Discos Pedidos #6
Formados em 1984, os Fields of the Nephilim foram buscar o seu nome a essas figuras míticas, os Nephilim (ou anjos caídos). As suas letras estão repletas de referências a temas relacionados com mitologia sumeriana, bem como teorias desenvolvidas por Aleister Crowley, conhecido ocultista. The Nephilim foi o segundo álbum de originais da banda, e é por muitos considerado um marco no género musical designado por gótico. Editado em 1988, The Nephilim é composto por nove temas, todos eles de uma força extraordinária (devo confessar que este é um dos álbuns da minha vida), entremeados por banda sonora retirada do filme O Nome da Rosa. Desde a primeira faixa (Endemoniada) até à última (Last Exit For The Lost) somos envolvidos por um ambiente de mistério, onde a voz de Carl McCoy faz todo o trabalho, acompanhado do ritmo frenético da bateria e das guitarras e do baixo. Temas como Moonchild e Chord of Souls são bem representativos de toda a força que os Fields of the Nephilim depositam nas suas músicas. Contudo, é nas músicas mais longas, como por exemplo Love Under Will ou Last Exit For The Lost, que os Fields of the Nephilim se revelam como músicos capazes de criar grandes músicas, facto que seria comprovado naquele que será o seu álbum mais conseguido: Elizium. Mas é The Nephilim que permanece como um disco que sabe envelhecer. Já muitos o disseram. Eu volto a repetirQuarto Escuro #3
Quarto Escuro #1
Até que um dia alguém desiste
do jogo e acende a luz.
Alguém decide que é melhor escrever.
José Ricardo Nunes
Passas a vida inteira a ler os outros. Tentas decifrar tudo isto. Nada dizem. Apenas prolongam as sombras, as dúvidas, pois nenhuma questão obteve alguma vez resposta. Começas a escrever. Procuras nas palavras alguma pista, algo que te indique o caminho. Também elas te deixam. É então que percebes que de pouco ou nada serve continuar. Mas não consegues parar. É impossível parar. Não há nada a fazer. Iniciaste um movimento que será perpétuo, que para sempre te acompanhará. Quer tu queiras ou não. Há dias em que as palavras surgem do nada, apanhando-te de surpresa. Tu escreves freneticamente. Os teus dedos percorrem o teclado com vontade própria, como se toda a vida não tivessem feito mais nada. No final estás exausto. Dói-te a cabeça, tens os olhos raiados de sangue. Levantas-te e vais até à casa-de-banho. No espelho há uma imagem reflectida que não reconheces. Talvez um pouco de água na cara ajude. Durante uns segundos sentes a sua frescura. Voltas a ser tu. Parece que tudo passou.
Há dias em que não consigo escrever uma única linha. Hoje é um desses dias. Sento-me frente ao ecrã do computador e não sai nada de nada. Procuro aqui e ali uma ideia para qualquer coisa: nada. Como está difícil, opto por sair e vou até ao café. A esplanada está vazia, mas há movimento no interior. Dizem-me que vamos até à piscina ver as gajas. Aceito a proposta, pois gosto de ver gajas. Talvez me inspirem um poema ou outra coisa qualquer. Mas não. A qualidade é muito fraca. Uma ou outra escaparia numa noite mais desesperante, e mesmo assim teria que ser com uma boa quantidade de cerveja a circular pelas veias. Nada. Limito-me a ver os meus amigos jogar às cartas, enquanto dizemos piadas machistas, asneiras atrás de asneira, que deixam as poucas gajas que há ofendidas. Só nos falta cuspir para o chão. Ou arrotar. Ou coçar os tomates. Há dias assim. O curioso é que gosto dos dias assim, quando homens podem dizer piadas de homens e rirem-se com isso, cagando para aquilo que as gajas pensam. São dias assim que me fazem sentir bem. Que me fazem sentir vivo. E feliz por isso.
Ementa do dia
Entradas:
Paracetamol, 1 gr
Alfa-Amilase, 3000 U CEIP
Prato Principal:
Cefalosporina, 500 mg
Sobremesa:
Saccharomyces boulardii, 250 mg
Bebidas:
Água e Chá com Mel
Micro #37
Cansado de escrever para a gaveta, o escritor começou a escrever para o disco rígido.
Discos Pedidos #5
Editado em 1987, Secrets of the Beehive é o terceiro álbum a solo de David Sylvian, depois de ter deixado os Japan. David Sylvian é um compositor nato de melodias e sons envolventes, e as suas letras estão sempre envoltas num halo de mistério. Secrets of the Beehive, apesar de uma das canções ter o título de Let the Happiness In, é um disco escuro, sombrio, onde os sintetizadores nos transportam para um lugar onde o sonho predomina. Mas é, principalmente, um álbum intimista (o próprio nome é disso revelador), onde músicas como The Boy with the Gun e Orpheus fazem as delícias dos melómanos mais exigentes. No entanto, são músicas como Waterfront e When Poets Dreamed of Angels, que demonstram a capacidade de David Sylvian para criar ambientes e músicas que ficam para contar a história da própria Música. Não nos podemos esquecer que David Sylvian, apesar do seu inegável virtuosismo, rodeia-se sempre dos melhores músicos (Robert Fripp, Steve Jansen, Ryuichi Sakamoto, Bill Frisell) para a gravação dos seus álbuns. No caso de Secrets of the Beehive é a presença de Ryuichi Sakamoto que mais se faz notar, principalmente nos arranjos de cordas e orquestrações. Apesar de não ter sido o álbum que mais vendeu na carreira de David Sylvian, é, sem dúvida, uma obra-prima, por muitos considerado um disco perfeito. E não estão muito longe da verdade.A partir de hoje faço minhas estas palavras
Henrique Manuel Bento Fialho, Estórias Domésticas, Entrocamento: OVNI, 2006, pp. 13-14.
