A Casa #9
A casa flutua
num útero de vidro.
Acumulou-se
o tempo,
os módulos
do hábito.
Rumores
batem, deslizam,
construindo
palavras antigas.
Toda a gente fala dos livros que mudaram as suas vidas. Fazem-se listas dos livros mais influentes. Eu decidi fazer uma lista dos 10 livros que não mudaram a minha vida, consciente do risco que corro, pois é quase impossível um livro não mudar a nossa vida. Mas mesmo assim ela aqui vai:
1º O Perfume, Patrick Süskind
2º Fernão Capelo Gaivota, Richard Bach
3º Uma Família Inglesa, Júlio Dinis
4º Esteiros, Soeiro Pereira Gomes
5º Cadernos de Lanzarote vol. 1 e 2, José Saramago
6º Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
7º Vermelho, Mafalda Ivo Cruz
8º Amor, António Mega Ferreira
9º Le Silence de la Mer, Vercors
10º O Livro das Ilusões, Paul Auster
Não sou lá muito bom com listas e coisas desse género
Lembram-se desta lista? Pois é! Como leitor indisciplinado que sou, só consegui ler o primeiro. O objectivo era ler os restantes, mas uma ida a uma livraria originou a compra de The Naked and the Dead (Norman Mailer) e posterior leitura. Uma ida à Feira do Livro da Figueira da Foz originou a compra de Nas Alturas e Asfalto (Paulo da Costa Domingos) e posterior leitura, Longe do Mundo (Jorge Fallorca) e posterior leitura, O Horizonte Basta (Helder Moura Pereira e Paulo da Costa Domingos) e posterior leitura e audição (o livro traz um CD com Anabela Duarte a dizer os poemas). Os restantes livros da lista aguardam a sua vez. Um dia será.
Sim, desafio-vos a todos
«I dare you, to be real
To touch a flickering flame.
The pangs of dark delight
Don't cower in night fright.
Don't back away just yet
From destinations set
I dare you to be proud
To dare to shout aloud
For convictions that you feel
Like sound from bells to peal
I dare you to speak of your despire
For bureaucracy, hypocracy - all liars.
I dare
I dare - You - You»
A Casa #8
A substância dos sonhos
é um fole
que gera o furacão.
O diário, enquanto documento escrito, é antigo. Muitas vezes apareceu associado a um outro género literário: as memórias. Porém, ao longo da história literária, o diário ganha autonomia. Até ao século XIX teve, tendencialmente, objectivos utilitários: servia como uma espécie de confessionário para quem escrevia; o alívio do sofrimento, a preservação da personalidade, a autoformação, a catarse está presente nos textos. Documentos pessoais que constituem o resultado de um circuito fechado de comunicação, e, na grande maioria dos casos, é posta de lado a hipótese desses textos virem a ser lidos por outrem e muito menos virem a ser publicados. A partir do século XIX, começa a ser registado um crescente interesse por este género de escrita por parte do público; autores de renome começam a publicar os seus diários. Atendendo às origens e à designação, o diário apresenta-se, hoje, como uma escrita paradoxal: concilia a divulgação com o intimismo. O contrato de leitura que hoje envolve o diário está relacionado com o nome próprio como nome de autor. O
texto é caracterizado pela identidade do autor, do narrador e da personagem; a pessoa gramatical reenvia para um sujeito de enunciação que, por sua vez, remete para um sujeito autoral, ou seja, o nome inscrito na capa. É de salientar que o diário é lido como texto para que cheguemos ao homem, é uma espécie de testemunho pessoal para que cheguemos ao território do autor. Assim, e de uma forma quase incontornável, o leitor envolve-se num diálogo de si consigo próprio. Deste modo, o destinatário explícito do diário deixa de ser o autor para ser o outro, ao contrário daquilo que sucedia antes das publicações dos primeiros diários, quando existia uma auto-análise por parte do escriba em circuito fechado. Esse outro tanto pode ser o outro textual, como o outro transcendente, ou ainda o outro imanente. Nessa medida, e embora mantendo a sua própria peculiaridade enquanto género, o diário tem vindo a aproximar-se do mesmo esquema de comunicação que geralmente se atribui à poesia e ao romance. Mas, ao contrário da prosa de ficção que se tem desenvolvido em torno de um mundo que de algum modo é forçada a representar, o texto diarístico desenvolve-
