O novo livro da Colecção Autores Torreenses será lançado no próximo dia 7 de Julho. Nenhuma palavra nos Salva é uma recolha de poesia de Rute Mota. O livro será apresentado por Luís Filipe Cristóvão, havendo também lugar a uma sessão de leitura dos textos da autora. A sessão realiza-se na Livrododia- Centro Histórico, pelas 16 horas.

A diferença #2

Gosto de pares trágicos na literatura: Verlaine e Rimbaud foram os primeiros que descobri. Depois, Sylvia Plath e Ted Hughes. Deste último ando a ler agora Cartas de Aniversário. Atrevo-me a dizer que Ted Hughes é o melhor e o maior poeta que alguma vez li. Eu sei, talvez esteja a precipitar-me: mas neste momento, neste preciso momento em que escrevo este texto, Ted Hughes é o melhor e maior poeta que conheço. E isso faz toda a diferença.


A diferença


A diferença entre questionar e perguntar está no tom.


Definitivamente


A fotografia de alguns poetas não é necessária nos livros que escrevem.

Em educação sou cada vez mais de direita

Começam as Avaliações. As pressões, por parte de alguns Directores de Turma para se passarem os alunos que menos fizeram durante o ano lectivo, começam a sentir-se. Nisto da educação cada vez mais sou de direita. Cada vez mais dou razão a Maria Filomena Mónica e a Vasco Pulido Valente. Estamos a hipotecar o país. Nisso não tenho dúvida nenhuma.


Confissão


Também eu às vezes gostava de entrar em polémica com alguém. Gostava de dizer que essa pessoa está errada, que devia ler tudo aquilo que há para ler de um certo autor obscuro, que disse umas coisas muito acertadas no seu tempo. Gostava de fazer tudo isso. E insultá-la, pois não há nada melhor do que um bom insulto. Só há um problema: falta-me uma base filosófica e política sólida. E isso faz toda a diferença.


Lí por aí


«Por mais vitórias que possas ter, o teu pensamento só se fixa nas derrotas.»


Paulo Ferreira, em A Causa das Coisas

Cara quase nova

Há muito que andava para fazer algumas alterações aqui ao burgo. Não me andava a agradar, principalmente, a formatação dos textos, que complicava a sua leitura. Agora está tudo mais do meu agrado. Qualquer dica que possa melhorar o serviço é favor dizer.


Programa de Festas





o amor é um cão do inferno

Charles Bukowski tinha três autores que muito admirava: Céline, Hamsun e Dostoevsky. Todos não foram lá muito amados no tempo deles e não escreveram lá coisas muito abonatórias sobre os homens e a humanidade. Tal como Bukowski.


A importância das cuecas


Saí de casa aos quinze anos. Melhor: fui estudar para a Guarda aos quinze anos. Mas o que eu quero mesmo dizer é que a partir dos quinze anos passei a gerir uma semanada, que até esse momento não passava de uma ideia demasiado distante. A semanada que me foi outorgada (sempre desejei utilizar esta palavra num texto) era, em 1992, de 2.500$00. Esta quantia oferecia-me uma certa autonomia financeira, e digo certa pela simples razão de continuar a depender exclusivamente da CP (=Casa dos Pais). A semanada era atribuída consoante as necessidades: 1000$00 para dois bilhetes de autocarro, 1000$00 para uma emergência e 500$00 para um ou outro luxo. A alimentação estava incluída na mensalidade paga à residência de estudantes que frequentava. É claro que com o passar dos anos a semanada era actualizada, não de acordo com a inflação, mas sim com o sábio discernimento dos meus pais. Quando entrei para o Ensino Superior a semanada passou a ser de 5000$00 por semana, o que dava: 1000$00 para dois bilhetes de autocarro (tive sorte, o bilhete quase nunca aumentava), 2000$00 para uma emergência, e 2000$00 para luxos. Esta nova semanada dava-me uma cada vez mais independência financeira, embora sempre vinculada à CP (= Casa dos Pais), pois ainda dependia dela para comprar roupa, CDs, e comer. Só com os meus 23 anos é que recebi o meu primeiro salário digno desse nome, pois até então tinha recebido algum dinheiro em pequenos trabalhos de verão. A partir desse momento a minha independência e autonomia passaram a ser completas. Excepto numa coisa: cuecas. Com o salário que passei a auferir (outra palavra que sempre desejei utilizar num texto) passei a comprar roupa, CDs, comida. Mas nunca cuecas. Em sete anos de trabalho nunca comprei um par de cuecas. Isso ainda é da exclusiva e única responsabilidade da CP (=Casa dos Pais). Por mais que eu queira comprar um par de cuecas, não consigo. Quando chega a altura certa encontro sempre a gaveta lá de casa com cuecas novas. Sou independente em tudo, menos em relação às cuecas. Penso que não há nada mais humilhante do que uma pessoa despir-se em frente de uma mulher sabendo que as cuecas, que ela acaba de elogiar, foram compradas pela nossa mãe. É terrível! Eu nunca deveria ter adquirido a minha independência financeira sem antes ter adquirido a minha independência relativamente às cuecas. Devia ter sido a primeira coisa a fazer quando recebi o meu primeiro salário: comprar cuecas novas e demarcar logo a minha posição. Mas não! Decidi antes comprar um número considerável de livros e CDs! E agora, sempre que me dispo à frente de uma mulher, ela elogia cuecas escolhidas pela minha mãe. Quem tiver a ler este meu texto pense duas vezes antes de comprar um livro ou um CD. Não se esqueçam: a leitura e a música alargam os nossos horizontes, mas são as cuecas que nos dão a total e completa independência.