A imolar perguntas, degolar respostas
que a razão venera num altar de aborto,
sepultei nas vagas, despenhando encostas,
a torre nirvana, com o ídolo morto
como quem naufraga sobre as próprias costas
e o corpo cavalga contra o rumo torto,
hasteei nas trevas, já não de mãos postas,
o punho, em archote e a prumo, no porto
a escavar na terra os poros do povo
de onde irrompem chamas delirantes de água,
mato a velha sede renasço-a de novo:
lavado em suores da mais negra mágoa,
a pulso me arvoro – e esta mão que movo
reabro à semente noutras mãos afago-a
Fernando Pinto Ribeiro (1928): nasceu na Guarda. Em Lisboa frequentou a Faculdade de Direito e estabeleceu residência. Participou em colectâneas temáticas de poesia.
Devo confessar que sou um leitor muito lento. Demoro em média 15 dias a ler um livro, seja ele pequeno ou grande. Depois, tenho outro problema: quando estou a ler um livro muitas vezes interrompo-o para começar a ler outro. Ora isto não dá muito jeito, pois muitas vezes perco-me nas leituras e desmoralizo. E ainda há aqueles cavalos de batalha: os livros que há muito ando para ler mas que não consigo. Um exemplo: Ulisses, de James Joyce. Já são duas as tentativas. Não consigo. Chego mais ou menos a meio e desisto. Aquilo é demasiada areia para a minha camioneta. Mas este verão vou novamente tentar. A ver se é desta.
Tinha voltado à terra. A terra que o tinha visto nascer. Crescer. Depois partir. Não era o único que tinha partido. Era dos poucos que tinha voltado. Tinha que voltar. Cinquenta anos numa cidade tinham tornado o seu corpo velho e pesado. Mas: não era essa a única razão. Também tinha necessidade de sentir novamente o aroma da terra. O fumo das chaminés. O canto dos pássaros. O murmúrio da serra. Tinha que sentir tudo isso outra vez. Aprender tudo isso. Outra vez. Esperava reencontrar rostos conhecidos. E reencontrou-os. Velhos. Cansados como ele. A juventude era uma coisa do passado. De um tempo distante. E a aldeia: continuava a mesma. O forno cozia o pão (aquele que ele comia quente nas manhãs frias de inverno com o café preto que a mãe lhe fazia). O lagar fazia o generoso azeite (e viu-se de novo a molhar o pão no azeite). O alambique produzia a aguardente (e quantas vezes ele entrou pela calada da noite mais o António para beberem uma pinga e depois fugiam para detrás do moinho onde se riam sozinhos). O moinho transformava o grão de trigo em farinha (o Ti João é que há muito tinha deixado este mundo). O largo da igreja continuava como antigamente. O velho coreto permanecia ao centro (a banda tocava e ele dançava e foi num baile que conheceu a Isabel e com ela casou e com ela partiu para a cidade que depois a matou). E deu consigo a chorar. Chorava pelo tempo perdido e agora reencontrado. Caminhou de encontro ao ribeiro (aquele onde tinha brincado tantas vezes com os seus amigos de infância). A velha cerejeira ainda lá se encontrava. Só que agora já não tinha a força para trepar pelos seus ramos e colher uma daquelas negras cerejas e saboreá-la como antes o fazia. Deitou-se à sua sombra. Viu como o sol era filtrado pelos seus ramos. Pelas verdes folhas. Contemplou mais uma vez o silêncio que era estar ali deitado. Inspirou mais uma vez aquele ar tão puro. Tão jovem. Expirou. Sentiu-se criança novamente. Com aquela força que só elas têm. Com aquela liberdade que só elas possuem. Fechou os olhos. E adormeceu num sono profundo. De criança.
2002
Poesia Pura
«oh i will be your accident
if you will be my ambulance»
TV on the Radio, «Ambulance», Desperate Youth, Blood Thirsty Babes, 4AD, 2004.
6ª feira 13
Mas onde é que coloquei o trevo de quatro folhas?
Decisão
Hoje não me apetece escrever aqui.
Já que ninguém pergunta, digo eu
Últimos cinco livros:
Esta Ditosa Pátria - Vasco Pulido Valente
Casa do Fim - José Riço Direitinho
Budapeste - Chico Buarque
Cartas de Aniversário - Ted Hughes
Morte a Crédito - Céline
Cinco Livros para as férias:
Criadores - Paul Johnson
O Corpo - Hanif Kureishi
Sonho Americano - Norman Mailer
Até ao Fim - Vergílio Ferreira
Labirinto da Saudade - Eduardo Lourenço
Deixa-me ser assim, assim humanamente,
que faça dos meus versos montanhas de promessas
com ondas de esperança, algumas já dispersas
no rio que me envolve na força da torrente.
