a realizar muitos filmes cujos argumentos são baseados em livros que têm um duplo fim: a adaptação possível ao cinema e a venda enquanto obra literária. O cinema é uma arte que se pode considerar jovem (pouco mais tem que cem anos) em comparação à música, teatro ou pintura. A sua evolução foi, em certa medida, inflectida pelos exemplos das artes consagradas. O cinema impõe-se, assim, como a única arte popular, pois o teatro (considerado como arte essencial por excelência) já não interessa senão a uma minoria privilegiada da cultura. Porém, quando se faz a adaptação cinematográfica de um texto literário, tem que se ter em conta vários pontos, pois o drama de qualquer adaptação é a vulgarização: a obra literária é muitas vezes traída no ecrã, onde a sua verdadeira essência é posta de lado. Contudo, é absurdo questionar as degradações que sofrem as obras literárias no ecrã, pois, por muito aproximadas que sejam as adaptações, nunca irão prejudicar o original. Quando um cineasta se dedica a tratar o livro de maneira diferente de um argumento, é como se todo o cinema se elevasse até à literatura. Ou também pode acontecer que o cineasta se esforce pela equivalência integral, e assim não existe uma simples adaptação mas uma tradução no ecrã da obra literária. Sem dúvida que o romance tem os seus próprios meios, a sua matéria é a linguagem e não a imagem, e a sua acção é confidencial sobre o leitor, o que não acontece com o cinema. O romance também oferece personagens mais complexas e as relações entre forma e fundo são de um rigor e uma subtileza a que o ecrã e o cinema não estão habituados. Mas estas diferenças são importantes quando se procuram encontrar equivalências. Quantas mais forem as qualidades literárias da obra, mais a adaptação perturba o equilíbrio, como também é exigido do cineasta um maior talento criador, caso contrário a questão da fidelidade é posta em causa. A procura de fidelidade não é factor de refutação quando assumida pela singularidade de uma adaptação, pois cada realizador que adapta pode optar por se aproximar, ou não, das marcas semióticas do texto literário. Em caso de existir fidelidade, o realizador julgará ser uma transposição intersemiótica fiel àquilo que leu, entendido sobre o ponto de vista individual e pessoal. Por esta razão, muitos exemplos de adaptações cinematográficas ilustram concretizações diferidas de uma mesma obra literária. Assim, e tendo em conta que a própria linguagem literária é plural, será mais correcto falar em fidelidades ou plurifidelidades, decorrentes da radicação do texto literário em contextos sócio-culturais historicamente definíveis num determinado tempo e espaço. Exigir uma fidelidade literal na adaptação consiste numa forma de fundamentalismo. Alguns escritores censuram e acusam o cinema cada vez que a adaptação não transmite o sentido literal do texto literário. Muitos chegam a negar a visão pluralista dos textos que escreveram, rejeitando a possibilidade de estes serem lidos de maneira diferente. Porém, esta pluralidade de leituras é incontornável, e o cinema pode ser usado na elaboração de leituras possíveis do texto literário. Assim, adaptar ao cinema um texto literário assume-se como uma reescrita, pois o próprio romance assume-se como algo que permite várias interpretações.


Lí por aí


«Precisamos de bruxas para queimar na fogueira. Vamos buscá-las a qualquer lado e ateamos a fogueira com uma facilidade dos diabos. Depois venham os bombeiros apagar o fogo, enquanto se queixam da nossa incorrigível irresponsabilidade.»

Henrique Fialho, em Insónia


A Casa #11


A mão nervosa
estende o dedo
ao enigma.

Há um eco
que se prolonga
como um golpe
de luz.


Dias Pesados

Há dias assim. Tudo pesa mais. Inclusivamente o ar. Sim, o ar está pesado por estes lados. O que ainda salva é a poesia, algo que eu pensava ser impossível: Hoje, a minha vida divide-se entre o trote do ozono e o luto do futuro*. Fico a pensar. É claro que não vou dizer o que pensei. Nem toda a intimidade é aqui bem-vinda.

* Jorge Fallorca, Longe do Mundo, Lisboa: Frenesi, 2004, p. 14.


A Casa #10


Às vezes
um reflexo
obedece à duplicidade
invisível da casa:

uma força interior
a caminho
da infância.


Uma Boa Notícia


O Henrique vai publicar mais um livro. Desta vez o título é «O Meu Cinzeiro Azul». A editora é a Canto Escuro.

A Corrente #2

O
André já publicou a sua lista. Miss Allen promete para breve a resposta ao meu desafio. Luís Mourão continua com as suas reflexões. Eduardo Pitta parece que disse tudo o que tinha a dizer. E eu estou curioso para saber qual seria a lista dele e dele.

Don't blame Bukowski for bad poetry

«He made writing great poetry look easy and laid down some truly beautiful lines: it's time to reappraise Charles Bukowski.»

A Corrente

A corrente iniciada por mim já circula por aí. E as reflexões que a mesma provocou! A mais interessante (brilhante!) está aqui. Mas também podemos encontrar aqui e aqui um interessante diálogo. De referir ainda este texto do Henrique, e este outro de Vasco M. Barreto . Só não sei de onde vem tanto fel, mas como o próprio diz: Sou um gajo transparente. E eu aprecio isso num gajo.


Não-colocado #2


Chego cedo ao Centro de Emprego. Sou o primeiro a ser atendido. Atrás de mim 60 mulheres de uma confecção qualquer no Sabugal que fechou. Despedimento colectivo. Talvez tivesse material para uma reflexão mais profunda sobre o rumo do país e coisa do género. Mas deixo isso para aqueles que, provavelmente, nunca entraram num Centro de Emprego para requerer o respectivo Subsídio de Desemprego.


Não-colocado

Mais uma vez não fiquei colocado logo a 1 de Setembro. Tenho ainda que esperar pelas primeiras cíclicas. Amanhã: Centro de Emprego.

Table of Contents

Table of Contents é mais uma iniciativa cultural do Teatro Municipal da Guarda. Quinzenalmente são convidados autores locais de diferentes áreas (literatura, pintura, fotografia, entre outras) a intervir nos "Stand-ups" de informação do Café Concerto. Em Setembro os convidados são este vosso escriba (1 a 15 de Setembro) e Pedro Lucas (16 a 30 de Setembro).