Fechado para Férias




A gerência agradece a compreensão dos 5 leitores deste blog.

Quarto Escuro #4

Quem te disse que amar seria fácil? Ninguém. Mas tu acreditaste que sim, que seria. Saltaste de cabeça sabendo que a água só dava pela cintura. É claro que todas as vezes que o fizeste estavas consciente. Foi isso que nunca chegaste a perceber. Que razão? Que força, se é que se pode chamar força, te impelia a isso. Talvez fosse um chamamento. Sim, um chamamento. Talvez fosse isso que te levou vezes sem conta a mergulhar. E que chamamento era esse? Talvez o mesmo que todos os dias te coloca diante da folha de papel. Talvez o mesmo que te leva até ao corpo das mulheres que amaste. Esse sempre foi o teu refúgio, o lugar que mais vezes procuraste para descansar, para fugir às sombras que te procuravam, que procuravas. Esse era o teu refúgio para que a noite não doesse tanto. O que resta em ti desses corpos? Dessas noites? Só as palavras, o vulto dos corpos, uma ou outra música que ainda ecoa na ponta dos dedos. E o resto? O resto são imagens incompletas de luz.


Em repeat



Discos Pedidos #6


Formados em 1984, os Fields of the Nephilim foram buscar o seu nome a essas figuras míticas, os Nephilim (ou anjos caídos). As suas letras estão repletas de referências a temas relacionados com mitologia sumeriana, bem como teorias desenvolvidas por Aleister Crowley, conhecido ocultista. The Nephilim foi o segundo álbum de originais da banda, e é por muitos considerado um marco no género musical designado por gótico. Editado em 1988, The Nephilim é composto por nove temas, todos eles de uma força extraordinária (devo confessar que este é um dos álbuns da minha vida), entremeados por banda sonora retirada do filme O Nome da Rosa. Desde a primeira faixa (Endemoniada) até à última (Last Exit For The Lost) somos envolvidos por um ambiente de mistério, onde a voz de Carl McCoy faz todo o trabalho, acompanhado do ritmo frenético da bateria e das guitarras e do baixo. Temas como Moonchild e Chord of Souls são bem representativos de toda a força que os Fields of the Nephilim depositam nas suas músicas. Contudo, é nas músicas mais longas, como por exemplo Love Under Will ou Last Exit For The Lost, que os Fields of the Nephilim se revelam como músicos capazes de criar grandes músicas, facto que seria comprovado naquele que será o seu álbum mais conseguido: Elizium. Mas é The Nephilim que permanece como um disco que sabe envelhecer. Já muitos o disseram. Eu volto a repetir


Quarto Escuro #3


Algumas mulheres habitam os teus textos. Foram mulheres que encontraste ao longo da vida. Mulheres que contigo se cruzaram num determinado espaço e tempo, que não é o espaço e tempo que depois escreves. Com algumas delas chegaste a dormir. Compartilhaste o calor do teu corpo, do corpo delas. Eram mulheres que como tu procuravam alguém com quem compartilhar a sombra, a solidão que povoava a pele. Mulheres que como tu procuravam o sentido das coisas, a verdade para lá de tudo isto. Mulheres de cabelos desgrenhados que desafiavam a noite. Mulheres que nunca mais viste, que ficaram para sempre. Ainda as celebras todos os dias ao acordares, como se permanecessem tuas amantes. Mesmo sem querer é isso que acontece: todo o amante permanece para toda a vida. Tens que aprender a conviveres com eles e com as palavras que foram ditas. Ainda hoje as trazes contigo e muitas vezes as escreves na tentativa de te libertares delas. Tarefa impossível. Nunca ninguém se libertou das palavras que disse ou ouviu. Elas permanecem para sempre, como sombras, sufocando-te. Se possível aprende a viver com elas. Só assim poderás continuar. De outra maneira elas irão consumir-te. Não lhes resistas. Deixa que elas continuem a habitar os teus textos, as tuas lembranças. Parte de ti é feito delas. São o ar que respiras, a respiração. Continua a escrevê-las, a dar-lhes vida, a senti-las como se fossem realmente tuas. Nunca o deixes de fazer. Só assim conseguirás viver em relativa paz.