Nasci para sofrer, e vivo a reflectir
orgulhos, preconceitos... e tudo que seduz,
mão sou senão a sombra em busca duma luz
no mundo que se esvai de mim sempre a fugir.
Sofri desilusões, agruras e torpezas;
nasci para ser pobre e quero ser assim,
o meu orgulho é este: ser só senhor de mim,
alheio a preconceitos, desprezando riquezas.
Deixai que a morte seja torre de marfim
e leve no seu manto meus sonhos de tristeza,
ficando só no tempo um facho de beleza
dos versos magoados, sentidos só por mim.
António Baptista (1921-2004): nasceu em Pinhel (distrito da Guarda). Residiu em Barcelos desde os 20 anos, onde foi bibliotecário da Biblioteca Municipal de Barcelos entre 1958-1965. Posteriormente foi convidado por Branquinho da Fonseca a dirigir a Biblioteca Itinerante nº12 da Fundação Calouste Gulbenkian. Faleceu em Barcelos em 19 de Abril de 2004.
Da poesia
A poesia é o completo falhanço do diálogo.
Lí por aí
«a poesia é como uma sexta-feira, nas ruas onde os miúdos
[passavam
a caminho da escola. uma sexta-feira de verão, onde todos foram
[de férias.»
A poesia é uma ditadora
«Foi uma visita da deusa, a beleza
irmã da poesia - que veio
dizer que a poesia nos andava a estragar.
A poesia escutou-a, talvez, mas nós nada ouvímos
e a poesia nada nos disse. E nós
só fizemos o que a poesia nos disse para fazer.»
Sempre em Pé
Tenho dificuldade em dormir. O Sempre em Pé ajudava. Acabou ontem. E agora?
Da difícil Arte de Pedalar
Enquanto passam mulheres e mulheres de ombros bronzeados e calças justas.
Lançamento do #2 da Revista Big OdeDia 6 de Julho (6ª feira), a partir das 20.00, na Fábrica de Braço de Prata (Ler Devagar + Eterno Retorno): Localização aqui.
Sala Visconti:
Cd dos Ventilan incluído na revista!
Simone
Só para quem acreditar
Nos últimos dias tenho escrito.
Ó da Guarda!
do fogo
________ um fogo mais puro com menos fumo
e mais chama quero uma lama purificada pelo
sumo do sangue dum rogo sagrado; atende-me,
espírito, com mãos para cima voltadas: que uma
lima torne sãos os vícios que de perfeccionados
se desfaçam em limalha de virtude. eu sou teu, tu
és meu, nós por vós estamos; e se damos após a
mercê o fruto da noz com um quê de pensamento
é porque deflagrou um surto de peste onde fizeste
o repouso de teus amores com que nos melavas as
línguas e os olhos languidamente –que esse fruto
seja não roubado, que fique guardado entre os dentes
que o mastigaram sem o conseguirem por completo
deglutir
________ queima a grelha antes de grelhar,
queima a criação antes de criar o que pretendes
com a arte do espírito porque o ferro quente
a tornará melhor. e as brasas espalhando a
carne espelhou o aspecto da fome por saciar;
e as brasas espalhando a obra espelhou o
aspecto da vontade por expressar. queima a
grelha com a criação antes de pores a mão ao
trabalho que quanto mais quente ela ficar mais
ardente o apetite permanece depois de se saciar
________ estas são as brasas da minha arte,
estas maneiras de escrever registando a passagem
do vento espiritual; estes são os meus parágrafos
em que colocando o corpo grelho a carne com o
sangue da alma. e pedaços grandes ficam mal
passados para quem gostar da ternura sem grande
cozinhado; e pedaços pequenos ficam tostados
para quem aprecia algo de carvão nas pinturas da
mão com o incêndio natural. estas são as brasas
de minha lírica para queimar, feixes ardidos que
dão lugar a um mar avermelhado; e se o pé se
pousar sem atenção queimado ficando não voltará
a percorrer nem este nem qualquer outro horizonte
________ quando o pau se apaga troca-o
de posição; quando a pila se acaba muda-a
de erecção: o lume em que se não mexe arde
bem ao início sem dar a perceber que fenece
aos poucos se não atiçado, o amor em que se
não mexe arde bem ao início sem dar a entender
que perece aos poucos se não empinado. a alegria
do rosto da criança ao ver de novo a chama nos
alegra e garante ter alguma verdade o bem-estar
das coisas funcionando bem; o seu semblante
triste e murcho que pensámos provir da falta de
água nos obrigou a mexer no pau e na pila que
assim excitados de novo floresceram como a
segunda geração de uvas e a terceira de figos
e a quarta de rosas
Galo Porno: pseudónimo de Rodrigo dos Santos, natural da cidade da Guarda. Pode ser encontrado aqui.