se fora dos territórios muitas vezes definidos como pertencentes à literatura. Não existem nestes textos características de efabulação romanesca, nem preocupações de urdidura narrativa; existe sim, uma preocupação de restituir uma realidade em termos de sucessão ou localização, não colocando de lado, totalmente, características da narrativa e do romance. É importante referir que o diário surge, geralmente, da parte de autores que são essencialmente ficcionistas. Há como que um objectivo de abandonar por momentos a ficção, como se os autores desejassem resolver o seu tempo de escrita sem a enorme responsabilidade inerente à criação artística. O escritor justifica-se, desculpa-se, faz considerações sobre a facilidade de escrita que este registo de comunicação lhe permite, alegando que o aproxima mais do leitor. Assim, o diário é, entre os géneros literários, o mais delicado e talvez maldito. Tem sido mantido pela crítica num relativo silêncio, apesar de, por vezes, representar parte significativa da obra total dos autores, mesmo que escassamente divulgada.
o amor é um cão do inferno
a casa A Escrita Agora Amor & Fama & Morte apostamos tudo Aqui estou Carson McCullers causa e efeito Cometi um erro Como está o teu coração? Confissão Conheci um Génio de volta à metralhadora então queres ser escritor? eu e Faulkner Fim foi mesmo há pouco tempo Marina O Duche o que podemos fazer? Oh, Sim olá, como está? Os estranhos Os motins Os sortudos pano parabéns, Chinaski Poema para o meu 43º Aniversário poema que rima: Poesia quando os poemas Sê compreensivo Três Laranjas Um poema quase ficcionado Uma batalha contra a escuridão uma e trinta e seis da manhã uma vez na vida
Sem memória não há revolução que resista

Definitivamente, Portugal tem falta de memória. Pelo menos para a sua história mais recente. Tomemos um exemplo: a quantidade de museus existentes. Existe o museu do traje, o museu do fado, o museu da cortiça, o museu do pão, o museu da marinha, o museu de arte antiga, e por aí fora. Mas ainda não existe um museu do fascismo, ou se preferirem: um museu da luta antifascista. Não nos podemos esquecer que foram perto de 50 anos de fascismo e de consequente luta antifascista. Em Peniche existe uma espécie de museu, no Forte de Peniche, onde se recordam aqueles que ali estiveram presos. No entanto, e segundo me contaram, a antiga sede da PIDE/DGS é hoje um condomínio fechado, e a Prisão de Caxias continua hoje a ser uma Prisão, com umas condições deploráveis, dignas de um país do terceiro mundo (falo com conhecimento de causa pois fui professor no Estabelecimento Prisional de Caxias no ano lectivo de 2005/2006). Como querem então, os nossos políticos e os nossos intelectuais, que os jovens de hoje saibam o que foi o fascismo, se a memória desse fascismo foi ou está a ser apagada da nossa história? Depois admiram-se que Salazar ganhe num concurso de popularidade! O mais certo é uns virem pregar que o 25 de Abril é Evolução (lembram-se?), enquanto outros virão dizer que não senhor, o 25 de Abril é Revolução. E no meio disto tudo estará um jovem qualquer a perguntar a si próprio: estes “cotas” estão a falar do quê? Em alguns países do ex-bloco soviético muitos dos símbolos do antigo regime foram preservados. Em Budapeste, por exemplo, existe um jardim onde o turista pode ir tirar umas fotografias a estátuas de Marx, Lenine e Estaline. Estão lá, para que ninguém se esqueça. Em Portugal foi o contrário: chegou-se a Santa Comba Dão, decapitou-se a estátua de Salazar, e no final ainda se dinamitou. Mais importante do que preservar a memória do 25 de Abril, é preservar a memória de tudo aquilo que originou o 25 de Abril. Só assim uma revolução consegue resistir ao passar dos anos. Ao esquecimento.