Quarto Escuro #2

Os primeiros textos que escreveste eram plágios descarados de outros textos. Procuravas encontrar a tua voz neles, mas só encontravas a voz dos outros repetida até à exaustão. Ainda hoje não sabes se algum dia encontrarás a tua própria voz. Parece algo de irrealizável, sem qualquer hipótese de sucesso. A tua voz estará sempre misturada com a voz dos outros que te antecederam. Cedo ficaste a saber que era assim, que ninguém é verdadeiramente original, que tudo é uma repetição de tudo, uma repetição de nada. E quando escreves recordas sempre isso. Nessas alturas apetece-te desistir. No entanto, sabes que não serias capaz de o fazer. É-te impossível deixar para trás tudo isto, apesar da dor ser intensa. Sim. Escrever é doloroso, mas necessário. Todos os dias escreves. Todos os dias a dor é intensa. Não há nada que possas fazer para a diminuir. Experimentaste tudo. Nada funcionou. O único remédio é continuar a escrever, aguentar a dor. Mesmo sabendo que tal nunca vai acontecer. Então para que insistir? Para que continuar? Por muito que penses não consegues explicar a razão. Só sabes que a necessidade de escrever supera a vontade de parar. Só sabes que sem escrever, sem dor, não és tu. Tu: que nunca foste mais que um conjunto de ideias, frases, emoções roubadas. Quantas vezes para falar do amor e da morte, falaste do amor e da morte dos outros?


Quarto Escuro #1



Até que um dia alguém desiste
do jogo e acende a luz.
Alguém decide que é melhor escrever.


José Ricardo Nunes


Passas a vida inteira a ler os outros. Tentas decifrar tudo isto. Nada dizem. Apenas prolongam as sombras, as dúvidas, pois nenhuma questão obteve alguma vez resposta. Começas a escrever. Procuras nas palavras alguma pista, algo que te indique o caminho. Também elas te deixam. É então que percebes que de pouco ou nada serve continuar. Mas não consegues parar. É impossível parar. Não há nada a fazer. Iniciaste um movimento que será perpétuo, que para sempre te acompanhará. Quer tu queiras ou não. Há dias em que as palavras surgem do nada, apanhando-te de surpresa. Tu escreves freneticamente. Os teus dedos percorrem o teclado com vontade própria, como se toda a vida não tivessem feito mais nada. No final estás exausto. Dói-te a cabeça, tens os olhos raiados de sangue. Levantas-te e vais até à casa-de-banho. No espelho há uma imagem reflectida que não reconheces. Talvez um pouco de água na cara ajude. Durante uns segundos sentes a sua frescura. Voltas a ser tu. Parece que tudo passou.

Dias assim

Há dias em que não consigo escrever uma única linha. Hoje é um desses dias. Sento-me frente ao ecrã do computador e não sai nada de nada. Procuro aqui e ali uma ideia para qualquer coisa: nada. Como está difícil, opto por sair e vou até ao café. A esplanada está vazia, mas há movimento no interior. Dizem-me que vamos até à piscina ver as gajas. Aceito a proposta, pois gosto de ver gajas. Talvez me inspirem um poema ou outra coisa qualquer. Mas não. A qualidade é muito fraca. Uma ou outra escaparia numa noite mais desesperante, e mesmo assim teria que ser com uma boa quantidade de cerveja a circular pelas veias. Nada. Limito-me a ver os meus amigos jogar às cartas, enquanto dizemos piadas machistas, asneiras atrás de asneira, que deixam as poucas gajas que há ofendidas. Só nos falta cuspir para o chão. Ou arrotar. Ou coçar os tomates. Há dias assim. O curioso é que gosto dos dias assim, quando homens podem dizer piadas de homens e rirem-se com isso, cagando para aquilo que as gajas pensam. São dias assim que me fazem sentir bem. Que me fazem sentir vivo. E feliz por isso.