Afinal quem escreveu isto?

Há muito que se debate a questão do acordo ortográfico entre Portugal e o Brasil. Há muito que o Português que se fala/escreve em Portugal deixou de ser o mesmo que se fala/escreve no Brasil. O Português do Brasil é mais rico, desenvolto, livre: já não é Português, é Brasileiro. Prova disso é o último romance de Chico Buarque (1944). Quem lê Budapeste encontra, sem dúvida, uma outra maneira de escrever, dizer e sentir o Português. Encontra uma outra língua. Desde a estrutura sintáctica ao uso do vocabulário, tudo em Budapeste nos remete para uma outra entidade/identidade, que não é a nossa, mas sim a deles. O tema do romance não podia ser mais actual: a identidade e a propriedade intelectual. Num mundo cada vez mais globalizante e globalizado, a identidade de cada um é algo que começa a estar em risco. No dia-a-dia todos nós somos obrigados a interpretar vários papéis: somos pais carinhosos, trabalhadores submissos, patrão implacável, vizinho apático. No caso de Budapeste, o protagonista, José Costa, vive dividido entre duas mulheres, dois países (Brasil e Hungria) e duas línguas, desempenhando em cada situação um papel diferente, o que o leva a questionar a vida que realmente quer ter. A questão da propriedade intelectual surge no seguimento da profissão que José Costa desempenha: escritor anónimo, isto é, escreve livros em nome de outras pessoas (algo que não é estranho aos leitores portugueses): autobiografias, romances, poesia. Depois de concluídos, os livros que “não escreveu” têm um enorme sucesso comercial, e ele, mais uma vez, questiona-se. Esta situação é, sem dúvida, perversa, e quem escreve em blogs muitas vezes é confrontado com textos seus assinados por outras pessoas. O plágio começa a ser regra numa cultura cada vez mais “internetizada” e “internetizante”. Muitos levam à letra aquilo que Isidore Ducasse proclamou no século XIX (mas isso é outra história). Budapeste é um romance consciente do tempo em que foi escrito e do tempo em que é lido ou poderá ser lido. E, principalmente, é um romance que se lê como poesia: «Deitou-se de lado na cama e recostou a cabeça em meu ombro, ciente que, sem interromper a leitura, eu sentia um prazer em ver suas ancas realçadas sob a camisola. Então moveu de leve uma perna sobre a outra, deixando nítido o desenho de suas coxas debaixo da seda. E no instante seguinte se encabolou, porque eu lia o livro ao mesmo tempo que o livro acontecia.» (p. 135)


Chico Buarque, Budapeste, Lisboa: Dom Quixote, 8ª edição, 2006, 135 pp.



Micro # 35


- Devemos acabar com os sindicatos!
- Mas como?
- Juntando um grupo de pessoas.
- E depois?
- Organizá-las.
- Como?
- Sindicalizando-as!


Falta de sentido democrático?


«Em Setembro de 2006, a APM aceitou integrar a Comissão de Acompanhamento (CA) dos Planos da Matemática (ver página Representações - Plano da Matemática).

Em 11 de Maio de 2007, a CA reuniu com os professores acompanhantes numa escola de Lisboa. A Sr.ª Ministra da Educação esteve presente em parte da reunião, para a qual convidou a comunicação social, e onde fez várias declarações que foram publicadas no dia seguinte nos jornais.

No dia 15 a APM enviou para a comunicação social, e deu conhecimento à DGIDC e ao gabinete da Sr.ª Ministra, este comunicado em que discorda das afirmações proferidas no dia 11 pela Sr.ª Ministra.