A Casa #7
A paisagem visível
depende do modo
como as vertentes se expõem
aos pontos cardeais.
Os olhos fecham-se.
E o sono
põe a funcionar
o murmúrio.
O jazz não é o meu território, embora não me sinta perdido quando nele me aventuro e me deixo levar, quer pelo saxofone de Coltrane, quer pela trompete de Davis. Ouvir Kind of Blue (o álbum mais vendido da história do jazz) é uma experiência única. Não há uma única música má ou menos boa. São todas muito boas, excepcionais, desde So What até à brilhante Flamenco Sketches. Kind of Blue foi o álbum que marca definitivamente a carreira de Miles Davis. Há até quem o considere um dos álbuns que mais marcou toda a música do século XX. Não é para menos. Nele podemos encontrar o trompete de Miles Davis, mas também os saxofones de John Coltrane e Julian “Cannonball” Adderley, o piano de Bill Evans. O sentido de melodia de todo o álbum é perfeito: parece que não há nenhuma nota a mais ou a menos, a bateria ouve-se discretamente ao longe, nunca se sobrepondo aos outros instrumentos, e onde o piano é a paisagem por detrás da história. Quando Miles Davis toca o seu trompete em surdina, como na música Blue in Green, todos os instrumentos o acompanham, como se fossem um prolongamento do trompete. Kind of Blue não sei se foi feito no céu, como disse o baterista Jimmy Cobb, mas se no céu a música soa a Kind of Blue, então é para lá que quero ir.Ó da Guarda!

A Casa #6
Com a noite
o problema das horas,
o fogo que
prolonga o fogo
nas vozes.
(uma luz inesperada
faz oscilar
sombras no estuque)
Ecoando ao longe,
as trovoadas afundam-se:
o incêndio falhado.
A Emigração: fenómeno literário?
A Emigração é uma constante na história de Portugal desde do século XV. Emigra gente humilde que procura melhores condições de vida. Mas também emigram muitos intelectuais, escritores e artistas. A emigração tem inspirado muitos escritores. Mas será que existe uma literatura da emigração? E podemos falar da Emigração como fenómeno literário? A chamada literatura da emigração existe, principalmente, num registo muito especial: no entrosamento do jornalismo com a ficção, publicada em jornais e frequentemente reunida em livros, traduzindo o olhar atento do autor sobre os contextos onde coexiste
m culturas diferentes, onde é frequente a descrição de variadas facetas de uma vivência em terra estrangeira, o que leva por vezes à construção de obras literárias de maior fôlego, mais ou menos autobiográficas. Esta literatura da emigração é caracterizada por um forte desenraizamento em terra estrangeira, o que conduz a um confronto entre vários valores, atitudes e situações. O alto nível emocional das narrativas é também uma das características, onde o distanciamento entre o narrador e as personagens é quase impossível de estabelecer, pois ambos evoluem numa atmosfera afectiva carregada de angustiantes questões em relação a um futuro
incerto. A incerteza, a mágoa do isolamento e a incompreensão social, são marcas notórias na escrita da literatura da emigração. No entanto, a vontade de vencer as várias circunstâncias adversas, a emoção das notícias vindas de longe, levam a uma vida que é fértil em emoções e sentimentos, por vezes contraditórios. A Emigração e a própria literatura da emigração, sempre estiveram ligadas a um certo sentimento de clandestinidade. Essa situação de clandestinidade estigmatizava o emigrante com a marca da ilegalidade marginal. Em relação à emigração como fenómeno literário a questão mantém-se. Embora exista entre nós uma tradição de literatura da emigração, mas em parte «delida ou mesmo esbatida pela sombra daquelas que se convencionou serem os “grandes temas” da portugalidade literária»*
(*)João de Melo, “L(usa)landeses, Portugueses e às Vezes...Americanos”, em prefácio a (Sapa)teia Americana de Onésimo Teotónio Almeida, Lisboa: Círculo de Leitores, 2001.