Que fiz eu para merecer isto!

Uma gripe nunca é agradável. Uma gripe no verão é muito mau. Mas o pior são as pessoas olharem para nós. Tipo: só mesmo tu para apanhares gripe no verão. Ou: lá vens tu com a mania de seres diferente.

Da paixão

Não me é fácil falar sobre a paixão. Sempre que quero falar engasgo-me. Talvez a paixão seja isso mesmo: um engasganço.

Cortesia

O que eu mais gosto neste mundo dos blogs é daqueles blogs que nos linkam por cortesia e nos visitam por cortesia, mas que nunca nos chegam a ler. Nem por cortesia.


Ementa do dia


Entradas:
Paracetamol, 1 gr
Alfa-Amilase, 3000 U CEIP

Prato Principal:
Cefalosporina, 500 mg

Sobremesa:
Saccharomyces boulardii, 250 mg

Bebidas:
Água e Chá com Mel


Micro #37


Cansado de escrever para a gaveta, o escritor começou a escrever para o disco rígido.


Discos Pedidos #5

Editado em 1987, Secrets of the Beehive é o terceiro álbum a solo de David Sylvian, depois de ter deixado os Japan. David Sylvian é um compositor nato de melodias e sons envolventes, e as suas letras estão sempre envoltas num halo de mistério. Secrets of the Beehive, apesar de uma das canções ter o título de Let the Happiness In, é um disco escuro, sombrio, onde os sintetizadores nos transportam para um lugar onde o sonho predomina. Mas é, principalmente, um álbum intimista (o próprio nome é disso revelador), onde músicas como The Boy with the Gun e Orpheus fazem as delícias dos melómanos mais exigentes. No entanto, são músicas como Waterfront e When Poets Dreamed of Angels, que demonstram a capacidade de David Sylvian para criar ambientes e músicas que ficam para contar a história da própria Música. Não nos podemos esquecer que David Sylvian, apesar do seu inegável virtuosismo, rodeia-se sempre dos melhores músicos (Robert Fripp, Steve Jansen, Ryuichi Sakamoto, Bill Frisell) para a gravação dos seus álbuns. No caso de Secrets of the Beehive é a presença de Ryuichi Sakamoto que mais se faz notar, principalmente nos arranjos de cordas e orquestrações. Apesar de não ter sido o álbum que mais vendeu na carreira de David Sylvian, é, sem dúvida, uma obra-prima, por muitos considerado um disco perfeito. E não estão muito longe da verdade.



A partir de hoje faço minhas estas palavras



«A minha casa dos 30 é uma casa de assumidos arrependimentos, é uma casa sem lugar para confissões à procura de perdão. (…) Nesta casa dos 30 não há fé; logo, não pode haver perdão. (…) Esta casa é uma casa de bebedeiras azuis, com pouco mais do que a certeza de respirar. Objectivo: persistir. (…) Entremos nesta casa dos 30 como quem aprende a respirar, como quem tem a tara dos esboços, das obras inacabadas, perfeitas na sua imperfeição.»



Henrique Manuel Bento Fialho, Estórias Domésticas, Entrocamento: OVNI, 2006, pp. 13-14.

Ó da Guarda!

Mão Aberta

A imolar perguntas, degolar respostas
que a razão venera num altar de aborto,
sepultei nas vagas, despenhando encostas,
a torre nirvana, com o ídolo morto

como quem naufraga sobre as próprias costas
e o corpo cavalga contra o rumo torto,
hasteei nas trevas, já não de mãos postas,
o punho, em archote e a prumo, no porto

a escavar na terra os poros do povo
de onde irrompem chamas delirantes de água,
mato a velha sede renasço-a de novo:

lavado em suores da mais negra mágoa,
a pulso me arvoro – e esta mão que movo
reabro à semente noutras mãos afago-a

Fernando Pinto Ribeiro (1928): nasceu na Guarda. Em Lisboa frequentou a Faculdade de Direito e estabeleceu residência. Participou em colectâneas temáticas de poesia.