Na sequência destes acontecimentos, o Director Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular, Dr. Luís Capucha, convidou a APM a sair da CA, alegando que a APM não podia criticar publicamente o programa do Ministério, uma vez que fazia parte dele.»
em APM (destacados da minha responsabilidade)


Minguante nº 6

Adelaide Amorim, Alexandra Rodrigues Malheiro, Ana Flores, Ana Mello, Ana Mendes, Ana Ramalhete, Angela Schnoor, Aurora Silva, Avery Veríssimo, Cristina Coroa, Darlan M Cunha, Diego Spagnuelo (texto e imagens), Edgar Borges, Eduardo Oliveira Freire, Fernando Gomes, Guilherme F., Henrique Manuel Bento Fialho, João Carlos Silva, João Ventura, José Eduardo Lopes, Luís N., Luís Serpa, manuel a. domingos, Marco Antônio de Araújo Bueno, Margarida Delgado (imagens), Maria João Fernandes, Mário Calado Pedro, Mario Meléndez, Marta Dutra, Miguel Fernandes Ceia, Nuno Moura, Paulo Kellerman, Paulo Rodrigues Ferreira, Pedro Chagas Freitas, Rui Almeida, Rui Silva Santos, Rute Mota (textos e imagens), Rynaldo Papoy, Sandra Guerreiro Dias, Sara Monteiro, Sílvia Alves, Silvia Chueire, Sónia Oliveira, Tiago Gama, Wilson Gorj.

Golpe de Génio

Entregar armas aos sunitas iraquianos mais moderados para combater a Al-Qaeda.


Ó da Guarda!


No tempo do colégio, dizíamos
com crueldade, das freiras,
que caminhavam aos pares,
cabisbaixas, cochichando
que um amante as abandonara, ou
um noivo da terra as deixara
prostradas frente ao altar.

A euforia da vida latejava-nos
nos pulsos. Entrelaçada nas mãos
estava a inocência. Ainda
não tínhamos a grande dor
das desilusões, que viriam depois,
nem sabíamos das contradições, da vida.

Mas isso era no tempo
em que a vida não tinha
obstáculos. Em que a existência
caminhava, inconsciente e livre.
No tempo em que teríamos
uma casa confortável
nos subúrbios, e viveríamos
felizes para sempre, como
nas histórias de encantar

Não tínhamos, ainda, gozado
as experiências, ingénuas, do sexo
nem suportado, o tédio
as noites pejadas de desejo

Tínhamos a paz, de quem se deitava
e calmamente, adormecia
para quem, entre o deitar e o erguer havia
apenas o sonho. Porém, a vida se interpôs

Não tínhamos, ainda, vivido
o primeiro amor, aquele que
ansiosamente esperámos. Aquele que
desperdiçámos. Aquele que
Para sempre, nos podia ter salvado.

André Benjamim (pseudónimo de Bruno Miguel Monteiro): nasceu em Sorval, Pinhel, Guarda. Publicou Os Cadernos Secretos de Sébastian, em Dezembro de 2006, pela Editorial 100 (www.editorial100.pt). É licenciado em Psicologia. Pode ser encontrado aqui.


Do Portugal profundo

José Riço Direitinho (1965) é um nome ainda pouco conhecido da nova literatura portuguesa, apesar da sua obra se encontrar traduzida na Alemanha, Holanda, Itália, Espanha, França, Inglaterra e Israel, e de o autor ter ganho o Prémio Ramón Gomez de la Serna, como o seu romance Breviário das Más Inclinações, que foi também finalista, em Portugal, do Grande Prémio de Romance e Novela da APE.

Uma das razões que podem explicar o desconhecimento deste autor por parte de um público mais vasto, será talvez o facto de o escritor escrever sobre um mundo que já poucos conhecem ou desejam conhecer: o mundo rural. No seu livro de estreia, A Casa do Fim (1992), podemos encontrar dez pequenos contos que falam disso mesmo: de um mundo rural por muitos desconhecido, onde as personagens têm nomes bíblicos (Eva, Tomé, Moisés, Abel, Caim, Tiago, João, Zebedeu, Ester, Marta), e onde a vida é comandada por mezinhas, maus-olhados, má-sina, amores infelizes. Outra característica é a presença constante da morte (o suicídio é recorrente), uma morte a que as personagens se entregam sem agravo, sabendo que faz parte do seu destino, destino que não se pode combater, pois só a elas pertence e nada há a fazer.