A Casa #5
A voz: espécie
de exorcismo, gume
fulgurante.
Da poesia
arrima la vida a la hipoteca
dale la espalda al poema:
esquiva tu sangre como puedas.
Não há nele uma única palavra que não seja necessária. Todas elas têm um peso e um tempo certo. E nada mais lhes é pedido.
Os livros espalhados pelo quarto são aqueles que melhor cumprem a sua função. Os outros, os das estantes, aguardam ansiosos a ordem alfabética prometida há muito. Ou asas para voarem e saírem pela janela quase sempre aberta.
Palavras de que gosto #9
Pensava que era poeta, mas afinal era proxeneta.
Bufo
Ainda gostava de saber como é
«Estou agora do lado que não dói, mão
profunda entre os dedos.»
Pecado?
Só ter lido um livro de Agustina e não ter vontade de ler mais.
A Casa #4
O cheiro da naftalina
procurando as frestas.
Ecos murmuram
pelas salas,
misturando-se
a outro murmúrio
que os passos
despertam.
A humidade
repelindo sol
e vento.
Ó da Guarda!
José Vilhena (1927): nasceu em Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda. Cedo foi para Lisboa, onde completa o 3º ano do liceu, mudando-se depois para o Porto. Frequentou a Faculdade de Belas Artes do Porto até ao terceiro ano, sendo chamado para o serviço militar, mudando-se outra vez para Lisboa, onde conclui o 4º ano de Arquitectura. É por essa altura que começa a trabalhar nos jornais e «a fazer bonecos até hoje».
A Casa #3
O riso relampejando
nos lugares malignos.
O regresso mais esperado
Sim. Estou de volta.
Confissão
Começo a não suportar a Mariza fadista.
o que da semente enfim se move
Casimiro de Brito, Antonio Orihuela, Catarina Nunes de Almeida, Arturo Accio, manuel a. domingos, Fernando Cabrita, Manuel Moya, Inmaculada Luna, Margarida Vale de Gato, Edel Morales, Afonso Dias, Josefa Virella Trinidad, Tiago Gomes, Carmen Camacho, Silvia Chueire, Iván Sopeséns Álvarez, A. Miguel Mejía, A. M. Pires Cabral, Francis Vaz, Henrique Manuel Bento Fialho, Rafael Delgado, Miguel Godinho, Uberto Stabile, Rui Costa, José Carlos Barros, Maribel Sánchez Pagán, Maria João Lopes Fernandes, Luís Filipe Cristóvão, Gonçalo M. Tavares, José Félix, Mario de los Santos, Pedro Sousa, Pedro Afonso, Reinaldo Barros, Fernando Esteves Pinto e José Paulo Pereira.
A Casa #2
A criança: olhos
piscos na violência
da luz.
Pairam aves,
esperando a sua vez
de beber.
Ó da Guarda!

O rascunho que vem já é destino, 2007
Kim Prisu (1962): é o nome artísitico de Joaquim António Gonçalves Borregana. Nasceu em Aldeia da Dona, concelho do Sabugal, distrito da Guarda. Foi levado aos nove meses para terras de França, aos 7 anos teve um prémio em desenho, aos 12 anos começou a fazer banda desenhada, aos 15 queria ser rock star, e queria fazer filmes . Em 1979 é convidado pelo seu professor de artes plásticas a participar na sua primeira exposição, um colectivo onde os outros artistas eram todos já adultos. O seu trabalho pode ser encontrado aqui.
A Casa #1
Reproduz a paisagem,
avaliando o brilho,
o pó, os seres
primordiais.
O ar é escuro,
duma espessura capaz
de resistir.
Nota prévia sobre A Casa
Um post de silêncio