Confissões de um leitor

Devo confessar que sou um leitor muito lento. Demoro em média 15 dias a ler um livro, seja ele pequeno ou grande. Depois, tenho outro problema: quando estou a ler um livro muitas vezes interrompo-o para começar a ler outro. Ora isto não dá muito jeito, pois muitas vezes perco-me nas leituras e desmoralizo. E ainda há aqueles cavalos de batalha: os livros que há muito ando para ler mas que não consigo. Um exemplo: Ulisses, de James Joyce. Já são duas as tentativas. Não consigo. Chego mais ou menos a meio e desisto. Aquilo é demasiada areia para a minha camioneta. Mas este verão vou novamente tentar. A ver se é desta.


o amor é um cão do inferno


De volta


Tinha voltado à terra. A terra que o tinha visto nascer. Crescer. Depois partir. Não era o único que tinha partido. Era dos poucos que tinha voltado. Tinha que voltar. Cinquenta anos numa cidade tinham tornado o seu corpo velho e pesado. Mas: não era essa a única razão. Também tinha necessidade de sentir novamente o aroma da terra. O fumo das chaminés. O canto dos pássaros. O murmúrio da serra. Tinha que sentir tudo isso outra vez. Aprender tudo isso. Outra vez. Esperava reencontrar rostos conhecidos. E reencontrou-os. Velhos. Cansados como ele. A juventude era uma coisa do passado. De um tempo distante. E a aldeia: continuava a mesma. O forno cozia o pão (aquele que ele comia quente nas manhãs frias de inverno com o café preto que a mãe lhe fazia). O lagar fazia o generoso azeite (e viu-se de novo a molhar o pão no azeite). O alambique produzia a aguardente (e quantas vezes ele entrou pela calada da noite mais o António para beberem uma pinga e depois fugiam para detrás do moinho onde se riam sozinhos). O moinho transformava o grão de trigo em farinha (o Ti João é que há muito tinha deixado este mundo). O largo da igreja continuava como antigamente. O velho coreto permanecia ao centro (a banda tocava e ele dançava e foi num baile que conheceu a Isabel e com ela casou e com ela partiu para a cidade que depois a matou). E deu consigo a chorar. Chorava pelo tempo perdido e agora reencontrado. Caminhou de encontro ao ribeiro (aquele onde tinha brincado tantas vezes com os seus amigos de infância). A velha cerejeira ainda lá se encontrava. Só que agora já não tinha a força para trepar pelos seus ramos e colher uma daquelas negras cerejas e saboreá-la como antes o fazia. Deitou-se à sua sombra. Viu como o sol era filtrado pelos seus ramos. Pelas verdes folhas. Contemplou mais uma vez o silêncio que era estar ali deitado. Inspirou mais uma vez aquele ar tão puro. Tão jovem. Expirou. Sentiu-se criança novamente. Com aquela força que só elas têm. Com aquela liberdade que só elas possuem. Fechou os olhos. E adormeceu num sono profundo. De criança.


2002

Micro #36

Achou estranho o estado do trânsito. Não era costume estar tão lento àquela hora do dia. Buzinou três vezes e não obteve resposta. Afinal não era um engarrafamento. Era um funeral.

Poesia Pura

«oh i will be your accident
if you will be my ambulance»

TV on the Radio, «Ambulance», Desperate Youth, Blood Thirsty Babes, 4AD, 2004.


6ª feira 13


Mas onde é que coloquei o trevo de quatro folhas?


Decisão


Hoje não me apetece escrever aqui.