Alguns contos fazem lembrar aqueles presentes nos livros de Miguel Torga (Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha). No entanto, estão impregnados de um halo de mistério, de misticismo, colocando de lado algum propósito moralizante que podemos encontrar nos contos de Torga. Outra característica que os distingue é o facto de as personagens de José Riço Direitinho não procurarem alterar o destino que lhes está traçado, pois sabem que nada podem fazer contra ele, ao contrário das personagens de Torga, que procuram fugir às tramas que o destino teceu, revoltando-se. Um bom exemplo dessa entrega ao destino é o conto Auto do Medo, em que a personagem principal sabe que terá que se suicidar tal como o seu pai, pois é esse o seu destino: «Não podia fugir: o cheiro acre a azeite tulhado trazia-lhe sempre à memória o cadáver do pai coberto de escuro pelas asas dos morcegos e pelas moscas» (p. 61). José Riço Direitinho é sem dúvida um nome a reter, não só pela qualidade da sua escrita, mas também pela verdade que encerra: um país que aos poucos está a desaparecer.

José Riço Direitinho, A Casa do Fim, Porto: Asa, 3ª edição, 2007, 93 pp.

Ou comem todos...

«Se tenho licença posso acampar, se não tenho não posso!»: diz indignado um senhor apanhado a fazer campismo selvagem nas margens da Barragem do Alqueva. Não é justo, não senhor! Olha a porra, hã!! Dizerem que não posso acampar só pelo simples facto de não ter licença! Não há justiça! Vivemos num país da treta, é o que é!


Ó da Guarda!

*
o corpo parou no momento do desequilíbrio. perco-me na visão quebrada pelo sono. press the eject and give the tape: quero ouvir essa música outra vez.

*
perco. o evocar de rituais antigos. esgoto o vento que sinto na cara. sou criança perdida em seara que arde. procuro a fuga. solto um grito e sou novamente. abraço os cabelos. o perfume. o nome. nele permaneço adormecido. agora que sou partícula de sonho.

*
chamo a mim o sono das coisas. e no longo cabelo do fim da tarde respiro as criações. na luz que é miragem.

Pedro de Melo Fonseca: nasceu em Manteigas. Escreveu toda a sua obra entre os 18 e os 22 anos. Desiludido com a poesia, refugiou-se no vinho e no haxixe. O seu paradeiro é desconhecido.


Onde é que já ouvi isto?


«- Falas tu agora no mesmo teor, a respeito da vida e da morte. Não afirmas que estar morto é o contrário de viver?
- Afirmo.»


Platão, Fédon, Coimbra: Atlântida Editora, 5ª edição, 1975, p. 27

O outro lado da noite

Cesare Pavese há muito que é cá da casa. Devido a isso aqui estão dois poemas. Como não entendo muito bem o italiano, recorri a traduções espanholas. Espero que gostem.


Português Suave sem Filtro


Fumava sempre um cigarro antes de se atirar à água. Era uma espécie de ritual. Enquanto brincávamos na água, ele fumava cigarros com tiques de gente adulta. Cuspia os restos de tabaco que lhe ficavam na boca. Depois: mergulhava lá do alto ao som dos nossos «Aaaaaaaaah».



Ó da Guarda!



Pedro Figueiredo: nasceu a 22 de Outubro do ano de 1974, na cidade da Guarda. Concluiu o curso profissional de cerâmica na Escola Artística de Coimbra – ARCA – E.A.C. e, licenciatura em escultura na Escola Universitária de Coimbra – ARCA – E.U.A.C., onde frequenta o mestrado em Comunicação Estética. É docente na disciplina de desenho na ARCA – E.A.C. e assistente na disciplina de escultura na ARCA – E.U.A.C. Pode ser encontrado aqui.


Lembram-se ?


Lembro. Lembro-me da imagem de um homem frente a um tanque, não aquela que depois vi nas fotografias, mas a real, a que passou na televisão. Lembro-me da estátua da liberdade ser derrubada. Lembro-me de cabeças cheias de sangue, a gritarem. Lembro-me que naquele dia deitei fora uma estrela vermelha que tinha guardada.


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José Saramago - 1.340.000 entradas
António Lobo Antunes - 300.000 entradas
Agustina Bessa-Luís - 92.700 entradas
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Louvor a três blogs

Dizem que os blogs são isto e aquilo, que não prestam e que coisa e tal, que são conspirativos e de pouca qualidade e mais umas merdas. Se não fossem os blogs eu nunca teria a oportunidade de ler aquilo que ele, ele e ele escrevem. Posso dizer que são (para mim) referências neste mundo virtual. Gosto deles, porra! Gosto daquilo que escrevem e como escrevem! Ainda bem que existem blogs.

o amor é um cão do inferno

Nas últimas semanas não tenho tido muito tempo para me dedicar a Charles Bukowski. No entanto, informo que estão disponíveis mais dois poemas no blog aqui do lado: este e este. O segundo poema não foi um parto fácil, pois não consegui dar a sonoridade (rima) que tem quando lido em Inglês. Mesmo assim, decidi publicá-lo.

Beijinhos e abraços

eu


Micro #34


Disse o morto para o que tinha morrido:
- Então por cá?
- Que remédio!