Já que ninguém pergunta, digo eu


Últimos cinco livros:

Esta Ditosa Pátria - Vasco Pulido Valente
Casa do Fim - José Riço Direitinho
Budapeste - Chico Buarque
Cartas de Aniversário - Ted Hughes
Morte a Crédito - Céline

Cinco Livros para as férias:

Criadores - Paul Johnson
O Corpo - Hanif Kureishi
Sonho Americano - Norman Mailer
Até ao Fim - Vergílio Ferreira
Labirinto da Saudade - Eduardo Lourenço



Pois

«Todos os indivíduos criativos se valem do trabalho dos seus predecessores. Ninguém cria no vácuo.»

Paul Johnson, Criadores, Lisboa: Aletheia Editores, 1ª edição, 2007, p. 9.

Ó da Guarda!

Deixa-me ser assim

Deixa-me ser assim, assim humanamente,
que faça dos meus versos montanhas de promessas
com ondas de esperança, algumas já dispersas
no rio que me envolve na força da torrente.

Nasci para sofrer, e vivo a reflectir
orgulhos, preconceitos... e tudo que seduz,
mão sou senão a sombra em busca duma luz
no mundo que se esvai de mim sempre a fugir.

Sofri desilusões, agruras e torpezas;
nasci para ser pobre e quero ser assim,
o meu orgulho é este: ser só senhor de mim,
alheio a preconceitos, desprezando riquezas.

Deixai que a morte seja torre de marfim
e leve no seu manto meus sonhos de tristeza,
ficando só no tempo um facho de beleza
dos versos magoados, sentidos só por mim.

António Baptista (1921-2004): nasceu em Pinhel (distrito da Guarda). Residiu em Barcelos desde os 20 anos, onde foi bibliotecário da Biblioteca Municipal de Barcelos entre 1958-1965. Posteriormente foi convidado por Branquinho da Fonseca a dirigir a Biblioteca Itinerante nº12 da Fundação Calouste Gulbenkian. Faleceu em Barcelos em 19 de Abril de 2004.


Da poesia


A poesia é o completo falhanço do diálogo.

A impossibilidade de uma reflexão

Hoje às 11 horas estavam 29ºc à sombra. Qualquer reflexão sobre a imortalidade da alma é impossível.


Lí por aí


«a poesia é como uma sexta-feira, nas ruas onde os miúdos
[passavam
a caminho da escola. uma sexta-feira de verão, onde todos foram
[de férias.»



Luís Filipe Cristovão, em mil nove sete nove

Ciclovias

Caro Lourenço:

As ciclovias não resultam em Portugal pela simples razão de serem mais as pessoas a andarem nelas a pé que de bicicleta.

Nota: post escrito a pensar na tentativa que ontem fiz na ciclovia da Figueira da Foz.

A censura está de volta

Durante estes dias de defeso blogueiro, fiquei a saber que nos espaços públicos com acesso à internet geridos pela Câmara Municipal da Guarda, foi barrado o acesso ao blogger. Quem quiser abrir um endereço alojado naquele servidor, que contem necessariamente os sufixos blogspot.com, verá aparecer uma mensagem assinalando a restrição, subscrita pelo administrador da rede. Vamos por partes: concordo que se vedem conteúdos pornográficos ou violentos nestes locais públicos, pensando nas crianças e adolescentes. Todavia, é inaceitável que se bloqueie o acesso ao maior servidor mundial de blogues num espaço desse tipo. Este procedimento tem um nome: CENSURA. Que não aparece sob a forma regimental do agente policial de olhar atento e indicador em riste, como na China, mas como um insípido e antipático anúncio. Que de resto se encaixa perfeitamente noutros sinais preocupantes de prepotência e atropelo das liberdades fundamentais coloridos de rosa. Neste caso, cabe perguntar: de que têm medo? Segundo parece, a insólita restrição é da lavra de um sociólogo ao serviço da Câmara. Desconhece-se a escola do pensamento perfilhada por esta sumidade, mas suspeito que será a escola de... Pequim.

Nota: sublinhados da minha responsabilidade


A poesia é uma ditadora


«Foi uma visita da deusa, a beleza
irmã da poesia - que veio
dizer que a poesia nos andava a estragar.
A poesia escutou-a, talvez, mas nós nada ouvímos
e a poesia nada nos disse. E nós
só fizemos o que a poesia nos disse para fazer.»


Ted Hughes, Cartas de Aniversário, Lisboa: Relógio d'Água, 1ª edição, 2000, pp. 142-143.


Sempre em Pé


Tenho dificuldade em dormir. O Sempre em Pé ajudava. Acabou ontem. E agora?


Da difícil Arte de Pedalar


Enquanto passam mulheres e mulheres de ombros bronzeados e calças justas.

Pequenos Prazeres

Andar a pedalar 45 minutos na marginal e depois comer um churro recheado com chocolate e arrotar de satisfação.


BIG ODE

Lançamento do #2 da Revista Big Ode

Número especial com edições de autor (100 exemplares)
Dia 6 de Julho (6ª feira), a partir das 20.00, na Fábrica de Braço de Prata (Ler Devagar + Eterno Retorno): Localização
aqui.

Sala Visconti:
22.00H - Performance dos Ventilan (poesia e música) Projecção de vídeos
Cd dos Ventilan incluído na revista!


Simone


A Simone um dia desenhou-me. Paguei-lhe um café. Eu e a Simone falávamos muito e quase nunca estávamos de acordo. A Simone casou-se e tem uma filha de quatro meses. A Simone é uma amiga que encontrei de novo aqui.


Só para quem acreditar


Nos últimos dias tenho escrito.


Ó da Guarda!


do fogo


________ um fogo mais puro com menos fumo
e mais chama quero uma lama purificada pelo
sumo do sangue dum rogo sagrado; atende-me,
espírito, com mãos para cima voltadas: que uma
lima torne sãos os vícios que de perfeccionados
se desfaçam em limalha de virtude. eu sou teu, tu
és meu, nós por vós estamos; e se damos após a
mercê o fruto da noz com um quê de pensamento
é porque deflagrou um surto de peste onde fizeste
o repouso de teus amores com que nos melavas as
línguas e os olhos languidamente –que esse fruto
seja não roubado, que fique guardado entre os dentes
que o mastigaram sem o conseguirem por completo
deglutir


________ queima a grelha antes de grelhar,
queima a criação antes de criar o que pretendes
com a arte do espírito porque o ferro quente
a tornará melhor. e as brasas espalhando a
carne espelhou o aspecto da fome por saciar;
e as brasas espalhando a obra espelhou o
aspecto da vontade por expressar. queima a
grelha com a criação antes de pores a mão ao
trabalho que quanto mais quente ela ficar mais
ardente o apetite permanece depois de se saciar


________ estas são as brasas da minha arte,
estas maneiras de escrever registando a passagem
do vento espiritual; estes são os meus parágrafos
em que colocando o corpo grelho a carne com o
sangue da alma. e pedaços grandes ficam mal
passados para quem gostar da ternura sem grande
cozinhado; e pedaços pequenos ficam tostados
para quem aprecia algo de carvão nas pinturas da
mão com o incêndio natural. estas são as brasas
de minha lírica para queimar, feixes ardidos que
dão lugar a um mar avermelhado; e se o pé se
pousar sem atenção queimado ficando não voltará
a percorrer nem este nem qualquer outro horizonte



________ quando o pau se apaga troca-o
de posição; quando a pila se acaba muda-a
de erecção: o lume em que se não mexe arde
bem ao início sem dar a perceber que fenece
aos poucos se não atiçado, o amor em que se
não mexe arde bem ao início sem dar a entender
que perece aos poucos se não empinado. a alegria
do rosto da criança ao ver de novo a chama nos
alegra e garante ter alguma verdade o bem-estar
das coisas funcionando bem; o seu semblante
triste e murcho que pensámos provir da falta de
água nos obrigou a mexer no pau e na pila que
assim excitados de novo floresceram como a
segunda geração de uvas e a terceira de figos
e a quarta de rosas


Galo Porno: pseudónimo de Rodrigo dos Santos, natural da cidade da Guarda. Pode ser encontrado aqui.